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sábado, novembro 24, 2018

Sobre o que está a passar-se em Borba, naquela pedreira abandonada, naquele caldo de lama


Não gosto de falar de desgraças quando elas estão a decorrer, não gosto de dizer mal quando a situação ainda é nebulosa demais para se saber de quem se deve, justamente, dizer mal. Não gosto de falar de mortos, nunca. Muito menos quando ainda pode haver corpos por resgatar. E custa-me falar de corpos quando pouco tempo antes eram gente inteira e não apenas corpos...

Não gosto de apontar o dedo a uma causa específica quando, à vista desarmada, se vê que as causas do que aconteceu são mais muitas, os perigos previsíveis mais do que muitos, a cegueira que deixou que não se visse o que estava à vista difícil de explicar.

Ver o ar mortificado do Presidente da Câmara de Borba impressiona-me, dá-me muita pena e, garanto-vos, mesmo muita pena. Haja ou não responsabilidade da sua parte, é um triste peso que jamais deixará de carregar. Neste momento, de forma precipitada, concluir que houve pareceres não atendidos, descentralizações provavelmente mal assimiladas, querer buscar culpados -- isso a mim nada me diz. Nada aconteceu deliberadamente. E a pequena culpa de muitos cruza-se com mil circunstâncias e, na verdade, transforma-se numa culpa difusa, inútil.

As causas são forçosamente mais profundas. Se calhar é o sistema eleitoral que temos que apela à desresponsabilização, ou os mandatos demasiado curtos, nunca ninguém tem tempo para levar a cabo medidas estruturais. E este mal geral, comum a todos nós: nunca ninguém tem tempo para pensar a sério em assuntos de fundo.

Hoje gritamos porque uma estrada caíu num temível precipício, ontem porque as florestas pegaram fogo, antes porque uma ponte ruíu.

Grita-se muito, faz-se pouco. Quem mais barulho faz é quem menos se assume como responsável do que quer que seja. Provavelmente, desses que muito se indignam nas redes sociais, poucos são os que votam, e, se votarem, poucos votarão depois de bem reflectirem. Criam-se grupos de WhatsApp, criam-se ajuntamentos no Facebook. Mas informarem-se a sério, lerem, pensarem com a sua própria cabeça está quieto.

[ilustração de Elia Colombo]
Não serei melhor que ninguém mas a mim não me apanham a fazer coro com a carneirada. A cada desgraça que acontece não viro justiceira e não desato a encontrar culpas e culpados.

Pelo contrário. 

Este post hoje tem um único propósito: louvar, mas louvar de mãos postas, agradecida, os mergulhadores da pedreira abandonada de Borba. 

Esses bravos homens mergulham naquele poço profundo, barrento, totalmente opaco, esbarram, às cegas, contra vultos, volumes, coisas que não sabem se são bocados da estrada que lá se despenhou, se são pedras, se são carros, se são os corpos desaparecidos. Arriscando a sua própria vida, provavelmente vencendo o medo, ali andam, nadando, sabe-se lá como, naquele caldo de lama, tentando conseguir o que parece impossível.

Quem se lembra de dar a conhecer estes corajosos homens? Quem se lembra de lhes agradecer? 

Pois eu, aqui deste meu canto, agradeço-lhes e desejo que nada de mal lhes aconteça. E um dia que este pesadelo tenho passado e que voltem à sua vida normal, gostava que sentissem como todos nós os admiramos e como reconhecemos a sua valentia e abnegação. Seria bom que o Professor Marcelo os louvasse pois ainda bem que por cada rebanho de carneiros inúteis há uma ou duas bravas pessoas que se distinguem por fazerem qualquer coisa de útil.

O caminho do amor




Desde que ganhei consciência de mim que preciso de espaço. O espaço é-me vital.

Penso que já uma vez aqui o contei: numa formação daquelas comportamentais, fizemos uma experiência. Cada um de nós, à vez, vendado, no centro e, à volta, numa roda larga, as outras pessoas da turma. E as pessoas começavam a aproximar-se em silêncio. E nós deveríamos aguentar o mais que pudéssemos. Quando achássemos que os outros já estavam muito em cima de nós e já não conseguíssemos mais a pressão da sua presença, deveríamos dizer que parassem. Quase todos os meus colegas aguentaram até estarmos quase em cima deles. Eu, quando foi a minha vez, mandei-os parar quando ainda não estavam nem a um metro de mim.

Mal acabei de fazer dezassete anos, com o pretexto de não querer perder tempo em transportes, depois de muita persistência e guerra, saí de casa dos meus pais para viver perto da faculdade. Por muito bem que me desse com eles, já não queria estar sob seu controlo, nem dos vizinhos da rua, nem do bairro, nem de conhecidos, sequer de amigos. Quis libertar-me de tudo. Ia a casa ao fim de semana e adorava lá estar mas bo mesmo eram os dias de semana, à larga.

A sensação de liberdade é-me indispensável. Viver num meio pequeno e confinado não é para mim. Viver sob vigilância da família ou de vizinhos ser-me-ia insuportável. Se há coisa de que gosto é de me sentir turista, livre.

Imagino que em meios pequenos não seja fácil conhecer novas pessoas, conversar com elas, jogar os deliciosos jogos da sedução que levam um no sentido do outro, percorrer novos caminhos, ousar descobertas. Mesmo pessoas que vivam solitárias e gostassem de descobrir amores ou paixões terão mais dificuldade em fazer esse percurso de descoberta quando se sabem vigiados e, possivelmente, comentados ou criticados. Mas há que arriscar, soltar as amarras, não deixar a vida por viver.

Em contrapartida, quando uma pessoa tem a certeza de ter descoberto a 'outra' pessoa -- aquela por quem o seu coração bate de uma maneira especial, aquela por quem os seus olhos se enternecem, aquela que passa a habitar o seu pensamento -- a procura de outros deixa de ser tema. 

Mas, mesmo nesses casos, a história não acaba aí. Sabermos de quem gostamos não nos isenta de termos que procurar o ponto de convergência, de tentarmos alcançar o momento em que a fusão acontece, em que os dois corações se tocam. No labirinto que são os caminhos de cada um há aquele caminho, aquele único caminho que conflui no caminho, daquele também único caminho, do labirinto do outro, daquele que amamos. 

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O desenho, que me deu vontade de escrever o que acabaram de ler, é da autoria de Elia Colombo