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sábado, dezembro 13, 2025

Rosalia e as visões de Hildegard von Bingen

 

Ia ouvindo falar dela, mas o facto de meio mundo o fazer bem como o nome fizeram-me pressentir que fosse a Ágata lá do sítio, claro que versão 'antes' (porque Rosalía é uma flor a desabrochar, com metade da idade d'a gata madura). Afinal, convém não esquecer aquela coisa do What's in a name? Rosalía...? 

Mas um dia ouvi-a e deixei-me ficar a ouvir. Talvez houvesse ali uma qualquer coisa. 

Há pouco, o algoritmo, que antecipa os meus gostos e dúvidas, apareceu-me com ela e, ainda por cima, com o selo de qualidade do Bial. E, quando ela falou da freirinha da minha eleição, Hildegard von Bingen, pensei que talvez seja mesmo melhor pôr de lado os preconceitos e ouvi-la com alguma atenção.

Pedro Bial entrevista Rosalía | Conversa com Bial 04/12/2025

O clima da entrevista foi ao mesmo tempo intimista e universal — com toques de espiritualidade, reflexões artísticas e trocas sinceras sobre identidade musical, gênero, cultura e pertencimento. Para quem acompanha a carreira da cantora, o episódio representa uma poderosa declaração artística: Rosalía reafirma sua versatilidade e ambição, abraça referências ao redor do mundo e desafia o que se espera de uma popstar contemporânea.

Em síntese, a edição de 04/12/2025 do “Conversa com Bial” com Rosalía fez jus à sua reputação de programa de fôlego — uma conversa que mistura espetáculo, pensamento e emoção, e que entrega aos espectadores muito mais do que uma simples entrevista: um mergulho na alma de uma artista global em plena reinvenção.


Vou ouvi-la com outros olhos

ROSALÍA - Berghain (Official Video) feat. Björk & Yves Tumor


E votos de um bom fds

terça-feira, abril 02, 2024

Filigrana de pedra, o Spiritu Sancto, a suposta crise em Portugal, o IRS e etc.

 

Muito frio a partir do meio da tarde, em especial quando a aragem nos fustigou. Choveu mas muito menos do que se anunciava. À noite, frio mas, como não havia vento, talvez mais suportável.

Mas isso é pormenor. A cidade é o que se sabe: muito bonita. 

Quando lhe dá o sol mostra-se quase dourada. A pedra é macia e tem aquele tom suave do ocre tingido de patine.

O que agora me surpreende, e não tem nada a ver com as vezes anteriores em que aqui tínhamos estado, é a quantidade de portugueses. O hotel está cheio deles. Nas ruas, a todo a hora se ouve falar português. Onde anda a crise que a ex-oposição mais os seus arregimentados comentadores e jornalistas apregoavam?

Em Lisboa, quer ir-se a um restaurante, só reservando. Os concertos, esgotam quase instantaneamente. As agências de turismo dizem que nunca venderam tantas viagens como agora. Os hotéis estão cheios. E chego aqui e há portugueses por todo o lado.

Das duas uma: ou a malta que hoje é governo mais os que os apoiam ou fingem que apoiam está toda redondamente enganada, e isso é chato, ou são os números oficiais que mostram uma coisa e a realidade é outra, o que não é menos chato. Cá para mim é um misto pois não tenho dúvidas que a economia paralela faz parecer o que não é e só quem não pode fugir ao fisco é que não foge, fazendo girar muito dinheiro não declarado. 

Já agora, outra coisa. Não tem a ver com economia paralela mas com fisco. Tenho aqui defendido amplamente que o IRS deve baixar, mas isso ao mesmo tempo que deve haver uma verdadeira caça à economia paralela. Hoje muita gente não paga IRS pois recebe oficialmente pouco mas 'por fora' recebe, se calhar, outro tanto. E os que pagam, sobrecarregados e revoltados, fazem contas à vida antes de trabalharem mais. Já aqui falei de amigos médicos que dizem que continuar a trabalhar não lhes compensa. Muitos reformaram-se e, nos casos em que ainda trabalham, não fazem mais que 10 horas por semana senão ficam prejudicados. Com a falta de médicos que há... E é lógico que assim raciocinem. O que não é lógico é que os impostos para este tipo de rendimentos sejam o exagero que são. O Fisco trata a classe média como se fossem bandidos capitalistas que devem ser espoliados até ao tutano, e ala moço, vá de espetar com eles no escalão dos ultramilionários. Seria bom que este Governo agarrasse o assunto mas agarrasse a sério, sem demagogias, com cabeça.

Mas, pronto, hoje não me apetece falar mais em impostos.

Hoje apetece-me é partilhar imagens de filigrana em pedra. Tudo muito sereno e belo.








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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Boa disposição. Paz.

terça-feira, janeiro 09, 2024

A beleza de viver

 


Claro que o dia foi pessimamente escolhido. Chuva e um impossível frio antártico, dentro e fora de casa. 

Mas, nas actuais circunstâncias -- antes, antevendo o que estava por vir, depois, os exames e consultas, depois as idas aos hospital e, em cima disso, sempre temendo que alguma coisa aconteça --, já não íamos ao campo talvez há um mês. Tempo demais.

Como a minha mãe felizmente está francamente melhor e esta segunda-feira a minha filha lá ia, resolvemos tirar, nós os dois, o dia de folga e, depois da visita no domingo, seguimos para o campo.

Chegámos de noite. Não vos digo nem vos conto... Um gelo. Mal abrimos a porta sentimos logo: parecia que estávamos a entrar numa câmara frigorífica. A casa gelada, gelada, gelada. 

Ainda por cima, como há algum tempo, creio que no verão, estiveram a colocar tubagem nova na salamandra, agora, ao acendê-la, desatou a sair uma fumarada. Portanto, noite gelada, tivemos que abrir as portas para limpar o ar. Ou seja, mais frio entrou.

Afinal, hoje, de dia, o meu marido esteve a inspeccionar a situação, voltou a colocar lenha e a deitar-lhe fogo e percebeu o que se passava. Quem lá esteve, instalou um registo no tubo. Pelo menos foi o nome que ele deu a uma coisinha que roda que, se bem percebi, ou deixa ou não sair o fumo. Portanto, rodou aquilo e imediatamente o fumo deixou de sair e a sala ficou quentinha. 

Só que hoje, para além do gelo cá fora, choveu todo o dia. Portanto, não esteve agradável. Se fosse para estarmos mais dias, ao segundo ou terceiro dia já a casa se teria climatizado e já se estaria bem. Além disso parece que esta terça-feira já nem vai chover. Mas querendo vir esta segunda-feira, mal deu para usufruir. Chegámos no domingo à noite e saímos esta segunda, por volta das seis e meia. Não deu para nada. Ou melhor, para quase nada. Quase.

É que, seja como for, vá lá eu saber porquê, tal como sempre acontece quando lá estou, dormi que me fartei. E só isso já é bom. E dormi sem acordar a meio, sem sonhos maus. Dormi que foi um regalo. Acordei descansada.

E ainda consegui dar uma esticadinha pelo campo. De sombrinha aberta, com frio. Mas que se lixem as condições atmosféricas adversas quando se está in heaven.

A terra está verde, atapetada de musgo, há zonas cobertas de etéreos líquenes, o feto que nasce todos os anos de sob uma pedra está viçoso, pujante de vida, um tronco caído de uma pequena árvore, descarnado, parece uma espada esperando o momento de ser garbosamente empunhada, há cogumelos carnudos, húmidos, de um rubro antigo, e encontrei um, imagine-se, lilás, irreal. 

Fascino-me. 

Não preciso afastar-me da minha casa para descobrir maravilhas do outro do mundo.

E depois confirma-se o milagre pelo qual eu tanto esperava: os esquilos voltaram. Sob alguns pinheiros voltaram a aparecer as pinhas roídas. Que alegria. Espero que nunca mais tenhamos que fazer alguma coisa que os assuste e afugente. Gosto de sabê-los por lá, confiantes, livres, como se aquele fosse o seu heaven.


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Agora que tenho estado cara a cara com os mistérios da finitude da vida, com a fragilidade e, ao mesmo tempo, a força dos fios que unem os corpos à vida, gostei imenso de ver o vídeo que abaixo partilho. Também eu me tenho interrogado sobre muitas coisas e me tenho imposto a necessidade de degustar com prazer os pequenos prazeres: olhar o céu, deixar-me estar a ver o voo de um pássaro, encantar-me com a perfeição de uma flor efémera e campestre, contemplar os muitos tons de verde, ouvir uma música de olhos fechados, pensar naqueles que mais amo, sentir e agradecer a paz à minha volta.

The beauty of living

Wrinkles, lines, scars - there are many ways that time leaves its mark on our bodies.  Yet mainstream culture dreads getting older - we are urged to fight the ageing process, and many feel pressure to lie about their age.  But as Betty Friedan famously said: "Ageing is not 'lost youth' but a new stage of opportunity and strength."  

With age can come confidence, and freedom to realize who we really are.  As we age, we grow into a deeper kind of beauty, one which works its way from the inside out. It’s a more authentic beauty because it radiates from within.  So let’s celebrate lives well lived. And feel lucky to wake each morning to appreciate what the new day has to offer.

Filmed in McGregor, South Africa. 

Featuring Annie Norgarb.


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Um dia bom
Saúde. Boa sorte. Paz.

sábado, julho 31, 2021

Touch me.
Em silêncio, se faz favor.

 



A improvável indiferença pelo conhecimento de si. É o que eu sinto sobre mim e o que aprecio nos outros. 

Há pouco passei na rtp2. Não me toques. Touch me not. Mulheres falando de si, um homem que quis ser mulher, uma mulher dizendo que não saberia o que dizer do seu corpo, homens dizendo coisas que talvez façam sentido, mulheres confidenciando sobre medo, raiva. Ouvem-se com atenção. Há silêncios, hesitações. Adina Pintilie quer saber, presta atenção à intimidade descrita. Parece haver ansiedade entre os participantes. Outras vezes, indiferença. Não alegria.


Nada disso me interessa muito pois a racionalização sobre si-mesmo é matéria que me parece frívola. Bem sei que há quem a ache profunda e bem sei que em certas circunstâncias é fundamental para que algumas pessoas possam ultrapassar alguns demónios ocultos. Que seja. Não julgo. Apenas não me identifico. 

Não sei se é essencial uma pessoa conhecer-se. Acho que a pretensão do conhecimento de si é uma pretensão estulta. Ninguém poderá alguma vez conhecer-se. Nem que todas as suas células fossem desdobradas e mapeadas e estudadas à lupa, nem assim alguém ficaria com o conhecimento de si. Não somos células, somos bem mais que isso. Não somos memórias, somos muito para além disso. Mesmo que descodificássemos as nossas emoções ficaríamos na mesma: somos muito mais do que isso. Somos a mais pura abstração. E, para melhor nos identificarmos com abstrações, deveremos olhá-las de longe, sem as querer perceber ou interpretar. A interpretação de uma abstração não é apenas um exercício desnecessário: é, sobretuto, absurdo. Deveremos manter-nos desconhecidos, misteriosos, relativizar-nos, olhar-nos de longe, ignorarmo-nos.

Digo isto sem certezas, só com intuições. Há quem ache que o passado deve ser desenterrado, escalpelizado, interpretado. Mas eu tenho dúvidas. Não é preferível pensar, antes, no futuro? Não é preferível apostar antes na tolerância, na generosidade, na capacidade de ver o outro lado, na ousadia?

Não sei.

Se uma mulher não sabe sobre o seu corpo, em vez de tentar perceber as causas desse desconhecimento, não seria preferível incentivá-la a ousar, a arriscar, a perder o medo ou a vergonha e, sobretudo, a deixar de pensar tanto no assunto? 

As palavras são importantes mas devem ser como véus que se vão deixando cair. Quando, pelo contrário, as palavras são usadas como véus que se vão colocando sobre as emoções, sobre os sentimentos, então é como se fossem escolhos que se vão colocando no caminho.

Que interessa ter a pretensão de conhecer o corpo? Conhecer como? O corpo muda ao longo do tempo. Conhecer o que faz bem ao corpo? Como? A cada dia que passa vamos descobrindo novos benefícios de cuja existência antes nem suspeitávamos. 

Entrar no mar, mergulhar. Nadar. Apanhar sol na pele nua. Sentir umas mãos sobre o nosso corpo. Ouvir um poema. Beber um sumo fresco num quente fim de tarde. Ouvir contar histórias cheias de mistério. Entrar numa montanha. 

Tudo melhor do que falar sobre o próprio corpo, sobre si.

Na rtp 2 vejo agora um encontro de excessos. Corpos nus como que exorcizando fantasmas. Também não me interessam. Há alheamento, alienação nisso. Ou exploração e condescendência face à diferença. Não me identifico. Prefiro os momentos simples, animais que se procuram. O corpo prefere o silêncio. Quanto muito, um poema dito, quase num murmúrio, ao ouvido. Ou, quase em silêncio, rente à pele. As palavras, quando são demais ou quando acontecem em momentos inoportunos, são mera poluição.

Mas, lá está, posso estar enganada. Se calhar não percebi nada.

No fim, a mulher, nua, dança. Os pesados seios dançam também. A mulher ri, os seios também. Disso eu gostei.

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As pinturas são, respectivamente,:

  • Red nude, Marino Mazzacurati, ~1936 circa
  • Lily and the Sparrows, Philip Evergood, 1939
  • Portrait of Madame Tallien, Jean-Bernard Duvivier,1806
  • Portrait of the Dancer Aleksandr Sakharov, Alexej von Jawlensky, 1909
  • Saint Sebastian, Bronzino, ~1533
  • Sleeping Woman, Alexej von Jawlensky, 1910
na companhia de Hildegard von Bingen que compôs De virginibus

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Desejo-vos um sábado feliz

sexta-feira, março 05, 2021

Homens & Mulheres

 



Grande parte da minha vida profissional tem sido passada maioritariamente entre homens. Conheço bem a sua maneira de agir, em geral. Em lugares de gestão ou de poder, a larga maioria, a esmagadora maioria, é de homens. Durante muitos anos eu era a única mulher numa equipa de gestão totalmente masculina. Aliás, toda a sociedade foi, até há não muito, uma sociedade maioritariamente dominada por homens. Se calhar até deveria dizer: até aos dias de hoje. Basta ver a percentagem de mulheres que, por cá, já ocuparam os primeiros lugares da hierarquia de Estado. Se arredondar às unidades, zero. Na Igreja, então, o atraso de vida é ainda maior. Nas Forças Armadas, idem.

No entanto, tenho que reconhecer que, apesar de tudo, tem havido consideráveis avanços. Custa até pensar como, até não há muito, as mulheres não podiam votar ou careciam de autorização do marido para exercer direitos que hoje parecem básicos.

Mesmo se me situar no domínio das artes, ao longo dos tempos, quantas mulheres artistas ocultaram a sua identidade pois também não era aceitável que as mulheres pudessem ombrear com os homens na criação artística?

Como foi possível que os homens exercessem tão absurdo domínio durante séculos é enigma dificilmente explicável.

Com o pretexto da sua maior força física e com notável espírito de corpo, os homens blindaram todo o espaço que tinham ocupado recusando a entrada das mulheres. No fundo, os homens sentem-se intimidados perante as mulheres. Sentem-nas imprevisíveis, destemidas, versáteis, ousadas, persistentes, determinadas e sabem que, perante uma mulher desinibida e focada num objectivo, pouco podem. Temem-nas, não o duvido. Sabem que, além disso, as mulheres encerram mistérios, sabem de manhas ancestrais e sabem fazer uso de forças que lhes nascem das entranhas. Os homens temem as mulheres por tudo o que elas são.

Podem os homens, nos bastidores, fazer grupo, uns com os outros, fingir que desdenham delas, ensaiar ares de superioridade, gozar com o que dizem ser os seus humores ou hormonas. Mas é tudo disfarce. No fundo, sabem que jamais terão pior adversário do que uma mulher que lhes faça frente.

Pretextos, enredos, intrigas, tudo tem servido para manter as mulheres a bom recato, inofensivas à força. Quando penso que tempos houve em que o sangue menstrual era pensado como impuro, motivo de repulsa, motivo para o afastamento das mulheres... Como é possível? Impuro o sangue que sai do ventre de uma mulher? Como pode ser impuro? Quando penso que talvez ainda hoje se preterem mulheres para algumas funções por poderem ter filhos, afectando a sua produtividade... Como é possível...? Há lá mérito maior do que poder gerar uma vida? Como falar de improdutividade a propósito de alguém que produz uma vida? 

Só por ignorância, obscurantismo ou muito medo alguém pode pensar assim. 

Gostava de ainda poder ver, no meu País, uma mulher como Primeira-Ministra ou como Presidente da República. Ou, no mundo, uma mulher como Papisa, talvez não entre os luxos do Vaticano mas num lugar modesto.

O mundo seria um lugar tão mais de paz, tão melhor, haveria tanta mais criatividade e generosidade se houvesse mais mulheres em lugares de poder. 

Eu sei que a própria palavra 'poder' tem más conotações, como se fosse sinónimo de ganância, prepotência, nepotismo, coisas que tais. No masculino, de facto, muitas vezes é bem assim, Mas 'poder', no sentido que aqui refiro, significa apenas influir ou determinar o rumo das coisas. 

Por isso, foi com particular prazer que ouvi as palavras de Eduardo Galeano no vídeo abaixo. E a música que acompanha as palavras também é de se lhe prestar atenção.


La vida según Galeano



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Fotografias de Alba Yruela ao som de O viridissima virga, Hildegard Of Bingen

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Uma boa sexta-feira.

terça-feira, março 03, 2020

Mestre Alfredo, no seu cantinho, nobre guardião das memórias do Lorvão







Será talvez por preguiça ou comodismo que não vão conhecer-se lugares lindos que, facilmente, se podem ver indo e vindo no mesmo dia. Isto, bem entendido, para quem tem meios de locomoção e condições para o fazer. 
Faço esta observação porque tendo a escrever como se todas as pessoas que me lêem tivessem condições idênticas às minhas. Mas basta a gente andar pelo interior do país para perceber que uma coisa é viver numa cidade grande, onde, mal ou bem, se pode fazer quase tudo o que se quer e outra é viver numa aldeia ou numa pequena vila em que as possibilidades de tudo são, a todos os níveis, bem mais escassas.
Acabei de vir de lá e já estou com vontade de lá voltar. Não é a primeira vez que passeamos por aquelas bandas. Mas o país é tão micro maravilhoso que a gente pode estar por ali perto e ficar sem conhecer lugares lindos mesmo ali ao lado. 


Quando começo a escrever penso que tenho que me conter, dosear nos adjectivos. Penso que quem não vê as coisas com um olhar inocente como o meu, é bem capaz de achar que exagero, que não é nada assim como o descrevo, transbordante de belezura. Mas, mal começo, já estou a contar tal como a minha cabeça processa o que vê, uma torrente de encantamento.

Atrás do comboiozinho feito de troncos de madeira, a escada que leva ao Cantinho do Alfredo

Esta segunda-feira, mal acordei fiz o que faço quase todos os dias: fui ver a rua, banhar o olhar nas águas do rio. Mas desta vez o rio era outro. Chovia e estava frio, não consegui ir para a varanda. Fiquei à porta do quarto e, com a máquina, ia aproximando a imagem até onde a minha visão míope não alcançava. Os patos que voavam e desciam  para continuarem deslizando, aproveitando a corrente, os ramos nus e argênteos das árvores, os pássaros que atravessam os ares soltando gritos que se perdem entre as ramagens -- e eu, quase em êxtase, longe de tudo, apenas e toda ali. Eis senão vi uma coisa estranha, clara, por vezes quase parecia que era luminosa, uma coisa que vinha à superfície, ondulando sob e sobre a água. De vez em quando levantava a cabeça, quase como um periscópio branco e orgânico. Quis fotografar e quase não consegui. Estava distante, as águas corriam, a coisa serpenteava e a chuva ainda menos ajudava. Impossível de focar. Pensei que estava a ver o monstro de Loch Ness mas em ponto pequeno, talvez uma cria do dito. Agora estive a ver as tentativas de fotografia e o melhor que consegui foi isto que aqui abaixo vos mostro. E reparo agora como a coisa é comprida. E diga, sem souber, de que se trata. Uma lampreia?


Mas hoje quero contar-vos a visita que fizemos ao Lorvão. Estando nós instalados sobre um braço de rio na Barragem da Aguieira e tendo tão pouco tempo, circunscrevemo-nos aos lugares mais ou menos em redor, que são vários e todos lindos.



Um deles foi o Lorvão. Parece um daqueles lugares mágicos, envoltos em esquecimento, em neblina e em beleza. É certo que o dia chuvoso ajudou à imagem mas estou em crer que, mesmo em dias de sol e calor, a beleza se mantém.


Dado o adiantado da hora, não vou deter-me no Mosteiro que é imponente, austero e que, para falar francamente, me pareceu triste e meio abandonado, com um senhor com cara de poucos amigos a enunciar que poderia fazer uma visita. Uma vez mais fiquei com pena. O País tem obras extraordinárias e tantas delas são pouco conhecidas, mal divulgadas.


Mas do que quero falar é do Cantinho do Alfredo. Instalado numa sala do mosteiro aberta ao exterior, ali está o Mestre Alfredo, artesão de Lorvão, fazendo as suas peças em xisto e madeira que representam a memória do lugar. 


Segundo ele, muito do que as freiras fizeram, casas no exterior do mosteiro, está hoje ao abandono. E ele, com a ajuda de fotografias ou da sua memória ou da memória local ou dos conhecimentos do historiador da terra vai tentando reproduzir. E com que pormenor e cuidado o faz e com que entrega delas fala. Tem também peças para vender e eu trouxe uma casinha de xisto.


Mas a graça maior de tudo aquilo é que as peças têm vida, a água corre, a nora move-se, as luzes acendem-se. Mostrou e explicou cada peça, com orgulho no seu trabalho e na beleza da sua terra e, ao mesmo tempo, mostrando preocupação pelo abandono das coisas, pela terra com pouca vida, com receio de que tudo se perca.


E, lá dentro, mostrou-nos também a terrível roda dos enjeitados, mostrando como funcionava. Tempos de miséria. Olhei sentindo tristeza por todas as mães que ali foram entregar os seus bebés por não terem como criá-los.

No fim, perguntei se me autorizava a fotografá-lo e logo se dispôs a isso. Não tem mail para eu lhe enviar as fotografias ou o link para esta minha humilde homenagem mas talvez lhe escreva um postal a dizer-lhe que gostei muito de conhecê-lo.

Mestre Alfredo, guardião das memórias do Lorvão
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E a ver se amanhã vos falo de uma livraria ímpar

terça-feira, outubro 29, 2019

Trova de muito amor para um amado senhor






Sabeis, senhor, que tenho que esconder o que falar não posso, não sabeis? Tenho, senhor, tenho que esconder de todos. E de mim também, senhor.

Nem a luz mais impudica, nem os ventos mais desvairados, nem o silêncio mais insistente, nada me fará dizer o que junto de todos e de vós também sou forçada a calar. 

Quero-vos distante de mim, senhor, quero esquecer-vos, quero nada saber de vós, quero não sentir o vosso perfume mesmo que a outros e não a vós ele pertença, mesmo que apenas o imagine, mesmo que apenas deseje tê-lo um dia sentido. É que é tão forte a saudade, senhor, tão forte, tão forte. 

E não queirais que eu saiba o que digo ou que me mantenha coerente. Não, senhor, não queirais. Toda eu sou fogo que me arde por dentro, queixume que se não deixa ver e que abre sombrios caminhos em mim, palavras de paixão que disfarçam a paixão que confessar não posso, labirintos em que sozinha me perco, perigosos e atraentes abismos que me respondem quando em silêncio por vós chamo, senhor.

Ah senhor, que dor, senhor, que dor.

Ah, que misterioso apego é este que sinto e que tanto queria desconhecer?

E que sopro é este que até mim chega e que sei, senhor, sei, que é o surdo chamamento que por mim lançais nas longas noites em que os lobos saem à rua para uivar, loucos de solidão e amor?

Ah senhor.



Se não vos vejo

Vos sinto por toda parte.
Se me falta o que não vejo
Me sobra tanto desejo,
Que este, o dos olhos, não importa. 

(Antes importa saber
Se o que mais vale é sentir
E sentindo não vos ver)

São coisas do amor, senhor,
Desordenadas, antigas.
E são coisas que se inventam
P´ra se cantar a cantiga. 

Não são os olhos que veem
Nem o sentido que sente.
O amor é que vai além
E em tudo vos faz presente

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Fotografias de Tim Walker.

Poema de Hilda Hilst do livro Trova de muito amor para um amado senhor que me obrigou a escrever o meu texto lá mais em cima

Lá em cima Letizia Butterin interpreta Laus Trinitati de Hildegard von Bingen

Aqui em baixo Verônica Sabino interpreta De Ariana para Dionisio de Hilda Hilst com música de Zeca Baleiro

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terça-feira, outubro 15, 2019

O post que vou publicar a seguir




Há posts para os quais é preciso ter-se uma certa predisposição. Ou nem será isso. Talvez coragem. Ou saber-se, a priori, como fazê-lo para que saiam na forma certa. Ter auto-controlo, talvez. Não sei explicar.

O que vou compor a seguir é um desses posts. Talvez de todos os que publiquei até hoje este seja o que mais me tem feito ponderar se devo ou não e, se sim, como dar-lhe corpo.

Obtive, naturalmente, autorização para fazê-lo. Mas, tendo já decidido que o farei, ainda não sei se será o mais simples e sóbrio possível ou se devo juntar alguns apontamentos para densificar o retrato.

Peço que percebam a sensibilidade da situação pois o post será lido por todos vós mas também pela autora da carta que vou transcrever. Tinha pensado escrever antes um post genérico sobre situações idênticas, talvez para contextualizar. Mas, em casos assim, não há situações idênticas. Talvez, a seguir, tente fazê-lo; mas não sei. Não sei ainda como será e, aliás, acho que estou a escrever isto para ganhar coragem para o que se segue.

Acrescento apenas que isto de ter um blog tem sido para mim uma experiência única, especial, gratificante. Até mim têm chegado pessoas extraordinárias que me têm mostrado muitos mais lados da vida do que eu conhecia. Não tenho como retribuir a generosidade de me acompanharem e a confiança ilimitada que em mim depositam apesar de não me conhecerem. A autora da carta que a seguir vou transcrever é uma dessas pessoas e só espero que o respeito e estima que por ela sinto não sejam traídos por inabilidades que eu não consiga ultrapassar ao compor o post que se seguirá a este.


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As fotografias foram feitas este domingo enquanto andei a passear pelo Chiado e pelo Príncipe Real (... e, claro, a namorar e deixar-me tentar por mais uns quantos livros)

O Spiritus Sanctus Vivificans é obra de Hildegard of Bingen 

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domingo, maio 22, 2016

As cefaleias de Hildegard


Scivias I.6: The Choirs of Angels.
(From the Rupertsberg manuscript, fol. 38r.)



Hildegard escreve:

"As visões que tive não as vi em sonhos, durante o sono ou em ataques de loucura, nem nos meus olhos ou ouvidos carnais, nem em locais ocultos; estava acordada, desperta, e foi com os olhos do espírito e com os ouvidos internos que as percebi, claramente e segundo a vontade de Deus."

Uma tal visão, como a que é ilustrada pela figura das estrelas a cair e a extinguirem-se no oceano, é interpretada por ela como "A Queda dos Anjos":

"Vi uma enorme estrela de grande beleza e esplendor e com ela uma enorme quantidade de estrelas cadentes que a estrela seguiu em direcção a sul. Subitamente todas foram aniquiladas, transformadas em carvão... e lançadas no abismo, de forma que deixei de as ver."
Esta é a interpretação alegórica de Hildegard. A nossa interpretação literal é que ela passou pela experiência de uma chuva de fosfina em trânsito através do seu campo visual, sendo a sua passagem sucedida por um escotoma negativo. (...)

Estas visões revestem-se de uma enorme intensidade arrebatadora, especialmente nas raras ocasiões em que, à cintilação original, se segue um segundo escotoma:
"A luz que vejo não é localizada, no entanto é mais brilhante do que o sol. Não consigo perceber qual é o seu peso, comprimento e largura e chamo-lhev'a nuvem da estrela viva'. E, tal como o sol, a lua e as estrelas se reflectem na água, assim os escritos, dizeres, virtudes e obras dos homens se reflectem nela como perante mim...
Por vezes contemplo, dentro dessa luz, uma outra luz à qual chamo 'a própria luz viva'... e quando a contemplo toda a triteza e dor se desvanecem da minha memória, volto a ser uma rapariguinha e deixo de ser uma velha"
As visões de Hildegard, revestidas desta sensação de êxtase, ardentes de significado filosófico profundo conducente a Deus, eram instrumentos que a dirigiam em direcção a uma vida de santidade e misticismo. São um exemplo único da forma como um acontecimento psicológico, banal, odioso e sem significado para a maioria das pessoas, se pode transformar numa consciência privilegiada, no substrato de uma suprema inspiração extática.

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Hildegard von Bigen (1098 - 110), freira e mística de poderes intelectuais e literários excepcionais, teve inúmeras 'visões' desde a mais tenra idade até ao fim da vida e que nos deixou relatos e desenhos maravilhosos nos dois manuscritos que chegaram até nós: Scivias e Liber Divinorum Operum ('O Livro das Obras Divinas').

Um estudo cuidadoso desses relatos e desenhos não deixa dúvida em relação à sua natureza: eram, sem dúvida, cefaleicos e ilustram muitas das variedades da aura visual (...)

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Vision - A vida de Hildegard von Bigen


The story of twelfth-century Benedictine abbess Hildegard von Bingen—a Christian mystic, author, counselor, naturalist, scientist, philosopher, physician, herbalist, poet, channeller, visionary, composer and polymath.


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O que acima transcrevi (até à introdução ao vídeo) é parte do capítulo 'As visões de Hildegard' do livro 'O homem que confundiu a mulher com um chapéu' da autoria do neurologista Oliver Sacks.

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Se quiserem fazer ginástica, podem dar um salto até à mente elástica e às non dangereuses liasons entre a ciência e o design e a arte -- é já a seguir,

domingo, abril 03, 2016

Virgens (e Auto-Retrato)


Em dia frio, céu cinzento, chuva miúda, dores no corpo e frio na pele, por puro prazer de andar e olhar, forço-me a sair de casa e passear como se as pernas não estivessem presas e doridas, a cabeça latejante e a humidade fria não me atrasasse os movimentos.

A primeira paragem foi o Cais Sodré. Queria conhecer a Pensão Amor. 

Pelo caminho, fui vendo as novas lojas que vão abrindo na zona. Coloridas, diferentes, invulgares.

E a minha selfie: apenas a minha mão captando a imagem -- mas é o que interessa para este fim.
Com as mãos fotografo, com as mãos escrevo.

O aproveitamento do Mercado da Ribeira para espaço de restauração, com as características que tem, impulsionou muito a nova vivência que se respira por estas bandas.
Pensava que a prostituição já não habitava estas ruas mas ainda lá vi uma ou outra, das que, em seu tempo, teriam sido jovens vistosas e hoje são mulheres já de alguma idade, cabelos muito louros, rostos muito pintados, vestuário exclamativo e uma boa disposição exuberante, trocando conversas divertidas e altissonantes com os conhecidos da rua. Nada de mais. 
Na decoração das lojas há um ar retro, um look vintage, e há gentes de fora, há um ambiente que se adivinha boémio quando anoitecer. Mesmo de dia e com mau tempo, já há gente na rua, de copo na mão, conversando, circulando, gente em esplanadas.

Mas uma coisa me surpreendeu. Tantas vezes que venho para estas bandas e tantas vezes que já fui à Ribeira e dali até ao Chiado via Rua do Alecrim. E, no entanto, nunca tinha reparado: Nossas Senhoras em pequenos nichos.


Numa das ruas, na parede, quase ao nível do chão, este aqui abaixo. E a mistura entre motivos religiosos, bonecos populares, fotografias e objectos de plástico, flores bem coloridas, fica curioso. Nem sei se é suposto inspirar alguma religiosidade ou se é apenas um motivo decorativo kitsch mas gosto, acho inesperado e, até, simpático.


Numa outra loja, um arranjo que muito me agradou. Na fotografia talvez não se perceba, mas são garrafas de vidro transparente, empilhadas, com o gargalo virado para a frente. A meio há a abertura que serve de altar onde brilha, azul e piedosa, a Virgem.

Fotografei neste ângulo pois gostei de ver o reflexo de um dos prédios do largo e das árvores nuas no vidro da montra.


Depois, já dentro da Pensão Amor, ao fundo de um daqueles corredores com ar decadente, entre salas incompreensíveis ou quartos vazios, mais um nicho, mais uma Nossa Senhora


Com umas cortininhas de veludo à frente, quer a Nossa Senhora grande quer as que estão nas campânulas de vidro, devem ter vindo de lojas chinesas. Digo eu. Mas tem graça. Há qualquer coisa de ilógico nisto. Ou, então, de lógico. Talvez se pretenda a protecção ou o perdão da Nossa Senhora num lugar que se associa ao 'pecado'.

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Momentos houve em que os anjos
entreabriram as portas do céu:
mas acredite em mim, o silêncio
é a mais estimável qualidade do divino
e é afinal tudo o que a terra tem para nos dar.

Terminou o concerto. Voltemos para casa.
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O poema é  'À saída do concerto' de Luís Filipe Castro Mendes in 'Outro Ulisses regressa a casa'

Amy Camie e Jessica Goodenough Heuser interpretam"O Viridissima Virga" de Hildegard von Bingen.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo

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domingo, março 27, 2016

Páscoa




Quando me despeço dos meus colegas ou se me cruzo com conhecidos na quinta-feira antes da Sexta-Feira Santa (acho que se chama da Paixão, mas não estou certa), toda a gente deseja 'Boa Páscoa' e eu, que não ligo à data, digo o mesmo. Mesmo aqui, nos comentários, se me desejam uma boa Páscoa, eu retribuo. No fundo, estou a desejar que tenham um bom dia e, se lhe atribuem significado religioso, desejo também que se sintam apaziguados consigo próprios e com os outros, sentindo que é um tempo de recomeço.


Eu, muito sinceramente, não ligo. O meu sentido de religiosidade é muito meu, uma espécie de agradecimento ou de sentimento de felicidade por me ser dado testemunhar milagres como a da existência de vida ou da perfeição da natureza. Penso que não vou além disso e também não dirijo o meu agradecimento a nenhuma entidade em concreto. E se no que se refere a crenças em divindades é isto, ainda mais limitada sou no que se refere a rituais. Contudo, em datas assim, Natal ou Páscoa, gosto de ter a família reunida e gosto de preparar um bom almoço. E gosto que haja no ar um ambiente de dia de festa. E isso, para mim, é bom.


Na sexta-feira, estava eu em casa da minha mãe, e ela rodeada por todos os netos e bisnetos, uma algazarra que deixou o meu pai à beira de um ataque de nervos, tocaram à campainha. Era uma vizinha.
Essa vizinha, em tempos, foi dona de um salão de cabeleireira (como se dizia). Depois deixou-se disso, provavelmente trespassou o estabelecimento, e passou a gozar dos rendimentos. Contudo, as saudades fizeram o seu caminho e, desde há algum tempo, em casa adaptou um quarto e a casa de banho e fez uma espécie de mini-salão caseiro para amigas. Por amizade e comodidade, a minha mãe vai lá e quase todas vizinhas também. 
Então, dizia eu, ela foi lá a casa da minha mãe para dar um beijinho mas estava com pressa que já tinha uma amiga à espera, para arranjar o cabelo. E acrescentou que já passava das quatro da tarde, já não fazia mal. Perguntei se dizia isso por causa da digestão e ela atirou a loura cabeça para trás, deu uma gargalhada e esclareceu que não, que para quem acredita, disse ela, só a partir da tarde de sexta feira é que já se se aceita, é isto da quaresma, não sei bem, mas há quem ache que não deve. E ria-se de gosto, penso que por eu ter pensado que tinha a ver com a digestão. Fiquei admirada com aquilo mas a minha mãe também não foi capaz de adiantar muito mais. De não se poder comer carne já eu sabia, agora de não se cortar ou arranjar o cabelo foi novidade para mim.


Ou seja, há costumes que fazem sentido para quem é crente e incompreensíveis para os agnósticos, como eu. Mas respeito.

Por isso, apesar de para mim ser apenas um dia de almoçarada familiar, a todos quantos atribuem um significado especial ao dia de Páscoa, aqui deixo os meus votos de um dia feliz. E se alguns de vocês, meus Caros leitores, estão a desejar um recomeço, um novo rumo, pois que isso aconteça e que o que vier venha por bem -- e que, com a ressurreição e com a primavera, melhores dias estejam para chegar.

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Se o almoço ficar bom, depois logo vos digo como fiz. A esta hora ainda não sei como vou fazer.
Estou inclinada a fazer umas variantes para agradar a gregos e troianos.

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As fotografias foram feitas, este sábado, in heaven. 
O coro Oxford Camerata interpreta Ave Generosa de Hildegard von Bingen
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E, se estiverem para isso, deslizem até ao post seguinte para lerem as palavras de dois leitores, e depois até ao mais abaixo para as novidades destes últimos dias.

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