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segunda-feira, janeiro 01, 2024

2024
-- Receita de Ano Novo --

 

E já cá estamos, em 2024. Aqui, pelo menos, já chegámos. 

Não sei se o Valupi tem razão ao dizer que 2023 foi um período triunfal para os estúpidos. Não que não tenha sido. Foi. Mas foi mais que isso. Foi, em si, um ano estúpido. Claro que pode dizer-se que são os estúpidos que transformam uma coisa neutra numa coisa estúpida. Mas foram tantas as coisas estúpidas que aconteceram, uma tal sucessão de situações transformadas em situações estúpidas por gente estúpida que, em si, tenho que concluir que 2023 se pôs a jeito para os estúpidos fazerem dele gato-sapato. E não foi só isso, foram mesmo as contingências desagradáveis que viram a luz do dia, negativas, abstrusas, ataques de pouca sorte.

Quando o ano começou toda a gente deve ter desejado que fosse um ano incrível, transbordante de paz e bondade, mas, bem vistas as coisas, muitos dos estúpidos que por aí andam já andavam antes a deixar-nos perceber que iam fazer porcaria. Muitas vezes, não quisemos foi ver. 

Não vou exemplificar pois foram tantas as anormalidades que aconteceram que seria absurdo apontar só uma o duas. Mas, de muitas, como não reconhecer que os seus autores já antes vinham dando mostras de que as suas intenções e o seu comportamento iriam descambar em actos estúpidos, nefastos.

E, mesmo a nível pessoal, tenho que reconhecer que quase tudo o que de negativo me aconteceu, não nasceu em 2023. E algumas coisas poderiam ter sido senão evitadas, pelo menos mitigadas. Há o aspecto da sorte, é certo, e nela muitas vezes não conseguimos influir. Mas em muitas das outras deitamo-nos na cama que fizemos. Não que, se fosse outra a cama, o destino fosse forçosamente diferente. Mas uma coisa é certa: quando tomamos uma opção não podemos pensar que as consequências se ficam por ali. Muitas vezes as consequências arrastam-se por anos.

Estou a escrever e já estava outra vez a pensar na situação da minha mãe e no que estamos a passar: tinha vontade de exemplificar como, em cada momento da vida, a vida não é só o que acontece independentemente da nossa vontade mas também é a forma como o encaramos -- ou sob uma perspectiva fatalista e negativa ou sob uma perspectiva de agradecimento e aceitação, mesmo quando o que nos acontece não é famoso. E isso muda tudo. Mas hoje não quero falar outra vez do mesmo, não quero enfiar-me de novo nesse beco do qual tantas vezes parece que não consigo sair.

Só quero dizer que embora triste por a minha mãe entrar o ano numa cama de hospital e de eu não ter podido desejar-lhe um feliz ano novo, com saúde e alegria, como sempre fiz em todos os anos da minha vida, consegui divertir-me e estar feliz na companhia dos que me são queridos, que estão bem, felizes, bem dispostos. 

A vida continua. 

E bola para a frente. Certo?

E agradecendo ao Nuno que, apesar de ser um chato e que tantas vezes me maça, não deixa, outras vezes, de ser atencioso, partilho convosco um poema que ele me enviou por mail. Aqui, na voz de Marília Gabriela:

RECEITA DE ANO NOVO, Carlos Drummond de Andrade

(...)

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Felicidades

sábado, abril 23, 2022

A história de João que amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém explicada ao PCP e a todos os que acham que a culpa disto é da Nato

 

A seguir à adivinha da velhinha que não quer atravessar a rua (a propósito da Ucrânia que luta até às últimas consequências porque não quer ser anexada à Rússia) hoje trago a quadrilha de Carlos Drummond de Andrade.
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Da mesma maneira, a Rússia de Putin tem anseios imperialistas, quer reconstruir a União Soviética e quer começar por anexar a Ucrânia. É confesso e assumido. Putin o dia: a Ucrânia não deve ser um país independente. E a ideia é, a seguir, continuarem. Aliás, hoje já vieram publicamente confessar o que já se antevia, ou seja, que, a seguir, tencionam avançar para a Transnístria, certamente preparando-se para, acto contínuo, tentarem abocanhar outro estado soberano, a Moldova. Nem mais. E a seguir continuarão (se os deixarem) pois têm como objectivo não apenas reconquistar todos os países que antes eram países soviéticos como vir por aí adiante até toda a Europa lhes estar no papo, formando a sua tão almejada Eurásia. 

Esta é a história.

Nesta história não entra a Nato. 

A Nato não invadiu a Rússia, a Nato não atirou nenhum míssil para o jardim do bunker em que o cobardolas se esconde, a Nato não reagiu aos múltiplos desvarios da Rússia. 

A Nato -- até Putin ter invadido a Ucrânia e, uma vez mais, ter posto em prática a sua habitual forma de actuar, destruindo infraestruturas e despovoando as terras, matando ou obrigando a população a fugir -- não tinha entrado na história.

Mas entrou agora. 

Perante a ameaça real e brutal que é ter um bandido mitómano com um botão nuclear à sua disposição, a Finlândia e a Suécia já estão a ponderar e já pensam que o melhor é terem a protecção da Nato. Todos os países da Europa, gente na base da peace and love acordou para o perigo real que é haver um assassino armado até aos dentes com ogivas nucleares e mísseis intercontinentais e já decidiram reforçar o orçamento de defesa e cerrarem fileiras em torno da Nato.

Portanto, tal como J. Pinto Fernandes não tinha entrado na história e acabou a casar-se com a Lili que, na altura, nem amava ninguém, também a Nato, que não tinha entrado na história, acabará por sair reforçada.

A Rússia (se não acabar com o mundo antes) acabará humilhada, empobrecida e isolada. Pode até ser que Putin venha a ser o Joaquim da Quadrilha.

A Ucrânia será reconstruída e será um país próspero e feliz, mais unido e mais livre que nunca.

E, por cá, o PCP acabará (soterrado sob o desprezo dos portugueses) porque, no meio da confusão, não percebeu nada da história.

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NB: Quero com isto dizer que a Nato é uma santa instituição, onde ninguém peca, pecou ou pecará? Não, nem pensar. Não sei de nenhuma instituição assim. Nem a Santa Madre Igreja é impoluta (como sabemos, bem longe disso). O que digo é que, na história em questão, a da invasão da Ucrânia pela Rússia e a dos hediondos e irrefutáveis crimes por esta cometidos, a Nato não fez parte da história... até a Rússia forçar o mundo a reconhecer que é perigosa demais para ser deixada à solta.

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[Atenção às palavras de Fiona Hill, do minuto 8:57 até ao 9:09]

Ukraine: What life is like under Russian occupation

As Russian forces pound towns and cities in the eastern Donbass region of Ukraine with artillery, today a commander said Russia intended not only to take the east but also the entire south - potentially giving a route out to Transnistria, a pro-Russian enclave in Moldova.

Russia has already taken a large swathe of land in the south of Ukraine, including Manhush, Tokmak and Dniprorudne which have been living under occupation for most of the war.

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Um bom sábado
Saúde. Paz.

domingo, dezembro 18, 2016

1001 Nádegas





Emilie Mercier e Frédérique Marseille, duas amigas, tiveram uma ideia da qual não se pode dizer que seja muito à frente porque, a bem dizer, tem mais a ver com a rectaguarda. E da ideia aos actos foi um ápice. Meteram mãos à obra -- e a coisa já é de envergadura.

A bem da aceitação do corpo, para que ninguém pense que os glúteos têm que ser rijos, torneados e empinados, mostram-nos de toda a espécie e feitio.

Viajando pela colecção que não tem parado de crescer, podemos ver bundas, bundinhas e bundonas, lisas, com celulites, com cicatrizes, estreitas, redondas, tranquilas, inquietas (seja lá o que isso signifique quando aplicado no contexto). E consegue perceber-se que não temos que nos submeter a padrões nem sentir complexos de culpa por não frequentarmos ginásios ou por não fazermos 'malhação' até as nalgas estarem rijas como ferro.

Como dizem as duas amigas que se lançaram neste projecto:
Les canons de beauté ont changé. Ils sont aujourd'hui irréels et mutants, coupants et impossibles à atteindre. En récoltant 1001 fesses, peut-être découvrirons-nous que le canon n'existe pas. Que le galbe de la chaire est beau. 
Redonnons à nos corps, par l’art, la grâce d'une Vénus.


1001 Fesses


(Porque todos as temos)


São as tuas nádegas
 na curva dos meus dedos

 as tuas pernas
 atentas e curvadas

 O cravo – o crivo
 sabor da madrugada
 no manso odor do mar das tuas
 espáduas

 E se soergo com as mãos
 as tuas coxas
 e acerto o corpo no calor
 das vagas

 logo me vergas

 e és tu então
 que tens os dedos
 agora
 em minha nádegas


[Maria Teresa Horta]




A bunda, que engraçada. 
Está sempre sorrindo, nunca é trágica 
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar. 
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente. 
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita. 
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda 

[Carlos Drummond de Andrade]





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E dancemos.



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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terça-feira, março 08, 2016

António Varela sai do Banco de Portugal porque, segundo ele, não existe química com a política e a estratégia, e Carlos Costa vai para a cama com Alexandra


Não sou de intrigas
    e trigo limpo farinha amparo,
        e cada um é como cada qual
             e cantas bem mas não me embalas
                  e o primeiro milho é para os pardais.
                      e cada um sabe de si e deus é que sabe de todos
                          e quem nunca errou que atire a primeira pedra
                              e tantas vezes o cântaro vai à fonte que um dia lá deixa a asa
                                  e mil outras razões, argumentos, justificações, sugestões, suposições.
                                     A verdade é que não sei. Não sei mesmo. E tenho raiva a quem saiba, a sério.

O que sei é o que vêem estes que a terra há-de comer. E o que posso dizer que vi é o seguinte:

Banco de Portugal confirma demissão de António Varela


António Varela e, ao fundo, a sombra de Sérgio Monteiro
que, pouco depois, haveria de ser contratado pelo Carlos Costa
para ir ganhar uma pipa de massa para o BdP
para despachar o Novo Banco
O Jornal de Negócios avança que, na sua carta de demissão apresentada ao Governo, o administrador cessante disse não se identificar "o suficiente com a política e a gestão do Banco de Portugal". Não terá apontado nenhuma razão mais concreta para a sua saída da instituição.

Era administrador do Banco de Portugal desde setembro de 2014, tendo sido indicado para o cargo pela então ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque.

Em abril de 2015, soube-se que António Varela, que já era então administrador do Banco de Portugal e era visto como possível sucessor a Carlos Costa no cargo de governador, era acionista de vários bancos incluindo o Santander, o BCP, e o Banif.


Em contrapartida, o Carlos Costa que toda a gente pensava que era gay e que depois já se passava por bissexual, surpreendeu toda a gente ao meter-se na cama da Alexandra Ferreira; e diz quem viu que se não pintou, rolou. Ou vice-versa. 


Ou seja, truca-truca ou, se não foi, pareceu -- dizem eles.

E eu, face a isto, não sei o que hei-de concluir.

A quadrilha, vou já avisando, é das malucas. Nem Mestre Drummond podia imaginar.

O Láparo gostava da Marilú
que gostava do Varela
e o Varela parecia que gostava do Carlos Costa.
Vão-se as madrinhas,
zangam-se as vizinhas,
e agora o Varela diz que afinal não gosta do Carlos Costa
e o Carlos Costa em vez de gostar de um António,
embeiçou-se por Alexandra Ferreira
que não fazia parte da história.


Ora bem, vejamos, no vídeo abaixo, esta cegarrega generosamente adubada pela Madama da Maison (digo da Quinta das Acelebridades), Teresa Guilherme de seu nome.

O vídeo abaixo desfaz as dúvidas.

Depois disto, duvido que António Varela volte para o BdP ou para o Banif. Talvez o vejamos na Arrow, esse colosso da alta finança que, quiçá mais tarde, ainda venha a contratar essa águia, o láparo. Para contínuo, claro - diz que não há como ele a abrir portas.

Surpresa na Quinta: Alexandra e Carlos Costa envolvem-se na cama!


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Já agora, uma vez mais:

Quadrilha na voz do próprio Carlos Drummond de Andrade



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E, de qualquer forma, há coisas piores. Como aquela do tal habitante da Travessa do Possolo que se fez retratar pelo outro Possolo e agora sempre quero ver como é que se vai tirar de dentro do portfolio do dito pintor.


Ele há coisas...
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

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sexta-feira, fevereiro 26, 2016

O corpo nem sequer é percebido pelo ritmo que o leva





Quando vier o calor despirei a pele do inverno, vestirei vestidos floridos, colocarei umas gotas de perfume feito de bergamota, jasmim, pétalas de rosa, flor de laranjeira e violetas, apanharei o cabelo, talvez use um travessão colorido, talvez vá já à procura de um que tenha flores também, usarei brincos ruidosamente coloridos, sapatos altos de cor a condizer com o vestido, procurarei as flores que se escondem em lugares secretos da cidade, irei talvez para a beira de um lago, procurarei o lugar onde melhor possa ouvir o canto dos pássaros, talvez me sente na relva, encostada a uma árvore, talvez até leve um livro, um livro é uma boa companhia, entregar-me-ei à sua leitura, mas não muito, que um livro, para mim, é para ser saboreado com deleite, as palavras rolando sobre a língua devagar antes de se transformarem em oxigénio ou sangue, de vez em quando terei que olhar para a folhagem que dança levada pela suave aragem, de vez em quando terei que aspirar a tepidez terna das boas lembranças, e depois talvez tenha que voltar o rosto para o sol, os olhos fechados, e, de certeza, esquecerei as nuvens -- e se me apetece despir-me de nuvens, não pensar nelas, não ter nada a ver com elas, pas de nuages, s'il vous plaît.

Claro que não farei uma selfie. Mas talvez o meu amor me queira fotografar e me peça para levantar um pouco a saia e eu, discretamente. far-lhe-ei a vontade.


Quando vier o calor, escolherei um lenço de seda com riscas e flores, dobrá-lo-ei e com ele farei uma fita que me prenda o cabelo, escolherei um gloss bem colorido para que os meus lábios fiquem a condizer com a rosa mais rubra do jardim, talvez passe uma sombra ligeira nos olhos, talvez em azul leve, para que qualquer coisa no meu olhar retenha a pureza do céu, talvez escolha pulseiras, uma de cada cor, para que os meus braços pareçam ter flores frescas, como se tivessem sido colhidas ainda com a inocência da alvorada, talvez escolha uma carteira da cor dos sapatos para que me sinta em harmonia com o que me cobre, e talvez lá dentro coloque uma bolsa com lápis de várias cores para contornar os olhos conforme os vestidos, as cores do céu ou das folhagens das árvores ou das plumagens das aves ou dos reflexos do sol na água, e batons de vários tons para que o meu sorriso transporte a cor das pétalas das flores que se abeirem de mim.

E ouvirei muitas músicas. Mas não me lembrarei do nome de nenhuma. Mas não faz mal porque, em cada dia, ouvirei uma palavra ao acaso que me transportará até aos acordes que depois me transportarão a mim até onde as searas ondulam com a brisa, até onde as árvores se douram sob o sol da tarde, até onde a luz se espraia sobre a pele das mulheres macias feitas de pedra. 

Quando vier o calor e os dias forem grandes, o meu tempo será maior -- lá dentro haverá espaço para os risos, os livros, as músicas, para passear abraçada, para não pensar no frio, para me sentir longe do cinzento desolado, para me sentir longe das nuvens carregadas de desalentos, da tristeza dos dias sôfregos como hoje.

E, claro, não farei uma selfie. Mas talvez o meu amor me olhe com amor e eu me veja nos olhos dele e me sinta radiosa, bonita.

O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.

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Em itálico um excerto de 'Mulher andando nua pela casa' de Carlos Drummond de Andrade in 'O amor natural'

Lá em cima Lucia Popp (como Susanna) e Gundula Janowitz (como Contessa Almaviva) interpretam "Sull' aria" de "Le Nozze di Figaro" de Mozart

O vídeo e as fotografias pertencem à campanha de verão Italia is Love da Dolce & Gabanna

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E, se estiverem para aí virados, queiram por favor deslizar até ao post abaixo onde há imagens de beijos, poemas de amor e beijos, casais apaixonados dançando e beijando-se, tudo ao som da bela canção que me deu a ideia do post. 

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segunda-feira, novembro 23, 2015

O que pediu Cavaco Silva a António Costa? Que se despache e lhe apresente já um governo? Que lhe garanta que tem o Orçamento quase pronto? Nep... Qual quê? Afinal, 'qual é a pressa?'. Pediu-lhe foi para o ajudar a continuar a encanar, por mais algum tempo, a perna à rã. [Em act.]


O esposo da D. Maria Cavaco Silva terá dito a António Costa que ainda não é desta que o vai indigitar como Primeiro-Ministro, que ainda tem bué de dúvidas. Tentou que os sindicalistas, os patrões, os economistas, os banqueiros, as fadistas, as aspirantes a cabeleireiras e todos quantos ouviu o esclarecessem quanto a essas dúvidas que o têm atormentado, mas todos lhe apareceram lá de balde.

Terá ainda explicado que, por ele, Aníbal, não tem pressa. 
Um dos que lá esteve na semana passada, mas que ele já não se lembra quem, ter-lhe-á dito que, se tem tantas dúvidas sobre as reais intenções de Costa e do resto do reviralho, pois que lhe colocasse a ele, Costa, as dúvidas e deixasse de andar a chamar toda a gente para Belém que as pessoas têm mais que fazer do que andar a perder tempo naquele cortejo. Ocorre-lhe que até pode ter sido a sua Maria a dar-lhe essa desanda, que tem dias que nem ela já o consegue aturar, mas não sabe.
Portanto, o Sr. Aníbal terá instruído uma comissão, quiçá capitaneada pelo diligente Liberato, para lhe preparar um documento com dúvidas.

Então, terá sido com esse documento de clarificação formal que o Sr. Cavaco terá presenteado António Costa na reunião que tiveram esta segunda-feira pelas 11 da manhã. 


Ter-lhe-á explicado que quer ver, preto no branco, que o PCP e o BE amam de paixão a NATO e que assinarão já, de cruz, a aprovação prévia de qualquer orçamento do PS daqui até ao fim dos tempos. Como o Costa terá mostrado o que lhe pareceu ser alguma perplexidade, acrescentou: 'Uma coisa tipo blind date, está ver? Acreditar às ceguinhas, percebe?'. O Costa terá ficado com os olhos ainda mais abertos. Cavaco juntou mais umas dúvidas que quer ver esclarecidas: por exemplo, quer lhe digam, e por escrito, que gostam muito todos daquilo da Concertação, até porque ainda não percebeu bem se o PCP já se amigou no facebook com a CIP ou a AIP ou lá como aquilo se chama. Ah, e também com a CAP. Ah, sim, e que também não sabe bem o que acham eles dos bancos e do sistema financeiro. Quer que clarifiquem bem essa cena: vão meter o dinheirinho todo que for preciso no Novo Banco? E sem piar? E comprometem-se a nada de bocas foleiras sobre o BPN? Ah, sim, e também quer saber se o PCP e o BE juram a pés juntos que adoram, adoram mesmo, aquilo do Pacto de Estabilidade e Crescimento, do Tratado Orçamental, do Mecanismo Europeu de Estabilidade. E também qualquer coisa sobre moções ou monções ou lá o que é. 

E, portanto, Cavaco chamou o Costa para lhe dar uma folhinha com o TPC. Mas que é para trabalharem em grupo. E que o Costa só volte a aparecer-lhe à frente depois de ter convencido os outros comunas a redigirem em conjunto uma declaração de amor a três, não apenas entre eles mas também amor aos meandros de Bruxelas e aos mercados e que, sobretudo, se apresentem como gémeos univitelinos. Daqui para a frente, quando forem a Belém, que, no mínimo, vão vestidos de igual. No mínimo, caraças. Há quem jure tê-lo ouvido a dizer em surdina, como se rosnasse: 'Custará muito? Não são capazes de se vestir de igual?! Cambada! A mania das diversidades!'

E, no final, já num tom mais composto, terá dito que, se fizerem tudo o que ele manda e se estiver para aí virado, pois, então, que remédio, lá terá que o indigitar.
Consta que a D. Maria Cavaca tem andado a preparar o esposo. Dizem que anda a ver se o convence, que se conforme, que, se não tiver como fugir desse mau passo, pois que deixe. Dizem que é uma ladainha de roda dele, todo o santo dia: 
Há coisas piores, homem, então já viste se tivesses um ataque agudo de hemorróidas num dia em que tivesses que estar muitas horas sentado? Ai, que não aprendes a ter calma... Emborcas uma dose cavalar de Lexotans e dás posse aos bolcheviques, pronto, querem comer criancinhas ao pequeno-almoço, pois que comam. Tu lavas daí as mãos. Vá, faz-me lá esse sorrisinho lindo, vá... 
Portanto, Cavaco lá terá dito que até pode ser que dê posse a um governo socialista mas que, primeiro, o Costa lhe traga o TPC feitinho e bem feitinho, que leve o que tempo que precisar que nisto as pressas não ajudam nada. Nas calminhas, parece que o ouviram dizer, à laia de conselho, ao Costa.
...

Consta que o Costa, quando entrou para a audiência, ia sorridente e que até o ouviram dizer de si para si, 'Vá lá Cavaco, make my day...'. 


Quando saíu, Costa vinha contente. As suas expectativas parecem ter-se cumprido, o Cavaco pôs-se a jeito e ele não vai ter outro remédio senão disparar: provavelmente o senhor de Belém vai ter o TPC ainda hoje (e, ao que parece, com desenhos e tudo -- que pode ser que, assim, o senhor perceba).


Se perceber, Cavaco tem ainda outra na manga e é das boas. Mas, no fim, quando não tiver mais nenhuma, não terá mesmo outro remédio senão ouvir o fado que estava guardado para o fim do seu triste mandato. 

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Mas pode acontecer que não perceba a resposta que o Costa lhe vai fornecer. Nesse caso, o nosso belo Aníbal lá irá continuar a chamar um e outro, um corridinho a caminho de Belém, tudo o que é cão e gato a opinar, e ele a empatar, a empurrar com a barriga, a fazer de tudo para não ter que engolir o sapalhão que está à sua espera.

  Folclore do Algarve - Corridinho
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Entretanto, António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins estão a ensaiar o número que irão apresentar a Cavaco, em coro, por altura das Janeiras.

Maria amava Aníbal que amava Cavaco
que amava Passos que amava o Portas  que amava o Costa
que estava bem como estava.
Maria foi para a varanda da Rua do Possolo, Aníbal foi com ela,
Cavaco, quando tinha que ser, foi passar as tardes para o convento da R. Prior do Crato, 
Passos foi fazer farófias,
Portas foi de fininho para um sítio que diz que não pode dizer onde é 
e o Costa foi para o Governo com o apoio do Jerónimo e da Catarina 
que não tinham entrado na história.
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"Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade - narração de Paulo Autran sobre pinturas de Glauce Cerveira 
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Notícia de última hora: um exclusivo Um Jeito Manso!
Já vi as respostas de António Costa ao Cavaco. Um verdadeiro documento clarificador. Simétrico, estável e duradouro. Clique aqui para as ver.



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terça-feira, setembro 09, 2014

Missa do 1º mês mais uns dias pelo moribundo BES (que ainda não morreu) e encomendação de algumas almas. Quando o Novo Banco começar a funcionar logo faço aqui a missa do baptizado. Hoje limito-me a trazer a Quadrilha e a dançar em volta do Buraco.


Pedro Queiroz Pereira, primeiro, e José Ricciardi depois, denunciaram a situação de sobre-endividamento do Grupo Espírito Santo e de basculação de liquidez do Banco para o Grupo e, em sentido inverso, o basculamento de dívida periclitante para dentro das contas do Banco.

O Expresso e o Jornal de Negócios pegaram no assunto e, quando Pedro Santos Guerreiro transitou para o Expresso, pôs de vez a boca no trombone.


Carlos Costa foi, então, obrigado a chegar-se à frente. Mandou de castigo para casa Ricardo Salgado e pediu que ele indicasse sucessor. Mais tarde, Carlos Costa veio a dizer que desde Outubro do ano passado que já andava de olho no que se estava a passar. Veio a dizer, através de informação que foi mandada plantar nos jornais, informação essa devidamente papagueada pelos papagaios e catatuas do regime e da comunicação social, que tinha blindado o BES e que este não apenas estava imune ao regabofe que ia no Grupo como tinha até uma sólida almofada financeira. O aumento de capital social do BES destinava-se mesmo a isso, a aumentar a estabilidade financeira do banco.

Lembro-me, mas ó tão bem, de como a papagaiada tecia loas ao Governador e como afirmavam, serenos e convictos, que o assunto BES não tinha nada, mas ó nada mesmo, a ver com o caso BPN.

Supostamente também com base na informação do Banco de Portugal, Passos Coelho e a sua chefe, a ministra das Finanças, vieram dizer que não havia problema nenhum com o BES mas sim com o GES e que, de qualquer forma, não havia plano nenhum para agir no banco, que o problema do banco era dos accionistas, que o Estado não tinha nada que ajudar privados. Os papagaios rejubilaram, assim é que é!, as catatuas aplaudiram e as galinhas da oposição continuaram entorpecidas.

Disse supostamente pois custa-me a crer que não haja no Ministério das Finanças uma única alma que se dedique a acompanhar o sistema bancário, que estejam todos intelectualmente dependentes da informação que lhes é dada à boca pelo BdP. E quem diz o Ministério das Finanças diz também o adjuntinho do láparo, o trokinhas. Tantos testes de stress, tanta coisinha e tão competentinho que ele é todinho e passou-lhe tudo ao ladinho? Ó que belo comissário que ele vai ser, tadinho.
Adiante.

Ricardo Salgado indicou como sucessor o seu braço direito, um Sr. Silva, digo o Sr. Amílcar, leal súbdito. Carlos Costa não disse nem sim nem sopas e o Expresso dizia que a escolha não agradava lá muito ao senhor Costa mas que a Assembleia Geral que dissesse. E a equipa de gestão manteve-se em gestão e Ricardo Salgado, em vez de ir para casa, continuou a tratar do expediente já que não havia sucessor em funções e um barco daquela dimensão não pode ficar sem comandante.

Enquanto isso, o Expresso continuou a lavar a roupa suja do Grupo em público. Ora era o investimento da PT sem se perceber como, ora era a bandalheira em Angola, ora eram os empréstimos com garantias cruzadas e efeito nulo.

De cada vez que o Expresso fazia nova barrela, o inefável Carlos Costa dava mais um soluço. O Sr. Amílcar Pires não!, veio então a balbuciar. E que tinha é que ser Vítor Bento, homem sério (embora sem experiência como banqueiro mas isso de se ser banqueiro em Portugal já não é medalha, isso já é bafo de onça, por isso que venha gente sem cadastro). 

Mas o Vítor Bento, que não tem apenas a cabeça pelada, tem o rabo também já razoavelmente coçado, disse que só ia quando Ricardo Salgado e restante pandilha fechassem as contas. Carlos Costas, como de costume, disse que sim.

E, portanto, o BES continuou sem outra gestão que não a de sempre: a da equipa de Ricardo Salgado.

Enquanto isso, o Governo foi a banhos. Entrevistado na Manta Rota, Passos Coelho reagiu como se o BES fosse drama de desocupados lisboetas: que estava tudo bem, tudo controlado, nada que lhe dissesse respeito. 

Nas televisões continuava a louvar-se o fantástico papel de Carlos Costa: tinha prevenido tudo, o BES estava solid as a rock, refastelado numa folgada almofada financeira de centenas de milhões.

Mas o sacana do Pedro Santos Guerreira, sempre pronto a atirar baldinhos de água fria, dava a entender que não.

Claro que, perante tanta delonga, semanas nisto, suspeitas, dúvidas, gente que reage a pedal e que demonstra que não é capaz de ver um boi à frente dos  olhos, o dinheiro começou a fugir do Banco. A PT, os petróleos da Venezuela, grandes depósitos de empresas e particulares, tudo a fugir de lá. Em situação de chatice, ficam defendidos os depósitos até 100.000 euros por depositante. Mas, quem tem muitas centenas de milhares ou milhões, safa enquanto é tempo!

Claro que o Banco de Portugal teve que injectar liquidez e, com a situação a arrastar-se desta maneira, não havia como não agir. Mas a verdade é que não agia. Então o BCE, vendo a arrastadeira em que o BdP  estava armado, encostou-lhe a faca ao peito: ou fazem alguma coisa ou a gente fecha essa porcaria em três tempos.

Durante esses últimos tempos, a confusão reinava no Banco de Portugal. Sem gestão nova em funções no BES e com um clima de desconfiança em relação à anterior, ninguém sabia ao certo o que se passava nem a real dimensão do buraco.

Ricardo Salgado começava a organizar-se no Palácio do Estoril, a tratar de algum expediente, coisa pouca, umas cartitas de conforto, nada de mais, e o hotel começava a ser o escritório onde se organiza a defesa do ex-Dono Disto Tudo.

Mas, enquanto isso, os papagaios e catatuas continuaram a louvar a eficiência e presciência do grande crânio Carlos Costa, esse génio de imaculado curriculum, sempre a agir atempadamente, nada que se compare com a actuação do BdP no escândalo, esse sim, um escândalo, do BPN..

No fim de semana da confusão final, sob pressão, sem cabeça já para saber bem o que fazer, com um Vítor Bento instalado mas a declarar não se responsabilizar pelas contas do 1º semestre, com o BCE à perna, foi parida uma solução aberrante, confusa e operacionalmente difícil de implementar. Carlos Costa, titubeante, apareceu perante o País como o único pai da criança, criança essa que viria a materializar-se como uma borboleta verde.

Entretanto, o BES já repescou alguns administradores da anterior equipa, já contratou assessores, consultores, certamente muitos advogados, já mudou de nome, já lançou publicidade, etc. Mas que eu saiba tudo continua na mesma, todos os movimentos e todas as contas a serem contabilizadas no BES. 

Na altura, disse-o aqui que na melhor das hipóteses precisariam de 3 meses para montar toda a máquina informática, contabilística, administrativa para acomodar o Novo Banco e para migrar para lá tudo o que foi apregoado, incluindo o respectivo histórico de movimentos mas que, para a coisa ser feita como deve ser, seriam precisos cerca de 6 meses, e isto com uma equipa experiente a liderar o assunto. Presumo que seja, neste momento, a prioridade deles e espero que consigam chegar a bom porto. Não é coisa fácil e só gente experiente pode montar de raiz toda uma nova máquina, segregar as coisas e passá-las de um banco para o outro de forma a não ocorrer paragem de operações ou algo pior.

E, entretanto, a que assistimos?


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(intervalo)



Que entre a Quadrilha






(fim de intervalo)
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A que assistimos, entretanto?, perguntava eu.

Pois bem.

Carlos Costa, tendo constatado as críticas e acusações que lhe eram feitas, começou por insinuar que a culpa tinha sido do auditor do BES, a KPMG, que não o tinha avisado a tempo. Depois que a culpa era também do fraudulento Ricardo Salgado que tinha armado trambique quando já tinha sido posto de castigo. Finalmente, não sabendo quem mais culpar, saíu de cena, foi mandado para casa. Não sei se já regressou e se veio em condições. Mas não há milagres: mesmo que tenha dormido 15 dias de seguida, não será o crânio que nunca foi.


Por sua vez, não contente com as acusações, a KPMG anda pelos jornais a dizer que avisou vezes sem conta o BdP e que não tem culpa que não tenham percebido os alertas ou que não tenham sido capazes de agir. 

Um advogado de pequenos accionistas, Miguel Reis, diz que não quer saber de misérias: que neste processo falhou tudo e falharam todos e que foi tudo feito a trouxe-mouxe e que alguém vai ter que responder pelos prejuízos sofridos pelos pequenos accionistas a começar por Carlos Costa e Cavaco Silva. Nem que seja com o próprio património. Pumba! Uma bomba em cima da mesa.

Cavaco Silva que parece que tem um karma muito negativo com bancos e que está no palácio para ficar bem no retrato e não chamuscado, saíu logo a terreiro, ar de quem anda cismado, boca arreganhada, a espadeirar contra um alvo bem definido: que a culpa não tinha sido dele, que tinha dito que o BES estava sólido porque eram essas as informações que tinha do Banco de Portugal. Toma!


Quando os jornais lhe caíram em cima dizendo que lá tinha ele tirado o tapete a mais um amigo e que, face a isto, já era questionável se Carlos Costa tinha condições para se manter em funções, voltou a sair a terreiro, desta vez para corrigir o tiro: em tom profético retardado disse, sibilinamente, que esperava bem que o Governo o tivesse avisado caso tivesse em sua posse dados relevantes. E frisou que essas são as obrigações do Governo face ao estipulado pela Constituição. Penso que foi uma indirecta, a chamada boca para a geral: é que se há rapazes que se estão a marimbar para a Constituição, sabemos bem onde se acoitam.


Por seu lado, Passos Coelho, como desde o início, continua na moita. Quanto menos falar sobre isto, melhor e, com um bocado de sorte, os papagaios e catatuas nem se vão lembrar de o relacionar com o assunto. Se apertarem com ele, sumirá o que ainda lhe sobre dos estreitos lábios, colocará ainda mais os olhinhos a meia haste e ensaiará um número qualquer, daqueles redondos em que não se percebe onde começa ou acaba a prosa, onde nada se percebe ou bate certo mas em que, enfim, poderá uma vez mais mostrar o efeito positivo de uma voz bem colocada. Isto se não se limitar a rir desbundadamente como é seu apanágio ou se não largar a correr para cantar a Nini a plenos pulmões, que também é moço para isso.


Face a este passa culpas, quem é que eu acho que esteve mesmo mal nisto tudo?



  • A administração do BES (e do GES, claro - mas, para este efeito, o mais preocupante pelos riscos sistémicos é o BES). 
  • O Banco de Portugal e provavelmente também a CMVM (que deixou que o aumento de capital tivesse tido lugar quando já deveriam ter elementos que apontavam para a necessidade de uma intervenção a sério e não através de um saque aos accionistas). 
  • E também o Governo que, em vez de dizer que o BES estaria seguro fosse de que forma fosse e em vez de ter criado imediatamente uma equipa de coordenação do problema - equipa envolvendo o BES, o BdP, a CMVM, elementos do BCE e logicamente elementos do Ministério das Finanças e dos Negócios Estrangeiros (para lidar com os casos de Angola, Venezuela, Panamá, EUA, etc) - lavou as mãos e ficou na moita a assistir à derrocada e a assobiar para o lado. 
  • E também o Presidente da República que, se mais ninguém percebeu que alguém tinha que puxar as rédeas a si e gerir tudo ao mais alto nível e de forma muito controlada, ele tinha obrigação de o ter percebido e ter imposto uma gestão profissional e responsável para o problema. Não apenas é um político com décadas de tarimba, como já foi ministro da área e primeiro-ministro, foi funcionário do BdP, é professor e economista.


O deixar a situação degradar-se de dia para dia, agindo a reboque e sempre a meio gás, não garantindo a coordenação global de um assunto tão complexo e não garantindo que todas as pontas ficassem agarradas, só poderia dar em bagunça como deu.


Que mais de um mês decorrido ainda andem todos a negar a paternidade da borboleta ou a dizer que agiram sob o efeito de substâncias que os outros lhes ofereceram ou que desconheciam os efeitos secundários da coisa é sintomático do bardinanço que tem sido todo este processo: gerir o assunto com os pés em vez de com pinças cuidadosamente manuseadas, uma descoordenação incompreensível, um amadorismo aterrador, um experimentalismo leviano, uma ligeireza que demonstra desconhecimento da realidade prática da gestão e, também, muita, muita cobardia.

Pode não penalizar os depositantes mas a ver vamos o efeito sobre os outros bancos e sobre a economia em geral. Já para não falar no efeito de desconfiança no sistema bancário português que já há-de ter levado muitas poupanças para bancos estrangeiros, nomeadamente para bancos alemães.


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O buraco




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O poema Quadrilha é da autoria de Carlos Drummond de Andrade que aqui também o lê.

O último vídeo é um excerto do bailado The Hole de Ohad Naharin numa interpretação pela Batsheva Dance Company 


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Ainda não é hoje que acabo o dito post que comecei há uns dois dias e que está quase pronto. Há bocado, em vez de o acabar, pus-me a fazer isto que acabaram de ver e, como de costume, fui escrevendo, escrevendo, e depois ponho-me a enfeitar o texto com imagens e depois mais isto, aquilo e o outro e agora já passa da uma e meia da manhã. E esta minha semana é tão repleta de coisas para resolver e tantos telefonemas e reuniões que tenho que me levantar cedo e ir de cabeça fresca. 

E esta terça feira é o debate dos Antónios na TVI - e tomara que o Seguro contenha o ódio e não desate a cuspir na cara do Costa ou que não lhe dê para fazer birra em directo - que o mais certo é que depois me apeteça falar nisso.  


[A ver se a pobre Judite Sousa (... sem 'de'!) já está operacional pois esta segunda feira não apareceu e ouvi, no domingo, o José Alberto Carvalho dizer ao Prof Marcelo que lhe tinha morrido mais um familiar próximo. Pobre mulher, credo. Tomara que consiga ultrapassar este período negro da sua vida e que as marcas se vão esbatendo com o tempo. E tomara que tenha junto a si alguém que a apoie neste período tão difícil da sua vida.]


Bem, logo vejo quando é que completo e publico aquilo. Qualquer dia perde a oportunidade. Eu devia escrever menos ou aprender a portar-me como gente séria que enfeita o texto com gráficos e não com carinhas de pau.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira. 
Muita saúde e muita sorte é o que vos desejo.



domingo, julho 29, 2012

A lua que, aqui in heaven, aparece branca e suave quando o céu ainda está azul diurno; as minhas pedras que guardam este templo e os meus livros em férias


Para vos acompanhar na leitura do texto, música, por favor

Dead Combo e Camané - Ouvi o texto muito ao longe

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Um sábado tranquilíssimo. Sono solto, calor, descanso, leituras, telefonemas, fotografias, culinária (dia de choquinhos cozidos com tinta para o almoço), pequenos passos em volta já que o repouso teve que voltar. É isto o lazer. O verão no campo. 



Hoje de tarde, a lua num céu límpido e, à direita, a minha grande e protectora azinheira


E há a lua que se desenha num céu límpido ainda a noite vem longe. A lua em quarto crescente, boa para nascerem crianças. Quando os meus filhos estavam para nascer eu olhava a lua e, de noite, quando estava lua cheia, levantava a roupa para que o luar os iluminasse, gostava de sentir o luar na minha barriga enorme. Nasceram também no verão, estava muito calor e eu estava muito feliz, adorei estar grávida, adorava senti-los dentro de mim. Durante muito tempo senti saudades desses movimentos largos de quando eles já eram grande e se ajeitavam dentro de mim. Ainda sinto, mas são umas saudades de uma realidade já longínqua. 

Para além desta lua branca, esboçada num céu muito azul, há também as cigarras, os pássaros vagarosos, as lagartixas que se escondem, e há as sombras sobre os muros, e o cheiro de um dia quente, e um cão que ladra lá bem ao longe. 

E há as minhas pedras que eu olho como se fossem habitantes deste local, habitantes com tantos direitos como eu, seres de outros tempos.



As minhas amadas pedras que saíram do interior da terra. Estão trabalhadas pelo tempo.
Olho-as como animais ou seres do início dos tempos, guardiãs deste lugar sagrado


Hoje, de tarde, resolvi juntar os livros que reservei para estas férias, os que ainda tenho para ler ou para completar ou consultar, colocá-los sobre uma pedra para vos mostrar. (E depois vou transcrever, ao acaso, uma pequena passagem de cada um, para vos transmitir um 'cheirinho').



As minhas leituras em férias, aqui sobre uma das grandes pedras assentes no chão cheio de folhas


Reparei que me esqueci de juntar o 'A menina é filha de quem?' da Rita Ferro mas talvez seja porque já o li ou, se não é por isso, que venha o Freud e explique.

Passo então a dizer quais são:


> 'Memória breve de Ferreira de Castro' de Papiniano Carlos, editora Húmus


E assim Zéquinha foi forçado a rumar para o interior da Amazónia.

Aqui no Seringal Paraíso, na margem do rio Madeira, consumiu a adolescência em duros trabalhos, miséria, imensa fome, abjecta escravidão. E ainda um medo medonho das flechas envenenadas, mortais, dos índios Parintintins.

Aqui passou, suportou, três anos que jamais esqueceria.

E regressou a Belém do Pará, onde foi empregado de armazém, colador de cartazes, moço de bordo num barco de cabotagem.

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> 'A praia' de Cesare Pavese, editora Ulisseia, tradução do italiano por Ana Tomás


Mirei-o pelo canto do olho, com má vontade e curiosidade. Berti é daqueles que vão à escola porque os mandam e, quando falamos observam a nossa boca com olhos intumescidos e entediados. Naquele momento, nu e bronzeado, abraçava os joelhos e sorria, inquieto. Veio-me à cabeça a possibilidade de serem, porventura, estes os rapazes mais perspicazes.

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> 'O retorno' de Dulce Maria Cardoso, editora Tinta da China


O avião é um bocadinho antes da meia-noite mas temos de ir mais cedo. O tio Zé vai levar-nos ao aeroporto. O pai vai lá ter depois. Depois de matar a Pirata e de deitar fogo à casa e aos camiões. Não acredito que o pai mate a Pirata. Também não acredito que o pai deite fogo à casa e aos camiões. Acho que ele diz isso para não pensarmos que eles se ficam a rir. Eles são os pretos.

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> 'Caderno de memórias coloniais' de Isabela Figueiredo, editora Angelus Novus


Manuel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligeiros, um veículo todo-o-terreno, uma carrinha de carga, mais uma camioneta, duas vivendas, três machambas, bem como a conta no Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais.

Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures? Eu há muitos anos que o substituí pela aorta.

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> 'A submissa' de Fiódor Dostoievski, editora Arbor Litterae, tradução do russo António Pescada


Sim, aquele rosto meigo tornava-se cada vez mais insolente. Acreditem, eu tornava-me repugnante para ela, isso estudei-o bem. Mas que ela tinha arrebatamentos que a faziam sair de si, disso não havia dúvida. Como era possível, por exemplo, saída de tanta lama e tanta miséria, depois de ter andado a lavar o chão, começar de súbito a troçar da nossa pobreza? Compreendam: não havia pobreza, havia economia, mas naquilo que era preciso até havia luxo, nas roupas por exemplo, na limpeza. Eu sempre pensei, mesmo antes, que a limpeza do homem seduzia a mulher.

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> 'Crucifixion' da Phaidon



Craigie Aitchison, oil on canvas, 1997-8, private colection


The small dog which appears in this and many others crucifixions by Craigie Aitchison puts one in mind of Psalm 22, the opening words of which are quoted by Christ on the cross. The Psalm continues: ' Dogs have surrounded me; a band of evil men has encircled me, they have pierced my hands and my feet... they divide my garments among them and cast lots of my clothing'

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> 'A Europa desencantada - para uma mitologia europeia' de Eduardo Lourenço, editora Gradiva


Construir a Europa por irresistível pressão das forças económicas e uma lógica que é hoje planetária, como sonâmbulos, não é projecto que entusiasme ninguém. Uma utopia europeia assumida só é digna de ser vivida como Europa sobre a Europa, da ficção de si mesma que, consciente ou inconscientemente, tem condicionado o seu destino, contra a sua realidade. Em suma, do triunfo da sua sublime não-identidade sobre os fantasmas da sua alucinada identidade.

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> 'Tempo da Música, Música do Tempo' de Eduardo Lourenço, editora Gradiva



Beethoven, 3ª Sinfonia, dir. Karajan


Karajan dirigindo a 3ª de Beethoven. Como se a orquestra executasse para ele, médium, foco absorvente das vagas da orquestra, e só seu invisível senhor.

Conduz de olhos fechados, como de cor, vivendo no sentido de Baudelaire a música que nasce simultaneamente dos seus dedos e dos músicos. Espectáculo prodigiosamente romântico como se Beethoven ressuscitasse. Sinfonia Heróica? Je veux bien. É de uma melancolia pavorosamente terna, viagem no labirinto da solitude de um ardente coração, o 2º movimento.

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> 'Nova reunião, 23 livros de poesia' de Carlos Drummond de Andrade, edições BestBolso


                     O poeta
                     declina de toda responsabilidade
                     na marcha do mundo capitalista
                     e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
                     promete ajudar
                     a destruí-lo
                     como uma pedreira, uma floresta
                     um verme

*

> 'O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor' de Ruy Belo, editora Assírio & Alvim


                      És e renasces como a pura linha do amanhecer
                      e como o sol primeiro és incandescente
                      rosado de repente e logo a pouco
                      e pouco cada vez mais rubro e mais intenso
                      até à amarela gema de ovo que é o sol ao pôr-se
                      Quanto eu não dava deus por sempre te ouvir rir
                      riso tão fresco como tilintar de loiça
                      Não confies em mim mulher mas desconfio haver de amar-te
                      até ao fim do mundo

*

> 'Amor livre e outras histórias' de Ali Smith, editora Quetzal, tradução de Helder Moura Pereira


Quando estivemos juntas da primeira vez passávamos a vida a ter sexo. A única coisa de que me lembro em relação a esse tempo é que tínhamos sexo, lembro-me como uma névoa de onde ocasionalmente os pormenores emergem com tal precisão que se transformam em farpas, uma névoa de nós duas na cama ou de mim a encostar-me a ti contra o irradiador ou a correr os cortinados da sala da frente ao meio-dia e a voltar para o sofá, tu recostada nele a abrires a camisa, eu a desapertar os botões dos teus jeans da Chelsea Girl. 


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Agora, que estou a acabar de escrever, são quase 3 da manhã e o vento entra pela chaminé da salamandra, fazendo com que a sua porta de ferro bata conforme lá fora ele sopra. Estou ainda a ouvir Beethoven e o som do vento nas árvores e o da porta da salamandra, misturam-se com os acordes da música. Gosto, fica um som agradável, são os sons da minha casa nesta noite ventosa de verão.

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Isto saíu longo (espero que não tenha muitas gralhas porque, dado o adiantado da hora, já não me apetece reler uma coisa tão comprida) e só por despudor vos posso ainda convidar a fazer uma visita ao meu Ginjal e Lisboa. Há algum tempo que o não actualizava. Hoje as minhas palavras movem-se saudosas em torno de um poema de carlos Drummond de Andrade e ao som de Jordi Savall. Se ainda estiverem para me aturar mais um pouco, gostaria de vos ter também por lá.

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E, com isto, daqui a nada é uma bela manhã de domingo.
Espero que seja um bom dia para vocês!

sábado, junho 02, 2012

A beleza da poesia dita, escrita, proseada, antevista, dançada (Mário Cesariny e Carlos Drummond de Andrade ditos; António Ramos Rosa lidos; o amor que não tem idade fotografado no Ginjal e em Cacilhas; e o fulgor da dança pelo Grupo Corpo ao som de Lecuona) - e tudo em volta do amor, claro


Hoje peço-vos o favor do silêncio, do tempo que passa em paz, de uma respiração pausada, de um olhar tranquilo, hoje peço-vos que venham comigo devagar, bem devagar.


Vamos, por favor, ouvir:

Rogério Samora, acompanhado de Rodrigo Leão (autor da música) lê Poema de Mário Cesariny


E agora ler, sentindo as palavras a deslizarem leves à nossa volta:


Por vezes de um poema concluído
subsiste um aroma frágil instantâneo
que acende sobre nós uma ingénua estrela
que ilumina os nossos gestos
e aligeira os passos sobre as pedras claras


E agora ver, sentir o verde, sentir ternura pelos corpos que se confundem com as flores:

No suave Jardim do Ginjal


E ler outra vez e apalpar as palavras que falam deste jardim que estremece rente ao chão:


Aceita, acolhe a minúscula anatomia de um jardim: os insectos com as suas múltiplas facetas e as delicadas antenas com que se orientam. Ao rés do chão: um ramo partido, uma formiga, a baba de um caracol. Fascinantes, meticulosos são os vocábulos que compõem as constelações legíveis, intactas. Uma fábula adormece ao sol das folhas: o jardim é um estremecimento.


E, de novo, deliciar-nos ouvindo, deixando que as palavras nos beijem 'como se tivessem boca':

Amar, poema da autoria de Carlos Drummond de Andrade


E, mais uma vez, ler em silêncio para sentir o sopro que se eleva dos barcos que hão-de vir, silenciosos:


Trago na palma da mão a luz diurna: e a ferida no flanco. O meu deus, o meu demónio, respira fundo e alto. Ela, a minha múltipla companheira, é uma coluna silenciosa e ardente. A luz sela esta aliança entre o sopro e a matéria e uma voz se eleva nos barcos do silêncio.


E, ainda em silêncio, dar graças pelo amor sem idade, resguardado, quer o vejamos em nós, quer nos outros:

Em Cacilhas, o Tejo correndo suave e Lisboa, tão perto

E, pela última vez, ler em repouso, devagar:


Era um país
para onde se ia adormecendo

e se caminhava no repouso

como num adeus invertido
ou numa folha enrolada
no seu próprio silêncio



E, finalmente, agora que estamos repousados, vamos dançar ao som de uma música feita para darmos largas ao corpo - e que viva o amor!

Grupo Corpo Companhia de Dança, coreografia de Rodrigo Pederneiras, música de Ernesto Lecuona




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O poema e os pequenos textos em itálico são da autoria de António Ramos Rosa in Antologia Poética

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Tenham, meus Caros Leitores, um belo sábado, se possível rodeados de beleza, de paz e de amor.