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segunda-feira, abril 03, 2023

Dias numa espécie de limbo.
E os hábitos e os alimentos saudáveis das pessoas com mais de 100 anos

 



Há bocado o meu filho perguntou se tínhamos ido passar o dia ao campo. Só então me lembrei dessa nossa intenção. Éramos para ter ido, de facto. Acontece que nos esquecemos. Não dá para acreditar mas juro que é verdade. Esquecemo-nos.

No sábado à noite estava tão cansada e fiz um esforço tão grande para não adormecer na sala não fosse depois faltar-me o sono na cama que, afinal, espertei tão radicalmente que voltei a ter uma insónia das brabas. Só adormeci de manhã, provavelmente perto das seis. Horrível. Por isso depois dormi até às onze. 

E, de tarde, depois do almoço, fui até ao cadeirão e adormeci. Devo ter dormido, no mínimo, mais de uma hora. E o meu marido, ainda que em ciclos distintos, também esteve hoje fora de combate.

Pode parecer estranho mas é verdade. A minha filha já sugeriu que fizéssemos umas análises se isto continuar assim. Se calhar. Se nos mantivermos assim na volta teremos mesmo que investigar o que se passa, se isto é normal, esta falta de energia.

Felizmente não precisei de cozinhar. Hoje, quer ao almoço quer ao jantar, comemos restos. Por exemplo, ao jantar e tudo em frio, a minha refeição foi: um bocadinho de arroz, meio hambúrguer (de carne de vaca e porco), meio queijo fresco de cabra (usando o líquido para temperar), uns quantos bagos de uva, uma maçã pequena cortada aos cubinhos, alface, um bocado de paté de frango (1) e o que sobrou da emulsão de tomate (2). Temperei com azeite e orégãos. 

Soube-me lindamente. Cada vez gosto mais de comidas assim, frias, simples, feitas na hora. Misturadas variadas.

(1) Paté de frango, feito para barrar fatias de pão torrado no forno:

Cozi peito de franco com um cebola grande e meio alho francês. Escorri o caldo. Depois moí tudo (carne, cebola, alho francês e salsa) com varinha mágica e fui juntando o caldo qb (que foi quase todo pois cozi com pouca água). Juntei sumo de limão, cebolinho fresco, um pouco de ketchup, azeite. Moí bem até ficar uma pasta cremosa.

(2) Emulsão de tomate, idem para as tostas em cima da qual coloquei salmão fumado:

Num copo misturador, coloquei três tomates bem maduros e moí bem. Depois juntei um pouco de sal, um pouco de coentros frescos e orégão e fui juntando, devagar, um fio de azeite enquanto continuo a bater com a varinha. 

Fizemos duas caminhadas, uma antes de almoço pelo campo aqui perto, outra, ao fim do dia, aqui pelo meio das casas, passeio que adoro fazer. 

Pelo meio só me sobrou tempo para fazer umas pesquisas para me ajudar na mais ingrata das tarefas: a escolha do nome do livro e do pseudónimo. Ontem testei os que tinha escolhido e não fui muito bem sucedida. 

  • No que respeita ao título, eu também não estava muito convencida. Hoje tive um vaipe. Já está. 
  • No que se refere ao pseudónimo é que é do caraças. Claro que o meu marido, em vez de ajudar, só desajuda. Goza, desconstrói, parodia e depois, se quero que leve a sério, já o apanho com a paciência esgotada. A Fátima, estimada Leitora, deu-me boas sugestões mas como agora meti na cabeça que quero um pseudónimo que, eventualmente, venha a vingar doravante, a coisa fia mais fino. 

Cada vez a televisão ocupa um espaço mais diminuto nas nossas vidas. Só à noite a ligamos. Eu vou espreitando enquanto brinco com o computador, o meu marido usa-a para refilar, fazer zapping ou adormecer. Mas há bocado estive a ver, em gravação, a entrevista da Rita Ferro, na sua casa em Salvaterra, com o Goucha. Gostei de ver. É ela. 

O meu marido no fim disse: 'Não acredito em nada do que ela disse'. Fiquei admirada. Eu acreditei em tudo. Ele não. Diz que acha que ela diz o que, no momento, lhe apetece dizer ou que acha que vai produzir mais efeito. 

Fiquei a pensar que isto de existir é uma coisa ingrata: haverá sempre quem não acredite no que dizemos ou que distorça ou desvalorize o que dizemos. Pensamos que estamos a ser genuínos, a falar com o coração nas mãos, e depois alguém diz: 'nada daquilo é sincero'. Ou o contrário: quantas vezes as pessoas encenam uma pose, exibem um personagem, tudo teatro. E, no fim, algumas pessoas concluirão: 'Pessoa franca, exemplo a seguir'.

Enfim. É o que é.

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Partilho um vídeo com hábitos de vida saudáveis

[Tem legendagem em português]

Os hábitos e os alimentos mais saudáveis que estão presentes na vida de pessoas com mais de 100 anos

Como se vive nas Blue Zones?

Have you ever wondered how people in certain parts of the world live well into their 100s with remarkable health and vitality? These people live in the so-called "blue zones" and they have several things in common, one of which is their diet. In this video, we'll be exploring the specific foods that are commonly consumed by centenarians in blue zones and have been linked to longevity.


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Os cães foram pintados por Franz Marc
E, na partida de Ryuichi Sakamoto, Forbidden Colours

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Inteligência. Paz.

quinta-feira, dezembro 30, 2021

Envelhecer de levezinho
(isto é, sem que se seja um peso para os outros)

 


Há o lado bonzinho da questão: a sabedoria, a felicidade tranquila e contagiante. As rugas que são lindas, sinónimo de histórias de vida. Os cabelos brancos que são sinónimo de orgulho numa longa vivência. Claro que sim, é verdade. Termos na família pessoas que vivem até muito tarde, tendo eles a alegria de assistir à propagação dos seus genes, bisnetos crescidos e bem dispostos, a progredirem nos estudos, é uma alegria. E, para todos, termos respectivamente a mãe, a avó e a bisavó viva é uma bênção.

Creio que, num ponto de vista estritamente pessoal, ninguém contesta isto. São bons princípios, boas intenções. E, de resto, o que seria da vida sem o bom condimento do lirismo?

O problema é que, ao viverem muitos anos depois de se reformarem, passando a ser beneficiários líquidos da segurança social, as pessoas de idade tendem a deixar esse sistema exaurido. 

O dinheiro que cada um desconta não fica guardado numa caixinha à espera que a pessoa precise dele. Não. Cada ano há os que descontam e, simplificadamente falando, com essa verba paga-se a quem se deve nesse mesmo ano.

E tudo estaria bem se o edifício demográfico estivesse equilibrado. Melhor ainda se tivesse uma enorme base de gente jovem a alimentar o sistema.

O grave é quando a pirâmide começa a ficar distorcida, quando começa a haver poucos jovens e poucos contribuintes e muitos idosos a ganhar as pensões e a consumir muitos recursos, nomeadamente nos serviços de saúde.

Aqui chegados, quando a manta não chega para tapar todos os que precisam, quando estamos perante impossibilidades aritméticas, quando o edifício da democracia e da solidariedade intergeracional ameaça ruir há que começar a tomar medidas. 

  • A primeira medida será conseguir que a pirâmide tenha uma base sólida. Elementar. Para isso há que fazer de tudo para que haja condições para que as famílias tenham mais filhos. São necessárias mais crianças. Os jovens adultos tem que procriar mais abundantemente. Faça-se o que for preciso: licenças parentais longas sem quebra de rendimentos, creches gratuitas, livros e material escolar gratuito, redução no IRS, alargamento do período de férias, redução do horário de trabalho -- tudo o que for necessário.
  • A segunda medida será 'injectar' contribuintes no sistema. Para tal, é fomentar a imigração. É bom para a cultura, é bom para a economia. É bom para tudo. Seja acolhendo refugiados, seja facilitando a integração de imigrantes, seja o que for (desde que o seja de forma controlada quer em quantidade quer em 'qualidade' -- mais concretamente, sem risco de importar casos que ponham em risco a segurança nacional)
  • A terceira medida será conseguir que os trabalhadores sintam prazer em trabalhar (e descontar para impostos e segurança social) até mais tarde e estejam disponíveis para abraçar novos desafios, ter novas ocupações. Não apenas isso os ajudará a terem um envelhecimento de qualidade como ajudará a que tenham rendimentos para suportar os seus gastos não tendo, forçosamente, que viver apenas, durante tantos anos, apenas das pensões de reforma: e, desejavelmente, poderão também custear alguns dos seus tratamentos não tendo que recorrer exclusivamente aos serviços de saúde públicos (e gratuitos). Dirão alguns que isso irá ser bom para o negócio dos seguros privados de saúde. É verdade. E isso não é problema para ninguém. Será, também aí, uma ajuda à economia, criação de postos de trabalho, mais impostos pagos para ajudar a suportar os cuidados de quem não os pode pagar. 
  • A quarta medida é uma decorrência das anteriores e consiste em encarar o envelhecimento não como um pesadelo para a sociedade mas como oportunidade de trabalho para muita gente. Em vez de ter as pessoas de idade, especialmente as doentes e dependentes, fechadas em casa, sendo um 'peso' para a família, ou a definharem em lares e residências, passar a ter formas de ter as pessoas acompanhadas e tratadas, disponibilizando serviços de assistência ao domicílio ou, então, residências seniores de qualidade. Cada um pagará o que os seus rendimentos o permitirem mas, ao gerar emprego para muita gente, teremos essas pessoas a efectuarem descontos e, portanto, a ajudarem a equilibrar as contas.
O tema é daqueles que não se recomendam para os dias de festas. Bem sei. Mas é bom que haja consciência que, sem isto resolvido, um dia não haverá razão para festejar.

Há problemas graves que ameaçam a humanidade: a deterioração climática com todos os desastres que se anunciam, as pandemias e a falta de qualidade do ar que se respira... e o desastre demográfico em alguns países, nomeadamente e de forma preocupante, em Portugal. 

[Já agora: em minha opinião, estes deveriam ser os principais temas das próximas legislativas e a forma como os partidos se posicionam perante eles o principal factor de decisão nas nossas escolhas]. 


O vídeo abaixo aborda o tema do envelhecimento -- e está bem feito e é elucidativo. Se puderem, por favor vejam-no.

The World Ahead: the true costs of ageing | The Economist

The rich world is ageing fast. How can societies afford the looming costs of caring for their growing elderly populations? 
00:00 The wealthy world is ageing
01:17 Japan’s elderly population
02:11 The problems of an ageing world
04:01 Reinventing old age
05:48 Unlocking the potential of older years
07:09 Reforming social care 
08:20 A community-based approach
11:08 A fundamental shift is needed 

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Pinturas de Franz Marc ao som de Prince Kaybee, Shimza, Black Motion, Ami Faku interpretando Uwrongo

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Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Ânimo. Descobertas boas.

sexta-feira, julho 16, 2021

Que nome dar a este dia?

 





Estive ocupada até há pouco. À hora de almoço fomos ao supermercado. O meu marido vem de lá sempre irritado, diz que não percebe como é que é preciso trazer sempre tantas coisas. Fruta, legumes, pão, kefir, iogurtes líquidos para os miúdos, sumos para os dias de festa, cervejas, peixe, alguns dos ingredientes para domingo. Desta vez não vieram detergentes, gel ou shampoo. Desta vez, que me lembre, apenas comestíveis. E, no entanto, viemos carregados.

Quando estamos a arrumar as coisas desejo sempre não ter que lá voltar tão cedo.  Mas já sei que qualquer dia estamos, de novo, lá caídos.

Depois do trabalho, fomos à Decathlon. O meu marido precisava de uns ténis. Andava também com uma dor no pé e, por vezes, na perna. Podia ser para me imitar ao retardador mas não é coisa que faça bem o seu género. Como começou a doer a seguir à vacina e como as vacinas têm as costas largas, ainda se pensou que se calhar era dela. Mas não. Foi, então, ao médico. Se bem entendi, o médico ter-lhe-á dito que é uma de três: ou o facto de já não ir para novo ou incursões matinais puxadas de mais ou ténis já gastos. Optou pelos ténis.

Se fosse noutros tempos, ele teria vindo de lá sem nenhuns e eu com uns. É que ele é esquisito, pouca coisa lhe agrada e, sobretudo, não tem paciência nem para olhar para os expositores e, muito menos, para os provar. Enquanto isso, eu olharia para os de mulher e como não sou esquisita e tenho paciência para tudo e mais alguma coisa, rapidamente encontraria uns mesmo lindos e úteis. Hoje não. Mal lá cheguei, pensei: não preciso de nada. Então, empenhei-me em descobrir uns bons para ele. E trouxe: giros à brava e, aparentemente, super-confortáveis.

De caminho, aproveitámos para aprovisionarmos vestimentas para o primeiro leão da série e, já agora, a seguir, aproveitámos para ir comprar sardinhas assadas. Magras, sem graça. Mas, pronto, não tive que fazer o jantar e sardinhas são sardinhas são sardinhas. Ou seja, não sendo rosas, são um peixe igualmente cheio de carisma. Comeram-se e ainda pingaram o pão.

A seguir liguei ao meu filho não fosse ele ligar-me muito tarde. Apareceu-me o menino do meio a dizer qualquer coisa que não percebi e logo o mais novo apareceu a falar numa espada. Disse que não percebia. Que espada? Disse-me: uma espada para o super-herói. Perguntei: mas porque estás a dizer isso? Resposta: é para comprares a farda. O irmão neutralizou-o: não é nada. E passaram-me, então, o telefone ao meu filho. Acabei por não perceber o tema do super-herói. 

Depois fui aperaltar-me. Depois fui sentar-me frente ao computador para ver como ficava. Até me perfumei. O meu marido disse: quem é que se perfuma para uma coisa em zoom? Respondi: para o que é, sinto-me mais completa se estiver perfumada. Não me disse nada. Sei que não percebe e que já desistiu de perceber. Eu também não saberia explicar. O mundo está cheio de coisas inexplicáveis.

Das dez à meia-noite estive no zoom e foi muito interessante. Une première. Cenas de que naturalmente não posso falar.

A seguir despi-me e vim para aqui: vi o House e só depois agarrei no computador. 

Hoje ouvi, enquanto vínhamos no carro, que há vendavais e enxurradas na Alemanha e que já morreram 59 pessoas. Em Liège a confusão está também armada com a população a ser aconselhada a sair da cidade devido à expectável subida do rio. O clima está desesperado e o tempo avança entre os sobressaltos que o planeta está a sofrer. Ouço que não sei onde, creio que algures no Canadá, a temperatura rasou os 50ºC. Não sei como vai ser. Será talvez o inferno a subir das profundezas da terra para devorar os homens que, á superfície, tão mal têm feito à natureza. Nem quero pensar no planeta que vou deixar aos meus descendentes. Uma vergonha.

Devia ser a maior de entre as grandes prioridades do mundo nos próximos dez anos: voltar a pôr o planeta no trilho da sustentabilidade. Melhor: da sobrevivência.

Bem. 

Hoje não vou responder a comentários nem vou conseguir escrever mais. Estou com muito sono. 

É que, ainda por cima, acordei com as galinhas. Barulho na rua, o meu marido já a pé. Espertei. Depois ainda tentei dormir um pouco mais mas já não consegui. Portanto, a overdose que foi o dia de hoje em cima de cerca de quatro horas e tal de sono da noite passada, estão a puxar-me daqui para a fora: Ala moça, ide para a caminha.

Vou.


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Pinturas de Franz Marc ao som de A Flor Encarnada na interpretação de Maria Bethânia

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E aos que estão acordados... esperam por mim para um pezinho de dança?

The Sexican - Cuarto de la Banda

Um belo dia, ok?

quinta-feira, fevereiro 27, 2020

Thanks for the Dance


Thanks for the dance
I'm sorry you're tired
The evening has hardly begun
Thanks for the dance
Try to look inspired

One, two, three, one, two, three, one

Amavam-se sem saberem como se amar. Amavam-se evitando-se. Amavam-se temendo todas as impossibilidades e, ainda mais, todas as possibilidades. Amavam-se vendo o tempo passar sem que os seus caminhos convergissem. Amavam-se sem saberem se era amor aquilo que sentiam. Amavam-se sem saberem se eram retribuídos. 

And there's nothing to do
But to wonder if you
Are as hopeless as me
And as decent

Amavam-se e eram incapazes de tentar obter uma resposta. Amavam-se farejando-se de longe, temendo o perigo da proximidade. Amavam-se, sem saber se era amor o que sentiam. Amavam-se incapazes de o dizer. Amavam-se alimentando-se de todas as dúvidas. Amavam-se como se não pudessem viver um sem o outro, sabendo que sempre viveriam um sem o outro. Amavam-se ignorando-se. Amavam-se desconhecendo-se.

We're joined in the spirit
Joined at the hip
Joined in the panic
Wondering
If we've come to some sort of agreement

Amavam-se por vezes cansados do amor-desamor que os habitava. Amavam-se e não havia metáforas que o pudessem disfarçar. Amavam-se sem esperança, na maior solidão. Amavam-se fingindo que não era amor o que sentiam. Amavam-se acreditando que não era amor o que sentiam. Amavam-se sentindo-se agradecidos por se amarem. 

Thanks for the dance
It was hell, it was swell
It was fun
Thanks for all the dances
One, two, three, one, two, three, one

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Thanks for the Dance
There's a rose in my hair, my shoulders are bare
I've been wearing this costume forever
Turn up the music, pour out the wine
Stop at the surface, the surface is fine
We don't need to go any deeper

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[As raposas solitárias que atravessam a noite em silêncio foram pintadas por Franz Marc]
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quinta-feira, julho 18, 2019

Em tudo havia beleza
[Mas eu agora mal consigo ter tempo para ela]





Só para dizer que estou esperançada de que a partir da próxima semana e até ir de férias o meu ritmo possa abrandar. Mas até chegar ao fim da semana vai ser obra.

E se há trabalhos que faço de gosto há outros para os quais parto em esforço -- e os que invadem todo o meu espaço e me deixam sem tempo para mim são deste último tipo. Gosto de gerir o meu tempo. Fico impaciente e cansada quando não consigo dispor nem de uma escassa fracção de tempo, quando não consigo nem uns minutos em que não tenha que estar com atenção. Satura-me ter que estar no activo desde madrugada até tarde na noite, para recomeçar no dia seguinte logo ao romper do dia e, uma vez mais, non stop até que o dia acabe,

Quando digo que admiro as pessoas que exercem cargos públicos -- até pelo facto de terem que estar disponíveis todos os dias, de sol a sol quando não de madrugada à noite -- falo genuinamente. Não ganham tanto quanto isso e sacrificam completamente a sua vida pessoal e familiar.
Sei que muitos dos que me lêem (a Isabel, por exemplo) não concordam nada com isso, acham que é tudo gente oportunista e que, por muito que eles se esforcem, nunca lhes devemos nenhum agradecimento. Eu não penso assim. Claro que há, entre eles, gente corrupta, incompetentes e caciques. Esses, bem entendido, não merecem qualquer admiração ou apoio, merecem repúdio ou cadeia. Mas os que generosamente dão muito de si a bem dos outros, a esses eu acho que somos devedores de gratidão.
Mas isto para dizer que ultimamente não me chega o tempo para mim e me sobra o trabalho e isso, no balanço dos dias, pesa-me, deixa-me com a sensação de tempo mal aproveitado e, sobretudo, com vontade de férias.

Penso em falar de algumas coisas, falar de livros, evadir-me, inventar gente, dar vida a quem existe apenas aqui, contar história, criar romance, pôr-me dentro da pele de mulheres imaginadas e desatar a ultrapassar obstáculos,  a apaixonar-me por homens ficcionados ou armar ciladas de sedução a outros apenas antevistos, pôr toda a gente a viver loucuras, desafiar uns e outros, rir, chorar, ficar a pensar no que irão eles fazer a seguir -- e não tenho disponibilidade para isso. E fico a atrasar enredo, a atrasar conversa, a atrasar palavrinhas sobre livros ou sobre outras coisas; e, com o tempo, vou esquecendo o que tinha para dizer porque as ideias vão sendo devoradas pela pressão dos dias.

No entanto, não posso esquecer-me que está quase a fazer um ano que, estando eu em idêntico vórtice, fui surpreendida com um convite tão do além e tão irrecusável que fiquei numa saia de tal forma justa que, tendo resolvido dizer que não, assumi sérios riscos e passei por momentos muito difíceis. Mas de tal forma avancei de peito feito para o não que parece ter sido remédio santo. Contudo, dentro de mim parece que ficou a bailar o receio de que volte a acontecer. Ainda no outro dia um colega me dizia que tinha recebido um convite que era daqueles a que não se pode dizer que não. E, então, vai passar parte da vida num distante continente, viagens de muitas horas que fará de quinze em quinze dias para ver a família. Está apreensivo, sabe que corre risco de ser trucidado pelos lítigios que vai ter pela frente, está aborrecido porque vai ficar longe das duas filhas adolescentes. Mas não lhe passou pela cabeça dizer que não pois, segundo ele, quando se recebe um convite destes, não se pode dizer que não. Eu, sem pensar, teria dito: não. São maneiras de ser. Ou estadios do nosso percurso.

Mas é assim mesmo, é a vida. Uma sucessão de desafios, de descrenças, de entusiasmos, de cansaços, de alegrias. E de sei lá que mais. Tanta coisa.

Hoje, no trânsito, li quais os livros que o Prof. Marcelo tem para o verão. E à hora de almoço fui numa corrida a uma livraria e, pimbas, voltei a pecar. Não todos mas o qb. Comprar livros sabendo que o tempo não me chega para meia dúzia de linhas, quanto mais para meia dúzia de livros é vício, é doença, é pecado. Mas é também prazer e a minha alma de pecadora fecha os olhos quando a tentação aperta e, então, eu avanço às cegas, disposta a ceder.

Foram o 'Leonardo da Vinci' de Walter Isaacson, a 'Educação do Delfim, cartas de Calouste Gulbenkian a seu neto', 'Em tudo havia beleza' de Manuel Vilas. E depois, estando já no trilho do pecado, foram mais dois. Não resisti: 'Nem um dia sem uma linha' de Mário de Carvalho e 'Trajectos filosóficos'  de José Gil. E tenho ideia que outro mas acho que o meu marido já rapinou daqui um, levando-o para ler na cama. 

Estou a pensar se devo levar um para estes dois dias mas a verdade é que, na viagem, vou sempre na conversa  e, lá chegada, não tenho um minuto e, quando chegar à noite ao quarto, já irei capaz de cair para o lado e, ainda assim, tentarei vir ao blog escrever umas tretas de nada. Mas tenho isto, outra mania, levar sempre um livro. Melhor, dois. Para o caso de poder ler; e dois pois posso não estar com disposição para um, tenho que ter alternativa. Maluqueiras. Mas estou com uma tremenda vontade de ler 'Em tudo havia beleza'. Acho um título muito bonito. E é tão verdade: em tudo há beleza. Não há?

É também poeta, ele. Fui ao Youtube e apeteceu-me ouvir um poema dele.

Escolho este Mujeres lido por um actor e não por ele pois os que são lidos pelo próprio têm mau som. Estive a ouvir e se há passagens que me incomodaram, outras fizeram-me ter vontade de ouvir devagar.

Mujeres, Manuel Vilas


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As pinturas são de Franz Marc

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E agora vou pregar para outra freguesia pois não tarda tenho que me pôr a caminho.

Um dia feliz a todos quantos por aqui me aturam.

sábado, fevereiro 03, 2018

Mulher é desdobrável. Eu sou.
[Disse Adélia Prado e eu, aqui in heaven, neste verde tranquilo e fresco, tão longe da cidade nervosenta e borbulhante, penso que também sou. Desdobrável]



Quando aqui chegámos, ao entrarmos em casa, sentimos o frio antárctico, branco e húmido. A casa mais gelada que a rua. Mas não quisemos saber porque, depois de arrumar os mantimentos e demais trazidos, fomos para a nossa labuta. Nós no nosso corte e costura com a natureza. Ia antes dizer na luta contra a natureza mas não é luta, é uma coisa de irmãos, nós e a natureza.

O meu marido adentra-se pelas mantas de tojo e corta aqueles troncos grossos como toros e altos como gente. Eu fico-me pelo desbaste mais delicado. Retiro rebentos ladrões, ramos mais finos. Dou forma de árvore a arbustos espigados e informes. Mas tenho que ter algum cuidado. Dei cabo do ombro com o esforço de dias a podar e serrar pelo que agora tenho que maneirar, até porque ainda não estou completamente boa. Mas posso fazer algumas coisas sem que me doa pois há vários movimentos que não esforçam o tendão que sofreu a rotura parcial. Por exemplo, posso arrastar o que ele corta para o imenso monte que já se formou no so called campo de futebol para ver se amanhã se procede a nova queima.

Enquanto andamos nisto, a passarada canta a todo o volume, sente-se que estão felizes.


Quando chegámos, vi lá em baixo -- e felizmente tinha a máquina comigo -- um gato novo. Tão bonito. Branco e preto. Curioso isto: onde andam quando não os vejo? Que mais animais vivem aqui sem que eu o saiba? 

Depois, de uma árvore levantaram-se uns pássaros grandes, brancos, que, ao voarem, abriram as penas da cauda em leque. Talvez sejam rolas. Fazem um barulho que sempre me causa alguma impressão pois, do nada, do silêncio, sente-se um súbito sobressalto. Batem apressadamente as asas, as árvores agitam-se. Depois, quando os vejo voando, gosto: ou são assim brancos ou são malhadinhos, talvez perdizes.


O campo está verde, a terra coberta de musgo, os troncos cobertos de renda, os líquenes franjados. O alecrim já está florido. Enorme. A madressilva também se agiganta. Tudo cheira bem. Quando se cortam os ramos de árvores, em especial as aroeiras, fica um perfume fresco e limpo que alegra o ar.

Ao fim da tarde começou a cair uma morrinha, mas continuámos. Até sabe bem aquela humidade fresca na pele.

Andámos até ser lusco-fusco. O céu bonito. As árvores quase misteriosas, misturadas umas com as outras e com o canto dos pássaros e com a luz a desaparecer.


Já o disse muitas vezes e já deve custar a ler mas é tão verdade que tenho vontade de o dizer uma e outra vez: em momentos assim, sinto a felicidade a rodear-me, a pousar sobre mim, a entrar no meu corpo. Sinto que podia viver assim, sempre, nesta simplicidade, nesta doçura de viver, como um bicho despreocupado.

Por vezes, sentindo-me desta maneira, tão em comunhão com a natureza, pergunto-me onde está aquela outra que, durante a semana, ocupa os dias, de manhã à noite, entre problemas e crises e numa luta contínua contra prazos e custos. E a verdade é que, em momentos bons como estes, momentos vividos entre árvores e pássaros, na paz que se vive aqui, in heaven, parece que tudo aquilo me é distante e estranho, sem relevância.


Provavelmente aquela lá não sou eu, a mesma que agora vos escreve. Ou, então, é -- e, então, se calhar, sou é desdobrável. Na volta, é isso mesmo. Ou, na volta, toda a mulher o é. Ou toda a gente. Não sei. Sou bicho sem sabedoria, não sei dessas coisas mais profundas.

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Já agora, que se nos junte Adélia Prado, elegante e sábia mulher de palavras a quem os oitenta e dois anos assentam com a graça de renda delicada.




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E até já. 

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quarta-feira, agosto 23, 2017

Cavalos verdes não vi. Mas azuis, sim. Estavam ao pé dos que dançavam em roda, todos nus.



As árvores crescem de forma pouco compreensível. Se eu descrevesse o que aqui se passa poderiam pensar que estava a arremedar o realismo mágico de alguns escritores sul-americanos. Mas Acreditem: prodígios a acontecerem de dia para dia, aos nossos olhos. Gostava de vos mostrar como era, vai para cima de vinte anos: uma pedreira a céu aberto em parte coberta por mato rasteiro. Agora um bosque, árvores gigantes. Não se percebe até onde onde vão estas árvores crescer. E reproduzem-se como coelhos (que aqui também os há): aparecem pinheiros, azinheiras, aroeiras, giestas, arbustos novos por todo o lado. E num dia estão a despontar, passado pouco já estão esgueirados por aí acima como adolescentes espigados.

Mas é tudo. O alecrim ganha um tamanho como nunca vi. A madressilva agiganta-se, faz moitas surpreendentes. As videiras trepam pela grande ameixeira e dos ramos altos desta pendem gigantes cachos de uvas.


O meu marido queixa-se: 'Não se dá conta disto'. Eu não me queixo. Presencio um milagre e abençoo a sorte que tenho por me ser dado viver um tal fenómeno. Claro que temos um trabalho imenso pois, para que a natureza não nos devore, temos nós que tentar controlá-la. O meu filho, no outro dia, pasmado com o crescimento das árvores desde a última vez, assustou-se: 'A natureza vai vencer'. Não creio porque estamos cá para lhe dar luta.


Braçal, tudo. A ver se encontramos a motosserra que queremos, que nos ia ajudar bastante. E estamos em dúvida sobre um triturador. Mas, para ser em conta, é eléctrico e não daria lá em baixo. Não faz sentido estender dezenas de metro de fio nem estar a trazer as coisas cá para cima. Portanto, o triturador está interrogado. 

Ao fim do dia, o cheiro a madeira cortada, o cheiro dos pinheiros ao entardecer, a rama aparada dos cedros, tudo me parece mágico. 


Revivo aqui, rejuvenesço, transformo-me. 

Quando falei com a minha filha, ela percebeu pela minha respiração que eu estava a meio da labuta e avisou: 'Daqui por uns dias nem vais conseguir mexer-te'. Bati três vezes num tronco de madeira e disse-lhe que so far, so good. Admiro-me com a minha resistência mas não posso atirar foguetes. De facto, pode acontecer que, daqui por uns dias, o meu corpo se ressinta porque, desta vez, o esforço está a ser bem maior.


Os pássaros cantam muito ao fim do dia. Devem estar abrigados do calor durante as horas de sol e, quando vem a noitinha, é ouvi-los num chilreio feliz. Eu também. Passeio, olho o céu, as árvores, fotografo, atraso a hora de vir para casa. 


Depois tomo um belo banho, ponho betadine nos arranhões (ao contrário do meu marido que se protege, eu ando sem luvas e de biquini; não é para fazer género, claro, mas é que não suporto o calor; felizmente não se vê da rua, senão, vestida, nem sei como me aguentaria), e vou jantar (o jantar são geralmente sobras do almoço, saladas, queijo, fruta).

Só depois ligo o computador. Mas, como abaixo já vos contei, ainda tenho trabalho para fazer e, portanto, este post, tal o que poderão ver abaixo, sobre a bola de pedra tatuada, são um mero amuse-bouche.


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Ontem, ao falar do bosque que é nosso filho, dizia que, para ser melhor só se visse passar, por entre as árvores, cavalos verdes. Daí o título deste post.

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Não são verdes, mas são azuis os cavalos que, por aqui, vejo. E andam entre o verde, no campo, e não no mar.


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E queiram continura a descer, caso vos apeteça continuar in heaven.

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Até já.

(Queria falar da entrevista da Graça Fonseca e das reacções mas, bolas, vi agora que a Estrela Serrano já me tirou as palavras da boca. Por isso, não sei se ainda falarei disso. Já vejo)

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quinta-feira, agosto 25, 2016

Vem aí a guerra e só os alemães é que sabem?
Para que é que vão armazenar água e alimentos?
Não sei.
Mas, do que conheço dos alemães, avanço com uma explicação.
[E, atenção, o que digo não é para causar alarme, é apenas para alertar para o que estamos fartos de saber]





Depois de ter louvado a iniciativa de Renzi atribuindo 500 euros a cada adolescente para consumir em cultura, volto-me agora para a notícia que está a causar estranheza e a lançar alguma suspeição nos europeus:

O plano de defesa civil, que inclui o conselho para os alemães armazenarem comida e bebida para dez dias, foi hoje aprovado pelo Governo.


O governo alemão aprovou hoje um plano de defesa civil, que pede aos cidadãos para fazerem aprovisionamentos de água e alimentos, permitindo uma resposta em caso de atentados ou catástrofes naturais. (...)
Entre as recomendações feitas à população, contam-se a necessidade de reservas de água, de "dois litros por pessoa e por dia, por um período de cinco dias". Os cidadãos devem abastecer-se de alimentos suficientes para dez dias.
Prevê também planos de emergência em caso de interrupção do fornecimento de água ou eletricidade, uma série de medidas de segurança em caso de crise de natureza química, atómica ou biológica, ou ainda em caso de ataques cibernéticos.


Soube disto e desde então já ouvi interpretações diversas e comentadores para todos os gostos a especular a razão de ser de tão inusitada medida: que tem a ver com a Ucrânia, ou com a Turquia, ou com o Daesh, ou com severas ameaças às centrais nucleares ou com indícios de terramotos bárbaros, ataques cibernéticos ou, acrescento eu, invasão por marcianos.

Pode ser. Mas, como não tenho espiões debaixo das saias da Merkel, de facto não faço ideia.

Contudo, já trabalhei diversas vezes com alemães, uma das quais recentemente. E já trabalhei em diversos contextos e circunstâncias, algumas vezes durante períodos bem longos.

Já aqui o disse algumas vezes: gosto de trabalhar com alemães embora venha achando que, enquanto organização (isto é, a nível não pessoal), se vêm tornando mais quadrados, tudo muito by the book. A nível pessoal continuo a achá-los descontraídos, simpáticos, até folgazões. Mas, a nível profissional, não brincam em serviço nem sabem desviar-se um milímetro do que antes planearam.

Contudo, se reconhecerem e lhes provarem, mas provarem bem, que uma solução menos ortodoxa parece valer a pena, então equacionam-na, enfiam-na no plano e deixa de ser heterodoxa e, portanto, passa a estar regulamentada, tornando-se admissível. E, uma vez estabelecido um plano, seguem-no ferreamente. Podem levar um ano ou mais a fazer um plano ao pormenor, quando, em iguais circunstâncias, os portugueses o fazem numa manhã, de forma não detalhada para deixar margem para os imprevistos que sempre acontecem. Os alemães não: os alemães elencam previamente todos os passos e todos os possíveis imprevistos e, neste caso, para cada um, estudam qual o antídoto. Só depois se abalançam à acção.

Para além do mais têm a paranóia da segurança e da propriedade das suas coisas. Podem optar por soluções pouco operacionais e pouco económicas mas priveligiam (ou melhor, exigem) a segurnça e o controlo absoluto das situações (a propriedade inquestionável e regulamentada da informação gerada nas suas organizações, a segurança à prova de bala das suas redes de dados, dos seus ficheiros, etc).

Ou seja, do que lhes tenho observado -- e, como disse, do que tenho constatado desde há alguns anos para cá, esta atitude vem-se tornando generalizada e inquestionável -- só se sentem bem se tiverem planos para tudo e, sobretudo, planos que garantam que, haja o que houver, eles estão sempre salvaguardados pois preveniram-se em terra antes de se fazerem ao mar.

Por isso, do que lhes conheço, não precisam de saber de alguma ameaça concreta para desencadearem estas medidas que agora aprovaram. Leio e acredito que isto faz parte de um plano global que vem sendo estudado desde de 2012 (ou seja, há 4 anos) e que visa substituir um outro que estava em vigor desde 1995.

Agir como eles, tem prós e contras. Eu acho que, com alguma frequência, tendem a levar a coisa ao limite do absurdo; acho que perdem a noção de que tamanha pre-ocupação é um excesso de zelo que pode não se justificar. No entanto, acho que entre a despreocupação portuguesa, de deixar tudo muito ao improviso, de não divulgar riscos para não lançar alarme, de se fiarem na virgem e não correrem e a confiança cega dos alemães em que tudo poderão prevenir haverá um meio termo virtuoso.

Por exemplo (e sem, de modo algum, querer cavalgar a onda da tragédia do sismo italiano), refiro um tema do qual já aqui, de resto, falei algumas vezes: algumas zonas do país e, em particular o Algarve, a Costa Alentejana e Lisboa e Vale do Tejo. são de alto rismo sísmico e o não ter voltado a haver um abalo violento como o de 1755 já é uma improbabilidade. Ou melhor, é uma grande sorte que devemos agradecer a todos os santinhos mas é, também, uma improbabilidade. 


Dito de outra forma: pode ser que ainda falte muito tempo e espero bem que sim mas o mais provável é que volte a acontecer e que, acontecendo, possa vir a ter efeitos devastadores.


Por isso, teríamos já mais do que tido tempo não apenas para reforçar as estruturas dos edifícios que não aguentarão um desses tremores de terra valentes como para traçar um plano de contingência e de recuperação (a todos os níveis) em caso de desastre. Mas qual o quê...

Este plano pressuporia ampla divulgação, realização de simulacros e intervenções de toda a ordem. Contudo, portuguesmente assobia-se para o lado e espera-se que, na nossa vida, tal não venha a acontecer.

Não sou eu que o digo, que eu não percebo nada do assunto. Mas ouça-se um dos maiores especialistas nacionais na matéria, o Engenheiro João Appleton:


Tivemos um bom exemplo com a Parque Escolar, em que os edifícios foram, de uma forma sistemática, analisados e reforçados do ponto de vista sísmico, mas esse programa foi interrompido. Foram feitas obras em 200 e tal escolas, mas as outras centenas de escolas estão esquecidas e abandonadas. E o que é que acontece aos hospitais, aos edifícios de bombeiros ou governamentais, onde trabalham diariamente aqueles que tomam as decisões? 
Estou plenamente convicto de que, se sofrêssemos um sismo de grande intensidade agora, colidiriam vários hospitais, vários quartéis de bombeiros, vários edifícios públicos de ministérios, porque não estão preparados para suportar um terramoto semelhante ao de 1755.
Quando acontece um sismo de elevada magnitude num qualquer lugar do planeta, especialmente quando é mais perto, as televisões salivam e a toda a hora são mostrados escombros e pessoas a chorarem. Depois aparecem os comentadores, os senhores da protecção civil, os do INEM, não sei se também o Nuno Rogeiro -- e, passados dois dias, já ninguém se lembra de nada. Ora isto com os alemães seria o oposto e, de certeza, já se iria na 50ª versão de um plano exaustivo, sempre melhorada, divulgada e ensaiada.

Portanto, mais do que enveredarmos por teorias da conspiração e desatarmos a especular sobre o que é que os alemães sabem e nós não, acho que deveríamos reflectir um pouco e talvez seguir-lhes o exemplo pois, em caso de atentados, desastre grave, acts of God ou seja o que for, os planos e as cautelas podem salvar muitas vidas ou, pelo menos, minorar o desconforto de algumas situações.

E tenho dito.

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Lá em cima Marlene Dietrich interpreta uma das minhas canções preferidas de ever and forever: Lili Marlene

As imagens que escolhi para adornarem o texto mostram obras de pintores alemães, desta vez dos modernos. A saber, pela ordem em que aparecem: Franz Marc, Max Ernst, Paul Klee, Hans Hofmann, Tomma Abts e Gerhard Richter.

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E queiram, agora, ir de visita aos antigos. 
No post abaixo falo a propósito de uma extraordinára medida de Renzi e peço ao nosso Ministro da Cultura que se inspire. 

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terça-feira, março 03, 2015

O que é a arte? O que é a beleza? - que questões difíceis me coloca, Rosa Pinto. A verdade é que não lhe sei dizer, posso apenas falar de algumas coisas de que gosto.


Eu não sei o que é arte nem sei o que é belo. Sei apenas o que me toca e, então, eu não sei explicar porquê. O que a mim me parece belo muitas vezes não o é aos olhos de outras pessoas. Não sei o que é mas sei o que não pode ser: não pode ser perfeito. Não gosto do excesso de perfeição. A perfeição absoluta atinge-se com muito esforço, com depuração, com a perda da espontaneidade, e esse esforço, essa depuração, a mim parece-me quase um ornamento e eu não gosto muito de ornamentos. 

Quando eu fazia tapetes de Arraiolos, aquelas complicadas réplicas de tapetes do século XVII que aqui tenho em casa, eu bordava com todo o preceito. Os mais exigentes, ao verem os tapetes, viravam-nos logo porque pelo avesso é que se vê se é um verdadeiro Arraiolos e nunca encontraram defeito nos meus, eram perfeitos. Milhares de pontos e nem um ponto em falso. E, no entanto, não há um único tapete em que eu não tenha deliberadamente trocado um ponto. Tinha que ter um pequeno toque de imperfeição senão não seria meu.

Às pessoas de feições muito perfeitas eu acho monótonas. Às pessoas muito bem comportadas eu acho umas chatas.

Da mesma forma, aquilo que eu acho belo ou que me toca como sendo arte tem que conter assimetria, desconcerto, desequilíbrio, tem que haver algures o chamamento para o abismo.




Emocionei-me uma vez perante uma grande tela de Caravaggio e talvez o que mais me tenha impressionado tenha sido a sujidade das mãos, das unhas. Ou o ar de deboche e de noites mal dormidas dos rapazes que ele pintava.




Ou o excesso de injustificação que existe nas telas de Rothko. A vontade de me misturar nas cores sem motivo, de me perder no azul, de me incendiar com os encarnados cheios de luz. Ou os encarnados densos, sombrios, contendo a perdição da noite mais profunda. Ou o nada banhado de cor, a oração mais sentida.







Ou cavalos azuis. Gosto de cavalos azuis cruzando os espaços que habito, sonho que atravessam a noite transportando sonhos, ouço-os passar sedosos, silenciosos, apenas a sua corrida deixando um rasto de corpos suados no ar. De manhã encontro-os em repouso, passeando tranquilos entre caminhos onde o alecrim floresce.




Ou corpos nus que dançam em roda, e a música une o sangue que neles corre e o coração une-se para que a dança em roda se feche como um anel o desejo que os percorre. E junto-me a eles e festejo os perfumes suaves e o som dos pássaros e o prazer que o meu corpo sente quando dança ou quando vê outros corpos livres, elevando-se em desequilíbrio até onde os deuses permitem.







Na escultura também procuro o imprevisto, a imperfeição dos corpos. Ou a ausência de explicação, o desenho da luz, as sombras, os corpos abandonados, os corpos sem forma, ou a erosão do tempo.

Na música eu gosto do que me transporta nem sei para onde, para o desconhecido, porque o que me atrai é o que não conheço. Ou melodias que me embalem. Ou que me tirem para dançar, ou que me levem até às portas de jardins cheios de perigo.

E na escrita eu gosto que as palavras tenham vida própria e criem histórias impossíveis, teias imprevisíveis onde os corpos não escondam a carne, onde os olhos não escondam as lágrimas, onde os corpos não escondam o riso e o voo, onde os sexos não tenham pudor nem limites. E gosto de cartas e de diários e gosto de sentir que está ali a essência de quem os escreveu, sem véus, sem rodeios. Ou subtilezas que mal se percebam. Ou confissões pagãs, ou segredos sagrados ou a semente da loucura.

E gosto da leveza da poesia. Ou do peso esmagador da poesia. Ou da música da poesia. Ou do sangue quente da poesia. Ou do brilho ardente que se esvai do coração dos apaixonados e se transforma em poesia. Ou das cinzas e sombras que se ocultam na poesia. Ou da terra fértil e húmida que cheira a poesia.




E nas flores eu gosto que elas nasçam e vivam por si, selvagens, livres, delicadas, efémeras. Perfeitas e imperfeitas como o amor, como as palavras não ditas, como o desassossego que se adivinha.




E nas árvores eu gosto de tudo. Do tronco que fica mais largo como o corpo de uma mulher que amadurece, da pele que se solta como memórias perdidas, de como se enlaça em flores e alegrias, dos cheiros que se misturam como seivas, espermas, salivas, beijos.




E na fotografia eu gosto do que não é óbvio, do que se adivinha por detrás do olhar de quem fotografou e gosto de sentir a aragem que fazia flutuar a flor ou o silêncio que envolvia uma orquídea na escuridão, ou um rasgo numa parede ou na pele de um homem.

E...

E podia continuar e estaria de gosto. Ainda não falei de arquitectura, por exemplo. Ainda não falei da representação. Mas a noite já envolve as minhas palavras e eu tenho que me ficar por aqui.




Vou sonhar que sou uma mulher feliz, mergulhada em espantos azuis e vou ouvir o canto dos pássaros e a música do vento nas ramagens e vou esperar que passem os cavalos azuis para eu me misturar com eles e partir à descoberta dos mistérios da noite.

Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredores magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.

[Herberto Helder]

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Permitam que vos convide a visitar o meu Ginjal e Lisboa. Hoje tentei redimir-me da minha ausência por lá: 

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Por aqui tenho tanto sono que já nem consigo colocar legendas nas imagens. As minhas desculpas.

E permitam ainda que vos convide também a descer até ao post seguinte onde dedico uma música ao láparo: A mula da cooperativa. Ai és tão linda.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.