Confesso a minha ignorância: nunca tinha ouvido falar em Angela Ro Ro. Mas devota do Bial como sou, se ele a leva às suas gostosas conversas, eu estou lá. Portanto, pus-me a ouvir.
E, à medida que a ouvia, risonha, provocadora e engraçada como uma adolescente, mostrando continuar sequiosa de vida e diversão, pronta para os amores, ia-me lembrando de uma amiga que é assim. Muito, muito assim (apenas com a diferença de que Angela Ro Ro é gay e a minha amiga é hetero).
Tal como vejo, pela entrevista, que Angela Ro Ro tinha a fama de ser uma malandreca, também a minha amiga, quando entrou a sério na adolescência, virou uma bela safadinha. Tinha fama de alta namoradeira ou mais que isso, fazia coisas que, por vezes, me deixavam um bocado perplexa, sobretudo por achar que ela caía com demasiada facilidade nos braços errados. Mas ela não me ouvia. Não ouvia ninguém. Parecia tomada por uma urgência de experimentar tudo, de quebrar todos os tabus.
Mas, à posteriori, vim a verificar que, afinal, era muita parra e pouca uva. Muitas aventuras, muitos empolgamentos, e, depois, muitas decepções, muitos desgostos. Conta que foi várias vezes traída. No fundo acreditava demais em quem, se via à légua, que não merecia qualquer crédito. Mas ela não via o mesmo que os outros. Olhares racionais e objectivos não eram com ela, toda emoção, toda inocência.
Talvez por isso ou talvez porque a vida, por vezes, prega partidas a quem não o merece, amores verdadeiros, grandes, intensos, duradouros, que não a fizessem sofrer, não os teve.
Mas não ficou ressentida nem desanimada. De facto, ainda agora continua a ser tal como se descobriu quando, adolescente, resolveu abraçar a vida sem reservas: alegre, brincalhona, sedutora, irreverente, com uma tremenda vontade de amar e de ser amada, a mesma adorável adolescente. E... continua a dar com os burrinhos na água pois continua a atirar-se, sem reservas, para os braços de quem não tem condições de retribuir a paixão. No entanto, continua, sorridentemente a acreditar que o melhor ainda está para vir, a correr atrás da sorte, do amor, da paixão. E eu, do mais fundo do meu coração, desejo que um dia encontre alguém que a ame como ela, desde sempre, desejou ser amada.
A voz INESQUECÍVEL de Angela Ro Ro | Conversa com Bial | GNT
No #ConversaComBial , uma homenagem especial à icônica Angela Ro Ro, cantora e compositora que marcou a MPB com sua voz potente e canções inesquecíveis.
Com uma carreira iniciada nos anos 70, Angela deixou clássicos como Amor, Meu Grande Amor e Compasso, tornando-se referência de autenticidade e emoção na música brasileira.
Os meninos não dão tréguas. Em especial, ela que que é toda líder, toda voluntarista e determinada, logo que chegou anunciou que vinha tratar das decorações de Natal, dentro e fora de casa. Foi ela para a cave e foi de lá trazendo caixas e baús.
E foi buscar o escadote e depois, claro, precisou de ajudantes.
E desencantou pais-natais de que se lembrava de, quando era pequena, ver na nossa outra casa, bonecada de que eu já nem me lembrava.
Mas ela estava feliz pois o rever estes enfeites despertou nela uma certa nostalgia.
E contou a toda a gente, inclusivamente por telefonema, que tinha descoberto os pais-natais da outra casa, e adorou também encontrar as bolas grandes que ultimamente não tinham saído à cena.
E agora há bolas numa árvore, fitas noutras, uma coroa natalícia num portão e um laço no outro. E há de tudo um pouco e a casa está alegre e festiva, com luzinhas que são uma graça.
E para o jantar anunciou que ia fazer cebola caramelizada para pôr por cima dos hambúrgueres e, sozinha, cortou cebola, muniu-se de ingredientes e fez o que eu não sabia que se fazia assim: com manteiga, açúcar mascavado, vinagre balsâmico. E ficou espetacular. E ajudou a rechear os hambúrgueres feitos à mão com queijo da ilha ralado. Isto com o cão a chatear e a ter que ser posto fora da cozinha.
E depois de ter tomado banho, pediu para lhe secar o cabelo, coisa que faço de gosto e que sempre acorda em mim o gosto de ser cabeleireira.
Os rapazes estiveram mais sossegados, a guardarem-se para atacar à hora das refeições.
Agora já dormem pois amanhã dois deles têm programa bem cedo. E ao almoço já cá estão de volta, desta vez também com os pais.
E se agora conto isto é porque esta é a minha realidade, diametralmente oposta à de Jenny Jackson.
Esta mulher já apareceu noutros vídeos desta série e sempre me espanto com a sua franqueza, com a sua incrível humildade e, ao mesmo tempo, orgulho e dignidade. Vive sozinha. Habitou-se a viver sozinha. Gosta de viver assim. Sente-se independente. Mas, ao ficar com muitas dores nas costas, agora que a idade já avançou um pouco mais, sentiu que precisava de ajuda. A forma como ela fala disso, tão sincera, tão espontânea, é tocante.
O vídeo é, em minha opinião um testemunho fantástico, e talvez nos ajude a perceber como podemos ajudar os que estão sozinhos e têm receio de perder a sua independência (ou a sua dignidade) caso peçam ajuda.
Está legendado de origem em português pelo que se vê (e ouve) lindamente.
I OWE you my LIFE
There comes a moment in every life when the weight we carry feels too great to bear alone. In these moments, a choice appears: to keep struggling in silence or to open ourselves to the strength and kindness of others.
This story is about that choice — a journey of discovering the beauty in being vulnerable, and in finding that this simple act can transform not just ourselves but those who stand ready to help.
It’s not easy to let go of the walls we build to protect our independence, but when we do, something remarkable happens. Bonds, delicate yet enduring, can be forged; a quiet, gentle exchange of giving and receiving becomes a shared act of humanity, binding us ever closer to one another and reminding us that we are not alone.
Featuring Jenny Jackson.
Filmed in Hermanus, South Africa.
This is the fifth film that we have made together with Jenny. If you've missed the others, you can see them here:
Admiradora que sou de Maria Teresa Horta, considerando-a das melhores poetas portuguesas e uma mulher lúcida, franca, inteligente e informada, claro que fico muito contente.
A lista "BBC 100 Women" deste ano inclui nomes de pessoas mais conhecidas, como a atriz norte-americana Sharon Stone, a artista britânica Tracey Emin, a sobrevivente do caso de violação em França Gisèle Pelicot e a iraquiana Nadia Murad, vencedora do Prémio Nobel da Paz.
As brasileiras Lourdes Barreto, ativista pelos direitos das prostitutas, e a ginasta Rebeca Andrade e a bióloga Silvana Santos também estão na lista, que teve em conta a imparcialidade e a representação regional.
A BBC salienta que, ao longo do ano, as mulheres "tiveram de se esforçar muito" para encontrar novos níveis de resiliência e enfrentaram "conflitos mortais e crises humanitárias" em Gaza, no Líbano, na Ucrânia ou no Sudão e testemunharam a "polarização das sociedades após um número recorde de eleições em todo o mundo".
A equipa do BBC 100 Woman elaborou a lista com base em nomes recolhidos através de pesquisas e sugeridos pela rede das 41 equipas linguísticas do Serviço Mundial da BBC, bem como pela BBC Media Action. Todas as protagonistas femininas deram o seu consentimento para aparecerem, e não são apresentados por uma ordem específica.
A escritora portuguesa Maria Teresa Horta tem sido amplamente premiada ao longo da sua carreira literária, destacando-se, só nos últimos anos, o Prémio Autores 2017, na categoria melhor livro de poesia, para "Anunciações", a Medalha de Mérito Cultural com que o Ministério da Cultura a distinguiu em 2020, o Prémio Literário Casino da Póvoa, que ganhou em 2021 pela obra "Estranhezas", e a condecoração, em 2022, com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade.
Nascida em Lisboa em 1937, Maria Teresa Horta frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi dirigente do ABC Cine-Clube, militante ativa nos movimentos de emancipação feminina, jornalista do jornal A Capital e dirigente da revista Mulheres.
Como escritora, estreou-se no campo da poesia em 1960, mas construiu um percurso literário composto também por romance e conto.
Com livros editados no Brasil, em França e Itália, Maria Teresa Horta foi a primeira mulher a exercer funções dirigentes no cineclubismo em Portugal e é considerada um dos expoentes do feminismo da lusofonia.
No título da mensagem transcrevi a citação mas não acrescentei o autor. Está aqui: Jeanne Siaud-Facchin
E, já agora, esta fotografia e a outra lá em baixo são da autoria de Lucien_Clergue.
Tal como diz quem escreveu o dito comentário, eu também penso que 'o outro' não tem historial. Por isso, confesso, não vou tranquilizada. Vou numa de 'pagar para ver', numa de 'vamos ver'.
De vez em quando temos que negar a inércia. O mundo anda. As ideias, as atitudes e a nossa visão sobre o mundo também têm que mudar. Agora ia dar um exemplo mas não posso pois, supostamente, estamos a reflectir. Mas o que eu queria dizer é que, quando o mundo anda mas nós não, acabamos por ficar a falar sozinhos.
Para que as coisas mudem, alguém tem que arriscar. Depois, se a coisa correr bem, outros virão atrás. Arriscar é isso mesmo: correr o risco. Se der para o torto, a gente arrepia caminho e corrige a rota. Se correr bem, bora, vamos lá.
O mundo hoje já não é o mundo que existia quando eu comecei a trabalhar. Agora é o mundo no qual os meus filhos trabalham. E há de ser aquele em que os meus netos trabalharão. Não posso continuar a pensar nos problemas que havia antes e a manter-me agarrada a soluções para esses problemas quando agora há mil novos problemas, mil novos desafios.
A minha decisão representa, para mim, um salto impensável. Ontem acrescentei no título a última parte (a explicitação de quem, obviamente, não seria contemplado) pois a minha filha alertou-me para que eu deveria deixar isso bem claro, não fosse alguém ainda pensar que eu tinha ficado destravada de todo. E, há pouco, o meu filho, que, tal como a irmã, me conhecem a apontar sempre no mesmo sentido desde o início dos tempos e que não tinha lido o que eu ontem escrevi, tendo-lhe eu comunicado a minha decisão, ficou pregado ao chão (ou ao tecto -- não sei, não vi, a conversa foi por telefone). Tentou chamar-me à razão, assegurar-se de que eu estava plenamente consciente da minha decisão.
Mas é assim mesmo. Estou consciente.
Quando eu trabalhava, uma vez tomei uma decisão que fez o vice-presidente de uma gigante multinacional enfiar-se num avião e, sem aviso prévio, aparecer-me, ao fim da tarde, no gabinete. As empresas tinham uma parceria de longa data que definia que, em condições de igualdade, cada uma daria primazia à outra na celebração de negócio. Ora, uma vez, estava em jogo um negócio várias vezes milionário e a empresa dele estava a querer impor condições muito favoráveis para eles e não muito para nós. E eu ameacei que ou eles se ajustavam ou eu avançaria com o principal concorrente deles. Não acreditaram pois tínhamos uma sólida parceria, de anos. Mas eu não vendo jogo branco. Trabalhar com outra empresa, com a qual não estávamos habituados, ferir a parceria que era sólida e duradoura, era uma facada numa empresa que era uma fiel amiga e era, sobretudo, um arriscado tiro no escuro. Mas dei-o.
Quando ele me entrou no gabinete, pela primeira e única vez na minha vida profissional senti-me intimidada. Fisicamente, ele devia medir para cima de um metro e noventa, era um homem com um grande charme, um francês de se lhe tirar o chapéu. Sempre tínhamos tido um relacionamento cordial, afável. E, de repente, tendo perdido um negócio importante, tendo ficado evidente no mercado que não nos tinham na mão, ele não estava disposto a digerir o que sentia como um atentado.
Estava furioso, varado. Vinha exigir explicações. Creio que, até, vinha pedir a minha cabeça. Mas, obviamente, eu tinha cobertura. O presidente com quem eu trabalhava na altura, um temível homem de negócios, dizia que a minha frieza, ao negociar, o assustava. (A mim também. Mas sentia, também, uma adrenalina à qual não conseguia fugir).
O francês extraordinário não me matou. E eu consegui esconder que, por dentro, me sentia um pouco intimidada. Pelo contrário, ele percebeu que voltaríamos a fazer negócio sempre que fosse bom para os dois, não apenas para ele. Acabou a chamar-me la femme infidèle. Dizia o meu nome em francês e acrescentava, sorrindo, 'la femme infidèle'. Fizemos muito mais negócios e habituou-se a que, quando não conseguia acompanhar a concorrência, a coisa lhe fugia das mãos. Mas mantivemo-nos amigos, embora nunca mais tivesse deixado de me tratar por mulher infiel.
Se calhar, é o que vou também fazer este domingo: ser infiel. Seja.
Não garanto que não vá arrepender-me. Estarei cá para avaliar se é opção a merecer continuidade. Se não forem merecedores, na próxima não contarão comigo.
Não sou conservadora. E acho que não sou medrosa. Também acho que não sou burra de todo. Portanto, vamos ver. Bola para a frente.
Para já, cá estão elas, as zebras, o tema deste post. Magníficas, na verdade.
Quando vou ao google no telemóvel, aparece-me uma série de notícias. Não sei qual o critério de selecção e temo que o facto de eu carregar em algumas para as ler leve a inteligência artificial que rege o funcionamento de tudo isto a pensar que é disto que gosto.
E, no entanto, não é bem gostar, é mais cusquice. Por exemplo, apareceu-me que a Lili Caneças explicou a sua ausência de um qualquer programa pois sujeitou-se a uma cirurgia estética ao pescoço, intervenção essa mais complexa do que esperava pois obrigou a uma recuperação de um mês. Já fez várias e diz que, quando reaparecer, as pessoas verão o produto da transformação. E eu interrogo-me: o que leva uma mulher à beira de fazer 80 anos a sujeitar-se a processos destes, não isentos de riscos, certamente com dor e incómodo associados? Para quê? Para não parecer ter a idade que tem? Mas porquê? Não é bom ter quase 80 anos?
Também a Cinha Jardim, de vez em quando, é intervencionada. E o resultado está à vista: a pele está esticada, a boca perdeu a lógica e quase apenas a reconhecemos pelo cabelo e pela voz. Ela deve achar que está melhor. Eu acho que está estranha, artificializada.
Falei de dois casos mas é frequente ouvirmos as pessoas, em especial as que andam pela televisão, a dizerem que já se sujeitaram a liftings, a injecção do próprio sangue, a esfoliações e tratamentos locais com vitaminas, que o botox é normal e recorrente e outras coisas que tais.
Há casos dramáticos em que as pessoas ficam disformes, patéticas. Para não falar de outros casos da nossa televisão, posso referir a Madonna. Uma coisa é ter o corpo ginasticado pois os seus espectáculos vivem muito da performance física mas o que ela tem feito ao rosto é quase inexplicável: para contrariar a força da gravidade, ela sobe e insufla as maçãs do rosto. Mas tantas vezes o deve fazer que os olhos já subjazem ao fundo de uns promontórios desprovidos de sentido. Depois insufla os lábios e, para retirar vestígios do código de barras, preenche-se com botox para além da conta. O resultado a mim parece-me para além de duvidoso mas, como isto é muito subjectivo, tenho que admitir que, se ela o faz, é porque gosta de se ver e que posso ser eu que não estou a captar a essência dos novos conceitos de beleza.
Tenho lido que eliminar os vestígios da idade acaba, com alguma frequência, por tornar-se viciante e, às tantas, é isso que acontece, acabando por ficarem apagado tudo o que era distintivo da fisionomia inicial.
E isto, note-se, nem tem a ver apenas com mulheres pois parece que é prática igualmente comum entre homens.
A mim nunca me deu vontade de fazer nada. Não é apenas o medo de que a recuperação seja longa e dolorosa ou o medo de que, ao ver-me, me assustasse: é também a sensação de que eu, eu, de verdade, poderia desaparecer tornando-me uma desconhecida para mim própria.
Quando me vejo ao espelho e verifico como a erosão vai fazendo os seus estragos não me ocorre que poderia corrigi-los, ocorre-me, isso sim, que o melhor é não me deter muito espelho e, sobretudo, não me ver nem de perto nem com excesso de luz.
Os dois vídeos abaixo mostram duas mulheres muito belas.
A Juliette Binoche 'ainda' vai pelos 59 e o vídeo que aqui partilho já tem 9 anos. Ou seja, tinha 50. Mas a idade já era tema.
Já a Carole Bouquet tem 66 e no vídeo teria uns 64. Do que aqui ouço, tem uma abordagem semelhante à minha: olhar de longe ou sem óculos ou só de vez em quando.
Somos o que somos, como somos. E tomara que, por dentro, tudo esteja tão bem e tão funcional como está por fora. E não me refiro à alma: refiro-me, mesmo, às vísceras e a toda a traquitana que temos dentro de nós. E quem não gosta que não coma (salvo seja, claro).
Na passadeira vermelha de Cannes, Mahlagha Jaberi chamou a atenção com o seu modelo que fala por si.
Desta forma elegante, Mahlagha Jaberi não deixou ninguém indiferente não apenas pela sua beleza como pelo sugestivo vestido que alude à violência sobre as mulheres iranianas que têm pago com a vida as manifestações da sua liberdade. O decote profundo em corda amarrada no pescoço como as condenadas à morte não pode deixar ninguém indiferente.
Sempre fui de me deitar tarde e, portanto, nunca consegui levantar-me folgadamente cedo por forma a ter tempo para grandes empreitadas pré-matinais a nível de make-up. Quando os miúdos eram pequenos e tinham que estar cedo na escola, a alvorada era compatível com dar tempo a arranjarem-se, tomarem um bom pequeno almoço, lavarem dentes, pentearem-se, etc, e no meio, em dois minutos, se tanto, tentava dar a mim própria um arzinho de minha graça. Quando ficaram autónomos ou saíram de casa, os horários poderiam ter sido abrandados não fora eu, nessa altura, ir trabalhar para mais longe, obrigando-me a não apenas atravessar a cidade como a fazer trajectos em autoestradas. Portanto, como não desbastava tempo ao sono, a parte de me arranjar continuou a ser feita em três tempos.
Ultimamente, poderia fazer as coisas como devido mas aí já estava demasiado desinstruída. Continuo na base do meia bola e força -- e tá feito.
Contudo, agora, volta e meia, o YouTube presenteia-me com tutoriais com a rotina matinal ou nocturna de tudo o que é mulherada que se conservará nova até ser velha.
Provavelmente descaí-me uma ou outra vez a espreitar os vídeos -- sou cusca, quero saber qual o golpe de magia --, e vai daí o algoritmo, que é fino que nem um alho, topou logo que ando com vontade de saber como é. O pior é que, de cada vez que vejo, vou ao tapete. E dizem elas que aquilo é o que fazem quando não têm tempo... Faria se tivessem. Bolas. Além disso, tudo novidade para mim. Sinto-me pré-histórica, ignorante, fora deste mundo.
Para mais, vendo isto, percebo porque é que, quando for idosa-idosa, não vou conseguir fingir que tenho vinte aninhos. Não tem havido esfoliações, séruns vegans, tratamentos combinados -- e não é agora que vou conseguir recuperar le temps perdu. Ou seja: já foste, Ujota-Emezinha.
É que eu faço assim: depois da cara lavada com água fria, aplico-lhe um creme hidratante qualquer e, a nível de tratamento de pele, nada mais. Bem, não é bem um hidratante qualquer. Geralmente é de supermercado mas ultimamente procuro aqueles que se anunciam como sendo anti-envelhecimento ou anti-rugas.
[Não sei se fazem alguma coisa a esse nível mas, assim como assim, não custa tentar. Bem sei que, na cosmética, não se vendem tratamentos, vendem-se ilusões -- mas capaz de as ilusões fazerem bem à pele, nunca se sabe].
E sempre assim foi comigo. A única vez que resolvi experimentar pôr base, fiquei estranhíssima. Olhei-me ao espelho e parecia uma bonequinha, toda lisinha, toda impermeabilizadinha, sem vestígios de imperfeiçãozinha que fosse. Ainda me lembro de um colega me perguntar: 'Está diferente. O que é que tem?'. Não me lembrei que seria da base, fiquei admirada. Depois entrei para uma reunião e o presidente, um desbocado, olhou para mim e disse para os outros: 'Está mais bonita, ela, hoje, não está?'. E para mim: 'O que é que tem para estar diferente?'. De repente lembrei-me mas não disse. Temi que estivesse a querer parecer artificial. E estava era arrependida de ter posto aquilo sobretudo por estar com medo de sujar a blusa. Nem queria pensar que a blusinha branca ficava com o decote, no pescoço, todo acastanhado.
Nunca mais.
A nível de cosmética, também é do mais básico que pode haver. Ponho um little bit of blush nas faces a ver se fico com um arzinho de saudável vida no campo. Ultimamente nem uso nada de especial: faço um risco de cada lado com baton e depois esbato, e está o blush posto. Depois, uma sombrazita esbatida na pálpebra superior, um brilhozinho nos lábios... e está feito. Dantes ainda punha um rímelzito nas pestanas de cima. Ultimamente, nem isso. Aliás, nem sei se ainda se diz rímel pois ouço toda a gente a dizer máscara, dito assim: masscárah. Cheira-me que rímel é coisa do passado.
Mas eis que agora, tentando aprender com estes tutoriais, constato que colocam coisa sobre coisa e tudo fica bem. Sempre temi fazê-lo não fosse aquilo reagir entre si e eu ainda ficar toda pintalgada de brotoeja ou sei lá o quê. Afinal, vejo-as a porem camada disto, camada daquilo, camada de primário, camada de foundation, camada de contour, camada de mais não sei o quê. Há coisas que nem sei o que são. O que sei é que, no fim, estão com a pele perfeita, todas elas lisinhas, luminosas, todas impecáveis.
E, então, feita macaquinha de imitação, hoje, depois de lavar a cara, apliquei um pouco de creme da L'Oreal desses anti-idade e, passado um bocado, depois de aquilo estar absorvido, pus-lhe creme nívea por cima. Espalhei bem, claro. E não apenas não reagiu com o creme anterior como me parece que fiquei com a pele melhor, mais luminosa.
Agora à noite estou capaz de lavar a cara e aplicar um outro creme que para ali tenho para usar à noite e, por cima, mais uma dose de creme nívea. Mas quando digo creme nívea não é nívea para o rosto, é mesmo aquele mais antigo que eu, aquele indiferenciado, daquele que vem naquelas caixas azuis, metálicas, redondas, clássicas.
E é isto.
Imagino que este tema não interesse a parte significativa dos meus Leitores mas eu hoje estou assim, zeníssima. Junto à hora de almoço fui levar a massagem que recebi de presente, ainda o verão era uma criança. Aproveitei para nadar na piscina interior, para descontrair no jacuzzi, para beber água perfumada por frutos vermelhos e, só depois, me entreguei nas sábias, fortes e suaves mãos da massagista. Havia música de meditação, velas de luz bruxuleante e não apenas vários óleos foram espalhados no meu corpo como, no final, toalhas quentes e molhadas foram aplicadas nas minhas costas. Terminei com um ritual de chá. E apetecia-me era lá ficar a hibernar. Quase aposto que mais um bocado e ainda era capaz de esvaziar a cabeça e ficar a levitar, ou seja, a meditar.
Mas, moça trabalhadeira que sou, claro que a seguir fui trabalhar como se não estivesse com a alma mais do que zen.
Por isso, como podem imaginar, o tema agora à noite teria que ser assim, levezinho, levezinho, levezinho...
Candice Swanepoel's 10-Minute Guide to "Fake Natural" Makeup and Faux Freckles | Beauty Secrets
Victoria's Secret model Candice Swanepoel reveals how to do sunkissed skin, faux freckles, and the perfect lip tint on camera.
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Já agora: e à noite? Como é que é...? Coisa simples, também...?
Alanis Morissette's 18-Step Nighttime Skincare Routine | Go To Bed With Me | Harper's BAZAAR
A primeira, a segunda e a última fotografias mostram Candice Swanepoel, 33 anos. A terceira e a quarta mostram, respectivamente, Michelle Pfeiffer e Sharon Stone, ambas agora com 64 anos.
Não há nada mais comovente do que uma mulher corajosa. Nem há nada mais inspirador do que uma mulher que dá um pontapé para o ar em tudo o que são preconceitos, tabus, baias, e caminha de cabeça erguida e olhar destemido.
Se um homem rompe barreiras e deixa para trás algumas ortodoxias, a ideia que dá é que há nos seus gestos alguma coisa de provocador, alguma beligerância, quase como se quisesse afirmar-se através do desafio, através dos outros.
Se uma mulher avança com orgulho e valentia, quebrando barreiras e enterrando medos e censuras alheias, ela fá-lo por si mesma, por sentir que tem direito ao seu espaço, à sua vontade, à sua liberdade e felicidade.
Emily Ratajkowski tem 31 anos, mede 1,70m, tem um filho e acabou de avançar para o pedido de divórcio. Na sua primeira aparição pública depois desse passo importante na sua vida, Emily surgiu com um look sensual, um penteado desalinhado e ousou a toilette mais impudica do desfile de Tory Burch em Nova Iorque.
E eu acho isso uma maravilha. Não apenas gosto do vestuário, das transparências, das sobreposições, das cores mas também da coragem de Emily ao avançar orgulhosa e elegantemente como se estivesse a traçar o seu caminho. E está.
Aliás não foi apenas Emily que vestiu transparências ou sobreposições. Houve outros modelos também bastante bonitos e, mesmo, houve uns outros mamilos que também se afoitaram.
Abençoada liberdade e abençoada coragem. Salve Emily e salve todas as mulheres que não receiam as opiniões censoras ou os próprios medos.
Mas não é apenas na moda que Emily mostra que sabe o terreno que pisa. Emily é uma mulher que sabe o que quer, que empunha cartazes, que eleva a voz, que se arrisca a bem do direito sobre o seu próprio corpo e da defesa da liberdade e da democracia:
Não tenho palavras para expressar a minha admiração pela coragem e pela determinação de todos os que, debaixo de um céu que lhes traz bombas e mísseis, muitas vezes sem água, sem luz, muitas vezes vivendo dias a fio em abrigos, amontoados, sem ar fresco ou qualquer conforto, continuam a dizer que aguentarão até que a Rússia seja expulsa, até que a Ucrânia vença a guerra, até que volte a paz ao seu país.
Durante muito tempo Anderson Cooper conversou remotamente com uma jovem mãe. Agora foi, finalmente, visitá-la. Com os seus três filhos, um dos quais bebé, com o marido a lutar pelo país, Olena faz das tripas coração e continua a sorrir enquanto tenta que os filhos tenham uma vida tão normal quanto possível. Mas diz com determinação: não nos esqueceremos e não perdoaremos.
Tenho pena que o vídeo, tal como outros que aqui tenho partilhado, não esteja legendado mas, ainda assim, aqui fica.
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Anderson, depois de andar a falar com Olena Gnes há meses, finalmente encontra-se com esta mãe ucraniana que tem vivido em abrigos em Kyiv
Ela é a Sylvie Grateau da Emily in Paris. E, na série,o que veste e como se porta talvez a tornem mais apelativa do que a personagem principal daquela série da Netflix. Vivendo a vida de uma mulher livre que não tem satisfações a dar, irreverente, segura de si e elegante, ela mostra-se como uma mulher interessante a quem o facto de não ter a tenra idade da Emily, o facto de não fazer uso de redes sociais como a Emily, o facto de ainda ser casada e o facto de, profissionalmente, estar a perder autonomia face às regras da casa mãe (americana) em que trabalha não atrapalham quaisquer movimentos. Sylvie ousa em toda a linha.
Aparentemente também é (quase) assim na vida real. E se não é a primeira vez que aparece despida nas passadeiras vermelhas desta vida, esta última vez deu que falar. Ao assistir -- e ter lugar na 1ª fila -- do desfile outono inverno 2022/2023 da griffe Ami Paris, apresentou-se orgulhosamente transparente.
Está a caminho dos 60, é verdade. E daí?
Claro que eu não teria coragem para tal mas, confesso, tenho pena de ser tão betinha como sou. Tenho também pena de não ter o peso ideal que ela tem. Olho para Philippine e acho o máximo. Tomara eu conseguir fazer o mesmo.
A idade é, sem dúvida, uma coisa psicológica.
Ou melhor... também é física. Não precisa é de ser castradora. Pelo contrário, faz sentido que seja é libertadora. Uma pessoa fazer o que lhe dá na bolha, ousar, ousar à descarada, ousar à grande e à francesa, e não estar nem aí para o que digam. Isso, sim, deve ter uma coisa absolutamente fantástica.
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Já agora
Para quem queira aprender a andar com uma mulher fatal, aqui está Sylvie Grateau | Philippine Leroy-Beaulieu em Emily in Paris
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A ver se durante o dia arranjo um bocadinho para contar o meu dia de 5ª feira.
(com fotos e tudo)
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Desejo-vos uma bela sexta-feira.
As sextas-feiras têm tudo para ser danadas de boas. Aproveitem.
Deixa-me uma rosa amarela. Vem em sonhos ou pela penumbra, visita-me em palavras ou em segredo. Levanta-me dos mares, arranca-me das águas onde mergulho o meu corpo ardente. Desliza pela montanha como um leopardo azul, desce em silêncio o labirinto que se esconde nos confins da floresta e vem deixar-me uma rosa amarela.
Ouviste que ali sitiaram um país? Aquele país das ruas cheias de gente, onde todos conversam e riem alto, está sitiado. Sabias? Até aquela cidade cor de ocre cujas ruas descem até ao cais está sitiada. Está calada e com medo de ser devorada por um vírus. Não consigo acreditar e não sei como poderão viver assim, recatados, os que transbordam de vida. Não quero pensar que poderemos vir a estar também assim. Não quero pensar no inesperado e inexplicável de tudo isto. Por isso não vou falar nisto. Não me fales também.
Fala-me antes em escarpas cobertas de pequenas flores brancas e lilases e prateadas, escarpas que escorrem até ao mar. Ou fala-me de muros brancos recortados contra o sol. Ou de muralhas antigas ou de estátuas abstractas ou, simplesmente, de rochas douradas pelo tempo. Ou, se preferires, fala-me de figueiras com sombras frescas em terras quentes, carregadas de figos carnudos e gulosos. Ou de buganvílias escandalosas emaranhadas em cor e perfume. Mas também podes falar-me de livros que se arrumam e desarrumam e das histórias que se escondem neles. Fala-me de palavras que nunca ouvi e que me trazem bocados de mundos que sabes que desconheço. Fala-me daquelas grandes aves que abrem as longas asas e traçam bailados insensatos nos céus. Fala-me de outras vidas. Das tuas. Fala-me de outros mundos. Dos teus. Fala-me de segredos. Dos teus. Não ouvirei nada. Farei de conta. Como se não soubesse nada. Fala-me do que não podes falar. Manter-me-ei no desconhecimento.
Tenho uma mesa pequena só para mim. Está ali num recanto junto à janela. Acenderei uma vela. Serei iluminada pela sua luz trémula. E terei um copo alto e estreito. E nele porei a tua rosa amarela.
Vou dormir e vou sonhar. Se vieres de noite, não te esqueças, arranca-me do mar e deixa-me ouvir a tua respiração quente e nervosa de leopardo azul. Traz contigo o cheiro da erva molhada e das brumas nocturnas da floresta. Traz palavras envoltas em silêncio. E deixa-me uma rosa amarela.
Escuta. Agora vou copiar um poema para te deixar junto à janela. Usa-o como um fio de Ariadne. Percorre cada palavra como um passo no caminho para o teu labirinto.
Nunca haverá uma porta. Estás cá dentro
E a fortaleza abarca o universo
E não possui anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor do teu caminho
Que obstinado se bifurca noutro,
E obstinado se bifurca noutro,
Tenha fim. É de ferro o teu destino
Como o juíz. Não esperes a investida
Do touro que é um homem, cuja estranha
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe evasão. Nada te espera.
Nem no negro crepúsculo a fera.
Vai mas depois volta. Volta todos os dias, pela madrugada, naquela hora em que as gaivotas voam por aqui, gritando como loucas. Desce da montanha, silencioso como um leopardo azul, e vem deixar-me uma rosa amarela.
O meu marido diz que fica mais cansado nas caminhadas comigo do que, quando manhã cedo e sozinho, percorre muito maior distância em muito menos tempo.
As minhas paragens nas nossas caminhadas conjuntas quase o exasperam, E digo quase pois ele tem o auto-controlo suficiente para se conter. Explico-lhe que o exercício físico é apenas parte da equação porque o exercício de desfrutar o inesperado e contemplar a beleza faz bem à alma e, certamente, também bem ao coração. Portanto, aconselho-o a que diminua o biorritmo e programe os neurónios para, quando anda a baixa velocidade, ser capaz de contemplar o que o cerca. Por outro lado, faço também eu o esforço de andar de seguida, sem parar de metro a metro. Mas logo aparece novo motivo de interesse e os bons intuitos logo esmorecem. E este domingo foram muitas as razões para abrandar, quiçá mesmo parar - quando não mesmo ficar em stand by.
Depois da capoeira, de crianças a brincar em contra luz, de duas reboludas com trancinhas, umas encarnadas e outras roxas, a passearem cãezinhos tão reboludos quanto as entrançadas e bem nutridas donas e de uma madame vestida em full white, um vestido produzido, toda ela como se fosse uma noiva a rebentar pelas costuras do vestido e, curiosamente, a andar de trotineta, e de gaivotas a meditar à beira de água ou a voar com as suas longas asas bem abertas, eis que aparece uma beldade a fazer ioga.
Pus-me a olhar: que elasticidade, que perfeição de movimentos. Pensei no que se passou no outro dia, nem há um mês, quando fui ter uma aula de ioga e ia desmaiando, a pressão arterial nos mínimos dos mínimos. E, no entanto, olhando a elegante e elástica mulher que, no areal, se dobrava e desdobrava, dava a ideia que era fácil. Cada um é para o que nasce.
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Escolhi fotografias em que não se vê bem o rosto da bela mulher -- mas com pena: é mesmo muito bela. Rosto sereno e belo, como elegante e belo é o seu corpo.
Escolho uma música que, com uma certa pena, penso que pode parecer até banal. Faz parte daquilo a que se chama, também com banalidade, o imaginário de muita gente. Uns acordes que rasgam a alma de quem um dia se sentiu perdido, de quem, para sempre, se desencontrou do seu destino. E quem ouve, mesmo que não tenha vivido histórias de perdição, sente a dor e a solidão de quem se detém tentando encontrar o caminho de volta a uma casa onde um dia sonhou ser feliz.
Esta terça-feira, na Avenida de Paris, passou à frente do carro, na passadeira, uma mulher alta, magra, com um vestido preto, até aos pés, sem mangas, e o vestido ficava-lhe solto apesar de estreito, e ela parecia vinda de um outro tempo. Tinha o cabelo ruivo apanhado mas de forma solta e uns brincos muito grandes, em vermelho. E caminhava como se não tivesse pressa, como se não tivesse para onde ir. Todos os outros andavam rapidamente, excepto aquela esfíngica mulher. Fiquei a vê-la. Não sei se parecia perdida ou se ia apenas a pensar ou a sentir o prazer de existir. Pela forma leve como andava, poderia pensar-se que seria bailarina. Ou alguém com asas na alma. Ou alguém que caminhasse nua.
No espaço em que consegui vê-la, parecia ausente.
Depois segui e certamente não mais a verei. Assim é a nossa vida. Cruzamo-nos com pessoas que não nos vêem ou que nós não vimos, seguimos por outros caminhos, perdemo-nos sem nunca nos termos encontrado. Estranhos, invisíveis, para sempre desconhecidos. Insignificantes pontos de luz que se cruzam por acaso e que seguem o seu caminho como se nunca tivessem coincidido no mesmo espaço, no mesmo tempo.
As ruas mais turísticas estão pejadas de gente. Muitos grupos em filinha de pirilau por aqueles passeios estreitinhos seguindo um guia que vai à frente com o braço ao alto e uma tabuleta com um número. Vários grupos de gente asiática, muitos americanos, brasileiros all over, franceses, o que queiram. Todas as línguas do mundo. Uma torre de Babel. E muita gente jovem. Muitos casalinhos, jovens e não jovens, a puxarem a sua maleta com rodinhas. Gente, gente, gente.
Eu -- que gosto tanto de gente diferente e que acho que gente de origens díspares só enriquece os lugares, que sou fervorosa adepta da miscigenação -- vendo tamanha avalanche (e isto num dia de Abril, meio chuvoso), comecei a pensar que lá mais para o verão a coisa pode mesmo ser excessiva.
Para fugirmos aos passeios pejados de gente, deslocámo-nos para as ruelas, escadarias e recantos menos badalados e, aí, ainda se conseguiu aquele recato bom daqueles lugarzinhos que são dos mais bonitos de Lisboa.
Fotografei também gentes. E o Chiado tem isto: mulheres elegantes que, como que aparecidas do nada, atravessam as ruas, atravessam as multidões, e caminham sedutoramente. Podem ser belas toilettes, pode ser beleza natural, pode ser a graça do conjunto, mas há sempre um desfile interessante de observar por aqui. Agora coloquei apenas a fotografia lá de cima pois prefiro não mostrar o rosto mas, não fora esse meu cuidado, muito mais pessoas poderia mostrar. Pela Rua do Carmo, pelo Largo de S. Carlos, pelo Camões, por todos essas ruas e largos, há gente que dá gosto contemplar.
Mas, pronto, fico-me pelos candeeiros, pelo Tejo que se avista ao fundo com os seus veleiros e veleirinhos, pequenos pontos brancos num rio amansado, fico-me pelos céus onde se desenham os arabescos dos cabos que alimentam os 'eléctricos'.
E tuc-tucs. Omnipresentes. De todos os tamanhos, cores e decorações. Mas agora, para vos mostrar, escolhi esta fotografia aqui abaixo com os GoCars. São muito engraçados estes carrinhos e, não sei exactamente porquê, as pessoas que vão neles (de capacete) vão sempre a rir, ar feliz da vida.
Parece que os carrinhos assobiam, contam anedotas e mais não sei o quê. Na volta é isso que faz rir os seus condutores.
Como é bom de ver -- e como os meus Leitores já estão fartos de saber -- ando sempre de máquina fotográfica em punho e por todo o lado vejo coisas ou pessoas que despertam a minha atenção ou que me encantam.
Quando chego a casa e revejo o que os meus olhos viram, penso sempre que estou a acumular milhares de fotografias que ninguém vai alguma vez ver e que eu própria, que gosto é de fotografar e não de ver fotografias, também jamais me darei ao trabalho de rever. Há qualquer coisa de irracionalidade nisto mas, enfim, fazer o quê? Pertenço ao sub-gupo dos humanos irracionais e está tudo dito.
E mesmo, quando quero escolher algumas para aqui, à laia de diário, ilustrar o andamento dos meus dias, tenho tantas por onde escolher que a coisa não é fácil. Por vezes, uma verdadeira seca, tantas elas são.
E não quero pô-las a eito, tento encontrar uma linha comum entre algumas para que haja alguma coerência no post. No de baixo, escolhi as que tinham a ver com montras. Aqui resolvi escolher as que evidenciam a orografia de Lisboa: ruas inclinadas, escadinhas a unir as ruas, o rio lá em baixo. E juntei uma mulher para mostrar a elegância desta cidade que amo de coração. Mas, acreditem, podia ter inventado muitas outras combinações. O Chiado é lindo demais seja qual for a perspectiva pela qual o olhemos.
O mar pôs-se branco, encheu-se de sedas e tules, fez-se delicado, baixou a crista da onda, estendeu suavidades e espumas pela areia -- e toda esta cortesia, todo este adoçar para melhor se apresentar à jovem mulher que, de branco, passo elegante, se aproximava.
E assim ficaram os dois, envoltos em luminosa doçura, serenos e tímidos, prontos um para o outro.
Há mulheres que transportam em si o perfume do pecado. Será a forma como olham, como sorriem, como deslizam, como se negam sem se negarem, como se oferecem sem se oferecerem, será qualquer coisa de indizível mas que olhos atentos facilmente reconhecem.
Algumas acrescentam uma outra camada, mostrando que são detentoras de uma densidade pouco usual. Ao que se vê, acrescentam o que nelas se pressente. E o que se pressente é que há nelas, algures -- e não se sabe se é no coração, se na mente, se em todo o corpo -- a tentação pelo abismo, a capacidade da paixão transcendente, a inocência irresistível, a loucura que enleia, o riso que seduz, a irreprimível liberdade que prende de forma irreversível.
E, outras, raras, somam a isso ainda o dom do uso inteligente da palavra. É sabido que as palavras viciam e que, se nascidas de uma mulher bela e sedutora, podem ser verdadeiramente afrodisíacas.
O que dizem mulheres assim enquanto olham, enquanto o corpo se entrega a quem as olha, torna-as um permanente motivo de fascínio e atracção. Podem os anos passar, pode o corpo envelhecer que, nelas, a graça e o encanto permanecem. Intactos, requintados, cativantes.
Estou a lembrar-me de algumas. Poucas. Muitos quererão tê-la como amante. Apenas alguns terão a sorte de ser escolhidos.
Mas, mais tarde, viria a arrepender-se de o ter dito daquela forma. Confessou que preferia ter dito : "J’ai vécu comme une femme libre. Mais cela veut dire que j’ai eu des aventures, des amants, que je peux partir quand j’en ai envie..."
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Sobre imagens de Les Amants (1958), realizado por Louis Malle, o sexteto de cordas de Brahms com Pablo Casals e Isaac Stern
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Jeanne Moreau diz "Cet amour" de Jacques Prévert
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E, por favor, tenham em atenção que o post abaixo trata de gente pouco recomendável, embora muito divertida. Perigosamente divertida. Ou talvez, antes, divertidamente perigosos, nem sei.