Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, dezembro 18, 2019

Coisas simples, sem fio condutor




Sou urbana. Sempre vivi na cidade. 

As minhas avós viviam no mesmo bairro, em casas com quintais, e todos os vizinhos viviam em casas assim. Se eu brincava com outros miúdos, brincava nos quintais, praticamente como se estivesse no campo. Sempre me senti bicho de rua, galinha do campo, cabrita dos montes. Mesmo se o tempo não estava para arejamentos, eu gostava da rua. Ou da quase rua. Já contei muitas vezes que o avô do meu melhor amigo construíu uma pequena cabana no fundo do quintal e, por isso, passei muitas horas desses meu inocentes anos a conversar nessa cabana. Os meus pais também vivem num bairro de moradias e, portanto, também aí, eu brincava nos quintais, quer no da nossa casa quer no das amigas vizinhas. Ou com uma das minhas primas, mais nova que eu e que gostava de ser a minha médica e a médica das minhas bonecas. Claro que se tornou médica. Mesmo se chovia, havia (e há) alpendres, 'casinhas' em que nos abrigávamos. 

Entre as casas das minhas avós e as escolas, a infantil e a primária, havia uma encosta com ar campestre. Havia papoilas, estevas, mas também sardinheiras, malvas e couves que alguém lá plantara. Aí havia um carreiro pelo qual eu adorava descer a correr. Usava uma mala 'às costas' onde levava os livros e cadernos e cabelo comprido que usava solto ou em tranças e recordo com uma saudade feliz a sensação de correr desarvoradamente, como se fosse incapaz de parar, tanta a velocidade que adquiria, o cabelo a voar, a mala nas costas aos saltos, quase a despenhar-me. Muitas vezes caía mesmo. Ainda hoje tenho nos joelhos as marcas das muitas quedas que ali dei. Mas não me deixava intimidar. Correr, encosta abaixo, destravada, era dos prazeres a que, por essas alturas, não conseguia furtar-me. No regresso, já não subia a encosta pelo carreiro, vinha com os meus amigos pela estradinha. Mas a estradinha era ladeada por árvores e, para mim, era como se viesse pelo meio de uma floresta.


Talvez por ter guardado essas memórias tão boas, sempre tive vontade de ter uma casa no campo. Mas a vida de ambos era, e é, outra. Começámos por viver num estúdio no alto de uma altíssima torre no meio da cidade. Era um quarto com uma varanda e uma sala grande também com uma varanda. E uma casa de banho, claro. Era tão alta que as pessoas na rua, vistas lá de cima, pareciam formigas. Tinha uma vista espectacular. Depois mudámos para uma casa maior mas de onde não víamos o mundo a toda a volta. Sentia muita falta da vista. Depois os livros deixaram de caber e mudámos para esta que é bem maior, mais alta e com uma vista também belíssima. Pelo meio, depois de muito procurarmos, descobrimos aquela casa diferente no meio de um pedaço de terra coberta por pedras e mato rasteiro. E o prazer do campo, pedra a pedra, flor a flor, árvore a árvore, foi sendo cultivado até que hoje é o petit bois com que durante anos sonhei.

Mas, tal como o meu pai alvitrou ao ver aquele terreno pedregoso, dali não conseguimos tirar batatas. Há um ano, o meu filho apareceu lá com rede, estacas, espinafres, alfaces, cenouras, tomates, beterrabas, salsa, morangos. Tudo pequenino para plantar. Fez uma horta. Tudo nasceu. Comemos várias coisas de lá.

Mas a natureza devorou a horta. Não estamos lá durante a semana para tentar suster a sua força desabalada e, ao fim de semana, o tempo é curto. Tudo cresce sem freio, os mais fortes devoram os mais vulneráveis.


A minha vida inteira tem sido passada em ambiente empresarial, fechada em escritórios, em torres de marfim, assépticas, climatizadas, na cidade mais cidade, em filas de trânsito -- ou seja, longe da limpidez e dos perfumes e dos sons bons do campo. Saio de casa cedo, chego tarde, não me sobra tempo para nada, nem para ir procurar um jardim.
Hoje, à hora de almoço, num semáforo, porque não acelerei para passar antes de virar encarnado, um anormal ultrapassou-me a grande velocidade, já no encarnado, quase atropelando uma senhora na passadeira. Teve que parar, meio atravessado. A senhora pôs-se a protestar com ele e, então, o estúpido saíu do carro e veio na minha direcção a gesticular: 'Tás a olhar? Não passaste porquê?! Tavas à espera de què?! Tás a olhar? Tás a pedir é uma lambada nas trombas! Tás a olhar? Tás a pedir, tás, tás'. Eu estava a ouvir a Antena 2, tinha a janela aberta. Continuei absolutamente tranquila. Estava a olhar para ele pois, com aquele número ali à minha frente, seria impossível não olhar. Mas era como se não tivesse a ver comigo. Se me medissem as pulsações, de certeza que não se detectava alteração. Apenas quando ele avançou, ameaçador, é que pensei: 'Será que devo fechar a janela?'. Mas não fechei. Entretanto, ficou verde, os carros começaram a apitar e o estúpido meteu-se no carro e disparou, nos cascos. E eu prossegui, para mais uma reunião. Parece que já estou imune a estas coisas.

E, no entanto, quando tenho uns minutos para mim, o que gosto de me pôr a ver vídeos da vida no campo ou da vida tranquila...

Penso que gostava de me pôr a experimentar fazer compotas diferentes, frutos com especiarias, com licores. Depois penso que coisas doces já não estão com nada e que o melhor é que nunca me dê para isso. Mas gostava de tentar. Ou bombons com coisas boas lá dentro. Ou de, finalmente, aprender a costurar a sério. Também gostava de ter tempo para organizar papéis que estão um bocado ao monte, organizar as fotografias mais recentes. Ou escrever. Gostava tanto de ter tempo para escrever. 


Finalmente, consegui resolver a questão das fotografias e, apesar do dia tão recheado e das reuniões e de ter que andar sempre a correr, vim para casa descansada. Amanhã não poderei ir buscá-las pois a saga dos almoços natalícios continua. Mas o peso de chegar ao Natal e não ter fotografias para oferecer já não tenho. 

Para festejar esse alívo, mal acabei de jantar e me acomodei, o meu corpo desligou. Adormeci. Pouca dura mas boa. A seguir, pus-me a ver os vídeos que mais abaixo vos mostro.


Também andei à procura de informação sobre a permacultura. Pressinto que um dia o vou tentar.

Mas se é tema que me desperta mesmo interesse a verdade é que, estando eu à espera de informação objectiva, factual, pão pão queijo queijo, me impacienta um bocado ver aquelas pessoas muito alternativas, o cabelo como se não fosse lavado há anos, em rastas, e todos muito pendões, dentro de roupa demasiado larga e mal jeitosa, todos muito zen, muito fora, muita filosofia transcendental. Prefiro a ruralidade básica, os instintos primários, a pouca conversa. Quando a coisa vira religião, espírito de seita, quando a coisa vira moda, culto, matéria para formação com a malta sentada no chão, tudo muito peace and love, eu desligo, salto fora. Não é para mim.


Nunca me ocorreu sentir-me desenquadrada. Pelo contrário. Por exemplo, sinto um forte sentimento de pertença ao pedaço de terra a que aqui, no blog, chamo heaven. É como se tivesse nascido de lá e, muito naturalmente, quando um dia o meu corpo se diluir, me for misturar com aquelas árvores e musgos, e com o canto dos pássaros.  Sinto-me também muito bem nesta casa ampla onde agora estou, cheia de livros, e de cujas janelas vejo o rio. Tal como, quando estou a trabalhar, me sinto integrada: sou uma daquelas e daqueles que, quando vistos de fora, me parecem gente com que pouco tenho a ver. No entanto, quando lá estou, eu sou uma daquelas, sem tirar nem pôr. Quando saio de lá, sou outra, sou esta.

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E tenho estado a escrever e, agora que parei para escolher as fotografias (feitas in heaven, no sábado -- e, sim, o medronheiro está cheiinho de doces medronhos e, sim, ainda há cogumelos all over), percebo que isto está sem rei nem roque, uma coisa à toa, um texto sem ruas, sem direcções, tudo a eito. Na volta, não cheguei bem a acordar. Mas a esta hora (duas da manhã) já não dá para tentar compor. Espero que não fiquem almareados com tanta flutuação, assunto para aqui, frase para acolá.

Passo, portanto, aos vídeos que estive a ver de gosto. Espero que também gostem.



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Se o texto tiver um número anormal de gralhas, por favor relevem, está bem?
Mas, se encontrarem alguma cabeluda, por favor avisem-me, sim?

E a todos desejo uma bela quarta-feira.

sábado, dezembro 07, 2019

Onde a mística UJM fala de mais um jantarinho de Natal




Se há coisa de que não gosto é de andar a conduzir à noite por sítios que desconheço nos arredores nem sei bem dizer de onde. Pelo nome do lugar não faria ideia de como lá chegar. Portanto, pego nas coordenadas e coloco-as no navegador do carro e vou seguindo as instruções. O pior é aquilo mandar-me para onde não faço ideia, dizer para eu virar à esquerda e não haver esquerda para onde virar, falar na quarta saída da rotunda e só haver três saídas e eu ficar sem perceber se o gps está errado, se fui eu que descarrilei nem sei onde ou se está mesmo a mandar-me para o outro lado do mundo. Ainda por cima, parte das estradas naqueles arrabaldes não têm marcação e eu nem sei se é sentido único ou duas faixas ou se não percebi bem as instruções e vou é em sentido contrário. Ou seja: um sacrifício.


Quando perguntei "mas com que jeito é que escolheram uma coisa num lugar tão ermo? E no início de Dezembro... tão longe do Natal?" explicaram-me que com a lotação pretendida, para ser equidistante dos que trabalham aqui, dos que trabalham ali e dos que acolá e para ser numa sexta-feira ao jantar só se se tinha arranjado ali e nesta data. Pronto. I rest my case.

Mas, portanto, para mim, dar com um lugar fora de mão, desconhecido e à noite, é das coisas que não me agrada. Felizmente lá dei com aquilo embora mesmo em cima da hora, o parque já a transbordar com centenas de carros já por todo o lado. Quando estava a estacionar, estacionou um carrão ao meu lado. Quando saí, pergunta-me o homem, ainda dentro do carro, com um sotaque estrangeiro, se era ali o jantar da empresa tal e coisa. Disse-lhe que sim. Então ele, muito admirado, perguntou-me se eu ia para lá. Disse-lhe que sim. Admirado perguntou se eu trabalhava lá. Disse-lhe que sim e ele riu e disse naquela voz lá dele, meio moldava ou lá o que era, 'já estou com sorte'. Ali no parque, às escuras, achei que o melhor seria pisgar-me e, em cima do meu sapatinho alto, assim fiz, avançandomente resoluta. Não faço ideia quem seja a criatura. Quando lá cheguei, o grande espaço já apinhado, contei a um colega e perguntei se temos algum estrangeiro. Disse-me que os colegas estrangeiros não tinham sido convidados, participarão em jantares nos respectivos países. Isso sei eu, aquele é estrangeiro mas já arranha o português. Ele disse que desconhecia. Olhei em volta e não vi o estrangeirado. Mas, no meio daquela confusão, estranho seria se o descortinasse.


Entretanto, naquela das entradinhas circulantes, coisinhas pequeninas e boas, bolinhas disto, espetadinhas daquilo, amuse-bouche a preceito, estava eu na conversa com uma colega que não via há algum tempo. Nisto chega um homem que vem cumprimentá-la e ela apresenta-mo. Nem eu alguma vez o tinha visto ou ouvido falar nele e, creio, nem ele me conhecia. E nisto, do nada, o homem começa a falar-me do seu percurso profissional, o que fez e deixou de fazer, num malandro que há uns anos lhe cortou as pernas impedindo-o de progredir -- e disse o nome do dito malandro --  e que agora já não lhe interessa porque já decidiu ir-se embora e que vai iniciar uma nova fase na sua vida e que até já perdoou ao outro. E continuou a falar-me em projectos e no que gosta de fazer e tanto falou que, por fim, já falava na beleza língua portuguesa e já dizia graças. Quando uma outra colega veio de longe para me abraçar, eu despedi-me do senhor e ele agradeceu-me e eu, pasmada, 'mas está a agradecer-me porquê?' e ele 'estou a agradecer ter-me dado a oportunidade de me ouvir'.


E, ao jantar, ao contar ao meu colega do lado o que o senhor me tinha contado e como me pareceu que até estava emocionado a contar-me tudo aquilo, o meu colega, de olhos arregalados, perguntou: 'Mas contou-lhe isso tudo a propósito de quê?' E eu: 'Pois, não sei, não faço ideia'. E ele: 'Mas, do nada, saíu-se com isso tudo?' E eu: 'Sim. A sério. Nao sei como nem porquê mas foi'. É que não sei como aconteceu pois foi-me apresentado e, acto contínuo, estava a falar-me da sua vida. O meu colega, olhando muito sério para mim, disse: 'É aquele seu lado místico. Você não quer acreditar mas olhe que eu não tenho dúvidas'. E eu aí não disse nada. É que, de facto, não sei que fenómeno é este. Isto passa a vida a acontecer-me. Gostava de ser filmada para que outras pessoas pudessem testemunhar e interpretar. É que eu não tenho explicação.


E poderia falar de alguns outros aspectos, alguns bem divertidos, mas daqui a nada são três da manhã, o meu marido está a perguntar-me se não serão horas de me ir deitar e eu acho que são.

Conto só que, quando me raspei, uma vez mais meio à papo-seco (já que centenas ainda lá ficaram), ao despedir-me do meu colega do lado, sem querer desejei-lhe bom natal. E ele: 'Homessa! Já? Mas vai de férias?' e aí eu desatei-me a rir. 'Bolas! Que estupidez. Com tanto espírito natalício, parece que já estamos lá. Que ridículo'. Ele deu-me um beijo de despedida e disse-me: 'Até para a semana.'

E vim de novo, saltinho alto pela calçada, noite cerrada, até ao carro que estava todo molhado, tanta a humidade. Gps para casa e aí vem ela, por campos nunca antes desbravados, sem fazer ideia onde estava, estradas sem marcação, sem iluminação. Mas vim cá dar e isso é que é preciso.

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Obviamente, as fotografias que pertencem a  Jorge Sato e são um tributo a Niemeyer nada têm a ver com o texto. E o Somewhere interpretado pelo Tom Waits também está aqui apenas porque me apeteceu ouvir.
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E a todos desejo um belo sábado.

sexta-feira, setembro 13, 2019

Uma casa na praia, uma casa tradicional na montanha mas com vista para o rio e duas casas modernas também na montanha mas agora com vista para o rio e para o mar.
Em dia de jackpot no Euromilhões faites vos jeux





Gosto muito do meu país, isso é mais do que sabido, e não me canso de mostrar lugares que me encantam. De cada vez que descubro um lugar novo é quase inevitável que me surpreenda com a sua beleza. Por vezes, para além da beleza natural, há o cuidado no seu arranjo, há o bom que é lá estar. Assim de repente poderia referir alguns que elegeria como os mais belos de Portugal. Mas este em que estou agora é mesmo lindo para além da conta e conjuga isso com um sereníssimo acolhimento e, por isso, tenho que vos pedir que me desculpem pelo excesso nos encómios: aqui tem rio, tem mar, tem praias, tem serras a toda a volta, tem miradouros, tem pinhal nas dunas, tem uma vila bonita e bem arranjada, com uma bela praça, com boas esplanadas em volta de um belo chafariz, tem belas terras nos arredores e um caminho rés à água entre elas. É uma beleza absoluta. 

Interrogo-me: não há ninguém aí desse lado que seja de lá? Se há, porque não me avisou que eu tinha mesmo que cá vir para conhecer por dentro a beleza deste lugar?

Acabei de ver as fotografias que fiz hoje com a máquina (porque fiz também com o telemóvel para enviar para os meus filhos e para a minha mãe) e nada mais, nada menos do que duzentas e sessenta e três. Tanta coisa bonita para mostrar que nem sei por onde começar. Fazer selecção não é fácil. Não quero enfastiar-vos mas custa-me desdenhar de tanta coisa linda que os meus olhos viram.

Enfim. Dificuldades.

Começo por mostrar casas lindas. 

A Isabel gostava de ter uma casa na praia e eu, ao ver esta que aqui mostro abaixo, pensei que esta era mesmo boa para ela. Uma casa no sopé de um monte, entre arvoredo, mesmo na praia. Claro que lá toda a gente a trataria por Chabeli mas Chabeli é um petit nom que lhe assenta como uma luva.


E a seguir uma outra. Não na praia mas não muito longe. De carro, uns cinco minutos. Num monte virado para o rio, para o lugar onde o rio parece um lago, um lago tranquilo, um lago por vezes espelhado, e vista também para vários outros montes. É uma casa tradicional, uma casa assolarada, uma casa de quinta. 


E, finalmente, também na serra, perto dos miradouros de onde se tem uma vista assombrosa, duas casas de linhas direitas, com janelas de onde certamente se pode ver a foz do rio e o mar, este mar largo que faz parte da nossa alma portuguesa.


A fotografia da casa 'da Isabel' foi feita de manhã e as duas últimas ao pôr do sol. Daí a diferença de tonalidades. 

Claro que, do que vejo, as casas não estão à venda -- o que é uma pena. Mas nunca se sabe e, além disso, há dias de sorte. E, mesmo que a casinha da praia nunca vá parar às mãos da Isabel ou qualquer das outras às minhas ou às vossas, não faz mal. Os donos estarão, certamente, a dar-lhes muito uso e isso é que importa. E importa também saber que há casas bonitas em lugares bonitos, casas na praia ou casas with a view, e só de vê-las assim por fora a gente fica contente a imaginar como deve ser bom viver nelas. Neste nosso lindo, lindo, lindo País.

quinta-feira, julho 04, 2019

Casas fake


Não é todos os dias que se aprende qualquer coisa. Nem todas as coisas que se aprendem têm utilidade. Para quem é de boa memória fica como cultura geral. Para mim, que sou a modos que desmiolada, aprendo, acho graça e, regra geral, a seguir reciclo os neurónios e ficam prontos para receber mais informação e, portanto, grande parte da informação vai para o espaço.

Hoje aprendi que há casas falsas e receio que essa informação não me seja de grande utilidade. Se eu fosse arquitecta ou urbanista talvez fosse mas, não o sendo, é bem capaz de ser daquelas de que, para o mês que vem, jure a pés juntos que nunca de tal ouvi falar.

Embora, aliás, pensando bem, já sabia. Fartinha de saber. Fachadas sem nada por detrás. Mas associava a edifícios degradados dos quais a custo se mantêm no ar as fachadas.

Nestas aqui o conceito é outro. Parecem casas a sério, bem conservadas. Olha-se e não se imagina. E isto para mim, sim, foi novidade. Bem como a razão de ser delas. Engraçado. Engenhoso.

A coisa passa-se em Londres:
Numbers 23-24 Leinster Gardens in London are fake - they're just a front facade with no house behind them. So why? 

segunda-feira, abril 15, 2019

Aquilo da 6ª geração de Marcelo Rebelo de Sousa será mais uma fake new ou algum amigo, afim, equiparado ou colateral do senhor tem participação em alguma empresa relacionada com ADN?


Presumo que aquilo do Marcelo ter pontos em comum com o seu antecessor -- essa ilustre figura da história portuguesa, o marido da Dona Maria Cavaco -- passe por  aquilo de alguém ter que nascer mil vezes para ser mais honesto que ele. Por isso, nada do que adiante se dirá nem o título do post permitirá concluir que ponho em causa a honestidade e a transparência do nosso ubíquo e hiperactivo Presidente. Não.

Já disse o que tinha a dizer sobre esta conversa dos familiares e digo mais: toda esta areia é coisa com a cara do Rangel. Poeira, baderna, injúria, fofoca, intriga, permanente cacarejo -- é com ele. Conhecemos Rangel há tempo de mais para podermos ainda alimentar alguma esperança de que um dia seja mais do que isto. Não será. Rangel é daquelas figuras irrelevantes e cómicas que atravessam a política. Rangel não é para ser levado a sério. 

E Marcelo, com esta sua borbulhante maneira de ser, sempre a querer protagonismo, sempre a querer cavalgar qualquer onda, em vez de se portar como um Presidente a sério, moderado, ponderado e lúcido, em vez de desdramatrizar, em vez de introduzir racionalidade na conversa, não senhor: acelera o passo e resolve tomar a dianteira da demanda populista. Mas, como sempre que é tomado pela suprema ânsia de ser omnipresente, omnisciente e omnipotente, tende a dar passos em falso. Foi o que, uma vez mais, aconteceu. Resolveu armar-se em legislador e, para dar o exemplo, não as mediu:

Não pode o Presidente da República nomear como pessoal referido no número 1 do presente artigo, ou seja, para a Casa Civil, Casa Militar, o Gabinete, o Serviço de Segurança, o Centro de Comunicações e o Serviço de Apoio Médico, o seu conjuge ou equiparado, algum parente ou afim em linha reta até ao 6º grau em linha colateral, adotados ou qualquer outra pessoa sua representada, por si ou por seu conjuge, na situação de adulto acompanhado, ou com quem viva em economia comum
Ou seja, ninguém escapa: só se for cão ou gato. Ou galinha. 

Eu não duvido que o Prof. Marcelo, a quem nenhum pormenor escapa, saiba quem são os seus parentes ou afins em linha recta até ao 6º grau em linha colateral. Pois já eu tenho que pensar um bocado para saber quem são os meus em 2º grau. Ao 3º já lhes perdi o rasto. Ao 6º já teria que recuar até ao tempo dos meus primos etruscos.

E se isto, ainda por cima, inclui afins, equiparados, adoptados, pessoas representadas, amancebados, e isto em linha recta, oblíqua ou colateral, então esqueçam.

E daí eu concluir que, de cada vez que alguém quiser convidar alguém para algum cargo seja onde for, terá que mandar investigar se há algum ponto de semelhança entre as cadeias de DNA e nomear uma equipa de historiadores e espiões que verifiquem ligações clandestinas no século actual, passado ou ainda mais recuado. Já ouvi falar em árvores genealógicas mas isso não serve pois isso não abrange toda a panóplia de afinidades que será sinónimo de cartão vermelho. 

Um nonsense. Um perfeito nonsense.

O mundo está a cer cilindrado por populismos com a ajuda de gente descerebrada que a única coisa que sabe fazer é parir fake news e eu fico assustada quando verifico que isto não acontece só aos outros, aos poucos vai acontecendo também por cá. 

E custa-me um bocado que uma pessoa inteligente e responsável como Marcelo Rebelo de Sousa em vez de se portar como um esteio de um edifício frágil (como é a democracia) se ponha a cavar um fosso no qual inevitavelmente cairão tantos bons democratas, tanta gente válida e honesta.

Brinco quando pergunto se ele terá participação em laboratórios que fazem a sequenciação de DNA mas não brinco quando digo que me decepciona e preocupa quando lhe vejo atitudes bizarras e inconsequentes como estas.

Receio que nas próximas presidenciais não se perfile grande alternativa mas, se Marcelo continuar nesta sua deriva (que o leva a andar de velório em velório, de acidente em acidente, de inauguração em inauguração, de comentário em comentário e até, segundo li, até a fazer selfies no velório da Dina), terei que pensar bem antes de tomar a minha decisão de voto.


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James Turrell, nos antípodas de Marcelo

Juntei imagens de alguns trabalhos de James Turrell para que o post tenha algum apontamento de beleza. Claro que, sendo tudo tão relativo, haverá quem não veja qualquer beleza nisto. Mas nunca ninguém conseguirá ser sempre consensual e, de resto, quem nivela tudo por baixo para que tudo o que diz ou faz apareça como consensual são os populistas, raça que abomino. Eu arrisco expor os meus gostos e, portanto, arrisco não agradar a todos.

Haverá quem fique na história pela emoção cujos trabalhos sabem transmitir, pela beleza que sabe procurar e fixar para todo o sempre. E há os que gostariam disso mas que se perdem no frenesim com que tentam agradar, deitando tudo a perder. James Turrell, com as suas construções que entrelaçam luz e espaço e que impressionam pela sua aparente simplicidade, faz parte do primeiro grupo (em meu entender, claro)



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quarta-feira, março 20, 2019

Uma casinha na árvore





Vivi quase sempre em lugares altos. Em casa dos meus pais eu levantava-me e ia à varanda ver a serra. Ao princípio, via também o rio mas, depois, perdeu-se essa vista. Mas a vista sempre foi desafogada. A serra, um castelo, as casas ao longe, uma vastidão à disposição do olhar.

Depois, já quando por minha conta, vivíamos mesmo perto do céu. Um ninho de águia. O rio a toda a volta.

Agora ainda. Tenho cidade, tenho rio, tenho serra. Levanto-me e vou à janela. Fotografo vezes sem conta a largueza que o meu olhar alcança, como se quisesse fixar uma vista única. E é única. A luz muda de dia para dia, ao longo do dia. E isso muda tudo.


Quando andávamos à procura de um lugar no campo, procurámos tanto. Ou eram caros, ou eram espaços acanhados, mal avizinhados, confinados ou as casas eram feias ou escuras. Até que descobrimos este espaço a que aqui chamo heaven. Uma vista desafogada, a serra, o vale, saber que o rio corre lá ao fundo, poder ver o nascer e o pôr do sol, à noite muitas mil estrelas num céu infinito.

Gostava de ter a casa mais embrenhada em árvores. E está um pouco e o que me salva do furor radicalista do deita-abaixo é que são azinheiras, árvores gigantes e lindas, protegidas. Se for à janela ou quando abro as portadas para a rua fico no meio do verde e é uma sensação maravilhosa, uma paz total, um silêncio apenas entrecortados por trinados felizes. 


Mas a ideia de poder ter uma casinha mesmo no meio das árvores, uma casinha de madeira, não me abandona. Não me canso de ver 'modelos' e imaginar sermos mesmo nós a construir uma. Depois levar lá os meninos. Estar com eles a ver o imenso verde, o céu imenso.

Não terá nada a ver com a casa de Jim Olson o que imagino pois é mesmo numa cabanita que penso -- nada de grandiosidades, muito menos de luxos, mesmo que luxos despojados. Penso numa escadinha, uma casinha pequenina mas com uma varandinha para lá pormos duas cadeiras confortáveis. E sentarmo-nos lá a ver os montes, o arvoredo, ouvir o canto dos pássaros. Imagino isso.


E, enquanto isso não nasce das nossas mãos, vou-me entretendo a ver casas no meio da floresta, espaços arejados, luminosos, aconchegantes. A casa que abaixo se vê é linda, linda. Gostava de poder, um dia, passar uma noite numa casa assim. Uma noite ou um dia. Ou uma noite e um dia. 

In Residence: Jim Olson - inside the architect's treetop house


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Pinturas de Fed Williams e o Gabriel's Oboe de Ennio Morricone a acompanhar

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Confissões e circos no post abaixo.

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sábado, março 16, 2019

Fantasias e delírios?
Ná.
Provocações e irrealidades?
Ná.
Lágrimas e suspiros também não.





Se falo verdade, há quem ache que ficciono. Tem graça isso -- e digo que tem graça porque, na realidade, não segue qualquer lógica. Se digo que fui boa aluna, desacreditam. Se dissesse que tinha sido má aluna acreditavam. Não percebo o racional dessas pessoas. Uma vez, numa história toda ficcionada que se bem me lembro incluía príncipes marroquinos a dizerem poesias, inventei uma cena que metia um jantar num palacete numa das mais belas vilas do país. Descrevi a casa, a decoração, o requintadíssimo repasto que lá tinha tido dias antes. Pois foi nisso, que era a única coisa verdadeira da história, que algumas pessoas não acreditaram. Acharam que estava a armar-me ao pingarelho. 


Licenciei-me num estabelecimento de ensino do mais clássico que há, fiz um curso que só não foi uma tareia das valentes porque sou dada a pôr os pesadelos para trás das costas. E, não sei com base em quê, há quem aqui chegue para dizer que devo ter feito daqueles cursos à Relvas, equivalências e diplomas ao domingo. Uma vez mais, não consigo compreender a linha de raciocínio de quem assim pensa.

E dizem-me que gosto que me massagem o ego. Nada mais errado. Se há coisa que detesto -- mas que detesto mesmo -- é de ser bajulada. No meu dia a dia, se alguém ensaia puxar-me o saco nem chega ao primeiro acto, vai logo de asa. E se há coisa que me diverte e me dá pica é que tentem arreliar-me. Tal como na 'vida real' gosto de uma boa disputa, gosto de discutir política, gosto de debater ideias sob visões antagónicas, aqui acontece o mesmo. Mas isso é diferente do insulto gratuito. Mas, mesmo assim, fico com vontade de dar troco. Se aqui calha aparecer um daqueles comentários que destilam fel ou parvoíce, é com entusiasmo que me atiro a dizer das minhas.


Também há quem se queixe que falo muito de mim. Presumo que sejam pessoas que não gostem do registo autobiográfico. Mas essas pessoas devem perceber que o que se passa aqui é coisa marginal na minha vida. Ponho-me a escrever porque gosto de escrever. À hora a que escrevo não tenho discernimento para ter muito assunto. Tal como os pintores que, à falta de modelo, se põem ao espelho e fazem auto-retratos, também eu, à falta de melhor assunto, falo de mim. Não frequento redes sociais, mal vejo televisão e, se não me ocorrem umas bocas sobre a actualidade, não tendo do que falar mas fervilhando-me os dedos para escrever, falo do que fiz ou do que me lembro. Se falo de mim, não invento. A menos que escreva uma história na primeira pessoa, mas aí é óbvio que se trata de ficção, no resto o que digo é tal e qual. E acho que se percebe quando é e quando não é história.


Por exemplo, se escrever assim:
Estava a conduzir numa das mais movimentadas avenidas da cidade. À minha frente, um carro branco, que reparei que tinha muitos anos, abrandou. E, para minha estupefacção, uma porta abriu-se e de lá saltou um pequeno gato preto. Travei, assustada, o coração acelerado, temendo matar o gatinho e, ao mesmo tempo, temendo que um carro me batesse. Sem ver o gatinho, sem saber em que direcção tinha ido, fiquei sem saber se podia andar. Os carros atrás de mim travaram. Avancei devagar, aflita. Mas não senti nada. Olhei para todos os lados. Nem sinal do gato. O carro branco acelerou, mudou de faixa e saíu por uma rua à direita. Ainda atordoada, pensei na maldade extrema de quem tinha feito aquilo de propósito para matar o bichinho. 
ou
Estava a conduzir. Num semáforo, ao parar, reparei que no carro ao lado estava um advogado que costumo ver frequentemente na televisão. Via-se que falava em alta voz. Ria, falava. A vantagem do bluetooth. Depois, como o sol lhe batesse nos olhos, pôs uns óculos escuros. Homem com muito charme. O sinal abriu, arrancámos. Encostei para virar e ele também, na faixa ao lado da minha. Estava calor, abri o meu vidro. Do carro dele vinha agora o som de uma ária. Pensei: Tosca. Mais à frente, pouco antes de passar por uma rua onde se encontra um dos grandes escritórios de advogados, o carro dele abrandou para virar. Reparei que ao seu lado estava agora uma mulher. Não estava antes e, no entanto, nenhuma mulher tinha entrado. Quando olhei, reparei como sorriam, ela ajeitando o cabelo.
penso que é claro que uma das narrativa é cem por cento verdadeira e que outra tem uma pitada de ficção (embora não mais que uns cinco por cento de ficção), pitada essa que, só por si e em conjugação com o lado deliciosamente verdadeiro, me deu vontade de desenvolver um suculento folhetim.


E, uma vez mais, estou com isto não porque seja importante para mim que saibam tão relevantes frioleiras mas porque me apetece escrever e não me ocorre outro assunto. Há assuntos fantásticos, fracturantes ou sensíveis sobre os quais deveria, a esta hora, dissertar em vez de estar com esta conversa de nada? Pois, acredito que sim. Por exemplo, poderia falar sobre a beleza monástica dos lírios ou sobre a lucidez sensata dos substantivos que não carecem de adjectivos ou ainda da delicadeza angelical dos olhares que caem, oblíquos, sobre o meu decote. Ou poderia falar da tristeza dos ramos nus dos plátanos ou da alegria saltitante dos passarinhos que cantam nos beirais dos blogs. Poderia, claro, mas não seria a mesma coisa.

É que aqui não há regras, não há agenda, não há propósito. Aqui não há altares, muito menos santinhas. Aqui, quem vem, vem para jogar. Mesmo que seja ao jogo da verdade ou consequência. Ou apenas para jogar às verdades. Ou para esconder o jogo. Ou para piscar o olho. Ou para mostrar as cuecas.

E espera-se que quem cá vem alinhe. E dance. E escute. E olhe. Ou seja respeitador e desvie o olhar.

Ou não.


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E para os que não acham graça a estas desconversas, tenho aqui dois vídeos muito bons que espero que compensem a falta de substância das minhas desnutridas palavras.


Na casa de Maggie Gyllenhaal e Peter Sarsgaard em Brooklyn




Arte é vida - A colecção de Marianne e Pierre Nahon


E tenham um belo sábado, está bem?

quinta-feira, janeiro 24, 2019

Sobre a beleza e sobre a matemática




Estive a ver, ontem, na RTP2, um programa sobre a beleza. E muito foi dito e mostrado mas aquilo de que gostei mais tem a ver com a relação entre a beleza e a matemática. Seria muito difícil explicar a emoção que senti ao ouvir isto tal como é difícil explicar a beleza da matemática, a vertigem de encontrar a elegância da demonstração de um teorema complexo, a vertigem de olhar e compreender as proporções de uma geometria sublime, a vertigem de descobrir o caminho certo por entre um intrincado labirinto. Difícil explicar. Parece coisa de doido. Mais vale calar porque há coisas que não se podem explicar, não se podem macular com a imprecisão das palavras incorrectas.


Se é a simetria, a proporção, a harmonia -- isso eu não sei. Sei que sou muito sensível à beleza. Dependente da beleza. Não vivo sem beleza. Procuro-a.

Pode ser uma difusão de cores em pleno voo, pode ser um sentido choro de violoncelo, pode ser uma lenta sucessão de volumes ou o grito de um ângulo agudo. Ou uma conjugação de palavras que me deixe sem fôlego, em lágrimas ou sem chão.

Não me prendo a uma só forma de beleza. Pode até ser apenas um terno sorriso, pode mesmo ser um olhar mais doce. Pode ser uma mão que se aproxima. Pode ser o rendilhado de uma sombra num muro branco ou o deslizar suave das águas de um rio ou o suave tombar das ramagens de uma árvore nas suas margens. Ou uma inexplicável saudade ou a imorredoura e muito bela memória de uma varanda suspensa, envolta em sombra e flores, em sorrisos, em abraços não consumados. .


Mas saber que afinal há mesmo semelhança entre a emoção que se sente perante estas formas quase consensuais de beleza e a que se sente perante conceitos de análise infinitesimal, topologias abstractas, geometrias descritivas, casos insolúveis, sistemas cruzados de inequações ou soluções inesperadas e quase mágicas para problemas de matemática enche-me mesmo de surpresa e satisfação.


Penso que será também semelhante ao que se sente perante o tentador abismo que é a física da matéria ou perante as assombrosas similitudes entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande ou perante o fascínio que resulta do meu total desconhecimento da vida das partículas elementares ou do imenso espaço ou do indefinível vazio. Mergulhar nesses mundos, percorrida por uma louca incompreensão, deixa-me com uma emoção que é um frémito quase vertiginoso muito semelhante ao que me faz ter vontade de me ajoelhar em silêncio perante uma tela de Caravaggio ou de Chagall ou de me reduzir a nada para melhor escutar os acordes vindos de um mundo habitado por divindades ou o que sinto perante uma paisagem que me faz ter vontade de me diluir na terra ou de sair a voar sobre os vales.


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Have beauty.

domingo, janeiro 06, 2019

As implacáveis Procuradoras: a Santa Mana Joana e a Manuela Boca Guedes
[E Marcelo e Bolsonaro e o tal da TVI que convidou um criminoso fascista e etc]





De passagem pela SIC vejo anúncio à Procuradora Manuela Moura Guedes. Espuma raiva. Acusa, condena, decreta penas. Implacável. Com ela não há inimigos que lhe escapem. Não precisa de provas nem de contraditório. Com ela é assim mesmo: chateaste-me, já dançaste. A cartilha lida, o destino traçado num piscar de olhos, num retorcer de boca.

Foi-se a Santa Mana Joana e ficou a Moura Guedes. Estava a vê-la e a pensar na implacável Santa Mana a quem também ninguém escapava. Só escapavam os que, lá de dentro, enviavam informação, gravações, vídeos e o que calhasse para o Correio da Manhã e Lixeiras associadas.

No pontificado da Santa Mana, muita gente tombou. Gente importante. Tombaram e todos nós assistimos ao seu tombo. Vimo-los humilhados. Era chegado o tempo de dar cabo dos corruptos. Lemos as transcrições, ouvimos as gravações, vimos imagens que comprovavam que eram culpados. Corruptos da pior espécie finalmente vergados. A Santa Mana até foi canonizada em vida, tantos os seus bons feitos: com ela não ia ficar pedra sobre pedra e pena era que não ficassem logo presos mal os investigadores lhes punham os olhos em cima.


Até que agora veio o desfecho de um caso, o dos Vistos Gold. Afinal quase todos inocentes, os processos sem ponta por onde se lhes pegasse. Entretanto, durante anos a vida destas pessoas devassada, a vida pessoal e profissional sacrificada. E por nada. Apenas porque a Santa Mana e a sua malta resolveram que sim. 

Arrependimento pelo que vão destruindo à sua passagem? Estou em crer que nenhuma. São implacáveis, estas duas Procuradoras. Estão bem uma para a outra. Com elas não há inocentes, só culpados, e ainda bem que elas estão atentas e são como são.

Um dia destes a Procuradora Boca Guedes voltará à política. E será bem sucedida. Todo o palco que a SIC lhe está a dar é uma boa rampa de lançamento. Haverá muita gente a achar que sem elas os corruptos continuariam à solta. Há que ter Procuradoras justiceiras e poderosas para que o mundo fique mais limpo. Se, pelo meio, destroem uns quantos inocentes, azarinho.


Entretanto, na TVI um tolo que não faço ideia quem seja resolveu levar um criminoso com ideias racistas e fascistas a divulgar as suas ideias. E há quem ache que isso é liberdade de expressão. Um dia destes, alguém dará mais um passo e convidará o criminoso a ter presença cativa num programa de televisão, que é um lugar bom para lançar na política os alarves, os boçais, os populistas. E, se for a votos, capaz de muita gente votar nele, não sabendo ou não querendo saber dos seus antecedentes, e achando que ele é dos bons, que diz as verdades, que é justiceiro, que é dos rijos.


E há também aquilo de Marcelo 'normalizar' o bronco e perigoso Bolsonaro, tratando-o como irmão e dando um passo maior de aproximação, convidando-o a visitar Portugal. Dadas as circunstâncias históricas e dadas as comunidades de portugueses lá e de brasileiros cá, que mantivesse um relacionamento diplomático discreto parecer-me-ia razoável -- mas que Marcelo não tenha arranjado uma forma diplomática de se demarcar das ideias anti-democratas de Bolsonaro deixa-me francamente incomodada.


Caminhamos sobre areias movediças. Há perigo rondando as nossas vidas e vem de onde menos se esperaria -- das instituições que deveriam zelar pelo cumprimento da lei e que, afinal, em puros exercícios de paranóia ou vingança dão cabo de muita gente, dos órgãos de comunicação social que promovem difamadores, demagogos, fascistas, de políticos que elegemos sem cuidar de escolher bem. A  qualquer momento um inocente pode ver a sua vida desgraçada sem nada de mal ter feito. As instituições democráticas são frágeis.

É obrigação de todos nós e das instituições que nos representam zelar activamente pela qualidade e sustentabilidade da democracia. E isso tem que começar a ser ensinado e praticado nas escolas, desde a infantil ao ensino superior (no dia em que isso acontecer, de certeza que praxes humilhantes acabam naturalmente -- só para dar um exemplo) e também é bom que comecem a existir, nas estações públicas, programas (criativos, interessantes) que ensinem e fomentem a cidadania livre, exigente, democrática. E é bom que os deputados se debrucem sobre todos estes riscos e engendrem formas de os evitar ou, pelo menos, mitigar.


É que uma coisa é certa: não podemos estar à mercê de Procuradoras como a Guedes ou a Vidal e é bom que por aí, em lugares de influência, não esteja gente estúpida, ávida de protagonismo ou ignorantes que abram a porta às serpentes que devoram a democracia. Nem devemos pôr-nos a jeito para que haja alguma vez o risco de virmos a ter por cá um anormal como o Bolsonaro ou o Trump. É essencial que nós, os inocentes, possamos viver uma vida descansada e que o país em que vivemos não seja um lugar perigoso.

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As imagens mostram trabalhos de James Turrell.

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E agora, caso ainda não estejam ao corrente, queiram ver a minha resposta muito a sério ao Anónimo e Meio. É já a seguir pelo que queiram descer um pouco mais.

segunda-feira, dezembro 24, 2018

Já é véspera de Natal




Já aqui o contei e desculpem por me repetir. Lembro-me muitas vezes de quando a minha mãe -- numa altura em que deu aulas perto de um bairro de lata -- no regresso à escola depois das férias, chegou a casa impressionada com a resposta que recebeu de uma aluna à pergunta sobre os presentes de Natal. A menina, toda contente, disse que tinha recebido um plástico muito bonito para pôr por cima da cama para não chover. A minha mãe ficou muito comovida e eu, que era adolescente, também o fiquei. Tanto que essa imagem não mais me abandonou.


Lembro-me também de quando ia beber café a uma pastelaria perto de casa e me fazia muito impressão, no dia de Natal, perto da hora de almoço, ver pessoas a comer sozinhas, com ar apagado, olhar baixo, quase como se não suportassem a imagem alvoroçada dos sorridentes que ali iam beber café, comprar pão ou buscar bolos de última hora para apressadamente voltarem para casa, para junto da família.

Também me lembro de um colega que dizia que na noite de Natal jantava com a mãe, ia para casa cedo porque a mãe jantava muito cedo e, no dia, ia com ela comer um prego o que, para ela, era uma excentricidade, uma aventura especial. E ele contava esse seu programa de Natal como se quisesse disfarçar o que quase me parecia vergonha.

A minha véspera e o meu dia de Natal são festas em família, felizmente gente sempre animada. Temos tido problemas, e quem os não tem?, temos perdido pessoas que amamos, alguns têm estado doentes, sustos daqueles mesmo maus mas que, por sorte, têm sido ultrapassados, outros assistem ao lento declínio dos que lhes são mais próximos. Mas, talvez porque há sempre crianças e as crianças, com a sua graça e alegria, fazem ultrapassar qualquer sombra e mágoa, até agora e desde que me lembro, por sorte, os meus Natais têm sido sempre felizes. 

Contudo, tempos houve em que, num lado da família herdada, algumas pessoas incompatibilizaram-se com outras e deixaram de passar os Natais juntos. Custava-me muito isso mas nada podia fazer. Nessa altura, eu, o meu marido e os meus filhos íamos ver esses que tinham sido banidos pelos outros. Tentávamos levar-lhe um pouco do calor familiar e de alegria. Quando a última dessas pessoas morreu e tivemos que 'desmanchar' a casa, encontrei os presentes que lhes deixávamos pelo Natal, muito estimados, com a data desse Natal escrita à mão.

Não é um dia diferente dos outros mas, em volta dele, a sociedade criou toda esta imagem de ilusão, de inclusão, prosperidade e afecto que, provavelmente, deixa um pouco desamparados os que não têm a possibilidade de viver o Natal dessa forma. Penso especialmente naqueles que perderam entes muito queridos e em que as circunstâncias da vida e o tempo ainda não não esbateram a dor. Penso em Leitores que, ao longo do tempo, me têm contado as suas perdas e os seus imensos desgostos. Lamento muito e gostava que, um dia, a memória suavizasse a perda, transformando-a sobretudo em saudade, em doce saudade.

Esta segunda feira vou ter um dia bem preenchido com todo o tanto que tenho que fazer mas penso que, antes de sair de casa para ir festejar a véspera de Natal junto de parte da família, ainda conseguirei vir aqui -- mas temo que seja muito a correr. Por isso, é agora que me alongo.


E o que agora me apetece dizer é que perdas e dores sempre acontecem, sempre, mas que a vida sempre continua.

E também que não é de agora que o mundo está cheio de infortúnios, de injustiças, de desigualdades, de pobreza e de solidão. Penso que o mundo nunca foi perfeito e nem valerá muito a pena encontrar culpados. Se hoje as disparidades são tão escandalosas, se há tanta gente a viver no limiar da miséria, a verdade é que não consigo apontar o dedo a um grupo de culpados em particular, especialmente quando são os mais desfavorecidos que elegem aqueles que mais os prejudicam e mais acentuam o fosso entre extremos opostos. Somos todos nós, globalmente, que plantamos as sementes do mal e que, dessa e de outras formas, nos afastamos da nossa humanidade.


A felicidade não é eterna, não é infinita, e também não tem receita, nem tem que ser igual à dos outros, e, claro, não se mede. Acredito que a felicidade pode ser um somatório de breves instantes, de coisas de nada, de coisas muito cá nossas. E, mesmo quando se perde, pode voltar a ser encontrada. Pode vir sob a forma de uma palavra, de um sorriso, de um gesto, de um vislumbre, de uma recordação.

Durante algum tempo eu gostava de, nesta altura, aqui referir o nome de todos os meus Leitores cujo nome, por me terem contactado, eu sabia. Mas são muitos e temo esquecer algum. Por isso, apesar de não o nomear agora aqui, querido Leitor ou Leitora, saiba que não esqueço quem um dia quis chegar até mim. Para si vai o meu afecto e, ainda que apenas desta forma tão limitada, vai também a minha companhia.


Abaixo mostro vídeos onde se podem ver as casas dos muito ricos em Nova Iorque, depois as inconcebíveis 'casotas' dos mais desfavorecidos em Hong Kong, depois o que é a vida nas favelas do Rio de Janeiro e, finalmente, o que é viver no deserto. São vídeos que acho muito interessantes e que fazem pensar. Este é o mundo em que nos foi dado viver e não sei se temos sido suficientemente inteligentes para o usarmos da melhor forma.

E talvez isto nem tenha muito a ver com o espírito natalício mas permitam que vos diga que acho que não há relação entre o valor das habitações e o nível de felicidade dos seus habitantes. Não há regras de três simples nestes casos. A felicidade não depende do número de presentes recebidos pelo Natal nem dos metros quadrados ou do conforto da nossa casa. A felicidade é outra coisa, uma coisa muito só nossa. 








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E, agora, a palavra a Cora Coralina: Poesia de Natal



E apetece-me terminar com Jorge de Sena:

[...]
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.

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As imagens mostram pinturas de Bertrand-Jean Redon, conhecido como Odilon Redon. Se calhar também não têm nada a ver com o Natal mas acho-as bonitas

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Recebam a minha estima