O meu dia foi de seguida, quase sem pausa para almoço. Mas tudo a andar bem, todos in the mood. Não for love mas, ainda assim, na boa. Dia sem stress e sem crise é dia bom, dia em que parece que a paz pousa em mim como uma daquelas abençoadas rolas brancas que, por aqui, pousa nas árvores.
Ao fim da tarde, quando nos reencontrámos em casa, fomos caminhar. Conversamos, observamos as casas e os jardins enquanto andamos. Depois, de novo em casa, fomos prender ramos e hastes da trepadeira, guiando-os para que floresçam como um arco.
Os telefonemas do fim do dia também todos tranquilos. Sem chover, os pássaros contentes, as flores a desamarrotar as grandes pétalas, tudo na serenidade.
[Não quero saber dos chiliques e das petulâncias das meninas bloquistas. Aquilo não faz o meu género. Tudo se há-de resolver. Não perco tempo com fricotes.]
Já tarde, a noite já avançada, recolhi ao sofá e adormeci. Uns minutos apenas mas os suficientes, os que me faltavam. Fico logo mais fresca, com vontade de me surpreender.
Circulo, então, por onde posso. Em dias assim não pego em livros, parece-me que se me fecha a disponibilidade para coisa que se adentre em mim. Ponho-me, então, a navegar aos deus-dará.
E, então, deambulando na vagabundeza, fui parar a mais um antológico trecho de Eberth Vêncio.
E, ao lê-lo, recordei a vez em que constipada, congestionada e engripada resolvi ir ao médico. Não havia corona-dos-totós pelo que foi sem medos que lá fui, apenas por não saber o que tomar. Era menina recém-casada, andava a estudar e a dar aulas, não queria piorar, não queria faltar aos meus compromissos. Morava num lugar totalmente desconhecido, sem quaisquer conhecidos por perto. O meu marido disse que, ao fim da rua, tinha visto uma tabuleta, médico de clínica geral. Lá fui. Era um homem já entrado. Perguntou de que padecimento me queixava. Não eram precisas grandes explicações: a voz, o semblante, os olhos, tudo falava pelo meu estado. Mandou, então, que passasse para a sala ao lado e me deitasse na marquesa. Mandou-me que despisse as cuecas.
Estaquei, incrédula.
Mandou-me que pusesse as pernas num suportes. Admirada, não obedeci: 'Acho que não percebeu o que eu disse'. Mas sentia-me febril, sem energia e doente. Faltavam-me as forças para me rebelar. Ele disse: 'Percebi bem. Mas este é o protocolo.'. Tentei protestar: 'Estou constipada ou com gripe, só isso'. Ele, seco, médico velho e sem paciência para frescura de menina, zangou-se: 'O médico aqui sou eu. Tem que ser observada e fazer uma lavagem vaginal'. Em condições normais, teria saído porta fora, talvez a correr para apresentar queixa na Ordem. Mas estava sem força, doente, zonzinha de todo. Ainda hesitei, mas até para a hesitação me faltavam as forças. Ele já estava com um reservatório na mão, autoritário: 'Deite-se'. E eu, fraca e doente, deitei-me. Pela primeira e única vez na vida, fizeram-me uma lavagem vaginal. Furiosa com o bode velho, furiosa comigo, mas sem energia para atear a fúria, deixei que a fizesse. Logo a seguir, ainda sem perceber o que me tinha acontecido, levantei-me. Auscultou-me, viu-me à transparência, viu-me a garganta, os ouvidos, prescreveu-me o que entendeu, mandou que me apresentasse lá passados uns dias. Nunca mais. Saí de lá doente e desnorteada. Quando contei ao meu marido, ficou espantado. Também eu. Ao fim de tanto tempo ainda estou: o que foi aquilo? Abuso? Reinação? Método arcaico?
Mas, enfim, coisas esdrúxulas que acontecem na vida de uma mulher.
Bom mesmo era o doutor Pecker que colocava as mãos na clientela sem pressa, malícia e asco. Sobretudo, aceitava o pagamento em bandas-de-leitoa. Decorava bulas, sonetos e até “O Navio Negreiro”, de Castro Alves. Tinha cultura e boa memória. Para tratar pedras nos rins, quebrava os rigorosos protocolos científicos ao receitar os caminhos tortuosos de Drummond. Para a contenção dos gêiseres fertilizantes e dos fluidos contaminados por intrépidos treponemas que espocavam das varas, instruía o uso de camisinhas-de-força.
Para evitar o dissabor de um neném não planejado, servia-se aos casais um tira-gosto: azeitona; sim, uma azeitona estrategicamente alocada entre os joelhos da mulher amada. Era batata, ou melhor, era azeitona; desde que não se deixasse cair o caroço na cama. Aliás, azeite alentejano, para amenizar a secura vaginal, fazia parte da régia estratégia para escorregar-enguia-na-loca e temperar o relacionamento durante os bravos verões da menopausa.
Para corrimento, pausa. Para os dias de TPM, recomendava guardar melhor distância. Para frieza sexual, receitava jeitinho mais cobertor de orelha. Para ejaculação precoce, indicava manteiga-de-tartaruga e punhetas com a mão esquerda. Macetes para inzonar. Para garantir plena eficácia contraceptiva, caçava gametas com a mesma gana de quem caçava confusão; instalava, ele próprio, fraco e mirradinho, com o artifício de binóculos e de um cilibrim, minúsculas arapucas e umas tais micro-ratoeiras importadas da França (tinham ratos de sobra em Paris naquela época) para surpreender o verter das picas e capturar espermatozoides no arcabouço da cratera vaginal.
Havia uma compreensível, justificável e natural falta de luz no fim do túnel. Ali, deitado em berço esplêndido, jazia boquiaberto um colo uterino, prestes a engolir novas expectativas de vida. A mãe-do-corpo, como sempre acontecia, urrava. Mulher sofria e sofre. Não restava dúvida ao médico ateu de que as fêmeas da espécie tinham levado imensa desvantagem durante o ato divino da criação.
Padecia também o descrente doutor desses tipos de incongruências filosóficas. Para retesar o desatino da frouxidão crônico-involuntária dos esfíncteres e dos orifícios, deveria o moribundo piscá-los em salvas de trinta vezes, a intervalos de oito horas.
Para a impotência sexual masculina, ovos-de-pata mais os famosos exercícios de levitação do professor Karnal. Para dor de veado, tinturas de arco-íris. Para frieira, beirada de rede. Para batedeiras no peito, repiques com o dedo indicador num portal de madeira para ensinar o coração a bater no ritmo correto.
Para as dúvidas existencialistas, listas de exercícios de matemática. Para transtornos bipolares, uma terceira opinião. Para moléstias mentais do tipo desespero de causa e loucura absoluta, cadeiras elétricas de frente ao mar. Amar. Carecia armar o espírito, no qual ele não cria, com aquelas cálidas cápsulas de claves-de-sol. Mais incongruências.
O tempo passou. Há roupa no varal e doses homeopáticas de devaneio nesse texto em tributo à medicina humanizada. Espero ser bem compreendido. Adveio tecnologia avançada com o uso trivial de caríssimas máquinas-de-tirar-dúvidas nas quais se entra numa extremidade, enquanto o laudo sai noutra. Ganha-se de um lado, perde-se de outro. Eis a vida. Já não se fazem mais médicos como o desprovido doutor Pecker que sumiu engolido por sucuri.
Instruído por Hipócrates, arrancava bala à grito, mandava veia parar de sangrar e cochichava coisas que ninguém entendia enquanto operava milagres num singelíssimo hospital no interior do Brasil. Se eu não soubesse da sua flauta de fé, poderia jurar que se aconselhasse com o próprio Deus enquanto desembaraçava tripas.
Escreve Élida Ramirez, sobre a primeira dama de Tamandaré, Sari Corte Real, que, no outro dia, tinha manicura em casa a fazer-lhe as nails e se impacientou com o menino Miguel que não parava de chamar pela mãe que, entretanto, tinha ido passear a cadela da patroa:
Tente se colocar no lugar da cearense Mirtes Renata, mãe de Miguel. Reforçarei os maus tratos óbvios porque ‘pensar perturba’ como disse Martin Luther King. Ainda mais sob a ótica do discurso do absurdo daqueles que governam atualmente o país. Cenário de pandemia de Coronavírus. Apenas serviços essenciais devem funcionar. Porém, a empregada doméstica Mirtes precisa trabalhar. Ela ‘poderia’ ficar em casa. A tal liberdade custaria o salário que não seria pago. Não tem com quem deixar o filho, Miguel Silva, de 5 anos. Com a autorização da patroa Sari Corte Real e do patrão e prefeito de Tamandaré, Sérgio Hacker, a mulher pobre e negra sai, diariamente, da segurança do isolamento social com uma criança. Pega dois ônibus lotados, espremida e em pé para dedicar seu dia ao conforto dos outros. Não usa máscara dentro de casa dos patrões. Precisa ter contato com entregadores que não param de chegar. Passeia na rua com o cachorro.
Sem o direito à proteção, Mirtes pega o novo Covid-19 do patrão. Passa para o filho e para a mãe idosa. Enquanto o os familiares abastados se recuperam na casa de campo — também mantida limpa por outros empregados — Mirtes segue na labuta se arriscando pelo pão. Todos sobrevivem. Ela lava, passa, cozinha e passeia com o pet, porque ‘bicho também é gente’. Final feliz?
Em um dia desses, Mirtes prefere não levar Miguel para a rua. Ele fica no apartamento com a patroa Corte Real enquanto a empregada cuida do animal, aparentemente sem nenhuma estimação. Daí, a criança quer atenção. O máximo que consegue é ser desovado, sozinho, em um elevador pela mulher do prefeito. Miguel é pequeno, se perde e cai do nono andar. Morre horas depois no hospital. Acidente?
Diz Eberth Vêncio, sofrendo com isto tudo:
Durante os meus exercícios diários de sobrevivência no caos interior, especulo que as relações interpessoais e a comunicação instantânea, globalizada, estão adoecendo a humanidade em patamares impensáveis. Insanidade mental é uma pandemia obscura. Ansiedade. Depressão. Pânico. Suicídio. Parece que o estilo de vida contemporâneo nos atropela com informações e velocidade. Por consequência, uma régua imaginária nivela, por baixo, a inteligência e a capacidade de discernimento e de indignação de muitos, frente às famigeradas mazelas cotidianas. Aprisionados em redes sociais da web, consumimos informações várias, às vezes relevantes, quase sempre supérfluas, inverídicas, cruéis, carregadas de intolerância e de falta de empatia.
Há um desconfortável fetichismo pelo mau gosto e pelo mórbido espetáculo de notícias escabrosas que nos chegam pelos telejornais, pelos canais da internet, pelos instrumentos viciantes de Mark Zuckerberg, que testam a nossa capacidade mental para amortecer as tragédias diárias que ribombam em todos os cantos do planeta. O filho da empregada que caiu do nono andar em Recife. O adolescente fuzilado, dentro de casa, por militares no Rio. A transmissão, on time, on demand, do sufocamento, até à morte, de um homem negro, por policiais de Minneapolis.
Se eleito flor, reggae me. Prometo colorir o silente jardim dos teus olhos com pétalas adocicadas de luz e claves de sol. Hei de esparramar música, sementes, toras, seiva e raízes neste seu terreno fecundo. Duvido que haja amor melhor no mundo por tanto tempo amortecido. Atenção, dormentes órgãos do sentido: ajam depressa; façam para mim algum sentido!
Considera devotar mais tempo a ti mesma nas próximas eleições da tua vida. Para quem não crê no acaso, errar é sempre uma escolha malsucedida. Eu só tropeço durante o ocaso, em caminhos que eu mesmo traço. Eu adestro as pedras, mas, ando sentindo um troço ruim aqui dentro. Acho que é o coração cansado de escoicear, de dar pinotes, ávido por estilhaçar as janelas do peito e fugir a pé com as mãos abanando. Deus não dá asas, mas, cobra. Da próxima vez, redobra os cuidados, tenta com um pouco mais de ternura, faze a coisa toda de outro jeito: vota no vate, garota. Evita que tanto concreto cotidiano endureça as palavras na garganta das tuas veias frias, transtornando-as, transformando-as num cano sinuoso e rígido por onde escoa esgoto de mágoa. Se todos fizessem uma única rima, por mais pobre e risível, seria razoável até mesmo ao homem mais rico, soberbo e inflexível, acreditar que com poesia se mudaria o mundo.
Quisera brindar em tributo ao teu corpo com uma taça de carménère. A vida é curta. Teus cílios longos são velas abertas acenando na suave brisa. É o mar de amar. É a chaga do desejo que nunca cicatriza. Vive de acordo com as tuas convicções. Visando à bonança, colhe com suavidade as tuas tempestades particulares.
Se eleito flor, reggae me com cuidado. Pode ser o amor.
Não me importunem. Não sou “A Bela da Tarde”. E se eu fosse a Catherine Deneuve? E se eu fosse a Anitta? E se eu fosse o Pabllo Vittar? E se eu duplicasse as consoantes do meu nome? E se eu fosse a Rita Cadilac? E se eu estacionasse o meu carro sobre a sua língua comprida e infame numa faixa de pedestres?
Não sou mais um desses “porcos” que as algumas feministas esbravejam por aí. Não voto nos candidatos da extrema-direita. Estou extremamente feliz por não ter nascido canhoto. Canhotos sofrem; mulheres, idem. Não sou truculento. Não digo palavras chulas a uma mulher, a não ser que ela implore por elas. Concordo em ganhar menos dinheiro do que a minha companheira. Aliás, sonho em ser dono de casa. Não exijo transar sem camisinha. Não gosto de pegar geral, de pagar prostitutas; não é que eu seja um caloteiro; acontece que eu não curto frequentar bordéis e viajar para congressos com acompanhantes viçosas de nível universitário. Sou otário, mas, não me furto em me meter numa briga de marido e mulher. Não consinto com o abuso sexual, com o estupro de mulher alguma, em nenhuma circunstância, quem dirá, as feias, minhas parceiras de feiura e desencanto. Deixo um lastro de sarcasmo por todo canto, onde quer que eu escreva, notem isso, farejem isso, cavem no quintal dos seus olhos o real sentido dessas palavras, pelo amor de Deus, caprichem na interpretação de texto, isso aqui não é bula de remédio.
Analfabetismo tem cura; burrice, não. Sinto que a humanidade está dando marcha à ré. O mundo não apenas continua cruel, como está ficando chato à beça. Depois do advento das redes sociais, então, anda enfadonho, insuportável. Na internet, as pessoas parecem mais infernais que o habitual. Os vírus da ignorância são os micróbios da vez, incuráveis, controláveis por potentes antivírus baixados pelo computador.
A humanidade é viciada em polêmicas. Isso me irrita de forma abissal. A controvérsia da vez diz respeito ao assédio sexual contra as mulheres. E dá-lhe blá-blá-blá. Existe, por exemplo, uma onda crescente de denúncias contra celebridades nos Estados Unidos, em especial, figuras carimbadas do cinema norte-americano. Em contraponto, recentemente, o jornal “Le Monde” publicou um manifesto assinado por cem francesas influentes, dentre elas, a veterana atriz Catherine Deneuve. Como continua linda a Belle de Jour. A reação das feministas foi furiosa e imediata. Se eu fosse mulher, se eu fosse francesa, se eu fosse convidado, assinava também, mas, com ressalvas. Não acredito em beijo roubado. Não concordo que um homem possa tocar o corpo de uma mulher sem (con)sentimento.
Relutei algumas vezes em escrever este texto. O tema é vespeiro. Porém, eu me senti encorajado ao lembrar de uma entrevista da atriz-cantora Bibi Ferreira num programa de TV. Quando lhe questionaram o que mais a incomodava na velhice, Bibi respondeu que era o fato de passar despercebida pelos homens, de não se sentir desejada. Estou convicto que era disso que o manifesto das francesas falava: romance, conquista e autoconfiança. Nenhum ser humano sensato haverá de defender a violência contra meninos, meninas e mulheres. Logo, se eu fosse um servente de obra, não gritava palavrões, mas, assoviava, sim, para uma moça bonita caminhando pela calçada. Não me importunem. Eu não sou a Catherine Deneuve. Eu sou apenas um homem ordinário que, assim como as mulheres, não gosta de apanhar nem com uma flor.
O texto original (ao qual abusadoramente tirei alguns bocados) é da autoria de Eberth Vêncio e cacei-o na Revista Bula.
As fotografias são, tal como no post abaixo, da autoria dos safados Mario Testino e Bruce Weber, dois fotógrafos que, ao que consta, importunaram alguns dos jovens que fotografaram.
Leonard Cohen, um sedutor que seduzia até de olhos fechados, interpreta I'm your man
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E queiram descer até ao Amor em abundância, pseudo-aforismos auto-confessionais à moda da vossa Sta UJM
Não confio em gente que cria passarinho em gaiola. Eu conheço essa dor. Tenho tantos sentimentos aprisionados dentro do peito, que nem lhe conto. Eles são tristes e sozinhos, mesmo assim, não sentem vontade nenhuma de cantar. Eu queria muito lhe comer com os olhos e lamber com a testa. Tenha dó. Faça festa. É dura a espera para os que têm fome. De que vale uma gaiola de ouro, se o passarinho não canta? O amor — eu já tinha ouvido falar nisso antes — é um fio desencapado.
Não confio em gente que conversa comigo olhando para os lados. A verdade está nos olhos, gracinha. Não insista. Não tenho lado. Um dia ainda me atiro inteiro em seus braços, baby.
Pode parecer um paradoxo, um conflito interior da maior magnitude, mas, eu não confio em gente que guarda rancor nos cofres da memória. Não minta pra mim, que meu peito não é de aço. Ele não possui chave nem segredo. Também sofro de injustiças, iniquidade e medo. Será que um dia eu cresço? Na minha idade, já devia demonstrar mais equilíbrio. Quase não rio, e isso não tem nada de intransitivo, de impessoal, pois, mesmo morando no centro-norte do país, onde o índice pluviométrico é pífio, eu continuo a chover de tanta melancolia. Você diz que eu deveria conjugar corretamente o verbo, ao invés de julgar as pessoas? Ora, não me faça estudar gramática a essa altura da vida.
Não confio em gente que não dá a mínima para o que as outras pessoas estão sofrendo. A frieza, a falta de brio os fazem selvagens de arrombar introitos. Eu devoro a solidão sem sujar as mãos, e há pouca coisa que os editoriais possam fazer para amenizar a carnificina. Como diria o poeta, eu sou um poço de sensibilidade. Portanto, feche os olhos, tape o nariz, abra um sorriso e salte aqui dentro, docinho.
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Excertos do texto homónimo de Eberth Vêncio na Revista Bula
Vinicius canta Amor em Solidão
As imagens mostram "The street of loneliness de Carolina Soledad Salvatierra Seguel e "Two People: The Lonely Ones" de Edvard Munch
Mas, antes, vou pôr aqui uma musiquinha boa e umas fotografias maneiras.
Vamos lá, então.
Podia falar do sexo oral que Madonna promete a quem votar em Hillary Clinton. Mas, como acho que é capaz de ser uma falsa promessa e não quero denunciar publicidades enganosas por parte de opositores a Trump, não falo.
Também podia falar da descarada da Maria Luís, ex-Miss Swaps, actual Miss Arrows, que é do mais desavergonhado que há. Mas, como não quero gastar o meu requintado latim com tão desqualificada criatura, não falo.
Claro que podia falar do Secretário de Estado Rocha Andrade que tem uma atracção fatal para armar fuzué e, no meio da confusão, dar tiros nos pés. Mas não falo pois até me dizem que é um bom fiscalista e gente séria -- e que uma pessoa possa ter algumas incompatibilidades declaradas não me choca nada. Agora uma coisa é certa: se ele é bom e o quer manter, António Costa devia mantê-lo na casota. Já se viu que, quando sai e abre a boca, arranja sarilho.
Há ainda também o assunto do ordenado do presidente da CGD que é um valor que, muito sinceramente, me parece um bocado estúpido num banco público e, sobretudo, me parece um bocado deslocado face à média de ordenados de quadros qualificados do País. Mas não sei se não arranjaram quem aceitasse ir para lá por menos e, por isso, para não alimentar populismos, não falo.
Podia falar do Pedro João Dias, a quem tratam por 'Piloto', esse desconhecido que anda perdido pelos montes, talvez ferido, talvez esfaimado, talvez acossado pelos lobos selváticos que o habitam. Mas não falo. Nada sei da vida dos lobos.
Enfim. Podia falar de muitas coisas. Mas hoje estou cansada. O dia não foi pêra doce e todos os dias desta semana começaram cedo demais. Já aqui estive a dormir. Há ali em baixo uns comentários de primeiríssima água e eu queria mesmo falar sobre eles. Mas acreditem. Isto hoje não está fácil. Talvez amanhã o faça. Hoje é impossível.
Por isso, se me permitem, vou pela via mais fácil.
Vou ouvir gente sábia. Isso descansa-me o espírito. Transcrevo excertos e de forma não sequencial:
Aos 66 anos de idade, morando em um apartamento em Copacabana, de frente à avenida Atlântica, o velho Nelson[Rodrigues] apresenta-se com o mesmo tom debochado e exagerado de sempre. Impondo a sua presença e aquele seu jeito peculiar e característico de se expressar e de se fazer entender: olhar insondável e apático; voz grossa e embolada; gestos vagarosos e ornamentais como os de um peixe colorido num aquário. Sem deixar, portanto, de esboçar certo entusiasmo e de exibir uma imagem de opulência física de causar inveja a qualquer um. Apesar de estar com a saúde um tanto quanto abalada, uma vez que ainda se recupera de uma colite ulcerática, doença essa que por pouco não o matou. As palavras tiradas da boca do entrevistado são as mesmas utilizadas em suas crônicas, contos, romances, peças teatrais, e difundidas por outros meios de comunicação (televisão, rádio e periódicos).
J. J. R. — Na sua opinião, o que é a beleza?
Nelson Rodrigues — “A beleza interessa nos primeiros quinze dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual”.
J. J. R. — E o que dizer acerca das mulheres?
Nelson Rodrigues — “Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível”.
J. J. R. — Sobre a adúltera?
Nelson Rodrigues — “Não existe família sem adúltera” — responde com ironia. E continua com as suas divagações: — “Nenhuma mulher trai por amor ou desamor. O que há é o apelo milenar, a nostalgia da prostituta que existe na mais pura”. — Olhando atentamente para o repórter: — “A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira”. — E mostrando o dedo indicador: — “Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém”.
J. J. R. — Algum recado para as mulheres?
Nelson Rodrigues — “Era preciso que alguém fosse de mulher em mulher anunciando: ser bonita não interessa, seja interessante”.
J. J. R. — E para os homens?
Nelson Rodrigues — “Se um dia a vida lhe der as costas, passe a mão na bunda dela”.
J. J. R. — E para os casais, alguma dica?
Nelson Rodrigues — “A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: — o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão”.
J. J. R. — E no que diz respeito à sexualidade humana?
Nelson Rodrigues — “Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”.
J. J. R. — Falemos agora da virtude e daqueles que o praticam?
Nelson Rodrigues — “Perfeição é coisa de menininha tocadora de piano” — expondo-se, exultante. — “O puro é capaz das abjeções inesperadas e totais e o obsceno, de incoerências deslumbrantes”. — Reflete por alguns segundos e despeja: — “Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera”. — Toma fôlego e dá prosseguimento ao raciocínio: — “O ‘homem de bem’ é um cadáver mal informado. Não sabe que morreu”. — E numa alegação afirmativa: — “Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista”.
J. J. R. — E a Europa? E o europeu?
Nelson Rodrigues — “O europeu ou é um Paul Valéry ou uma besta!”. — Continuando a frase após breve distração, com coisas e objetos do seu entorno: — “… a Europa é uma burrice aparelhada de museus. (…) Ao passo que o Brasil é o analfabetismo genial!”.
J. J. R. — E com relação às feministas?
Nelson Rodrigues — “As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado”.
J. J. R. — Qual foi, no seu entendimento, o grande acontecimento do século 20?
Nelson Rodrigues — “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”. — Silêncio profundo e grandiloquente. — “Em nosso século, o ‘grande homem’ pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta”. — Outro intervalo, para mais um gole d’água e acender o quarto e, talvez, o último cigarro a ser desbragadamente consumido nesta entrevista. — “Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”.
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Nelson Rodrigues
Dá gosto ver gente inteligente, com sabedoria e graça.
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Portanto, perceberão que mil vezes ler as palavras e ver imagens de Nelson Rodrigues do que perder tempo com a mediocridade (ou, vá, mediania) de tanta gente que por aí anda.
É que, enfim, vocês sabem, eu também poderia agora aqui falar do 3º debate entre os dois candidatos finalistas nas eleições americanas. Mas é tão estranho que um palhaço ordinário seja um deles que também não vou por aí. Não diz se aceita o resultado das eleições se Hillary ganhar...? Pois, nem espanta que seja parvo a esse ponto. É mau demais.
Por vezes -- ou visto de alguns ângulos -- o mundo civilizado parece ter entrado num processo autofágico. Coisa feia de se ver, portanto. Portanto, com vossa licença, mas ficamos assim.
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As fotografias são da autoria do ucraniano Vadim Stein.
Se todos fossem iguais a você é interpretado por Tom Jobim
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.
Finalmente a aceitar que estou de volta aos dias normais, a mala desfeita, a roupa arrumada, outra a lavar, a sopa feita, escolhida a toilette para a rentrée, as coisas no sítio e os livros amontoados ali a olharem para mim, fazendo-me sentir em porto seguro, em paz comigo e com o mundo, sento-me aqui e de tal forma estou em estado zen que não faço ideia do que hei-de escrever.
Na cozinha, um mistério. Ouve-se um grilo. Se estivessemos no campo seria natural. Aqui é inédito. Já o procurámos e não o descobrimos. Como chegou ele até cá, não sabemos. Terá vindo com os figos?
Parece que estou num hiato, suspensa entre dois mundos.
Acabei de receber um mail de trabalho. Alguém diz que sabe que estou a regressar de férias e quer lembrar-me um assunto. A minha primeira reacção foi enviar-lhe uma resposta torta. Mas depois deu-me vontade de rir. A isto chama-se não brincar em serviço e já me apetece é enviar um mail irónico. Mas nem para isso agora tenho disposição. Amanhã logo vejo o que lhe digo até porque o interesse em falar com ele também é meu. Mas é quando estiver a trabalhar, não na véspera em que ainda estou aqui a ambientar-me à ideia.
Entretanto, a minha mente vagueia por um mundo suave, habitado por música, cores, flores, águas refletindo imagens gentis, palavras inteligentes e irónicas, vozes que me dizem poemas, corpos que se envolvem entre cores, evocações, acordes e uma voz que canta -- e não consigo preocupar-me em encontrar coerência entre o que me ocorre. Tomara que não haja. Ou que seja tão secreta que ninguém a descubra.
E penso, mas com leveza. Quase como num sonho bom penso, sobretudo, naqueles a quem quero bem. Quero que estejam bem. Gosto de os saber bem. Gostava que estivessem sempre bem.
Não consigo pensar em frases muito elaboradas ou em raciocínios bem desenhados para agora aqui escrever.
De propósito, nem espreito as notícias não vá alguma despertar-me deste estado de doce encantamento em que me encontro, ouvindo melódicos acordes ou a voz rouca e pesada que diz poesia. Gostava que todos os dias fossem dias bons para todos.
Frases de Borges
(algumas de entre algumas desconcertantes)
A gente publica para não passar a vida corrigindo o que escreve. A verdade é que se publica para se libertar do livro e pensar em outro. Quanto a mim, reli muito pouco do que escrevi. Ainda que de vez em quando me releiam passagens do que escrevi e às vezes elas me agradam. E digo: de onde tirei tudo isto? Na certa deve ser plágio, porque é bom.
Não releio, esqueço facilmente, mas tudo o que publico supõe dez ou doze versões, sendo que a última acrescendo um descuido evidente para que pareça espontâneo.
Não sou modesto, apenas fico assombrado por ser conhecido. Deixei de ser um homem invisível aos cinquenta anos, e pode-se descobrir a qualquer momento que sou um impostor.
Ulisses: não foi escrito para ser lido, foi escrito para alguma coisa muito superior, foi escrito para que o autor ficasse famoso, fosse analisado, figurasse na história da literatura.
O aborrecimento é mais terrível do que a violência.
Todos falam dos supostos benefícios que a saúde traz ao indivíduo, mas eu acho que a saúde é um estado precário que não pressagia nada de bom.
Ironia: uma coisa que aprecio e reconheço, e de que sou totalmente incapaz.
Tom O'Bedlam diz Roll the Dice de Charles Bukowski
Polina Semionova e Vladimir Malakhov dançam Caravaggio coreografado por Mauro Bigonzetti, aqui ao som de Prayer Of The Heart numa interpretação de Bjork
Pedrinho sonhava de ser cantor de ópera, coisa séria, porque não até mesmo no S. Carlos? Sua companheira da altura, moça de girl band, incentivava. Vai Pedrinho, porque não? Vai ficar toda a vida abrindo porta? Ou fazendo bolo p'ra vizinhos? Vai que eu apoio você.
Pedrinho foi mas não deu certo. Filipe queria moço mais talentoso. Bem que Pedrinho tirou aula de canto mas não deu, faltava-lhe alma, para ser alguém nisso da cantoria não basta ser capaz de puxar dó de peito, tem que vir emoção junto. Por isso, voltou ao de sempre. De biscate em biscate, Pedrinho se foi safando, chegou onde nunca ninguém alguma vez acreditou que chegasse. A falta de vergonha na cara e de miolo na cabeça são boas aliadas das trepadas fáceis. Esteve quatro anos no poleiro fazendo desfeita p'ra todo o mundo, causando desgraça pr'ó país, e fazendo frete p'ra todo o poderoso. Até que caíu, sem perceber como, e não deixando boa lembrança. Ainda anda por aí, feito gente importante no exílio, bandeirinha na lapela, causando troça de todo o mundo. Mas Pedrinho não liga para bobagem. Sua inteligência não chega para tanto.
Outro é Luisinho. Quando era pequenino sonhou de ser grande. Mas quando era já hora de ser grande ainda ele era mindinho. Arranjou amigos grandes a ver se a grandeza era contagiosa. Não foi. Deu jantares em casa, estabeleceu contactos, foi ministro, agenda sempre bem nutrida, mas nada: minguingo continuou. Sonhou de ser chefe de partido, de ser importante, arranjou amigos entre a gente com dinheirão fresco nas malas, olhos em bico, tanto fazia. Fingiu de isento, de conselheiro, de comentador bem informado. Ainda por aí pisa mas, coitado do Luisinho, ninguém leva o pininim muito a sério. Sua catraice é ladina e seu sorriso parece de bom moço, mas já não leva ninguém no bico. Luisinho continua sendo aquele puto manhoso que se quer fazer passar por grande.
Ah, e o Nini. Nini sonhou de ser estimado como o outro que também começou nas Finanças e acabou eleito figura de Portugal. Nini queria isso, o reconhecimento. Andou sempre dizendo que não era político (apesar de viver dela), que pr'a alguém ser tão sério que nem ele só nascendo duas vezes e outras algaraviadas mal paridas do mesmo género. Todos os bêpêénes por que passou e todas as aleivosias que foi construindo foram fazendo com que fosse cada vez mais desprezado pelo povo, mas o Nini é outro que não se enxerga. Acabou fazendo comentário brejeiro sobre fornicação de cavalo e lisonjeio pr'a vaca, cagarra e, na fase final, até pr'a banana. Assim sua esposa, a gaiteira D. Maria, possessiva como uma velha governanta, não ia pegar no seu pé. No fim, saíu pl'a porta baixa, todo o mundo desejando ver a múmia ressabiada p'las costas. De vez em quando, todo o mundo pensando que a enfernizada criatura se mantém esquecida a escrever inúteis roteiros, volta a sair à cena. Mas só em situações inconvenientes é que dá as cara: para ver se ainda chateia alguns. Aí, vem na dele, continuando a insinuar que sabe muitos segredos e acreditando que alguém está p'ra se interessar pelas suas inventonas pueris. Só pode ser por caridade que ainda ninguém lhe disse que se pode deixar ficar na rósea palaçota, que lá é que está bem. Coitado do Nini.
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O que acima escrevi foi inspirado no texto da Revista Bula, da qual transcrevo abaixo um excerto
ESTOU CORRENDO ATRÁS DE UM SONHO, MAS ELE CORRE RÁPIDO PRA CACETE
Felipe sonhava em construir foguetes para a NASA. Imaginem só, um brasileiro na agência espacial norte-americana. Dizem que já existe um por lá fazendo feijoada, tocando pagode, pensando em esquemas. Coisas de Brasil. Felipinho tinha talento nato para fugas homéricas do planeta. Com a cabeça no mundo da lua, hoje ele bate o polegar em beira de estrada, pede carona para qualquer pessoa que veja, vai para qualquer lugar que seja, desde que siga em frente. Para onde o nariz aponta qualquer lugar serve. Sua mente solitária é confusa, ferve.
Rebert sofria excesso de verve. Sonhava em ser mais famoso do que Jesus Cristo e os Quatro Garotos de Liverpool juntos. Um escândalo digno de se espatifar discos de vinil na cara dele em praça pública. Convertido ao mais completo ateísmo e abissal anonimato, ele carimba (com toda descompostura, é bom que se diga) alvarás na secretaria municipal de códigos de postura. Ganhou notoriedade entre os despachantes por cobrar cafezinhos para liberação das licenças. O sonho não somente acabou, como Rebert se transformou numa espécie de pedra rolante, a passar por cima de tudo e de todos, inclusive da lei vigente e do seu extinto entusiasmo adolescente. (...)
Zecarlos sempre fora o mais sonhador de todos os sonhadores dessa joça que estou a escrever, pois sonhava, não apenas por si, mas pelo resto da humanidade. Aquelas coisas de paz mundial, de fim da opressão, de justiça social, de distribuição da renda, love and peace e outros delírios que carregava desde 1968. As pessoas rotulavam-no como um político de esquerda, mesmo que ele não fosse filiado a nenhum partido, senão ao coração partido de que cantava Cazuza. Portanto, tinha um altruísmo que poucos compreendiam. Era gentil demais, constrangedor demais. Duvidam dele. Desconfiavam que ele possuísse interesses escusos por trás daquela sanha de justiça. Ora, ninguém era capaz de amar ao próximo daquele jeito. Zecarlos não era santo (já fora acusado de ter alma feminina e um pacto com o cão). Ele continua a correr atrás do sonho de um dia vivermos todos em paz, como irmãos.
Paulo Laranja nunca sonhou com porra nenhuma. Nada que merecesse ser ressalvado aqui nesse texto, e ponto final. Aplacado por um ceticismo revoltante (de arrancar santos-de-barro do oco), nos incontáveis meses de vida que os médicos lhe atestaram (afinal, arrancaram-lhe cerca de sete metros e meio de tripas, e nem assim foram capazes de fazer nele um coração), contenta-se em escrever crônicas semanais para uma revista literária (a menos lida no seio familiar e no seu vasto círculo de ex-amigos). Ele se ocupa em enterrar esperanças. PL teve o disparate de batizar a sua coluna semanal como Cemitério de Sonhos. Vai ser desagradável assim lá em casa.
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As imagens, como é bom de ver, não têm qualquer relação com o texto que, como também é bom de ver, pelo menos na parte que me diz respeito, também estão muito aquém da realidade. São apenas fotografias a que acho piada da autoria do fotógrafo francês Maurice Renoma que, no início deste ano, teve a sua obra exposta em 7 lugares distintos em Paris.
A senhora que lá em cima canta a plenos pulmões é Edita Gruberova cantando a Cunegonde da ária "Glitter and be gay" da opereta Candide de Leonard Bernstein.
Tem graça que ainda no outro dia aqui confessei que aquilo da Guerra dos Tronos para mim é chinês. Parece que todo o mundo sabe o nome dos personagens e que a história é conhecida do género humano em geral desde o início dos tempos - e eu a zeros.
E há mais, oh se há. Mato. De resto, tenho isto (e já mil vezes aqui o falei): recomendem-me muito um livro ou mostrem-me que é um êxito e eu imediata e definitivamente me colocarei ao largo. Mas se isso é desculpável em relação à nova 'literatura', em especial aos best sellers de cordel, mais difícil é ser socialmente aceite se a minha ignorância se estender aos clássicos. Aí, então, nada a fazer. Estampo-me a cada um que me atirem à cara.
Ulisses. Pois. Caraças, uma vergonha. Não li. Não tenciono ler. Gigante e, sempre que o folheio, parece-me maçador até à quinta casa.
E quem diz o Ulisses diz outros. Folheio, cheira-me a coisa de gente maçadora e está bem, está.
Vários do Saramago: chatos, chatos... No entanto, calma aí, O Ensaio sobre a Cegueira é para mim dos livros mais marcantes que me passaram pelas mãos, pelos olhos, pelo coração, pelas vísceras.
Do Lobo Antunes: com excepção dos primeiros e dos livros de Crónicas, é para esquecer. Ele pode gostar muito. Eu não. Não tenho paciência para andar às voltas sem sair do mesmo sítio.
Sou devoradora de escrita e papo quase tudo, incluindo capas de revistas de proveniência mais do que duvidosa mas não me peçam para gastar o precioso e curto tempo da minha existência com intermináveis maçadas.
A existência humana é um paradoxo. É longa suficiente para ouvir várias vezes as dezoito horas de música magistral do ciclo operístico “O Anel de Nibelungos”, de Wagner, mas curta demais para ler inteira a série de livros “Guerra dos Tronos”. Portanto, para te ajudar a não desperdiçar sua existência, a Revista Bula apresenta uma lista de obras literárias para morrer antes de ler. Afinal, a vida e a paciência são curtas.
E começam então a enumeração dos 20 entediantes livros. E começam logo pelo dito:
Guerra dos Tronos (desde 1996), de George R. R. Martin
Antes dos senhores acenderem suas tochas e pegaram seus ancinhos relaxem um minuto para uma declaração. Eu sei que o nome da saga é “Crônicas de Gelo e Fogo”. Só escrevi “Guerra dos Tronos” para quem não participa da seita entender do que estamos tratando. Agora, vejamos: cada livro deve ter umas 15 mil páginas; todos os 50 volumes somam aproximadamente 95 mil páginas ao quadrado. Resultado, funil de vida por funil de vida, melhor assistir a série.
Segue-se outro de que também não cheguei perto:
Finnegans Wake (1939), de James Joyce
Joyce sugeriu que usemos toda nossa pobre vidinha mortal na tentativa de entender “Ulisses” em sua completude. O mestre Otto Maria Carpeaux achou melhor só gastar alguns meses e usar o resto do tempo para fazer outras coisas. Boa sugestão.Mas não há garantias de que esse “resto do tempo” seja suficiente para entender — ou mesmo arranhar a superfície de — “Finnegans Wake”. A leitura desse romance rizoma será sempre um “trabalho em progresso”. Só para os fortes e monges reclusos.
Não vou aqui transcrever todos, que isso poderão ver no artigo completo. Salto já para um do Saramago que tem graça como ideia, a metáfora pegou mas que, como livro, com as minhas desculpas, de facto, um bom pincel.
Jangada de Pedra (1986), de José Saramago
Alguns cínicos defendem que o mestre Saramago só escreveu livros ruins depois que ganhou o Prêmio Nobel. Isso é uma grande mentira. “Jangada de Pedra” prova que ele já escrevia livros ruins antes do Nobel.
Temos aqui um exemplo lamentável de uma ótima ideia em uma péssima execução. Esse romance é mais perdido do que a Península Ibérica em sua mirabolante navegação pelo Oceano Atlântico.
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Podia juntar, de minha lavra, mais uns quantos quilos de maçadorias, uns de autores clássicos mais mortos que mortos e de outros, supostamente clássicos apesar de bem vivos. Mas a verdade é que, de tão chatos, a minha memória os varreu.
Além disso, estou tão a dormir que, de cada vez que escrevo uma frase, caio a dormir até que o meu despertador interno me acorda, minutos depois. Mas, se fizerem questão, meto-me debaixo de um chuveiro de água fria e volto aqui para debitar mais uns quantos.
E agora que venham daí os meus Leitores mauzões para me fustigarem, Ignorante! Ignorante!Não leu os clássicos?! Chato... o Joyce?! É pá, ganda burra!
A moça do meu ‘bom dia’ surge. Sozinha. À une passante. Num ímpeto de ansiedade quase me levanto para conversar com ela. Recalco inteiramente meus desejos. Se eu me relacionasse com ela todo o meu argumento literário se dissiparia. Acalmo meu coração e minha mente. Ela veste uma saia jeans e uma camisa branca. Biquíni preto por baixo da roupa. Cabelos presos. Dormiu bem. Muito bem. Parece relaxada e tranquila. Gozou? Ela não me olha. Não me vê. Está com uma máquina fotográfica ao seu lado. É uma máquina profissional. Possui um zoom gigante. Fotógrafa. Busca a própria beleza refletida no olhar dos outros. Ou apenas a morte. A minha morte de prazer? “A fotografia é uma testemunha, mas é uma testemunha do que já não existe. Um flerte com a morte.” Ela come uma deliciosa tapioca com queijo e presunto. Déjeuner du matin. Toma um pouco de suco de laranja. Bebe uma xícara de café com leite. Minha reinventada musa do poema de Prévert.
Ela, minutos depois, não resiste aos prazeres do doce, e decide comer um churro. Um churro, meu Deus! Subo aos céus. Uma linda mulher comendo churros é verdadeiramente uma experiência religiosa. Uma reconciliação do ser humano com o fato de possuir um corpo, que não só é capaz de causar dor, mas de vislumbrar momentos de prazer fugazmente intensos. Sonho. Emociono-me com sua boca. Com seus lábios carnosos. Com a possibilidade de ter e dar prazer com a simples fricção de sua língua. Sinto um tesão incomum. Ela segura esse objeto-desejo com a mão direita, apertando delicadamente o churro com quatro de seus dedos. Apenas o seu dedo mínimo não está em contato direto com o seu objeto de cobiça momentâneo (como eu queria que ela estivesse me acariciando).
Ela busca a melhor forma para dar a primeira mordida enquanto admira a imperfeição imponente do doce que vai abocanhar. Vira o rosto para o lado direito e para o lado esquerdo. Abre levemente os grandes lábios. Ai! No limiar do contato desse néctar com sua língua, ela fecha inconscientemente os olhos. Quer viver a sua religiosa, deleitosa e egoísta experiência de gozo sem a apreensão visual. Apenas com a memória fálica. (...)
Seu corpo anseia por mais um pedaço de prazer. Por mais um momento de delírio trepidante. Por mais metafísica. Ela, excitada, dá mais uma apetitosa mordida e sou eu também que sinto prazer. Uma vontade excessiva de me lambuzar, de me emporcalhar, de me regozijar com ela e com o churro. Ménage à trois. Ela lambisca o doce empanzinando-se de prazer, de endorfina, de sedução. E eu rezo solenemente. Oro por mim e por todos os voyeurs. Não vejo mais sentido algum para vida. Para a literatura. Para a minha doença. Não me questiono mais sobre filosofia alguma. Somente a sinto penetrar e percorrer o meu corpo. Estou diante do Sublime e da Beleza, e não consigo suportar essas sensações. Choro. Sou um mendigo. Não consigo mais ver o espetáculo que ela, e minhas invenções, me apresentam. Levanto ereto, mirando os céus. Sinto a existência do Brahma. Olhar e desejar assim, tão de perto, ainda que ela seja inacessível, corrompe. Maltrata. Vislumbro o meu pobre gozo. Mendicante, dirijo-me loucamente para o meu quarto. Para meu banheiro. Onã, o pequeno porco. “Weeshwashtkissima pooishthnapoohuck!”. Gozo para me reconciliar com a ficção da moça do meu ‘bom dia’.
[Na Revista Bula o texto completo da autoria de Jacques Fux, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2013 com o livro ‘Antiterapias’].
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Lá em cima, Caetano Veloso canta 'Você é linda'.
As fotografias mostram Stella Maxwell [que, e que me desculpem os meus Leitores homens o baldinho de água fria, já foi fotografada a beijar apaixonadamente Miley Cyrus e de quem, mais recentemente, surgiram rumores de que poderia ter começado a namorar com Kristen Stewart].
Hoje aquele a quem eu, até ele ser tão grande, chamava aqui ex-bebé perguntou-me se eu sabia falar brasileiro. Disse-lhe que sim, que brasileiro é português só que dito de uma forma engraçada. Pediu que exemplificasse. Tentei mas não foi fácil, porque logo já eu estava a falar usando vocábulos como neném ou babá, que careciam de explicação. E a verdade é que, ao esforçar-me por falar com paladar brasileiro, parece que me desfocava e, passado pouco tempo, já me faltava assunto. E, para falar de assuntos correntes, não me dava jeito nenhum falar em brasileiro. O mais crescido, saíu em minha ajuda.
E, no entanto, e já para não falar nas telenovelas brasileiras que dantes, quando era novidade, não perdia, há quanto tempo eu me habituei a ler em brasileiro. E gosto. Tem uma graça que acrescenta tempero à língua, parece que qualquer história ganha logo um dançarolar que anima por dentro o corpo de quem lê ou ouve.
Andei o dia todo por fora, com uns e outros, a animação habitual, tudo gente que não se adensa nos pesares da vida, antes seguindo em frente com risos, humor, descontruindo todas poses de bom comportamento. O meu pai, hoje tranquilo e meio dormindo no meio do reboliço, o meu tio sempre sorridente, a minha mãe toda jovem, vestida numa de navy, alegre no meio de tanta efusividade e bem humorança, a minha filha bonita e alegre, os pimentinhas comilões, brincalhões, o meu marido a ver futebol como se nada se passasse, eu a fotografar e a degustar os bons momentos.
Claro que, no meio, tenho momentos em que tenho que me ausentar da situação para não ganhar stress nem fazer figuras tristes.
Exemplifico.
Comprámos umas chuteiras para o dito ex-bebé. Há uns meses, o avô prometeu-lhe umas chuteiras quando ele passasse a ser capaz de fazer uma determinada coisa. E nem mais se lembrou disso. Eu, se ouvi, nem registei. Pois bem. Esta semana, o menino (que já fez cinco anos e está enorme) conseguiu ultrapassar a dita meta e apareceu-me ao telefone, com ar pesaroso: 'Ó Tá, já consegui fazer e o avô ainda não deu-me as chuteiras...'. Não sabia sequer de que estava ele a falar. O irmão, ao lado, dizia, 'Tá, iguais às do Rui Patrício'. Pensei que eram protecções para as pernas. Mas depois ouvi 'com pitons'. Então percebi que eram ténis para chutar - claro. Quando relatei ao meu marido, lembrou-se: 'Eh pá, pois foi, mas há quantos meses foi isso... Eh pá... nem me lembrava. Temos que ir comprar as chuteiras para o puto'. Lá fomos. A mãe disse o 29 mas, como cresce todos os dias, decidimos que seria melhor o tamanho 30. Hoje, na casa da bisavó, ao experimentá-las, achou que lhe apertavam. Dissemos: 'Pronto, não tem problema, vem connosco à Decathlon, escolhe, prova. Depois levamo-los a casa'. Que me lembre é a segunda vez que vamos só os dois com eles os dois à Decathlon, coisa que, para eles, é melhor que a Eurodisney.
Senhores!
Mal saem do carro, vão a correr direitos às tendas que estão em exposição cá fora, e andam de tenda em tenda, depois escondem-se lá nos compartimentos, e ali ando eu e o meu marido a ver se não os perdemos de vista, com aqueles dois escapulindo-se de umas para outras -- e se são uma data delas de todo o tamanho e feitio.
Para saírem de lá, teve o avô que os içar e levá-los pelo braço, um de cada lado. Depois, mal entram naquela big loja, desatam a correr, primeiro diireito aos caixotes de rede da entrada em que há mochilas, bolas, apetrechos de cada cor e finalidade. Dizemos 'Esqueçam, viemos cá só para trocar as chuteiras, vamos!'. Então, contrariados, lá saem dali mas, logo se esquecem, e desatam a correr, cada um direito a uma bicicleta, e desatam a pedalar por ali afora. Quando queremos que larguem as bicicletas no sítio certo, mal desmontam numa, logo se montam noutra e pedalam ao desafio, a grande velocidade. E ali ficamos nós a olhar para eles, porque não vamos pôr-nos a correr atrás deles ou aos gritos. Um desatino. Até que o avô os intercepta, os iça, e à força os leva dali para fora.
Então desatam a correr e vão para as bicicletas de ginásio e montam numa, noutra, noutra, cada um para seu lado.
Nessas alturas apetece-me apanhá-los, nem que seja à força, pôr-lhes uma trela e levá-los à rédea curta.
Até que o avô os ameaça e lá se reintroduz o tema: 'Mais vale irmos já para a zona do futebol (antes que sejamos expulsos)' e logo eles perguntam se é onde há montes de bolas e balizas e aí vão eles a correr, e logo se põem a jogar futebol a sério, grandes remates, grandes defesas.
Nessa altura, deixo o meu marido a orientar a coisa -- e reparo que ele já está com ar a caminho do esvaído -- e vou à procura de bonés, de que eles estão com falta.
Como a loja é imensa e há bonés em vários lugares, fui calmamente (para descansar a cabeça) e fiz uma pré selecção. Ao fim de algum tempo reaproximei-me: um fazia defesas atirando-se ao chão, o outro rematava como se estivesse a jogar a final da Taça, o meu marido fazia de conta que não os conhecia embora, claro, estivesse de olho. Levava eu 5 bonés de feitios diferentes e cores diferentes e queria que optassem pelo modelo e pela cor, que eu logo ia ver se encontrava o modelo na cor pretendida. Qual quê? De súbito, logo cada um me tirou um boné das mãos, o pôs na cabeça e se recusou a provar qualquer outro. Eu bem queria ver se lhes estava bom mas no way: 'Pára, Tá', como se eu tivesse entrado em campo para lhes pôr o boné, talvez para não apanharem sol, mas, cumprido o desiderato, devia era pôr-me fora do campo para não interromper as afincadas jogadas.
Finalmente, nem sei como, lá fomos para as chuteiras. Já não queria da cor das do Rui Patrício, preferiu pretas com riscas em cinza prateado. E as únicas que disse que lhe ficavam bem eram o 32. Não percebo se da semana passada para este domingo lhe cresceu o pé de 29 para 32, se quê. Mas dúvidas metafísicas não têm lugar nestas situações. Vieram as 32.
O caminho até à caixa e à saída foi a mesma odisseia. Corridas de bicicleta e tudo. Saíram de lá içados pelo braço, como se o avô fosse um segurança a expulsar dois meliantes.
Cá fora, mal os largou desataram, de novo, a correr para as tendas. Chego a este ponto, já sem reagir. Parece que se me baixa a tensão, fico quase sem acção. E dá-me sede, acho que estas coisas me desidratam. E fico também com uma espécie de impaciência em que, por mim, me deitava numa espreguiçadeira de exposição ali mesmo ao pé das tendas e eles que brincassem até se fartarem. Só que já passava das sete e meia da tarde e já estava a pôr-se frio.
O avô, meio furioso (mas a fúria dele com os netos é mais do que relativa), acocorou-se pela tenda adentro onde os dois pestinhas se tinham escondido num compartimento fechado ao fundo, abriu o fecho, e, de gatas, puxou-os dali para fora. As figuras que uma pessoa faz. Não há explicação. E, uma vez cá fora, lá os levou, de novo içados pelos braços, até dentro do carro.
Depois, no carro, apanhámos o relato do prolongamento da final e a ida para penaltis. Entusiasmo! Aí, à chegada, não queriam sair do carro para ficarem a ouvir o relato até ao fim. Lá os convencemos que, em casa, viam melhor, na televisão. E, então, lá saíram a correr do carro em direcção a casa.
Quando nos vimos a caminho de casa, em silêncio, já o Braga tinha ganho, deu-me um sono avassalador. Mas dali ainda fomos a casa do outro lado da descendência e lá houve mais jogo de futebol; mas, enfim, dado o espaço mais confinado e dado que uma menina é sempre um factor de estabilização, foi pacífico. Além disso, foi rápido.
Seja como for, cheguei a casa tarde e estafada. A primeira coisa que fiz, depois de pôr a máquina de roupa a lavar, foi cortar o cabelo. Um pedação, que um bom corte de cabelo tira-me muita canseira de cima. Depois um belo banho. A seguir um jantar ligeiro, depois ainda passei alguma roupa a ferro, estendi a meias a roupa, que aqui em casa funcionamos em equipa, e mais algumas arrumações.
E já estive a tratar das nails e agora estou aqui no sofá, reclinada, meio a dormir, cheia de preguiça.
Já passei os olhos pelas novidades que são nenhumas e tudo coisa sem graça e, do que li, o que me me chamou a atenção foi um texto muito engraçado -- em brasileiro, justamente. Chama-se: 'Não adianta limpar os pés se vai pisar meu coração' e foi escrito por Eberth Vêncio, cujo nome sem sei se é nome mesmo se é invenção de um dia de criatividade aguda.
Transcrevo apenas uns excertos porque isto hoje já está para além de longo, mas o artigo todo não deverá ser perdido porque é gostoso mesmo.
Adão foi o primeiro. Mordeu-me a maçã do rosto. Então, quebrei-lhe as costelas que ainda restavam usando o mesmo fórceps com que fui extirpada do seu tórax de macho alfa-dominante. Por justa causa — eu reconheço — fomos expulsos do Paraíso (Motel Paraíso, 666 Jardim do Éden — Cidade do Pecado). Não seja besta. Numerologia não me assusta. Babaquice, sim. Começava ali a minha saga em busca de um amor que valesse a pena. Eu não me dispunha a ser uma espécie de mulher objeto, sujeita a homens abjetos que me colocassem num pedestal, numa estante ou para desfilar montada numa glande. Eu cagava pra eles. Daquele dia em diante, ao invés de ser caça, quem caçava era eu.
Ayrton, por exemplo, era um sonhador, do jeito que eu gostava. Aos domingos, pilotava foguetes para Marte, adorava as minhas curvas, a minha entrega, a minha arte. Vangloriava-se em dizer que dirigia muito melhor quando a pista estava molhada. Então, tascava-me uma chuva de beijos, sem medo de derrapar sobre as estrelas da Via Láctea. (...)
Cristóvão veio com a seguinte falácia: se tinha descoberto a América, seria moleza descobrir, aportar no meu Ponto G. Eu não concebia possuir uma cartilha para otários entre as coxas. Aliás, sob estímulos cuidadosos, cada centímetro da minha pele urraria até ficar rouco. Rapidamente, saquei que o sujeito era uma espécie de aventureiro, um analfabeto afetivo que não conseguiria colocar sequer um de seus ovos em pé sobre a mesa. Vazei. Deixei-o à deriva num mar de lágrimas. Cabe aqui um adendo. Aliás, vou além disso, farei uma advertência: Senhores do Ministério, eu faço mal à saúde dos calhordas. Os homens fúteis, quando caem por mim, choram até desidratar. Eu não me importo, não sou a mãe deles. Eu sou uma mulher simples que se alimenta de amor e carinho. É só isso.
E por falar em fome e sede, dei a Cesar o que não era de Cesar, então, ele retribuiu tocando fogo na cama. Oferecia-me denários de prata em rituais de idolatria. Confesso que achava aquilo um exagero. Ele pensava que eu fosse uma espécie de deusa em busca de reconhecimento. Não, eu não era. Eu era uma mulher cheia de caminhos. (...)
Sócrates foi um namorado culto, inteligente, um verdadeiro sábio que passava a vida a pensar, fatigando os neurônios ao analisar o comportamento humano. Certa noite, sob as estrelas, enquanto acendíamos vagalumes com fagulhas-de-olhar, perguntei se o nosso amor duraria para sempre, mas ele fez assim com os ombros e disse que só sabia que nada sabia. Achei aquilo o máximo. Beijei-o com ternura e fé. Eu gostava de homens mais velhos. Depois de Vinícius — que me amou eternamente até o último sarau de poesia em Copacabana — foi o amante mais atento que já pisou meu coração.
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E porque muitos, muitos são mesmo os meus caminhos, que entre o Grupo Corpo para que a jornada de hoje se complete.
Mortal Loucura
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Lá em cima é a Felicidade segundo Vinicius, Toquinho e Maria Creuza.
As fotografias que escolhi não sei se têm alguma coisa a ver, acho que talvez tenham mas se calhar é porque estou praticamente a dormir. São da autoria da professora polaca Anna Rozwadowska que gosta de inventar e costurar fatos para os filhos e que, a seguir, os fotografa.
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Claro que tenho lido e apreciado e me tenho sentido agradecida por todos os comentários e mails mas, dada a minha agenda preenchida, não tive possibilidade de lhes responder e, agora que me deu para me pôr mais à fresca a curtir os ares prazerosos da primavera, também já não consigo. É tarde e estou a dormir. Não levem a mal. Obrigada a todos e aceitem, por favor, as minhas desculpas.
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E desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira. Be happy!