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terça-feira, julho 07, 2026

Ex-mundial com o rabo entre as pernas, futuro ex-ministro dos exames nacionais com o rabo e a cabeça entre as pernas.
E, para fugir ao faduncho, mulheres de outro mundo

 

Estava com parte da família a ver o futebol, mas estava tudo morno. O meu marido, durante parte da segunda parte, foi dar uma volta. Os rapazes estiveram, a maior parte do tempo, em silêncio. Eu ia falando com a minha filha enquanto íamos olhando o ecrã mas parece que não se passava nada. Uma coisa quase sepulcral. Como não consegui prestar atenção, só posso dizer o que me parecia de cada vez que me focava no jogo: era como se houvesse uma suspensão, quase uma slow motion, quase como se toda a gente antecipasse que o caminho estava traçado. No início ainda imaginei que pudesse haver um bom desfecho. Mas, logo que me apercebi da marcha fúnebre, deixei de alvitrar. 

Mal o jogo acabou, os rapazes levantaram-se em silêncio e retiraram-se. O meu marido insultou uns quantos e disse que por ele até é melhor: assim já pode ver o resto do mundial sem se enervar. 

Tive pena mas tive muito mais pena ainda quando Cabo Verde foi eliminado. Os rapazes cabo-verdianos, esses sim, entregaram-se com uma alegria, uma genica, uma capacidade de luta e umas ganas de irem atrás de um sonho que foi tão contagiante que me agarraram e me puseram a vibrar com eles.

Quanto às notícias, o que tenho a dizer é que a cegada da avaliação dos exames é uma coisa sinistra. Como é possível que se lance um novo sistema, uma nova metodologia, sem tudo ser testado sob todos os pontos de vista: do ponto de vista técnico, funcional, de formação de quem vai usar (os professores) e de carga (todos ao mesmo tempo). Uma coisa tão transversal e com tamanho impacto só poderia ser lançada  depois de resistir à lei da bala, não falhando um único ensaio. Aquilo a que se assiste é de um tal amadorismo, de uma tal inexperiência, de uma tal impreparação que até dói.

Tenho um neto à espera dos resultados para saber o que vai ser a sua vida. Ele e todos os outros nas mesmas condições, depois de tanto estudarem e de de saberem que estão num momento charneira das suas vidas, encontram-se neste limbo: 

  • no caso do meu: por um lado a selecção portuguesa -- segue ou não segue? (e, já se viu: não seguiu) 
  • e, por outro, a espera pelas notas: chegam ou não chegam para entrar onde se quer? Os exames vão ser avaliados ou não? E, se não conseguirem levar adiante a avaliação, em tempo útil, o que acontecerá?
E as explicações que se ouvem e o ar espaçado do ministro são de uma tal indigência a todos os níveis que a gente já nem estranha que o dito ministro nos apareça com ar de quem nem tomou banho, o cabelo com ar de estar sujo e mal cheiroso.

Mas não me apetece continuar a escaranfunchar nestes assuntos senão começo também a pensar no body guard do Luís, o trauliteiro que dá pelo nome de Hugo Soares, e isso seria, da minha parte, bater no fundo. E não me apetece.

Vou antes derivar para outras paragens. Mulheres que se situam à margem das marés, que não encaixam no mainstream, que não querem nem saber das últimas modas. Poder-se-ia pensar que as duas de que aqui trago notícia estão nos antípodas. Em termos práticos e objectivos, estão. Subindo um pouco mais, vendo de mais longe, são parecidas. Fascinantes.

A artista que vive na floresta

Há muito tempo que queríamos conhecer Maria, uma artista sueca que vive numa pequena casa de madeira perdida nas florestas da Suécia com o seu companheiro, Johannes.
Juntos, recriaram um mundo mágico, fora da realidade e da lógica, onde vivem e trabalham. Maria recolhe a madeira que a floresta lhe oferece para a transformar em obras de arte, e vive desta atividade há mais de 30 anos.

No entanto, o que pode parecer uma vida de conto de fadas esconde, na verdade, a fragilidade de uma floresta que precisa de ser defendida. Maria e Johannes optaram, à sua maneira, por lutar para a proteger.

Fran Lebowitz não tem smartphone, portátil ou filtro

A nova-iorquina Fran Lebowitz construiu uma carreira satirizando a vida moderna. Numa conversa acutilante e divertida com Benjamin Law, reflete sobre um mundo em turbulência, abordando temas que vão desde Trump às esposas tradicionais.

Desde os seus livros best-sellers a participações em talk shows noturnos e ao filme Pretend It’s a City, de Martin Scorsese, tornou-se uma das vozes mais singulares dos Estados Unidos.

Agora, em 2026, enquanto a democracia estremece e o caos político aumenta, Benjamin Law conversa com Lebowitz para lhe perguntar: como é que ela interpreta o que estamos a testemunhar em tempo real?

Desejo-vos um dia feliz

sexta-feira, junho 19, 2026

Obama

 

Não está isento de culpas. Ninguém é perfeito. Aliás, no meio em que se movia, difícil seria sair imaculado. Mas, no cômputo geral, há que reconhecer: é de uma outra cepa. Entre o 44º e o 45º/47º pouca coisa há em comum. Talvez os geneticistas venham dizer que, na essência biológica, são quase iguais. Só que, nestes assuntos, as avaliações fazem-se num outro patamar.

Basta ouvi-lo para se ver os Estados Unidos sob uma outra perspectiva, para se ver o mundo sob um outro ângulo.

Obama é um orador de excelência. Os seus silêncios antecipam as palavras que se apresentam luminosas, inspiradoras. É um prazer ouvi-lo.

Obama na inauguração do centro presidencial
Discurso completo, com tradução

O ex-presidente Barack Obama discursa na cerimónia de inauguração do seu centro presidencial em Chicago.

O aguardado centro será oficialmente aberto ao público amanhã, no Juneteenth (Dia da Emancipação). O extenso complexo inclui um museu, um jardim, um campo de basquetebol e uma nova filial da Biblioteca Pública de Chicago.


0:00  Discurso do ex-presidente Barack Obama
2:27  Obama recorda a sua chegada a Chicago em 1985
8h15 Obama ao centro: Não um "mausoléu sem vida - sou demasiado novo para isso"
10h44 Obama sobre os "assuntos inacabados" do seu governo
18:14 "Sugiro que saltem os excertos dos meus discursos... em favor das histórias dos cidadãos comuns"
20h07 "Os Estados Unidos têm sido uma força inegável para o bem no mundo"
24:02 "Quando perdemos a fé uns nos outros... abdicamos do poder de decidir o nosso próprio futuro"
28:13 "As exposições neste centro não têm como objetivo evocar a nostalgia... têm como objetivo lembrar-nos de quem podemos ser"
30:18 Obama sobre a trajetória do universo moral em direção à justiça: a história da frase

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segunda-feira, junho 08, 2026

Uma entrevista a não perder

 

Falo por mim: do nazismo não tive, felizmente, conhecimento directo. O que sei, sei de ler ou ouvir. Mas sei que veio devagar, veio com apoio popular, espalhou-se perante o silêncio e a cumplicidade de muitos, se calhar, da maioria.

Daquilo a que assisto agora há muita coisa que me choca. Muita. A cobardia de quem ouve e, em vez de se levantar e virar costas, aplaude; a cobardia dos que, podendo renegar, se calam, se escudam com a diplomacia. Não fico incomodada, desagradada, revoltada apenas com os algozes, os pérfidos, os bandidos, os canalhas -- fico, quase igualmente, com os cobardes, os hipócritas, os oportunistas, os igualmente canalhas.

Assisto ao impensável nos Estados Unidos mas assisto igualmente ao impensável na Europa, ao calar-se perante as ingerências, as ameaças e as desconsiderações de Trump e da sua entourage. Assisto ao impensável por parte de Israel mas assisto igualmente ao impensável na Europa, ao calar-se, ao fechar os olhos, na prática, ao ser cúmplice de Netanyahu. Assisto ao impensável por parte da Rússia e, neste caso, assisto ao impensável por parte de todos quantos se têm manifestado a favor da deposição das armas por parte da Ucrânia. Não se extinguem aqui as ignomínias no mundo. Mas prefiro focar-me nos casos de maior dimensão, talvez pelo risco para a ordem mundial, talvez pelo risco para as democracias de todo o mundo, talvez pela quase habituação, e aceitação, da violação do direito internacional, talvez pelo risco da banalização do mal.

A entrevista que aqui abaixo partilho é apenas um caso. Mas é um caso a que não fico indiferente, e não é apenas pela emoção e pela revolta, pela tristeza que se sente nas palavras do entrevistado. Quando a imprensa, que deveria ser livre, fica nas mãos de quem apenas pensa em dinheiro, em lamber as botas do poder, em bajular os maiores inimigos da liberdade de expressão, mal, muito mal vão as coisas. Os sinos tocam a rebate pela democracia quando a imprensa livre é ameaçada.

Independentemente disso, a entrevista vale também pela qualidade da entrevistadora e do entrevistado. 

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Scott Pelley: O que aconteceu ao '60 Minutes' é uma tragédia | A Entrevista

Estreada na CBS em 1968, a emissora foi o lar de alguns dos jornalistas mais conceituados da televisão, de Mike Wallace e Ed Bradley a Lesley Stahl, Anderson Cooper e, até à semana passada, Scott Pelley.

Pelley, que trabalhou na emissora por 37 anos, incluindo como correspondente da Casa Branca, âncora do "CBS Evening News" e correspondente do "60 Minutes", foi demitido após uma série de eventos explosivos e muita turbulência nos últimos anos na CBS. Estes acontecimentos incluem um polémico acordo financeiro com o Presidente Trump sobre um segmento do "60 Minutes"; a venda da estação a David Ellison; e a nomeação de Bari Weiss, ex-colunista de Opinião do New York Times e fundadora do The Free Press, sem experiência em jornalismo televisivo, para liderar a CBS News.

A demissão de Pelley ocorreu depois de Weiss ter demitido vários de seus colegas e ter contratado um novo chefe para o "60 Minutes", Nick Bilton, com quem Pelley entrou em conflitonuma reunião de equipe. Pelley, juntamente com vários outros correspondentes do "60 Minutes" que foram demitidos, acusou Weiss de interferência editorial e parcialidade, acusações que a CBS News e Weiss negam.

Na sua primeira entrevista desde que foi demitido, Pelley conta sobre o incidente específico que considerou interferência, sobre as suas experiências na CBS News nas últimas semanas e meses e sobre o que espera que resulte deste período turbulento na emissora onde passou a maior parte de sua carreira.


Desejo-vos uma boa semana a começar por esta segunda-feira

quarta-feira, junho 03, 2026

Noah Eckstein, um jovem graduado em Harvard e gerado na intersecção de culturas e religiões, faz um discurso que vai lá, vai

 

Quando uma pessoa passa a ser um obstáculo ou quando alguém que não pensa ou sente como nós passou a ser um inimigo, sabe bem ouvir alguns alertas ditos por um jovem, no caso um jovem graduado de Harvard.

Seria bom que a moda pegasse e que viesse dos mais novos a vontade de voltar a colocar as pessoas, o respeito pelo ser humano, no centro de todas as políticas. Seria bom que se pusessem de acordo numa nova carta de intenções, numa nova tábua de mandamentos.

Avanço já com os que eu juraria defender:

  • Não matarás. 
  • Não destruirás a casa do outro. 
  • Não separarás famílias. 
  • Não enviarás ninguém para a guerra. 
  • Não desviarás fundos do desenvolvimento, da investigação, da ciência, da cultura e da paz para os gastar na guerra. 
  • Não desejarás território alheio. 
  • Não mentirás para justificar os teus maus actos. 
  • Não quererás enriquecer quando isso implica deixar alguém na miséria. 
  • Amarás os outros mesmo quando não pensam como tu e não são destilam e praticam a maldade
  • Acolherás os outros, mesmo quando nasceram noutros lados e têm a pele de cor diferente da tua. 
  • Pensarás no futuro e na felicidade das pessoas antes de tomar decisões que os possam comprometer
Noah Eckstein não fala nestes mandamentos mas, de certa forma, estão subjacentes a uma cultura de bondade e de inclusão, de democracia e  de liberdade.

Vale a pena assistir ao vídeo.

Noah Eckstein profere o discurso de formatura | Cerimónia de Formatura de Harvard 2026


Desejo-vos um belo dia

terça-feira, fevereiro 24, 2026

Aqueles que Ficaram
(Em Toda a Parte Todo o Mundo Tem)

 

O meu marido, quando não tem paciência para tanta desgraça, tanto comentário e tanto fala-barato, refugia-se no 24Kitchen. E eu, vendo a comida que estava a ser preparada, interessei-me. Só que adormeci. Tentei acordar mas não consegui. Passado um bocado, o meu marido levantou-se, foi para a cama. Esforcei-me. E fiz zapping. 

E, então, fui parar a um documentário extraordinário. Extraordinário, mesmo. Comovi-me. E comovi-me também por uma peça tão importante da nossa história estar a passar na 2 quando toda a gente está a dormir. Que falta de respeito para com quem tanto sofreu, que falta de respeito para com o que deveria ser a memória colectiva do nosso País.

Devia ser exibido em todas as escolas, todas sem excepção. E as escolas deveriam organizar debates entre os miúdos depois de assistirem à sua exibição. E, quando falo em escolas, incluo as Universidades também. E, na televisão, deveria ser passado todos os anos, na RTP 1, em horário nobre, tal como, no Natal, passa o Sozinho em Casa

Parece-me essencial. Vejo pelos meus netos: não fazem ideia de como era a vida antes do 25 de Abril, não têm noção do salto de gigante que a sociedade deu, pensam que o 25 de Abril não serviu para modernizar o país, acham que o país ainda está muito atrasado em relação aos países mais desenvolvidos. Não fazem ideia do que é a privação da liberdade, não fazem ideia do que foi a polícia política, não fazem ideia de nada.

Quando alguns palhaços por aí andam a falar na falta que faz o Salazar, seria bom que toda a gente tivesse bem presente do que era o regime do Salazar.

Não sei como é que os nossos partidos que defendem a liberdade e a democracia não percebem que é relevantíssimo mostrar aos jovens de hoje que mostram simpatia pelos movimentos de direita, que a mudança é importante, mas tem que ser mudança para melhor, nunca mudança para pior -- para um passado de opressão e pobreza, isso nunca.

A quem não viu este excelente documentário muito vivamente recomendo que veja. Estava a passar na RTP 2 e vi agora, na programação, que começou um pouco antes da meia-noite.

Transcrevo o texto da apresentação:

Aqueles que Ficaram (Em Toda a Parte Todo o Mundo Tem)

Documentário que dá voz aos familiares de resistentes, aqueles que enfrentaram, em silêncio, as consequências do regime do Estado Novo

Portugal viveu 41 anos o regime político do Estado Novo, que prendeu, torturou e levou ao exílio a quem se lhe opunha. Através dos testemunhos diretos de 28 familiares de resistentes deste regime ditatorial, faz-se o retrato de uma época e de um país, mas também se abrem linhas para o entendimento deste presente. Depois da voz dada aos presos políticos, clandestinos, exilados ou deportados, em vários trabalhos anteriores, chegou a hora de ouvir quem também resistiu ao "cárcere" das privações materiais e emocionais, tantas vezes ainda sem idade para entender e muito menos aceitar as inevitáveis e profundas mudanças abruptas no quotidiano. Filhos, filhas, mulheres quase sempre e ainda hoje em silêncio.

Partindo da recolha e análise de algumas das cerca de 100 entrevistas realizadas com familiares de opositores e inseridas num trabalho de investigação académica na área da História Contemporânea, o filme documental vai conduzir-nos pelas vivências e consequências de um tempo obscuro na vida de cada uma dessas personagens e as suas formas de resistência, contribuindo de igual modo para o acrescer do conhecimento da história da resistência à ditadura do Estado Novo. 

Viva a liberdade! 

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Quando as avozinhas mostram o que é exercer a cidadania

 

Sempre que a democracia ou a liberdade são atacadas há quem considere que, por via das dúvidas, o melhor é não fazer ondas e aceitar o que o agressor quer. Há quem lhe chame querer a paz (ou a paz social) mas, na verdade, a isso chama-se cobardia. Geralmente uma cobardia hipócrita pois traveste-se de uma roupagem que pretende fazer-se passar por moderação, racionalidade ou coisa do género. Mas, pelo contrário, há quem considere que viver sem democracia e sem liberdade é uma porcaria, que isso não é viver nem é nada, que mais vale dar o peito às balas, lutar, lutar, lutar.

E pode lutar-se de muitas maneiras. Uma delas é a cantar. 

As senhoras que se juntaram e que, com o nome de Piedmont Raging Grannies, compõem letras que têm a ver com a actualidade e que, sobre músicas conhecidas, mostram que não se conformam e que o caminho é denunciar, reivindicar, mostrar que não têm medo nem se calam, são um exemplo notável de cidadania e de responsabilidade social.

Nas manifestações de Outubro, geralmente designadas por  #NoKings, aí estiveram elas. Para elas, lutar pela democracia e pela liberdade é uma festa. Grandes mulheres.

Não voltaremos atrás


quinta-feira, novembro 06, 2025

Dias bons a caminho. Acredito nisso.

 

Ontem à noite estava aqui interessadíssima a acompanhar a evolução dos resultados nos Estados Unidos, na feliz expectativa de que os americanos mostrassem que não estão anestesiados e que os democratas não estão de tal forma a navegar na maionese que ainda seriam capazes de mandar o Trump dar uma grande volta. As notícias vinham nesse sentido e, portanto, quando me deitei, fui tranquila e preparada para um belo sono.

As previsões do tempo apontavam para bernarda da grossa mas eram duas da manhã e não ouvia nem vento nem chuva.

Contudo, passado pouco tempo comecei a ouvir raspar na porta do corredor que dá para a zona do quarto. Deixamo-la fechada para que o cão não vá para a nossa cama. É grande e temperamental demais, às tantas tínhamos que lhe pedir licença para termos espaço para nós. Mas ele nunca tenta ir para lá. Quando regressamos do passeio nocturno, retira-se para os seus aposentos e lá fica até de manhã. Excepto quando está com algum problema. E, pelos vistos, era o caso ontem à noite. 

Comecei a ouvir que já gemia, que fazia barulhos estranhos. Pé ante pé, fui espreitar. O tapete da entrada e o do corredor já tinham mudado de sítio, estavam amarfanhados no extremo oposto. Estava inquieto. Não percebi porquê, disse-lhe que estava tudo bem, que fosse dormir.

Contudo, passado algum tempo, o que ele tinha intuído, concretizou-se. O meu marido pesquisou e confirmou que os cães se apercebem da trovoada bem antes de ela ser perceptível para os humanos. E assim foi. Uma ventania, relâmpagos, trovoada, uma chuvada diluviana. Uma tempestade das sérias. E o pobre cão numa aflição.

O meu marido, altruísta, decidiu que, a bem do descanso de todos, se sacrificaria. Vestiu-se e resolveu vir dormir para o sofá. Disse ao pobre e trémulo cão que fosse com ele para a sala. E eu poderia ficar no quentinho da cama a ver se dormia.

Na rua, o barulho acentuava-se. E, estranhamente, o cão não seguiu o meu marido. Manteve-se na choradeira ao pé da porta da zona do quarto, a arranhar a porta, a fazer barulhos, a andar com os tapetes num alvoroço. Isto enquanto a casa quase vinha abaixo com tanto vento, tanta chuva, tanta trovoada.

Fui ter com o cão. Tentou vir para o pé de mim. Chamei o meu marido. Disse-lhe que o melhor era trocarmos. Vesti qualquer coisa e fui ter à sala para me deitar eu no sofá. A alegria do cão foi incrível. Dava ao rabo, andava em minha volta, todo encostado a mim. Tremia como varas verdes, coitado. O meu marido foi para o quarto e eu estendi-me no sofá. No chão, encostado ao sofá, fui fazendo festinhas ao pobre cãobeludo, tentando acalmá-lo. 

De repente, um clarão imenso e, ao mesmo tempo, um estrondo, um ribombar intenso, e, ao mesmo tempo, um outro barulho e, logo a seguir, o aviso sonoro da central de segurança. Experimentei e vi que não havia luz. Fui ver o disjuntor. Estava para baixo. Fiz força mas não consegui. Tive medo de forçar, até porque poderia não ser aquilo. O cão todo encostado a mim, o vento, a chuva, a trovoada sem darem tréguas. Fui chamar o meu marido. No meio daquela tempestade, às escuras, só pensava que, se fosse preciso alguma coisa, às escuras seria pior. Isto sem pensar no frigorífico que poderia começar a descongelar. Chegou lá, pôs aquilo para cima. Refiro-me ao disjuntor, claro. Voltou a luz. E eu voltei para o sofá e o cão, atormentado, todo encostado a mim.

Eram já sete de manhã, o temporal abrandou. O cão acalmou-se, adormeceu. Pé ante pé, voltei para o quarto. Quando estava a adormecer, novo clarão, novo ribombar. E, de novo, o cão a raspar na porta, a chorar, a fazer barulhos de medo e chamamento.

Voltei a vestir-me e a ir para o sofá. E o meu amigo comigo.

Por volta das 9 horas, já tudo tranquilo, o meu marido a pé, fui finalmente para a cama. Dormi entre as 9 e as 11.

A glicínia grande, que estava linda, imensa, caiu toda, despregou-se do telhado, o gradeamento do muro em que estava presa também caiu. Uma tristeza. Não temos força para a levantar. O meu marido diz que terá que a cortar. E eu não vejo alternativa.

Do outro lado, tombou uma buganvília e caiu sobre uma grande suculenta de que se partiu também um bocado.

Tirando isso, está tudo bem. 

Os resultados nos Estados Unidos foram óptimos e estou contente. E o tempo levantou. Portanto, acredito que os tempos de bonança estão a caminho.

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Um grande, grande discurso, grande, grande

“Trump, Turn the Volume Up!” — Zohran Mamdani’s Fiery Victory Speech Rocks NYC

Zohran Mamdani delivers a powerful and historic victory speech after defeating Andrew Cuomo to become New York City’s next mayor. Declaring, “We have toppled a political dynasty,” Mamdani vows to “make New York the light” and calls out President Trump directly — “turn the volume up.” 


Põe-te a pau Andrezito. 
Talvez novos ventos estejam a caminho

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Dias felizes

domingo, outubro 26, 2025

A arte de que se tem dúvidas.
A natureza de que não se pode ter dúvidas: é arte em estado puro.
E a história do bravo quase-lobo que vai avançar sobre a enigmática e poderosa FLOTUS, obrigando-a a falar sob juramento

 

Dia de visita às artes, no Drawing Room na SNBA, sempre com aquele misto de perplexidade e interesse. Por um lado, face a muitas obras expostas, aquela eterna dúvida: é isto arte? não é isto uma preguiçosa maneira de tentar ganhar a vida? É isto, ao menos, bonito? ou interessante? Por outro, face a outras peças, a curiosidade, o gosto de olhar, a vontade de perceber como foi feito, por vezes até uma certa vontade de possuir.

É certo que não haverá áreas em que a subjectividade mais impere do que na arte. Por isso, é território arriscado, este. Do que eu gosto há quem se ria. No que eu não gosto há quem invista muitos milhares. Por isso, a mim própria me obrigo a bater a bola bem baixinho.

E, além disso, em lugares assim não é apenas a arte que se pode olhar, é também a graça de observar a fauna que se move em torno das galerias, dos artistas, incluindo os próprios galeristas e pintores. Há qualquer coisa que os distingue, que os aproxima entre si. Eu não me aproximo. Não gosto de conversar sobre arte. Para mim, não há conversa possível. Gosto de ver, gosto de me chegar perto ou de ver de longe, mas pouco mais do que isso. De quem eu gostava de ouvir falar era a Paula Rêgo. Falava displicentemente do acaso subjacente, de como apareciam aqueles personagens ou adereços, quase por acaso. Uns tomates pintados ao pé da cama só porque sim, só porque aquele espaço estava vazio e uns tomates ali ficariam bem. Não tinha paciência para alimentar dissertações.

E se isso era assim quando os quadros dela tinham personagens, tinham acção ou intensidade, imagine-se qual o sentido de dissertar sobre pinturas em que aparecem três manchas e dois riscos. Ou na tela grande, cinco pequenos salpicos. Não estou a exagerar. Que se pode dizer sobre obras de 'arte' desse calibre? Falar sobre isso é da ordem da fantasia, mas uma fantasia que só pode fazer sentido na cabeça de uma mente sub-ocupada. Só me apetece dizer para irem dar banho ao cão.

Enfim. 

Tenho ainda a registar o facto já aqui trazido algumas vezes. Não sei qual a explicação mas sei que é um facto: todas as pessoas que conheço de as ver na televisão, quando as vejo ao vivo verifico que são minúsculas. Hoje mais um. Imaginava-o grande. Talvez por ser desenvolto e por na televisão se mostrar uma figura com uma certa presença, imaginava-o grande. Não senhor, pequenino. Nada contra, nada mesmo. Só o refiro porque não percebo o fenómeno: parece que a televisão faz as pessoas parecerem maiores.

Tirando isso, a natureza. A bela natureza. As cores que se mesclam, a luz que as folhas guardam dentro de si, os tons que evocam o pôr do sol, agora que os dias estão tristemente pequenos. 

Debaixo desta chuvinha mansa, os líquenes saem à cena, os musgos aparecem, a caruma, ensopada, fica macia. Os passarinhos cantam, cantam. Uma paz acolhedora.

Caminho enlevada, fotografo e faço vídeos com tudo, tudo me encanta. As cores exuberantes que agora despontam fazem esquecer a secura dos dias em que os grandes calores ressequiram a terra. Os verdes estão de volta.


Ando debruçada à procura dos primeiros cogumelos, mas ainda não apareceram. Anseio por eles. É sempre um deslumbramento, um espanto perante o milagre que é ver aquelas criaturas silenciosas a levantarem-se da terra.

Agora, enquanto escrevo, uma coruja pia na noite escura. Gosto do seu canto.  É solitária. E noctívaga como eu.
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Entretanto, estive a ouvir o Michael Wolff. Autor de vários livros sobre Trump para os quais recolheu testemunhos de meio mundo e se tornou confidente de muita gente, Michael Wolff gravou muitas horas de conversa com Epstein, durante as quais o tema era Trump, Melania Trump e etc. Sem receios, tem divulgado muitos dos segredos que Epstein lhe contou, revelou as fotografias que viu com Trump com miúdas pequenas em topless ao colo, etc.

Pois bem. Nas costumeiras manobras de silenciamento de quem diz coisas desconfortáveis de qualquer dos membros do casal Trump, desta vez foi Melania que processou Michael Wolff por difamação, avançando com um pedido de indemnização de um bilião de dólares. Fazem isso embora saibam que não ganham, fazem isso apenas para intimidar os processados, para os calar, e para que, numa de acabarem com a perseguição, os processados aceitem fazer um acordo no decurso do qual os Trumps sempre ganham qualquer coisa. E com isso vão ganhando, no total, mais uns milhões. A ganância e a falta de escrúpulos daquela gente não têm limites.

Só que, desta vez, o tiro lhes saiu pela culatra. Michael Wolff virou a mesa e avançou ele com um processo contra Melania, por tentativa de lhe restringirem a liberdade de expressão. Desta forma, em tribunal, os factos vão vir para a barra dos tribunais e se verá se há difamação, ou se apenas relato de ocorrências. Melania Trump irá depor sob juramento. Espera Michael Wolff que seja também uma oportunidade dos famosos ficheiros Epstein virem para a luz do dia. Tenciona chamar como testemunhas Donald Trump, a sinistra e pérfida Ghislaine Maxwell e Steve Bannon que também sabe mais do que Trump gostaria que ele soubesse. E tenciona fazer ouvir as gravações em que Epstein fala de Trump. Ou seja, tenciona trazer Epstein do mundo dos mortos para depor contra Donald e Melania Trump.

Vai ser bonito de se ver e muita tinta vai ainda correr, muita, muita. 

Ao que consta, Trump foi apanhado de surpresa com esta reviravolta e está possuído. E, quando está assim, mais peripécias e tentativas de distração vão acontecendo, sucedendo-se as ameaças, as vinganças, os disparates, os desmandos.

Partilho um vídeo em que o corajoso Michael Wolff conversa com a simpática Joanna Coles. Vale muito a pena ver. É certo que se passa lá longe. Mas, não nos esqueçamos: nesta nossa aldeia global, o 'lá longe' é à porta da nossa casa.

Wolff: What I’m Going to Ask Melania Under Oath | Inside Trump's Head

Michael Wolff junta-se a Joanna Coles para abordar o seu novo e surpreendente anúncio: um processo de mil milhões de dólares contra Melania Trump. Os dois dissecam a amizade bem documentada de Jeffrey Epstein com Donald Trump e ligam os pontos à demolição da Ala Leste de Trump, expondo a estratégia de destruição do presidente. Wolff e Coles desvendam também as cruzadas linha-dura de Stephen Miller, expondo a estranha psicologia que move um dos membros mais maníacos do círculo íntimo de Trump. À medida que as barreiras legais se fecham, persiste uma questão: quanto do caos de Trump é cálculo e quanto é pura compulsão?


00:00 - Introduction
01:55 - Why Wolff Announced Melania Countersuit Beside The American Flag
04:21 - Wolff's Legal Action Against Melania Is An Anti-Slapp Suit
07:25 - First Time In History First Lady Has Sued A Member Of The Press
10:20 - Trump White House Demolition An Unscrupulous NYC Real Estate Strategy
16:43 - What Wolff Will Seek From Melania And Donald During Legal Discovery
19:23 - How Will Melania And Donald Perform During Depositions?
20:21 - Ghislaine Maxwell's Deposition Will Be Crucial In Melania Trial
21:04 - Wolff To Share Jeffrey Epstein's Comments About Trump During Melania Trial
24:30 - Inside Trump's Head Live Event Nov. 5, Buy Tickets At MCNY.org
25:30 - Why Trump Calls Stephen Miller "Weird Stephen"
28:48 - Stephen Miller Driven My Maniacal Anti-Immigrant Ideology
30:57 - Trump Has Used Stephen Miller As Cudgel
32:35 - Stephen Miller Gets Pleasure From Violent ICE Raids
34:40 - Trump Attempting To Undo Large Progressive Cultural Movements
35:54 - Stephen Miller's Lack Of Opportunities After Jan. 6th
39:08 - Trump Is Confused By Stephen Miller
41:10 - Viewer Questions Asked And Answered

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

quinta-feira, setembro 25, 2025

Uma lição sobre como fazer -- ou o que o Governador Gavin Newsom está a fazer para tentar recuperar a influência dos democratas e derrubar o populismo fascitóide de Trump
-- 3 vídeos rigorosamente a não perder --

 

Por delicadeza, deixamo-nos matar. Pelos nossos santos princípios, não descemos ao nível dos que os não têm. Por orgulho, recusamo-nos a lutar com as torpes armas daqueles para quem tudo serve. Somos assim. Democratas, democratas liberais, empáticos, intelectualmente honestos, sérios. Puros.

Em Portugal, nas últimas legislativas, o PS foi na enxurrada do populismo e passou para terceiro lugar, tendo um partido que não é nada senão um bando de oportunistas dos quais uns tantos são delinquentes, passado para segundo lugar. Todos os demais partidos à esquerda do PS tornaram-se marginais, irrelevantes. O Livre ainda tenta lutar mas ainda não conquistou a massa crítica que lhe permita sequer fazer ondas.

E, no entanto, está à vista de todos a porcaria que é o Chega. Porcaria. O rebotalho da sociedade. E, apesar disso, uma parte significativa dos eleitores votou neles. Sendo certo que objectivamente o Chega não tem nada para oferecer à grande maioria dos seus votantes (segundo um estudo de que ouvi recentemente falar, jovens dos 18 aos 24 e gente desqualificada e de baixos recursos) e, pelo contrário, é um risco para a democracia, qualquer partido com um mínimo de responsabilidade deverá ter como objectivo devolver à população a confiança em valores humanistas, democráticos, inclusivos, abertos ao desenvolvimento e à modernidade. 

O PSD também está numa encruzilhada. Sem a ancoragem ideológica e o historial cultural e de defesa da liberdade e da democracia que o PS, o PSD nasceu e cresceu como um partido de poder, atraindo chico-espertos de todas as proveniências, yuppies, gente ambiciosa (o que não é forçosamente mau, mas que, muitas vezes, ambiciona o sucesso rápido demais e, se possível, recorrendo a optimizações fiscais) e agora, encostado às boxes pelo Chega, anda aos esses, ao pé coxinho, às apalpadelas, parece que sem rumo.

Face a este panorama, o que me parece é que é tempo para que quem tenha convicções democráticas, quem preze a liberdade, o humanismo, o desenvolvimento e a modernidade se chegue à frente e lute com energia. Sem medo.

O que se passa nos Estados Unidos, com Trump e com os MAGA, deveria servir de exemplo para os riscos tremendos que todos corremos. Da democracia ao fascismo, com o apoio do voto popular, é um pequeno passo. Mas se isso é verdade, não é menos verdade que Gavin Newsom também poderá servir de exemplo para a forma criativa, vigorosa e corajosa como se pode lutar. Ele ouve os que estão do outro lado, ele aprende com os métodos dos adversários, ele desbrava caminho, ele enfrenta críticas, ele conhece os mecanismos mentais dos eleitores dos outros, ele percebe os seus anseios e os mecanismos do medo e da crença irracional -- e vai em frente. 

Nos vídeos abaixo, ele explica o que tem feito. Colbert dá-lhe palco e ele, de A a Z, explica o que tem feito. Muito vivamente sugiro que vejam os três. Talvez o último seja o mais emotivo, o mais perturbante,

Tomara que o sigam, tomara que seja bem sucedido, tomara que os Estados Unidos deixem de ser a vergonha que agora são. E tomara que os partidos democráticos dos outros partidos aprendam com ele. 

We Put A Mirror Up To The Absurdity Of Donald Trump - How Gov. Newsom Got Under The President’s Skin

California Governor Gavin Newsom comments on his use of social media to beat the president at his own game, and argues that Democrats as a whole need to go on the offensive now before it’s too late.


“I Fear We Will Not Have An Election In 2028 Unless We Wake Up” - Gov. Gavin Newsom

California Governor Gavin Newsom issues a stark warning about President Trump’s efforts to “rig” the 2026 midterm elections, and what it could mean for 2028

California Will Now Require ICE Agents To Show Their Faces - Gov. Gavin Newsom

California Governor Gavin Newsom explains the state’s new law that bans members of President Trump’s ICE force from concealing their identities while on duty.
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[E que belo pedaço de homem que ele é... não...?]

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Um dia feliz para todos

segunda-feira, junho 30, 2025

Totalmente de acordo com o combate a sério à evasão fiscal anunciada pelo Governo e totalmente de acordo com o apontado por Vital Moreira

 

Desde que por aqui ando que falo disto: em Portugal, quem paga impostos paga mais do que deve, especialmente quem ganha um pouco acima da média, e isto porque há muita gente que deveria pagar (ou pagar mais do que paga) e não paga.

A partir de certo ponto, a carga fiscal é sentida como um esbulho. Taxar como se fossem milionários pessoas que são classe média  -- e, em vários países europeus, classe média baixa -- é dissuasor para quem pode ir trabalhar para outro país ou para quem pode fugir ao impostos.

A cena do IRS jovem é falaciosa, creio que até absurda. Qual é o jovem que opta por Portugal porque até aos 35 anos tem IRS baixo, sabendo que, quando fizer 36, o fisco lhe vai cair em cima? Nenhum. Se o tema for impostos, ele vai olhar para o que vai descontar à medida que progredir profissionalmente e aí vai ver que em Portugal se impede que alguém ganhe um pouco mais, pois metade do que ganha vai direitinha para impostos e contribuições. 

Isto do lado do que é preciso fazer na redução de impostos como arma de combate à evasão fiscal.

Mas depois há os casos especiais que igualmente carecem de combate.

O caso de que já aqui falei inúmeras vezes das personalidade coletiva (pseudoempresas unipessoais ou familiares) como expediente de fuga ao fisco, em que incorre um bom número de profissionais liberais (advogados, médicos, etc.) é para mim chocante e, num primeiro momento, eu incidiria muito claramente nesta vertente. Claro que muitos deputados, provavelmente muitos governantes (antes de estarem no Governo -- espera-se) recorrem a essa habilidade pelo que terão o rabo mais que preso e, portanto, motivação nula para irem atrás disso.

Mas, reconheça-se que, se a legislação o permite e se a alternativa é deixar ficar uma parcela enorme de rendimentos na mão do Estado, a tentação pode ser quase inescapável. 

Por isso, ao mesmo tempo que se vá atrás disso, volto a dizer: baixem-se os impostos, baixem-se de forma palpável, reduzam-se os escalões, torne-se tudo mais aceitável.

Já aqui falei que tenho muitos amigos médicos e os que já atingiram a idade da reforma e têm gosto por continuar a exercer apenas trabalham um ou dois dias por semana pois dizem que mais que isso é para ser comido pelos impostos. Portanto, os que não têm a dita empresazinha para ser encharcada de custos e para fugir ao fisco, fazem a optimização fiscal não trabalhando. Isto, numa altura em que a escassez de médicos é brutal. E isto é um exemplo pois cada um tem os seus motivos e argumentos para estar revoltado com o esbulho fiscal a que é sujeito.

Outra situação é a dos senhorios e da "enorme percentagem de arrendamentos não declarados". O que não falta são as situações de arrendamentos 'por fora' ou 'por baixo da mesa'. Só não digo que conheço vários casos em que assim é para não me virem pedir que os denuncie. Os senhorios põem as suas casas ao dispor de pessoas que não conhecem, pessoas que lhes podem trazer problemas, os senhorios têm que fazer a manutenção das casas, têm que pagar IMI, têm que pagar o seguro da casa, têm que pagar o condomínio, e, no fim, têm que pagar um imposto que é francamente dissuasor. Conheço pessoas que preferem ter uma trabalheira a manter casas antigas a que não dão uso apenas porque acham que não lhes 'compensa' se forem pagar os impostos mas não querem entrar numa situação irregular. Por isso, optam por não arrendar as casas. Com a falta de casas que há, para além de serem precisas mais casas, em especial casas para os muito pobres e para os 'remediados', habitação social, portanto, da responsabilidade do Estado, há que conseguir pôr no mercado mais casas para a classe média. E a maneira sensata será baixar os impostos sobre as rendas, mas baixá-los consideravelmente, e, em simultâneo, criar incentivos fiscais para os inquilinos que declarem as rendas através de contratos registados nas Finanças. Só assim se incentivará os senhorios a arrendarem casas a que hoje pouco ou nenhum uso deem e, ao mesmo tempo, se incentivará a que declarem fiscalmente os contratos.

O caso "do setor dos restaurantes, bares e estabelecimentos similares, onde é percetivel uma elevada evasão", também referido por Vital Moreira, é outro que merece destaque. O número de vezes em que vou a uma churrasqueira buscar frango assado ou a uma pizzaria ou a um qualquer restaurante em que, ao pagar, me dão o ticket do pagamento e o ticket da 'registadora' (no qual está escrito que é para conferência e não substitui a fatura) é impossível de quantificar. Quanto peço a fatura, até ficam a olhar para mim como se fosse uma excêntrica: 'Ah quer...?'. Confesso que nos locais de maior afluência em que, mal me despacham, se viram para atender o seguinte, até para não atrapalhar a cadência, acabo por deixar passar. Mas é indecente, é escandaloso. Impunidade total. Isto já para não falar que em muitos destes sítios só aceitam pagamento em dinheiro, ou seja, nem fica rasto. A AT não deveria regularmente andar em cima destes estabelecimentos? Deveria, deveria. Muitos impostos deveriam ser colectados se houvesse auditorias ad hoc, ie, de surpresa.

É que por haver tanta, tanta, tanta gente a não pagar impostos ou a pagar muito menos do que devia, andam outros, os que gostam de fazer as coisas by the book, a pagar muito mais do que seria razoável.

Portanto, apoio completamente que o Governo crie medidas efectivas, fáceis de implementar e de controlar para combater a evasão fiscal. E apoio que se simplifiquem as regras fiscais e se baixem os impostos. No caso do IRS, defendo que se reduza, pelo menos para metade, o número de escalões e que se reduza significativamente as respectivas taxas. 

No caso da habitação, como forma de alavancar a oferta de casas para arrendamento, que se baixem capazmente os impostos na tributação autónoma e se criem incentivos aos inquilinos que tenham recibos emitidos pelas Finanças.

Tal como nos malfadados tempos da troika ataquei ferozmente a política de austeridade porque asfixiou a economia e empobreceu as pessoas e o País, agora continuo a defender que a economia precisa de liquidez para se movimentar e para crescer. Libertar mais rendimento (por redução da carga fiscal) só aparentemente empobrece os cofres do Estado pois, havendo mais liquidez circulante, há mais consumo, há mais investimento, há mais emprego, há mais poupança. E, em qualquer dessas vertentes, incidirão os impostos, fazendo com que a colecta se fortaleça (não por via das taxas mas da base sobre a qual se aplicam).

Sei bem que haverá quem diga que lá está a minha costela liberal a manifestar-se. É verdade. Tenho uma costela liberal, já o disse muitas vezes. Liberal (qb) na economia e liberal (qb) nos costumes sociais. Quando disse há tempos que se o Partido Socialista não souber reinventar-se e trazer de novo para os seus valores os da social-democracia que estão na sua origem, há lugar para um partido novo, progressista, democrático, humanista, moderno, venerando a cultura e o planeta, liberal.

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A imagem lá em cima, muito primariazinha, foi o que saiu via IA.
Se fosse mais cedo, tentava coisa mais apurada. Assim, peço que aceitem as minhas desculpas

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

sexta-feira, abril 25, 2025

25 de Abril sempre.
Para sempre

 

Dispensam-se discursos cheios de tacticismos. Leitura de poesia seria preferível. Dispensam-se cortesias e pró-formas. O melhor mesmo é encher ruas e praças, atirar foguetes e fogo de artificio, tocar tambor, cantar e dançar nas avenidas, andar com crianças pela mão, às cavalitas ou em carrinhos, exibir cartazes coloridos ou flores.

A liberdade não pode ser espartilhada, condicionada, ajustada ao calendário. A liberdade tem que ter a cor e o som e o cheiro e o sabor e o toque da felicidade. 

25 de Abril sempre

quinta-feira, agosto 15, 2024

As surpresas desta vida.
Putin, Trump, Kamala Harris, Zelensky

 

Desde que criei o Um Jeito Manso até a Rússia cobarde e barbaramente invadir a Ucrânia, eu mudava periodicamente o aspecto do blog: alterava a imagem de abertura, mudava as cores. Várias vezes por ano, mudava tudo. 

Mas, quando a Ucrânia se viu atacada, invadida, destruída, resolvi vestir o blog com as cores da Ucrânia e colocar, na abertura, a imagem de uma criança, corajosamente confiante na reconquista da tranquilidade e da paz em solo ucraniano.

Claro que já mil vezes me apeteceu mudar. A novidade e a vontade de mudança está-me nos genes. Mas neste caso não mudo. Deixar de aqui ter as cores da Ucrânia seria aceitar que já não vale a pena continuar, seria assumir algum cansaço, uma certa desesperança. 

Não. Aqui continuarão até que a Ucrânia vença esta guerra, até que a Rússia retire as patas ensanguentadas do solo ucraniano. Mesmo abdicando do que, creio, era a imagem de marca do meu blog, manter-me-ei firme a mostrar o meu apoio à Ucrânia e a minha convicção de que a vitória será sua. Sua e do mundo civilizado.

Os segismundos, as estátuas salgadas e demais comunas ressabiados bem podem chamar-me lunática, bem podem vir para aqui destilar o seu fel contra a democracia e contra quem gosta da liberdade, e assegurar que a Rússia tem um poderio desmesurado e, que, quando quiser, pisará de vez a Ucrânia, que a mim tanto se me dá. A mim não me convencem. Sei que a (grande) coragem dos que resistem e a (pequena) coragem dos que os apoiam irão derrotar o ditador, o tirano, o psicopata Putin e os que o apoiam. Sei. Tenho a certeza.

Ao fim deste tempo todo, Putin ainda não conseguiu o que queria. Pelo contrário, têm sido desaires atrás desaires e agora é o que sabe: a humilhação de ter a Ucrânia a causar beliscaduras em solo russo.

Há muita gente que ainda não aprendeu que o primeiro milho é para os pardais e que o bem, por muito que custe e por muito que dure a atingir, acaba sempre por prevalecer.

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Numa outra geografia e numa outra escala mas havendo pontos de intersecção, Trump. O obtuso, populista, trambolho, troglodita Trump.

Quando se pensava que, com Biden a soçobrar, a patinar e a não querer desistir, Trump já lá estava... eis que, de repente, há uma reviravolta. O panorama seria terrível para todo o mundo se Trump voltasse a ser presidente dos Estados Unidos.  Trump está mais próximo de Putin, de Xi e de Kim do que mundo democrático e isso é um risco para o mundo.

Podem os Estados Unidos estar carregados de gente bronca -- bronca e burra e estúpida a ponto de apoiar Trump --, mas há muita gente inteligente, informada, culta, bem formada, amiga e defensora da democracia e da liberdade.

Por isso, tenho também para mim que Kamala vai ser a próxima presidente dos Estados Unidos. 

E um dia vamos acordar com o Putin apeado e com a Ucrânia livre do pesadelo terrível por que está a passar.

Tenho esperança de ainda viver tempos de paz no mundo, tempos felizes, tempos de desenvolvimento.

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A propósito:

Jon Stewart on Why Trump Wants Biden Back So Badly He's Reusing His Old Attacks
| The Daily Show

Donald Trump thought he was cruising to victory against Joe Biden, but now he's facing a hard fight against Kamala Harris. Jon Stewart looks at Trump's half-hearted attempts to adjust to the new challenge and wonders if he's hatching a devious plan to help Biden take back the nomination, January 6th style


Peace and love

quinta-feira, maio 02, 2024

Um cravo é um cravo é um cravo

 

No outro dia vieram cá umas amigas. Estando nós a atravessar o cinquentenário do 25 de Abril, acordei nesse dia a pensar que queria oferecer-lhes um pregador (não sei porquê mas não me dá jeito dizer broche) com o formato de cravo.

Pensei, na minha ingenuidade, que era coisa que deveria haver a pontapé. Portanto, nesse dia, antes que elas chegassem, resolvi ir, num instante, a um centro comercial, daqueles em que há todas as lojas, pois poderia comparar os diferentes formatos e trazer o ou os mais indicados. Uma das minhas amigas tem uma personalidade algo boémia e outra é a serenidade e equilíbrio em forma de gente. Portanto, ou era um cravo adaptado a cada uma ou era um que fosse ambivalente.

Pois, pasme-se: nem um. Corri todas as lojas de bijuteria que se possa imaginar, t-o-d-a-s, nada, depois passei para as lojas de vestuário que também vendem adereços, nada, segui para as lojas que vendem pedras preciosas ou semi-preciosas, nada, e, por fim, já estava a espreitar ourivesarias. Nada. N-a-d-a. 

Não houve uma alma, uma, que se tivesse lembrado de fazer um pregador em forma de cravo, seja ele gráfico, realista, seja metafórico, metafísico, intemporal, abstracto. Nada. Zero.

Acabei por escolher umas florzinhas meio desmaiadas, levemente encarnadas, mais para as margaridas coradas do que para os rubros carnations. Tinha metido aquela na cabeça, não poderia recebê-las sem um flor para porem ao peito.

E, pensando no assunto, pasmo. Não sei como não se transformou já o cravo em símbolo, quiçá a par do Galo de Barcelos ou outros como o das Caldas. Deveria haver peças alusivas ao cravo sejam Bordalo Pinheiro ou Vista Alegre, sejam peças em prata, ouro, plástico, qualquer coisa,  sejam ímans, sejam bugigangas para todos os gostos. E, que eu saiba, nem a grandiosa Joana Vasconcelos se inspirou para produzir uma hiper-mega peça em forma de cravo libertário.

Fiquei com vontade de comprar papel plastificado encarnado, tule encarnado, coisas com que eu própria faça peças para oferecer a quem venha visitar-me e para eu própria ter aqui em lugar de destaque.

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O vídeo abaixo tem legendagem em inglês mas também se pode escolher a tradução automática para português. 

Portugal - Cravos contra a Ditadura

Portugal: Carnations against Dictatorship | ARTE.tv Documentary

In April 1974, left-wing factions in the Portuguese military staged a coup against the authoritarian regime which had been in power for half a century. The uprising was largely peaceful and went down in history as the Carnation Revolution. But the path to a democratic Portugal was not easy and not without obstacles.


sexta-feira, abril 26, 2024

Foi bonita a festa, pá
25 de abril sempre

 

Um imenso mar de gente em festa, em família, entre amigos. Uma festa intergeracional mas, arriscaria dizer, com uma inédita e inacreditável massa de jovens e de crianças. 

Todas as ruas iam dar ao Marquês. Os relvados da avenida e da rotunda cheios de gente. Muita cor, muita alegria. Gente a cantar, a rir, a abraçar-se, a festejar, a gritar gritos de ordem: um hino à liberdade cantado a muitos milhares de vozes.

Muita emoção, uma emoção contagiante, uma vontade de que as ruas nunca percam a alma, que continuem cheias de gente, que não seja só nos 25 de Abril. As ruas querem-se vivas e alegres. É na rua que as pessoas se encontram, se abraçam, se vêem a rir, que cantam em uníssono. Não é na solidão das redes sociais. É nas ruas. É na partilha, no contacto, na felicidade de estar com os outros que a liberdade e a democracia se mantêm vivas e pujantes.

Em boa hora o meu marido se lembrou de que devíamos ir para a avenida. Estou muito feliz por lá ter estado. 

Desejo que o 25 de Abril se mantenha vivo, cada vez mais festivo, cada vez mais enraizado e pujante, cada vez mais um balão de oxigénio que alimente os nossos quotidianos. E desejo que daqui por 50 anos os meus filhos, os meus netos, os meus bisnetos e trinetos continuem a sair à rua a festejar o dia da Liberdade e da Democracia no nosso querido país.

















































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Nota: Caso algum dos que aparecem nas minhas fotografias aqui não quiser estar, peço o favor de me contactar identificando a fotografia que logo a retirarei

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Galeria de Fotografias do Guardian: clicar (link abaixo) para ver todas

Portugal commemorates the Carnation Revolution – in pictures

Thousands in Lisbon celebrated the 50th anniversary on Thursday of Portugal’s Carnation Revolution, which toppled the longest fascist dictatorship in Europe and ushered in democracy. The almost bloodless revolution was conducted by a group of junior army officers who wanted democracy and to put an end to long-running wars against independence movements in African colonies
Guy Lane
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25 de Abril sempre

quarta-feira, fevereiro 21, 2024

Coragem
- Dasha Navalnaya, a filha de seu pai, olha de frente os assassinos e os cobardes que, disfarçados de pombinhas da paz e enchendo a boca de adversativas, os desculpam

 

O vídeo que aqui partilho tem quatro meses mas mantém-se tristemente actual. Sem meias palavras, com a coragem intelectual física que o pai demonstrou até ao fim, a mesma que a mãe tem também demonstrado, a jovem Dasha, bela como os progenitores, é bem a menina de seus pais. O seu pai foi assassinado, depois de perseguido, envenenado, torturado, privado da liberdade. Mas Dasha não se calará.



Uma família corajosa, aqui em dias felizes

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Podem ser activadas as legendas em português

Lessons from My Father, Alexey Navalny | Dasha Navalnaya | TED

Dasha Navalnaya is the daughter of Alexey Navalny, the politician and leader of the Russian opposition to Vladimir Putin. Sharing the story of her father's poisoning, persecution and current imprisonment, she details what it was like growing up under the watchful eye of government surveillance as her father led a decade-long investigation into the corruption of Putin's regime — and shows why paying attention to what happens in Russia matters to everyone, everywhere.


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Um dia feliz

Saúde. Coragem. Paz.