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sexta-feira, junho 13, 2025

Momentos tristes

 

Hoje voltámos à clínica veterinária pois assim tinha ficado combinado há uma semana. 

Mal entra na sala de espera, vindo à trela pela mão do meu marido, o doguezinho-mais-fofo dirige-se para junto de mim, para se sentar entre as minhas pernas. Sempre assim foi. Quando tem medo, procura o meu conforto. Fica ali, meio escondido, sentindo-se protegido por mim. 

Mal me sentei, pareceu-me ouvir um choro. Só de pensar no que estará a acontecer, fico de rastos. Perguntei ao meu marido: 'Não estás a ouvir chorar?'. 

Ele confirmou: 'Porra, temos sempre esta sorte'. Contrariei: 'Sempre? Que disparate. Aqui, acho que é a segunda vez. Na outra clínica, outra vez.'. Ele estava incomodado: 'E achas pouco?'. 

Claro que não. É horrível. Uma vez que fosse já seria demais.

O choro e os soluços ouviam-se cada vez mais.

Eu ia fazendo festas ao meu fofo que ali estava encolhido, metade debaixo da cadeira, metade entre as minhas pernas. Felizmente não percebe o que se passa.

Na sala de espera, um senhor com ar infelicíssimo. Na cadeira ao lado uma mala de transporte de animais, uma mala bem grande. Mas devia ser de um gato pois não vejo que se transportem cães em coisas assim. Mas não sei. 

Passado um bocado, uma das auxiliares saiu do gabinete da médica, amparando uma senhora que tremia de choro, inconsolável, as lágrimas correndo, soluçando. Depois foi buscar-lhe um copo de água. 

Quando a senhora já estava sentada ao lado dele, o senhor disse: 'Já sabias que ia acontecer...'. Ela encolheu os ombros ao de leve, como querendo dizer que não era por saber que ia acontecer que se tornava menos doloroso. 

Ele também estava com um ar consternado. Passado um bocado, quase a medo, pediu a confirmação: 'Mas.... já aconteceu?'. Ela fez que sim com a cabeça e o choro redobrou. 

Ele tentou acalmá-la: 'Então... Vá, bebe água...'. Ela, quase sem conseguir falar, passou-lhe o copo de água: 'Não consigo beber.'

Passado um bocado, com o copo na mão, o homem voltou ao mesmo assunto: 'Mas... já está tudo...?'. A senhora tapou o rosto com as mãos e acenou que sim. Soluçava desconsoladamente. 

Só me apetecia chorar. Ou ir consolá-la. Mas sei que, em situações assim, não há consolo possível.

A assistente veio perguntar se estava melhor. Ela não disse nada. 

O homem perguntou: 'Já posso pagar?'. A assistente disse que sim. O homem mexeu na carteira da mulher para tirar o cartão. A mulher perguntou se ele sabia o código. Ele respondeu: 'Claro'.

Depois de ter pago, voltou para junto dela e perguntou-lhe: 'Vamos?'.

Ela chorou mais, soluçou. Ele hesitou. Estava comovido. Depois vi que se enchia de coragem para segurar a pega da mala transportadora. A senhora pareceu que ia quebrar de vez. 

Foi à frente, a soluçar, sem querer ver. 

Ele saiu, atrás dela, em silêncio, com a mala vazia desoladamente na mão. 

Quando saíram, olhei para o meu marido. Estava a evitar olhar e não disse nada. Eu também não. 

Depois eu disse: 'Para os veterinários isto também não deve ser fácil...'. Ele disse: 'Já estão habituados. Faz parte do trabalho deles.'. Pensei que, de facto, não têm vínculo emocional com os animais. Mas, ainda assim, não deve ser nada fácil.

Quando nos chamaram, o nosso cãomaisfofo não queria ir. O meu marido teve que puxá-lo com toda a força. Foi a deslizar, recusando-se a andar.

Felizmente está bem melhor mas ainda vai usar o colar isabelino até ao fim de semana, até estar tudo bem cicatrizado, não fosse ele pôr-se a coçar-se ou a lamber aquela zona ainda fragilizada. Mas, lá em cima da marquesa, não rosnou, não tentou morder a veterinária, esteve relativamente tranquilo.

Quando saiu de lá, veio encostar-se a mim, a dar ao rabo e, já todo aliviado, a olhar para mim. Fiz-lhe festas e elogiei-o: 'Muito lindo, portou-se muito bem, a dona está muito contente, muito, muito. Menino lindo.'. O rabinho a dar a dar, todo ele orgulhoso pelo seu comportamento.

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Entretanto, como depois de ter falado deste momento tão triste não me apetece falar de outras coisas, limito-me a partilhar um vídeo que me pare tocante.


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Um feliz dia de Santo António

sábado, maio 10, 2025

Em dia de cenas variadas e de animada conversa política com dois sportinguistas de gema

 

Andamos às voltas com equipamentos de aquecimento que faziam (e fazem) parte da casa. O filho dos ex-donos é um engenheiro que não é daqueles teóricos, é todo do tipo engenhocas. E, do que percebi, quando jovem (e ainda é jovem) terá pensado formar uma empresa e, talvez para se treinar (ou para facturar, não sei), foi montando coisas em casa dos pais. Tudo do bom e do melhor, verdade seja dito, mas nada standard, nada documentado, tudo de uma redundância e complexidade tais que ainda não desencantámos quem aqui chegue e perceba o que vê.

Tudo estaria bem se o jovem, por sinal super prestável e simpático, se tivesse mantido no 'ramo' e pudesse dar assistência. Mas não, já não está nessa. E também já não se lembra. Já comprámos a casa há quase 5 anos e a montagem de toda esta incrível traquitana deve ter acontecido bastante antes. Portanto, é natural que não se lembre.

E o que acontece é que vem um e vem outro e olham para isto tudo, equipamentos, bombas, manómetros, termómetros, tubos em todas as direcções, e ficam sem saber onde mexer. Pior, com medo de mexerem. 

No outro dia, já esta semana, veio um senhor simpaticíssimo, aumentou a pressão, purgou, injectou um líquido, fez lá o que entendeu... e o problema principal manteve-se. Hoje regressou e, depois de andar às aranhas durante não sei quanto tempo, resolveu mexer numa válvula que está num outro local e que, aparentemente, nem tem a ver com este filme... e, como por magia, o problema resolveu-se. Mas nem ele soube explicar nem eu consegui perceber. E fico com a sensação que foi uma solução um bocado às três pancadas pois resolveu-se agora mas, no inverno, quando ligarmos outro equipamento, ficaremos com outro problema. Mas, pronto, agora parece que está e só posso dar-me por contente.

O meu filho sempre disse que uma coisa tão extraordinária e tão complexa em vez de um activo, de uma mais-valia, pode tornar-se num passivo, uma dor de cabeça. Vários técnicos que cá têm vindo têm dito que, por eles, acabavam com tudo e montavam uma coisa simples. Mas quando se fala na possibilidade de o fazerem, fazem marcha atrás pois o desmontar tudo o que para ali está parece ser, em si, também bastante complexo.

Como sou curiosa, para tentar descortinar o funcionamento daquela parafernália, já recorri ao chatgpt, mostrando fotografias. Elogiou bastante o sistema e fez uma série de recomendações que igualmente não compreendi.

Tirando este tema que esta sexta-feira de manhã nos obrigou a andar de um lado para o outro, a abrir portões para passar equipamento, depois ir buscar uma escada para ir ao telhado, depois uma mangueira para juntar água ao produto, depois desligar uma coisa no sótão, depois ir ver outra coisa não sei onde -- isto dividido entre mim e o meu marido depois de termos o cão devidamente isolado, o cujo ladra freneticamente  -- hoje fomos almoçar com dois dos meninos. 

Depois fomos ver se comprávamos um corta-sebes telescópico mas que, afinal, só por encomenda. Aproveitámos ainda para ir a outra loja pois o meu marido queria comprar uma daquelas mantas térmicas de emergência. Claro que aproveitei para trazer umas coisitas para mim. Antes comprava roupa que desse para o trabalho e para situações equivalentes a nível de exigência. E o que agora verifico é que me faltam peças simples, nomeadamente para usar no ginásio. Por isso, trouxe duas blusinhas daquele tecido muito fininho e com buraquinhos que deve ser para arejar. E uns calções também de tecido maleável, meio curtos mas não shortinhos. Vim de lá bem contente com os materiais -- imagino que se lavem bem e sequem ainda melhor, obviamente sem precisarem de ser engomados -- e com as cores e os feitios.

Devo também dizer que já há caracóis (cozinhados) à venda. Por isso, ao jantar, para além da sopinha, comi caracóis. Não me pareceram excepcionais mas creio que o problema estava na cozedura, parece que estavam um bocado mal cozidos. Mas, ainda assim, bastante razoáveis.

Claro que tudo isto, dito assim, parece que nada vale muito. Mas vale. Ao almoço, estivemos a conversar sobre profissões e sobre política, incluindo a questão dos impostos e das contribuições sociais. E gostei imenso. Os manos são muito diferentes: um mais liberal, mais puxando ao pai, outro com uma consciência social apurada, mais na linha da mãe. Ouvi-los a argumentar, a forma como se rebatiam, se chamavam mutuamente a atenção para alguns aspetos, foi uma agradável surpresa. Um tem dezasseis anos, outro catorze recém feitos, e a forma ponderada, abrangente, como o mais novo, ainda tão novinho, falou sobre estes temas, deixou-me com vontade de o encher de beijinhos. E ao mais velho, tão impulsivo, com uma tal verve argumentativa, também. Meus ricos meninos. Dois futebolistas, além disso. Sportinguistas, claro -- em stress pelo jogo, já a fazerem figas para irem festejar para o Marquês.

E agora não vem muito a propósito mas vi este vídeo e gostei imenso, imenso. E, portanto, aqui está.

Teenager Forced To KILL Friend: Shocking Story from Stranger's Past


Um bom sábado

sábado, abril 26, 2025

Confiar em estranhos

 

Quando circulava mais, acontecia-me com alguma frequência um desconhecido começar a falar comigo e contar-me coisas profundamente pessoais. Eram situações completamente inesperadas que eu havia com atenção e respeito.

E isso parece ter-se estendido à blogosfera. Muitas pessoas têm-me escrito, ao longo destes anos, contando-me aspectos privados, alguns deveras complexos, outros muito íntimos, outros tocantes ou dramáticos. Já me aconteceu também receber apelos desesperados ou para lhes ligar por estarem no limite e não terem mais com quem falar ou para me ir encontrar com elas por estarem a viver uma situação muito complicada e não saberem com quem mais falar a não ser comigo. Nestes casos fico sempre aflita pois sei que não tenho preparação para lidar com situações limite e não quero assumir uma responsabilidade para a qual dificilmente estarei à altura.

Se eu pudesse compilar todas as 'histórias' que têm chegado até mim, quem me lesse diria que a minha imaginação é excessiva, talvez a tender demasiado para o drama, por vezes talvez delirante. Obviamente não o farei pois respeito em absoluto a confiança que ao longo de anos tantas pessoas têm depositado em mim.

Quando eu trabalhava, era frequente, quando havia alguma suspeição no ar, virem perguntar-me se eu sabia de alguma coisa pois diziam que o meu gabinete era o confessionário. Claro que, mesmo que soubesse, não contava nada -- a menos que, pela natureza da situação, me apetecesse colocar algumas achas na fogueira.

Ainda recentemente, num grupo de que faço parte, ao ter sabido da inesperada morte de uma amiga, expressei a minha surpresa e tristeza. Não sei se foi pelas minhas palavras ou se pela recordação de conversas antigas, a verdade é que, pouco depois, recebi uma longa mensagem de um amigo com quem não tinha conversas mais pessoais há anos contando-me situações da sua vida. E fiquei de queixo caído. Jamais imaginaria que ele tinha passado por tudo aquilo e que tinha desenvolvido uma 'filosofia' de vida tão adaptada a quem sente que vive no fio da navalha. Trocámos mensagens e eu estava absolutamente perplexa pela confiança que ele revelava ao contar-me tudo o que estava a desfiar. 

Muitas vezes dou por mim a pensar: porque é que isto acontece? Porque as outras pessoas percebem que me interesso genuinamente por elas? Ou que procuro compreender sem julgar? Ou por qualquer outra razão?

Claro que depois me penitencio por não conseguir desdobrar-me em mil para ter tempo para acompanhar todas as pessoas que me procuram. Tenho a minha vida, as minhas ocupações, e é impossível ter tempo para conviver, mesmo que por mail, com todos quantos têm mostrado confiar em mim como guardiã de segredos, angústias, maravilhas, sucessos, preocupações, mágoas. Faço o melhor que posso mas sei que, para muitos, isso não é suficiente. Espero que compreendam.

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Talvez por tudo isto gosto imenso de ver estes vídeos em que alguém aborda e filma estranhos e estes, sem hesitação, falam da sua vida, dos seus assuntos mais pessoais.

Jana: The Shy, Beautiful Girl in The Park


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Um dia feliz