Música, por favor
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O avô dele tinha feito no fundo do quintal, depois da horta, uma pequena cabana. Penso que seria feita de madeira, tábuas. Não tenho ideia que pudesse ser de troncos mas não garanto. Sei que tinha, lá dentro, de cada um dos lados, uma tábua corrida a fazer de banco e era aí que nos sentávamos, ao lado um do outro. A parede do fundo tinha várias tábuas a fazer de prateleiras e aí havia vasos pequenos com flores. Se calhar a ideia do avô era que aquilo fosse uma estufa e nós é que a transformámos na nossa casa. Não sei.

Havia uma flor de que eu gostava muito, sempre muito viçosa, muito verde, com umas pontas que descaíam. Ele, então, cortava umas pontas para eu levar para dispor no jardim de minha casa. Durante muitos anos essa flor reproduziu-se de vaso em vaso, de canteiro em canteiro. Não sei como se chama, era uma flor de folhas miúdas, carnudas, e não dava flor, reproduzia-se por propagação. Era conhecida na minha casa como a flor do Tó Manuel. Não sei se ainda existe no jardim da minha mãe, hei-de ver. Há muitos anos levei de casa da minha mãe para a dispor in heaven mas não resistiu lá, as amplitudes térmicas são elevadas, o solo é pedregoso, não era planta para estar ali.
Penso que já uma vez aqui falei destes tempos. Depois da escola e depois de almoçar em casa da minha avó (que era perto da casa dele), eu ia a correr para essa pequena cabana e ele também. Mas ele não ia a correr, ia a andar porque era muito calmo. Sempre foi.
Tinha mais um ano que eu. Era bonito, pele clara e cabelo muito escuro, liso. Era alto, sóbrio, a tender para o tímido. Ou talvez nem fosse muito tímido, se calhar era sobretudo discreto, reservado. Também não me lembro de o ver a rir à gargalhada, acho que apenas sorria.
Eu era o oposto dele, muito faladora, muito alegre, ria muito, facilmente chorava a rir (e, no que se refere a rir, ainda sou assim). Provocava-o muito, desafiava-o. Mas ele nunca se aborrecia comigo. Quanto muito, eu notava que ele ficava sentido.

Andávamos em salas diferentes mas o recreio era conjunto. Se no recreio havia jogos que envolviam quase todos os alunos, como o jardim da celeste, e era chegada a minha vez de escolher um rapaz, eu olhava para ele, olhava, olhava, fazia de conta que o ia escolher e depois, à última hora, escolhia sempre outro. E via que ele ficava triste, notava que às vezes até corava. Depois, quando íamos para casa, ele ia andando devagarinho e ia olhando para trás a ver se eu vinha, mas não me chamava, não me perguntava se eu ia, nada, apenas ia andando cada vez mais devagar, e eu, de propósito, ficava na conversa, ou parava a apanhar flores ou fazia qualquer outra coisa para me atrasar, fazia-o sofrer, e ele andando cada vez mais devagarinho. Por fim, já a meio caminho, eu dava uma corrida e apanhava-o e zangava-me com ele por não ter esperado por mim, fazia-me de amuada por ele ir andando, deixando-me para trás, sozinha. E ele desculpava-se, envergonhado, queria zangar-se comigo mas não tinha coragem. E íamos naquilo, eu a fazer de conta que estava zangada, ele sentido pela minha injustiça.

Mas depois, quando nos sentávamos tardes inteiras na pequena cabana, todos esses meus jogos desapareciam porque era só ele que ali estava, só eu e ele, e o momento era especial, eu tinha a percepção de que não fazia sentido estragar aqueles instantes tão perfeitos. E ele também não tocava no assunto, sabia que eu era assim, volúvel, provocadora, coquette. Aí conversávamos muito, de tudo.
Eu tinha sempre muitas dúvidas, muita curiosidade, e ele respondia-me como sabia, raciocinávamos ambos em voz alta. Às vezes a minha avó aparecia lá com um prato grande com duas sandes e dois copos de leite. Outras vezes era o avô dele que nos ia levar fruta. A minha avó perguntava ao avô dele, Mas que é que estas almas tanto têm para conversar…?! Horas e horas de conversa…! E riam-se.
Depois do lanche eu tinha que voltar à escola para ir com a professora e os outros meninos apanhar o autocarro. Os meus pais estavam na paragem à minha espera, depois do percurso. Geralmente, para ficar com ele o máximo tempo possível, atrasava-me e tinha que ir a correr, aflita, com medo de não chegar a tempo. A professora zangava-se ‘qual será o dia em que ficas em terra?’ e eu pensava que um dia isso podia mesmo acontecer porque, todos os dias, eu queria estar com ele até ao último instante.

Nunca falávamos nada sobre a escola, a minha curiosidade situava-se sempre para lá dos assuntos que tratávamos na escola. Mas muitas vezes ele sabia mais do que eu ou, quando arbitrava respostas às minhas questões eu sentia que o conhecimento dele estava para lá do meu. Como era mais velho que eu um ano, andava um ano mais adiantado e isso fazia toda a diferença. Eu confiava totalmente no seu saber, nunca senti que ele estivesse a inventar para me impressionar. Quando não sabia, dizia que não sabia mas, passado alguns dias, aparecia já com alguns conhecimentos sobre ao assunto. Talvez perguntasse aos pais ou ao avô ou lesse, não sei. Eu ficava a admirá-lo ainda mais.

Ele tinha um irmão mais pequeno, talvez tivessem uns seis anos de diferença e ambos gostávamos muito dele mas, nessas nossas tardes, o irmão não tinha lugar. Lembro-me de uma vez, num fim de semana, eu estar com os meus pais ao pé dos pais dele, eram amigos desde crianças. E ele vinha ao longe com o irmão pela mão, ele muito alto, muito responsável. E a mãe disse para a minha ‘parece um homenzinho, posso descansar que ele toma muito bem conta do irmão, olhem lá, um homenzinho’. E eu, ao ouvir isso e ao vê-lo, senti muito orgulho nele.
O meu pai e o dele eram colegas de emprego. A minha mãe era professora e a mãe dele estava em casa. Quando a minha mãe ia a casa da minha avó, ia geralmente visitá-la e sentavam-se as duas à conversa numa espécie de marquise cheia de sol, mulheres jovens e bonitas, a minha mãe muito loura, cabelo pelo ombro, em ondas largas, com vestidos claros, saia rodada, corpo justo, sempre alegre, e a mãe dele com cabelo escuro, levemente ondulado, pouco abaixo da nuca, menos vistosa que a minha, mais silenciosa e discreta.
Quando miúdas, ambas tinham aprendido costura nas férias com a vizinha modista de quem um dia já aqui falei. Como estava em casa, ela mandava vir revistas, a Burda talvez, e viam os modelos, e lembro-me que algumas vezes ela fez vestidos para mim e para a minha mãe. Quando eram as provas íamos lá para cima, para a zona dos quartos. Ela tinha o andar de cima sempre na penumbra, as portadas de madeira pintadas de azul muito claro sempre fechadas. Abria-as para nos vermos ao espelho. Nessas alturas eu separava-me do Tó Manuel. Ele não era autorizado a subir e, como era obediente, não subia. Se fosse ao contrário eu questionaria a ordem, regatearia, tentaria desobedecer, treparia pelo lado de fora, qualquer coisa. Ele não. Ficava sossegado cá em baixo à espera que eu me despachasse. Se calhar ficava a tomar conta do irmão.
Quando eu entrei para o liceu, separámo-nos pois, nessa altura, deixei de ir para casa da minha avó. Ele andava um ano à minha frente e, nessa altura, o liceu tinha edifícios separados para rapazes e para raparigas. Nunca o via. Nessa altura caí de amores por um outro rapaz, um que era filho de uns colegas da minha mãe.
Quando cheguei ao segundo ano, os meus pais receberam um convite para irem comigo receber uns prémios e diplomas. Eu tinha sido a melhor aluna (rapariga) do 1º ano (actual 5º) e também a melhor aluna em termos gerais e não sei se também do 1º ciclo (como se chamava ao conjunto dos dois primeiros anos, actuais 5º e 6º). Não me lembro bem pois aquilo foi muito inesperado para mim, não tinha nada a ideia de que fosse uma aluna por aí além. No entanto, até concluir o liceu, viria a receber vários outros prémios.
Alguns dias depois, a minha mãe veio dar-me uma notícia que, essa sim, me encheu de alegria. O Tó Manuel tinha recebido o prémio Sagres, o prémio para o melhor aluno a nível nacional. E nunca me tinha dito nada, eu nunca tinha percebido que ele fosse tão bom aluno. Nem ele também tinha percebido que eu também fosse boa aluna. Mas ele, pelos vistos, era melhor aluno que eu e isso encheu-me de um orgulho muito grande.
Encontrei-o um dia, num fim de semana, logo a seguir. Falei-lhe nisso, toda contente e toda zangada por ele nunca ter sido capaz de me dizer o que quer que fosse. Ficou corado, que também não sabia antes de receber, que não era nada demais. E eu quis saber pormenores sobre as notas, sobre o que os professores tinham dito mas ele não quis dizer nada, dizia que não havia mais nada para dizer. Sempre reservado e humilde.
Foi sempre bom aluno. Teve notas muito altas até ao fim. Mas nunca teve qualquer ambição a nível profissional, parece que lhe faltava um estímulo, não sei. Foi gerente de um banco numa grande agência quando podia ter sido muito, muito mais. Casou tarde. A mãe dele dizia à minha avó que aquela de quem ele gostava não queria saber dele.
Conheci há tempo a mulher dele. Fiquei muito admirada pois pareceu-me uma mulher de meia idade, ar pesado. (Eu também devo poder ser considerada de meia idade mas parece que não encaixo nisso, sinto-me sempre nova, se calhar é porque não tenho noção da realidade).

Quando me conheceu, a senhora disse-me ‘Até que enfim que a conheço, sempre ouvi falar muito de si’. Fiquei sem saber o que dizer porque ele, ao lado, tímido, parecia-me um homem com muita idade, parecia o pai dele, parecia que o rapazinho inteligente e carinhoso tinha desaparecido, que apenas tinham sobrado os olhos tímidos.
Disse-me a minha mãe no outro dia que tem estado de baixa, com uma depressão, que se calhar se vai reformar. Fez-me muita impressão isso.
Só espero é que ele se lembre também ainda das nossas tardes de imensas horas, onde éramos inocentes, curiosos, e em que o tempo corria devagar, feliz.
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As fotografias foram feitas no fim de semana in heaven com excepção da fotografia dos pássaros na beira de um rio, que foi feita pelo caminho.
A música do início é "You Are The Shepherd" que é cantada por crianças Nkomazi.
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Se ainda vos apetecer continuar um pouco mais na minha companhia, convido-vos a que me visitem também no meu
Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras passam por corredores que parecem labirintos, descem a poços cheios de sustos, sobrem quase até ao céu, e tudo para esperar
aquele que o meu coração ama. Quem me inspirou foi Catarina Nunes de Almeida. A música continua nas mãos de Rostropovich, hoje tocando Camille Saint- Saëns.
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E quero ainda desejar-vos, meus Caros leitores, uma quarta feira muito feliz!