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terça-feira, dezembro 25, 2018

Há muitos anos nasceu uma criança e daí para cá não têm parado de nascer




Não têm parado de nascer -- dir-se-ia que graças a deus [no pun intended] -- tal como antes disso já nasciam. Crianças. E o mundo vai rolando e nós com ele. E não há alegria maior do que a que advém do nascimento de uma criança. Ainda hoje sinto saudades de sentir uma criança a crescer dentro de mim. Ou a sair de dentro de mim. E se há coisa boa na vida é andar com uma criança ao colo ou receber um abracinho apertado e doce de uma criança.


No outro dia, uma jovem lá do escritório, cruzou-se comigo na casa de banho e apontou a barriga: já reparou? Não, não tinha reparado. Mas fiquei tão contente e ela também estava tão contente; e ali ficámos a falar de crianças e ela sempre sorrindo e eu também sorrindo. Coisa boa, uma nova criança. 

Por estes dias, festejamos isso. Quando eu era pequena não festejávamos de véspera. O dia começava de manhã com os presentes que o Menino Jesus tinha deixado no sapatinho e continuava com o almoço em família. E era um dia simples e bom e não tenho ideia de que alguém estivesse cansado e desejando ver o dia pelas costas.


Com o decorrer dos anos a coisa foi-se complicando e tal como a black friday começa muitos dias antes e acaba vários dias depois, assim também o natal. Mal se sai do halloween já se está no natal e o natal já não tem nada a ver com o menino jesus mas com um barrigudo que se mascara e que começou por estar ligado à coca-cola e que agora já ninguém sabe com o que é que tem a ver mas que está por todo o lado, até a trepar por um cordel dourado à porta da minha sala. 


Pois que seja assim. Temos o que merecemos e não tenho de que me queixar. Se quisesse mesmo regressar às origens, em vez de estar aqui no bem-bom, depois de ter estado horas a separar presentes por montinhos e de ter o frigorífico a abarrotar e comida no forno, estaria na big gruta que existe in heaven, rodeada de coelhinhos a bafejarem para me aquecer e a espreitar para o céu a ver se descobria a estrela polar.

Portanto, adiante.


Cu-cu!
Onde está o menino?
Não está cá?
Está, está!

Resolvi ter aqui, neste meu post natalício, crianças, crianças adoráveis como são todas as crianças, e espero que também gostem de olhar para elas. E que sorriam, sintam ou não que têm motivos para isso. Recordemos as brincadeiras inocentes das crianças. Festejemos o momento, festejemos a vida.

Feliz Natal a todos. 

segunda-feira, dezembro 05, 2016

'Ai minha Senhora Maria do Céu...'
- devia eu dizer face à empreitada em que passei a maior parte do meu dia



O menino põe-se a cantar e canta numa língua desconhecida. Parece que canta em grego. Põe emoção na voz, fecha os olhos. Toca guitarra enquanto canta sentado. De vez em quando, engrossa a voz, há tragédia naquelas suas palavras cantadas, requebra e inflecte-a, eleva-a, depois baixa-a. Não sabemos que história está ele a cantar. Quando se levanta, abre um pouco as pernas, põe a cabeça levemente para trás, abre os braços caídos ao longo do corpo, todo ele drama, a voz prolongada preperando-se para o trágico grande final. Aplaudimos. Ele agradece.

Por vontade dele, continuava. Mas os pais levam-no, está na hora de ir para casa, dizem-lhe.

Antes, tinhamos estado sentados no chão a jogar uma espécie de jogo da glória. Ele ri-se, tenta fazer batota e ri-se sempre mesmo quando descoberto, goza como um perdido quando a mim me saem menos pontos no dado, diz que sou lenta, ri. Pelo meio, chega-se a mim, abraça-me, deixa que eu lhe dê uns xi-corações ternos e apertados que hão-de dar-me alento ao coração até ao último dos meus dias. Quando exclamo por qualquer jogada surpreendente, exclama também e diz: 'Ai minha Senhora Maria do Céu!'. Presumo que queira dizer 'ai minha nossa senhora do céu'. Depois cansa-se de jogar, fico apenas eu a jogar com a irmã.  Vai, então, buscar um pequeno escadote de madeira, senta-se a cima e começa a relatar o jogo e relata-o com exaltação, gritando nas vitórias, quase imitando o relato de um jogo de futebol.

O meu filho diz: 'isto na internet tornava-se viral'. Fossemos nós amigos da exposição pública com rosto e assinatura e é certo que se tornaria, sim.


Se alguns de vós me acompanham aqui há muito tempo, lembrar-se-ão de eu referir que este menino ainda bebé-bebé já chilreava que dava gosto. No meio da maior confusão, os outros a brincarem e a falarem e rirem alto e bom som, ele continuava a trinar, quase num despique com os outros três. Começou a falar cedíssimo, tudo muito bem explicado, um vocabulário e uma dicção espantosas. Depois a veia artística. No judo, trata a sisuda instrutora por todas as variantes do nome, levando-a a rir mesmo sem querer. Meigo, meigo, alegre, divertido, um humorista, um comediante. Assim é o pimentinha mais novo, o que tem quatro anos.

Daqui por uns anos se verá se esta sua tendência natural se mantém. É engraçado constatar como cada um traz, dentro de si, de forma tão espontânea, os dons que guiarão a sua existência.

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Estive, salvo o bocado em que os tive cá em casa, desde depois de almoço até à hora de jantar -- e jantei tarde -- a sujeitar-me à tortura a que todos os anos, por esta altura, me submeto: escolher fotografias para oferecer pelo natal. Ofereço-as porque acho que, quem as recebe, talvez goste de ter, em papel, fotografias ou de si próprio ou de momentos que vivemos juntos ou dos que lhes são queridos. Dizem-me que são as únicas fotografias que têm em papel. Por vezes, emolduro algumas e é assim que as ofereço. E não é que não goste de rever momentos tão engraçados, ver como as crianças crescem. Nas festas de anos e natal, juntamente com os meus quatro há, pelo menos, outros tantos. Olho algumas fotografias e só se vê miudagem. Aquilo de que se diz 'uma casa cheia'.

Mas, tantas fotografias eu tiro, que isto me obriga a ver milhares e milhares delas. Chego a um ponto em que já estou esgotada. O meu marido acha que eu sigo métodos anacrónicos. Explico-lhe que não. Diz que exagero em tudo, até nisto. Mas se não passo os olhos por todas as pastas onde escrevi que estão os meninos, qual o critério de escolha? Assim, vejo uma a uma e vou copiando as que me parecem melhores para a pasta Fotos para o Natal 2016. Há pouco, exausta, cheguei ao fim. Contei-as. Passam as quatrocentas.


Agora ainda terei que fazer um novo desbaste. Depos segue-se outro pincel. Uma a uma, decidir a quem a dou: à minha mãe, à minha filha, ao meu filho, ao irmão mais novo da minha nora, ao irmão mais velho da minha nora, aos sogros do meu filho, a este, àquele, àqueloutra, para mim, etc, etc. Geralmente fico com uma de cada. Então, num papel, uma a uma, escrevo quantas. Sempre um exagero, de facto. Uma fortuna, também.

Depois, passar para uma pen. Depois ir à Fnac. Uma a uma, naquelas centenas, mandar imprimir, escrever a quantidade. O meu marido, ao lado, a dizer 'um exagero, sempre a mesma coisa, um exagero'

Depois ir buscar. Uma sacada. A seguir, outro frete. Dos valentes. Uma a uma, ver para quem é. Fazer montes, uma para este, outro para aquela, outro e outro e outro... e uma montanha para mim.

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Tirando isto, também passeei pela beira do rio, fotografei gatos, gaivotas, guinchos, gaivotas, portas pintadas, paredes de pedra trespassadas de raízes, paredes outonais cobertas de vinha virgem. O prazer habitual. Depois almoçámos em casa (pescada fresca cozida acompanhada de batata doce, feijão verde, ovo). E o meu marido pintou uma parede que estava precisada. E fiz uma máquina de roupa e sopa e arrumei o que havia a arrumar. Era para ter colado uma peça que se partiu ao limpar o pó mas ainda não foi desta. E li um bocado da Gorda. Escrita escorreita.

Esta segunda-feira, começo o dia com uma reunião e vou ter uma semana muito cheia e que tem tudo para ser stressante. No entanto, a esta distância, encaro os dias que aí vêm com um distanciamento muito estranho (passe a redundância), parece que não é nada que me diga respeito. Quando os estiver a viver, logo me enervo -- e isto, claro, se for mesmo caso disso.

Entretanto, estou a ver um filme engraçado com a Meryl Streep e o Tommy Lee Jones sobre a forma como alguns casamentos se desconjuntam -- e não é preciso esperar que se passsem os cinquenta anos para que isso aconteça. Chama-se Terapia a Dois e acredito que vê-lo seja útil para alguns casais. Um casamento, seja ele de papel passado ou não, seja ele consumado ou apenas desejado, tem que ser alimentado. Se não houver cumplicidade, partilha de interesses, generosidade, malícia, simpatia, gentileza e etc e tal e sempre tudo passado à prática, não se vai a lado nenhum. Não é preciso esgotarem a paciência um do outro com inquisições por tudo e por nada, muito menos deve ser instalado de vigilância de um sobre o outro. Basta acreditarem que estão melhor juntos do que separados, basta quererem que o outro se sinta bem, basta que saiam das zonas de conforto as vezes que forem necessárias para que, em conjunto, encontrem novos e sempre melhores caminhos. Por aí.

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E pronto. Já chega. Não são horas para me pôr para aqui numa de consultório sentimental até porque sou uma prática, falta-me a teoria para ser uma professora como deve ser. Se me permitem, vou pregar para outra freguesia.

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As fotografias foram feitas na manhã deste domingo.


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domingo, setembro 21, 2014

Os pimentinhas a darem no duro - 'de pequenino se torce o pepino' ou 'o trabalho do menino é pouco mas quem o despreza é louco'


A hora vai avançada mas, antes de me atirar a este, deixem que vos diga que já vou no terceiro. Sou assim: um é pouco para mim, dois está quase lá, mas três é que é mesmo bom. O pior é o sono, senão ainda ia ao quarto.

O que se segue a este tem a ver com os lapsos do láparo que desgoverna a luso-toca. Diz que colaborará com as averiguaçõese que isto, aquilo e o outro, a voz sempre bem colocada, sempre disfarçado de bom menino, sempre, mas o olhinho já lhe vai descaindo, a marca da culpa a começar a pesar-lhe. Não tarda vem outra vez pedir desculpa, como deve andar a mandar os outros fazerem, e como fez, o descarado, na primeira vez que subiu os impostos.

A seguir a esse post, lá mais para baixo, tenho outro artista, isto hoje deu-me com força, e outro pimba: o menino da lágrima a quem roubaram o cravo. Um história lancinante: um cravo raquítico que a custo conseguiu medrar e que era para ser colhido pelo artolas que andou a regá-lo e que, afinal, vai acabar na lapela de um flausino. Ui. O biquinho que o tadinho do menino da lagrimita agora anda a fazer, ui ui, piu piu. Piu.

Mas tudo isto é a seguir a este. Aqui, agora, a conversa é outra. Muito outra. Segue-se, pois, um post verde, despoluido, amigo do ambiente. Nada de gente que só vive bem na piolheira. 


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No esfolar do rabo é que está o complicado. Quase tudo pronto mas parece nunca mais acabar. Refiro-me à casa velha-nova do meu filho. Mas todos ajudam e os pimentinhas não querem outra coisa. Os manos rapazes só pensam em ir para ajudar nas obras da casa do tio. Os filhos do dono da obra nem será tanto pela obra em si mas, sobretudo, por estarem com os primos naquele ambiente, ao ar livre, com muito por onde mexer. Pintam, apanham pedras, levam água para fazer cimento, vão buscar areia. Sentem-se úteis, sentem liberdade de movimentos. 

Este sábado, por sua alta recriação, resolveram fazer um caminho ou um murinho, não sei. O que sei é que fizeram uma cama de areia, assentaram tijolo e, no fim, decoraram-no com laranjas que tinham caído da laranjeira e que antes tinham posto num montinho.

Mas se todos contribuem, trabalham e se ajeitam lá entre eles enquanto os adultos trabalham, tenho que aqui fazer justiça. Há um que se destaca: o ex-bebé. Ainda nem completou os três anos e meio mas já é um homem de trabalho. Não apenas pinta muros, e pinta bem, como depois resolve fazer ele próprio as suas construções. Pouca conversa e muita acção. Temos engenheiro.

Exemplifico com um trabalho desta jornada. Tirei fotografias com o principal autor e fautor ao pé da sua obra, ele entre o tímido e o contente pelos meus elogios. Claro que os outros foram a correr para também ficarem bem no retrato, alegando que também tinham contribuído. É justo.

Aqui não os mostro de frente, orgulhosos, como estão nas fotografias. Mas mostro a obra e mostro-os de costas, atarefados, felizes.


Era difícil mostrar o murinho (ou do caminho?) em toda a sua extensão
sem perder a visibilidade das laranjas pelo que mostro apenas o troço final


A prima na ajuda, trazendo a areia,
sob supervisão do engenheiro, o ex-bebé e ex-Rinaldo


O primo crescido resolveu aproveitar e fazer uma obra de arte a meio da construção,
uma escultura com tijolos e cimento ,
e a prima acompanha de perto a execução da peça


O grande trabalhador equipado a rigor, como sempre atirado ao trabalho


O mais pequeno com o pai, para lá a pé, o carrinho cheio,
para cá, já montado no carrinho que já vinha vazio



Depois dos trabalhos, há lavagem de mãos com a mangueira e sentamo-nos nos degraus da escada que vai do quintal para a cozinha (a casa ainda está impraticável para convívio). Abro a geleira e tiro os iogurtes, as sandes, a broa com chouriço, os sumos. A minha filha trouxe bolos de arroz e menina plim-plim ofereceu o bolo que tinha feito de manhã com o pai, um bolo de chocolate, misto de panqueca e pizza. Quando a tia perguntou, Mas falta aqui qualquer coisa, não...?, o irmão respondeu-lhe: Mas achas que eu sei como é que se faz um bolo? Fiz como ela disse. Ela é a bonequinha mais linda que fez há pouco quatro anos. Não sei se tinha açúcar ou se tinha ovos, eu diria que não mas não sei. Mas os pimentinhas adoraram. Quando me vim embora (para vir tomar banho e depois ir a casa dos meus pais), estavam eles a comer o bolo como se não houvesse amanhã.

Dias felizes.


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Depois disto até me custa relembrar que a seguir há mais. Mas relembro embora com aviso: vão com máscara de oxigénio porque a seguir o ambiente não é lá muito puro: um láparo de má catadura e um piu-piu sonso a quem roubaram uma flor.



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A música é Light Of The World interpretado pelo African Children's Choir 


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo!


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segunda-feira, julho 21, 2014

"Sobre uma carta de Rosa Luxemburgo", uma crónica escrita nessa 'coisa que são as nuvens' por José Tolentino Mendonça no Expresso - ou, neste mundo que não parece nada maravilhoso, que coisa é afinal a felicidade? e o que são os outros em nós?




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Não são de agora os conflitos territoriais que têm por base por base - ou pretexto - questões religiosas. 

Um dos conflitos recorrentes refere-se a um dos mais activos focos de beligerância da actualidade.

Israel, Gaza, mísseis, acordos, cessar-fogos, quebra de acordos, mortos, vinganças, massacres - tudo isso faz parte do nosso quotidiano, pelo menos do quotidiano que apreendemos através da comunicação social.


De vez em quando há uma acalmia mas, vem sempre a provar-se - uma e outra e outra vez - não há um chão de paz que permita que aquela gente se respeite, respeite a vida, preze o futuro.


A violência vai então numa escalada, a sofisticação militar de Israel é gélida e eficaz, a revolta palestiniana cresce com as crianças, a humilhação e a derrota clamam por mais sangue.


O que se tem vindo a passar agora é terrível. Muitos mortos, uma verdadeira carnificina, gente em fuga coberta de sangue, crianças sacrificadas. Quando isto vai neste crescendo, a perplexidade invade-me e interrogo-me, sempre, uma e outra e outra vez, sobre o sentido de tudo isto. Quando a vida perde o valor, luta-se por quê?

Mas não é só ali.

Na Síria o drama continua. Na Ucrânia é o que é, foi agora o que foi e vamos ver no que vai dar

E não falo do Iraque ou de todos os outros países em que a população vive o sobressalto da guerra, da tremenda insegurança, das dificuldades que não se julgariam possíveis em pleno século XXI. Todos os dias, uma e outra e outra vez.

E a fome, as torturas, os saques, as ditaduras. Ou as cheias, a terra a desaparecer sob as águas, e epidemias, e fome. Pudéssemos nós fugir deste mundo que parece que ensandeceu.

E às grandes tragédias somam-se os dramas pessoais, as doenças que colocam o final da vida bem à vista, a dor individual, as irrecuperáveis perdas. Quem atravessa o sofrimento físico, ou assiste à decrepitude do seu corpo ou do corpo de alguém que ama, ou quem perdeu um filho e luta por encontrar um sentido para essa amputação ou para encontrar forças para continuar de pé, centra em si todas as dores do mundo - e todos os outros deverão compreendê-lo e dar-lhe a mão, ajudar no seu amparo. Que ninguém ouse pensar que quem sofre é egoísta por ignorar a guerra, a fome ou a dor alheia. São planos diferentes e todos devem ser respeitados e tidos em atenção.

Face ao que enunciei, é difícil afirmar que este é um mundo maravilhoso.

Mas é.

O Padre Tolentino Mendonça, na sua crónica semanal no Expresso, enquadrada na sua rubrica 'que coisa são as nuvens' oferece aos seus leitores um texto luminoso. Chama-lhe: Sobre uma carta de Rosa Luxemburgo.


Transcrevo uma parte.


Um dos textos mais comovedores que conheço é uma carta de Rosa Luxemburgo escrita pelo Natal a uma amiga, a partir da prisão feminina de Breslavia, poucos meses antes da sua execução. Chegava ao fim esse paradoxal ano de 1917, e poucos arriscavam dizer com segurança para onde era arrastado o mundo de então.

Na verdade, o que faz da sua carta, para citar as palavras de Karl Kraus um 'documento de humanidade e poesia' que deveria ser ensinado às' gerações futuras', são as duas partes seguintes.

Tratava-se do terceiro Natal que a filósofa e sindicalista passava na prisão. Ela procura para si uma árvore de Natal, mas tudo o que que encontra é um arbusto mísero e despojado, que ainda assim transportou para a cela. E isso fê-la interrogar também a 'ébria alegria' que mantinha no meio daquele inferno, essa espécie irredutível de confiança que nela persistia apesar do desconforto e da desolação. E escreve nessa noite:

"Estou aqui estendida, sozinha e em silêncio, enrolada no múltiplo e negro lençol de obscuridade desta prisão em pleno inverno, e contudo o meu coração pulsa de uma alegria interior desconhecida e incompreensível, como se caminhasse sob um sol radioso num prado em flor...'. 


Em momentos assim penso em vós e em quanto me agradaria transmitir-vos a chave deste encantamento, para poderdes ver sempre, e em todas as situações, aquilo que na vida é belo e alegre'.


E quando mais profundamente se pergunta porquê, declara isto: 'Não tenho razão para esta injustificável alegria, nem sei de outro segredo senão a própria vida'.



Mas José Tolentino Mendonça continua ainda:

A última parte da carta não é menos inesquecível. Rosa Luxemburgo assiste à chegada de carroças de mantimentos arrastadas por búfalos capturados na Roménia como um troféu. E, pela primeira vez, repara na dor indizível dos animais. É um choque e uma revelação. Quando se atrave a pedir 'um pouco de compaixão' para as criaturas extenuadas, o cocheiro responde-lhe com violência: 'Nem para os homens há compaixão'. E, à frente dela, castiga mais duramente os búfalos.

O olhar de Rosa Luxemburgo fixa-se, então, no de um deles. O animal sangrava, mas permanecia imóvel, com os olhos mais mansos que ela alguma vez conhecera.

E nesses olhos ela identificou um desamparo semelhante ao de uma criança que tivesse chorado sem que fosse ouvida por longo tempo.

'Era de facto a expressão de uma criança punida duramente sem perceber nada do que lhe está a acontecer, e sem conseguir subtrair-se ao tormento de uma violência brutal. Eu estava diante dele e o animal olhava-me. Soltaram-se em mim lágrimas que eram, afinal, as suas. Pelo irmão mais amado não teria chorado mais dolorosamente do que ali chorei, combalida, sem conseguir afastar-me daquele sofrimento indizível'.

Na empatia que ligava agora aquela mulher a um anónimo animal ferido nascia uma nova forma de resistência à brutalidade e à barbárie. Naquela 'grandiosa guerra que tinha diante dos seus olhos', Rosa Luxemburgo compreendia que uma comunhão entre os seres humanos e as outras criaturas é não apenas possível, mas urgente e necessária.




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A música é What a wonderful World interpretada pelo African Children's Chorus - Playing for Change.

As imagens do cenário de guerra referem-se aos conflitos mais recentes em que tantos inocentes estão a cair sob o fogo inclemente de Israel.



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terça-feira, dezembro 24, 2013

Desabafos, votos, presentes - Véspera de Natal no Um Jeito Manso





Eu podia deixar para mais logo mas temo depois não ter tempo.

Mas antes tenho que ser sincera. Não sou muito de atribuir grandes significados a datas. Pode não parecer mas sou um bocado despegada de rituais e afins.

Não atribuo grande significado ao dia de Natal até porque não sou dada a práticas religiosas (apesar de andar rendida ao Papa Francisco). Mas a quem pertença a famílias de raiz católica é impossível passar ao lado dos festejos. Desde pequena que o Natal é vivido em família, de forma perfeitamente ritualizada e já nem é o significado mas o hábito que faz com que não consiga imaginar o Natal sem luzinhas a piscar, troca de presentes, lautas e barulhentas refeições, visitas familiares, um certo sentimento de aconchego e pertença a um núcleo feito de proximidade e afecto.

Desde há algum tempo que, por vezes, perpassa no semblante de alguns uma névoa de tristeza. Não se fala mas sabemos que é a lembrança dos que no ano anterior ainda cá estavam. Parece que no Natal as ausências são mais dolorosas. Mas sabemos que devemos festejar a presença dos que estão e, por isso, disfarçamos e seguimos em frente.

Nestas alturas em que parece que há quase uma obrigação de todos desejarmos a todos um bom Natal e umas Festas Felizes, lembro-me muito também dos que não têm família ou que têm quase apenas mais uma ou duas pessoas junto a si. Imagino como talvez se sintam postos de fora da alegria que parece assaltar os outros, imagino que talvez pensem que a vida os deixou fora da mesa ruidosa da felicidade.

Penso nessas pessoas e gostava de poder saber como, de alguma forma, compensar ou atenuar alguma solidão que sintam. Gostava de saber inventar palavras para daqui lhas enviar mas temo que parecessem artificiais.

Não o seriam.

Seriam apenas um gesto de afecto e uma palavra de esperança.

Enquanto nos tivermos uns aos outros, mesmo que seja desta forma remota e longínqua, não estaremos sós.

Penso também naqueles de quem o Papa Francisco falou: os que não têm casa. Os mais pobres e mais sozinhos, aqueles que nem o amparo das paredes têm, quanto mais o aconchego da família.

Há pouco, antes de ir ao supermercado, dei uma rápida volta e pé. Depois de uma viagem de centenas de quilómetros, por mais cansada que esteja, preciso mesmo de esticar as pernas, de andar. Chovia, a noite estava muito fria, desagradável. E então reparei que junto a um prédio numa artéria movimentadíssima, encostado a uma caixa da electricidade, estava um monte de qualquer coisa. Olhei e era uma pessoa tapada por cartões e por um cobertor. Fiquei ainda mais gelada. Não estava ali antes. Chegou agora, pelo Natal. Como terá ido ali parar e como escolheu aquele sítio? Uma noite tão fria e tanta chuva e aquela pessoa ali enrolada, tanta gente a passar e nem se dava por ela. Fico tão triste, tão em sofrimento. Posso seguir o meu caminho mas fico ferida por dentro.

E, este ano em especial, lembro-me também de outra coisa. Nem sei como diga para não parecer lamechas. Mas penso tanto nisso que me custa agora não falar. 

Refiro-me àqueles para quem o mar foi, por estes dias, tão traiçoeiro.

Os jovens, meu Deus. Como estarão as famílias? Como foi possível tamanha desgraça? Há pouco ouvia dizer que faltava apenas aparecer um corpo. Que horror. Os filhos de alguém ali, perdidos no meio do mar ou a darem à costa como despojos.

Parece uma coisa impossível. Estavam vestidos de negro, disseram, e que iam calmos quando os viram seguir para a praia perto da uma da manhã.

Cisnes negros derrotados por uma onda amaldiçoada. Que dor tão grande.

Ou os amigos que saíram, animados, para a pesca. Saíram por desporto, confiantes. E aconteceu uma coisa assim, outra onda. E o mar tão frio. Famílias destroçadas, o que deve custar saber como se devem ter sentido tão irremediavelmente desamparados.

Que Natal mais infeliz estas famílias vão ter, que vidas para sempre marcadas. Quanta injustiça nisto, como pode o mar, que é tão belo, fazer uma coisa destas?

E como ficarão também marcados para sempre, órfãos dos amigos, os que sobreviveram, um em cada grupo? Quanta aflição. Não terão Natal este ano. Talvez nunca mais verdadeiramente o tenham.

...

Não devia estar aqui a importunar-vos com estas minhas ideias num dia destes. 

O Natal deve ser vivido em felicidade para quem não tenha infortúnios, dores, doenças, lutos, medos.

Como disse lá em cima, eu deveria talvez guardar para mais logo os meus Votos, talvez me saíssem mais festivos. Mas tenho receio de não ter tempo, tenho tanto que fazer.

Por isso deixo-vos já aqui agora, meus Queridos Leitores, os meus votos de uns dias muito bem vividos, de preferência na companhia dos que mais amam. 

Gostaria de vos dizer que penso em cada um de vós, os que leio com devoção e os que por aqui passam e me deixam comentários ou me escrevem mails e, por isso, cujos nomes conheço, e nos anónimos, imateriais, apenas uma longínqua respiração. Gostaria de poder dirigir uma palavra especial a cada um de vós, mas isso tornar-se-ia fastidioso e, confesso, estou tão cansada que acho que não conseguiria fazê-lo.

Por isso, não levem a mal se vos disser apenas que desejo a todos um Natal vivido no aconchego da família e de quem amam.

E que sintam o prazer de estar vivos.

E que lutem pelo bem de todos. E que nunca desistam dos vossos sonhos. E que tenham esperança.

A vida renasce, é da natureza. Nascer, renascer.


E, numa ordem arbitrária, estes votos cheios de carinho vão para a Maria, para a Maria Clotilde, para a Ana, para a outra Ana, para a Erinha, para a Isabel das Palavras, para a Sol Nascente, para a Maria Eduardo, para a Carlota, para a Isabela, para a Sara, para a Antonieta, para a Leanora, para a Mary, para a Margarida-Guida, para a Margarida-Margarida, para a Margarida-Maggie, para a Sónia, para a Helena, para a a Bárbara Helena, para a Eva, para a Lia, para a Eli, para a Isa, para a Madalena, para a Olinda, para a Maria Luísa, para a Luísa, para a Rita, para a Patrícia, para a Ana Cristina, para a Rosário, para a Teresa-Teté, para a Maria Teresa, para a Teresa-Tita, para a Irene, para a Redonda, para a Lúcia, para a São, para a Alice, para a GL, para a Leonor, para a Ivone, e para a Mariana, para MN, e para o Joaquim, para o João, para o João Cerqueira, para o José, para o Zé, para o jrd, para o P. Rufino, para o dbo, para o Rui, para o Jorge, para o Jorge lá longe, para o Francisco, para o Luís Filipe, para o Domingos, para o Henrique, para o Daniel, para o Tiago, para o para o José Catarino, para o Bartolomeu, para o António, para o Eufrásio, para o Lino, para o Rafael, para o Luís Bento, para o Fernando, para o Luís, para o Francisco, para o Bartolomeu, para o Pedro, e para o outro Pedro, e para o Eduardo, para o André, para o Nuno, para o Patrício, para o Carlos, para o Manuel, e para o Salvador, para o Carlos, para o Puma, para o Edgar, para o Soliplass, para o MCS, para o Cine Povero, para o Anónimo que tantas vezes comenta e tantos links interessantíssimos aqui deixa, e para todos os outros cujos nomes não referi por imperdoável esquecimento ou por desconhecimento.

Quero ainda dizer que a vossa presença aí desse lado é um presente que não tenho como agradecer. E as vossas palavras afectuosas são um abraço que sinto e que me encantam. Bem hajam, meus queridos Leitores.




...

Hoje não vou poder responder individualmente aos comentários de ontem, já passa das 3 da manhã. Com isto de me pôr a escolher imagens e músicas acabo por perder muito tempo e nem sei como me tenho ainda de pé. Mas o meu agradecimento está aqui neste texto. Já respondi a alguns mails e amanhã tentarei responder aos que ainda me faltam.

...

Gostava de conseguir encher-vos de presentes mas logo hoje estou assim, tão cansada. 

Mas o que aqui vos deixo é de gosto. 

> O Poema do Menino Jesus de Fernando Pessoa na voz de Maria Bethania.




> E um vídeo lindíssimo do Cine Povero (Jorge de Sena por Pedro Lamares, música de Michael Nyman) que não se consegue inserir no blogue mas que pode ser visto/ouvido aqui e que deve ser visto até à última maravilhosa imagem.


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As imagens em néon são da fotógrafa Sarah Leal


As imagens das flores em rx são do físico Arie Van't Riet


A primeira música é Do You Hear What I Hear (Christmas music from Africa) pelo African Children's Choir


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Um feliz Natal, meus queridos Leitores!

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

As minhas longas e inocentes tardes com aquele que agora é um homem muito triste


Música, por favor



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O avô dele tinha feito no fundo do quintal, depois da horta, uma pequena cabana. Penso que seria feita de madeira, tábuas. Não tenho ideia que pudesse ser de troncos mas não garanto. Sei que tinha, lá dentro, de cada um dos lados, uma tábua corrida a fazer de banco e era aí que nos sentávamos, ao lado um do outro. A parede do fundo tinha várias tábuas a fazer de prateleiras e aí havia vasos pequenos com flores. Se calhar a ideia do avô era que aquilo fosse uma estufa e nós é que a transformámos na nossa casa. Não sei. 




Havia uma flor de que eu gostava muito, sempre muito viçosa, muito verde, com umas pontas que descaíam. Ele, então, cortava umas pontas para eu levar para dispor no jardim de minha casa. Durante muitos anos essa flor reproduziu-se de vaso em vaso, de canteiro em canteiro. Não sei  como se chama, era uma flor de folhas miúdas, carnudas, e não dava flor, reproduzia-se por propagação. Era conhecida na minha casa como a flor do Tó Manuel. Não sei se ainda existe no jardim da minha mãe, hei-de ver. Há muitos anos levei de casa da minha mãe para a dispor in heaven mas não resistiu lá, as amplitudes térmicas são elevadas, o solo é pedregoso, não era planta para estar ali.

Penso que já uma vez aqui falei destes tempos. Depois da escola e depois de almoçar em casa da minha avó (que era perto da casa dele), eu ia a correr para essa pequena cabana e ele também. Mas ele não ia a correr, ia a andar porque era muito calmo. Sempre foi.

Tinha mais um ano que eu. Era bonito, pele clara e cabelo muito escuro, liso. Era alto, sóbrio, a tender para o tímido. Ou talvez nem fosse muito tímido, se calhar era sobretudo discreto, reservado. Também não me lembro de o ver a rir à gargalhada, acho que apenas sorria.

Eu era o oposto dele, muito faladora, muito alegre, ria muito, facilmente chorava a rir (e, no que se refere a rir, ainda sou assim). Provocava-o muito, desafiava-o. Mas ele nunca se aborrecia comigo. Quanto muito, eu notava que ele ficava sentido.




Andávamos em salas diferentes mas o recreio era conjunto. Se no recreio havia jogos que envolviam quase todos os alunos, como o jardim da celeste, e era chegada a minha vez de escolher um rapaz, eu olhava para ele, olhava, olhava, fazia de conta que o ia escolher e depois, à última hora, escolhia sempre outro.  E via que ele ficava triste, notava que às vezes até corava. Depois, quando íamos para casa, ele ia andando devagarinho e ia olhando para trás a ver se eu vinha, mas não me chamava, não me perguntava se eu ia, nada, apenas ia andando cada vez mais devagar, e eu, de propósito, ficava na conversa, ou parava a apanhar flores ou fazia qualquer outra coisa para me atrasar, fazia-o sofrer, e ele andando cada vez mais devagarinho. Por fim, já a meio caminho, eu dava uma corrida e apanhava-o e zangava-me com ele por não ter esperado por mim, fazia-me de amuada por ele ir andando, deixando-me para trás, sozinha. E ele desculpava-se, envergonhado, queria zangar-se comigo mas não tinha coragem. E íamos naquilo, eu a fazer de conta que estava zangada, ele sentido pela minha injustiça.




Mas depois, quando nos sentávamos tardes inteiras na pequena cabana, todos esses meus jogos desapareciam porque era só ele que ali estava, só eu e ele, e o momento era especial, eu tinha a percepção de que não fazia sentido estragar aqueles instantes tão perfeitos. E ele também não tocava no assunto, sabia que eu era assim, volúvel, provocadora, coquette. Aí conversávamos muito, de tudo.

Eu tinha sempre muitas dúvidas, muita curiosidade, e ele respondia-me como sabia, raciocinávamos ambos em voz alta. Às vezes a minha avó aparecia lá com um prato grande com duas sandes e dois copos de leite. Outras vezes era o avô dele que nos ia levar fruta. A minha avó perguntava ao avô dele, Mas que é que estas almas tanto têm para conversar…?! Horas e horas de conversa…! E riam-se.

Depois do lanche eu tinha que voltar à escola para ir com a professora e os outros meninos apanhar o autocarro. Os meus pais estavam na paragem à minha espera, depois do percurso. Geralmente, para ficar com ele o máximo tempo possível, atrasava-me e tinha que ir a correr, aflita, com medo de não chegar a tempo. A professora zangava-se ‘qual será o dia em que ficas em terra?’ e eu pensava que um dia isso podia mesmo acontecer porque, todos os dias, eu queria estar com ele até ao último instante.




Nunca falávamos nada sobre a escola, a minha curiosidade situava-se sempre para lá dos assuntos que tratávamos na escola. Mas muitas vezes ele sabia mais do que eu ou, quando arbitrava respostas às minhas questões eu sentia que o conhecimento dele estava para lá do meu. Como era mais velho que eu um ano, andava um ano mais adiantado e isso fazia toda a diferença. Eu confiava totalmente no seu saber, nunca senti que ele estivesse a inventar para me impressionar. Quando não sabia, dizia que não sabia mas, passado alguns dias, aparecia já com alguns conhecimentos sobre ao assunto. Talvez perguntasse aos pais ou ao avô ou lesse, não sei. Eu ficava a admirá-lo ainda mais.




Ele tinha um irmão mais pequeno, talvez tivessem uns seis anos de diferença e ambos gostávamos muito dele mas, nessas nossas tardes, o irmão não tinha lugar. Lembro-me de uma vez, num fim de semana, eu estar com os meus pais ao pé dos pais dele, eram amigos desde crianças. E ele vinha ao longe com o irmão pela mão, ele muito alto, muito responsável. E a mãe disse para a minha ‘parece um homenzinho, posso descansar que ele toma muito bem conta do irmão, olhem lá, um homenzinho’. E eu, ao ouvir isso e ao vê-lo, senti muito orgulho nele. 

O meu pai e o dele eram colegas de emprego. A minha mãe era professora e a mãe dele estava em casa. Quando a minha mãe ia a casa da minha avó, ia geralmente visitá-la e sentavam-se as duas à conversa numa espécie de marquise cheia de sol, mulheres jovens e bonitas,  a minha mãe muito loura, cabelo pelo ombro, em ondas largas, com vestidos claros, saia rodada, corpo justo, sempre alegre, e a mãe dele com cabelo escuro, levemente ondulado, pouco abaixo da nuca, menos vistosa que a minha, mais silenciosa e discreta. 

Quando miúdas, ambas tinham aprendido costura nas férias com a vizinha modista de quem um dia já aqui falei. Como estava em casa, ela mandava vir revistas, a Burda talvez, e viam os modelos,  e lembro-me que algumas vezes ela fez vestidos para mim e para a minha mãe. Quando eram as provas íamos lá para cima, para a zona dos quartos. Ela tinha o andar de cima sempre na penumbra, as portadas de madeira pintadas de azul muito claro sempre fechadas. Abria-as para nos vermos ao espelho. Nessas alturas eu separava-me do Tó Manuel. Ele não era autorizado a subir e, como era obediente, não subia. Se fosse ao contrário eu questionaria a ordem, regatearia, tentaria desobedecer, treparia pelo lado de fora, qualquer coisa. Ele não. Ficava sossegado cá em baixo à espera que eu me despachasse. Se calhar ficava a tomar conta do irmão.




Quando eu entrei para o liceu, separámo-nos pois, nessa altura, deixei de ir para casa da minha avó. Ele andava um ano à minha frente e, nessa altura, o liceu tinha edifícios separados para rapazes e para raparigas. Nunca o via. Nessa altura caí de amores por um outro rapaz, um que era filho de uns colegas da minha mãe.

Quando cheguei ao segundo ano, os meus pais receberam um convite para irem comigo receber uns prémios e diplomas. Eu tinha sido a melhor aluna (rapariga) do 1º ano (actual 5º) e também a melhor aluna em termos gerais e não sei se também do 1º ciclo (como se chamava ao conjunto dos dois primeiros anos, actuais 5º e 6º). Não me lembro bem pois aquilo foi muito inesperado para mim, não tinha nada a ideia de que fosse uma aluna por aí além. No entanto, até concluir o liceu, viria a receber vários outros prémios.




Alguns dias depois, a minha mãe veio dar-me uma notícia que, essa sim, me encheu de alegria. O Tó Manuel tinha recebido o prémio Sagres, o prémio para o melhor aluno a nível nacional. E nunca me tinha dito nada, eu nunca tinha percebido que ele fosse tão bom aluno. Nem ele também tinha percebido que eu também fosse boa aluna. Mas ele, pelos vistos, era melhor aluno que eu e isso encheu-me de um orgulho muito grande.

Encontrei-o um dia, num fim de semana, logo a seguir. Falei-lhe nisso, toda contente e toda zangada por ele nunca ter sido capaz de me dizer o que quer que fosse. Ficou corado, que também não sabia antes de receber, que não era nada demais. E eu quis saber pormenores sobre as notas, sobre o que os professores tinham dito mas ele não quis dizer nada, dizia que não havia mais nada para dizer. Sempre reservado e humilde.

Foi sempre bom aluno. Teve notas muito altas até ao fim. Mas nunca teve qualquer ambição a nível profissional, parece que lhe faltava um estímulo, não sei. Foi gerente de um banco numa grande agência quando podia ter sido muito, muito mais. Casou tarde. A mãe dele dizia à minha avó que aquela de quem ele gostava não queria saber dele.

Conheci há tempo a mulher dele. Fiquei muito admirada pois pareceu-me uma mulher de meia idade, ar pesado. (Eu também devo poder ser considerada de meia idade mas parece que não encaixo nisso, sinto-me sempre nova, se calhar é porque não tenho noção da realidade). 




Quando me conheceu, a senhora disse-me ‘Até que enfim que a conheço, sempre ouvi falar muito de si’. Fiquei sem saber o que dizer porque ele, ao lado, tímido, parecia-me um homem com muita idade, parecia o pai dele, parecia que o rapazinho inteligente e carinhoso tinha desaparecido, que apenas tinham sobrado os olhos tímidos.

Disse-me a minha mãe no outro dia que tem estado de baixa, com uma depressão, que se calhar se vai reformar. Fez-me muita impressão isso. 

Só espero é que ele se lembre também ainda das nossas tardes de imensas horas, onde éramos inocentes, curiosos, e em que o tempo corria devagar, feliz. 


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As fotografias foram feitas no fim de semana in heaven com excepção da fotografia dos pássaros na beira de um rio, que foi feita pelo caminho.

A música do início é "You Are The Shepherd" que é cantada por crianças Nkomazi.

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Se ainda vos apetecer continuar um pouco mais na minha companhia, convido-vos a que me visitem também no meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras passam por corredores que parecem labirintos, descem a poços cheios de sustos, sobrem quase até ao céu, e tudo para esperar aquele que o meu coração ama. Quem me inspirou foi Catarina Nunes de Almeida. A música continua nas mãos de Rostropovich, hoje tocando Camille Saint- Saëns.

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E quero ainda desejar-vos, meus Caros leitores, uma quarta feira muito feliz!

domingo, dezembro 23, 2012

Os meus votos de bom Natal para os Leitores de Um Jeito Manso





Como, para grande das pessoas o Natal começa na véspera, temendo que alguns dos meus Leitores já não venham amanhã por estas bandas, quero deixar-vos, a todos, os meus votos de alegria, harmonia, conforto familiar para estes próximos dias.

Assim, e sem qualquer critério na ordem, é a pensar na Maria e na Maria, na Ana e na Ana, na Alice, na Isabel e na Isabel e na Isabel, na Teté, na Teresa, na Teresa e na Teresa, na Olinda, na Antonieta, na Leonor, na Leanora, na Margarida, na Maria Eduardo, na Rita, na Rosa, na Helena, na Clotilde, na Eli, na Rosário, na Luísa, na Ivone, na GL, na Lúcia, no João e no João, no Fernando, no Luís, no Luís Filipe, no Francisco, no Zé, no José, no José e no José, no jrd, no dbo, no António, no Jorge, no Joaquim, no Salvador, no Eufrásio, no Manuel, no Carlos, no Bartolomeu, no P., no Nuno, no Patrício, no André, no Pedro, no Rui, e em todos aqueles cujos nomes não referi ou não sei, que desejo a todos os meus queridos Leitores que, durante estes dias, possam sentir a ternura de um sorriso ou o calor de um abraço.

Se a isso se somarem uns comes e bebes fartos e agradáveis, uma mesa alegre e ruidosa, crianças endiabradas a abrirem presentes, e tudo aquilo a que costumamos associar a ideia de um Natal feliz, tanto melhor.



O nascimento do Menino - Painel de azulejos da Capelinha do Palácio da Cerca em Almada


No entanto, como sei que isso não será possível a todos, para aqueles para quem sei que, por contingências da vida, esta época de Natal é das alturas do ano em que a solidão mais pesa ou que as ausências mais se sentem, eu, não podendo fazer muito mais do que dizer-vos que é para vocês, em especial, que vão estas minhas palavras, desejo que possam sentir, ao ler o que vos estou a escrever, que a amizade pode exprimir-se desta forma, longínqua, sem rosto, mas com o mesmo afecto e atenção.

Que estes dias não sejam tristes ou, pelo menos, não sejam tão tristes como temem, e que (consoante as vossas circunstâncias) pensem que os vossos queridos que vos deixaram estão de longe a sorrir e a olhar por vós, ou, então, que tenham esperança em que melhores dias hão-de vir, dias de saúde, alegria e carinho.

Por mim, o que vos posso dizer é que, na medida das minhas possibilidades, sempre que queiram, estarei aqui para vos ouvir ou acompanhar, tentando descobrir no mais fundo de mim, a palavra mais reconfortante ou esperançosa.



Cristo Rei avistado hoje, ao fim da tarde, a partir dos jardins da Casa da Cerca



E tenhamos todos esperança. Afinal, mesmo quando tudo parece envolto em tristeza, solidão ou escura névoa, quem sabe se algures não se estará já a desenhar um céu límpido, luminoso, cheio de alegrias?


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A música é uma Canção de Natal chamada "Betelehemu" e é interpretada pelo African Children's Choir.

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Recebam o abraço que vos envio com todo o afecto; com toda a sinceridade vos desejo uns dias o mais felizes possível.


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Com os meus sinceros agradecimentos a todos quantos por aqui passaram deixando as suas palavras tão simpáticas, que tanto me tocaram, e porque da troca de afectos se faz o Natal, puxo para o corpo da mensagem essas palavras:

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 Anónimo disse...

Um Post que muito apreciei, onde ficou todo o carinho e simpatia que sente por quem a segue e lê. 
Por aqui já há muita algazarra, a pensar no dia de amanhã e depois, 25. Estaremos fora, ainda que perto (no nevoeiro e humidade de Sintra), com a família de minha Mulher (este ano calha assim, alternamos).
E tentaremos esquecer, ainda que por apenas breves dias, a canalhada que nos está ser “cozinhada”, lá em S.Bento.
Um cordial e afectuoso abraço virtuais, uma feliz ceia de Natal num ambiente muito especial aí em família, são os meus votos sinceros,
P.Rufino


 A Matéria dos Livros disse...

Muito obrigada pelos votos e pelo afecto das suas palavras. Já me emocionei!

Um abraço grande, para si e para a sua família. Que a vida vos sorria sempre!


 Helena Sacadura Cabral disse...

Jeitinho Manso
Um Natal em paz e com o amor dos seus, são os meus votos. Afinal o afecto é o mais importante na vida de todos nós!


 Anónimo disse...

Beijinho repenicado!!!
Ana


 MCP disse...

Amiga,
Muitas vezes, ao longo do ano, me fez rir, hoje comoveu-me com o seu agradecimento.

Mais uma vez obrigada, pelas suas palavras carinhosas.

Seja Feliz neste Natal, na companhia de toda a família.

Beijo Grande.

MCP



 JOAQUIM CASTILHO disse...

Mais uma vez obrigado pelo seu Blog, desejo-lhe um manso Natal e um Novo Ano descompassado 
JOAQUIM CASTILHO


 Maria Eduardo disse...

Agradeço-lhe imenso os seus votos de Bom Natal assim como as suas palavras de afecto, ternura e amizade expressas neste seu post e destinadas a todos os seus Leitores, não esquecendo nenhum, nem mesmo os anónimos. 
Desejo-lhe igualmente um Santo e Feliz Natal, com muita Alegria, Paz e muito Amor, na companhia de toda a sua família.
Um grande beijinho de amizade,
maria eduardo


 Olinda Melo disse...

Olá, UJM

Uma bela mensagem. Gostei de ver o meu nome entre os destinatários destas palavras que me vieram cair direitinhas no coração.

Também a si lhe desejo um Natal cheio de coisas lindas e doces no meio da traquinice e correrias dos seus netos. :)

Muito obrigada pela amizade e disponibilidade.

Beijos

Olinda



 Traçados sobre nós disse...

Alegria, amor e poesia

Que seja alegria
Este tempo,
Amor e empatia…

E magia
Para novo tempo,
Poesia!

José Rodrigues Dias, 2012-12-23


 Alice Alfazema disse...

Olá, UJM!

Agradeço-lhe os votos e as suas palavras ao longo do ano. É uma forma de partilha que se traduz em emoções que muitas vezes não se fazem expressar, mas que existem, afinal o mundo virtual não está muito longe do real. 

Desejo-lhe tudo de bom, muita alegria, saúde e criatividade.

Um grande abraço, desta sua leitora, Alice rodeada de Alfazema!


 ERA UMA VEZ disse...

Para a minha querida Jeitinho e todos os que passam por aqui neste lugar encantado, aí vai o presépio deste ano
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No meu presépio
cabe tudo
o Menino, a Senhora e o seu esposo José
os pastores, a vaca o burro, as ovelhas
e todos os bichos da arca de Noé

Pois é
e também o desencanto e os amores
o musgo
o lago feito de espelhos
a saúde
a vontade de escrever
o grande adeus deste ano
o sorrido dourado das mais pequenas
os carreiros e os moinhos
a alegria de se mulher avó e mãe
os velhos e novos amigos
e cabe(a custo)
a saudade de tantos outros Natais...

No meu presépio
cabe o amor a nostalgia
(tanto perdão)
alguma esperança
e o pão nosso de cada dia

Cabe ainda com jeitinho
UM GRANDE ABRAÇO PRA SI
e tanta coisa
tanta coisa mais...


 margarida disse...

Ah-ham..., posso aproveitar a época de maior tolerância e dizer uma coisa?...
...eu não acho a senhora Merkel gorda e gosto da fofa, estilosa e divertida Popota!
Pronto.
Feliz Natal para todos os elementos da família made in heaven!
:)
'jinhos.


 Mar Arável disse...

Tudo pelo melhor



 Anónimo disse...

É um privilégio fazer parte do enorme grupo de seguidores do UJM.
A riqueza deste blogue deve-se não só ao talento e criatividade da sua autora, mas também à diversidade dos seus comentadores.

Obrigada UJM por todos os bons momentos que me proporcionou ao longo deste ano!

Para si, jeitinho, bem como para todos os leitores do blogue, os meus sinceros votos de um feliz natal, com muita saúde, paz e alegria!

Um enorme abraço para todos!

Antonieta



rosaamarela disse...

Este post diz muito de si.

É aos domingos e feriados de manhã que ponho em dia os post mais largos... assim o seu faz-me normalmente companhia, o que agradeço.

Não sei se volto aqui antes do 31 de dezembro, aproveito para lhe desejar um BOM ANO 2013, FELICIDADES, IMAGINAÇÃO e ALEGRIA para ver crescer os seus netos.

abraço


 Tété disse...

Obrigada pelas suas palavras de amizade deixadas nos meus cantinhos.
Que tenha tido um feliz Natal junto dos seus familiares,em paz, saude e alegria.
Grande beijinho




 Anónimo disse...


Muito Obrigada Jeitinho pelas suas palavras afectuosas e felizes, que tantas vezes amenizam os meus dias.

Escreve com o coração!!

Excelente Ano 2013 é o que lhe desejo bem como a toda a sua linda família. 

Um abraço forte



 GL disse...

Que dizer para além de um sincero obrigada?
Fazer parte deste grupo é mais que um prazer, é uma bênção.

Tudo de bom para si, cara UJM. 
Obrigada pelos belos momentos que nos proporciona.





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Muito obrigada a todos!