Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, março 09, 2012

Eu e a pintura (e mais alguns pintores que me acompanham: Amadeo Souza Cardoso, Mark Rothko, Max Ernst, Paul Klee, Georgia O'Keeffe e, de novo, Paula Rego) e Luis Barragán, o arquitecto mexicano. E a música de Out of Africa (os grandes espaços!) e o Ballet de Zurique


Música, por favor

Banda sonora de África Minha

Quando não tinha este entretenimento dos blogues, ocupava o meu tempo à noite (noite dentro) fazendo Tapetes de Arraiolos, lendo ou, ao fim de semana, pintando. Antes já me tinha dedicado ao tricot, fazendo casacos e camisolas para a família, ao crochet fazendo colchas e toalhas, aos bordados bordando à mão livre desenhos que inventava. Também houve uma altura em que aqui em casa se fazia fotografia, revelando, ampliando, uma  actividade alquímica maravilhosa, coisa que decorria num ambiente de mistério e magia, quase às escuras, manuseando o papel, que se mergulhava em líquidos especiais, com umas grandes pinças de madeira com pontas de borracha.

Agora, com isto dos blogues, como não consigo ser comedida em quase nada do que faço, e, portanto, escrevo imenso, e faço pesquisas enquanto escrevo, acabo por consumir um tempo tal que não dá para poder continuar a fazer quase nenhuma das actividades que acima referi.

Provavelmente um dia destes vou ter que interromper isto dos blogues pois já estou com algumas saudades das outras coisas. 

Par de fantasia da Disney segundo Paula Rego - então não é uma mulher
com um extraordinário sentido de humor...? Reparem nos  fantásticos pormenores. Eu adoro! 

Uma actividade que me motiva especialmente é pintar. Comecei tardiamente. Sempre tive paixão por pintura, ou melhor, por ver pintura, e o meu filho (vítima em criança, tal como a irmã, das nossas regulares incursões por tudo o que era museu e exposição) uma vez, há uma meia dúzia de anos,  resolveu oferecer-me telas e tintas. 

Comecei por preferir pintar antes em papel que era um suporte mais barato pois achava que só ia fazer desenhos pouco mais que infantis (ou nem isso) e dava-me pena estragar as telas. Quando se veneram os artistas, acha-se que até é falta de respeito a gente fazer incursões assim, à toa, ‘armada em pintora’. 

Foi, portanto, absolutamente sem pretensões que me aventurei. Ir tirar daqueles cursos de pintura para principiantes e amadores estava fora de questão. Pintar para mim tem que ser uma descoberta – e sei que é uma estupidez, pois aprender técnicas seja do que for nunca fez mal a ninguém (mas sou autodidacta por natureza, nos Arraiolos, por exemplo, e em quase tudo o resto) ; é que, para mim, estes entretenimentos só fazem sentido se forem à solta, sem regras, sem preceitos, puro prazer da aventura, da ousadia.

E então iniciei o meu percurso.

Amadeo Souza Cardoso - Saut du Lapin. A leveza da cor em suave movimento


Amedeo Modigliane - Jeanne Hébuterne, a mulher que morreu de amor

Na pintura, como ‘consumidora’, prefiro a arte abstracta, ou figurativa se não for muito fiel à realidade. Não aprecio as pinturas que são fiéis reproduções da realidade (pelo menos da realidade vista de forma como toda a gente a vê; isso parece-me banal, não me suscita interesse). Uma paisagem tal e qual, uma jarra de flores tal e qual, a coisas assim não acho piada nenhuma. Tem que haver algo de imprevisto, de inusitado, de desconforme, para me despertar interesse.

Pelo contrário, pinturas sem qualquer significado explícito, sem intenções, cativam-me de uma forma quase inexplicável. 

Mark Rothko - Violet, green and red. A quietude ou inquitetude,
nem sei, das manchas de cor de Rothko, iluminadas ou escurecidas, para mim
 estão muito perto do que penso como o sentido da religiosidade 


Como se pode ficar absorta em frente de um Rothko, quase envolvida, como se se estivesse a ver qualquer coisa de complexo quando se trata apenas de manchas de cor, aparentemente de simples execução e desprovidas de sentido? Pois não sei mas a verdade é que me fascina, fico rendida, não me apetece sair da frente.

Max Ernst - At the first clear word
Incompreensível? Talvez. Mas não são as coisas inesperadas que nos fazem parar?

Mas também os impressionistas, os expressionistas ou os que não se encaixam em lado nenhum. Pintores que sejam capazes de se desligar da realidade quotidiana e transpor para uma superfície qualquer coisa que não seja nada que não cor, luz, movimento, forma ou sombra, são os que mais me interessam. Não se explica, acho eu. É simplesmente assim.

Paul Klee - Head of a Man. A graça imprevista, o espanto, a ironia e a quase doçura da cor
- o que eu gosto destas cores

É pois natural que, ao pintar, me puxasse para coisas assim, indefinidas, coloridas, de uma espontaneidade quase infantil. 

E assim, aos poucos, fui ganhando à vontade, fui ganhando o gosto. Tal como quando escrevo, em que no minuto antes não sei o que vou escrever, também assim é quando pinto. Olho para a tela, pego num pincel, e começo a pintar. É uma sensação de liberdade imensa. E começam a surgir cores e mais cores. Uso muito o encarnado e o amarelo e as diversas gradações da mistura de uma com a outra.

Ao princípio, por mais que tentasse libertar-me de tudo, ainda tinha a preocupação de fazer uma flor que parecesse uma flor convencional, ou um corpo que fosse quase um retrato, um risco que fosse direito. Mas não queria ter essa preocupação, ela era involuntária. No entanto, por mais que me forçasse a fazer coisas que não se parecessem com nada a não ser com o que surgisse, involuntariamente, na tela, não o conseguia. A abstracção é uma coisa muito difícil de se atingir. Estamos, sem dar por isso, totalmente reféns do que conhecemos, do que é igual para toda a gente, do banal, em suma.

Georgia o'Keeffe - From the lake. O sereníssimo movimento das cores, uma ondulação perfeita.


Ajudava-me muito nessas alturas em que queria pintar livre de ortodoxias, ler entrevistas feitas a escritores ou pintores, perceber os mecanismos que regem as mentes livres, ou ver livros sobre obras de arquitectura. Foi importante para mim confirmar que, a maior parte das vezes, se parte de um acaso, e que os pintores se divertem a ouvir as explicações que os outros atribuem às suas obras.

Houve uma altura que tomei contacto com a obra do arquitecto mexicano Luis Barragán. 

Foi um encantamento. As cores quentes, os jogos de luz e sombra, muros e escadas e recantos e pequenas superfícies de água - tudo aquilo me deixou impressionada. 

Luis Barragán - Capela Tlalpan

Vi uma capela que ele concebeu, as janelas por onde entrava uma luz amarela, quente, um crucifixo simples de uma dignidade muito simples, e fiquei encantada. Durante algum tempo pintei capelas, ou apenas janelas e cruxifixos, paredes coloridas. Nessas fotografias apareciam frequentemente freiras ajoelhadas ou sentadas, em oração, e aquela pequena mancha de preto e branco no meio daquelo espaço de luz quente fascinou-me. 

Luis Barragán - Convento das Irmãs Capuchinhas

Essas pequenas freiras aparecem em muitos quadros que pintei nessa altura. Mas, aos poucos, fui conseguindo obter uma liberdade ainda maior, desligada de toda as figuras habituais. E então eu era incrivelmente feliz apenas a pintar, cores, texturas, brilhos, formas injustificáveis.

Vocês que me estão a ler devem pensar ‘Que grande pancada!’ e se calhar é. Nem tenho qualquer preocupação em relação ao valor daquilo que pinto. Mas o que é o valor? É uma coisa tão subjectiva. 

E, para mim, o prazer não está em contemplar aquilo que fiz - o prazer está no próprio acto de pintar, na liberdade total de escolher cores, de criar texturas sem querer saber para quê, no esforço por fazer aparecer ali uma nesga de luz e não saber o que é aquilo ali, em criar profundidade num objecto - sem querer, sequer, perceber que objecto será aquele.

Mas é uma sensação tão boa. Que saudades que eu tenho. 

Houve uma altura em que me dava para pintar cidades, prédios, torres, igrejas no meio de prédios, viadutos, enormes viadutos que cruzavam a paisagem, que se cruzavam entre si no meio de prédios, monumentos estranhos, enormes, e antenas de feitios imprevistos. Quando há pouco tempo fui a Génova, entrando pela estrada do Mediterrâneo, nem queria acreditar: era quase como as cidades que eu pintava. Fiquei deslumbrada. Amei Génova. Uma vida, um bulício, e viadutos que vêm lá de cima e se cruzam nos ares com outros viadutos e casas e mais casas. 

Noutra altura, deu-me para pintar varandas em casas desordenadas, tudo às cores, gradeamentos incertos, flores abstractas, janelas de diferentes tamanhos e muitas, muitas cores. Quando o meu filho foi à Argentina e me mostrou as fotografias do Bairro La Boca, fiquei também admiradíssima. Parecia que eu tinha andado a pintar aquele bairro e, no entanto, nunca o tinha visto.

Mas o que mais gosto de pintar é o nada, o nada cheio de cor e luz, ou o movimento do nada entre superfícies maceradas pelo tempo, ou as sombras orgânicas e aleatórias desenhadas pela luz sobre bocados de nada.

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E, para terminar, a dança que eu, noutra encarnação, devo ter sido uma danseuse.

Ballet de Zurique

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No Ginjal hoje temos Inês Fonseca Santos com mais uma das suas Coisas. Acompanha com Mahler.

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E tenham, meus caros, uma belíssima sexta feira. Divirtam-se!