Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, outubro 17, 2018

Me too...?
[Sedução, assédio e outras cenas]




Quando se trabalha uma vida inteira em empresas grandes, vê-se de tudo. De tudo. Mas agora menos. Agora o pessoal está todo muito comportado, muito normalizado, não há gente a dizer inconveniências, quase não se vê pulada de cerca, tropelia de bradar aos céus, desafio real. Mas épocas houve em que sim e eu vivi-as. Directores e secretárias, doutores e engenheiros e jovens estagiárias. Tantos, tantos casos. Vi de perto. Acompanhei, aconselhei, partilhei confidências. Anos e anos de vida entre homens e mulheres, chefes e chefiados. 

E nunca, nunca, nunca soube de qualquer caso de assédio de chefe sobre chefiada, de homem sobre mulher. Sedução, sim, muitas vezes. Flirts, sim, muitas vezes. Casos, sim, muitos.

Não juro que não tenha havido: digo apenas a verdade, que nunca deles soube.

Nem sempre a sedução era recíproca e aí a coisa morria ali. Nem sempre a sedução escondia amor e, aí, os casos não duravam muito. Por vezes, a sedução transportava a semente do amor e, aí, depois de dúvidas e sofrimento, o casinho transformava-se em caso sério.

O meu melhor amigo teve um caso com a minha secretária e agora vive com ela. Não se divorciou da mulher e agora passam as festas em alegre comunhão pois nunca deixou de gostar dela e apenas se separou porque a mulher pôs os pés à parede: escolhe com quem queres viver, cm as duas ao mesmo tempo é que não.

Outro colega, teve um caso e depois casou-se com a secretária, uns trinta anos mais nova, uma vampe de voz grossa que morria de ciúmes dele. Depois morreu ele ela transformou-se numa improvável e aparatosa viúva.

Mil casos. Outro foi visto a sair do gabinete, atrás da secretária e ainda a fechar o fecho das calças. 


Outra, uma elegância de fazer parar o trânsito, que entrou para estagiar comigo e depois entrou para o quadro, teve casos com vários, levando-os para a casa onde já vivia com o namorado e, quando se casou, convidou-os a todos, a eles e às respectivas mulheres.

Elas derretiam-se. Ter um caso com um director era uma emoção. Atiravam-se a eles à descarada. Eu pasmava com o descaramento. E eles gostavam, claro. 

Havia um, uma força da natureza, teve casos com não se sabe quantas. Diziam: 'até com a timorense'. Era uma mulher muito baixa, muito gorda, muito feia. Afiançavam que sim, que até com ela. Quando morreu, prematuramente, a igreja estava repleta. Todas elas lá estavam. Junto à urna a mulher chorava inconsolavelmente. 

Ainda recentemente, uma jovem, muito bonita e muito casada, quando tinha reuniões com o chefe, um homem pouco mais velho e igualmente muito casado,  aparecia vestida de forma acentuadamente provocante. As colegas faziam reparo ao que ela descontraidamente dizia: 'Então, tenho que fazer pela vida'. 

Outra, vistosa a ponto de ser tratada por 'avião', quando tem reuniões com alguém que ela acha influente, aparece vestida como se fosse uma Bond Girl. Presumo que os homens nem saibam como desviar os olhos. Até eu, se a tenho por perto nesses dias, sem querer, dou por mim a reparar naquele avultado despropósito. 

Que há homens sabujos que tentam aproveitar-se de mulheres indefesas não duvido. Mas há mulheres que igualmente tentam aproveitar-se. Há homens que se insinuam tal com há mulheres que se insinuam. 

Lembro-me de uma colega que tive no início da minha vida profissional. Não era nem muito bonita nem especialmente simpática. Mas era desbragada, desinibida e divertida, por vezes até em excesso. Atirava-se de forma ostensiva ao chefe, um totó, tímido, menino da mamã apesar de ter quarentas e tais. Quanto mais o via atrapalhado mas ela se atirava. Uma vez, de manhã, apareceu com ar apreensivo, que não sabia como devia agir porque, agora que o tinha conseguido levar para a cama, achava que ficava esquisito ele ser chefe dela. E, de facto, a partir daí, discutia com ele, embirrava com o desgraçado. Ao fim de algum tempo, depois de muito atentar o juízo ao pobre coitado, foi-se embora, resolveu ir viajar.

E comigo?

Tenho trabalhado, ao longo de anos, no meio de homens. E posso aqui jurar a pés juntos que nunca nenhum tentou assediar-me. Zero. É que nem consigo imaginar que algum tentasse pisar o risco. Há linhas encarnadas que não podem ser pisadas -- e há que deixar bem claro onde é que elas estão. Piadas, brejeirices, graças, isso sim. Coisas para rir. Inocentes, bem humoradas. Nada mais que isso.

Sempre tive grandes amigos, homens, sempre os ouvi conversar com grande à vontade. Nunca lhes vi tiques de assediadores. Nem comigo nem com outras pessoas. E não tenho vivido em ghetos nem as empresas onde trabalhei eram melhores que outras.

Por isso, se me reportar à minha experiência pessoal e ao que testemunhei, o que posso dizer é que nem todos os homens são demónios nem todas as mulheres santas. Nem há ninguém completamente demónio ou completamente santo. Há de tudo, penso que em iguais proporções. 

O movimento #MeToo a mim pouco me diz. Tenho para mim que por cada influente-assediador há também alguém que tentou aproveitar-se da situação, muitas vezes tentando obter vantagem, outras vezes apenas porque o poder é afrodisíaco e dá vontade de provar.

Mas, a haver mesmo assédio -- algum tarado ou tarada, algum doente, insistente, incomodativo/a, mal educado/a, badalhoco/a, alguém que não perceba que não vai ser retribuído e insista nas investidas -- então, sim, há que denunciar. Sem medo. Ou dar um par de estalos.


PS: Não estou a falar de violadores. Violação é violação e, a ser mesmo violação (ie, relação sexual não consentida), é crime e, aí, o caso é sério, não sujeito a funfuns ou gaitinhas.

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E, aos que chegaram agora: aceitem o convite e desçam até ao post seguinte caso queiram espreitar a minha casa.

terça-feira, outubro 16, 2018

Manuela Moura Guedes, uma procuradora que está a tornar a SIC uma bandalheira.
Do caraças também a zaragata entre a Raquel Varela e a Isabel Moreira nos Prós e Contras em torno do #MeToo.
E até lá vi um artista a insinuar que quando quero dar um beijinho a um dos meus pimentinhas estou a assediá-lo e a abrir a porta a futuras violências domésticas.
Foge. A televisão está a tornar-se um verdadeiro manicómio.


Isto, depois dos flamingos, é dose. Mas acho que tem que ser. Eu não queria. Mas sinto que é uma questão de dever. É que estava eu escrevendo sobre aqueles passarinhos cor-de-rosa armados em bailarinas de can-can de perninha de canivete e, na televisão, um pesadelo.

Já antes, ao jantar, querendo paz e sossego, sem querer, fomos dar com uma procuradora a fingir, uma jararaca armada em populista, pré-candidata a qualquer coisa. E atenção ao sinónimo de jararaca porque isto não foi metáfora, não, foi mesmo alerta. Já avisei antes: quando se traz um ovo de serpente para o ninho e se aceita chocá-lo é só esperar a hora em que o bicho vai partir a casca e desatar a sair por aí espalhando veneno, mordendo incautos, fazendo vítimas.

Foi uma luta, incluindo comigo mesma. Queria perceber a dimensão da porcaria que estava a ser aquele espaço de comentário mas, por outro, fui incapaz de suportar tão nauseabundo espectáculo. Não se consegue ver uma coisa assim: é mau demais. Não são apenas os trejeitos, a desbragada desbocagem, os olhares de doninha matreira: é o linguajar, o querer ter a fala do povo, é o avacalhamento da análise política. Se daqui por algum tempo se apresentar a votos, vai ter votos. Haverá sempre gente ignorante que vai achar que ela é frontal, que não tem medo, que vai pôr os safados na linha. E, sabido é, gente ignorante não sabe votar, só sabe é dar tiro no pé. A base eleitoral dos populistas é a gente que eles vão 'fornicar' em primeiro lugar. Cordeiros inocentes.

Vejo o ar apatetado do Rodrigo Guedes de Carvalho e tenho pena. Aposto o que quiserem em como deve interrogar-se mil vezes se tem mesmo que aturar aquilo. Estar ali a fazer o triste número de compère com aquela mulherzinha mal informada e, do que se percebe, mal formada é coisa que uma pessoa decente como o Rodrigo não deveria ser obrigada a fazer. Se alguém da concorrência quer ir buscá-lo é agora a altura certa. Estar ali, no jornal da noite, a dar palco a uma pessoa como a Moura Guedes suja qualquer carreira pelo que acredito que ele esteja mais do que disponível para se mudar para ambientes menos poluídos.

A SIC acha que contratando gentinha como a que tem vindo a contratar -- gente que diz mal gratuitamente de tudo, mesmo das coisas boas, gente que manipula, distorce, 'abandalha' a conversa por tudo e por nada -- vai ganhar audiências, mas daqui aviso: engana-se. Para bandalheiras já há outros canais e, mal por mal, quem gosta mesmo de bocas javardolas, prefere atascar-se na lama a sério. É que, parecendo que não, ter ali o Rodrigo Guedes de Carvalho de ar acabrunhado ainda nos faz perceber que aquilo ainda não bateu completamente no fundo e ainda nos dá alguma esperança que ele, em directo, um dia ainda se levante, atire com os papéis ao chão (os papéis ou o iPad) e diga alto e bom som: 'Bardamerda para o populismo'.

Não consegui ver toda a intervenção da dita procuradora. Não aguentámos. Aquilo é mesmo abaixo da linha de água, aquilo é mesmo uma vergonha.

E, tendo feito zapping à Bocas Moura Guedes, eis que, passado um bocado, chego à sala e dou com um duelo de titãzitas: Raquel Varela e Isabel Moreira em animada zaragata por causa do #MeToo. 

Na assistência, uma criatura do sexo masculino de longa e lisa cabeleira, óculos redondinhos e ar a atirar para o alucinado saíu-se com uma de que a violência começa logo com a família a fazer com que as crianças sejam vergadas a ponto de darem beijinhos às avós. Se estivesse ao pé dele dava-lhe logo um puxão de cabelos. Criatura mais doida. Ou teve uma avó com bigode à escovinha e verruga cabeluda cujos beijos o deixaram traumatizado até hoje ou foi assediado por alguma velha que lhe fazia lembrar a avó. Só pode. 

No balcão, uma senhora loura, vestida de branco e uma rosa encarnada e espumante ao peito, mostrou-se logo insurgida. Béu, béu, não sei quê. Não sei quem era nem ao que ia mas, pelo ar e pelo tom de voz, palpita-me que seja do movimento Pró-Vida. Se bem que não sei o que é que o Pró-Vida tem a ver com o MeToo. Na volta são movimentos rivais e aquilo ali era mas era um campeonato.

No meio disto a Isabel Moreira, irritada com a Varela, já mal escondia a raivinha estrepitosa que subia dentro dela. E a Raquel Varela, com aquela pose superior, mal disfarçando que dentro dela existe uma feroz fräulein, uma dominatrix de bota de tacão e chicote na mão, levantava o queixo e lançava farpas venenosas às virgens ofendidas encabeçadas pela Moreira.

Não sei quem ganhou porque fugi dali a sete pés. 

No meio daquela luta de galinhas -- rapaz de longa melena incluído -- não faço ideia quem ganhou nem sei bem qual a causa que aquelas ali defendiam. Penso que a Raquel é mais da linha ajoelhou tem que rezar e a Moreira é mais na base do querido foi tão bom até aqui mas agora já chega, faz favor de sair

Também estava lá um senhor com alguma idade e uns papos nos olhos que percebi que devia ser psiquiatra e que, do que vi, atirou algumas ao lado. Mas, lá está, no meio daquela confusão, não sei se a ideia não era mesmo atirar bolas para o pinhal. Só sei que, às tantas, um jovem, não sei se cientista, mostrou umas folhas, uma por cada assediador: um cientista rodeado de mulheres que me pareceu que tinham pouca roupa e um glaciar ou nem sei bem o quê que até mudou de nome para evitar conotações assediantes. Parece que o padrinho que lhe tinha dado o nome tinha tentado meter o bedelho onde não devia. 

Uma maluqueira pegada.

Também reparei na Fátima Campos Ferreira: estava atónita e sem conseguir ter mão naquele cri-cri todo que para ali ia. Dá para perceber. Eu ainda tinha um comando para fazer zapping mas ela, coitada, teve que gramar aquele descabelamento até ao fim. 

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Salvou-me a noite o Zé de Abreu. Anda a dar um belo abre-olhos à tonta da Regina Duarte -- que deve estar toldada das ideias para apoiar o palhaço Bolsonaro -- e não se deixa papar pela safada da Carola e pelo inútil do Remy. 

E disse.

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E queiram deslizar e ir de visita até a um exército de flamands roses. Uns verdadeiros galãs que sabem ter graça na forma como se exibem. 

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sexta-feira, outubro 05, 2018

CR7 - O início da descida aos infernos?


Nisto do Cristiano Ronaldo com Kathryn Mayorga há várias coisas que me incomodam, muitas, e nem vou aqui pôr-me a enumerá-las. Li os artigos do Der Spiegel e fiquei com uma ideia diferente da que tinha ao ouvir as notícias resumidas das televisões e as gordas dos jornais. Tenho agora a ideia de que pode vir por aí uma descida aos infernos para o melhor do mundo, o nosso CR7. 

O ter sido retirado da homepage de um reputado site, as preocupações manifestadas pela Nike e pela organização Save the Children são talvez o mote do que está para vir. 

O mundo do mediatismo (em especial, do mediatismo como fora de negócio) é perverso, pouco contemporizador, pouco paciente, muito ingrato. Facilmente se predispõem a pagar milhões e, com a mesma facilidade, de um dia para o outro, se determinam a retirá-los. Os contratos acautelam situações como as que Cristiano Ronaldo está a viver. Com sérias acusações de violação e pagamento pelo silêncio após a alegada vítima ter apresentado queixa na justiça, CR7 não apenas vê a sua imagem afectada por pesados danos reputacionais como a sua carreira profissional enfrenta sérios riscos. CR7 pode, muito rapidamente, deixar de ser um activo apetecível para se tornar um activo tóxico. A sua não integração na lista dos seleccionados para os próximos jogos da Selecção é a parte mais visível do que pode estar para vir. Se acontecer o pedido de extradição, Cristiano Ronaldo pode, até, não poder viajar para não correr o risco de ser preso e levado a um tribunal onde o crime de violação pode implicar, até, a pena de prisão perpétua. Ora a vida de um jogador de uma equipa como a Juventus é feita de viagens.

Mas não é só o risco de perder contratos publicitários milionaríssimos ou de ver a sua carreira futobolística sofrer um sério revés. Há riscos maiores. Não deve ter sido apenas Kathryn Mayorga que participou em farras com o jovem que se sentia dono do mundo, namorando com jovens modelos internacionais, frequentando o jetset, divertindo-se em bares, discotecas, iates, hotéis e deixando à solta o seu 1% em que não era um bom rapaz (vide artigo linkado). Imaginemos que pisou a linha vermelha mais vezes. Imaginemos que, se isso aconteceu, aparecem mais queixosas. Haver uma queixa ainda pode haver e quem (não tendo lido o artigo e admirando-o incondicionalmente, ponha as mãos no fogo por ele) ache que Kathryn é uma oportunista à procura de fama e de dinheiro fácil. Mas começar-se-á a vacilar se começarem a aparecer mais queixas. Aí a coisa pode tornar-se deveras mais complicada.

E nem vou imaginar o que as mulheres que deram à luz os três primeiros filhos de Ronaldo -- mulheres de quem nunca se ouviu nada -- podem lembrar-se de fazer. Nós não sabemos quem elas são mas acredito que elas saibam quem é o pai dos filhos e acompanhem o crescimento das crianças pelas revistas. Portanto, nunca se sabe o que lhes pode passar pela cabeça.

Tudo estará bem blindado, com clausulados à prova de bala. Cristiano Ronaldo paga bem a bons advogados que fazem bons contratos, tão bons que até acautelam tudo, até aos mais ínfimos pormenores, incluindo a forma como pagam o silêncio das alegadas vítimas para que as Autoridades Fiscais não desconfiem da entrada de grandes maquias de dinheiro e não resolvam ir atrás. Mas também o Lobo Xavier garantia que a justiça espanhola não tinha maneira de o apanhar na questão da fuga aos impostos e foi o que se viu. O CR 7 pagou e pagou bem e vamos ver o que ainda vem por aí.

Portanto, enquanto as revistas do coração e as redes sociais andavam entretidas com tricas domésticas que não passavam do azedume e o distanciamento entre a noivinha Georgina e a sogrona Dolores -- uma em Itália, poses de diva, e outra nos Açores, longe dos netos que ajudou a criar -- o que, na verdade, estava a acontecer era bem pior que isso.

Entretanto, apesar dos meus mixed feelings em relação a tudo isto 
(porque tenho a firme convicção de que quem viola uma mulher não tem perdão e quem usa o seu poder económico para silenciar as vítimas também não -- mas, por outro lado, não sei se as acusações são mesmo verdadeiras pois um multimionaríssimo CR7 é alvo fácil para gente oportunista e, parecendo Kathryn sincera e o parecendo o caso bem sustentado, a verdade é que não a conheço de lado nenhum e quem tem que ajuizar é a Justiça e não eu) 
vou ficar a fazer figas para que a minha intuição esteja completamente errada. 

No outro dia o meu marido comentou, em voz off, com o meu filho o que se está a passar. Pois o menino do meio, doido por futebol, ouviu e percebeu qualquer coisa e, acto contínuo, com ar aflito, pergunto: 'O Cristiano Ronaldo vai ser preso?'. E estava mesmo assustado. Desconversámos mas tanto insistiu que lá lhe disse que o CR7 tinha feito um disparate há uns anos e que uma pessoa tinha ficado zangada com ele. Ele ouviu, apreensivo. O meu filho disse: 'Vai ficar a pensar nisto'. E eu fiquei a pensar em todas as crianças para quem o CR7 é um ídolo e desejei que tudo isto fosse mentira.

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E hoje fico-me por aqui. Cheguei a casa tardíssimo, perto da meia-noite, e a verdade é que estou aqui só a cair para o lado, já completamente a dormir.

quinta-feira, agosto 16, 2018

Os uritrottoirs que estão a fazer estalar a polémica em Paris.
E Avital e Nimrod, o gay e a queer que não se entenderam com as suas comunicações exuberantes e exageradas


Pois muito bem, sim senhores. Agora que já jantei um caldinho de se lhe tirar o chapéu e que já relatei a minha ida à praia, relato esse devidamente ornamentado com os cromos possíveis, passo para as notícias que se destacam na actualidade estivalense. Claro está que vou fazer descer o oblívio sobre temas mais sérios ou pungentes. Por exemplo, recuso-me a falar sobre a queda da ponte de Génova. Não apenas não percebo patavina de engenharia civil como presumo que possa lá ter passado não há muito tempo e, sobretudo, é das cidades que mais me impressionou quando a conheci.

Estamos a meio de Agosto, estou a precisar de férias e a minha vida agitou-se numa altura em que seria suposto navegar em águas paradas. Portanto, cansada, encalorada e levemente saturada, a minha capacidade para abarcar temas mais complexos anda na vizinhança da linha de água.

Deve, pois, ser por isso que, de entre tudo o que se passa pelo mundo, Portugal incluído, só duas notícias chamaram a minha atenção.

1ª - Uritrottoirs


Primeiro, a cena que inventaram para ver se as ruas de Paris deixam de ser um mictório a céu aberto. Talvez a moda pegue e venha a ser adoptada também por cá. Se até há algum tempo era raro ver-se algum homem a urinar em público e apenas víamos homens que, aflitos, procuravam um canto -- admitindo nós (eu, pelo menos, admitia) que fosse alguém com algum problema na próstata -- agora, volta e meia, vejo um qualquer descarado, na maior descontracção, a urinar num lugar que não lembra ao diabo, indiferente a quem passa. 

Mas volto à cidade luz. Não sei se por haver poucas casas de banho públicas ou porque grande parte de quem anda em Paris é gente a passeio e, portanto, que passa parte do dia na rua, a verdade é que Paris enfrenta o problema da falta de higiene, de falta de decoro, de falta de civismo. Pois bem. A ideia é daquelas em que, notoriamente, se não os vences, junta-te a eles. Inventaram urinóis no meio da rua. Têm um desenho moderno, têm flores em cima e, no interior, têm palha que, pelos vistos, absorve o pivete. A palha ensopada é misturada na terra que, assim enriquecida, fica adubada. Só ecologia. Mas também tecnologia: os urinóis estão sensorizados de modo a que, quando estão cheios, é enviado um alerta para que venham esvaziá-los.

Aparentemente uma ideia razoável. No entanto, a polémica estalou e, vendo bem, com montes de razão. Em primeiro lugar: só os homens é que são mijões? Então e solução para as mulheres? Em segundo: e quem garante que isto não é chamariz para exibicionistas?

Defendem-se os autores da ideia: o problema que sempre existiu era com homens, não é costume verem-se mulheres, acocoradas pelos cantos, a fazerem xixi. Sabido é que as mulheres são mais reservadas, preferem aliviar a consciência, a bexiga e tudo o mais com alguma privacidade. Dizem ainda que pode não ser uma ideia à prova de defeito mas que mais vale assim do que paredes e passeios sujos e mal cheirosos.

E eu, sobre isto, o que tenho a dizer é que me parece um despropósito. Ao menos que tivesse umas palas de lado porque ninguém tem que dar de caras com uma cena destas, um mijão em pleno acto. Mas, se isto ajuda os homens que não conseguem conter-se, então, olhem, paciência, que seja.

2ª Avital Ronell e Nimrod Reitman numa versão estapafúrdia do #MeToo


Aqui a coisa é toda ela amalucada ou, pelo menos, assim me parece. Transcrevo excertos do DN.

Avital Ronell é uma conhecida professora universitária, filósofa e feminista. Ensina Literatura Alemã Comparada e foi numa pós-graduação que teve como aluno Nimrod Reitman, o estudante que a acusou de assédio sexual. A Universidade de Nova Iorque (UNI) investigou e, ao fim de 11 meses, concluiu que ele tinha razão e suspendeu a docente.

Reitman, que tem agora 34 anos e é professor visitante em Harvard, diz que Ronell o assediou durante três anos, facto que o levou a apresentar queixa dois anos depois de se doutorar. Acrescenta que a docente o beijou e tocou repetidamente, dormiu na cama dele, exigiu que ele se deitasse na cama dela, mandou-lhe mensagens, e-mails e que lhe ligava insistentemente recusando-se a trabalhar com ele se as suas atenções não fossem retribuídas.

Ronell, de 66 anos, nega qualquer tipo de assédio. "As nossas comunicações, que Reitman agora diz terem sido assédio sexual, foram entre dois adultos, um homem gay e uma mulher queer, que partilham a origem israelita, assim como a inclinação para comunicações exuberantes e exageradas decorrentes de experiências e sensibilidades académicas comuns", respondeu ao NYT. Sublinha que as comunicações "foram correspondidas e incentivadas por ele ao longo de três anos". Etc, etc, etc (...)

Ou aqui, no Expresso:

É a hora do nosso beijo do meio-dia. 
A minha imagem durante a meditação: estamos no sofá, a tua cabeça no meu colo, a acariciar a tua testa, brincando suavemente como teu cabelo, acalmando-te, dor de cabeça acaba. Sim?". Se esta mensagem fosse enviada por um professor universitário a uma sua estudante 30 anos mais nova, muita gente não hesitaria em dizer que era um comportamento impróprio. Para mais se o professor tratasse a aluna com termos equivalentes aos que uma distinta professora na NYU, em Nova Iorque, dirigiu a um seu estudante: "Bebé fofinho", "meu adorado", "anjo bebé amor", um arriscado "gostava de te poder raptar" e um atrevido "cock-er spaniel" (um trocadilho que mistura uma alusão ao pénis, 'cock', com uma raça de cão"). (...)

A polémica desencadeada pelas feministas em defesa da bizarra Avistal não se fez esperar, com Nemrod a perguntar se o assédio só é para levar a sério se for ao contrário.

E eu, face a isto, o que me ocorre é que este caso deve dar um filme e dos cómicos. Só de imaginar as cenas em que a a Avital perseguiu o Nimrod, o beijou, se enfiou na cama dele e exigiu que ele se enfiasse na cama dela, tudo no maior forrobodó, tudo em exuberante... já me dá vontade de rir. Deve ter sido de gritos. E o facto de ela se vir justificar, dizendo que o que se passou foi o normal entre um gay e uma queer, parece-me ainda mais delicioso. Podia ter-lhes dado para pior, é o que eu tenho a dizer. E isto para não ficar calada.

terça-feira, março 06, 2018

Uma mulher veste um vestido sexy para quê:
apenas porque gosta de se sentir platonicamente desejada? Ou invejada?
E ficaria igualmente feliz se sentisse a total indiferença por parte dos circundantes?
-- Pergunto --


Ocorre-me também perguntar se o ditado 'Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele' também se aplica a mulheres que se vestem de forma altamente sexy. 

Ou seja, faz sentido que uma mulher que se veste de forma indubitavelmente provocante, depois se insurja se for objecto de alguma 'boca', olhar ou mesmo convite mais indiscreto?
E volto a dizer: não me refiro a violações, avanços abusivos, sabujices imperdoáveis. Isso é crime. Ponto.
Refiro-me, sim, a mulheres que se vestem de uma forma que as leva a assentir: 'Temos que fazer pela vida' quando alguém faz notar que vieram especialmente sugestivas para uma reunião com o chefe ou que fazem de tudo para os chefe as convidarem para um almoço ou jantar a dois ou jantar e que se apresentam de perna ao léu, poitrines ao léu e sorrisinhos maliciosos a propósito de tudo e de nada. Ou que, num encontro ou festa em que sabem que vão encontrar algum 'doutor' importante que as pode beneficiar profissionalmente, se apresentam como se fossem para um desfile na passadeira vermelha. Interrogo-me: fará sentido se tempos depois aparecerem a lamentar-se que o homem em causa passou o jantar a olhar-lhes para as pernas ou para o decote, sem prestar grande atenção à conversa? 
(Avistada pela 1ª vez
na Antologia do Esquecimento)

Como já aqui o disse várias vezes -- depois de ter assistido de perto a tanta coisa, ao longo de tantos anos, em meios em que tudo acontece -- não consigo apontar o dedo aos homens em geral. Do que vi, e tenho a certeza do que digo, foram mais os casos em que vi mulheres a porem-se a jeito do que homens a afoitarem-se a avançar contra a vontade das mulheres.

Claro que os meios que conheço são meios urbanos, cosmopolitas ou próximo disso -- direi mesmo: civilizados -- e não os meios mais caciquistas em que patrões ou chefões trogloditas usam e abusam de empregadinhas ingénuas e indefesas. Por isso, quando falo refiro-me a meios que conheço e não a meios que desconheço.

E, do que conheço, afirmo sem hesitação: as mulheres são mais destemidas, mais voluntaristas, mais ousadas, mais atrevidas. E convivem bem com um ´não'. Mais: sabem que os homens, medrosos como tendencialmente são, até de dizerem 'não' têm algum medo. Em contrapartida, os homens (normais) têm pavor de receber um não, são mais timoratos, temem dar passos em falso. Os homens (normais) esperam sempre por um sinal antes de se atirarem para a piscina. Os homens ficam atarantados se encontram pela frente uma mulher que acham charmosa e inteligente. O medo de passarem pelo ridículo de elas o gozarem, de elas o rejeitarem, de elas o fazerem passar por totós tolhe-os.

Portanto, é com alguma perplexidade que vejo tantas mulheres que julgaria senhoras do seu nariz a aparecerem como indefesas e vítimas da selvajaria dos homens. Não digo que uma ou outra, quando ainda inocente e menina, não tenha sido vítima de algum tira-olhos. Mas quantas das que hoje se apresentam como virgens e ofendidas não vestiram já a pele de que hoje acusam os homens de trazerem sempre vestida?
NB: E, repito, não digo que não haja casos ou que sempre que alguém veste a pele de lobo isso signifique que esteja disponível para sê-lo. Haverá casos em que nada mais do que o lado lúdico da coisa importa ou que a coisa seja tão descaradamente louca que se torne até assexuada. 

O que digo é que a mim não me apanham a crucificar cegamente os homens ou a achar que a maioria deles, em especial os que têm alguma forma de poder, deveriam ser imediatamente defenestrados para não afectarem psicologicamente as mulheres, esses seres frágeis, vulneráveis, indefesos. A mim não me apanham, não.

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Divas na passadeira vermelha. Oscars 2018. Cada uma com sua toilette especialmente sexy.
Patrisse Cullors, Taraji P. Henson, Blanca Blanco, St. Vincent


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quarta-feira, fevereiro 07, 2018

O pénis de Trump. As mãozinhas de Trump.
(Does size matter...?

[E, a despropósito, a pilinha-leiteira do António Lobo Antunes no Palácio de Belém]



Um artista quase à altura do Bruno de Carvalho. 


Sobre o tema não tenho inspiração suficiente. Posso apenas dizer que acho mais piada a homens com mãos grandes. Se vejo um homem com umas manitas de boneca fico um bocado descoroçoada pois intuo que não está ali o valentão que se anunciou. Não sei. Preconceito, talvez. Um homem de bom tamanho, voz grossa, armado em bom e a gente olha e repara que as mãozinhas parecem as de uma pequena Barbie. Mas pronto. Se calhar não quer dizer nada. Sei lá de que tamanho eram as mãos do Tarzan. E quem diz o Tarzan diz outros.

Agora veja-se. Se este meu preconceito é com as maozitas, imagine-se com o resto. 

Pezinhos de bebé num corpanzil de gigante, por exemplo. Não sei. Não acho graça. Fico apreensiva. Parece que tem que haver proporcionalidade. Não sei. Pezinhos de pequena bailarina num corpalhão de atleta olímpico, já viram. Parece que não augura boa coisa. 

Ou com outras coisas.

O coração, por exemplo. Um homem leaozão e vai daí e a gente repara que tem um coraçanito de peixe, pequenino, quase invisível. Não sei. Capaz de não ser bom indício. Homem que se quer homem deve ter coração grande. Mas pronto. Deve mesmo ser preconceito.

Agora, preconceituosa como sou, imagine-se com o resto.

Mas pronto, lá está. Racionalizando. De facto, não interessa (muito). Há outros atributos. Especialmente se for coisa 3D. Não é só o comprimento: é também a largura e a altura. Por exemplo. Mas deixem para lá. Não interessa. É um não-tema.

Vejamos, antes, o testemunho de várias mulheres.

Atenção, homens. Ontem o tema era: homens, temos que falar. Agora é: homens, vamos lá a ouvir.


A prova de que o tamanho não importa?

Ei-la.


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Obtive a foto do tarado e narcisista bufão com a fita métrica (bufão como lhe chama Roth) no The Guardian.

Esta aqui já acima foi feita em Dusseldorf há coisa de um ano.

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PS: Ok, não vem a propósito deste post mas deixem que aproveite o ensejo para dizer que folgo em saber que o apelo a que os homens se cheguem à frente e contem as suas experiências de assédio está a resultar. De forma bastante gráfica e perante uma ilustre plateia, António Lobo Antunes contou como foi assediado por um professor de Moral. Não agora. Não quando era peludo como o Cid -- mas, na verdade, quando era pequeno e ainda não sabia algumas coisas sobre o seu corpo. Parece que os padres e os professores de Moral são danados para a brincadeira. Mas, enfim, não vi nenhum estudo estatístico pelo que mais vale não me aventurar por terrenos arriscados.

terça-feira, fevereiro 06, 2018

Homens, temos que falar - disse a Fernanda Câncio.
E o José Cid falou: diz que foi assediado por um fadista.
E o Bruno Maçães também: confessou que uma professora de mitologia e agente de moda talvez lhe tenha dado as melhores explicações sobre as diferenças entre a Europa e a Ásia.
(Sim, sim, ó Bruno, já ouvi chamar muitas coisas a explicações dessas... agora Eurásia... Só contaram pr'a você, ó Brunocas)
E um cavalheiro anónimo do PS já veio pedir desculpa por, a propósito de Bruno de Carvalho, ter feito a revelação de um segredo envolvendo os seus "três olhos".
A torrente apenas ainda vai no início.
Esperam-se novas sensacionais revelações.
Homens, cheguem-se à frente. Contem-nos tudo.
Não vos condenaremos. Acreditem. Quanto muito, rimo-nos (mas só à socapa).
Vá, #YouToo.



O título da crónica chama pela gente. Nem sempre leio o que a Fernanda Câncio escreve mas desta vez li.

O tema não é linear. Já algumas vezes falei sobre ele mas isso não significa que tenha ideias feitas sobre o assunto ou que consiga reduzir a meia dúzia de mandamentos o que há a saber sobre o tema. Longe disso. Há as subtilezas de que Fernanda fala, as do desejo e da sedução, os pudores que nascem das incertezas, do respeito ou do receio, os interditos, os mistérios, o que não se diz mas que se deixa perceber. Felizes são os que sabem descodificar os intangíveis sinais.

Não falo de violações, não falo de sexo forçado, não falo de sexo como abuso de poder. Isso é inequívoco, crime sob qualquer perspectiva. Falo de outra coisa. Falo do que é mesmo assim, avanços, recuos, vontades confessadas ou inconfessáveis, terreno que se pisa sem guião, desacertos, passos em falso, riscos que se correm.
[Ou não. Vidas que nunca chegam a convergir porque alguém não ousou no momento certo.]
Mas passo ao texto de Fernanda Câncio, transcrevendo alguns excertos (a imagem é escolha minha, não dela):
(...) Homens despedidos de séries, ostracizados no métier, retirados de listas de candidatos a prémios. Vou dizer uma coisa que já disse várias vezes sobre isto mas que já fui várias vezes acusada de nunca ter dito (sucede-me muito, e o contrário também): não suporto linchamentos. De nenhum tipo. Não gosto daquilo a que os anglófonos chamam "saltar para as conclusões". Não gosto de ir nas correntes. (...)
Mas há também, claro, casos como o de Aziz Ansari, acusado por uma mulher que mantém o anonimato de ter insistido em ter sexo com ela durante um encontro, apesar de ela lhe ter dado a entender que (já) não estava nessa. Apontado como exemplo da histeria acusatória do #metoo e denunciado como contraproducente numa série de artigos irritados de mulheres feministas que certificam que nada do descrito pela narradora constitui assédio, obrigou-me a pensar.(...)
Ora é precisamente porque nas relações íntimas as coisas se passam com subtileza, sem papéis assinados nem certidões, porque o desejo é algo de fluído, misterioso e inconstante e o que queremos ou julgamos querer num momento pode mudar no seguinte, e também porque vivemos num quadro cultural de ascendente dos homens sobre as mulheres do qual faz parte - não dá para negar isso, certo? -- a ameaça da violência masculina, que o caso Ansari, ao invés de ser uma prova da alegada histeria do #metoo, é um tão excelente ponto de partida para a nossa conversa. Vamos falar, meus senhores?
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Sobre o tema lembro-me muitas vezes de um dos filmes que me marcou. A condenação de Marco Bellocchio. La Condanna. The conviction. Filme inteligente. Filme que sabe como lidar com as subtilezas. Mereceria um debate.
Qual a fronteira? Qual a inequívoca linha? 



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Enquanto o debate não é feito -- o debate sério, verdadeiro, olhos nos olhos, um debate que reproduza a verdade escondida, as mentiras expostas, os subentendidos, o não que quer dizer sim, o sim que quer dizer talvez, o talvez que quer dizer que alguém vai ter que descobrir -- 
e se calhar esse debate não é feito porque, simplesmente, não pode ser feito pois talvez os segredos da alma ou os avanços titubeantes ou falsamente seguros não possam ser expostos à crua luz da realidade e da intriga 
deixem que vá parodiando o exagero e a acefalia que, aqui e ali, me parece ir tomando conta da conversa. 

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É que, parece que respondendo ao apelo da Fernanda Câncio, já fomos surpreendidos com os testemunhos de dois briosos e viris cavalheiros
Houve um [homem que me assediou], mas eu não posso dizer, já faleceu. Assediou-me uma vez. Eu estava no meu quarto, tínhamos ido a Inglaterra, num grupo de cantores, fazer uma digressão para a emigração. De repente, há um colega que me bate à porta e eu estava a fazer a barba em tronco nu. Eu era muito atlético e ele diz-me assim: 'Sabes, é de homens como tu, muito musculados e com pelo, que eu gosto! 'E eu disse-lhe: 'Pois, olha, esquece e deixa-me fazer a barba em paz'", conta. "Só posso dizer que era um fadista"

E Bruno Maçães, outro garboso machão, publicou um livro depois de ter andado durante seis meses na passeata. Quando lhe perguntam se conheceu gente importante, respondeu com aquela sua famosa ingenuidade (que alguns mal-intencionados confundem com burrice):
Há um arqueólogo russo que, sem ser um Indiana Jones, tem um certo elemento de mistério e de aventura; há um agente secreto russo, com quem passei um dia inteiro a ser entrevistado. Foi possível aprender mais sobre a Rússia do que a ler 20 livros. Há uma professora de mitologia e agente de moda que talvez me tenha dado as melhores explicações sobre as diferenças entre a Europa e a Ásia, e estão citadas no livro.

E outra. Este anónimo, creio eu. Um adepto do PS, parece que tem pensamentos estranhos depois de ver um outro elemento do meio artístico nacional, o pimbérrimo Bruno de Carvalho que, diga-se em abono da verdade, tira qualquer um/a do sério:
Por breves momentos, e ainda quando decorria o discurso do máximo dirigente leonino, surgiu a seguinte frase no Twitter do PS: "Assustador: Eu não sou daqueles que dorme com um olho aberto. Eu quando durmo tenho os três olhos fechados", lia-se.
O tweet foi de pronto apagado e levou mesmo a um pedido de desculpas por parte do Partido Socialista: "Por lapso, foi publicado nesta conta um twett que se pretendia publicar numa conta pessoal. O PS pede desculpas ao Sporting Clube de Portugal, aos seus adeptos e ao seu presidente", revelaram

Portanto, parece que começamos a assistir ao coming out dos homens. Que venha ele. Contem-nos tudo.
Quem vos assediou? Fadistas? Forcados? A artista Vasconcelos? A Santa Mana? 
Quem vos apetece assediar? A falsa taróloga Teodora Cardoso? A sensível Teresa Guilherme? O  valentão Super Judge Alex? Os pavilhões auditivos do escritor José Rodrigues dos Santos? O  reservado Desembargador Dâmaso
Contem-nos. Contem tudo. Cá estaremos para vos ouvir. Nada de titubeações. Vá. Sem medo. São capazes. #YouToo

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sábado, fevereiro 03, 2018

O novo macarthismo




Eu -- mulher livre que não admitiria que um qualquer parvalhão pousasse em si o peso da uma lascívia abusadora e indesejada e que não se sente bem em alinhar-se acefalamente com carneiros de qualquer espécie, nem amorais nem moralistas -- olho de lado para o coro de mulheres que vem, alegremente, liquidando a reputação de homens atrás de homens na praça pública.

Se defendo o direito ao contraditório e à defesa do bom nome, não consigo fazer coro com quem lança ofensivas na praça pública, queimando de imediado o homem a quem apontaram a arma da denúncia.

Só para que se possa ver mais do que um lado da questão, transcrevo o que acabei de ler na Bula da autoria de Edson Aran. As fotografias são de minha escolha e mostram personagens ou momentos de filmes de Woody Allen. A música que escolhi também foi minha opção e talvez apenas porque sim, o que é um motivo tão bom como outro qualquer.
Note-se: não estou, com isto, a dizer que estou a tomar partido por A ou por B, estou simplesmente a dizer que não tenho condições ou conhecimento exacto dos factos e das circunstâncias para crucificar ou defender uns ou outros.

Em dezembro de 2017, a revista americana The Hollywood Reporter publicou um textão da crítica de cinema Miriam Bale no qual ela conta, orgulhosa, que nunca mais verá um filme de Woody Allen na vida. Esse tipo de atitude jamais daria certo em outra área do jornalismo. “Sou torcedor do Corinthians e não assisto mais jogo do Palmeiras, valeu, chefia?!” Demissão, né?

No entanto, no mundo festivo do jornalismo cultural, o mimimi infantiloide da moça foi legitimado pela “The Hollywood Reporter” e diversas outras revistas e jornais que reproduziram o chorume sem qualquer ponderação.

No dia 4 de janeiro foi a vez do Washington Post publicar um ensaio rasteiro de um tal Richard Morgan (who?), que revira arquivos do diretor (projetos não filmados, anotações etc) para formular a tese de que toda obra de Allen gira em torno da “mulher objetificada pelo homem”. A Ilustrada republicou o texto.


“Zelig” não é isso. “A Rosa Púrpura do Cairo” não é isso. “Crimes e Pecados”, “Memórias”, “Celebridades”, “Annie Hall”. Nada disso é isso. Mas certamente Morgan, como Miriam Bale, não se deu ao trabalho de ir ao cinema antes de batucar no teclado.

Woody Allen e Mia Farrow ficaram juntos por 12 anos. O fim do relacionamento foi dramático. Allen se comportou como um dos seus personagens inconsequentes e trocou Mia por Soon Yi-Previn, filha adotiva da atriz com o ex-marido dela, André Previn. Foi só o começo da baixaria.

Moses Farrow, filho adotivo de Allen e Mia, ficou do lado do pai. Ronan Farrow, filho legítimo do casal, ficou do lado da mãe. Ronan, jornalista do “The New York Times”, tornou pública a denúncia de Dylan Farrow, outra filha adotiva do casal, que afirma ter sido molestada por Allen quando tinha 7 anos. O diretor argumenta que Dylan foi manipulada por Mia e Ronan para inventar a história. O filho Moses concorda com ele. Mia Farrow, por sua vez, também sugeriu que Ronan não é filho de Woody Allen, mas sim de Frank Sinatra, com quem ela foi casada nos anos 1960 e sempre manteve relação próxima.

Alguns dos mais brilhantes filmes de Woody Allen e Mia Farrow foram resultado da parceria entre eles. É uma pena que a relação dos dois tenha virado uma novela vagabunda e esteja de novo na mídia, catapultada pelas recentes denúncias de assédio sexual em Hollywood. É preciso lembrar, no entanto, que o “Caso Woody Allen” é completamente diferente da historia de Harvey Weinstein, por exemplo. O produtor usava o poder para constranger atrizes a fazer sexo com ele. Isso é criminoso. Já Allen, até onde se sabe, nunca fez nada parecido. O repúdio a ele nasce das alegações de Mia Farrow por conta da separação.

A atriz Mira Sorvino escreveu carta lamentando ter trabalhado com o diretor em “Poderosa Afrodite”, que deu a ela o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante. Greta Gerwig (“Para Roma com amor”) fez o mesmo e Rebecca Hall (“Vicky Cristina Barcelona”, indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme) seguiu o exemplo. Muitas outras foram atrás.

Em 26 de janeiro, o musical “Tiros na Broadway” foi cancelado em Nova York. Em 28 de janeiro, o New York Times fez artigo declarando que a carreira de Woody Allen está acabada. A Ilustrada reproduziu o texto. Já não se trata mais de denúncia, isso já ficou para trás. O que existe agora é uma campanha organizada para que o diretor nunca mais consiga filmar.

A crítica de cinema Miriam Bale, assim o ensaísta Richard Morgan, têm todo o direito de se comportarem como noveleiros e torcer pelo personagem favorito deles na trama. O que não podem, penso, é destruir a obra do diretor e serem aplaudidos por uma mídia que deveria ser mais responsável.

Mas a verdade é o que “The Hollywood Reporter” nunca foi responsável. A publicação praticamente iniciou o “macarthismo” em 1946, quando listou 11 comunistas que deveriam ser expulsos de Hollywood. Entre os denunciados estava o celebrado roteirista Dalton Trumbo. Foi essa lista que incentivou o senador republicano Joseph McCarthy a iniciar uma “cruzada” para banir os socialistas da indústria do cinema.

O movimento feminista #MeToo, que começou com os mais nobres objetivos, evoluiu rapidamente para algo muito semelhante ao macarthismo. E não sou eu quem está dizendo isso. Alec Baldwin e Liam Neeson já falaram a mesma coisa. Catherine Deneuve e Brigite Bardot também.

Multidões de linchadores nunca estão com a razão. Jamais. Em hipótese alguma. Isso é básico numa sociedade civilizada. Mas a mídia, que deveria interditar a barbárie, é a primeira a fazer festinha pra ela. E depois ninguém sabe porque revistas e jornais agonizam.

Eu, de minha parte, vou continuar vendo tudo o que Woody Allen dirigir e escrever. Um dos maiores cineastas da história tem muito mais a me dizer que a revista “The Hollywood Reporter”.

Na verdade, ele tem muito mais a dizer do que a maioria do jornalismo cultural produzido no mundo (o mundo inclui o Brasil).


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Um bom fim-de-semana a todos!

quinta-feira, janeiro 11, 2018

'Os porcos estão inquietos?', desafiam algumas.
'Os homens têm o direito a importunar', afirma Catherine Deneuve (e outras).

Os assediadores. As feministas. As vítimas. As pseudo-vítimas.

E a virilidade, a feminilidade, a sedução. E a graça de viver.





Da mesma forma como -- e já aqui falei disso -- mais facilmente me punha ao lado das prostitutas do que das 'mães de Bragança', também agora, intuitivamente, me sinto mais próxima da Catherine Deneuve e outras do que das Oprahs Winfreys desta vida.

E, no entanto, não apenas não li qualquer dos manifestos como nem reflecti muito sobre o tema. É mesmo uma questão de intuição (ou genética, coisa cá da minha maneira de ser). Aliás, acho que nem é bem uma coisa nem outra, nem intuição nem genética, mas está a faltar-me a palavra certa. Mas é qualquer coisa nesta base.

Sobre este tema, várias vezes tenho pensado: trabalhando desde menina e moça em empresas maioritariamente masculinas, alguma vez fui assediada? Que me lembre não. E na rua? Que me lembre também não.

No outro dia, o meu marido, a propósito de uma que na televisão se insurgia sobre o facto de em Portugal nenhuma mulher se ter chegado à frente a acusar alguém, dizia, na brincadeira: 'A ela, de certeza, nenhum homem assediava, até para não ficar mal visto perante os outros homens'. Afirmação politicamente incorrecta, nos tempos que correm. E, no entanto, eu ri-me.


Penso nos piropos e graças que ouvi ao longo da minha vida e não tenho dúvida de que alegraram e apimentaram os meus dias. Desde os mais inteligentes e sofisticados até aos mais brejeiros, não me lembro de alguma vez me ter sentido verdadeiramente incomodada. Lembro-me, sim, de, em tempos idos, em autocarros apinhados, ter sentido homens parvos encostarem-se ou apalparem-me e eu me virar para eles e dizer: 'Agradeço que se afaste porque me está a incomodar', deixando-os aparvalhados, envergonhados. Lembro-me que um, uma vez, se armou em ordinário e desatou a ripostar, tendo-lhe eu dito que se calasse e tivesse vergonha. Portanto, quando saía do autocarro vinha até satisfeita com a sensação de ter posto na ordem um parvalhão.

Lembro-me também de, ao passar na rua, ouvir indecências e de fazer de conta que não ouvia ou, pelo contrário, olhar com ar interrogador, deixando os cobardolas atrapalhados.

Mas assédio, por exemplo, no trabalho, nunca. Nem nunca nada de parecido se proporcionou. Desde sempre a única mulher a chegar a um cargo de direcção, e tinha apenas trinta e um anos quando isso aconteceu, sempre me senti respeitada e nunca a nenhum passou pela cabeça ousar pisar o risco. 


Lembro-me de uma colega que, insegura e psicologicamente algo frágil (embora aparentando o contrário), confidenciava que um qualquer lhe fazia convites ousados, dizendo ela que cedia pois percebia que, se não aceitasse, ficaria prejudicada. Sempre achei isso uma ficção da parte dela pois assistia à atitude a priori permissiva da parte dela e à forma até cautelosa como ele se aventurava. 

E já aqui contei algumas vezes. Tempos houve, trabalhando eu uma grande empresa, em que havia em permanência casos e mais casos. Uma festa. A minha secretária tinha um caso com o meu melhor amigo, outro meu amigo tinha um caso com uma estagiária, um colaborador meu tinha um caso com a secretária do presidente, outro colega tinha casos com umas atrás de outras (e, como contei há pouco tempo, foi apanhado em pleno acto em cima da mesa de reuniões do gabinete um dia em que ficou até mais tarde), o vice-presidente tinha um caso com a contabilista. Etc., etc. Tantos casos que nem dá para acreditar. Alguns destes casos acabaram, outros deram em casório ou união de facto. Antes de serem casos, havia a fase da sedução. Assédio? Não direi. Melhor: nunca vi vestígios disso. Sedução, isso sim. Assisti de perto a muitos destes casos. A minha secretária, por exemplo, que andava de brincadeirinha com o meu colega (casadíssimo) e ele com ela, queixava-se-me uma vez: 'Muita conversa, muita conversa... mas passar à acção está quieto...'. Até que um dia, na sequência de um jantar de despedida de outro colega, a coisa se deu. No dia seguinte, descreveu-me ela como finalmente lá o tinha conseguido levar para casa. E eu parva com aquilo, ele tão apenas brincalhão e tão amigo da mulher, e ela, contrarando-me: 'Sim, sim... Pois olhe que não... Muito bem, lhe digo eu'. E um ar aprovador sobre a performance dele.


Ou seja, no meio daquele forrobodó (e estou a falar de uma grande empresa, moderna, produtiva, rentável), nunca vi nada que se parecesse com assédio ou sexo forçado ou moléstia de algum tipo. 

E falo no passado mas poderia falar no presente. Mas menos, muito menos. Não sei porquê mas parece que há menos hormonas em circulação. Casos assim, às claras, no puro descaramento, já vejo muito menos. Piropos malandros ou divertidos também muito menos. Os homens parece que estão a desabituar-se da arte do galanteio. A malandrice com graça pode não ser minimamente ofensiva e trazer divertimento aos dias. Mas parece que é coisa que está a sair de circulação.

Já aqui contei uma que a mim me divertiu imenso e que ainda me faz rir. Por isso, desculpme se me repito. Tinha um colega, muito engraçado e onde a malícia, ainda que inocente, era permanente. Uma vez a minha filha foi visitar-me e levou o que na altura era o seu único filho. Então, uma colega minha foi lá vê-los e, para minha surpresa, disse-me: 'Já ali estive com o avô'. E eu, admiradíssima: 'Com o avô? Mas ela veio sozinha..'. Esclarece, então, ela: 'Estou a falar do Dr. M'. Ri-me mas quase me ofendi: 'Ah, olha o disparate...'. Ao fim do dia, aparece-me ele no gabinete, todo lampeiro. Digo-lhe, toda cheia de repreensão: 'Olha lá... mas estás parvo ou quê...? Então andas a dizer que és o avô da criança...?'. E ele, ar de santinho: 'Mas não disse de quem é que sou pai...'. O que eu me ri a imaginá-lo pai do meu genro... ou seja, a ter um caso com a sogra da minha filha... 

Enfim. 

Claro que há casos e casos e o que não faltarão serão sabujos e badalhocos que se aproveitam da fragilidade de algumas mulheres vulneráveis. Sei que sim. Por exemplo, estou a lembrar-me que tive um colega, mais velho que eu, que foi criado na Casa Pia pois a mãe, trabalhando como empregada doméstica e tendo engravidado do patrão, não pode ficar com ele nem o pai o perfilhou. Só muito mais tarde, já ele a trabalhar, pode libertar a mãe da sua condição de quase escrava da casa onde trabalhava como interna. Quantos casos destes. Casos e casos. Casos tantas vezes vividos em silêncio, acobertados pelos mais pios usos e costumes, tantas vezes sob o beneplácito da igreja.


Mas aí, mais do que assédio, o que há é abuso sexual ou franco abuso de posição dominante (digamos assim) -- o que nada tem a ver com situações em que, por vezes, as mulheres falam como se fossem umas virgens ofendidas, umas tadinhas que fazem sexo oral contrariadas, umas beatas que ficam melindradas porque ouviram brejeirices e que agora, ao fim de vinte anos, vêm falar disso como se tivessem andado todo esse tempo com o piropo atravessado ou como se nunca tivessem contribuído para a situação em que se envolveram. Menorizam-se as mulheres que se fazem de indefesas e frágeis quando, tantas vezes, aceitaram, interesseiramente, favorecer esse tipo de situações.


Saibam as mulheres, antes, ver-se como iguais em direitos e poderes em relação aos homens, saibam afirmar as suas vontades sem se inferiorizarem, saibam as mulheres gostar de ser mulheres, nomeadamente prezando a sua natural feminilidade, saibam as mulheres apreciar a virilidade masculina e dar valor aos naturais jogos de sedução, saibamos todos apreciar a vida em tudo o que ela tem de bom. E não tentemos moralizar e beatificar tudo, incluindo os sentidos, o humor, a alegria, a malícia, a sedução. 


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E eu por mim fico de bom gosto a apanhar a almofada que o malandro do David Gandy está a atirar. Mas, para os meus Leitores mais moralistas que não gostam de ver homens mal comportados, então recomendo que desçam até ao post seguinte para lerem sobre a orelha encarnada do Santana Lopes.

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sexta-feira, novembro 10, 2017

Só estou para ver quando isto do assédio sexual chegar a Portugal...
Não vai haver uma única mulher que não tenha um marau para denunciar...
Cá para mim só vai escapar um homem... O Marcelo, pois claro!


Abro as revistas e os jornais online e não há cão nem gato que não tenha assediado mulher, homem, periquito ou whatever.

E que não se pense com isto que estou a desvalorizar. Não estou. Mas também vejo muita denúncia que a mim me apetece dizer que vou ali e já venho. Um piropo é assédio? Caneco. Só se for piropo badalhoco ou a despropósito. Uma atracçãozinha manifestada de forma menos disfarçada é assédio? Ora essa, não forçosamente.

Mas se isso é aceitável, razoável e, até, potencialmente apreciável já o que violente a dignidade ou vá contra a vontade do visado é intolerável e, relativamente a isso, concordo que a tolerância deve ser zero.

Aqui há dias, a propósito do Weinstein, contei aquilo de, há uns anos, me ter aparecido um big bear argelino no gabinete que me fez sentir em risco e que me incomodou demais. E agora que estou a escrever isto, lembrei-me de uma coisa que me aconteceu quando ainda era solteira. Estava muito engripada e achei que devia ir ao médico. Não sabia a que médico havia de ir. O meu namorado da altura perguntou aos pais e veio com a recomendação do médico que os acompanhava, médico prestigiado, considerado o melhor internista português. Eu novinha, novinha e ele com idade para ser meu avô. Simpático. Não disse quem me tinha recomendado. Portanto, para ele eu era apenas uma miúda que tinha aparecido no consultório. Auscultou-me. Depois quis ver-me ao RX (creio que era RX, sei que havia umas placas verticais onde eu me encostava, numa sala meio às escuras). Mandou-me pôr em tronco nu. E, juro que é verdade, começou a mexer-me nas mamas. Eu incomodada e ele a dizer que era para me encostar melhor, para se ver melhor. Tal como as técnicas de imagiologia que nos ajeitam as mamas quando fazemos mamografia, assim o estupor do velho ordinário.

Eu, sabendo-o o médico e amigo do que viria a ser meu sogro e com algum receio de que aquilo fosse mesmo assim, contive-me e não lhe preguei um par de estalos. Mas afastei-me, enojada.

Saí de lá a chispar. Mandou que lá voltasse uma semana depois. É o voltas...

Se fosse hoje teria saído dali para ir a uma esquadra denunciá-lo. Assim, engoli em seco e fiz de conta que não tinha acontecido.

Fui agora googlá-lo. Já morreu há uns anos, claro. Por isso não vou aqui dizer o nome do velho canastrão. Estou convencida que hoje já não há babacas descarados que se atrevam a fazer isto. Mas, se os houver, espera-se que recebam o devido troco e a merecida recompensa.

Mas, pelo que leio, as denúncias sucedem-se. Parece que não há actriz ou modelo que não tenha sido incomodada e que não há actor que não tenha pisado o risco. E todas elas virgens e altamente beatas e eles todos uns violadores em série. Parece que se está a passar da total permissividade para com os verdadeiros abusadores para um mundo governado por santinhas. É que são os exageros e o excesso de puritanismo que, a prazo, vão fazer com que se desvalorizem as denúncias sérias e se parodie tudo o que é queixa. Qualquer dia um olhar que faça corar uma senhora mais pudorenta já é crime, não?

Volto a dizer: não desvalorizo o (verdadeiro) assédio sexual. Apenas digo que há que distinguir o que é sério do que não é coisa alguma.

No outro dia, falei aqui incomodada com o sururu que estava a ser feito em torno de Kevin Spacey quando tudo não teria passado de uma tresloucadice de bêbado desencabrestado. Parece que afinal foi mais do que isso já que, daí para cá, não têm conta as calças masculinas que Kevin já penetrou para avaliar a genitália do respectivo dono. Toda a vida, diziam, a manter reservada a sua vida sentimental e sexual para agora esta desgraça, denúncias atrás de denúncias. Tenho pena. Só pode ser doença.



Enquanto estava a ler alguns destes artigos estava a ver, na televisão, o nosso ubíquo Marcelo a empolgar as massas no Web Summit. Depois, distraí-me e já andava ele na rua abraçado a miúdos e graúdos o maior forrobodó selfítico. Já está tão pro que ajeita o telemóvel, debruça a cabeça, abraça a preceito. Mas é tudo tão inocente que, apesar de abraçar e beijar meio mundo, ninguém vai ousar dizer que pisou o risco. E deve ser o único que está acima de qualquer suspeita. E isto, claro, porque está a caminho de alcançar o estatuto de santo em vida, tanto o conforto e qualidade de vida que distribui por via de todo este afecto que tem para dar.



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E queiram descer para assistirem à converseta entre duas brasas do mais feministas (no bom sentido) que há

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