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sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Tal como a nuvem radioactiva de Chernobyl, assim a mancha Epstein vai alastrando de país em país

 

Que havia sexo e traficância de menores é mais do que certo e sabido. Cenas de torturas com crianças ou de procriação forçada com roubo de bebés parece que também, embora as pessoas façam por não olhar de perto, tão horríveis parecem ser as revelações. Mas começam a desenhar-se também ligações ao negócio das armas. E parece também claro que havia lavagem de dinheiro -- dinheiro russo, com certeza, mas não se sabe se mais. E que era agente duplo, Mossad e CIA, também já se afirma como se não houvesse muitas dúvidas. Parece que há passaportes com outros nomes e já há congressistas a pedir informação à CIA. Mas suspeita-se também de ligações aos serviços secretos ingleses. Também se detectam ligações a Putin. Aliás, era coisa que ele gostava de descrever, aquela vez em que se encontrou com Putin, um verdadeiro filme, com escalas, destinos misteriosos.

À medida que se investigam os ficheiros mais e mais dúvidas vão surgindo (e, note-se, os que estão disponíveis são os ficheiros mais 'pacíficos' e estão amplamente rasurados, com grande parte ocultada, e serão metade do que há, sendo que há outros tantos retidos, por razões que o Departamento de Justiça ainda não explicou cabalmente). Quantos países estão comprometidos ao mais alto nível com segredos de estado divulgados? Quem, em cada país, fazia parte da rede?

Alguma vez se vai saber?

E ele? O que, de facto, lhe aconteceu? Foi assassinado ou retirado da cadeia? É que parece que já ninguém acredita na tese do suicídio.

Há até quem também já compare o fácies de Ghislaine Maxwell e o da mulher que foi ao Congresso (não) prestar declarações e conclua que não são a mesma pessoa, e que, a ser verdade, a amiga de Epstein já estará fora, provavelmente indultada, provavelmente posta a bom recato.

Tudo o que antes pareceria uma tresloucada teoria da conspiração agora parece apenas uma pálida amostra do que ainda há para saber.

O irmão do Rei foi chamado a depor e o seu biógrafo diz que o mais provável é que se pire pois já lhe ofereceram 'casa' num país árabe onde tem muitos amigos. A futura rainha norueguesa já pediu desculpa e os concidadãos olham para tudo o que se sabe com suspeição. Bill Gates cancelou a sua intervenção na maior web summit face às suas ligações, maiores do que se supunha, ao íman Epstein. E os casos sucedem-se. 

Por todo o mundo. Só nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça iniste em assobiar para o lado. E Trump, esse folião demente, até já se gaba de que foi ilibado.

Les Wexner foi chamado a testemunhar no Congresso. Apresentou-se como vítima: diz que foi roubado por Epstein, centenas de milhões. Uma história mirabolante, de cabo a raso. Aliás, cada uma das ligações a Epstein daria, de per se, uma história de loucos. Veja-se esta. Como é que um multimilionário como Wexner passa a gestão da sua fortuna para um tipo que não tinha conhecimentos nem académicos nem práticos? Não tinha nenhuma licenciatura, tinha enganado o colégio em que tinha dado aulas como se fosse formado em matemática, daí tinha passado para analista financeiro de uma empresa de gestão de fundos em que cometeu uma fraude e foi despedido, depois dali, por ser desonesto, foi contratado para uma empresa fraudulenta pois, tratando-se de uma empresa que funcionava com base em esquemas, nada como um tipo esquemático, para aldrabar as contas... Dizem que Wexner se terá envolvido sexualmente com Epstein e que, a partir daí, ficou na mão dele. Se isso justifica que lhe tenha passado para a mão centenas de milhões de dólares, não se sabe. 

Na verdade, não se sabe se alguma vez se vai saber alguma coisa.

Dizem que foi por ter passado a ser também multimilionário que Epstein viu abrirem-se-lhe todas as portas da alta finança. E daí passou para a academia, para os negócios, para a política. Ou isso ou estaria formatado para ser um agente kompromat de alto gabarito. Ou isso ou tudo o resto que se possa dizer.

Tudo bizarro. E volto ao mesmo: como tinha ele tempo para tudo isto? Como tinha ele cabeça para tudo isto? Sozinho...?

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Dois vídeos, entre muitos outros possíveis, sobre o assunto e sobre os tempos presentes

Arquivos Epstein: mensagens de texto entre Epstein e Bannon desencadeiam guerra civil entre apoiantes de Trump, Wexner presta depoimento

As mensagens de texto recentemente divulgadas de Steve Bannon com Jeffrey Epstein provocam reações negativas entre os apoiantes de Trump, enquanto Les Wexner, antigo proprietário da Victoria’s Secret e figura-chave na ascensão de Jeffrey Epstein à riqueza extrema, presta declarações à Comissão de Supervisão da Câmara.

0:00 Imagens recentemente divulgadas mostram Steve Bannon a entrevistar Jeffrey Epstein
1:39 Troca de mensagens entre Bannon e Epstein
3:41 Como reagirá Trump à controvérsia em torno de Bannon?
4h31 O bilionário Les Wexner presta depoimento ao Congresso sobre as suas ligações a Epstein

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Trump deixa escapar o que o incomoda: Wolff | Dentro da cabeça de Trump

Michael Wolff junta-se a Joanna Coles para analisar porque é que a irritação pública de Donald Trump pode revelar mais do que qualquer fuga de documentos. À medida que os arquivos de Epstein desencadeiam uma onda de manchetes, Wolff defende que a verdadeira história não é o que foi descoberto recentemente, mas como a ampla divulgação dispersou a atenção, desviando-a de Trump para um número crescente de figuras periféricas — uma dinâmica na qual, segundo ele, Trump se apoiou repetidamente para sobreviver a crises passadas. Baseando-se nos encontros de Wolff com Jeffrey Epstein e na sua apresentação de Steve Bannon à órbita de Epstein após a saída de Bannon da Casa Branca, a conversa traça a forma como o ressentimento, a rivalidade e a obsessão com Trump uniram estes homens, mesmo enquanto Trump se apresenta agora como vítima de uma conspiração que envolve jornalistas e antigos adversários.
00h00 - Trump furioso no Air Force One
03h37 - O círculo de influência de Epstein alarga-se
06h54 - O comportamento de Epstein e as suas estranhas contradições
10h03 - A alegação de "exoneração" de Trump é examinada
11h32 - Melania questiona e evita a imprensa
14h58 - Porque é que o processo incomoda Trump?
18:21 - As ligações de Steve Bannon a Epstein
22h02 - O debate sobre a culpa por associação intensifica-se
25h44 - O medo de Trump sobre o que pode vir ao de cima
29h31 - Por dentro do padrão de ressentimento pessoal de Trump
33:05 - Estratégia mediática e indignação seletiva
36:42 - A política da distração e da negação
40h11 - Como Trump reescreve narrativas em tempo real
44h18 - O que este episódio revela sobre a mentalidade de Trump

segunda-feira, setembro 15, 2025

Pode uma pessoa ser um perigoso íman, cujo efeito electrizante e perturbador sobrevive à sua morte?

 

Partilho um vídeo de Agosto de 2023 por continuar a ser actual. Nessa altura, tal como antes e tal como depois e, na verdade, tal como agora, Epstein continua a ser um mistério que ninguém consegue deslindar. Jornalistas de todo o lado têm investigado a fundo e a conclusão é sempre a mesma: não conseguem perceber que pessoa era aquela, como se movia por tantos e tão poderosos meios, de onde lhe vinha a fabulosa fortuna, como atraía tantas pessoas que pareciam decentes e que, no entanto, sabendo-o um pedófilo compulsivo já condenado, continuavam a frequentar as suas casas e a manter tão dedicada amizade com ele.

Eric Weinsten está na mesma e conclui que para tal só pode haver uma explicação: acha ele que Jeffrey Epstein era uma construção, um ser forjado, era a pessoa que aparecia mas que, na realidade, atrás dele estaria uma estrutura, provavelmente os serviços secretos. Não é uma dúvida inédita. Que ele seria um agente da CIA ou da Mossad, um agente treinado para agir na base da chantagem -- e que 'agarraria' pelos testículos (pardon my french) tudo o que era gente poderosa, da política aos negócios, passando por cientistas, gente relevante do mundo universitário -- é rumor que circula desde há muito.

Não sei, claro. Se meio mundo que o investiga não consegue agarrar as pontas e ir atrás delas, claro que não era eu que ia saber. 

O que sei é que talvez algumas séries ou filmes que se façam sobre ele venham, através da ficção, revelar-nos algo de mais concreto do que hoje há.

E o que sei também é que, apesar de Epstein ter sido encontrado morto numa cela -- em que toda a gente que conhece o lugar e que o conhecia a ele diz que era impossível ter sido um suicídio e que tais ideias não lhe passavam pela cabeça -- o tema tem tais difusos contornos que continua a marcar o dia a dia da política americana, com muita gente a dizer que grande parte do que Trump faz é para desviar as atenções do tema pois toda a gente, Magas incluídos, querem que os ficheiros do caso sejam divulgados.

Seja como for, aqui fica o registo desta curiosa entrevista. 

[E aqui fica prometido que amanhã contarei como fiz as almôndegas a la italiana que, felizmente, foram consensualmente aprovadas e que não apenas foram servidas ao almoço como, com um ligeiro twist, vieram a ser também parte substancial do lanche ajantarado. Hoje já é tarde, se me ponho a dar a receita completa, deito-me tarde de mais. E agora vou tomar um relaxante muscular. O que tomei ontem, ao deitar, fez-me bem, mas a seguir ao almoço, tive que tomar um ben-u-ron de 1gr. Fiquei melhor enquanto fez efeito mas agora já estou, outra vez, bem apanhada. Portanto, mesmo que estejam para aí a lamber-se por umas almôndegas bem cheias de molho, bem italianadas, terão que esperar por amanhã. Mas guardem um bocadinho de pão para ensoparem no molhinho, ok? Quem vos avisa, vosso amigo é.]

The Night I Realised Epstein Wasn’t Normal - Eric Weinstein


E, já agora, um vídeo muito recente que faz uma resenha corrida de alguns factos e 'achados' relativos a esta personagem misteriosa.

The DISTURBING THINGS Found Jeffrey Epstein's Home


Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda feira.

quarta-feira, agosto 06, 2025

Papa João Paulo II, Fidel Castro, Woody Allen, Mick Jagger, etc., etc. -- todos em fotografias com Epstein na sua galeria de conhecidos e amigos

 

Ver mais imagens da casa de Epstein em NY aqui ou aqui

Se há personagens misteriosos e fascinantes, sem dúvida que Epstein é um deles. Já vi uma série na Netflix sobre ele, já li muitos artigos, já ouvi entrevistas com quem o conheceu bem, e, no ponto em que estou, o meu desconhecimento sobre a sua vida e sobre a sua motivação permanecem totais.

Vejo que ninguém conseguiu descortinar a proveniência da sua extraordinária fortuna. Identificam-se algumas parcelas, mas nada que atinja a totalidade, identificam-se algumas alavancas (pessoas a quem ele pode ter burlado ou manipulado) mas, identicamente, nada que justifique o brutal amontoado de bens. Em tudo o que vejo e leio a conclusão é a mesma: não se compreende de onde veio toda a sua extraordinária fortuna.

Há muita gente que pensa que parte da sua fortuna proveio de chantagem. Havia câmaras por todo o lado. Milhares de horas de gravações. Muitas fotografias, algumas guardadas no seu cofre. Para alguma coisa seriam. Mas pode a chantagem atingir valores desta natureza? E, de resto, nas fotografias, se algumas daquelas pessoas estavam a ser chantageadas, pareciam felizes por sê-lo.

Já ouvi diversas referências a ele ter sido apontado como um activo da Mossad e/ou da CIA, que interviria em situações de chantagem, e isso justificaria parte do secretismo de que as denúncias e os processos judiciais sempre parecem ter estado revestidos. Mas, sendo tudo secreto, como saber se isso é verdade ou se é mais uma das muitas teorias da conspiração em que a cultura americana é fértil?

E é tudo muito estranho. Vindo de uma família 'normal', sem riqueza, não acabou nenhuma licenciatura mas, não se percebe como, conseguiu enganar um prestigiado colégio onde deu aulas de matemática. Por ser lá professor, foi contratado como analista financeiro para uma empresa. Depois, por lá trabalhar e por desviado dinheiro, foi contratado por quem queria uma pessoa com o perfil dele, ambicioso, inteligente, fura-vidas, sem escrúpulos. Aí geria um esquema fraudulento em pirâmide e, claro, pessoa de 'confiança, cativante, insinuante, tornou-se próximo do big boss, a que se aliou e com quem burlou meio mundo. Quando a fraude foi descoberta, o big boss foi preso, mas ele, milagre, safou-se. E assim foi andando e, em pouco tempo, já tinha conseguido comprar casarões, mansões, um big rancho, uma ilha privada, um avião, um helicóptero, arte a gosto e a eito, pagar a não sei quantos funcionários, pagar 200 dólares a cada miúda que ia fazer um serviço e 200 a cada miúda que arranjava outra, e era normal haver desses serviços três vezes por dia, pois, segundo diziam, sexualmente, era insaciável -- e, sempre, em tudo, à grande e à francesa. 

Pelo meio, tudo o que era CEO das grandes empresas americanas, políticos e académicos e gente do cinema, cientistas, prémios Nobel, realeza, tudo estava caído nos encontros que ele organizava, uns meramente de tertúlia (embora sempre houvesse meninas a circularem pelas casas), outros de pedofilia pura e dura. Toda a gente lhe conhecia a fama. E mesmo depois de ter sido condenado e cumprido uma pena (ridiculamente baixa), ou seja, mesmo depois de ser público que era comprovadamente um pedófilo compulsivo, continuou a reunir em volta de si a habitual corte de amigos e admiradores. Como se ser pedófilo fosse coisa de somenos. Foram identificadas centenas de vítimas mas admite-se que possam ultrapassar as mil. Não só abusava delas como as traficava. Ele e o seu alter ego feminino, a sinistra Ghislaine Maxwell, presença constante na sua vida. 

Era também um conhecido filantropo. Oferecia dinheiro a rodos para partidos, para associações de beneficência, para pagar estudos e investigações, para bolsas. Dizem que parecia sempre bem informado e toda a gente gostava de falar com ele. Prestava atenção, parecia ter estudado os assuntos. Diziam-no uma pessoa interessante, interessada, afável, cativante. 

Apesar da sua reputação e do seu cadastro, parecia que as pessoas gostavam de ser vistas com ele. Ou, então, era ele que gostava de ser visto com elas. Nesta história não consigo perceber os contornos de nada.

Nas revelações que hoje vieram a público no The New York Times e já com reflexo noutros media, nas molduras de uma das suas incríveis casas, em Nova Iorque, há fotografias dele a visitar o Papa, dele com Fidel Castro, dele com Musk, dele com Mick Jagger, dele com Woody Allen. Muitas fotografias. Não se vê ninguém com ar de ter sido torturado para ali estar a sorrir. Todos parecem felizes, aparentemente descontraídos e orgulhosos por estarem em tão importante companhia. 

Leio que era visita do Palácio Real britânico e que, aparentemente, emprestou dinheiro a Sarah Ferguson, a ex do Príncipe Andrew. A teia de amizades vai sendo revelada, parece infinita. E inexplicável. Como chegou ele a tanta gente? E para quê?

E depois há o seu grande amigo, Best Friend Forever, Trump. Li que se zangaram não por Epstein ter 'roubado' uma menina de 16 anos que trabalhava em Mar-a-Lago mas porque Trump deu cabo de um negócio imobiliário milionário que Epstein queria fechar. Dizem que Trump seria testa de ferro de oligarcas russos. E aqui entram os russos, de mão dada com Trump? Outra teoria da conspiração? Ou outra vertente do mistério?

Questiona-se também qual o papel de Melania no meio deste filme. E as hipóteses que tenho ouvido são todas igualmente bizarras. E, também aqui, o mistério tem contornos imprecisos.

Os grandes jornais americanos não estão a largar o que a Justiça americana, pela mão de Trump, anda a querer esconder.

Não sei se alguma vez vamos perceber os contornos desta história mirabolante mas, pelo que se vê, entretanto vamos continuar a ser brindados com novos episódios que, em vez de revelarem, ainda adensam mais o mistério sobre esta estranha nebulosa.

Para quem não consegue ver o artigo que hoje está a bombar no NY Times, aqui fica um vídeo onde se fala disso.

A Disturbing New Look at Jeffrey Epstein's NYC Mansion

New photos reveal strange statues, cryptic and disturbing letters, and the presence of long-rumored hidden cameras inside the townhouse on Manhattan's Upper East Side. 


Desejo-vos dias felizes

sexta-feira, julho 22, 2022

Em férias, pouco tenho a dizer.
Por isso, com vossa licença, a palavra aos chefes dos espiões

 

Estou num daqueles dias. Adormeço por dá cá aquela palha. Os dias a sul têm estado quentes, difíceis de estar ao sol. Não têm sido férias iguais a outras. Desde que os meus filhos eram adolescentes que não saíamos para férias em família. Além disso, mesmo nós dois, há dois anos, com a pandemia, que não saíamos. Agora parece que os tempos da sarna acabaram. Ninguém usa máscara, há gente por todo o lado, parece que nada aconteceu pelo meio. O meu marido ainda anda com o frasquinho de álcool gel mas eu, salvo situações mesmo merecedoras, já me deixei disso.

De tarde, fui saber se ainda havia hora de massagem para hoje. A menina devia ter tido uma desistência e disse, toda animada, que só se fosse naquele preciso momento. Respondi que por mim poderia ser mas que não tinha trazido nenhuma máscara. Uma salinha fechada e ela em cima de mim pareceu-me proximidade e risco a mais. Diz ela, continuando animada: 'Ah, não faz mal... não é preciso...!'. Temendo desiludi-la, arrisquei: 'Mas é por mim... eu é que prefiro. Será que me arranja uma?'. E ela arranjou-me e eu pus-me nas mãos dela. Difícil foi escolher o tipo. Todas com nomes artilhados, cada um sugerindo milagres. Optei pela mais simples. Uma hora para me rebalancear, seja lá o que isso for. No fim estava tranquila, zen, tão balanceada como antes. 

De manhã, fomos passear pelo centro da cidade não só porque estava com saudades como a minha mãe estava com uma certa carência de andar a ver montras. Com o sol que estava, um chapéu novo veio-lhe mesmo a calhar. E eu, que juro a pés juntos que não preciso de roupa até aos últimos dias da minha vida (mesmo que dure até aos 200) cedi à tentação de um vestido verde escuro com umas flores azuis. A vendedora era muda mas entendemo-nos gestualmente. Uma simpatia. Quinze euros. Vesti-o por cima do macaco que trazia vestido e ela segurou um espelho grande. Depois, semicerrando os olhos, fechou os dedos da mão direita, levou-os aos lábios como se soltasse um beijo de apreço. Também gostei. Enquanto isso, o meu marido fazia tempo passeando o cão. Quando cheguei ao carro, disse com aquele seu ar jocoso: 'Vieste de Lisboa de propósito para comprar um vestido nas barracas de Lagos'. Não são barracas, são umas tendinhas em que os vendedores são uns ciganos e ciganas que são uma simpatia. E têm vestidos giríssimos e muito em conta. 

E, portanto, com estes calores, tem sido uma semana à maneira. Trouxe um livro mas não me sobra tempo. Termos trazido o nosso urso cabeludo tem sido uma experiência e tanto. O balanço, ao fim de uma semana, é que penso que não é lá grande ideia nem para ele nem para a família. O hotel é dog friendly (e o dog paga diária), temos ido a restaurantes dog friendly, a praias dog friendly. Mas o animal não descansa, quando alguém se aproxima fica num stress e nós também estamos condicionados. Acho que, para a próxima, vamos apostar no hotel para cães

Quase não tenho feito fotografias. Há sempre tanta coisa que nem me dá tempo. 

Claro que não sei de notícias ou fofocas. Estou completamente out. Não sei de nadica de nada. Antes de abrir o blog espreitei o Guardian e vi alguns vídeos. Não sei se é bom, se é mau andar alienada mas é assim que me sinto, fora deste nosso mundinho. Preocupada com ele mas a gostar de estar fora.

Por isso, não estranhem se, na ausência de conversa própria, me dedique a partilhar este vídeo que versa aquele tema que me tem consumido. Quero perceber, ver sob diferentes ângulos.

Former spy bosses discuss Ukraine and Putin's invasion - BBC Newsnight

The former heads of MI6 and the CIA gathered at Bletchley Park for a book launch and wanted to talk Ukraine and Russia.  


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As pinturas de Yue Minjun estão aqui apenas para não me esquecer que em qualquer circunstância é bom arranjar um espaço para a gente se rir

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Desejo-vos uma feliz sexta-feira
Boa sorte. Boa onda. Saúde. Paz.

domingo, outubro 28, 2018

Profissão: espião


Há coisas extraordinárias. Isto para não dizer estranhas. O algoritmo do YouTube não apenas pensa bem (já que, a partir das minhas pesquisas e da forma como me comporto, demorando-me mais ou menos ou nada em alguns assuntos, me faz sugestões surpreendentes) como, por vezes, parece que adivinha o que me pode interessar apenas a partir de situações da minha vida e do que delas penso -- e sobre as quais, de certeza absoluta, não deixei qualquer pegada digital. 

Enfim.

Hoje trouxe-me o vídeo que abaixo partilho convosco e que se relaciona com algo sobre o qual nunca fiz pesquisas ou sobre o qual nunca antes escrevi o que quer que seja. Como chegaram à conclusão que é tema ao qual não sou indiferente, é um mistério. Coincidências.

Mas já que o safado do YouTube parece que quer desafiar-me, não me faço rogada e deixo aqui um brevíssimo apontamento. No outro dia, apanhei já a meio uma entrevista que, tivesse eu sabido dela, teria visto com atenção do princípio: na RTP 3 o ex-director do SIED, Jorge Silva de Carvalho. Tudo o que ele disse é mais interessante do que, à vista desarmada, pode parecer. E remeteu para outras conversas, noutros lugares, com outras pessoas que frequentam os mesmos meios que ele, antes de se afastar, frequentou. São meios sobre os quais, naturalmente, pouco se sabe mas que, a meus olhos, são fascinantes. Gostava de poder falar mais sobre estas matérias, sobre a forma como 'os trabalhos' são preparados, muitas vezes longamente preparados, abrangentemente preparados, sobre a empatia que é preciso que se estabeleça com as pessoas que, sem o saberem, estão a passar informações, sobre os meios usados, sobre os indícios de que alguma coisa se pode estar a passar. Mas não o vou fazer pois são assuntos cujo conhecimento, se não usado com sensatez, facilmente pode degenerar em paranóia. 

Passo, pois, directamente para o vídeo que o YouTube me sugeriu: a anterior Chefe de Disfarces da CIA, Jonna Mendez, explica como é que os disfarces são usados na CIA, e que aspectos, alguns de pormenor, podem ser usados para tornar o disfarce credível.


quinta-feira, março 09, 2017

Televisões e smartphones usados para efeitos de espionagem.

WikiLeaks publishes 'biggest ever leak of secret CIA documents'
The 8,761 documents published by WikiLeaks focus mainly on techniques for hacking and surveillance

-- De facto, o admirável mundo novo tem qualquer coisa de deveras assustador --




Há coisas que se intuem mas que, em concreto, se desconhecem e que, quando uma pequena ponta é revelada, nos levam a perceber que a tecnologia já avançou para campos nos quais os sistemas políticos ainda não conseguiram penetrar.

Sempre achei que a tecnologia avança mais rapidamente do que a capacidade de as organizações se adaptarem. É frequente, em diversos contextos, eu dizer isto.

Há temas que, por não terem que ver com questiúnculas caseiras ou fofocas internacionais, nos passam ao lado. Mais: se alguém fala delas, tende a passar por alarmista ou por ser fã da teoria da conspiração. Acreditem: não é o meu caso. 

Digo com convicção que acho que não sei como vai ser possível travar o avanço de práticas que são absolutamente contrárias à liberdade, ao respeito pela privacidade e, em última análise, à democracia e que se relacionam com a utilização, em roda livre, da tecnologia.

Afirmações destas não deveriam ser escritas num espaço destes em que tanto falo de assuntos mediamente sérios ou hilariantes, como invento histórias, como me atiro à incompetência de Carlos Costa ou à irresponsabilidade e falta de chá de Passos Coelho. Mas este é o meu espaço e, portanto, é aqui que também falo de assuntos que, francamente, me preocupam.

Enquanto é tempo (e eu, na verdade, não sei se ainda se vai a tempo), as sociedades democráticas deveriam eleger um conjunto de assuntos transversais (isto é, independentes de linhas partidárias) e, num pacto de regime, abordá-los de forma muito responsável. E isto deveria escalar para níveis supra-nacionais pois não são assuntos de um ou outro país em particular. 

Um dos temas que deveria ser encarado com seriedade é este: a tecnologia avança de uma maneira veloz e caótica, pondo em risco os regimes democráticos. A tecnologia é barata, está disponível de forma ubíqua e a sua utilização é a que se quiser. Miúdos em casa, malucos onde calhar, gente mal-intencionada -- todos podem fazer uso desregulado da tecnologia. Computação e comunicações baratas à disposição de todos. Mesmo que se queira, não é possível legislar à velocidade a que a tecnologia avança.

Vault 7: CIA Hacking Tools Revealed


Já no outro dia aqui publiquei um texto que o meu filho escreveu sobre o aproveitamento da vasta e detalhada informação das redes sociais com o objectivo de manipular o sentido de voto (e de que a eleição de Trump é exemplo).

As notícias que agora leio sobre isto da internet das coisas ao serviço da espionagem deixam-me ainda mais preocupada. Não sei se a televisão lhes deu o devido destaque mas sei que fui ao Expresso e não encontrei nada. O critério de selecção e alinhamento das notícias é outro dos preocupantes factores que nos estão a levar à alienação colectiva. Pode o mundo estar a perder o pé que as televisões e muitos jornais preferem dar relevo a tricas domésticas sem qualquer importância.

Transcrevo breves excertos do que acabo de ler (e, para o efeito, nem presto muita atenção ao facto de poderem ou não ser os russos a estarem por detrás desta monumental fuga de informação sensível ou que a actuação da CIA aqui referida tenha acontecido no período Obama -- e não presto muita atenção porque acho que o problema é, na verdade, tão mais grave quanto, neste momento, escapa ao controlo de qualquer organização):


Microsoft, Samsung e Apple investigam revelações da WikiLeaks


A WikiLeaks revelou na passada terça-feira mais de 8000 documentos confidenciais da CIA. Nos mesmos, são explicadas várias táticas de espionagem e hacking (pirataria informática) que a agência de segurança norte-americana utiliza. Entre as alegações, foi destacada por todo o mundo a possível capacidade de a CIA conseguir iludir a segurança de smartphones e televisões para efeitos de espionagem.

A Samsung também reagiu, mas com declarações mais curtas. De acordo com a WikiLeaks, nos mais de 8000 documentos divulgados, a marca poderia ter as suas televisões, mais concretamente a série F8000, de acordo com a BBC, a serem usadas para espionagem através dos microfones do aparelho.



FBI's James Comey: 'There is no such thing as absolute privacy in America'


FBI director’s assessment deepened privacy concerns raised by the details of CIA tools to hack consumer electronics for espionage published by WikiLeaks

“All of us have a reasonable expectation of privacy in our homes, in our cars, and in our devices. But it also means with good reason, in court, government through law enforcement can invade our private spaces,” Comey said at the conference on Wednesday. “Even our memories aren’t private. Any of us can be compelled to say what we saw … In appropriate circumstances, a judge can compel any of us to testify in court on those private communications.”

  • CIA hackers targeted smartphones and computers.
  • The Center for Cyber Intelligence, based at the CIA headquarters in Langley, Virginia, has a second covert base in the US consulate in Frankfurt which covers Europe, the Middle East and Africa.
  • A programme called Weeping Angel describes how to attack a Samsung F8000 TV set so that it appears to be off but can still be used for monitoring.


A CIA attack system called Fine Dining provides 24 decoy applications for CIA spies to use. To witnesses, the spy appears to be running a programme showing videos, presenting slides, playing a computer game, or even running a fake virus scanner. But while the decoy application is on the screen, the system is automatically infected and ransacked


WikiLeaks publishes massive trove of CIA spying files in 'Vault 7' release



"'Year Zero' introduces the scope and direction of the CIA's global covert hacking program, its malware arsenal and dozens of "zero day" weaponized exploits against a wide range of U.S. and European company products, include Apple's iPhone, Google's Android and Microsoft's Windows and even Samsung TVs, which are turned into covert microphones," the organisation said in a release.


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ALERT! 

Wikileaks claims CIA HACKS TVs & Phones WORLDWIDE



Este é o pouco recomendável mundo novo que habitamos.

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Há um lado intrinsecamente transgressor em tudo isto, uma voragem fora de controlo, uma coisa que junta a criatividade com o abuso, a genialidade com a loucura e o aventureirismo com o disparate puro e duro.

E eu, face a tudo isso, se não me levam a mal, prefiro ver coisas como esta aqui abaixo.
Belas, divertidas e inócuas.


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Um dia feliz para todos. 
Apesar de tudo.

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terça-feira, dezembro 23, 2014

"Alzheimer espiritual", "terrorismo da má-língua", "carreirismo", "oportunismo" são algumas das 15 doenças da Cúria que o Papa Francisco denunciou perante o incómodo de bispos e cardeais. [E, a propósito de maldade extrema, alguém sabe quem é a Rainha da Tortura, a tão enigmática 'Queen of Torture'?]


No post abaixo partilhei o episódio especial de Downton Abbey feito para ajudar a angariar fundos numa festa de beneficência anual inglesa. É uma paródia pegada e é um prazer ver aqueles personagens a divertirem-se tão abertamente. É que não são apenas os actores que se divertem, são os próprios personagens. Uma festa.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


E, se concordarem, vamos com The River Live na interpretação de Joni Mitchell.





Devo dizer que quando ando com um tema atravessado mas não sei por que ponta lhe pegar, temendo não o fazer da forma mais apropriada, parece que fico com as ideias presas pois tudo o que não seja aquilo em que estou a pensar me parece coisa pouca.

Podia falar e pronto, desaparecia a ânsia. Mas não se pode falar com ligeireza ou leviandade de temas que devem pesar, doer, ferir a nossa consciência. Nem se pode errar.

Ora nem eu tenho tempo para grandes investigações nem tenho a disponibilidade mental para me livrar da ligeireza que, por vezes, parece cobrir a minha escrita. Estou cheia de trabalho e, pelo meio, tenho que arranjar tempo para pensar no que tenho que comprar para preparar a parte que me compete na ceia de Natal que não vai ser em minha casa e mais os ingredientes para o almoço que vai ser cá em casa e mais presentes de última hora e mais as coisas normais de casa.

E, enquanto isso, ando com a maldita ideia que não me sai da cabeça. Já pensei passar ao lado, ser-me-ia mais cómodo não me aventurar por territórios que não conheço, que não vejo na nossa imprensa, que não me é fácil confirmar. Mas como, se isso por aqui anda permanentemente a tolher-me os movimentos? 

Ainda não vai ser hoje mas, para ver se me amarro já a um compromisso de forma a não poder libertar-me, digo já que o tema é a tortura.


A tortura a que os Estados Unidos submeteram prisioneiros, sevícias impensáveis. Através de relatórios falsos em que se fazia a apologia da eficácia de métodos bárbaros, indignos, desumanos, os EUA foram-se auto-desculpando e ganhando a cumplicidade de muitos Estados para poderem continuar a fazê-lo.


Afinal, sabe-se agora, aquela barbaridade era contraproducente em termos de resultados de interrogatórios, e, portanto, de uma ponta a outra, tudo não passou de um embuste, de selvajaria gratuita.

Os portugueses como vários outros povos sabiam e fechavam os olhos. Aviões com prisioneiros...? Ora, deixa-os estar. Aliás, é bem capaz de tudo não passar de mais um desmando da Ana Gomes. E, como temos sempre mais com que nos ralarmos, mostramos que não estamos nem aí.

Ou seja, lavamos as mãos, coisa em que somos especialistas - nós e quase todos os outros. Quando se trata de não ver o que não quereremos ver, é como se fossemos acometidos por uma oportuna cegueira branca.

E isso custa-me muito. Que raça de gente somos nós que nos desinteressamos mesmo quando, no fundo de nós, sabemos que temos razão para suspeitar? Porque deixamos que alguém torture outro ser? ....Porque pensamos que são terroristas e que, portanto, é bom que se faça de tudo para se lhes arrancar confissões? Mas e se não forem? E será necessário fazer-lhes o que agora sabemos que lhes fizeram?

(...) Para além da simulação de afogamento ou da privação de sono (que no caso de um detido ultrapassou sete dias seguidos), o documento refere a imposição de “alimentação anal” e “reidratação anal”, assim como suspeitos com ossos das pernas partidos obrigados a permanecer de pé, acorrentados à parede. O problema não é apenas cada um dos métodos, mas as consequências provocadas pela sua utilização em conjunto, como a simulação de afogamento ou da execução de um detido combinada com privação de sono ou com longos períodos de isolamento. (...)

No entanto, há um pormenor que ainda me angustia mais em tudo isto. Se bem percebi, quem estava por trás de tudo isto, quem ordenava, quem engendrava os procedimentos cruéis, quem chegava a conduzir sessões de sofrimento infligido, quem fazia relatórios enganosos, quem tinha tamanha malvadez dentro do corpo, era uma mulher. Uma oficial da CIA. 


Se bem percebi, as fileiras cerram-se agora em torno desta mulher que não se identifica, que ninguém identifica, que ninguém sabe quem é. Uma mulher. A Rainha da Tortura. Arrepia-me, aterroriza-me pensar numa coisa destas.


Mas temo não ter percebido bem, temo meter-me por caminhos ínvios, por labirintos dos quais não saiba como sair e, por isso, hoje não vou falar nisso.

Mas aqui fica expressa a intenção: a ver se um dia destes, com mais certezas, consigo escrever alguma coisa sobre assunto tão maligno.


Por isso, não falando nisto, quero apenas dizer que, uma vez mais, Jorge Bergoglio, o Papa que me faz ter vontade de me aproximar da Igreja (porque, para mim, Igreja é isto, um lugar de verdade e de inclusão, não um lugar de preconceito e expiação), me voltou a surpreender - tal como terá surpreendido meio mundo.



O Papa Francisco e os 15 pecados que habitam a Cúria


[Permito-me transcrever na íntegra um artigo. Trata-se de um texto intitulado "Do "Alzheimer espiritual" ao "terrorismo da má-língua" - Papa denuncia 15 doenças da Cúria", foi escrito por Ana Fonseca Pereira e publicado no Público.]




Enganaram-se os bispos e cardeais da Cúria que nesta segunda-feira entraram na ornamentada Sala Clementina esperando ouvir as tradicionais felicitações natalícias. 


No discurso aos dirigentes do governo central da Santa Sé, o Papa Francisco denunciou, uma por uma, 15 doenças que afligem a hierarquia da Igreja, do carreirismo, à ganância e ao “terrorismo da má-língua”.


Francisco denunciou com uma severidade inédita as tramas e os métodos daquela que é, desde Março de 2013, a sua “corte”, numa intervenção temperada com palavras de incentivo e até algum bom humor. 

Mas quem assistiu ao discurso, que o correspondente da AFP descreveu como “um banho de água fria”, diz que na sala se viram muitos rostos fechados e tensos. 

A atmosfera contrastou com a informalidade da audiência seguinte, quando familiares e funcionários do Vaticano encheram o auditório Paulo VI e ouviram o Papa elogiar os homens e mulheres “invisíveis” que garantem o funcionamento da cidade e da sua administração.

Uma forma de agir que já se tornou habitual no Papa argentino – que no dia do seu aniversário almoçou com os trabalhadores da residência de Santa Marta e mandou distribuir 400 sacos-cama pelos sem-abrigo de Roma –, mas que promete ressoar muito tempo pelos corredores do Palácio Apostólico, tal a dureza das palavras proferidas. Andrea Tornielli, vaticanista do La Stampa, sublinha que em nenhum momento Francisco referiu nomes e fez questão de dizer que os pecados que trazia listados “são um perigo natural para cada cristão, cada cúria, cada comunidade”. “No entanto, identificou-os claramente como estando presentes no ambiente que o rodeia há 21 meses”, escreveu o jornalista, numa alusão às notícias sobre o clima de conspiração e à oposição cada vez mais audível de alguns sectores do Vaticano às reformas que pôs em marcha na Cúria.

Em vésperas de Natal, o Papa convidou os cardeais a fazerem um “verdadeiro exame de consciência”, pedindo perdão a Deus, “Ele que nasceu na pobreza numa caverna em Belém para ensinar a humildade” e foi acolhido “não pelos eleitos”, mas pelos “pobres e simples”. Ao contrário, afirmou, a Igreja de hoje padece de “infidelidades” ao evangelho e está ameaçada por doenças que é urgente “tratar”.

Numa lista exaustiva, Francisco fez o diagnóstico de 15 enfermidades, descreveu sintomas e apresentou remédios, de uma forma “tão lúcida e conhecedora do assunto em causa que voltou a abalar o estereótipo de um latino-americano que não está habituado às ‘complexidades’ de Roma e da Europa, o argumento que os seus críticos tentaram usar para o neutralizar”, escreve o site Vatican Insider.

Criticou os que ficam demasiado presos à burocracia, os que recusando abandonar as suas tarefas “se esquecem que o mais importante é sentar-se aos pés de Jesus”, ou aqueles que, pelo cargo que atingiram se julgam essenciais e a quem convidou a visitarem os cemitérios “onde estão tantas pessoas que se consideravam indispensáveis”. Foi mais duro, quando denunciou o “Alzheimer espiritual” dos que se afastaram de Deus e “vivem dependentes das suas paixões, caprichos ou obsessões”, ou quando criticou os que se tornaram “vítimas do carreirismo e do oportunismo”, os que protegem os interesses de um círculo fechado e os que “tentam preencher o seu vazio existencial arrebanhando bens materiais”.


Denunciou uma vez mais a cultura da má-língua, mas com palavras duríssimas para um Papa: trata-se, afirmou, da  “doença dos cobardes”, dos “semeadores da discórdia” e “assassinos a sangue-frio” da reputação dos seus irmãos. “Tende cuidado com o terrorismo da má-língua”, afirmou, antes de exortar os presentes a trabalharem pela unidade da Igreja.


Para temperar o duro sermão, Papa terminou com uma nota de bom humor – recordou ter lido algures que “os padres são como os aviões, só são notícia quando caem” – e pediu a todos que mantenham no seu ministério uma boa dose de “auto-ironia e sentido das limitações”. Mas, no final ouviu-se apenas um aplauso tépido e o ambiente continuou pesado mesmo quando Francisco saudou um a um os cardeais para, por fim, lhes desejar Feliz Natal.


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Grande Francisco. Corajoso Francisco. Bem podemos e devemos rezar por ele como ele tanto nos pede.

Que as suas palavras ecoem por todos os centros de poder sejam eles a Cúria, a CIA, os Senados deste mundo, os Bancos das praças financeiras deste mundo, as Comissões (Europeias ou outras), os aparelhos de Estado ou os aparelhos partidários, numa escala global ou numa escala mínima - que parem todos para pensar na vã ilusão da imortalidade e da inimputabilidade, que percebam a sua cobardia e arrogância, que se envergonhem e arrependam.

E que todos aprendamos a cultivar a bondade, a generosidade, a auto-ironia, o sentido das limitações e, já agora, por favor, o bom humor.

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Para Francisco I, com agradecimento e afecto, um tango

Mariposa



Grupo Corpo, música de Ernesto Lecuona

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As fotografias são de Emmanuelle Brisson 

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Relembro: caso vos apeteça ver o vídeo feito por graça pela equipa de Downton Abbey com a participação especial de George Clooney (que esbanja o seu charme pelas mulheres da família, nomeadamente pela impagável Avó Violet), desçam, por favor, até ao post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.

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