terça-feira, maio 28, 2024
Sem palavras
Ao cuidado do João Oliveira e de todos quantos, como ele, ainda não perceberem quem é que está a fazer a guerra
Ao cuidado do João Oliveira e de todos quantos, como ele, ainda não perceberem quem é que está a fazer a guerra
quarta-feira, abril 17, 2024
Homens que escrevem são perigosos...?
Tenho ideia que se costuma dizer que as mulheres que escrevem são perigosas. Mas, se calhar, é mais abrangente.
Na verdade, muita gente tem achado Salman Rushdie perigoso e ele já tem pago, de todas as formas possíveis, as consequências dos riscos que corre ao escrever.
Se antes, as ameaças, o viver sob protecção e tudo aquilo por que passou, certamente lhe deixou algumas marcas, a última situação, o atentado à facada, deixou-lhe marcas físicas muito evidentes. E traumas que parecem também evidentes.
Tudo o que envolve o crime perpetrado contra ele é terrível, a começar pelo sonho premonitório. Nem imagino o que é ter um pesadelo, ficar assustado, ficar sem vontade de ir, e, depois, viver essa situação, sentir-se apunhalado, catorze vezes a faca a entrar-lhe no corpo, não conseguir defender-se, cair a sentir que estava a esvair-se, o chão a encher-se de sangue... Estar às portas da morte depois do terror pelo qual passou deve ser terrível, não saber a extensão e as implicações das lesões... tudo terrível.
Mas ele tem conseguido vencer as ameaças, as más lembranças, os fantasmas, transformando-os em palavras.
Knife
Um livro com uma capa belíssima.
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Salman Rushdie: The 2024 60 Minutes Interview
Andersen Cooper, como sempre, mostra que é um dos grandes entrevistadores do nosso tempo
Salman Rushdie has come to terms with the attempt on his life the only way he knows: by writing about it in his new book. He details the experience in his first television interview since the attack.
quarta-feira, outubro 25, 2023
Mosab Hassan Yousef, filho do fundador do Hamas, depois um dos principais agentes secretos ao serviço de Israel, diz o que pensa (e sabe) sobre o que está a passar-se
[E Yuval Noah Harari reflecte sobre a situação]
--- E a palavra ao grande Eugénio Lisboa ---
[E Yuval Noah Harari reflecte sobre a situação]
--- E a palavra ao grande Eugénio Lisboa ---
Nestas guerras sangrentas, somos todos vítimas.
Mas as vítimas não são todas iguais.
Umas morrem, outras são violadas, estropiadas, roubadas, agredidas, humilhadas, ameaçadas, forçadas a ver o horror.
E depois há as que estão a ver de longe -- nós.
Estamos no bem bom das nossas casas, perto dos nossos, livres de perigo. Somos vítimas mas vítimas numa escala que, de forma alguma, se pode comparar com as que sofrem com o corpo e com a alma a dor e o medo das guerras sangrentas. Somos, isso sim, vítimas da verdade, vítimas de manipulação a que diariamente estamos sujeitos.
Perde-se a perspectiva histórica, opina-se sem se conhecer a total verdade dos factos, fala-se do que não se sabe. O pó que nos entra em casa através das televisões não cobre apenas os corpos ensanguentados: cobre também a verdade que nunca conseguimos, realmente, ver.
Como sou ignorante, tenho dificuldade em dissertar sobre tema tão complexo. Mas tento adquirir informação para conseguir navegar neste mar encapelado e com tão fraca visibilidade.
Nos dois vídeos abaixo, pode pôr-se legendagem automática para português (mas, se o fizerem, não se espantem com gralhas que são de gargalhada...).
Hamas leader's son who became a spy explains what Hamas really wants
Mosab Hassan Yousef, the son of Hamas' founder who later became one of Israel's top informants, speaks with CNN's Jake Tapper about Israel's war on the terror group and the situation in Gaza
Yuval Noah Harari & Rosemary Barton - Israel's war with Hamas
Começo, para não haver dúvidas sobre aquilo a que venho, por dizer que condeno com a maior veemência, o comportamento arrogante, brutal e invasivo que Israel tem demonstrado, ao longo dos anos, para com os palestinianos da faixa de Gaza. Mesmo tendo em conta que Israel passou por períodos altamente perigosos, no começo da sua formação, quando foi atacado por todos ou quase todos os Estados árabes da redondeza, o que lhe terá criado um complexo de “excesso de resposta”, este excesso tem ultrapassado todas as linhas vermelhas de uma desejada proporcionalidade.(...)O fanatismo só pode levar à destruição e faz pena ver uma certa esquerda a pôr-se embevecidamente ao lado de fanáticos religiosos, que os devorarão, assim que tiverem oportunidade. Por detrás destes está um país infernal, tirânico, retrógrado e misógino, que a esquerda – uma certa – não gosta de atacar, porque financia os delírios revolucionários de grupelhos mais ou menos genocidas. Dizia o grande Umberto Eco que “as pessoas nunca são tão completamente e entusiasticamente más, como quando agem em nome das suas convicções religiosas.” Ficam aqui estes avisos destinados àqueles que se referem sempre à triste tragédia do povo palestiniano, esquecendo-se de mencionar o HAMAS, como um dos encenadores dessa tragédia. Com Israel, sim. Juntos.
Peço que o visitem e leiam o texto na íntegra.
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Desejo-vos uma boa quarta-feira
Saúde. Boa sorte. Paz.
sábado, agosto 13, 2022
Quanto menos soubermos, melhor dormimos
Ontem à noite comecei a ler e hoje, ao fim da tarde, li mais um bom bocado. David Satter explica como o que o que se passa na Rússia parece difícil de perceber se for olhado à luz dos valores ocidentais mas que, se soubermos o que é a prática corrente do Kremlin ou de como Putin conseguiu estabelecer-se com o crescente poder que o trouxe até aqui, acabaremos por identificar a repetição de um padrão.
Um conjunto de crimes em larga escala, prédios destruídos durante a noite levando à morte de centenas de pessoas inocentes, atentados que têm como objectivo lançar o terror na população, atribuindo a culpa a cidadãos de um país, criando o ambiente de aceitação para a invasão que irá, depois, ser levada a cabo -- técnicas urdidas a frio. Depois o afastamento ou a a eliminação de quem poderia dar com a língua nos dentes.
Nos corredores do Kremlin, entre a seita que ele lá mantém, as pessoas são mera matéria prima para manobras que têm vários objectivos sendo que nenhum deles parece razoável e moralmente aceitável.
Corrupção, favorecimentos, comportamentos oligárquicos -- um regime que, para sobreviver, tem que abafar a revolta, a resistência. E, para isso, todos os meios são admissíveis.
Olha-se de fora e vê-se ausência de escrúpulos, ausência de moral, ausência de humanidade, olha-se e vê-se um bando de terroristas, de criminosos. E vê-se também a cobardia dos fracos que, pela força, pela mentira, pela manipulação, pela tirania, detêm o poder de matar indiscriminadamente.
O livro saiu agora por cá mas já tem uns sete anos. Ou seja, na altura ainda se estava longe de saber onde a deriva psicopata de Putin e da sua entourage iria levar. As práticas e os crimes descritos, apesar de serem assustadores, são uma pálida amostra do que estaria para vir.
E o diagnóstico não difere por parte de quem conhece e estuda a realidade da Rússia de Putin. Veja-se o vídeo abaixo.
'O monstro frágil': o autor descreve o carácter de Putin
Journalist and author of "Killer in the Kremlin" John Sweeney argues that while Russian president Vladimir Putin is "pathologically enthralled to violence," his strategy in Ukraine is failing
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sábado, julho 16, 2022
Liza não voltará a sorrir
-- À atenção de quem é contra a guerra e quem acha que a guerra devia ter sido evitada --
-- À atenção de quem é contra a guerra e quem acha que a guerra devia ter sido evitada --
Liza Dmitrieva, 4 anos, síndrome de Down. Estava ir ao Centro de Tratamento com a mãe quando foi filmada empurrando o carrinho de bonecas. Foi uma das várias pessoas mortas em mais um ataque russo.
Dirão os pretensos pacifistas que este ataque deveria ter sido evitado...?
Segundo eles, como é que o assassinato de Liza poderia ter sido evitado?
A Rússia invadiu a Ucrânia (que não lhe fez mal nenhum), está a assassinar os ucranianos e a destruir as suas casas, as suas escolas, hospitais, fábricas, teatros, estradas. A Rússia pretende expulsar os ucranianos, numa clara acção genocida, com o confesso objectivo de lhes ocupar o território. Há uns anos ocupou uma parte, agora quer mais. Na verdade, querer, querer, queria era ocupar todo o país. E, se não for travada, será isso que tentará.
A guerra é uma desgraça para quem a sofre e vai ser uma desgraça para todo o mundo, em especial para os mais desfavorecidos. Deveria acabar, claro.
Defendo a paz. Defendo a paz. Mil vezes o direi: defendo a paz.
Mas não defendo que, para haver paz, os ucranianos tenham que ceder território e que a comunidade internacional tenha que aceitar actos de barbaridade como se fossem actos normais. Não são. Actos bárbaros não podem ser aceites. A bem do futuro da humanidade, o terrorismo e a barbárie não podem ser aceites.
Defendo a paz. Mas jamais aceitarei que assassinar crianças, mulheres, velhos que vivem pacificamente no seu próprio país seja irrelevante ou uma consequência razoável da não cedência perante os actos terroristas de Putin.
Defendo a paz. Mas jamais defenderei que, para a alcançar, um país tenha que ceder parte de si sob ameaça de um ditador psicopata.
Tal como Hitler jamais merecerá perdão, também Putin jamais merecerá perdão ou esquecimento. Jamais. Tal como não merecem perdão os que, perante a barbaridade destes crimes, não são capazes de os renegar.
De entre estas pessoas, destacam-se os apoiantes do PCP. Depois do choque inicial, já não me admiro muito. Ao princípio, sim. Ao princípio fiquei atónita, não queria acreditar. Agora já não me espanto. Já percebi que nada os demove. Na realidade serão os mesmos que também acharam bem a invasão, in illo tempore, da Checoslováquia. Serão os mesmos que aceitam com naturalidade os milhões de mortes às mãos de Estaline. Serão os mesmos que não ficam chocados com o regime ditatorial e absurdo de Kim Jong-un. Claro que, in between, dizem que defendem os trabalhadores mas defendem-no de uma forma desfasada da realidade, agarrando-se a parangonas que talvez tenham feito algum sentido há dezenas de anos mas que já não fazem agora. Claro que há coisas que defendem que podem fazer algum sentido. Mal fora. Mas também o Chega há-de ter algumas que se aproveitam. O pior é o resto. E o resto é mau demais. Sempre que se está do lado dos ditadores está-se do lado do mal.
Câmara de vigilância captura ataque russo - criança de quatro anos morta
A Rússia atacou Vinnytsia no centro da Ucrânia na manhã de quinta-feira. Liza Dmitrieva, 4, foi uma das vítimas.
sábado, agosto 04, 2018
Quanto a Alia Ghanem, só para dizer que toda ela e todo o ddécorque a rodeia são uma graça.
Quanto ao reso, mãe é mãe.
Quanto ao reso, mãe é mãe.
A maquilhagem garrida, o colorida da farpela, os naperons, o que Alia diz -- tudo aquilo parece coisa de outro tempo, de outro espaço, de uma outra dimensão.
![]() |
| Osama bin Laden (second from right) on a visit to Falun, Sweden, in 1971. Photograph: Camera Press |
Sitting between Osama’s half-brothers, Ghanem recalls her firstborn as a shy boy who was academically capable. He became a strong, driven, pious figure in his early 20s, she says, while studying economics at King Abdulaziz University in Jeddah, where he was also radicalised. “The people at university changed him,” Ghanem says. “He became a different man.” One of the men he met there was Abdullah Azzam, a member of the Muslim Brotherhood who was later exiled from Saudi Arabia and became Osama’s spiritual adviser. “He was a very good child until he met some people who pretty much brainwashed him in his early 20s. You can call it a cult. They got money for their cause. I would always tell him to stay away from them, and he would never admit to me what he was doing, because he loved me so much.” (...)
“He was very straight. Very good at school. He really liked to study. He spent all his money on Afghanistan – he would sneak off under the guise of family business.” Did she ever suspect he might become a jihadist? “It never crossed my mind.” How did it feel when she realised he had? “We were extremely upset. I did not want any of this to happen. Why would he throw it all away like that?”(...)
Ghanem moved to Saudi Arabia in the mid-1950s, and Osama was born in Riyadh in 1957. She divorced his father three years later, and married al-Attas, then an administrator in the fledgling Bin Laden empire, in the early 1960s. Osama’s father went on to have 54 children with at least 11 wives. (...)
E muito obrigada, Paulo. As músicas que enviou são muito do meu agrado. E as suas palavras dão-me a conhecer um mundo que me é totalmente desconhecido. Agradeço-lhe.
sábado, julho 01, 2017
Pois eu, com vossa licença, a propósito do roubo de munições do paiol de Tancos,
se fosse ao Costa, demitia o Ministro da Defesa Azeredo Lopes.
E, naturalmente, se eu fosse o Ministro, antes que fosse preciso chegar a esse ponto, demitia-me eu.
[A menos, claro, que queira suceder ao Solnado nas suas rábulas da guerra]
E o Presidente Marcelo, Comandante Supremo das Forças Armadas, agora não tem nada a dizer...?
se fosse ao Costa, demitia o Ministro da Defesa Azeredo Lopes.
E, naturalmente, se eu fosse o Ministro, antes que fosse preciso chegar a esse ponto, demitia-me eu.
[A menos, claro, que queira suceder ao Solnado nas suas rábulas da guerra]
E o Presidente Marcelo, Comandante Supremo das Forças Armadas, agora não tem nada a dizer...?
Por isso, não condeno na praça pública José Sócrates já que ainda nem acusado foi (quanto mais condenado) e, também por isso, não ando para aqui a pedir a demissão da ministra Constança Urbano de Sousa.
Contudo, há situações e situações. Por exemplo, acho que o que se passou nisto do roubo de material de guerra do paiol de Tancos é de tal forma grave, aberrante, incompreensível e perigoso que acho que o responsável pela área deve assumir as suas responsabilidades. Deve. Não digo que 'tem que', digo que 'deve'. É uma questão moral face à gravidade e ao risco potencial do que está em causa.
Se não tinham dinheiro para montar um sistema capaz, fizessem um contrato com a Prosegur ou com a Securitas. E pode parecer que estou a ironizar mas não estou. Proteger uma casa, um armazém ou o que for não é nenhuma fortuna. Não é, mesmo. E que fosse. Os riscos de haver granadas, lança-morteiros, munições de calibre não sei quantos e sei lá que mais nas mãos sabe-se lá de quem são imensos. E imensamente graves.
Tenho pena mas é isto. Não confio num ministro em cujas barbas é cometida tal coisa. E pode ele nem ter barbas ou não ter estado lá dentro a facilitar as movimentações dos ladrões: não interessa. Com uma coisa destas não se brinca e os paóis têm que estar bem guardados, à prova de bala -- e não vulneráveis e desprotegidos como provaram estar. Que se ande em convénios internacionais a debater a segurança, em encontros com os congéneres europeus a traçar planos contra o terrorismo e que, afinal, não se cuide de garantir que todo o material sensível à guarda das Forças Armadas está seguro parece-me de uma gravidade extrema. Ou seja, e uma vez mais, lamento dizer isto mas não tenho como não dizê-lo: o ministro Azeredo Lopes deveria sair pelo seu pé ou, se não, então, o Costa deveria indicar-lhe o caminho da porta.
(E, de carrinho, idem com o responsável pelo paiol, o responsável pelo quartel... e todos os que estão na linha hierárquica até chegar ao general Rovisco Duarte).
E, Marcelo, sempre tão lesto a comentar tudo, agora fica caladinho...?
Não é ele o Comandante Supremo das Forças Armadas?
Só que agora o caso não é para rir.
domingo, junho 04, 2017
As flores e os frutos in heaven
[E os atentados em Londres
(e outras pequenas considerações)]
[E os atentados em Londres
(e outras pequenas considerações)]
Claro que, durante o dia, mal as ameixas fiquem pintadinhas, farão o mesmo que fazem a toda a fruta: chamar-lhes-ão um figo. Entretanto, para memória futura, fotografo-as enquanto estão assim, como aqui se vê, formosas, a quererem amadurecer.
Mas é um refúgio, uma excepção. No mundo lá fora, as pessoas engendraram mundos que as aprisionam, as desgastam, lhes retiram a alegria dos prazeres elementares. Tantas pessoas com depressões, tantas pessoas desgastadas, tantas pessoas enervadas por vezes com situações frívolas (comentários desagradáveis nas redes socias ou olhares de soslaio nas pequenas terras do interior, por exemplo). Parece que as pessoas se vêm esquecendo de como é bom descansar, andar no campo, ler um livro, escrever uma carta, conversar calmamente -- sem ser de copo na mão (como vejo tantos jovens ao fim do dia a conviverem, todos de copo ou garrafa na mão) -- experimentar o prazer da generosidade, sorrir, dar a mão.
Vejo ambulâncias, ruas cortadas, confusão. Eu aqui, tranquila nesta sala silenciosa, a escrever sobre flores e pássaros enquanto, num dos centros mais nevrálgicos do mundo ocidental, morre gente e outros sobrevivem, mas com feridas, a mais um momento de terror nas ruas supostamente pacíficas, cheias de gente que convive ao fim de semana à noite.
Tempos tristes estes em que parece querer anunciar-se o fim dos tempos, pelo menos dos tempos bons, aqueles inocentes tempos em que ver um arco-íris era uma festa, em que acreditar no amor nos enchia os corações e em que dávamos valor às coisas insignificantes e boas desta vida. E em que a poesia e a palavra em geral eram raiz e coroa da nossa existênia.
sexta-feira, maio 26, 2017
Face ao terror que derruba inocentes eis que se levanta o poder da palavra
Que outra força pode transformar a emoção em força? Que outra força senão a da palavra? Que outra força transforma o espanto e o terror em coragem? Que outra força transforma o emudecimento em palavras senão a da poesia?Tony Walsh, conhecido por Longfella (por ser muito alto) leu um poema seu na vigília pelas vítimas em Manchester e emocionou a multidão.
Vejam, por favor.
quarta-feira, dezembro 28, 2016
2016
Não sei se já alguma vez fiz um balanço de um ano que passou, coisa como deve ser, rigorosa, pensada. Só a nível profissional e é porque a isso sou obrigada. Chego a Dezembro e lembro-me lá eu bem do que aconteceu lá para trás. Não me lembro e estou-me nas tintas para isso. Posso ter uma ideia geral. Mas de que serve isso, agora que já passou?Neste tempo de reacções exacerbadas e efémeras, de que serve a reflexão sobre o que passou?
Mas grandes obras, grandes livros, grandes pinturas, grandes músicas, grandes esculturas, grandes coreografias, grandes filmes, etc, etc,... assim que agora possa destacar não estou a ver. Contudo, talvez seja lapso de memória da minha parte.
Nas ciências, certamente por ignorância minha, mas também talvez devido à fraca visibilidade de um mundo que parece viver muito em circuito fechado, talvez devido ao estupidificante desinteresse da comunicação social, também não consigo pronunciar-me.
E agora, assim de repente, acho que mais nada que valha a pena figurar aqui. Ou melhor, haver mais, há. Se calhar o mais importante nem está aqui. Mas são coisas cá minhas.
quinta-feira, julho 28, 2016
Adel, Ali e o filho dos pais que, ao meu lado, tão angustiadamente falavam
- ou os riscos de atentados terroristas nesta desorientada Europa
- ou os riscos de atentados terroristas nesta desorientada Europa
Esqueço-me frequentemente que o meu corpo tem limites que a minha mente desconhece e o resultado disso é que, volta e meia, tenho umas 'cenas'. Nada de mais, pelo menos até ver (noc, noc, noc - três vezes na madeira) mas há exames, análises, médicos, ou seja, maçadorias adicionais e, sobretudo, recomendações de repouso, repouso, repouso.
Era um casal talvez com uns quarenta e tais, classe média (a classe média portuguesa que é pouco mais do que remediada). Falavam do filho, agora com 19 anos. Que estava cada vez mais estranho, que não estudava, que dizia que não valia a pena porque depois não há trabalho, que passa os dias fechado no quarto de roda do computador, que ouve músicas muito estranhas (o pai acrescentava: pesadas; e depois contava que o filho lhe tinha perguntado se não havia nenhuma música com a qual se identificasse e que ele tinha respondido que não, e depois virava-se para a senhora da recepção e dizia: está a ver? Tem conversas destas, cada vez mais estranhas). A senhora da recepção fazia um ar compreensivo.
A mãe tinha um rosto de angústia e perplexidade e continuava: que ele se veste de forma cada vez mais estranha, que acha que não é gótico mas que é muito estranho, e aquelas músicas, tão esquisitas que quase dão medo. E que se tem apercebido que ele visita sítios muito estranhos na internet. Que não se interessa por procurar coisas úteis, só coisas estranhas que a deixam preocupada.
Não sei se no Serviço Nacional de Saúde não haverá psiquiatras e psicólogos que façam um tratamento atempado e de proximidade junto de jovens que começam a derrapar em planos perigosamente inclinados. Se calhar não, ou se calhar não em número suficiente.
Jovens como Adel, perturbados, que se sentem desinseridos -- ou Ali, o outro jovem de 18 anos, que matou tantas pessoas em Munique e que tinha perturbações de foro mental, tendo conhecido o outro jovem que o teria acompanhado no ataque no centro de apoio psiquiátrico e que tinha como ídolo o doido varrido do Breivik -- são verdadeiras bombas-relógio com as quais os pais não sabem lidar e, como se tem visto, nem os pais nem as sociedades.
Adel Kermiche virou-se para o Daesh porque é o que está a dar, a 'onda' mais mediatizada, enquanto Ali andava obcecado com a matança de Breivik, tão mediatizada cinco anos atrás.
Claro que no Daesh qualquer destes infelizes jovens caem que nem ginjas na sua estratégia de marketing já que nem têm que os treinar nem influenciar: estão, por eles mesmos, prontos para fazer maluquices a eito e por conta própria.
Deve também, de uma vez por todas, encarar-se o grave problema do tráfico de armas. Se em França ou no outro dia num comboio foram usadas facas já o rapazinho de Munique, se não estou em erro, tinha um arsenal bélico em seu poder. Adquirido na dark internet, ouvi dizer. Certo. A internet não detectada, sites a que não se acede pelas vias normais. Ok. Mas teve que as pagar e o dinheiro é físico, e sobretudo as armas são físicas, materiais, não são virtuais. Circulam. A toda a hora se houve falar em rixas que acabam em tiroteio. Parece que meio mundo tem armas.
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.
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sábado, julho 23, 2016
Coisas normais em tempos de medo e perplexidade
Por motivos que agora não vêm ao caso, hoje estava em casa a horas em que ainda costumo estar a trabalhar ou enlatada no meio do trânsito. Sozinha em casa, tempo totalmente meu. Mas, como já saberão os que daqui já me conhecem há algum tempo, não me dou bem com a ociosidade. Ter um tempo para mim que não precise de ser conquistado, comigo não funciona. Se não tenho tempo para nada, parece que arranjo tempo para tudo. Tê-lo de mão beijada, desconcerta-me. Podia ter pegado num livro, podia adiantar o blog, sei lá -- e isto para não falar em ocupações mais imperiosas como, por exemplo, pôr papelada em ordem. Mas não dá. Abate-se em mim uma indolência quase incapacitante.
Preocupa-me, isso sim, a falta de lideranças fortes, democráticas e inclusivas no mundo ocidental. O actual bando de galináceas que por aí pulula, vendendo-se por tuta e meia e ferindo a dignidade das populações, fazendo acordos com ditadores, criando guerras e depois fechando as fronteiras às vítimas, com a xenofobia e o racismo a brotar como perigosa infestante, isso, sim, parece-me favorecer um perigoso caldo onde não será difícil que germinem ódios, demências ou desvarios.
Abreviando; aborrecida por ver o festival de comentadeiros que as televisões arrebanham mal lhes cheira a pólvora ou a cadáveres no passeio cobertos por curto lençol, parti para a maluqueira do zapping alternativo.

Entretanto, depois de vaguear pelos canais, agora está a ver a tourada na RTP1.
Custa-me pensar no sofrimento dos touros, claro que sim, mas tenho em mim um lado bárbaro: também gosto de ver tourada. Agora, por exemplo, estou a escrever isto e a espreitar a pega que teima em não se concretizar. Aliás, o primeiro aviso acaba de soar.
Entretanto, andei à procura de imagens para aqui colocar que ilustrassem a banalização do mal e lembrei-me de pôr o Graham -- que, coitado, pode ser horroroso mas mau acho que não é. Contudo, penso que ilustra bem o nonsense desta sociedade. A razão de ter sido criado pode ser meritória mas parece que a a mente começa a puxar demais para o lado do monstruoso. Transcrevo:
He might look a little different but I assure you that he’s human. Well, sort of. The reason he looks the way he does is because his body has been modified to withstand a car crash.
Graham was created as part of a new Australian road safety campaign by the Transport Accident Commission (TAC). He was designed by sculptor Patricia Piccinini, a leading trauma surgeon, and a road safety engineer, who modified him based on their own knowledge of traffic accidents. The result isn’t a pretty sight but it’s certainly a sobering one. As you can see, Graham doesn’t have a neck because these snap easily in car accidents. He also has a flat, fleshy face to protect his ears and nose. And if you’re wondering about all those extra nipples, they’re to protect his ribs like a natural set of airbags.
He has multiple nipples to protect his ribs like a natural set of airbags
Don’t have a body like Graham’s? Then think about slowing down next time you’re behind the wheel.Em contrapartida, quis começar e acabar com imagens que ilustrassem a beleza da natureza. Queria imagens que mostrassem que ainda há lugares puros e belos e que se transfiguram em belezas ainda maiores quando são olhados com desvelo. É o caso da última (aqui abaixo) e das duas primeiras fotografias da autoria de Joni Niemelä, um fotógrafo autodidacta de Southern Ostrobothnia, Finlândia.
Lá em cima, a música é interpretada por um menino muito talentoso, George Ezra, que aqui aparece num divertido mano a mano.
Ora bem; cá temos um momento poético



































