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domingo, janeiro 27, 2019

Crónica de um dia in heaven com homens a passarem-me à porta do quarto, com um insólito bicho encarnado, um ovo branco e misterioso e etc.
E o meu tapete e um livro com poemas manuscritos.
[Mostro os de Daniel Jonas e Nuno Júdice]





E se eu estava a precisar de dormir até vir a mulher da fava rica. Mas não. Cedíssimo, sozinha na cama -- que o meu marido (felizmente) madruga -- comecei a ouvir uns ruídos não identificados. Tentei apurar o ouvido mas não consegui reconhecer que sons eram aqueles. Depois comecei a ouvir a voz do meu marido. Falava. Mas só ouvia a voz dele. Ouvi: não encontro a chave. E ouvia mexer em chaves. Passado um bocado, ouvi um batalhão de homens no corredor, a passar-me à porta do quarto. Nada de novo a não ser que não esperava que viessem tão cedo. O meu marido tinha-me dito que eu podia dormir porque eles iam lá para cima, não me incomodariam.


Eles eram os homens que vinham arranjar o tecto da parte antiga da casa, uma parte onde estavam os quartos dos meus filhos e uma pequena saleta, parte esta que hoje é pouca usada. Quando choveu mais, notámos que a escada de pedra estava molhada, vinha água desde lá de cima. O tecto, que é de madeira, precisava de ser levantado numas partes.

Acontece que a porta da rua que daria acesso quase directo a essa parte da casa é uma porta que há anos não é usada. 


O senhor que volta e meia vem cá fazer arranjos e que vinha com mais dois, tinha-se lembrado que dava jeito entrarem por essa porta e não pela habitual para não terem que atravessar a casa com escadote, madeiras, ferramentas e, então, tinha vindo mais cedo para limpar as teias de aranha que se tinham formado do lado de fora e era esse o ruído, de uma vassoura a raspar na porta e no telheiro, que me tinha acordado. E o meu marido andava a experimentar chaves do lado de dentro e ele do lado de fora. Por isso só ouvia a voz do meu marido (que, às tantas, dizia que, era uma chatice, mas que a chave se deveria ter perdido).

Só que, às tantas, já depois de ter deixado de ouvir a voz do meu marido, ouvi a voz do tal senhor a dizer para um dos que o tinha vindo ajudar: olha lá, se for preciso, sabes rebentar o canhão de uma fechadura?


Aí, dei um salto da cama, enfiei a roupa às três pancadas, fui à gaveta onde tenho o molho completo de chaves da casa e fui experimentar. Uma era a daquela porta. A seguir cruzei-me com o senhor e acho que nem o cumprimentei: Já abri a porta. Viu o meu marido? E ele: se calhar já foi lá para baixo. 

Fui à rua: estava com aquelas proteções nas pernas, a roçadora ao ombro, e ia lá para baixo. Já devia ter andado nos seus passeios ultra matinais pelos campos, veio a casa para abrir a porta aos homens e agora ia roçar o mato nascente. Ficou admirado por me ver: o que é que aconteceu? E eu: Achas que se consegue dormir com aquela barulheira? E se não me tenho levantado à pressa ainda destruiam a porta. Já encontrei a chave, já lhes abri a porta.

Não ligou. Está um camponês. Ia para a sua lida. Disse-me que também já tinha andado a cortar ramos altos com aquele serrote telescópico que o filho lhe ofereceu. Deve ter-se levantado às seis da manhã.



Entretanto, já os homens estavam a entrar e sair pela porta que não era aberta há anos, e muito barulhentos, uma algazarra pegada.

Portanto, acordei cedo e sobressaltada. A seguir, depois do meu marido ter cortado tojo e silvas, e de eu ter dado um breve passeio, fomos ao supermercado.

Ir ao supermercado à vila mais próxima é, para mim, um exercício de paciência. Tudo muito lento. Por exemplo, quase não há carne embalada. Tem que ser no talho mas há sempre umas vinte senhas à frente. E o pior é que cada pessoa leva carradas de carne, tudo cortado na hora. No peixe é a mesma coisa. Com a agravante de as empregadas serem vagarosas, cumprimentarem toda a gente, estarem a arranjar o peixe na calminha enquanto olham para as clientes, e conversam umas com as outras e com as clientes, tudo no maior vagar. Um desespero.


Regressámos. Fiz uma máquina de roupa, fiz arrumações. Por volta da uma, eles acabaram o trabalho. Mas o senhor, o principal, disse que voltava depois de almoço para acabar lá uma coisa.

Entretanto, também já tinha feito o almoço: pescada fresca cozida com batata, cenoura, feijão verde, ovo.

O meu marido tinha trazido um queijo de ovelha e, quando o abriu, achou que cheirava mal. Cheirei. Cheirava a curral. Talvez demais. O meu marido disse que era impossível comer um queijo que cheirava a m... Se tivesse sido mais barato, ia para o lixo e está a andar. Mas tinha sido caro e, sobretudo, era uma questão de princípio. Por isso, contrariado e irritado, foi ao supermercado.

Eu estava KO: deu-me um sono brutal. Pensei: vou deitar-me lá fora, na espreguiçadeira, e dormir um bocadinho. 


Como o senhor tinha dito que voltava, fiquei em casa, foi só ele. Pensei: o portão está aberto, o senhor sabe o caminho e talvez nem venha já, vou deitar-me ao sol, vou dormir.

Tinha eu acabado de arranjar a espreguiçadeira, toca a campainha. Era o senhor. Resolveu não entrar sem se fazer avisar. Começou a conversar. E a conversar. E a conversar. A contar-me dos filhos, dos netos, dos primos, dos cunhados, de um comendador que era dono de uma fábrica noutra aldeia e que tinha filhos de duas camadas, da primeira e da segunda mulher, e do que tinha uma oficina e da professora que tinha um portão eléctrico e que o tinha chamado. E.... e... e... . Eu mal me tinha de pé, perdida de sono, exausta -- e ele, uma simpatia, a falar em contínuo. Por fim lá pegou na escada e lá foi completar o que cá o tinha trazido.


Sentei-me na espreguiçadeira a ler. Achei que, com ele por ali, não devia deitar-me. Passado um bocado chamou por mim. Estava em cima do telhado. Tinha reparado que o solho no que antes era o quarto do meu filho, na direcção da escrivaninha, estava mais escuro, prova de humidade. Então tinha ido ver o telhado. Disse-me que havia ali uma zona que precisava de ser impermeabilizada. Eu pensava que ele se deveria estar a referir ao chão de madeira, ao soalho. Nunca tinha ouvido chamar solho ao soalho mas agora já vi no dicionário que, de facto, se pode dizer. Aprendo imenso com ele, imenso mesmo.

A questão é que espertei. Quando estou perdida de sono e não consigo dormir, depois já não consigo.

Quando o meu marido regressou, estava ele a sair. Fui para dentro, recostei-me no sofá, comecei a ler e pensei que ia adormecer. Mas não adormeci.


Li. O livro, interessante. A ver se amanhã falo dele.

Depois fui caminhar, fotografar. A lua branca, já por metade. Translúcida, num céu límpido. A vaporosa florzinha do eucalipto. A casca de ovo muito branca, partida ainda de fresco, com outro bocado de ovo lá ao pé. Não sei a que pássaro poderá pertencer. Tão grande. Não é um ovinho de passarinho. Menor que o ovo de uma galinha mas maior do que os ovos de passarinho que costumo ver nos ninhos. E tão branco. E o gato amarelinho que me olhava de longe, um gato silencioso que me observa enquanto ando e que me deixa sempre surpreendida pois não sei de onde vem nem para onde vai (aquela velha questão mas agora aplicada ao gatinho cor de mel). E a flor encarnada, linda. E o bicho espantoso, também encarnado mas com efeitos em preto e branco, espectacular, um daqueles seres vivos que se vêem e em que não se acredita. E um outro pinheirinho despontando numa outra rocha. E tudo tão bonito e sereno.

E fiz o tapete (desforrei-me a fazer enquanto o meu marido via o seu Sporting a ser campeão de uma Liga de que eu nunca tinha ouvido falar, a Liga de Inverno. Ainda lhe perguntei que liga era aquela mas limitou-se a responder: esquece, não ias perceber e eu não insisti porque sei que não ia mesmo perceber), e li e vi televisão. Ainda não adormeci mas já estive várias vezes quase. Espero dormir bem esta noite.  Estou mesmo, mesmo, mesmo, a precisar de dormir muito porque sei que a semana que aí vem vai ser de me deixar a rebentar pelas costuras e, se não recarrego baterias, nem sei como vai ser.


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Mas queria era falar de um livro novo. Não do que estive hoje a ler mas de um outro, um muito bonito, com poemas manuscritos. Eu que gosto tanto de estudar a escrita caligráfica das pessoas fiquei logo rendida ao livro.

Não faço aqui a análise porque seria deselegante fazê-lo mas mostro-vos a do Daniel Jonas (uma letra que me agrada muito e que me deixa contente pois gosto muito da poesia dele) e a do Nuno Júdice (uma letra que espelha bem a pessoa que penso que ele deve ser)

Fotografei os livros que comprei a semana passada (uma pequena recaída) em cima do tapete que estou a fazer na cidade. Se comparem com a fotografia de há dois meses até parece que não andei muito mas, como já referi, como a barra é quase da cor da juta, na altura não reparei que boa parte do preenchimento da barra estava por fazer. Agora já está todinha e já vou para aí num quarto do preenchimento do fundo (a azul escuro).






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Lamento, uma vez mais, não ser capaz de responder aos comentários.

Desejo-vos a todos um feliz dia de domingo.

terça-feira, maio 03, 2016

É nómada a tua língua e a minha, dizemos palavras sem morada.
Porque não há nada em vez de tudo? - perguntou o cientista.





Sob a superfície dos dias procuro o que não se vê, o oculto sob as águas verdes do lago, o obscuro entre a folhagem, as palavras não ditas, as que ainda não encontraram a expressão à luz do dia. Tacteio emoções, afloro aproximações. Receio e recuo.

Espreito as sombras, tento adivinhar os pensamentos ainda em esboço, procuro a luz nos espaços entre as ideias que ainda não se formaram, colo frases às imagens, a voz aos sonhos. 

Passo o olhar pelas árvores que ondulam na rua, passo o olhar em distantes fotografias, passo as mãos nas páginas nuas de livros que me trazem novas toadas, desconhecimentos, intimidades longínquas, experimentações.

Fecho os olhos, ouço a música, releio em pensamento palavras novas.

Depois olho outros livros que me falam da imensidão do infinito, de espaços sem fronteiras, quase esferas, paradoxos, equações impossíveis, espirais à solta num espaço vazio.

E penso outra vez: a elegância da ciência, a estética das descobertas.

O prazer de cruzar fronteiras.

O prazer de querer e não querer atravessá-las, o prazer dos primeiros passos.

Outro livro: 'a minha vida' de Isadora Duncan. Cruza-se a inquietação e a paixão de uma mulher livre com os espaços infinitos, os números primos, os irracionais e os imaginários, as redes complexas, os poemas novos. 

Não sei se há um denominador comum nos meus gestos, nas minhas divagações, nas minhas palavras, na forma como desenho interrogações para as quais não procuro resposta. Talvez apenas estenda linhas paralelas no espaço, talvez espere que alguém agarre na outra ponta e estabeleça um alfabeto comum. Há paralelas que se tocam -- leio-o e acredito. Novas geometrias, marés, voos, camadas de sonho, fractais de uma abstração simétrica, perfeita.

Detenho-me em silêncio. Vocês aí tão longe.

Conjecturas, dualidades, palavras estranhas para quem não procura senão a simplicidade do perfume de uma flor.

Fecho os olhos. Penso. Peço.
Conta-me do percurso do perfume da rosa dentro de mim, conta-me se são também paralelas as estradas que as palavras percorrem quando falam de perfumes e se são convergentes os olhares que se desconhecem. Conta-me os teus sonhos, fala-me de mundos transcendentais, de loucuras de uma pureza sem igual, de teorias de uma elegância nunca imaginada, fala-me de céus muito azuis, de águas muito límpidas, fala-me das tuas mãos.
Falo como se falasse para alguém que segurasse as pontas das linhas que lanço no espaço mas não sei se esse alguém existe. Talvez exista um ser igualmente estranho. Intangível como eu.

E, entretanto, enquanto aqui estou à espera de um sinal, fala-me, Daniel Jonas, de uma certa Casa Despida. Eu ouço.


Uma vez mais
a casa despida.
Lentas fotografias, moles molduras,
álbuns blindados, o pó de tudo,

o silêncio prevalecente
da despedida.
Uma casa mais
eu deixo.

Por vezes parece que
sou eu quem fica
e ela que me deixa.


E tu, Eugénia de Vasconcellos, responde-lhe que não é possível Tanta luz. Eu ouço-te e o Daniel também. Fala, que te queremos ouvir. Fala enquanto danças ao sol procurando onde guardar tanta saudade.

Na hora mais madura do sol,
tanta luz, e na curva da duna
nem uma nesga de sombra
onde guardar a saudade:
o tempo passou.


E olha, bela Eugénia, diz como acaba esse Não faz meu coração fronteira com o teu? 
Diz que estamos aqui para te ouvir.

O sol declina
e o esplendor não veio a derramar doçura.
Este dia e as horas deste dia são
um número a menos dos que me cabem contar.

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Tamara Rojo dances the first two waltzes of Frederick Ashton's one-act ballet Five Brahms Waltzes in the Manner of Isadora Duncan, 2004.

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Os poemas de Eugénia de Vasconcellos e a primeira parte do título desta mensagem pertencem ao livro 'o quotidiano a secar em verso' da Guerra e Paz. O poema de Daniel Jonas e a segunda parte do título da mensagem pertencem ao livro 'Bisonte' da Assírio e Alvim. 


Lá em cima Avishai Cohen Quartet interpreta Into the Silence - Live @ Blue Note Milano (com os meus agradecimentos ao Leitor que tão generosamente mo deu a conhecer)

As fotografias mostram Isadora Duncan.
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E caso tenham estômago para o absurdo e deslocado Passos Coelho que, no meu texto, se faz acompanhar por uns despudorados anjinhos papudos, queiram, por favor, descer até aqui abaixo antes que alguém o mande pôr-se ao fresco.

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quarta-feira, maio 14, 2014

Demoro-me nas horas mais tardias. A noite é o meu resumo, o meu sumário.


Se estão à espera que eu responda já aos comentários sobre se defendo demais o PS ou se mordo demais no PCP (e estou a referir-me à tareia que levei por ontem criticar a estratégia eleitoral da CDU), terão que aguardar ainda um pouco mais.

Estou nisto. Em vez de me despachar para me ir deitar cedo, ponho-me com toda a espécie de frescuras. No post abaixo já partilhei convosco o meu gosto por irreverências, insolências e outras inocências. No meio daquelas sexy girls que abaixo poderão ver, estou eu (em pensamento, claro, e há quase 20 anos a esta parte). 

Agora, aqui, parto para outra. Ainda estou a aquecer os motores. A ver se não gripo antes de arrancar (gripo? diz-se gripar, não diz?).

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Transition baseada em "I Am" de St. Matthews Passion pelo compositor Osvaldo Golijov, uma composição de José Valente





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Discreta flor em branco prado, ó bela
Figura não caiada em lácteo quadro!
(...)
No tédio da beleza, da cidade,
Sobressai uma flor e imensa arde
Como um farol em ondas de erva arde,
Maravilha fatal da nossa idade.
Num mar de margaridas uma ilha.
Ah, quanto mais se esconde ela mais brilha!
































SE NÃO TE AMAREM FINGE QUE NÃO AMAS.
E se te amassem outro amariam:
E só a si, se bem que fingiriam
Amar-te e dar-te a ti o que reclamas.
Pois mesmo que te amassem mentiriam.
E se amam outro a si outrossim amam
E noutrem só a si mesmo reclamam,
Que amante e coisa amada se diriam...
E porque hás-de fingir que amam a ti
Se não se amam em ti sequer mas noutro?
Porque hás-de amar alguém que ama nestroutro
A imagem de si mesmo, e só a si?
Esse ama quem não te ama, afinal...
E mesmo que ame, esse é o teu rival.


As montanhas além... que são? De cumes
Mais altos contempladas? E, esses, planos
Mamilos se observados de aeroplanos;
E as nuvens são cotão vistas dos numes.
É tudo um cansaço de outra coisa.
(...)
Assim tudo o que pasma tem seu pasmo.
A grande novidade é o seu marasmo?































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  • Os poemas são, uma vez mais, de Daniel Jonas e fazem parte do belo livro . Ando fascinada. O próprio título deste post é retirado de dois dos poemas do livro. Um tesouro, este livro.

  • As fotografias são de Mona Kuhn, uma brasileira com ascendência alemã, que é mesmo talentosa.

  • No vídeo, podemos ver: o próprio José Valente - Viola d'arco; Luís Figueiredo - Rhodes; Chico Santos - Contrabaixo 



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Relembro: para malícias no feminino, irreverências em modo sexy e outros comportamentos que não são desviantes, é descer, por favor, até ao post seguinte.

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domingo, maio 11, 2014

De que estão a morrer as estrelas-do-mar?


Depois de, abaixo, ter mostrado a moda primavera/verão 2014 no feminino e a masculina de inverno/2015, dois filmes cheios de charme, e de ter confidenciado porque é que um pormenor no filme feminino me agrada tanto (e vários no masculino), aqui parto para outra.


A Estrela do Mar, por favor




Percorro os jornais online, uma vez mais tento perceber se há alguma coisa de interessante a acontecer. A nível partidário a coisa roça a indigência, o Governo parece que perdeu a cabeça, só contradições, uma bagunça que só vista, e estão numa de eleitoralismo sem vergonha. Não vou falar nisso, não apenas porque não tenho acompanhado de perto para poder falar com propriedade, como, sobretudo, não tenho paciência.

A nível geral, pouco sei. Os jornais ou relatam estas coisecas, desgraças ou futebol ou despistes ou choques frontais. Desastres. Ou males ainda piores, ocultos, terríveis.

Li no Expresso uma notícia que só não me deixou de rastos porque acho que a gente ficar de rastos não resolve coisa nenhuma: há cada vez mais crianças com depressão, várias internadas, casos graves. Um pavor. O que li deixou-me gelada, nem queria acreditar no que estava a ler. Uma coisa verdadeiramente horrível. Um país doente, infeliz.

A nível internacional há desgraças permanentes: ou raptam crianças, ou degolam adversários, ou os favelados revoltam-se, ou os policiais agem como terroristas, ou as armas continuam a entrar livremente nos países em guerra. 

Os meios de comunicação social planam como abutres sobre a desgraça para disso fazerem um festim. Parece que não há nada de bom a acontecer no mundo ou parece que as escolas de comunicação social formatam os seus estudantes para, uma vez profissionais, farejarem o sangue, o suor ou as lágrimas, aí se detendo. E tudo o que cheire vagamente a vida nova, a felicidade, a esperança ou a conquistas deve ser deixado para lá: notícia boa interessa a quem? Só se for aos lamechas.

Que a maioria das crianças ainda cresça saudável e feliz quase parece milagre face ao ambiente tenebroso que as cerca: as televisões só a falarem de desgraças, os filmes que passam a horas que eles vejam são só violência e terror, e, em casa, tantos, tantos, a viverem no seio de famílias em dificuldades de todo o género.

Mas, adiante, que não quero eu agora também pôr-me a fazer eco de toda a depressão que por aí vai.

No entanto, ao procurar ansiosamente qualquer coisa de bom, foi uma notícia que também não é boa que despertou a minha atenção: as estrelas-do-mar estão a morrer. 

E ninguém sabe porquê, o que ainda é pior.

Transcrevo uma parte desta notícia:
Sejam azuis, cor de laranja ou vermelhas, tenham cinco, sete, dez ou 50 braços, as estrelas-do-mar costumam captar a atenção de todos. Porém, estes animais estão debaixo de uma ameaça — de origem ainda desconhecida — nas costas da América do Norte, no lado do Atlântico e principalmente no Pacífico. Desde 2013 que milhões de estrelas-do-mar estão a aparecer mortas.
Apesar do trabalho desenvolvido por vários cientistas, a origem destas mortes é um mistério, como relatou no início deste mês Maio a revista Science num artigo noticioso. Comparando com os registos de surtos idênticos em 1978 e em 1997, ocorridos na Califórnia, agora a dimensão da devastação é muito maior. O problema apareceu em 2013: primeiro atingiu a estrela-do-mar-púrpura (Pisaster ochraceus) e a estrela-do-mar-sol (Pycnopodia helianthoides), depois foi a estrela-do-mar-morcego (Asterina miniata). Mas, ao longo de milhares de quilómetros da costa, estão a ser afectadas cerca de 20 espécies, como a estrela-de-espinhos-gigantes (Pisaster giganteus).

Inquietante. As estrelas do mar fazem parte do nosso imaginário. Pelo menos eu, eterna menina-do-mar, fico apreensiva com isto. Milhões de estrelas do mar a aparecerem mortas? Que coisa desoladora. E ninguém conseguir descobrir as causas para deter esta mortantade...

Quando eu era pequena, um dos livros que mais me prendia era um sobre o fundo do mar. Todo ele estava cheio de fotografias: o cavalo-marinho, o peixe-balão, as medusas, os corais. Eu adorava. Vi aquele livro vezes sem conta. Uma parte do meu imaginário fantasioso, feito de recantos nas profundezas do mar, de coloridos vibrantes em locais tais que quase ninguém os vê, as lutas de vida e morte que se travam longe do nosso conhecimento, a leveza do ondular sob as águas, a luz que se vai perdendo à medida que as águas são mais profundas, tudo isso nasceu nessa minha infância tão próxima ainda (tão próxima porque as memórias estão ainda tão vivas). E lá estavam, solares, exóticas, as estrelas-do-mar. Seres diferentes: nem peixes, nem moluscos, nem animais de corpo aquoso e coberto por belas conchas. Não, seres especiais, vindos do céu para iluminarem os esconderijos do fundo do mar.


Ainda há três ou quatro dias, nas minhas caminhadas pela beira de água dei com duas já quase desfeitas.

Fotografei-as. Brancas, sem vida.

Nem precisariam de ter perdido já os seus raios de luz, braços rendilhados, para se ver que a vida se tinha esvaído delas.

Pensei: assim somos todos nós. Um dia cheios de vida, outro já uns restos que a natureza se encarrega de desintegrar e em que ninguém repara, até que se desfaçam por completo e ninguém saiba sequer que um dia existiram.



NÃO SEI O QUE FIZ ANTES DE TE AMAR.
Não sei que vão comércio ou vã empresa,
Que Estrada percorri, que luz acesa
Deixei pra que voltasse pra apagar.
Foi tudo um sono, um rente entorpecer.
O que fizemos nós, tão sós no mundo?
Não sei que vão pensar meditabundo
Tornou sua razão razão de ser.
Nem lembro... somos breves, uma onda
Que quebra no olhar sua saliva
E a renda delicada rende aos seixos...
Mas hoje a minha vida quero-a viva!
Pensei que eram vigílias meus desleixos...
Agora a minha noite o dia a ronda.


Bem. Fico-me por aqui porque, depois de ter lido a notícia do menino que não queria viver e pediu para ser internado no hospital da Estefânia ou da menina que se cortou, e de todos aqueles casos tão, tão, tristes, e depois desta notícia da morte das estrelas-do-mar, hoje não sou definitivamente uma boa companhia.



Deixo-vos com um vídeo muito bonito, com estrelas do mar (vivas!) e não tão dóceis quanto parecem - mas, enfim, têm que se alimentar para sobreviver (e a sobrevivência, por vezes, não é coisa bonita de se ver).


Jonathan Bird's Blue World: Sea Stars







E, para terminar, a Estrela do Mar e as Pastorinhas, pela Maria Bethânia. 

Muito bonito, quase uma prece, quase uma marchinha.




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  • O poema é da autoria de Daniel Jonas (mas por onde andou antes este Daniel Jonas que eu nunca tinha dado por ele...?! - já o perguntei no outro dia e volto a perguntar) e faz parte do livro da Assírio & Alvim.


  • Lá em cima a Estrela do Mar é interpretada pelo Jorge Palma e pela Cristina Branco

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Se vos apetecer espraiar as ideias e mergulhar em beleza e suavidade e bom gosto, desçam, por favor, até ao post seguinte. O ambiente, por lá, é mais solto e leve.

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E, por agora, por aqui me fico. Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.

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quinta-feira, maio 01, 2014

January Jones, a Betty Draper, vista por Demarchelier e com um par à maneira, Daniel Jonas. Jones & Jonas. Afinal é sabido que ela, para se vingar, paga ao Don da mesma moeda. Me and Mrs Jones.


No post abaixo já tive o meu momento de crítica passista. DEO, TSU, IVA, pinókia, láparo, vice-irre-voga, cospe-sílabas e outros acrónimos, nicks ou coisas pouco recomendáveis podem ser desapreciados no post seguinte. Isto, claro, se inconseguirem resistir à tentação de irem espreitar qual foi o soft power que me deu desta vez na escabeça. Mas, agora a sério: até que era bom que fossem mesmo e se juntassem a mim numa novena a ver se aparece o boi.


Mas adiante que isso é depois. Aqui, agora, a conversa é outra.


Me and Mrs Jones, crónica dos amores interditos

Música, maestro, s'il vous plaît.







Que a senhora encalorada que agora nos espreita é Betty Draper, a esposa atormentada de um sensualão e também atormentado mad man já aqui foi aventado. Confirmo. Deveria ter ontem feito as apresentações, que isto de uma senhora se pôr à fresca sem mais-mais, de facto reflecte uma certa falta de chá, não dela, mas minha, sua anfitriã.

Digo dela que é Betty mas isto, claro, se quisermos manter-nos nos domínios da ficção. É que Betty Draper está mesmo a ver-se que é nome de brincadeirinha, nome artístico. O nome dela é outro, um nome a sério, January Jones, Janeiro Jonas, e é uma mulher com muita pinta. Tem aquele ar vagamente frágil que, vendo melhor, é essencialmente perigo, tendência para o pecado. É que isto de as mulheres parecerem umas santinhas tem muito que se lhe diga, especialmente quando têm lábios fartos e olham como quem quer morder a situação.


Na fotografia que encima agora o Um Jeito Manso, January é vista pela lente de Patrick Demarchelier e mostra a sua graça que, de resto, tem feito perder a cabeça a muitos cavalheiros.

É pois January Jones que agora me acompanha e, estando agora nesta vossa casa, acompanhar-vos-á também, pelo menos até que eu escolha melhor companhia




O que resta, janela, da limpeza
do meu olhar, pra onde irá, e admira
que eu não o veja já, o que antes vira?
É só voragem de asas, ou certeza
de lobrigar o vulto da beleza?
Pra onde, sobranceiro, o precipitam
fulgurações de luz que mal imitam?
Oh, isso é simulacro, não clareza!
À confusão convidas, vil fenestra,
ao salto triste e ansioso do lamento...
E em meio de vencidos funda fresta
de amor tu abres, festa dos perdidos.
Não vou fazer de ti o meu assento.
Não vá precipitar-me entre caídos.








Se não te amarem finge que não amas.
E se te amassem outro amariam:
e só a si, se bem que fingiriam
amar-te e dar-te a ti o que reclamas.
Pois mesmo que te amassem mentiriam.
E se amam outro a si outrossim amam
e noutrem só a si mesmo reclamam,
que amante e coisa amada se diriam...
E porque hás-de fingir que amam a ti
se não se amam em ti sequer mas noutro?
Porque hás-de amar alguém que ama nestroutro
a imagem de si mesmo, e só a si?
Esse ama quem não te ama, afinal....
E mesmo que ame, esse é o teu rival






Poderia continuar por aqui, ilustrando as falas e os pensamentos de January, a mulher perfeita, a loura sensual, a mulher que sofre por um marido que tem tanto de testosterona quanto lhe falta de sensibilidade, a belle de jour que afoga as mágoas em cigarros, bebida e outros homens. Uma de muitas. Uma de muitas Mrs Jones. Carnadura perfeita, pele de pêssego, olhos cor de ciúme, cabelo platinado e um coração quase capaz de albergar todos os refractários do mundo. 

Mas vou ficar-me por aqui. Amanhã a casa enche-se de novo, aquela santa agitação - e tanta a animação que nem vou conseguir produzir-me assim a ver se sou capaz de reproduzir as poses e a beleza luminosa de Janeiro. Que pena, que queria mesmo testar-me. Adiante.

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Mad Men e January Jones em ação


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  • Neste post, January Jones foi fotografada por Patrick Demarchelier para a Vanity Fair
  • A canção upstairs é Me and Mrs Jones na interpretação do aveludado Michael Bublé
  • Para a Mrs Jones escolhi um par à altura: Daniel Jonas, senhor que, infelizmente, eu não tinha o prazer de conhecer até há dois dias.
  • Os poemas fazem parte do seu livro da Assírio & Alvim, um livro que me traz surpreendida. Ó vida de mil faces transbordantes, cheia de convites na surpresa dos instantes... É mesmo.

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  • Relembro que sobre a pindérica actualidade e sobre parte dos seus descabelados agentes falo no post seguinte.
  • Muito gostaria ainda de vos convidar a virem comigo até ao meu Ginjal & Lisboa, o meu outro blogue. Hoje tenho por lá um poema de Raul de Carvalho lido por Mário Viegas num vídeo de Cine Povero.
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E por agora fico-me por aqui que já estou mais a dormir do que acordada. Se o texto estiver sem ponta por onde se pegue já sabem: não são copos, é mesmo sono.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom Dia do Trabalhador. 

Eu, como boa trabalhadora que sou, amanhã vou descansar que bem precisada ando (se bem que descansar com a trupe toda cá em casa e depois, de tarde, praia ou coisa do género, será um descanso relativo mas não interessa, o que conta é a intenção e essa é genuína: descansar).

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