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segunda-feira, julho 26, 2021

Otelo

 



Algumas pessoas não cabem dentro da esquadria normal. Talvez seja porque não são tridimensionais como as que se enquadram sem dificuldade.

Mesmo sem querer, todos nós traçamos as linhas em que a movimentação dos outros nos parece razoável, linhas que, mesmo sem darmos por isso, se instalam como linhas vermelhas: linhas do bom comportamento, da religião, da ética, do respeito pelos outros. Somos mais ou menos tolerantes... mas deste que o outro não pise nunca esses riscos.

Tenho também ideia que só quem tem a coragem ou a inconsciência de sair da esquadria é que consegue furar a malha do status quo para fazer a disrupção que, de vez em quando, é precisa.

Podemos querer que, quando o momento o pede, consigam destacar-se da mediania e sejam mais corajosos, visionários, criativos e audazes do que todos nós -- e, ao mesmo tempo, fora disso, sejam bem comportados e iguais a todos nós. Contudo, penso que isso é uma equação impossível.

Talvez por isso, de quase todos os que ficaram para a história se conhecem excessos, desvios, excentricidades, maus passos.

A ideia que tenho é que Otelo é bem exemplo disso: um daqueles seres que não encaixa bem em nada e que, quando foi preciso, se chegou à frente e avançou de peito feito.

Na escola teve faltas de mau comportamento, foi suspenso. Sempre foi extrovertido, truculento, utópico. O palco e as câmaras atraíam-no. Não temia o mediatismo nem o confronto. 

Não tinha ainda quarenta quando se deu o 25. Amigo da coboiada, certamente sempre pronto para uma cena, em especial se prometesse conspiração -- mesa virada, pratos partidos e 'ir aos cornos' a quem estivesse a pedi-las -- preparar o 25 deve ter sido uma coisa épica: adrenalina e testosterona em dose dupla, provavelmente tudo condimentado com palavrão e gargalhada, e bem regado com umas bjecas bem fresquinhas.

No 25 a coisa deu-se e deu-se com uma grande pinta: a missão não poderia ter sido melhor cumprida. Vimo-nos livres do sarro de antanho, despimos o cinzentismo e o bafio de décadas, sacudimos o pó salazarista e marcelista que não deixava a malta respirar, a liberdade veio para a rua e a democracia começou a dar os seus passos.

Claro que a seguir Otelo continuou a fazer das suas. Deslumbrou-se, encandeou-se, pisou o risco, desiludiu-se, quis reencontrar o espírito inocente dos ideais revolucionários, de vez em quando disse o que não devia, de vez em quando fez o que não devia. Anos depois de ter ajudado a conseguir a libertação dos presos políticos, os seus excessos levaram-no, a ele mesmo, aos calabouços.

Não se consegue amestrar uma pessoa assim. A cada momento mostra que desconhece esquadrias. Ou, se as conhece, está-se nas tintas para elas pois tem muitas outras coisas em que pensar.

Antes, calhava muitas vezes estar a conduzir, do almoço para o escritório, enquanto na TSF passava a playlist de pessoas conhecidas. De todas as que ouvi, as pessoas introduziam o tema explicando porque é que ele as tinha tocado ou porque é que o cantor lhes era especial. Otelo foi diferente: Otelo cantava as canções, a sua voz juntava-se à de Sinatra ou a de quem quer que fosse, misturava-se com a música. O seu à vontade, a sua joie de vivre foram, como sempre, patentes. Facilmente o imaginávamos a dançar, a cantar 'a casa da mariquinhas' nos seus encontros de amigos.

Destemperado, desalinhado, com uma energia e uma alegria sem peias, na vida amorosa também não se aguentou nos eixos. Tinha duas mulheres que, por o compreenderem e amarem, aceitaram que repartisse a sua vida entre duas casas. E ele assumia isso sem pejo ou pudor. 

Otelo foi um homem que não coube em esquadrias -- e a quem muito devemos. Quanto ao resto, temos que encarar como efeitos colaterais que, por muito que nos custe ou que custe a alguns, devem ser relativizados. 

Quando ouvi que tinha morrido senti um abalo interior, como se Otelo, o eterno jovem, estivesse a atirar-nos à cara que tudo é perecível nesta vida e como se, com a sua morte, o 25 de Abril de 1974 passasse agora a ser coisa do passado.

Mas é assim que as coisas são... 

... e a vida continua. 
Desejavelmente sempre com um cheirinho de alecrim.

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O primeiro cravo foi pintado por Leora Baranes e os últimos por Lori Twiggs. Dos graffitis com os cravos de Abril não sei quem são os autores

O Chico canta o Tanto Mar

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

E viva a liberdade

segunda-feira, abril 28, 2014

Otelo Saraiva de Carvalho e Salgueiro Maia, dois dos bravos do pelotão, no dia 25 de Abril de 1974. Um filme...!








O Salgueiro Maia, quando lhe dei a missão, avisou-me de que os soldados só tinham uma semana de recruta, não sabiam dar tiros. Disse-lhe, não faz mal, a tua coluna vai ser a coluna isco, traz a maior quantidade de material de combate que puderes, Chaimites, M47, Panhares, MBR, os soldados de capacete, metralhadoras e espingardas automáticas, munições, tudo. Quem vai opor-se a uma coluna dessas? Ninguém sabe que os soldados não sabem disparar. Vais à 2ª Circular, fazes o Campo Grande, Pequeno, Avenida da República, Saldanha, Marquês, Restauradores, Rossio, e montas o arraial todo no Terreiro do Paço. Ficas à espera. Se por acaso estiver o ministro do Exército no gabinete, vais prendê-lo. E vão lá todos ter contigo, a GNR, a PSP, a PIDE, a Legião, e a Cavalaria 7 e Lanceiros 2, se não apanharmos os oficiais antes.

Arriscado. E corajoso, ser o isco.

O Movimento correu riscos muito grandes. eu não tinha bem a noção do inimigo, não tinha sido feito nenhum estudo de situação. A GNR tinha acabado de receber 25 viaturas-choque.

A que horas é que o Marcello soube que estava apanhado?

(...) O Silva Pais diz-lhe que (...) o melhor é ir para o comando da GNR no Carmo. Fiquei a saber onde estava o Marcello. Às 5h30, o Salgueiro Maia diz-me, via rádio, que precisa de um oficial superior lá. Porque o ministro do Exército está no gabinete, tudo isto em código. Óptimo, vai prendê-lo. E ele diz-me, não posso, porque o Regulamento Militar diz que um oficial-general só pode ser detido por uma patente mínima de major e eu sou capitão. Que raio, no meio de uma revolução vem-me com isto. Mandei-lhe o tenente-coronel Correia de Campos. 

O Jaime Neves estava no posto de comando com missões não cumpridas e pediu-me para ir também. Quando lá chegaram, o general Andrade e Silva já se tinha pirado pelo buraco que tinha mandado abrir pela Polícia Militar, que lhe fazia a segurança. Abriram o buraco com as lanças expostas no museu. Piraram-se numa viatura civil para a Calçada da Ajuda, Lanceiros 2.

Às 11 da manhã, o Salgueiro Maia pede-me outra missão porque o Terreiro do Paço estava cheio de gente que subia pelos carros de combate, perdia-se o controlo. Disse-lhe, Charlie 8 reorganiza a coluna e abandona a missão, sobe ao Carmo e cerca o comando-geral da GNR porque o coelho está na toca. O indicativo do Marcello era Coelho.  

Com o cerco montado, às 12h30 resolvo fazer um ultimato ao comandante da GNR, Ângelo Ferrari, que tinha sido meu professor na Academia Militar. Digo-lhe que falo do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. Ele chama-me camarada e eu digo que não me chame isso porque não somos camaradas. Estamos em trincheiras opostas. Dou-lhe 15 minutos para abrir o portão do Largo do Carmo e deixar sair o Marcello. Ele diz que o Marcello não está lá. 


Desliguei e contactei o Salgueiro Maia. Charlie 8, fiz um ultimato. Se não acontecer nada dentro de 15 minutos, preparas as metralhadoras e vais partir os vidros das janelas do 1º andar. 

E o Salgueiro Maia diz-me, isso é despesa, depois quem é que paga isso? Não te preocupes, alguém há-de pagar. 

Passado um quarto de hora, ele hesita ainda. 

E eu, quero ouvir essa rajada, quero ouvir os vidros a partir, vamos embora! 

Até que ouvi estralejar, os vidros a partirem. 

Hoje sei, através de um livro do major Nuno Andrade, oficial da GNR que estava lá, que aquilo foi decisivo para a rendição do Marcello. 

Antes já havia uma tensão monstra, com o megafone do Salgueiro Maia e o aparato. O Marcello telefona para casa do Spínola para se render. 

Os únicos tiros disparados por nós foram esses. 

Quando o Spínola me pergunta o que fazer com o Professor Marcello Caetano, disse-lhe para combinar com o Salgueiro Maia, tínhamos um Dakota no aeroporto para o levar, com o Tomás, para a Madeira.


(...)

No 25 de Abril, os militares procuraram ter um comportamento cavalheiresco. E tiveram. Para o povo, o 25 de Abril foi uma nova vida.


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Na altura, Salgueiro Maia tinha 29 anos e Otelo Saraiva de Carvalho 37.


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Salgueiro Maia fala sobre a rendição de Marcello Caetano





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Primus inter pares


                             
                                    não perguntes se estas
                                    são as vias
                                    da perfeição da alma,
                                    as concordâncias

                                    duma arte de viver;
                                    o tempo é excessivo nos vestígios: as
                                    antiguidades de roma, as histórias
                                    da morte no ocidente.

                                    súbito um perfume
                                    de remos no rio (audíveis?)
                                    e vento nas conchas resguardadas:
                                    guardam o coração e as suas

                                    certezas ferozes, a sombra
                                    resguardando a luz.
                                 
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O texto é parte da interessante entrevista concedida por Otelo Saraiva de Carvalho a Clara Ferreira Alves na Revista do Expresso deste sábado. Aliás, esta Revista é um número de antologia no que se refere ao 25 de Abril


O poema é 'nó cego, o regresso, XIII' de Vasco Graça Moura (Porto, 3 de Janeiro de 1942 — Lisboa, 27 de Abril 2014) in Poesia Reunida.


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Muito gostaria ainda de vos convidar a visitarem o meu Ginjal e Lisboa. Hoje tenho, uma vez mais, uma visita frequente daquele espaço: Vasco Graça Moura. Sendo ele o ser múltiplo que conhecemos, vem sob várias formas: em entrevista escrita, falada, em poesia dita, em fado.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira.

...

domingo, abril 27, 2014

A propósito de um comentário que recebi no outro dia, eis o que eu acho do 25 de Abril de 74, o portal do tempo que os portugueses transpuseram numa manhã pura e limpa. E do 25 de Novembro. E também da intervenção de um dos seus grandes responsáveis, Otelo Saraiva de Carvalho.


Por estes dias tenho pegado no computador depois da meia noite, bem depois, e portanto não tenho conseguido tempo para responder aos comentários ou para falar de tudo aquilo de que gostaria de falar. Este sábado à noite, então, para além do adiantado da hora, ainda estive a ver o Eixo do Mal e o Downton Abbey, pelo que tenho mesmo que encurtar caminho, deixar de lado os agradecimentos aos Leitores ou alguns temas que bem mereciam a minha atenção, e resignar-me a falar apenas do inevitável.

E um comentário houve, que transcrevo, e que penso que não deve ficar sem resposta. Transcrevo o comentário:

O 25 de Abril marca a queda de um regime ditatorial e totalitário, regime este que não caiu do céu aos trambolhões, mas que surgiu dos escombros da anarquia e desgoverno total da falida primeira república. Não desejo nem um nem outro para o nosso querido país, embora receie que nos estejamos perigosamente a aproximar novamente do segundo.
A liberdade e democracia que vivemos só a devemos ao 25 de Novembro.
Acho que seria muito importante também não esquecer o que sucedeu após o 25 de Abril, as nacionalizações, os saneamentos, uma autentica caça à bruxas em que milhares de portugueses tiveram de fugir do país.
Já para não falar da organização terrorista das FP 25 liderada por quem…….
É bom não esquecer… ou saber a história….

I


A democracia é preciosa e tanto que toda a gente tem direito a expressar a sua opinião. Antes do 25 de Abril isso não acontecia.

Ontem à noite vi o Expresso da Meia-Noite no qual estavam quatro mulheres: Maria José Morgado, Joana Amaral Dias, Maria de Sousa e Hélia Correia.

Como sempre, gostei imenso de ouvir a Hélia Correia. Foi a que menos falou mas o que disse é sempre intenso. Dizia ela que quando alguém acha que se vivia melhor antes do 25 de Abril ela fica sem palavras, não consegue dizer nada porque acha que, quem diz isso, só pode ser ignorante ou estar de má fé, é alguém que se quer pôr do lado do mal, alguém em quem vive como que uma malignidade. Comigo também acontece isso. Custa-me rebater alguém que não gosta do 25 de Abril. 

Mas vou esforçar-me para que não fique a ideia de que o tema me é indiferente. Não é. Acho que há coisas que devem ser defendidas e eu defenderei sempre a liberdade e a democracia e o desenvolvimento porque é esse o País que quero para os meus filhos, netos, bisnetos, trinetos e por aí fora. E espero que eles sempre o defendam também. Só numa sociedade livre e desenvolvida a vida faz sentido.

Antes do 25 de Abril, o País era vergonhosamente antiquado, os outros países olhavam para Portugal como um país pobre e atrasado no qual vigorava uma incompreensível ditadura.

Li um texto de Rita Veloso, alguém que sofreu na pele o que era a vida das crianças cujos pais, por quererem lutar por um mundo melhor, eram perseguidos e ou eram presos, torturados, ou fugiam do país ou viviam na clandestinidade. 

Transcrevo uma parte:


Já por várias vezes escrevi textos com as minhas memórias do período da ditadura e da revolução. Neles, adoto sempre uma perspetiva feliz, dada pelos olhos da criança que era. O Sol e o mar de Peniche, as brincadeiras nas visitas ao meu pai, as ingenuidades de uma criança que tinha de lidar com termos confusos, como clandestinidade ou preso político. Afinal, se não guardarmos da infância memórias felizes, de quando guardaremos?
No entanto, é óbvio que essa perspetiva resulta de um filtro aplicado a uma realidade bem diferente.
Além de todas as misérias que afetavam a generalidade das crianças no período da ditadura – a subnutrição e a fome, o analfabetismo, o trabalho de sol a sol, as doenças vorazes – e que contrastavam brutalmente com as regalias das elites, havia as dificuldades específicas dos miúdos que nasciam em famílias de quem se atrevia a combater o regime, as quais se podiam somar ou não às anteriores.
Crescer na clandestinidade implicava estar-se privado de qualquer sociabilização fora do universo da família nuclear, à exceção de idas fugazes ao médico ou às compras de rotina. Não se usufruía de mimos e ensinamentos dos avós ou dos tios, não havia as brincadeiras com primos ou amigos, aspetos essenciais ao pleno desenvolvimento da personalidade do indivíduo, que se quer num ambiente seguro, carinhoso e estimulante, que questione o intrigante mundo dos outros. Em contrapartida, convivia-se vinte e quatro horas por dia com pais e irmãos. Desenganem-se os que pensam que isso era um privilégio: a tensão em que estas famílias viviam, resultante não só da situação de foragidos como também do convívio forçado e anatural, era sufocante e repercutia-se inevitavelmente nas suas crianças. Vivia-se numa bolha hiperprotegida e asfixiante. A isso juntava-se a instabilidade da contínua troca de casa, com mudanças feitas à pressa, que deixavam para trás as nossas referências físicas afetivas.
 Quando chegava a idade escolar, o mais tardar, tudo mudava inexplicavelmente. Com mais ou menos conversas incompreensíveis, as crianças eram subitamente entregues a alguém da família, para poderem ir à escola sem levantar suspeitas e de forma estável. Não é preciso explicar o quão dolorosa era para pais e filhos esta separação. Em muitos casos, o contacto só foi reestabelecido na idade adulta, resultando, geralmente, em mágoas e acusações imperdoáveis. Muitos filhos questionaram o direito dos seus pais a constituir família naquelas condições, agravando ainda mais a dor que os pais já sentiam com o afastamento forçado.
O que levava tantos homens e tantas mulheres a optar por uma forma de vida que, de previsível, só tinha o dinheiro contado, a insegurança, a prisão e a tortura, o isolamento da família? Não seria, certamente, a sede de protagonismo, nem se tratava de semideuses ou heróis.
Serão, porém, seres com um profundo sentido de justiça e uma imensa capacidade de abnegação; indivíduos para quem o bem-estar próprio ou dos filhos vale tanto quanto o bem-estar de todos e para quem o primeiro não existe sem o segundo. Nem sequer se trata de abdicar de uma vida tranquila em prol dos outros; são indivíduos para quem a vida não é tranquila enquanto não houver justiça, igualdade e liberdade.

Tempos sombrios. Pessoas que, por quererem um país livre e melhor, se viam privados de toda a liberdade, incluindo da liberdade de poder acompanhar o crescimento dos filhos.

Em 48 anos de ditadura, cerca de 29.000 pessoas foram presas por motivos políticos. Uma vergonha que nunca deveremos esquecer.

Não há números exactos para o número de pessoas que tiveram que fugir do país para não serem presas mas foram milhares. Li no Expresso que, por alturas de Abril de 74, estariam exilados cerca de 100.000 jovens que queriam escapar à guerra colonial, essa guerra absurda, condenada à derrota e que tantas vidas estropiou.

A vida antes de Abril de 74 era boa para a minoria que se adaptava bem ao regime medieval, classista e iníquo que então imperava mas era insuportável para as pessoas que tinham alguns interesses intelectuais, que prezavam a liberdade de expressão, os valores democráticos, o desenvolvimento, o direito à igualdade de oportunidades, à justiça, à saúde, à educação e que queriam viver num País moderno e não numa ditadura ultramontana. 


II


Até que, numa madrugada, aconteceu o que todos (ou melhor: quase todos) esperavam. Depois de 48 anos de repressão o que se esperava? Destape-se uma panela cheia de pressão...

Pois bem, apesar de alguns excessos, a revolução em Portugal nem foi bem uma revolução. Os portugueses são gentis, afáveis, tratam bem mesmo os inimigos. Um ou outro excesso? Claro que sim. Seria impossível pretender que um povo estava a viver reprimido e que, pouco escolarizado e pouco informado, de repente se tornasse culto, informado, preparado para regras democráticas que nunca tinha conhecido.

Mas tudo se passava em festa, movimentos para escolarizar um povo analfabeto, médicos enviados para as aldeias onde antes nunca tinha havido cuidados de saúde, comissões de trabalhadores, comissões de moradores, uma euforia, uma alegria. Em pouco tempo tentava-se recuperar todo o atraso. Claro, as nacionalizações, claro algumas injustiças, claro. Gente que foi presa injustificadamente. Mas ninguém lhes fez mal e foi por pouco tempo. Mas claro que não devia ter acontecido. Mas são as imperfeições da natureza humana. Houve depois as famílias mais abastadas, algumas, as que tiveram medo e fugiram, colocando os seus bens fora do país, saindo com a família. Se foi por medo ou prudência, não sei. Mas terão sido uma minoria, minoria essa que depois voltou e encontrou os seus bens intactos.

Houve saneamentos? Houve. Alguns justos, outros injustos. 

Mas os excessos regulam-se e, de facto, regularam-se. No ano seguinte já as coisas estavam mais calmas, a democracia em moldes europeias começou a desenhar-se, a constituição ganhou forma, as eleições corriam normalmente e, assim, o 25 de Abril provou ser essencialmente uma revolução romântica, em que a população dava cravos que os soldados punham na ponta das armas, que atraíu intelectuais do mundo inteiro, toda a gente queria ver este povo saindo de 48 anos de repressão e de atraso.


III


Quanto a Otelo. Otelo foi o grande organizador das operações militares e o mérito da contenção e precisão da operação cabe-lhe a ele tal como cabe a Salgueiro Maia a coragem para servir de isco, pondo-se a caminho, por estrada, de Santarém a Lisboa. O País deve a Otelo, a Salgueiro Maia e a tantos outros a libertação. Como dizia a Hélia Correia, o 25 de Abril foi como um portal através do qual as pessoas saíam do passado e entravam directamente num outro tempo, num tempo prenhe de esperança, no futuro.

Otelo quis depois afastar-se, voltar às suas anteriores funções-  mas Otelo é um líder. As tropas gostavam dele, quiseram-no por mais algum tempo. Espírito truculento, um enfant terrible, formação militar, habituado a decisões rápidas em tempo de guerra, nesse período eufórico e intenso logo a seguir ao 25 de Abril, perdeu a mão em relação a mandados que assinava em branco e outros disparates. Foram meses, talvez, em que durou algum desse desatino mas que apenas alguns o sentiam, os pides sobretudo, informadores, gente de quem se dizia ter colaborado com o regime salazarista.

Depois os militares saíram de cena, voluntariamente o fizerem, oficiais e cavalheiros.

De entre os que se retiraram, um manteve-se activo. Otelo, claro. Concorreu à Presidência da República. Depois deixou-se envolver por um movimento extremista. A justiça julgou-o por pertencer a um movimento terrorista, esteve preso, pagou pelo que fez. Continua a dizer que não esteve envolvido nas mortes.

Mas o facto de um dos principais agentes do 25 de Abril, anos depois, ter dado um mau passo, não deve esbater a grandiosidade do que foi o movimento que derrubou um regime obscurantista.

Apenas para que o Leitor que escreveu o comentário perceba melhor o que digo, deixe-me tentar ficcionar uma situação com algum paralelismo embora, claro, em escalas de importância completamente díspares.

Imagine que o Caro Leitor - sendo um excelente profissional, responsável por um projecto fantástico com benefícios para toda a organização - um dia, tempos depois, tem um deslize e se envolve com uma outra mulher que não a sua, negligenciando a sua própria mulher e filhos. Seria justo que, sempre que alguém louvasse a sua intervenção no projecto fantástico em que esteve envolvido, viesse outra pessoa dizer: convém não esquecer a forma como ele descurava a família quando andava de cabeça virada do avesso...?

Não seria justo, pois não? 

IV


Em minha opinião o dia luminoso a celebrar é o 25 de Abril de 74 e o 25 de Novembro foi o travão que veio refrear alguns ímpetos mais afobados.

Mas quero ainda exprimir em números uma pequena parte do muito que devemos ao 25 de Abril (e vou citar parte dos números que Daniel Oliveira refere no Expresso desta semana):
  • Em 1970 apenas 15.000 crianças frequentavam o ensino pré-escolar. Em 1990 já eram 161.000
  • Em 1970 25,7% da população era analfabeta. Em 1990 já era apenas 11% e hoje o número já desceu para 5%
  • Em 1970 a mortalidade infantil era 77.5%. Em 1990 já era 10,9%
  • Em 1970 apenas 47,4% das casas tinham água canalizada. Em 1990 já eram 86,8%
Uma verdadeira revolução. Tranquilamente Portugal transformou-se por dentro, modernizou-se, tornou-se digno.

Por muito que façamos, nunca agradeceremos suficientemente aos Capitães que ajudaram Portugal a transpor o portal do tempo de que Hélia Correia fala. 

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As fotografias foram feitas no dia 25 de Abril em Lisboa

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quinta-feira, março 27, 2014

Otelo Saraiva de Carvalho está pronto para outra revolução. Nisto, como nas mulheres, Otelo parece gostar delas aos pares (deve ser quase como o marialva da Porta dos Fundos que pede autorização prévia à mulher para 'transar' com a Xuxa).


No post abaixo já vos falei das saudades que já sinto do Mário Crespo a quem a SIC Notícias não renovou o contrato, agora que ele meteu os papéis para a reforma.

[Quem me diria a mim que iria, um dia, dizer isto? Ele há coisas...]

 Mas, enfim, isso é a seguir.

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Que entrem os Filhos da Nação



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Agora, aqui, falo de outro ganda maluco: Otelo Saraiva de Carvalho. Quando lhe cheira a reviralho, sente logo o pezinho a pular-lhe para a paródia. Quando era puto pequeno ou adolescente, volta e meia devia andar metido em confusões, na pancadaria - vê-se que não é homem de virar as costas a uma bela briga. Toda a sua intervenção no 25 de Abril e no que se lhe seguiu revela o lado lúdico da coisa. Cá para mim, o que ele gostava mesmo era de aventura, coboiada.

E não lhe passa. Mantém, aparentemente intacta, a capacidade de ferver em pouca água e de, à primeira, ter vontade de mandar avançar as tropas.


Otelo Saraiva de Carvalho considera que a recuperação do Movimento das Forças Armadas (MFA) pode ser positiva, para travar «outras guerras» que não a colonial, e mostra-se disponível a participar numa «mudança de regime que valha a pena».


O agora coronel na reforma gostava de «participar numa qualquer mudança efectiva do país» e até já propôs a reconstituição do MFA.


Havia de ter graça. Mas uma coisa vos digo: este governo anda a cutucar a onça com vara curta. Agora anda a mexer no fundo de pensões dos militares, coisa que anda a chatear à brava aquele pessoal.

Imagino o formigueiro que tudo isto anda a provocar em Otelo. Não é por ter feito uma revolução que vai dar-se por satisfeito. O que é isso para um bígamo assumido? Nada.

Já agora, sobre a sua extraordinária arte em conciliar a vida conjugal com duas mulheres, relembro:

Otelo e as suas duas mulheres - uma família feliz

Na obra ‘Otelo, o Revolucionário’, assinada pelo jornalista Paulo Moura, a importante figura militar do PREC assume que tem duas mulheres na sua vida: Dina, com quem casou em 1960 e da qual tem dois filhos, e Filomena, que conheceu em 1984 quando esteve detido em Caxias, onde ela era funcionária. Da segunda mulher adoptou uma filha. Com Dina vive de segunda a quinta-feira e com Filomena de sexta-feira a Domingo, revela a Visão.


A revista cita mesmo uma passagem do livro em que o jornalista revela a faceta transgressora de Otelo no amor: «Sente-se bem em família. Tanto, que tem duas. Casou cedo, com uma colega de liceu. Mais tarde, na prisão, teve outro amor. Não foi capaz de abandonar a primeira mulher, nem a segunda. (…) Otelo assume as suas duas mulheres. Aparece em público com elas, não mente a nenhuma, trata-as por igual».


E, portanto, é caso para levar a sério a sua conversa de uma segunda revolução. Já provou que é homem para isso e para muito mais. A Dina e a Mena que o digam.


E, já agora, um mau conselho às bem e mal casadas: nada como haver compreensão e mente aberta (e, os limites para cada coisa, cada casal que os estabeleça). Que o diga o casal da Porta dos Fundos em que o marido, no supermercado, deu de caras com a Xuxa e, imagine-se, logo ali rolou um climinha. Contudo, antes de passar aos actos, foi a casa avisar a mulher do que se ia seguir. Ela primeiro ficou incomodada mas, logo a seguir, pensando na hipótese George Clooney para si própria, deu permissão ao maridão. Desde que ele, na volta, trouxesse do supermercado uma coisa que estava a fazer falta.


Xuxuxu Xáxáxá - na Porta dos Fundos





***

Os Filhos da Nação, lá em cima, vieram pela mão dos Quinta do Bill.

Relembro que, sobre o Mário Crespo e a sua emocionada despedida, é descer, por favor, até ao post seguinte.


***

A noite passada dormi mal. Acordei a meio da noite cheia de calor (o meu marido é friorento e eu encalorada - já vêem o tratado de tordesilhas que temos que traçar na cama; só que nem sempre funciona; aliás, raramente funciona) e depois comecei a pensar na reunião que tinha de manhã. Acho que só voltei a pegar no sono pouco antes de readormecer. Depois, tive mais um dia do caraças e só cheguei a casa por volta das 9 da noite. Amanhã é outra vez non stop, nem sei se vou chegar viva ao fim do dia. Mas tenho que chegar porque na sexta feira a cegada continua. Por isso, agora estou a escrever e já a cabecear (literalmente). Assim sendo, vou pegar num livro dos novos e vou já andando para a caminha. Não devo passar da primeira linha mas isso é pormenor.

(E se, meus Caros Leitores, detectarem gralhas, omissões, vírgulas fora do sítio e etc, queiram, por favor, relevar, está bem?)

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira!

sexta-feira, abril 20, 2012

A bigamia de Otelo, os estúpidos do Governo segundo Almeida Santos e o Governo que é péssimo segundo Mário Soares, os desmandos do Álvaro que jura a pés juntos que vai fazer mais do que a troika quer, o moralismo ortodoxo de Vítor Gaspar que diz que Portugal é uma lição e que os portugueses não querem outra coisa senão sacrifícios, os alertas do FMI e de Soros (e de meio mundo) para os perigos trágicos do excesso de austeridade, o pragamatismo de Mario Monti que não quer na Itália tantos suicídios como os da Grécia e uma boa notícia: Irina Shayk está em Portugal ao serviço da Intimissi. E uma má notícia: o melhor dia para o sexo é a quinta feira... e hoje já é sexta feira.

 
Música, por favor... e sai um pot-pourrie!

Where is the Remote Control?


1. Leio que, segundo um estudo da London School of Economics and Political Science, o melhor dia da semana para ter sexo é a quinta feira.

Às quintas feiras a testosterona nos homens e o estrogénio nas mulheres estão no máximo, dizem. Por isso, meus Caros, agora não podem dizer que não sabiam.

Casal por Helmut Newton


2. Otelo Saraiva de Carvalho - e isto, digo eu, não tem nada a ver com o ponto anterior - assumiu publicamente a sua bigamia. De segunda a quinta, vive com a mais recente mulher e, de sexta a domingo, com a primeira. Este homem é, de facto, out of the box. E, se os três estão bem, eu também acho que está tudo bem.

Otelo com Dina e Otelo com Filomena

3. Almeida Santos diz que acha que este governo é um governo de tecnocratas sem experiência e faz uma ressalva: diz que acha o governo não é integralmente constituído por estúpidos. Da forma como fala, percebe-se, contudo, que acha que há por lá muitos. Todos achamos.

Ainda há bocado, na Quadratura do Círculo, não houve uma única voz que fosse capaz de defender o Governo e, aliás, nem o tentaram.

Pacheco Pereira deu-lhes um tareão sem tamanho. Explicou que não é um problema de imagem ou de comunicação (que técnicos para isso abundam no governo) mas que é mesmo um problema de políticas erradas e de falta de conhecimentos e de compreensão. E, agastado, revoltado, desancou em Passos Coelho e Companhia... mas desancou duma maneira...!

Até Lobo Xavier, até aqui tão cuidadoso nas análises, nunca querendo ferir muito os ministros deste Governo, desta vez se lhes atirou forte e feio, dando-lhes também uma valente tareia e fazendo notar que medidas avulsas, desnorteadas, desarticuladas, que matam de morte matada a confiança da população é coisa grave.

António Costa nem precisou de se esforçar muito embora, como sempre, tenha estado acutilante e muito objectivo.

Mas os outros dois, senhores, os outros dois... nem sei se não saíram dali para dar uma tareia ao vivo na troupe governativa.



4. Mário Soares diz que Passos Coelho está a fazer um péssimo trabalho e que este Governo não está a funcionar. São os Massamá Boys e de mais não são capazes.



4. O FMI veio de novo a terreiro pedir que reparem que a austeridade excessiva está a destruir a economia,  a impedir a retoma, e explica para quem não percebe senão quando se é muito explícito, que a austeridade deve ser doseada, abrandada, por forma a dar espaço para as indispensáveis medidas de crescimento e relançamento económico.



5. Mario Monti num discurso surpreendente anunciou que vai retardar a redução do défice para evitar que aconteça a desgraça que está a acontecer na Grécia e referiu os 1.725 suicídios, drama que não quer ver no seu País. Gente responsável age assim.



6. George Soros, uma vez mais, vem alertar para o provável fim da zona euro e para o tremendo descalabro, para a ruína e para o caos que acontecerá se os ortodoxos governantes europeus que defendem a política vigente, nomeadamente os da Alemanha, prosseguirem na senda moralista de austeridade a todo o custo que está a destruir a Europa. Explica que é impossível reduzir a dívida, afundando o crescimento. Claro.



7. Entretanto, por cá, um dos tais de que Almeida Santos fala, o Álvaro, apareceu a dizer que não ficará pedra sobre pedra, que vai dar cabo de tudo, que vai alterar o País de forma estrutural, que vai limpar o País de todos os obstáculos, que vai  fazer tudo para que isso aconteça e que está empenhado em ir além do programa da troika.

O que é que se pode fazer perante tamanha sanha?



8. Ainda por cá, mas falando lá fora, outro dos tais referidos por Almeida Santos, mostrou a abissal diferença entre um aluno inteligente e um insignificante marrãozinho que só quer é estar de dedo no ar a mostrar que já fez o trabalheco de casa.

Sem perceber nada do que se passa em Portugal, com o desemprego a disparar, com a Segurança Social a ressentir-se seriamente por estar a receber muito menos do que devia (o número de pessoas a efectuar descontos é cada vez menor) e por estar a pagar muito mais do que devia (o número de pessoas a receber subsídio de desemprego é cada vez maior), com a economia a soçobrar e com a banca sem dinheiro para emprestar, Vítor Gaspar, num desvario de fanatismo, por aí anda a dizer que os portugueses gostam de ser fustigados, enxovalhados, ameaçados, e que isto é uma lição para os outros. Ou seja, não percebe nada da vida real, não percebe o que vê, nem sequer percebe os avisos que chovem de todos os lados. E eu gostava de perceber quem é que lhe passou procuração para andar por aí a inventar coisas sobre os portugueses.



9. Em paralelo com tudo isto, o Governo, num puro exercício de desnorte e delírio, avança para novas medidas de ataque aos trabalhadores. Depois de terem alcançado um acordo periclitante com a UGT (em que a UGT saíu humilhada por ter assinado tão gravoso acordo), lançam-se, uns dias depois, numa inesperada nova campanha. Agora pretendem tornar ainda mais precária a situação de quem trabalha, preparando-se para criar legislação que permita despejar as pessoas com uma mão à frente e outra atrás.

Isto não é apenas desumano, é, sobretudo, estúpido. Haverá alguém com dois dedos de testa que perceba em que é que medidas destas, que fragilizam e desumanizam ainda mais a relação de trabalho, beneficiam a economia? 

Haverá algum empresário que, numa altura destas, invista mais, crie mais emprego, apenas porque, quando quiser pode pôr os trabalhadores na rua apenas terá que lhes dar um pontapé no rabo?! Claro que não.

Isto já é maldade fortuita, liberalismo desbragado, anti-social, um atentado aos direitos mais básicos, entre os quais o direito à dignidade.



10. Mas não podia acabar no número 9, não é? Nem acabar mal, não é? Então, vamos lá minha gente, que para além das notícias 1 e 2 aqui temos, para rematar, outra fantástica. A putativa nora da D. Dolores Aveiro, a menina Irina Shayk está em Portugal! 


Veio em serviço, pela Intimissi e pelos soutiens Perfect Bra. Grande notícia! Diz que estava sorridente. Nem tudo está perdido, portanto.



Vamos lá todos mas é rir com a menina Irina que é pacifista, amiga dos animais e ri que dá gosto!

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E, por hoje, meus Caros, é isto. As notícias sobre a situação europeia são preocupantes. A evolução da situação em Portugal é preocupante. Mas,

                                                               Venho dizer-vos que não tenho medo
                                                                a verdade é mais forte que as algemas
                                                                Venho dizer-vos que não há degredo
                                                                quando se traz a alma cheia de poemas


(excerto de um poema de Manuel Alegre. No original a palavra usada não é alma mas, sim, arma. Substituí porque não sou da Família Real Espanhola em que se andam a espatifar todos por andarem a brincar com armas, desde o avô ao neto)


E, por falar em poemas, hoje é de dia de gataria no Ginjal e Lisboa. Uma orquestração. As minhas palavras ronronam em volta de um gato com alma de marinheiro de beira de praia, de uma Ode ao Gato e até as Berganzas miam à desgarrada. Coisa digna de ser vista.

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Tenha, meus Caros, um belo dia. E, com isto tudo, já é outra vez sexta feira!

quinta-feira, novembro 10, 2011

Otelo diz que, é pá, fazer um golpe de estado agora até é mais fácil do que foi fazer o 25 de Abril. Os banqueiros mandaram o Governo às malvas e escreveram uma carta a Olli Rehn, Passos Coelho voltou a dar o dito por não dito. E mais uma série de coisas estranhas. Por isso, vamos espairecer? Mariza e Brigitte Lacombe dão uma ajudinha


Vinha para casa, no carro, hoje à noite e falava o Coronel Otelo Saraiva de Carvalho dizendo que não foi para isto que os Capitães fizeram o 25 de Abril, que a classe política, pá, desbaratou todo o crédito de simpatia que Portugal granjeou por ter posto fim a uma ditadura de 48 anos, que o País, pá, está à beira da bancarrota e... concluiu que não se admirava nada que houvesse um golpe militar para pôr fim a isto tudo e que até seria uma coisa fácil de fazer.

Eh pá...!


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Já os banqueiros nem se deram ao trabalho de ameaçar - estando num verdadeiro pé de guerra, partiram directamente para uma facada nas costas do governo. Explico: entendendo que com esta maltosa não se vai a lado nenhum, a Associação Portuguesa de Bancos não esteve com mas-mas. Os nossos banqueiros que já tinham dado um pontapé no traseiro de Sócrates, agora foram mais longe: fizeram um bypass em toda a linha e escreveram directamente ao comissário Olli Rehn, queixando-se que este governo está a querer fazer uma nacionalização da banca 'a la 25 de Abril'.

Eh lá...!


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Não sei como ficou o pobre do Pedro Passos Coelho... provavelmente ficou com a cuca fundida (calma aí, eu disse fundida) pois, depois de no Paraguai ter dito que, claro que tinha que renegociar o plano de resgate, de a seguir, convicto, ter dito que, nada de confusões, não queria renegociar coisa nenhuma, queria era fazer uns ajustamentos, hoje apareceu com a convicção do costume a dizer que não queria renegociar, nem tão pouco pouco fazer ajustamentos e que os senhores jornalistas o ouvissem com atenção para que não restem dúvidas: não queremos mais dinheiro, nem dilatar prazos, nem coisíssima nenhuma.

Em que é que ficamos?

Oh pá...!

Desabafo escrito numa parede do Ginjal (fotografia minha)


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E lá por fora? Eh pá, está do melhor. O Berlusconi diz que se vai embora porque os mercados andavam a morder-lhe as canelas e já ninguém acreditava nele e, na sequência desse anúncio... as bolsas afundaram-se por todo o lado, especialmente em Milão, onde ainda conseguiu ser pior, e os juros quase bateram no tecto sagrado dos 7%.

Oh la la...!


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Há mais...? Ah pois há... A CDU da Merkel (refiro-me à Angela, a cabeça do casal Angela-Nicolas) veio publicamente defender que os países que chatearem devem ser corridos da Zona Euro, que já andam a causar estragos demais, que não dá para suportar gente gastadora, xô, xô...! E, claro, toda a gente já diz que o lado feminino do casal, aquele que costuma ser visto a passear pela trela ou ao ombro da madama, também alinha e que já andam os dois a estudar como é que haverão de fazer um quartinho só para eles, correndo com o resto da maralha dali para fora, para o quintal, para o anexo, xô, xô...!

E vai daí? E, vai daí, Wall Street mergulhou a pique, um afundanço à maneira.

Oh pá...




?????

E mais? Ah bom... Então o Mahamoud Ahmadinejad diz que não recua nem um milímetro no programa de energia nuclear, afirma defender a ética e a decência e que se o chateiam risca com Israel do mapa.

Ui, ui, ui... pá...!



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Mas... e nem uma coisinha de jeito? perguntar-me-ão vocês já desanimados... Pois bem, no meio de toda esta derrocada, uma mulher continua a manter a cabeça no lugar e aí anda ela, num périplo, de país em país, chamando a atenção para o tsunami recessivo que se está a formar a toda a força. Agora é em Pequim. Christine Lagarde foi explicar que a Ásia não está imune caso o mundo se afunde nesta 'espiral de instabilidade financeira'; e que, para se sair desta crise 'perigosa e incerta', o mundo tem que se concertar e adoptar medidas articuladas que vão no sentido do desenvolvimento. Para que não seja uma década perdida, para que o mundo não colapse.


Deus a ouça....? Também. Mas melhor seria que os governantes deste mundo a ouvissem.

E o quanto antes, pá.

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Fartos disto? Já nem podem ouvir falar em tanta coisa chata? Querem é festa? É isso? Oh pá, já podiam ter dito...

Então, bora lá. Como está de chuva, aqui vos deixo a Chuva pela Mariza que, por mil vezes que a ouça, nunca deixa de me emocionar.


........
E ainda mais, que eu hoje estou assim, para a festa... Agora o tema é fotografia.

Vocês já estão fartos de saber que adoro fotografia, não é? E as fotografias feitas por mulheres? Ah, que sensibilidade...

Não ...?! Então vejam estas fotografias feitas pela Brigitte Lacombe, uma francesa que nasceu em 1958 e que agora vive em Nova Iorque.


Meryl Streep, la belle, la heureuse


Julianne Moore, la femme fatale

Kristie Scott Thomas, a pecadora

Robert de Niro, a guy next door, an intelligent and sexy neighbour


Já é a 3ª tentativa e desta vez, a ver 'se pega', vou usar mesmo esta
fotografia com legenda e 3 little boys downstairs - mas quero aqui pôr o Jack Nicholson
cujo olhar é muito pouco aconselhável....

  


E, para terminar, uma sessão de fotografia, coisa que gosto imenso de ver. Brigitte Lacombe fotografa Isabella Rossellini e a filha Elettra Wiedemann, China Machado, Shala Monroque e Andrej Pejic. Ah, dá gosto ver.




E com isto tudo...?

Ah, pois bem, é simples: vamos divertir-nos e apreciar as coisas boas desta vida. Há tantas coisas tão boas... Enjoy! Be happy!


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(PS1: Estou para aqui a escrever coisas em inglês e só a pensar na rabecada que o Patrão da Barca 'tempo Contado', Mestre J. Rentes de Carvalho, no outro dia, deu nos bloguistas que falam, escrevem, gemem e fazem tudo o mais em inglês... What the fuck, diz ele...

PS2: E se, depois deste longo post estiverem a precisar de descontrair, tenho uma solução: nada melhor que violino, certo? Então, convido-vos a virem comigo até ali à Música no Ginjal que hoje Itzhak Perlman interpreta a Serenata Melancólica de Tchaikovsky. É logo a seguir ao Fernando Pessoa e é lindo.

PS3: Vocês desculpem lá aquilo, lá em cima, do 'pá' para aqui, 'pá' para ali mas é que fiquei com o 'pá' do Otelo impregnado nos neurónios - entre cada duas palavras ele consegue enfiar três 'pás'. A ver se amanhã, numa reunião que tenho logo de manhã, isto já me passou, pá)