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quinta-feira, março 05, 2026

Há quem os tenha no sítio
-- Quem o dia é o meu marido --

 

De quando em vez um ou outro comentador de direita da nossa televisão diz mal do Pedro Sánchez. Não conheço o suficiente da politica espanhola para me pronunciar mas há pelo menos duas coisas que sei. A economia espanhola é das que mais cresce na UE e o PM espanhol, ao contrário do que acontece com o governo português, não faz fretes ao Trump e não verga a espinha à administração americana. Eu sei que é difícil a Europa falar a uma só voz e que há líderes europeus que não aprendem, mas as declarações que têm sido feitas por estes lados são verdadeiramente irritantes e diminuem o papel que UE devia ter na cena internacional. 

Não aprenderam que a única vez que a Europa mostrou alguma união e fez frente ao Trump, refiro-me á Gronelândia,  o tipo TACO (Trump always chickens out). Não percebem ou não querem perceber que estes actos da administração americana, que toma medidas despóticas, irracionais, que não respeitam o direito internacional e fortalecem objetivamente as posições dos russos e dos chineses têm que ser criticados e a que UE não pode ser complacente com eles. O que vale é a lei do mais forte e, se a UE fosse firme, poderia fazer das fraquezas forças e começar a contar na política mundial.

Na realidade, a Europa dividida e minada por duas ou três toupeiras, não é suficientemente forte e muitos dos países da UE não contam para este campeonato. O Macron, de vez em quando, tenta pôr-se em bicos dos pés e o Merz dá mais no cravo que na ferradura. Por exemplo, na terça-feira, na Casa Branca, quase fez figura de urso.

No caso português, ninguém os tem no sítio. A entrevista do Paulo Rangel na CNN para justificar o injustificável relativamente às Lajes foi ridícula. Nem coragem têm para assumir o que aconteceu. Estou convencido que, se o Pedro Sanchez fizesse alguma escola, a Europa era mais respeitada e o eixo transatlântico não ia ao fundo, antes pelo contrário. Felizmente, esta quarta-feira, o Costa mostrou solidariedade com Espanha o que é relevante.

Tenhamos esperança, mas não estou suficientemente confiante que as midterms tragam grandes mudanças nos Estados Unidos. O Trump é tão nocivo como o Putin e a sua eleição foi uma verdadeira catástrofe planetária.

O Trump é um grande problema, mas, o problema enorme são aqueles que o rodeiam e que tudo manobram para conseguirem os votos dos grunhos e demais acéfalos. Será que vão conseguir continuar a manobrar a esta gente em Novembro? 

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Uma nota final: A conferência de imprensa do Peter Hegseth e a forma como falou do afundamento do navio iraniano revelam bem a boçalidade da administração americana. Ao elogiar empolgadamente a forma como, com um torpedo, o navio foi afundado, esquecendo-se que a bordo estavam quase duzentas pessoas, revela a crueldade e a falta de respeito pela vida humana da administração Trump.

quinta-feira, julho 17, 2025

As cores e o calor a sul

 

Dias de calor, de veraneio, de muito azul e de muita luz. Dias de muita risota. 

E, como não há  bela sem senão, dias de petiscos e lautos repastos. Tanto cuidado que andei a ter com hidratos e com açúcares para agora andar a deitar tudo a perder... 

Como sempre, trouxe livros e, como sempre, ainda não peguei em nenhum.

E, como sempre, já apanhei conchinhas que me parecem lindas e imprescindíveis. Mas a idade já me ensinou a não ter muitas ilusões. No outro dia, quando estava a preparar o saco de palhinha, encontrei, no fundo, umas que o ano passado também já me tinham parecido delicadas, pequenas obras de arte.

Dantes trazia as minhas câmaras fotográficas. Da última vez que trouxe uma, encheu-se de areia, ficou estragada. Desisti. Agora só uso o telemóvel. no entanto, para mim isso é muito limitativo, perco a vontade de me me focar nos detalhes, sinto que me vulgarizei. Mas é o que é, acompanho os tempos.




segunda-feira, abril 08, 2024

Donostia

 


De todas as vezes que estive no País Basco sinto-me encantada e com vontade de regressar com mais tempo. Tenho ideia que este enamoramento vem do tempo em que lia os livros da Menina Aguaceiro da Berthe Bernage e em que pelo menos uma da história se passa lá. Não sei se os avós dela eram bascos e ela ia lá visitá-los pelas férias ou se sonhei. Já tentei pesquisar na net para ver se confirmo a minha ideia mas não encontro. Acho que esses livros estão in heaven. Tenho que ver se os descubro e se encontro alguns passados entre os bascos. 

Para mim é como se fosse uma terra de magias, de segredos. É um lugar de grande beleza natural, em que as pessoas mostram ser muito felizes, em que o convívio parece permanente, onde todos se mostram sorridentes e conversadores. E onde se vêem mais crianças na rua. É impressionante como há parques infantis nos locais de passeio e como estão sempre cheios de chilreios felizes e ruidosos. A demografia em Donostia deve ser motivo de tranquilidade para quem gere os sistemas de segurança social e, para as restantes zonas em que a população envelhecida prevalece, deveria ser inspiradora.

Portugal deveria tomar Donostia como um case study e analisar o que leva a população a reproduzir-se tão abundantemente.

Ao fim do dia, as ruas enchem-se ainda mais e há miudagem e adolescentes como não vejo em qualquer outra cidade.

[Abro um parêntesis para um aspecto que, aqui no texto, vai parecer a despropósito mas que é um tema que trago latente em mim. 

Durante muitos anos sentia receio em afastar-me de casa pois parecia antever que, mal chegasse ao meu destino, iria ter que regressar para acudir a alguma crise do meu pai e, depois, da minha mãe. Aliás, mal eu estava a pensar afastar-me um pouco, eu sentia que a minha mãe ficava ansiosa, com receio que houvesse alguma e que ela não me tivesse por perto para encaminhar ou resolver o que aparecesse.

Por isso, aos poucos fui-me adaptando a, no máximo, ir fazer uma semana ao Algarve ou uma semana ou dias avulsos a locais próximos, em que, se necessário fosse, ao fim de duas ou três horas estaria cá.

Agora já não existe essa condicionante. Contudo, quando o nosso cérebro se enleia em preocupações e cuidados, é difícil, num curto prazo, vermo-nos livres deles. Por isso, cá no fundo de mim há sempre uma pequena ansiedade latente como se, a qualquer hora, alguma coisa fosse surgir que me atalhe as férias. 

Mas isto já vem de antes. Ainda antes dos meus pais eram os meus sogros. Ainda me lembro de estar em Lagos e o meu sogro estar a ligar para o meu marido a querer que ele fosse com ele ao médico e ele a fazer uma ginástica, a dizer que ia na segunda-feira seguinte e o meu sogro a querer que ele fosse no dia seguinte. Eu ouvia aqueles telefonemas sempre no receio de ter que fazer as malas e regressar. 

Claro que a nossa mente fica formatada... 

Mas sei que, aos poucos, isto me há-de ir passando.

Mas ocorre-me também, frequentemente, que está na hora de ligar à minha mãe ou que não posso atrasar-me senão faz-se tarde para ligar. Claro que logo penso que é pensamento desfasado mas, nessa altura, parece que sinto a falta de ter a quem contar os meus passeios, o que os meninos fizeram, as notas que tiveram, como são as lojas ou os preços. Não digo nada. Falar nestas coisas causa apreensão nos outros, acham que alguma coisa não está bem connosco. Também, falar para quê? Mais vale encarar com naturalidade e seguir adiante.

Há cerca de um mês, quando fui a uma consulta de rotina, queixei-me ao médico que parece que ando com o sono alterado. Ele disse que isso era normal nos processos de luto. Nessa altura, contrariei-o: 'Acho que não deve ser isso, já passou um mês...' Ele riu-se e disse: 'Um mês nestes processos de luto não é nada. É normal durar meses.' Agora já passaram dois meses e meio. De facto, foi há pouco tempo. E estou bem melhor.]

Andar em locais de grande beleza, com a família, em ambiente boa onda, faz-me bem. Nenhum lugar poderia ser mais adequado a esta lavagem de alma do que o País Basco.

Por muitas vezes que esteja em Donostia, por mil vezes me sentirei encantada. Tudo tão bonito, tudo tão feliz.

Depois há o lado francês, Saint-Jean-de-Luz, Biarritz, Bayonne. Mas amanhã as mostrarei.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Alegria. Paz.

terça-feira, agosto 29, 2023

Rubiales: os seus genitais e o beijo a Hermoso (consentido ou sem sentido)
- Assédio ou não assédio, eis a questão -
.


Continuo entregue a tarefas comezinhas tais como fazer máquinas de roupa, estendê-la ao sol e ao vento, apanhar brinquedo aqui, coisa acolá. E também a tentar organizar minimamente os meus escritos e isto é, para mim, o pior. Gosto de criar e detesto 'manter' (catalogar, etc).

Dentro do possível, o dia foi, pois, tranquilo. Tenho sempre muito que fazer e quando é criar a partir do nada é um empolgamento; quando é inventariar e arrumar é uma missão que executo com algum sacrifício. De qualquer forma, sou geneticamente esforçada e, por isso, se meto na cabeça fazer uma coisa, eu faço, goste ou não goste. E, além disso, ocupa-me enquanto a minha mente não se ilumina para me guiar no caminho certo.

Com estas ocupações, não sei como, o meu dia esteve sempre preenchido. 

Felizmente dormi como uma santa. Dormia mais. Acordei porque fui acordada e também já não eram horas para voltar a cair no sono. A seguir ao almoço e depois de mais uma leva de roupa estendida, deu-me uma pancada de sono mas se caí no limbo da sonolência por uns dez minutos foi muito.

Ainda aqui não disse nada sobre o beijo do Rubiales na jogadora Jeni Hermoso e não disse pois tenho alguns mixed feelings

Ao ver o beijo, não me senti chocada. Pareceu-me não apenas haver euforia da parte dele como uma grande cumplicidade entre ambos. Que pessoas que se dão muito bem (como ela, depois, disse que davam), num explosivo momento de alegria exuberante e de consagração daquilo que muito desejavam, se beijem momentaneamente na boca não me choca. O vídeo completo mostra um apertado abraço, ele com os pés no ar, ela também exuberante, naturalmente bastante feliz da vida.

Coisa diferente seria se eu tivesse percebido surpresa ou desagrado da parte dela ou se, a seguir, em vez de tê-la ouvido desculpá-lo, tivesse ouvido que não tinha percebido, aceitado ou desculpado aquele beijo. Mas não. Não apenas me pareceu, num momento de grande euforia, o corolário de uma amizade e cumplicidade anterior como, no momento, não a vi minimamente incomodada ou surpreendida com o que se tinha passado.

Já me chocou, confesso, uma imagem que mostraram em que ele, no palco, está na maior explosão de alegria, aos saltos, aos gritos, de braços no ar e, às tantas,  tanta a adrenalina, agarra os próprios genitais. Parece coisa de excesso de testosterona, de pico orgástico -- mas, convenhamos, bastante despropositado em público. Aí diria que me parece inaceitável que uma pessoa com a responsabilidade dele tenha uma tão inusitada falta de maneiras. Mas este é um segundo tema e, que eu saiba, não é o que tem estado em causa.

Isto do assédio e do consentimento tem que se lhe diga e tem que ser avaliado por quem tenha os pés no chão, os neurónios a funcionar e um módico de bom senso.

Claro que se houver casos em que comprovadamente ele molestou, moral ou sexualmente, jogadoras ou outras mulheres, ou se fez depender o trabalho delas de cederem aos seus apetites ou caprichos, se foi inconveniente e desagradável causando-lhes incómodo ou pressão, aí as coisas, em minha opinião, mudam de figura.

Agora se foi só aquilo do beijo penso que antes de o crucificarem, queimarem vivo e apedrejarem, deveriam voltar a ouvir a jogadora. Se ela mantiver que são amigos, cúmplices de sonho e ambição, se têm grande confiança e à vontade e que não há nada a dizer sobre o beijo, então, o beijo não me parece caso para o que está a acontecer. 

Num caso destes não se põe a questão do consentimento pois não se proporciona parar e pedir: 'Posso dar um beijo?'. É um pico de euforia e ou bem que ambos têm cumplicidade para que isso aconteça ou não. 

Quanto à forma como publicamente agarrou os fogosos genitais parece-me, essa sim, muito incomodativa. Não sei se é caso para o sacrificarem publicamente ou se é caso de lesa-majestade mas acho que é, isso sim, caso para severa admoestação.

Quanto a ele, independentemente de tudo, ao ver o sururu que estava a ser criado, e ao ver-se a agarrar os genitais, o que penso que teria sido inteligente teria sido demitir-se. Simplesmente. Pedir desculpa se, com a sua exuberância emocional, tinha incomodado alguém e demitir-se. Tinha evitado muito exagero, muito moralismo, muita falta de bom senso. Tinha evitado ser esmagado, devorado, desonrosamente derretido  na praça pública.

PS - Volto a dizer: digo isto apenas pelo que vi pois não o conheço nem faço ideia de como se comporta social, profissional ou sexualmente.

sábado, agosto 19, 2023

As mamas das mulheres são assustadoras?
Os seios desnudos de Eva Amaral incomodam alguém...?

 

Já não faço topless em público. De resto, apenas o fazia em praias com muito pouca gente. Gostava, isso sim, era de, nessas praias, nadar nua. Mas isso, acho eu, ninguém via.

No campo, no verão, quando estamos só os dois, ando frequentemente nua. Tenho um lado muito naturista e um outro muito reservado. Ou seja, acho que, na verdade, tenho alma de bicho do mato. Deveria poder viver num recanto do mundo onde essencialmente só houvesse bicho para não correr o risco de ser olhada. Os bichos não olham, só aceitam.

Ainda não contei: no outro dia o meu marido viu um esquilo grande e um esquilo mais pequeno. Não sabe se seria macho e fêmea ou mamãe e seu filhote. Diz que subiram pelo tronco de um cedro, perto dele, na maior descontração. Acho isto extraordinário. 

Roem pinhas como se não houvesse amanhã. Deve ser um exército deles pois é impossível que só dois fossem capazes de tamanho estrago. 

Continuo a deixar, à sombra, uma banheira de bebé cheia de água para poderem refrescar-se. Espero que apreciem.

No outro dia, quando lá chegámos já havia pequenos seres a nadar dentro dessa água. A natureza, a vida, tudo isto são acasos extraordinários. Milagres, propriamente ditos.

Despejei a água para pôr água fresca mas fiquei a pensar no que sairia dali se deixasse aqueles seres desenvolverem-se à vontade. Na volta, um dia chegava lá e dava com carpas gigantes. Ou com rãs.

Mas estou a falar como se estivesse in heaven e não estou. Estivemos fora mas hoje, depois de almoço, regressámos à civilização. O pessoal já cá estava. Tivemos uma festa de anos atrasada pois a aniversariante, no dia dos anos, estava fora.  

Estivemos juntos, festejámos. Tão bom. 

Por aqui não há esquilos. Mas há gatos. Agora, de vez em quando, aparece um gato completamente branco. Até no parapeito, do lado de fora, já se pôs com os meninos todos do lado de dentro. Ficaram um bocado intrigados.

Hoje de noite, depois de termos jantado (lá fora, no terraço) e, creio, já depois dos parabéns a você, a fera pôs-se acocorada a olhar fixamente para algo que estaria atrás de um vaso grande. Quando isso acontece é bicho. O bicho fica paralisado e ele, porque os bichos se põem onde ele não os alcança facilmente, fica à espera de um movimento em falso para lhes saltar em cima.

Mas a coisa levantou voo. Todos atrás. A coisa entrou em casa. Todos atrás, pessoas e cão. Um alarido, palpites, que se abrissem todas as janelas, que se acendessem todas as luzes, que se afastassem alguns móveis. Uns saltavam, outros corriam. Para as crianças, é o delírio. 

Quem viu achou que era um morcego pequeno.

Tudo à procura, o meu filho de chinelo na mão e eu não queria que ele matasse o morcego e cada um a dizer sua coisa, as opiniões divididas.

Até que um quadro se mexeu. Concluíram que a coisa estava lá atrás. O meu marido tirou o quadro, a coisa tombou e o meu filhou deu-lhe uma sapatada.

Era um grande insecto, não sei qual. Bonito. Tamanho gigante. Não era gafanhoto, era bem maior. Um tom entre o platinado e o leve esverdeado, brilhante. Foi apanhado com um papel.

Se fosse um morcego seria estranho. Imagino que não se soubesse bem o que fazer com ele.

Bem. Isto para dizer que os animais estão bem é a viver em liberdade na natureza.

E depois há isto: parece que isso faz sentido para todos os animais mas, vá lá saber-se porquê, parece que se acha subversivo as mulheres andarem de mamas ao léu. 

Cresci com essa condicionante. Logicamente não me daria jeito andar por aí em tronco nu. Uso é cada vez menos soutien. Não há pachorra para andar condicionada. Só quando não quero que se perceba e receie que fique uma situação constrangedora é que o ponho.

Mas acho uma burrice, uma ignorância, uma estupidez os movimentos moralistas, as plataformas moralistas armadas em censoras de coisas inócuas e tudo o que tresanda a atraso de vida que impede as mulheres, que o desejem, de, em determinados contextos, terem o peito à vista.

Num espectáculo em Espanha, a cantora desnudou-se e actuou assim. E eu, para dizer verdade, acho que, se ela o quis fazer 8e ela explicou as suas razões) e se sentiu bem, pois não fez ela senão bem.

‘I don’t know why our boobs are so frightening’: why musicians in Spain are going topless as a radical gesture


Eva Amaral se desnuda en Sonorama por la libertad de las mujeres: "Nadie puede arrebatarnos la dignidad"

"Somos demasiados, y no podrán pasar...", entonaba la noche del sábado Eva Amaral sobre el escenario y a pecho descubierto. Un gesto que revolucionó al festival Sonorama Ribera, donde el duo aragonés Amaral echó mano de su carácter más reivindicativo. El concierto que debía conmemorar sus bodas de plata con la música, 25 años transcurridos desde que vio la luz su primer disco, con el que compartían nombre, se transformó en un clamor por la dignidad y la fortaleza de las mujeres.

In the middle of her performance at the Sonorama festival in the northern Spanish town of Aranda de Duero on Saturday, Eva Amaral was about to lead her band Amaral into her song Revolución when she took off her red sequin top and threw it on the floor.

“This is for Rocío, for Rigoberta, for Zahara, for Miren, for Bebe, for all of us,” she said, listing the names of fellow artists before uncovering her breasts. “Because no one can take away the dignity of our nakedness. The dignity of our fragility, of our strength. Because there are too many of us.” In a concert marking the Spanish band’s 25-year career, going topless was a way of defending women’s dignity and freedom to go nude, and “a very important moment”, Amaral later told El País. 
But it was also a show of solidarity with a growing number of Spanish artists who are resorting to nudity to defend women’s rights, and have been censored or attacked as a result.
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Desejo-vos um bom sábado

Saúde. Alegria, Paz.  

segunda-feira, julho 24, 2023

Uma péssima notícia para quem trabalha maioritariamente em teletrabalho

 

Tendo os meus três últimos anos de trabalho assalariado coincidido com os tempos covid, antes de me reformar estive bastante em teletrabalho. E gostei, sobretudo pelas horas de trânsito que poupei e, não menos importante, pelo tempo que poupei com gente que me entrava pelo gabinete adentro com conversas da treta, obrigando-me a ter que compensar trabalhando até às tantas.

Mas teve implicações negativas. Fiquei a ver muito pior. Não tinha vista cansada e agora tenho. Não precisava de óculos para ver ao perto e agora preciso. Continuo a não usá-los porque não atino com eles mas noto que qualquer dia vai ter que ser.

E também noto que a minha pele não está a ir para extraordinária. Mas isso não sei se é consequência do teletrabalho ou, simplesmente, de ainda estar viva e, logo, como todos os seres que estão vivos, mais velha.

Seja como for, vi imagens de um estudo conduzido pela empresa Furniture At Work em conjunto com investigadores da Universidade de Leeds que me deixaram um pouco desconfortável. Projectaram o que serão os efeitos no corpo de uma mulher que esteja sempre em teletrabalho. E é terrível. Vê-se e não quer ver-se. E, no entanto, percebe-se que é muito provável.

Peso excessivo, costas curvadas, ancas alargadas, olhos encarnados e inchados, braços e dedos encurvados. E o texto não o refere mas é bem visível a flacidez e a macilência da pele da pobre coitada.






Claro que admitiram que, em casa, as pessoas não têm secretárias, iluminação e assentos ergonómicos. Admitem, até, que anos a fio de teletrabalho farão com que as pessoas acabem por trabalhar maioritariamente a partir da cama. 

Ora, como se sabe, o ecrã deve estar à altura dos olhos, a luz deve entrar pela esquerda, as costas devem estar direitas. E as pessoas devem levantar-se e andar de x em x tempo (não sei exactamente quanto). E é importante que se conviva pois a saúde mental ressente-se da falta de convivência. E, não menos importante, é relevante caminhar ao ar livre, ter alguma actividade aeróbica.

Portanto, se é óbvio que o teletrabalho veio para ficar, acredito que se evitará que seja a 100% ou perto disso. Provavelmente estabilizará, nas funções que o permitam, no intervalo contido entre os 40 e os 60%. E acredito que as entidades patronais zelarão pelas boas condições de trabalho em casa.

Daqui por uns anos (se o planeta ainda permitir a nossa existência e se uns facínoras que por aí andam, entretanto, não nos mandarem a todos desta para melhor), não podemos ter um mundo maioritariamente habitado por gente assim, zombies, gordalhufos, flácidos, meio acabados. Vade-retro.

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Nota sobre as eleições em Espanha: obviamente estou contente pela quebra na votação no Vox. As pessoas, quando há risco de retrocesso democrático, geralmente põem os pés na terra e deixam-se das tretas dos memes que inundam as redes sociais, das fantasias revanchistas, das burrices dos comentadores-papagaios, e votam usando a cabeça. 

Quanto ao que vai acontecer, penso que seria bom para Espanha e para a democracia europeia se o PSOE conseguisse formar governo. Mas vamos ver. Não vai ser fácil resolver o imbróglio, digo eu.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Boa disposição. Confiança. Paz.

segunda-feira, abril 29, 2019

Este corpo





Isto para dizer que, tendo eu decidido firmemente fazer dieta, no outro dia, quando fomos lanchar, toda a gente a pedir tostas, sandes, torradas, e vou eu, sentindo-me tão doente, achei que deveria ser compensada com uma doce excepção e, vai daí, para mim pedi uma tarte de limão merengada e, para curar a doença e para fazer pendant com o boloum carioca de limão. O meu filho admirou-se: 'Mas não estavas a fazer dieta?'. Claro que estava.


Entretanto, depois de uns dias em cura de sono e a viver como que numa twilight zone, à vinda, o meu marido foi simpático e percebeu que eu estava carente de algo. Ou seja, perguntou: 'Queres ir comer um gelado?'. Respondi que, estando eu em rigorosa dieta, só ia abrir excepção por ele estar a insistir tanto. Ele ainda me tentou: 'Vê lá, se preferires, não vamos' mas eu não mordi o isco. Claro que fomos. Ou melhor, fui eu que ele não quis. Quando ia a entrar na gelataria pensei que ia ser só uma bola mas, quando pedi, o que me saíu foi: 'Cone de duas bolas'. Mas logo caí em mim. E, portanto, acrescentei: 'Cone sem açúcar' e, por caridade, abstive-me de me achar ridícula. 


Mas depois, enquanto me lambia com ele, ia pensando que, a partir de agora, é que ia ser. E vai. Macacos me mordam se não vai. Saladinhas, hidratos de carbono = bola, açúcar nem vê-lo, nem pintado, nem disfarçado de frutose.
Claro que isto do peso é uma quimera. Tenho colegas que fazem de tudo para engordar: comem papas, iogurtes gordos e açucarados, pão com marmelada e, para inveja global de todas as outras, mantêm-se elegantes de dar gosto. Mas elas não gostam: gostavam de ter chichinha, um pneuzinho que lhes enfeitasse o abdómen, umas maminhas mais salientes. A minha mãe, por exemplo, também pode comer de tudo que não muda de peso. Eu, desde que entrei na menopausa, é o contrário. Só de me apetecer um belo risotto já o meu cérebro interpreta que vêm aí calorias a mais e, por avanço, já começa a processá-las e a alojar gordurinhas a mais um pouco por todo o lado. E não que esteja muito gorda. Há quem ache que estou bem. Mas isto cada um compara-se com quem quer e eu comparo-me com o que era antes. Pode ser um disparate, pode ser que não se consiga nem faça sentido. Mas não quero saber. Tenho para mim que é uma questão de disciplina, de aritmética: não ingerir mais calorias do que as que consumo. E até atingir o ponto de equilíbrio, ingerir menos do que as que consumo. 

E estou a escrever isto e a pensar que não devo é estar boa da cabeça para, em noite de eleições em Espanha e com o galã do Vox, um cavaleiro vindo dos tempos de antanho, a marcar pontos, estar aqui nesta conversa da treta em vez de me dedicar a temas a sério. Por exemplo, talvez pudesse dizer que se calhar era oportuno perceber se há alguma consanguinidade entre o dito Abascal e o calinas do Melo (que parece que nunca fez ponta de coiso enquanto anda a fazer de conta que é deputado europeu e que agora quer ir a cavalinho na onda de populismo do outro) ou se aquilo é mesmo apenas afinidade ideológica. E também podia dizer que os senhores jornalistas deveriam perguntar à Madame Cristas da Coxa Grossa se perfilha a opinião do seu colaborador.


No entanto, agora que estou a sair da toca constipal em que, graças à ceterizina, estive hibernada, dormindo dias a fio, estou ainda desligada da realidade.
(Nem sei como consegui aparentar trabalhar durante a semana que passou. A sério: é um mistério.)
Ou seja, não consigo estar à altura dos temas pertinentes do mundo real nem sequer responder a mails nem a comentários -- e só de pensar que se avizinham mais uns dias normais de trabalho já me apetece voltar a hibernar. 


Portanto, voltando ao tema que aqui me traz: o das curvas.

Uma vez que os votantes, um pouco por todo o mundo, andam a dar mostras de estar fartos de políticos de faz de conta e, de carrinho, enfiam tudo no mesmo saco, e fartam-se também dos políticos de verdade, começam a vingar os palhaços, os comediantes, os apresentadores de reality shows, os parvalhões encartados. E eu, pensando nisso, e já que em Portugal somos mais comedidos, acho que poderíamos inovar e ter candidatos temáticos: os candidatos que são a favor da comida vegan, os candidatos que defendem o direito das mulheres a quererem casar com um agricultor, os candidatos que defendem o direito das pessoas a tatuarem-se de alto a baixo e... os que defendem o direito das mulheres a terem à sua disposição espelhos que emagreçam (ou que engordem -- conforme o caso).


E esta conversa toda porque.

Em França, o movimento The All Sizes Catwalk já aí está. E para provarem que não têm medo de nada e que vieram para ficar, desfilaram este domingo em Paris, no Trocadéro, bem em frentezinha da Torre Eiffel. Em lingerie. O que é bom é para se ver.

E quem não acreditar que faça o favor de conferir, que eu não estou aqui para enganar ninguém.

E desfilaram novas, velhas, magras, gordas, com celulite, sem celulite, mamalhudas ou nem por isso. Do 34 ao 52. Uma alegria de diversidade que assim é que é bonito.

[E fiquei a saber que, para que se saiba, o número mais comum em França é o 42. Boa.]

E, para terminar, un petit cadeau. 

Ou melhor, qual presente qual carapuça: um statement -- This Body


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E uma boa semana para todos a começar já por esta segunda-feira.

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terça-feira, abril 17, 2018

Marcelo, um pinto calçudo no meio da realeza espanhola
Uma reportagem fotográfica da UJM, enviada especial ao serviço da ¡HOLA!


Bem. Estava eu a ir de carro quando ouço alguém a falar espanhol com um sotaque macarrónico. Apurei o ouvido. O converseio e a voz eram-me familiares. Pensei: 'Mas querem lá ver que agora já por aí anda a discursar em espanhol?' Exacto. Era mesmo. O nosso incontornável Marcelo estava a dar uma aula numa universidade em Madrid. Louvava a geringonça com todo o salero de que era capaz e com um à vontade de quem estava em casa. Pimbas. Espanha já no bolso.

E que à noite ia jantar com os reis, dizia o repórter. 

À vinda, ouço as notícias das oito. O Marcelo já estava no banquete.

Curiosa para ver a cena, fui ao site da ¡HOLA! e, olé!, já lá estavam. Marcelo como se, de novo, também em casa a distribuir charme. Dona Letizia, como sempre, apenas esboçando um ar de simpatia não vá o sorriso causar-lhe alguma indesejada ruga, e firme e hirta, o garfo ainda entalado no gasganete. Dom Filipe igual a si próprio, esfíngico, simpático e nulo.

Mas o que me chamou a atenção foi que alguém emprestou a farpela ao nosso Marcelo e ninguém se deu ao trabalho de ajustar as peças ao recheio. Calças largueironas e a cairem-lhes aos folhos pelos artelhos abaixo. Lá está. Em linha com o que dizia há pouco, se isto fosse festa de pobrezinhos, não faltaria quem lhe alinhavasse uma bainha, quem o fizesse andar para ver como ficava, etc, ninguém querendo que o pobre coitado fosse fazer má figura. Assim, toda a gente caguou para o pormenor (calma: não disse nenhuma grosseria, fui fina no trato, disse caguou): vai com as calças de rojo e vai fantástico.


A fralda também demasiado de fora mas, enfim, por um ou dois dedos a mais também não vou fazer caso. Agora as calças, senhores, no mínimo um número acima na barriga e um palmo a mais no tamanho.

Consta que a tiara da Rainha também é especial, um tal Diadema de Cartier. Coisa quase a roubar a atenção do arejamento que o vestido apresenta nas cavas.

Ana Pastor, então, foi mais longe e arejou os bracitos todos. Pelo ar da guapa señorita, o malandreco do Marcelo devia estar a dizer-lhe um piropo, deixando os senhores da direita da foto a fofocarem, meio incrédulos.


Pelo contrário, a senhora que ia com Mariano Rajoy (e que não creio ser a mulher mas, talvez, a sogra) vai bem agasalhada. Não se esmerou foi muito no penteado que aquilo mais parece o carrapito de uma minhota que se penteou à pressa, com um gancho de cada lado.


Quem avançou formosa e segura foi a Tejerina, mais concretamente Isabel García Tejerina, ministra da agricultura e das pescas. É ver o olharzinho encantado do nosso ministro Augusto Santos Silva, olhando a forma sinuosa do corpinho deslizando pela passadeira, todo ele com um sorrisinho de quem está a ensaiar uma boquinha filosófica para se armar ao pingarelho na primeira oportunidade.

E quem me parece ver ali com um traje meio estranho, saia justa em beige e camisa de renda preta com o cinto caído saia abaixo é a Teresa Leal ao Coelho, talvez na qualidade de Embaixatriz já que me parece ver a cara redonda do Embaixador a assomar por detrás da paisagem.


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E, dado o adiantado da hora, me quedo por aquí. As fotos são, como referi, da ¡HOLA!

Amanhã, com vossa licença, falo sobre a reportagem relativa ao Caso Sócrates. Não falei hoje porque quero deixar assentar. Prefiro servir a coisa depois de a ter assimilado, destilado, processado, whatever.  

E queiram continuar a descer que, já a seguir, tenho um grande texto sobre a Síria que vivamente recomendo. Não foi escrito por mim mas tenho pena: enviou-mo Leitor amigo que sabe da coisa.

Logo a seguir, tenho umas certas e determinadas Divinas, coisa com alguma transcendência.

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sábado, outubro 28, 2017

Sobre Puigdemont o que tenho a dizer é que tenho muitas dúvidas de que eu alguma vez votasse num sujeito com aquele cabelinho


Gosto muito da Catalunha. Adoro Barcelona. Para mim aquilo é Espanha. É a Espanha solar, alegre, vibrante. Contudo, eu não sou espanhola e a minha opinião sobre assunto tão obnóxio não é para aqui chamada.

Quanto a Rajoy, à laia de disclaimer, o que tenho a dizer é que não gosto. Não faz o meu género.
E, calma, não é por, a falar, ser xopinha de macha -- que isso até poderia ter graça. 
Não, não gosto porque o acho inábil, babaca e porque aquilo que ele defende não é propriamente a minha praia. 

Nesta coisa, Catalunha versus Espanha, a sensação que tive desde o início foi que quis armar-se em bom, em mauzão, e que conduziu o assunto da autonomia e da independência com os pés. Ou melhor, com as patas porque, de facto, se portou como um autêntico burro.

Mas também não me parece que tenha ponta por onde se pegue que, nesta altura do campeonato, um bocado de um país se meta a besta, numa maluqueira destas, declarando-se independente.

Parece-me uma macacada. Um filme cómico em que o elenco passou a agir na vida real como se estivesse em pleno plateau.

No entanto, o ponto que aqui me traz nem tem a ver apenas com uma magna questão estratégica ou de geo-política: é mesmo a criatura em pessoa. Ou seja, o meu ponto tem a ver com o artista ele-mesmo. Carles Puigdemont i Casamajó. O verdadeiro macaquinho do rabinho pelado e cabecinha despendeadinha mental.


Com aquele cabelinho, aquele arzinho de totó, aquelas declarações redondas que revelam que, a nível de coiso, nem é carne nem é peixe -- a mim não me convencia ele. Mesmo que me vendassem. Acho que o ouvia e, mesmo às cegas, conseguia logo adivinhavar o cromo que ali está.

E mais: não percebo como é que ainda ninguém fez a caridade de lhe dar uma rapada, nem que fosse para a sua conversa soar mais credível.

Assim, bem pode proclamar que é o reizinho da República da Catalunha que, cá para mim, grande parte da malta está a pensar: 'Está bem, está. Deves mas é ter fugido de Rilhafoles, por supuesto. E, caracoles, que lluny vieste parar....'.

E, à falta de melhor, acho que devem é ir buscar o rei-velho aos braços das so called amigas para ver se ele põe alguma ordem na mesa. Apesar das wild caçadas e das surtidas nocturnas e diurnas, se fosse ele a reinar talvez tivesse arranjado tempo para enquadrar Rajoy como devia ser, não tendo deixado levar Espanha para este estado de big enchavilhadela, no qual parece não haver rei nem roque que a salve. Digo eu. Mas, lá está, nem sou espanhola nem prevista.

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E, pronto, é isto.

Ou hoje ou amanhã de manhã estarei de volta. Estou aqui só a acabar uma cena.
Até já.

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terça-feira, agosto 22, 2017

Olha... tantos tomatinhos...!


Contei-o na altura: estávamos a preparar a janta. Eu estava a fazer umas coisas, depois interrompi para deitar um olho ao mais velho que estava a tomar banho sozinho enquanto a minha filha ficou a tratar da salada, depois ele foi para o quarto para se limpar e vestir e a minha filha foi para a casa de banho, ajudar no banho do mais novo.

Voltei à cozinha e, vendo uma tigela com os tomates cherry, de lá gritei à minha filha: 'Olha lá, lavaste os tomatinhos?'.

Para nosso espanto, acto contínuo, responde o pimentinha mais velho lá do quarto: 'Claro!'

Desatámos as duas numa risota e ainda hoje, quando vemos 'tomatinhos', nos rimos.

Lembrei-me disto (confesso que a despropósito) ao ver, no The Guardian, a fotografia abaixo, uma fotografia magnífica. Explico o que é, transcrevendo:
Villagers put tomatoes under the sun, creating a blanket of deep red, to dry them in Hejing county in the Mongolian autonomous prefecture of Bayingolin. (Photograph: Xinhua)

Estamos na altura do tomate maduro e eu, que sou uma meditarrânica dos quatro costados (apesar de ter um avô que parecia nórdico e de um outro que sempre achei que tinha uns certos traços asiáticos), gosto de o comer de todas as maneiras: em salada com cebola temperada com azeite e orégãos, em sopa de tomate, em ovos mexidos com tomate, em arroz de tomate, em ensopado de enguias e sei lá que mais.

E se gosto de ver campos de tomates ou ir atrás de atrelados cheios de tomates... Lembro-me também do meu avô cultivar tomates alongados, uma coisa meio rara naquela altura, e entrelaçar com a rama umas résteas que não eram de cebolas ou alhos mas de tomates, que ele deixava suspensos numa casa pouco iluminada que havia no quintal e onde ele guardava alfaias, cebolas, alhos, batatas e onde tinha também as galinhas a chocar ovos. Lá se aguentavam os tomates ao longo de meses, tendo nós tomates frescos e maduros todo o ano. Também o meu pai, quando lhe deu para ter uma horta, entusiasmo que não durou muito, cultivou uns pés de tomateiro nuns canteiros. Armava-os com umas canas fininhas, tal como armava os pés de feijão verde. E eu gostava de ver as frutinhas a crescerem e gostava de os ir apanhar para sentir aquele belo perfume. Ainda hoje, se compro tomate de rama, quando os arranco, cheiro-os para ver se trago de volta aquele perfume tão bom dos tomates recém-apanhados.


Claro que, apesar de gostar imenso de tomate, não gosto a ponto de me imaginar mergulhada num banho deles como acontece em Espanha, Buñol. Mas, enfim, vendo a alegria dos banhistas completamente tingidos pela bela cor da tomatina não posso dizer que daquele sumo não beberei.


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E, por falar em encarnado (e já nada a ver com tomates, claro está), que entre a música do mestre Ernesto Lecuonano colada ao corpo do casal do Grupo Corpo que aqui interprta uma coreografia de Rodrigo Pederneiras




Ou o Encarnado da bela trilogia de Kieślowski


E os belos rouges de chez-moi ao  pôr-do-sol


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E uma bela terça-feira a todos quantos por aqui me acompanham

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sábado, abril 29, 2017

Lá vem o barquinho


A praia em dias assim, sem ninguém, fica mais bonita. É só natureza e toda para o nosso olhar. Nada nos distrai daquilo que queremos ver. As nuvens, o sol querendo romper por entre elas -- e claro que o sol não tem desses quereres, que o vento é que joga ao gato e ao rato com as nuvens. De vez em quanto um ribombar surdo. Trovões ao longe. 

E o cheiro da maresia.

E a descoberta do homem, pequeno e insignificante, quase igual às pedras junto às quais se move. E, ainda assim, mais relevante que eu porque se fez ver enquanto eu passo invisível, como se não existisse, sem que alguém saiba que ali vou (tirando o meu marido, tão invisível e insignificante quanto eu).




Depois as ervas douradas, ondulando freneticamente ao vento. E os desenhos dos veios da madeira dos troncos que protegem as arribas, e a maré vaza. E eu vou descobrindo ângulos novos para fotografar o mar, tornando a sua vastidão apenas numa estreita nesga azul, menos relevante que os desenhos da madeira macia do tronco.


Até que percebo que, ao fundo, na linha de horizonte, há um pequeno risquinho que se move. Vejo agora nas fotografias que o risquinho já lá estava, e eu, uma vez mais, sem o ver. É um navio grande, transporta certamente mercadorias, tem lá dentro várias pessoas, vale certamente muito dinheiro, é, não tenho dúvidas, muito importante para muita gente. E, no entanto, diluído na paisagem, é nada, um insignificante ponto que se move sobre as águas. 

Começo, então, a esperá-lo. Vem vindo, belo, azul junto à linha de água, branco em cima. Elegantes estes navios de grande porte. 

Já entrei algumas vezes em navios de grande dimensão. Penso que já falei nisso aqui mas há muito tempo. Isto passou-se numa minha outra vida.

Uma das vezes, sabia que ia estar à descarga um produto que se temia ser poluente e que a autarquia estava alerta. Era um cargueiro que traria umas seis ou sete mil toneladas desse material, já nem me lembro bem, talvez até mais. 

Pedi para assistir à descarga e pedi que me deixassem ir a bordo. Não foi fácil. Teve que haver permissões de vários intervenientes. Informaram-me que talvez fosse melhor usar máscara. Avisaram-me, sobretudo, que não era sítio para uma mulher. E não era, de facto. Nem para uma mulher, nem para um homem. 

Lamento não ter fotografado; mas talvez não fosse autorizada a isso.

Andei por escadas e pontes periclitantes. Mas vi. Homens minúsculos, lá em baixo: pareciam formigas no meio do pó. Uma imagem terrível de que jamais me esquecerei. 

Acho que, quando se assiste a uma coisa assim, fica-se inevitavelmente mais próxima dos outros. Estando eu distante do que se passava lá em baixo, protegida, mera observadora, senti-me próxima e devedora daquelas pessoas que trabalhavam num trabalho tão duro, tão atentatório da dignidade humana.


Numa outra vez, sabia que estava a chegar um navio que trazia um produto que, pelas suas características, era transportado em condições tais que o navio era uma autêntica fábrica. Tratava-se de um navio tanque que, se não estou em erro, trazia cerca de dez mil toneladas. Tinha ouvido várias vezes falar deste tipo de navios e tinha curiosidade em conhecer.

Uma vez mais, autorizações a serem tratadas com antecedência. Mas concedidas e, uma vez mais, surpresa por uma mulher querer ir a bordo conhecer aquele tipo de navio. Se há mundo verdadeiramente masculino, este é um deles. Desde os estivadores, aos tripulantes, a toda essa gente que se move neste mundo, este é um lugar onde as mulheres não entram. Pelo menos, na altura, era assim. Agora não sei mas presumo que pouco se tenha alterado.

O pior para mim, que tenho vertigens, são sempre as escadas. Um esforço de superação que tento ultrapassar sem dar parte de fraca, tanto mais que ninguém me obrigava, eu é que queria meter-me nestas aventuras. Várias pessoas me acompanhavam na visita. Pensei que pediriam a algum marinheiro-engenheiro que satisfizesse a curiosidade à madame de gostos excêntricos e que a coisa ficasse por aí. Não. Para meu espanto, disseram-me que o comandante estava à minha espera e me acompanharia na visita.

Nunca imaginei: uma coisa deveras impressionante, aquele navio. Uma complexidade enorme, tanto mais que tem que haver auto-suficiência, especialmente quando em mar alto. Engenharia pura e dura e de diversas especialidades. Mostrou-me o navio de ponta a ponta e, por onde eu passava, parecia haver alguém escalado para me dar todas as explicações.

O comandante era um cavalheiro russo, simpátivo e muito bem parecido. No fim, disse que gostava de me convidar a tomar um chá e que gostava de me apresentar a uma pessoa que estava muito curiosa em conhecer-me. Fiquei muito admirada. Disse-me, então, que era a sua mulher e explicou-me que ela por vezes o acompanhava nas viagens e que, para ela, era uma vida solitária. E, ao saber que uma outra mulher tinha querido visitar o navio, tinha ficado numa excitação. Respondi-lhe que gostaria muito de conhecê-la. Ele foi lá dentro e, passado um bocado, voltou com uma das mulheres mais surpreendentes que eu alguma vez vi ao vivo. 

Alta, louríssima, olhos azuis brilhantes de boneca, vestida como num filme dos anos cinquenta. Tinha o cabelo apanhado em cima, numa espécie de rolo artístico, vendo-se uma fitinha cor de rosa. Poderia ser uma aparição em kitsch. Mas era mais do que isso. Toda ela se tinha produzido com esmero mas parecia que se tinha enganado na era em que se situava. E, ao mesmo tempo, parecia de uma inocência inesperada numa mulher daquela idade. Não sei explicar bem. Tinha um vestido de tecido florido, tenho ideia que bordado, justo em cima, de cintura fina e totalmente rodado até ao joelho. De pele branca, aqueles olhos azuis, penteado surreal e cabelo muito louro, os lábios pintados de cor de rosa, as rosetas da cara ou com pó de arroz cor de rosa ou ela própria muito corada, uns brincos de princesa -- todo o conjunto era surreal, parecia uma boneca antiga, de porcelana, muito perfeita. E toda ela sorria. E o comandante, homem distinto, de repente parecia um menino grande todo orgulhoso por ter ali escondido um tesouro tão precioso.

Lembro-me que fiquei cerca de uma hora à conversa com eles, em especial com a senhora que era uma doçura, uma graça, um personagem de filme da Disney, uma princesa de um país inventado -- como se se tivessem encontrado pessoas de mundos distintos, ela e eu, de eras desfasadas no tempo.

E eu agora, quase sempre que vejo um destes grandes navios, que vem de longe, pequenino, um barquinho, e que depois, vindo, vindo, se mostra grande e imponente, lembro-me disto e penso que talvez lá dentro venha um comandante com a sua princesa encantada.


E depois, agora que o navio, grande, passou rumo ao porto, deixei-me ficar, de novo, a olhar as pedras da baixa-mar. Um pequeno ponto branco chamou a minha atenção. Se repararem na primeira fotografia, lá em cima, não apenas lá está, na linha de horizonte, o pequeno barquinho como, nas pedras, à esquerda, mais ou menos a meio, um minúsculo ponto branco. Com muita dificuldade consegui apanhá-lo com o zoom. Mas consegui. A imagem está desfocada. A ventania, a distância e a pequenez do alvo dificultaram, e muito, a operação. Mas aqui está, belo e alvo, o pequeo ponto de luz: uma ave de uma elegância impressionante. Não sei como se chama. Garça dos mares?


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Cherchez l'homme



Não faz mal o frio, o vento ou a chuva. É tudo tão bom quanto o aconchego do quarto ou a polifonia da esplanada coberta. Quando se está na predesposição de estar bem, não há meteorologia que meta a colher. Portanto, dia tranquilo, passeio, sossego, leituras.

À beira de água, ora sob uma ventania gelada, ora sob uma chuva miudinha, andámos observando os barcos, o movimento na baía, o pouco movimento dos veleiros ou iates. Um enorme que chegou despertou a minha atenção. Será barco de recreio, para transportar grupos? Vimos lá dentro uns três tripulantes, vestidos de igual, elegantes, aparentemente escolhidos a dedo. Pareciam modelos Dolce & Gabanna. O meu marido diz que não, acha que é barco individual. Maior que uma moradia grande. 

Como sempre, entretive-me a fotografar. Não é fácil com o tempo assim pois a lente fica molhada, o vento faz deslocar o foco, se me abrigo debaixo do chapéu de chuva, o vento fá-lo tapar-me a visão. Mas também não faz mal. Faz parte dos ossos do ofício.

A maré estava vazia e eu fotografava as pequenas pedras cobertas de limos, a cor da água que ia variando consoante vinha o sol ou desatava a chover.

Até que o meu marido me chamou a atenção para um minúsculo vulto que se mexia, lá em baixo, por entre as pedras.

Apertei o zoom, esperei que o vento deixasse, foquei. E lá estava. Um homem. De repente, o centro da minha atenção e, até momentos antes, invisível, irrelevante. Se repararem na primeira fotografia, já lá está ele. Assim somos todos, invisíveis, irrelevantes para quem não nos presta atenção. E assim vamos nós passando pela vida, não vendo praticamente nada do que há para ver.

Não é crítica nem lamento, apenas uma constatação.


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E um sábado muito bom para todos.

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sexta-feira, abril 28, 2017

Uma ventania que tira os marinheiros do mar



Hoje acordámos mais cedo. Dentro do quarto não se imagina a música sinfónica que vem da marina. Indo-se à varanda, e que frio e que vendaval!, ouve-se o chocalhar de amarras, dos mastros, das bandeiras dos barcos, o vento nas árvores, mil sons. O mar está mais verde, encolhido de frio.

Só hoje reparámos que da marina há acesso directo ao restaurante do hotel. Estavam lá homens com grandes corta-ventos, casacos fortes para os proteger dos ventos no mar. Tisnados, um deles de grande barba branca, alguns de boné. Tinham vindo tomar o pequeno almoço a terra.

Já fizemos a nossa caminhada, hoje também fui. Quatro ou cinco quilómetros debaixo de um vento frio, por vezes molhado. O meu marido aborrece-se comigo, diz que venho sempre carregada de blusas e blusinhas, echarpes e outras mariquices (e, claro está, que não é 'mariquices' que ele diz) mas que roupa quente ou para a chuva está quieto. Não percebe que o meu termostato não é igual ao dele. Cheguei com um calor dos diabos.

E claro que foi andando mais à frente que eu ia-me ficando para fotografar. Do outro lado da baía, Cádis onde ontem passámos o dia.


Reparem nas árvores para verem o vento.

E agora me vou que o meu dia está a começar. Até mais logo.


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De dia, sol e calor.
Uma varanda imensa sobre o mar, paquetes que parecem bairos, pátios andaluzes, esculturas.
[Agora, vento e chuva. Mau tempo para sair para o mar]




Os paquetes que aqui aportam são de uma dimensão inacreditável. Mostro, acima, um deles e mostro-o segundo aquela perspectiva, que não será a mais explícita, apenas para que se perceba qual a escala. E continua, pois, como dá para ver, a fotografia não o apanhou inteiro, falta a parte da frente. Parece um mega prédio a ocupar um big quarteirão.

Presumo que parte dos viajantes estivesse em terra pois, em várias varandas, estavam homens a limpá-las. Tirei uma fotografia que, ao vê-la agora (e nem a partilho aqui), me impressiona bastante. Um homem, jovem, talvez indiano, talvez paquistanês, não sei, segura uma mangueira para lavar a varanda que é toda de vidro (ou acrílico, com certeza). Cá de longe, no passeio, eu fiz zoom a uma das varandas, para ver melhor o que eles andavam a fazer, e, agora, parece que ele, lá de cima, também me está a olhar. Tem um ar muito sério e parece fixar-me. 

Trabalhar num barco não deve ser coisa fácil. Provavelmente quase não conseguem vir a terra pois, ao contrário do que eu pensaria -- que, quando os navios aportam, é descanso quase generalizado --, se calhar aproveitam para fazer trabalhos que, com os hóspedes a bordo, não podem ser feitos.

Tem que haver quem exerça todas as profissões e, se for de gosto e bem remunerado, este trabalho, em especial se permitir conhecer os países onde os navios atracam, deve ter bastantes atractivos. Mas pode também ser uma quase tortura, uma prisão (e isto apesar das câmaras de descompressão onde se possa ouvir Bach e Albinoni e zelar pela manutenção da boa forma).

Enfim. Não sei.


Andámos junto à baía. Já aqui tínhamos estado e tínhamos guardado a memória de um longo varandim junto a umas muralhas, rente ao mar.

Há lugares onde sempre apetece voltar -- e este é um deles. Estar junto a uma destas árvores gigantes, sentir o tempo a mover-se muito lentamente, ouvir a conversa solta de quem passa, deixar que a nossa serenidade acompanhe o voo deslizante das gaivotas, sentir o perfume das árvores a cruzar-se com o da maresia, é muito, muito bom.


Fizemos o percurso de ponta a ponta, vindos do porto. Agora à noite o meu marido disse que tenho a cara e o peito bronzeados. Ou é ilusão de óptica ou foi do solinho bom que apanhei enquanto passeava por aqui, fazendo fotografias, olhando o mar, açambarcando azul para os dias em que vivo fechada, de manhã à noite, numa torre transparente, toda de vidro mas onde as janelas não abrem, nem chegam sons ou perfumes de árvores.

De vez em quando, o sol descobria e vinha com força. Tinha levado uma blusinha de manga curta e, para o caso de esfriar, o poncho de renda aberta, em linha de cor crua, que a minha mãe me fez e que sendo aparentemente inútil, na verdade transmite um conforto (e isto para não dizer agasalho -- que o meu marido, quando me pergunta se não levo nada para o caso de arrefecer e lhe digo que levo o poncho, até se passa, acha aquilo uma anedota). Mas até tive que o tirar pois, até princípio da tarde, o calor era muito.

[Agora, enquanto escrevo, ouço a chuva a cair com força e ouço o vento a fazê-la bater ainda mais ruidosamente na varanda. Lá em baixo os barcos devem estar agitados. Se não fosse tão tarde e não tivesse receio de acordar o meu marido, enchia-me de coragem e ia ali espreitar o mar. Mas é melhor não, senão é que ele se passa comigo].
De resto, não é por ser tarde, é também que não quero maçar-vos mais, que me fico por aqui. Mas, antes de apagar a luz, deixem ainda que vos mostre mais duas coisas. Uma é uma das imagens de marca da Andaluzia: os pátios. Por onde vou andando, vou espreitando. São uma maravilha. Escolho este porque o cromatismo dos azulejos, o portão de ferro rendilhado, a porta de madeira ao fundo, tudo me parece de uma elegância feliz. Terá, ao meio, uma laranjeira? 


E a outra coisa que vos quero mostrar é um monumento. Há muitas esculturas por aqui, desde as religiosas, às comemorativas, às que recordam cidadãos ilustres, às alusivas às tradições, passando pela fantástica estátua das Cortes com a belísssima figura feminina representando a Constituição. Mas a que escolho para aqui partilhar convosco é uma muito simples. É feita em aço e em bronze e, incluindo a base, mede sete metros e meio. É dedicada à liberdade de expressão e, pelo seu formato inesperado e pela sua aparente singeleza, não passa despercebida. 

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E, por agora, por aqui me fico. 
O vento sopra agora ainda com mais força. Mau tempo para quem anda no mar.

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E queiram descer para um petisco invulgar. Bem, não é bem o petisco que é invulgar: é mais a forma onde e como é servido.

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