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domingo, agosto 16, 2026

Mais um dia sem carro, sem computador e com um cão-fera que tem que ser tratado

 

Continuo naquela marezinha. O computador, que levou séculos a arranjar, veio de lá entre o deficiente e o telhudo. Eternidades para despertar. Da oficina, a quem já reportei, disseram que o levasse lá. Expliquei: em onda de azarinhos, não podia faltar o carro empanado (nota: continua à espera que lhe peguem). Como acabava por se ligar, eu dava o desconto e ia aguentando. Mas este sábado deu bote: não arrancou. Estou outra vez no telemóvel o que me desmoraliza: coisinha pequenina não é para conversa longa. Depois, quando concluir o que estou a escrever, vou ao outro computador, o esclorosado e idoso, o do teclado virtual, e formato minimamente o texto. Aliás estou a ser injusta, o idoso estava nos trinques até que apanhou água. E da oficina dizem que, dada a idade, se calhar não vale a pena. Mas, na volta, um dia destes avanço mesmo para um pedido de orçamento. Quem sabe não é o drama que pintam.

Sem carro, sem o meu computador, sinto-me limitada. Tínhamos pensado que se não nos dessem o carro na sexta-feira, requesitaríamos um de substituição. Mas vacilámos. Receamos seriamente que o animal dê cabo do carro. A maior necessidade era irmos com ele aos tratamentos. 

Mas hoje resolvemos que haveríamos de dar conta do recado. As feridas estão mais secas. Apenas uma está ainda num estado um bocado estranho. Achamos mesmo que ele arrancou um bocado. Depois há umas duas ainda assim-assim. Mas as outras estão no bom caminho. Portanto, suportaria melhor a desinfecção. 

Se não estivesse aqui a escrever numa coisinha na palma da mão, contaria o festival que foi até que, já quase a entregar os pontos, lhe fiz mil festinhas. Estava mesmo com pena dele, mais do que mau feitio, o que ele tem é medo de ser magoado. Aí acalmou-se. Nessa altura o meu marido deu-lhe um apertão sem hipótese, agarrou-o sem margem para se virar e deu-me um grito a mim: 'Pega-lhe no rabo e trata-o!' e eu obedeci e, nem sei como, o canito, fofo, nem estrebuchou. É que, na volta, eu sou parte do problema. Tenho medo de magoar, não consigo, nem quero pensar que vou fazer doer e, por isso, deixo passar todas as oportunidades e ele, que é esperto, mete a cauda toda entre as pernas, senta-se em cima e eu fico sem acesso. Já para não falar que rosna, salta, tenta virar-se, mostra os dentes. E, ao mesmo tempo, o meu marido quase faz o mesmo em direcção a mim porque está a agarrá-lo e a arriscar-se e eu ali feita maricas, sem me mexer. Mas, pronto, acabou por correr bem. Desinfectei, limpei com gaze, devagarinho, e ele deixou, sem estrebuchar. No fim quisemos recompensá-lo com um biscoitinho mas fechou a boca, virou a cara, disse que o comessemos nós.

De qualquer maneira, agora está a pôr o sono em dia. Dorme, dorme. E, ao vê-lo já a deitar-se, tranquilizo-me, significa que o incómodo que o impedia de ter sossego já está a passar. Coitadinho do meu bichinho.


Mas o dia foi bom. Jardinagens, regas, limpezas, leituras, passeios a pé. Gosto dos dias assim. Não sei porquê mas até me parece que estou ainda mais de férias. Só me faz falta o computador para escrever umas coisas mas, enfim, há coisas piores. 

Continuo a ver pouquíssima televisão. Não me dá jeito ver televisão de dia. Só enquanto almoçamos é que a ligamos, mas saltamos crimes, choradinhos, catástrofes, doenças, conversas religiosas ou pseudo-intelectuais. Por isso, com bastante frequência desligamos de seguida. Depois, só volta a ser ligada depois do passeio nocturno. Mas, ainda assim, nessa altura, aproveito para dar uma espreitadela nas redes sociais. 

De vez em quando há coisas que não se entendem. Ontem publiquei no instagram uma fotografia do cãopeludinho a passear à trela levado pelo meu marido. Hoje apareceu-me uma mensagem a dizer para eu tirar um pouquinho para festejar porque aquela publicação já tinha sido vista mais de 3.600 vezes. Fui verificar e era mesmo verdade. Agora já passou as 4.100. Para a maioria das pessoas se calhar não é nada, se calhar tudo o que seja menos de 100.000 é pouco. Mas para minzinha, desconhecida, sem vender nada, sem patrocínios nem conversas de influencer, publicar uma fotografia simples com meia dúzia de palavras e isso ser visto mais de 4.000 vezes é uma coisa que me espanta.

É como aqui no blog. Apesar de já por aqui andar há tanto tempo, ainda me surpreendo quando constato que agora há sempre cerca de 5 ou 6.000 visualizações todos os dias, quando não mais. Sinto-me agradecida, muito, mas deveras surpreendida. Tantas pessoas aí desse lado a ler o que aqui eu e o meu marido vamos escrevendo...

Bem. Fico-me por aqui. Agora vou para o pico-pico, sarapico, no tecladozinho virtual do computador -- que geralmente teima em pôr-se em cima do que estou a escrever -- para formatar isto.

Às vezes penso que tenho ali o tablet da minha mãe, nestas alturas era capaz de dar jeito. Mas ainda não consigo vencer a barreira, também ela virtual, de usar uma coisa que ela tanto usou. Enfim, lá chegarei. 

Desejo-vos um bom domingo.

sexta-feira, junho 26, 2026

A mulher fatal subiu ao céu.
E regressou -- e conta como foi e como tem sido a sua vida

 

Do que a gente se apercebe, uma coisa é o que as pessoas são no dia a dia e outra é o que são por dentro. A gente vê pessoas que convivem, que dizem piadas, que riem, que trabalham, que são bem sucedidas, que têm uma vida normal, dir-se-ia que bem-sucedida e feliz, e, depois, quando mergulham dentro de si próprias, começam a desenterrar demónios, memórias angustiantes que, aparentemente, as têm mutilidado toda a sua vida.

Uma vez mais concluo que as pessoas são muito diferentes umas das outras pois as coisas de que muitas pessoas se queixam, passei por elas e não me fizeram mossa. De resto, só me apercebo disso ao ouvir relatar, com mágoa, o que lhes aconteceu. Penso: 'Olha, comigo também aconteceu isto...', porque, na verdade, nem me lembrava, pouca ou nenhuma relevância lhes tinha atribuído.

E, note-se, comparo comigo não porque me considere o fiel de alguma balança ou o alfa e o ómega do pedaço mas porque é o caso que tenho mais à mão e de que posso falar sem estar a cometer nenhuma inconfidencialidade.

Sou fã do Anderson Cooper em tudo o que faz. E o podecast em que conversa com pessoas sobre perda, sobre luto, sobre dar a volta, é muito interessante. Ele não apenas pergunta como ouve, ouve empaticamente, e faz observações sobre si próprio. São sempre momentos de partilha e, dado o tema que é, momentos de uma considerável intensidade.

Aqui fala com Sharon Stone. A bomba sexual de Instinto Fatal, a mulher com o cruzar e descruzar de pernas mais sensual do planeta, tem tido uma vida do caraças. E há que definir 'caraças' pois se há alturas em que ser do caraças é do melhor que há, noutras é o exacto oposto. É o caso.

Desde a hemorragia cerebral que a tirou deste mundo e a fez deslocar-se pela célebre luz branca, até ao complicadíssimo divórcio, à perda da guarda partilhada do filho, os vários abortos, a difícil relação com a mãe.... tudo lhe tem acontecido.

Mas está cá para contá-lo e isso é o mais importante. Com os olhos muito abertos, tentando controlar o choro, com a voz embargada, quase não conseguindo falar, Sharon Stone -- que já não é a mulher jovem e apetecível mas sim uma mulher interessante, pintora, defensora da igualdade de oportunidades entre homes e mulheres --, não contorna os obstáculos: vai de frente, fala, expõe-se, despeja o saco. 

A mãe nunca lhe disse: 'Orgulho-me de ti. Gosto muito de ti'. E ela toda a vida carregou esse não-reconhecimento com uma grande mágoa. A minha mãe também nunca me disse isso. Mas nunca me importei. Provavelmente a diferença é que eu sempre acreditei que não são precisas palavras, e que, apesar de não o verbalizar, era isso que a minha mãe sentia por mim. De resto, há palavras que, a mim, muitas vezes me parecem enfeites desnecessários. Basta-me tomar o pulso à essência, senti-la lá, viva. Basta-me, e basta-me muito bem. Do que se percebe, e certamente por todos os antecedentes, Sharon Stone duvidava que a mãe o sentisse. 

Mas não é só da mãe que ela fala. Carrega outras dores. A que foi uma das mulheres mais desejadas do mundo, que espalhava glamour por onde passava, tem, afinal, carregado muitas provações ao longo da sua vida.

Convido-vos a ver.

O luto complexo de Sharon Stone: "Para mim, está tudo bem sentir-me livre da minha mãe."

Sharon Stone viveu muitas perdas na sua vida, a mais recente das quais a morte da mãe, Dorothy, em 2025. Conta a Anderson Cooper que sentiu alívio após a morte da mãe e se sentiu "livre da minha mãe, livre do trauma dela".

0:00 O luto complexo de Sharon Stone
11:49 Stone fala sobre a sua falecida mãe
18:00 "Queria que ela morresse em paz"
23:59 "É normal ter todos os sentimentos que se tem"


Desejo-vos uma feliz sexta-feira

terça-feira, maio 26, 2026

Ichi-go ichi-e
一期一会

 

Tive vários assuntos para tratar. E só o facto de o referir já me dá vontade de rir, gozar comigo própria. Até há cerca de três anos, fazia tudo e mais alguma coisa com uma perna às costas e, entre mil coisas, encaixava outras mil. Agora a gestão do meu tempo é tão extraordinária que meia dúzia de coisas para tratar parece que se transformam numa grande coisa. 

No outro dia, ao queixar-me da quantidade de coisas que compramos no supermercado e do dinheirão que gastamos, o meu marido recordou o óbvio: Quando trabalhávamos, durante a semana almoçávamos no restaurante e, sendo os jantares refeições mais ligeiras, as compras eram naturalmente muito menos.

Mas isso traduz-se também no tempo que agora gasto na cozinha a preparar refeições. 

Depois há o tempo das caminhadas mais o tempo do ginásio. E o tempo dispendido a apanhar banhos de sol. E o tempo a olhar para as coisas, a apreciar a sua beleza, a fotografá-las. E o tempo a ouvir os passarinhos. E o tempo usado a regar. E tudo isso consome tempo e corta o dia. Tudo coisas que antes não faziam parte da rotina diária (só a caminhada pós-laboral, nos últimos anos). Por isso, havendo tarefas que não são diárias, já parecem dignas de realce. Mas sei que não são, estou aposentada mas (ainda) não estou senil.

Ah, e esqueci-me de referir outra tarefa, não menos importante: também ando atrás das formigas. Têm aparecido resíduos em alguns parapeitos. Dá ideia que se alojam na caixa dos estores. Até aqui tenho estado a tentar resolver a bem, com água. Mas amanhã vou enveredar por medidas mais assertivas, vou aplicar um gel que espero que as afugente -- não precisa de ser letal, não sou de violências.

Mas isto para dizer que me encanto com as flores do meu jardim. Olho-as de todos os ângulos, maravilham-me. Tenho sempre a sensação que cada momento é único, no dia seguinte podem ter murchado, secado. E a sua beleza varia segundo as horas do dia, conforme a luz está de frente ou de lado ou a pôr-se, ou eu lhes proporcione grandes planos ou as apanhe quase à espreita. Ando nisto -- e, acreditem ou não, a verdade é que não me canso. 

Não sei se mudei muito ou se sempre fui assim e sempre consegui coexistir com as outras que não eram bem eu. Não sei. 

Mas também me parece que não vale a pena tentar saber. Ao contrário de muito boa gente que acha que tem que se dissecar até à medula, conhecer-se até ao mais não poder, e interpretar tudo o que faz ou deixa de fazer ou encontrar justificações ou desculpas para cada comportamento, eu estou-me bem a marimbar para tudo isso. Quero é viver bem o momento em que estou e o que se segue.

Nunca, n-u-n-c-a, me ocorreu puxar pela cabeça a lembrar-me se os meus pais se zangavam assim ou assado comigo, se alguma vez foram injustos, se alguma vez algum colega da escola me gozou ou deixou de gozar, se, de alguma forma, alguma coisa do passado me traumatizou ou moldou a minha personalidade. Sempre me estive completamente nas tintas para tudo isso. Se me chateava, era momentaneamente. Estrebuchava, mandava vir e, agora que falo nisto, lembro-me que uma vez uma miúda me chateou até à medula e tive um ataque de fúria, tendo-lhe dado um valente par de estalos. E tendo exteriorizado a minha zanga, logo me passava (para todo o sempre). Sempre, desde sempre, me considerei totalmente responsável pelos meus actos e pela minha personalidade. Havia de ter graça agora justificar alguma coisa no meu comportamento porque, no passado, a minha mãe me disse isto ou aquilo ou o meu pai me proibiu daquilo ou daqueloutro ou alguma professora se zangou com ou sem motivo. Quero lá eu saber disso para alguma coisa. Se na altura, logo que aconteceu ficou morto e enterrado era o que faltava que agora fosse consumir o meu precioso tempo a exumar comportamentos que passaram a cadáveres no instante seguinte a terem acontecido. Por exemplo, lembro-me dos ataques de fúria que a minha mãe tinha comigo: travava o punho cerrado no alto da minha cabeça, com vontade de me afincar com toda a força, cerrava a boca com toda a força, quase incapaz de pronunciar palavra. Ficava varada comigo, já nem sei porquê. Mas, ao lembrar-me disso, sempre me deu vontade de rir. Uma vez, contei ao meu marido e ele também achou um piadão e, então, às vezes, se eu o contrariava quando estava ao pé da minha mãe, ele dizia: 'vê lá se queres que eu faça como a tua mãe, e ameace dar-te murros na cabeça'. E ela ria e dizia: 'Sabe lá, levava-me ao desespero, nem imagina...'. Dar nunca me deu, mas eu sentia a pressão do punho fechado na minha cabeça. No entanto, em vez de pensar que ela era demasiado impaciente ou que demonstrava instintos agressivos ou que isso, de alguma forma condicionou o meu desenvolvimento, só me dá é vontade de rir e faz ter vontade de me lembrar o que é que eu faria para a deixar em tal ponto de rebuçado. E tenho a certeza que nada disso influenciou a minha maneira de ser nem me deixou com vontade de a culpar por alguma coisa. Zero. Desde que me conheço que a minha filosofia de vida é uma: bola para a frente. Ou: para a frente é que é caminho. Não é uma filosofia muito profunda, bem sei, mas é o que temos. 

E vem isto a propósito de quê?

Ah, já sei. Estava a questionar-me se sempre fui zen e disfarcei bem, ou se era speedada e agora é que mudei. Mas era uma questão retórica. Quero lá saber.

O que vale a pena ver é o vídeo lá mais abaixo, muito compatível com o meu mood actual. Mas antes, o meu amigo Gemini explica-nos em que consiste o 一期一会

Ichi-go ichi-e (一期一会) é um conceito cultural japonês lindíssimo que pode ser traduzido literalmente como "uma vez, um encontro" ou "neste momento, uma oportunidade".

A essência dessa filosofia é a impermanência e a singularidade de cada momento. Lembra-nos que cada encontro, conversa ou experiência que vivemos é absolutamente único e nunca se repetirá da mesma forma.

A Origem do Termo

O conceito está profundamente ligado ao Zen Budismo e à tradicional Cerimônia do Chá Japonesa (Chado), popularizado pelo mestre de chá Sen no Rikyu no século XVI.

Mesmo que o anfitrião e os convidados se reúnam frequentemente para o chá, o encontro de hoje nunca poderá ser replicado exatamente. A temperatura da água, o arranjo de flores, o humor das pessoas, o clima lá fora... tudo muda. Portanto, o encontro deve ser tratado com a máxima sinceridade e devoção.

Os Três Pilares do Ichi-go Ichi-e

Presença Absoluta: Estar 100% focado no aqui e agora. Se você está a jantar com um amigo, o mundo exterior e o celular deixam de importar; o foco é aquela pessoa e aquele instante.

Consciência da Impermanência: Aceitar que tudo passa. As coisas boas passam (o que nos faz valorizá-las mais), e as más também passam (o que nos traz conforto).

Apreciação e Gratidão: Tratar cada interação — seja com um estranho no metro ou com seu parceiro de vida — como algo precioso, pois aquela exata configuração de tempo e espaço jamais existirá novamente.

Como Praticar no Dia a Dia?

Não é preciso participar de uma cerimônia do chá para aplicar o ichi-go ichi-e. Você pode trazê-lo para a sua rotina de formas simples:

Evite o piloto automático: Preste atenção aos detalhes do seu caminho diário, ao sabor do café pela manhã ou ao tom de voz de quem fala com você.

Pratique a escuta ativa: Quando estiver a conversar com alguém, ouça para compreender, e não apenas para responder.

Não adie a gentileza: Se você teve um momento agradável com alguém, demonstre. Não assuma que haverá uma "próxima vez" para dizer algo importante.

Em resumo, o ichi-go ichi-e é um convite para desacelerar e viver a vida não como uma sequência de tarefas, mas como uma coleção de momentos irrepetíveis.

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Na volta já estão pelos cabelos com tanta sabedoria oriental e tanto slow living mas, como agora está na moda dizer-se, 'eu sou esta pessoa' (expressãozinha mais besta, não é?)

Portanto, cá vai mais uma dose, desta vez em forma de vídeo, o vídeo de que falei lá em cima. É que, como verão no vídeo, são tudo hábitos com que todos ganharíamos.

9 filosofias japonesas para uma vida mais tranquila

Alguma vez se perguntou por que razão o Japão parece tão organizado, calmo e profundamente respeitoso?

A ordem encontrada na sociedade japonesa não é uma coincidência. É o resultado de um código de conduta específico transmitido através das gerações. Do silêncio no metro de Tóquio à forma como as crianças limpam as suas próprias salas de aula, a cultura japonesa prioriza a responsabilidade partilhada e a elevada confiança social.

Organize os seus hábitos e limpe a sua mente. 


Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, maio 12, 2026

O que faremos quando formos velhos?

 

Tenho estado a estudar o tema da terceira idade em Portugal, tentando perceber como compara com países de referência. Ainda estou a analisar informação, a tentar obter mais dados sobre algumas vertentes desta realidade. Como habitualmente acontece, já vou na n-ésima versão do documento pois há sempre muitas perspectivas para olhar para um assunto complexo e, se omitimos alguma que seja determinante, podemos subverter toda análise.  Talvez amanhã o publique.

Estando a pirâmide demográfica deformada pelo progressivo envelhecimento da população, seria de esperar que esse fosse um dos eixos de acção de qualquer governo e que uma abordagem integrada, bem estruturada, para acompanhar e apoiar os que vão vendo deteriorar-se a sua autonomia, estivesse bem delineada e fosse do conhecimento geral.

E, no entanto, não há. Ideias vagas, talvez. Uma linha de acção concreta, projectos em desenvolvimento e do conhecimento geral não há. 

Quem tem ou teve familiares idosos, em especial em situação de vulnerabilidade, sabe as dificuldades pelos quais todos passamos. É não apenas muito doloroso, em especial para os mais frágeis, como muito desgastante (e dispendioso) para todos.

Não me esqueço como, num dia em que estava a chegar ao norte para um encontro entre empresas do Grupoe e em que, para incentivarem o convívio, tinham contratado um autocarro -- e, portanto, eu não tinha meio de locomoção própria -- recebi uma chamada do hospital em que a minha sogra estava internada. Diziam que ia ter alta nesse dia, ao meio-dia, que a fossemos buscar. O meu pânico foi total. Tinha estado com ela na véspera e não via como poderia ir ela para casa. De maneira nenhuma. Do que víamos, imaginávamos que lá estivesse ainda mais um mês, imaginávamos que não sairia sem ter sessões de fisioterapia, imaginávamos que seríamos informados com antecedência. Ao telefone disse que ela não estava minimamente em condições de ir para casa, não tínhamos condições, não tínhamos quem ficasse a acompanhá-la ou a tratar da sua higiene. Não serviu de nada. Desatei a telefonar ao meu marido, aos meus cunhados. Todos desorientados, todos a perguntarem-me se eu não tinha dito que era impossível, se não seria melhor ligar outra vez para lá a pedir para a reabilitarem minimamente antes de a mandarem para casa. 

Mas foi mesmo para casa nesse dia. E o drama que foi daí em diante ninguém queira saber. Mais tarde, com ela ainda dependente, adoeceu o meu sogro e tudo ainda se complicou mais.

A opção foi sempre a de ficarem em casa e arranjar-se uma empregada interna. Mas a tragédia que foi. Eles não aceitavam bem ter uma estranha a viver lá em casa, não gostavam. Creio que passaram por lá umas doze ou treze mulheres, e, de cada vez que uma se ia embora, era outra vez o mesmo drama para arranjar outra. Por fim, recorríamos a uma agência a quem tinha que se pagar um mês a mais, pelo agenciamento. Saiu muito caro e só correu bem com a última. Mas o correr bem foi muito relativo. Ao fim de semana, logicamente a senhora não trabalhava e era preciso arranjar solução para isso. Depois a senhora também adoeceu, esteve internada e em tratamento durante meses, e foi preciso contratar uma outra, pagando ao mesmo tempo à primeira. E depois era a fisioterapia, e era a trabalheira louca quando era preciso ir ao médico ou fazer exames. Tudo muito complicado, para qualquer coisa eram horas, dias, e tudo muito dispendioso.

Mas, apesar de tudo, creio que foi melhor estarem casa do que irem para um lar.

Com o pai aconteceu praticamente o mesmo, a nível de alta hospitalar. Quando ainda andávamos a dar voltas à cabeça e a deitarmos contas à vida a pensarmos o que faríamos quando ele tivesse alta, julgando-a não imediata, eis que dizem que o podemos ir buscar. A casa ainda não estava adaptada a ter um acamado que não se podia locomover e ainda não sabíamos como lidar com a situação. A minha mãe estava boa, forte e vigorosa, mas à primeira tentativa percebemos que nem com a ajuda uma da outra conseguíamos pô-lo sentado na cama para lhe dar de comer. Não é só uma questão de força, é também de jeito, de prática. Para o meu pai era também terrível, uma ferida aberta na sua dignidade. Via que eu e a minha mãe nem conseguíamos levantá-lo para ajeitarmos a almofada e ele, coitado, mesmo que quisesse ajudar, não conseguia, era um corpo morto. Felizmente, conhecia-se uma senhora que não morava longe e que, justamente, trabalhava num lar. Estava pois muito habituada e era possante, pegava-lhe pelo cós das calças, virava-o, puxava-o. Coitado do meu pai. Quando penso no que ele sofreu... Então, antes de ir trabalhar, a senhora ia tratar da higiene do meu pai, quando saía do trabalho passava por lá e, à noite, voltava para o preparar para a noite. Entretanto, eu e a minha mãe andávamos a ver se arranjávamos uma solução mais permanente. Batemos à porta da Misericórdia e dos Socorros Mútuos e de mais não sei quê. Já não me lembro se não tinham disponibilidade ou o quê. Por sorte, lembrámo-nos de contratar uma fisioterapeuta que ia lá a casa todos os dias, perto da hora do almoço, fazia exercícios e deixava-o na posição de tomar a refeição. Só que, pouco depois, o meu pai piorou e voltou para o hospital, praticamente em coma, com o sódio e o potássio completamente descompensados. Esse internamento deu tempo a modificarmos a casa de banho, a arranjar uma cama articulada e uma cadeira de rodas. E, pouco depois, a senhora reformou-se do lar e passou a estar disponível para dar assistência mais assídua ao meu pai e foi isso que nos valeu. 

O meu pai esteve em casa até ao dia em que morreu, mas os sobressaltos por que passámos, nomeadamente com a sonda gástrica que ele, sem querer, puxava e que só podia ser posta por um enfermeiro -- e onde é que arranjávamos enfermeiros em tempo útil? -- ou com tantos outros problemas foram do mais desgastante que se pode imaginar. E, claro, o que se gasta nestas situações não está ao alcance de muita gente.

Por isso, interrogo-me: o que acontece a quem não pode pagar a uma empregada, a um fisioterapeuta, a enfermeiros e médicos particulares? É certo que a médica de família e os enfermeiros do centro iam lá de vez em quando mas não com a assiduidade requerida e, sobretudo, nunca em situações críticas ou de de urgência.

Com a minha mãe foi diferente. Quando teve o cancro no cólon e teve que ser operada, foi recuperar-se (e descansar da situação de cuidadora) para uma residência assistida, talvez a mais luxuosa e dispendiosa do país. Ao princípio ainda gostou mas, pouco depois, já estava farta. Para ela aquilo eram só velhos de boca aberta, que já não diziam coisa com coisa ou muito dependentes, e ela ainda estava boa. 

Queixava-se que não tinha companhia e que não tinha nada que fazer. No entanto, fazia lá ginástica, tinham actividades diversas, ia ao cabeleireiro, etc. Mas achava tudo aquilo deprimente e, sobretudo, acho eu, ali sentia que não tinha um propósito. Portanto, pouco depois, regressou. Estava bem era em sua casa, com a sua autonomia, a sua ida às compras, o seu jardim, durante uma fase a ida à universidade sénior ou a ida a passeios com as amigas. Por prudência, mantivemos o contrato com a senhora que acompanhou o meu pai: continuou a ir lá a casa de manhã e à noite para garantir que estava tudo bem, fazia-lhe as compras, levava o lixo, de certa forma vigiava a sua condição. E ia uma empregada de vez em quando, fazer as limpezas maiores (porque, as do dia a dia, a minha mãe fazia questão de ser ela a fazer tudo). No último ano, por não fazer a medicação, piorou e esteve internada uns dias e, do hospital, resolveu seguir para a mesma residência onde tinha estado anos antes, uma vez que têm enfermagem em permanência e médico todos os dias, e isso dava-lhe segurança. Aí foram só problemas. Já não estava bem e punha defeitos em tudo, só descansou quando voltou para casa. Só na recta final, quando se sentiu muito fraca, quis ir para uma residência, para uma onde estavam amigas. Mas acho que nem um mês lá esteve, foi internada a seguir. Mas, uma vez mais, não apenas o ambiente não era o que ela gostava, estava desenraizada, fora do seu ambiente, como o valor que pagava não está ao alcance de grande parte dos reformados, a menos que recorram às poupanças. 

Quem não dispõe de boas reformas ou não tem confortáveis poupanças e não pode ficar em casa, por não estar bem ou por já não ter total autonomia, como faz?

Daí haver tantos lares clandestinos. Devem ser os que as pessoas com menos posses conseguem pagar.

Por isso, perante esta situação, de que é que os Governos estão à espera para traçar um caminho que dê segurança e conforto à população mais velha ou a caminho disso?

E isto não é um problema dos outros. Não: é de todos. De uma maneira ou de outra, é assunto que tarde ou cedo toca a todos.

Se amanhã já conseguir dar por concluído o trabalho que tenho em mãos, partilhá-lo-ei. 

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Desejo-vos dias felizes

quinta-feira, março 26, 2026

Bora lá dar uma curva...?

 

Há pouco tempo fomos desafiados para irmos, em grupo, numa viagem muito bonita, a uma cidade gigante que não conheço e gostava de conhecer. Ficámos balançados. Um bocado longe, uma viagem longa. O meu marido não adora andar de avião mas, dado o lugar que era e que a companhia não podia ser melhor, estava tentado a aderir. Por essas alturas andava o Trump com a conversa das negociações com o Irão e com ameaças pouco veladas. Como sempre, eram os seus pontas de lança para a facturação em terras estrangeiras, o genro, o sinistro Jared Kushner, e o pato bravo Steve Witkoff, que lá andavam a fazer de conta. Por um lado, à luz da lógica e do direito internacional, os Estados Unidos não cairiam na tentação de se meterem numa aventura suicida. Mas, por outro lado, com um doido varrido sentado na Casa Branca nunca se sabia. Ao conversar com a minha filha, lembro-me de comentar: 'vamos lá ver se o maluco do Trump não se mete numa grande confusão e não dá cabo da viagem'. 

Com a hesitação, não demos o passo em frente. E, nos dias seguintes, foi o que se sabe, a deriva, o desvario de Trump. Arrastado por Netanyahu e sem avaliar o que ia fazer ao mundo, o maluco avançou de peito feito, julgando que era a mesma coisa que tirar o Maduro da cama.

Ao contrário de quem nos desafiou, que compraram as viagens todas, para cá e para lá e para os percursos intermédios, não chegámos a avançar e, por isso, não ficámos com os bilhetes na mão. Os aeroportos em causa não estão fechados pelo que não há lugar ao reembolso mas, estando toda a região e redondezas sob uma instabilidade total e perigosa, não é seguro ir para aquelas bandas.

Durante os últimos anos, desde que o meu pai teve o AVC, ou seja, talvez há uns 17 ou 18 anos, deixámos de fazer passeios grandes. Creio que o último foi a Amesterdão e a Paris, em que estando o meu pai já doente, nos pareceu que eram destinos relativamente perto e que, numa emergência, facilmente arranjaríamos voos de volta. Tirando isso, que me lembre, só por Espanha e isso fomos várias vezes, sobretudo adoro San Sebastian, ou, a França, só quase de raspão. Começámos a gostar de descobrir Portugal. Ah, não. Ainda fomos até ao sul de França e até Itália, já nem me lembrava. Mas o facto é que não me sentia bem, indo para longe. Nesse período também os pais do meu marido estiveram mal, internados, em tratamentos complicados, a ter que ir a consultas. E o meu pai tinha o seu estado a deteriorar-se inexoravelmente. Depois foi a minha mãe que foi operada ao cólon, também com um cancro. Tudo me tolhia. De vez em quando, algum ia para as urgências, ficava na corda bamba, e custava-me pensar que não conseguiria andar descansada a passear longe do país, quando a todo o momento a coisa poderia descambar. Quando todos se foram e ficou só a minha mãe, que eu julgava que era saudável, pensei que finalmente poderíamos sentir-nos livres para fazermos o que quiséssemos. Mas aí foi ela que derrapou, todos os dias tinha qualquer coisa, sempre como se estivesse muito mal mas sem dar pistas que dessem para perceber o que tinha. De médico em médico mas, segundo ela, nenhum acertava. E era sempre uma urgência, uma crise grave. Nessa altura obviamente não era possível irmos para longe. Aliás, até irmos para o campo era uma crise. Chegava a não lhe dizer nada pois parecia-me que já era psicológico, se sabia que eu ia, mostrava-se ainda mais ansiosa, temia que eu não chegasse a tempo para a levar para as Urgências. Uma vez tivemos que regressar à pressa, eu num sufoco, pois ela achava que estava muito mal, tinha que ir para o hospital, e, naquelas suas decisões, recusou-se a chamar uma ambulância, quis que eu fosse buscá-la a casa e eu a pensar que poderia não chegar a tempo. 

Agora que já não há ninguém que nos prenda, há outra coisa: mudámos. Já não somos os mesmos. E há o cão. O pobre coitado sofre imenso quando está longe de nós. Custa-nos deixá-lo durante muito tempo. Mas nem é o cão. Somos nós. Talvez nos tivéssemos tornado comodistas. Talvez nos custe afastar-nos muito de casa. E depois também parece que já não há aquele interesse em ir ver o que nunca se viu. Dantes, quando fazíamos uma viagem, tínhamos os guias Michelin, tínhamos os livros de viagens, planeávamos o que iríamos ver recorrendo a isso. Íamos de facto descobrir o que não conhecíamos, Agora é diferente. Se tenho curiosidade em saber como é alguma coisa, pesquiso, está tudo disponível. 

É como quando eu ia a Madrid: adorava. As exposições, as ruas, os parques, as lojas. Tudo me parecia novidade, diferente. Agora já tudo me parece déjà vu. Mesmo aquele estímulo que eu tinha, de andar produzida, de descobrir lojas boas com modelos que não encontrava cá, agora já não tenho. Não só não preciso de mais roupa como já há cá praticamente todas as lojas que há lá.

Contudo, admito que seja uma fase. Talvez esteja a curtir o momento, aquela fase boa em que posso estar em casa, em que posso não ter horários, em que posso existir ouvindo os pássaros, olhando o jardim, lendo um livro, indo passear até à beira-mar, olha as ondas. Talvez que dentro de algum tempo pense: 'pronto, agora também já chega, bora lá passear.'. Pode ser. A vida é feita de mudança.

Mas, até lá, aqui estão quarenta lugares considerados belos de mais para não serem conhecidos. Bora lá vê-los...?

40 Patrimónios Mundiais da UNESCO que tem de visitar antes de morrer 
- Vídeo de Viagem em 4K

Descubra as maravilhas mais deslumbrantes do mundo no nosso vídeo: “40 Patrimónios Mundiais da UNESCO que Precisa de Visitar Antes de Morrer”. Estes marcos icónicos e tesouros escondidos representam a cultura, a história e a natureza na sua melhor forma. De cidades antigas a paisagens naturais de cortar a respiração, esta lista vai inspirar a sua próxima aventura!

Quer seja um viajante, um amante de história ou alguém que procura riscar itens da sua lista de desejos, estes destinos são imperdíveis. 

 

Caso queiram ir direitinho a algum destino, aqui ficam os links para o ponto do vídeo (directamente no youtube):

00:00  – Introdução
01:09 – Calçada dos Gigantes, Irlanda do Norte
02:10 – Alhambra, Espanha
03:27 – Baía de Ha Long, Vietname
04:37 – Capadócia, Turquia
05:48 – Mont-Saint-Michel, França
06:54 – Chichen Itza, México
08:02  – Parque Nacional do Serengeti, Tanzânia
09:13 – Machu Picchu, Peru
10:23 – Grande Muralha da China, China
11:29 – Petra, Jordânia
12:34 – Parque Nacional de Yellowstone, EUA
13:38  – Taj Mahal, Índia
14:40 – Templos de Quioto, Japão
15:48 – Cataratas do Iguaçu, Argentina/Brasil
16:54 – Angkor Wat, Cambodja
18:00  – Terraços de Arroz de Banaue, Filipinas
19:07 – Costa Amalfitana, Itália
20:36 – Ilhas Galápagos, Equador
22:01 – Grande Barreira de Coral, Austrália
23:13 – Veneza, Itália
24:14 – Meteora, Grécia
25:49 – Bagan, Myanmar
27:04 – Lagos de Plitvice, Croácia
28:35 – Ilha da Páscoa, Chile
29:38 – Santorini, Grécia
31:01 – Parque Nacional de Banff, Canadá
32:07  – Cidade Velha de Dubrovnik, Croácia
33:30  – Parque Nacional de Yosemite, EUA
35:02 – Pirâmides de Gizé, Egito
36:03 – Stonehenge, Inglaterra
37:07 – Great Smoky Mountains, EUA
38:14 – Mesquita Azul, Turquia
40:01 – Cataratas Vitória, Zâmbia/Zimbabwe
41:02 – Bora Bora, Polinésia Francesa
44:18 – Louvre e Paris Histórica, França
45:55 – Floresta Amazónica, África do Sul América
47:39 – Alpes Suíços, Suíça
53:34 – Antártida
55:40 – Aurora Boreal (Luzes do Norte)
57:13  – Pamukkale, Turquia
01:00:07 Considerações Finais

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Desejo-vos um belo dia

segunda-feira, março 09, 2026

Ça va san dire, que é o mesmo que dizer que that goes without saying

 

Não dormi nada bem. A meio da noite, ou melhor, da madrugada, vendo que a coisa não ia, por si só, a bom porto, levantei-me e fui tomar meio comprimido daqueles que cá tenho, acho que é de raiz de valeriana. Não me faz logo efeito mas, quando faz, para aí daí por uma hora, finalmente caio no sono. E já sei que, durante uma semana ou duas, vou dormir como uma santinha. Foi o médico de família que me receitou há algum tempo. Tenho ideia que cada caixa tem para aí uns 20 comprimidos e dá-me, à vontade, para 1 ano. 

Mas, por causa disso, acordei tarde. E com mais dor no pescoço. Agora, de vez em quando é isto, torcicolo. Na sexta-feira já me doía um pouco e fui ao ginásio na mesma, não quero dar mole. E, enquanto der, continuarei a ir, mesmo puxando pesos e fazendo aquelas forças que, ao que parece, me garantem a longevidade eterna. Só que, não sei a que propósito, também acordei com dor de garganta. Tenho cá para mim que, quando pinta um stress, o meu corpo reage, inflama, manifesta-se. Estou a virar um vidrinho, é o que é.

Por exemplo, no último ano de vida da minha mãe, em que andei permanentemente debaixo de uma enorme pressão, com ela a queixar-se de tudo e mais alguma coisa mas tudo de forma errática, ilógica, aparentemente nada correlacionado, e em que eu julgava que ela estava num estado descontrolado de hipocondria e já não sabia o que havia de fazer, andei constantemente com inflamações ora num joelho, ora num pé, ora num braço. Ora andava meio manca, ora completamente de perna no ar com canadianas, ora de braço ao peito. Quando ia com ela ao médico ou ao hospital, ela ia lesta e eu toda lesionada. Tenho para mim que o stress me afogava em cortisol e o cortisol amarfanhava-me de todas as maneiras possíveis e imaginárias.

Depois meteu-se o pesadelo de esvaziar a casa, meses e meses, infindáveis meses, de stress. E a ter que carregar com sacos e caixas e toda feita dondoca, a deixar o esforço todo para os outros, em especial para o meu marido, pois continuei aleijadinha de todo e qualquer carga fazia exacerbar ainda mais a inflamação nas articulações. Só visto.

E dormir mal também me atrofia toda. Dantes, quando trabalhava, dormia seis horas, por vezes menos que isso, e andava fresca e arrebitada todo o dia, um mimo. Agora, se durmo menos que sete, já fico com alguma coisa a tender para o disfuncional. 

Seja como for, para já, nem o torcicolo nem a dor de garganta são por aí além. Por isso, fomos na mesma passear à praia. Não estava bom tempo. Mas estava um movimento do caneco, os estacionamentos inexistentes. Tivemos que andar por ali e pelas redondezas à procura de agulha no palheiro. Não íamos almoçar lá mas queríamos comprar sushi para almoçarmos em casa. Tudo cheio, a deitar por fora, tudo com montes de gente à porta. Não estávamos a perceber o que era aquilo. Vi uma mulher com uma roupa meio estranha e por um instante ainda pensei que, na volta, o carnaval se tinha estendido no tempo. Depois vi várias com flores. ainda me ocorreu que fosse dia dos namorados mas depois lembrei-me que isso já tinha sido. Antecipação do 25 de abril não porque não eram cravos. O meu marido também não estava a perceber. Pensei que se calhar era dia da mãe. Depois, porque gosto de confirmar as minhas suposições, perguntei ao gemini. Dia da Mulher. Só me apeteceu pensar que se calhar mais valia passar a chamar-se dia do restaurante.

Fomos passear à beira mar. Como sou míope, vi ao longe uma criatura pequena e gorda a rodopiar com os braços ao alto e um objecto na mão. Comentei: 'Até já as miúdas pequenas se auto-filmam em poses parvas. Em vez de olhar para o mar, olha ali aquela miúda a filmar-se a ela própria como se o mar fosse um mero pano de fundo. Caraças'. O meu marido respondeu: 'Qual miúda?'. Com o queixo apontei. Ele, sempre parco de palavras, apenas perguntou: 'Achas que é uma miúda?'. Pus-me a fotografá-la naquelas poses inestéticas, irracionais e despropositadas. Quando cheguei perto, vi que, afinal, criança era coisa que ela já não era,  era uma mulher baixa e gorda de calças muito justas, o volumoso rabo e as pequenas e gordas pernas a quererem estraçalhar aquelas calças todas. Num banco perto, uma criança à espera que a mãe se cansasse de fazer aquelas tristes figuras. Depois lá foram, à nossa frente. Fotografei-as: a criança mais alta que a mãe e, aparentemente, mais sensata, vestida mais normalmente. Só não ponho aqui as fotografias que tirei não vá a senhora descobrir e ficar furibunda. Afinal estou a descrevê-la como estou enquanto ela se vê, tenho a certeza, como uma nova Raquel Welch. E se já não há por aí a ler-me uma alma que saiba de quem estou a falar, então muito me contam. Serei a mais idosa ou a menos desmemoriada de entre todos os que por aqui passam? -- E ok, ok, façam o favor de fazer a caridade de não me responderem.

O que sei é que, à medida que ia andando, ia pensando: é este o mundo que temos pela frente. Não a perguntar mas a afirmar.

Mas, para não dar a viagem por perdida, ainda lá fiz dois pequenos vídeos que publiquei no Instagram. E, entretanto, ao telefone, a minha filha já manifestou, mais uma vez, a sua estranheza e incompreensão: não sabe o que é aquilo, o mar faz muito barulho, a minha voz mal se ouve, não falo de nada que interesse, e teme que ande, eu também, a fazer figurinhas tristes. Sosseguei-a: estava num sítio em que não havia mais ninguém. E são uns segundos, aponto o telemóvel, digo o que me ocorre dizer naquele instante e já está. Deveria editar ou ter o discernimento de me deixar estar quieta, bem sei. Mas se acho piada a fazer aquilo, porque não hei-de fazer, ora essa? E depois há coisas bizarras. Na quinta-feira à tarde fui passear à beira rio e vi um barquinho quase todo afogado. O barquinho chamava-se Faisão. Apontei o telemóvel e disse: 'Olha... o faisão foi ao banho...'. Pois bem, acreditam que ontem vi que aquilo já tinha sido visto mais de 3.800 vezes? Achei fantástico. E incompreensível. Claro que 3.847 é coisa nenhuma, zero vezes zero quando comparado com os milhões que as influencers de sucesso alcançam. Mas eu sou uma simples anónima, de voz sumida, que não diz coisa que se aproveite. Porque é que as pessoas veem? Será que acham que é uma coisa tão descabida que veem para tentar perceber se há ali alguma mensagem subliminar? Se é, lamento desapontar mas é mesmo só falta de jeito e, se calhar, também de tino.

E, para que vejam bem o grau de desorientação em que esta minha cabeça anda -- na volta porque o pescoço que a sustém está repuxado e a garganta dorida -- tenho que confessar que, quando abri o computador, vinha com a ideia de aqui desabafar um bocado a propósito do animal, do estupor, do infame e cruel cavalgadura que anda a desaustinar o mundo inteiro. Mas distraí-me e, depois, não me apeteceu arrepiar caminho.

Portanto, não levem a mal que eu não tenha feito mais nada senão por aqui ter andado na converseta, sem acrescentar nada que valha a pena... Mas, para que não fiquem a pensar que já estou mesmo maluca de todo e que, com a divagação pegada para a qual derrapei, me esqueci da abestalhada figura, aqui vai o cartoon que a Ella Baron fez para o Guardian

Finalmente, aqui chegada, e vou já dar a faena por encerrada, não faço ideia do nome que hei-de colocar lá em cima, como título deste post. Só me faltava mais esta, já meio a dormir e sem encontrar um denominador comum no que escrevi...

A guerra de Trump e Netanyahu no Irão: As novas roupas do Imperador 


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Desejo-vos uma boa semana

terça-feira, janeiro 27, 2026

Coisas simples que melhoram a nossa vida

 

Quem por aqui me acompanha saberá que fujo a sete pés de livros ou vídeos ou influencers que vêm com conselhos da treta relativos a lifestyle, a coaching, mindfulness ou a cenas dessas que a mim me parecem tresandar a vacuidade. Não me levem a mal mas tudo isso me parece coisa de gente tonta que aconselha gente ainda mais tonta. Pode não ser mas, confesso, é o que me parece.

Tenho a minha própria sapiência. Já vivi o suficiente para formar algumas opiniões e para perceber o que me faz sentir bem e para saber dar valor aos bons momentos. Também já conheço o suficiente da vida para saber que se é importante termos conhecimentos e vivências não é menos relevante conseguirmos o distanciamento suficiente para deixarmos de lado o que nos incomoda, a espuma dos dias que consome o nosso tempo sem que nada fique em nós.

Vivi uma vida inteira ultra activa, ultra solicitada, em que fui levada a ser responsável por muita coisa quase vinte e quatro horas por dia, com poucas férias, ano após ano. Muita gente me dizia que eu não conseguiria ficar sem trabalhar depois de me reformar e eu sempre disse que estavam enganados, tudo o que eu desejava era interromper essa espiral que me envolvia permanentemente em reuniões, avaliações, definições de objectivos, planos, resolução de problemas de toda a espécie, trânsito e mais trânsito, stress e maçadas para dar e vender. Decidi que sairia antes de atingir a idade oficial da reforma. Ainda assim, por razões de amizade e de responsabilidade, acabei por aceder aos pedidos para ficar até que uma operação se concluísse, acabando por ficar por mais cerca de meio ano para além do que tinha resolvido mas, ainda assim, antes da idade oficial. Na altura diziam-me que, não ia conseguir largar a habituação de décadas e que não tardaria a procurar nova ocupação.

Calhou acontecer que isso coincidiu com o ano horribilis em que a minha mãe iniciou a sua trajectória para a noite escura sem que eu compreendesse o que estava a acontecer pois ela conseguiu baralhar médicos e enfermeiros e ocultar completamente o mal que rapidamente progredia, e que progredia ainda mais rapidamente porque não se tratou, e, sem o confessar mas certamente cheia de medo e dividida entre a fobia que tinha a medicamentos e o medo pelo efeito de não se tratar, não tomou os medicamentos que lhe eram indispensáveis. Portanto, o meu primeiro ano de 'desocupação' foram absorvidos pela ansiedade que o estado da minha mãe me causava, pelas idas ao hospital (pois, nesse período, e antes do prolongado internamento final, esteve duas vezes internada, tendo conseguir desviar a atenção dos médicos do pior dos males), pelas idas ao médico, pelos telefonemas, pelas visitas que eram sistematicamente ocupadas por queixas de saúde de toda a espécie, erráticas, descontextualizadas, mas sempre revestidas de drama, de choro, e sempre concluindo e tentando convencer-me que a causa do seu mal estar eram os medicamentos que tomava (quando eu sabia que tomava muito menos que devia). Foi um ano terrível para a minha mãe, angustiante, direi mesmo apavorante, nem quero pensar, e, para mim, que desconhecia a realidade, desgastante até ao limite. Portanto, nesse ano, não me sobrou tempo nem disposição para pensar em qualquer outra actividade.

Fez a semana passada já dois anos. O tempo passa mesmo a correr, é muito estranho. Tudo ainda tão recente, as imagens e a voz ainda tão presentes.

A seguir foi preciso resolver a questão das coisas lá de casa, coisas infinitas, infinitas, não acabavam. Foram meses, esgotantes meses. Os meus filhos poucas coisas quiseram. Eu já não tinha onde pôr tudo aquilo de que não queria desfazer-me. Período tão difícil também. Não tinha ânimo nem energia nem nada para mais nada. Só para escrever. Para tentar reequilibrar-me, escrevia compulsivamente.

Na verdade, apenas o ano passado aprendi a não fazer nada, a usar o meu tempo. 

E tem sido um tempo bom. Geralmente não tenho horários, não tenho compromissos. Posso fazer aquilo que quero. Posso ler salteado, pular de livro em livro, sentar-me a olhar as árvores, a ouvir os pássaros, posso andar a fotografar flores e frutos, posso andar a perseguir sombras, a encantar-me com o bailado das silhuetas nos muros. 

Coisas simples. 

Como o algoritmo do youtube conhece as minhas entranhas e sabe que ando zen, mostra-me que aquilo que eu procuro e em que me detenho são práticas que os japoneses seguem.

O vídeo de hoje (que pode ser legendado, com legendagem automática) repesca 8 hábitos que fazem melhorar a vida e nos quais me revejo, ou porque os pratico ou porque gostaria de praticar. Sobre alguns deles já aqui falei algumas vezes. Um prazer. Coisas simples, coisas de nada. O primeiro deles era prática muito comum na empresa: uma pequena melhoria de cada vez, uma após outra. Aconselho vivamente.

8 Tiny Japanese Habits That Will Transform Your Life

Se alguma vez se perguntou porque é que o Japão tem uma das maiores expectativas de vida, cidades mais limpas e algumas das pessoas mais calmas e focadas do planeta… não é genética nem sorte.

São pequenos hábitos diários — ações simples que parecem insignificantes, mas que se vão acumulando ao longo dos anos, gerando uma enorme transformação.

Neste vídeo, analisamos os 8 hábitos japoneses cientificamente ligados à longevidade, clareza mental, disciplina, produtividade, resiliência emocional e satisfação com a vida.

Você aprenderá:

🧠 Kaizen — o método de melhoria contínua de 1% utilizado pela Toyota para dominar o mundo

🎯 Ikigai — como encontrar o seu propósito e acordar motivado

🥗 Hara Hachi Bu — a prática alimentar de Okinawa que aumenta a longevidade

🌲 Shinrin-Yoku — banho de floresta e porque é que os médicos o recomendam

🌿 Wabi-Sabi — liberdade do perfeccionismo

💪 Gaman — resiliência mental sem queixas

🤝 Omiyari — disciplina empática que fortalece as comunidades

✨ Kintsugi — transformar a dor e o fracasso em força

Estes hábitos não são atalhos. São princípios para construir uma vida plena, uma pequena ação de cada vez. 


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Dias felizes

domingo, dezembro 14, 2025

Vidas tranquilas

 

Vão-me chegando notícias de amigos. Na idade platinada tudo é mais lento, quase não há horários a cumprir, consegue-se organizar grande parte da vida de forma a fugir às horas de ponta, aos locais onde o estacionamento é quase impossível. 

Por outro lado, há a vida apressada dos meus filhos, os projectos que os estimulam e desafiam, as muitas reuniões e problemas a que não podem fugir. Acompanho-os, compreendo-os. Eu já estive naquelas situações. Percebo quando estão cansados, stressados. Quando se está em funções assim não dá para virar as costas, há que aguentar firme. E resolver o que for preciso. Orgulho-me deles. Têm fibra. Não desanimam, não capitulam. Vão em frente e querem sempre fazer mais e melhor. E assim é que é, até  porque sabem manter o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal e familiar, o que é fundamental.

Não há muito, uma pessoa da minha família contou-me com alguma preocupação que a filha tinha ido fazer uma especialização num país problemático, numa zona altamente problemática, pois queria ser expert em cirurgia de traumatismos como esfaqueamentos. Achei fantástico até porque não me ocorreria nunca tal coisa, mas, sobretudo porque, neste mundo louco em que vivemos, é importante os médicos estejam preparados para tudo. Mas compreendo também a apreensão com que ela viu a filha, que poderia estar 'tranquilamente' a trabalhar naquele que é o maior hospital país, e que, inesperadamente, atravessa o oceano e se vai enfiar no olho do furacão.

E outra conta-me como um dos progenitores está a entrar cada vez mais rapidamente no enevoado mundo da demência. E eu ouço com compreensão solidária e não digo, mas penso, que talvez não seja mau uma pessoa entrar na noite escura sem o sofrimento de se saber num inexorável declínio. E penso que há dois anos estava eu a viver tempos de grande angústia, acabando de saber que a minha mãe estava num estado terminal e não havia nada que eu ou alguém pudéssemos fazer alguma coisa para impedir o que se anunciava a uma velocidade assustadora.

Mas assisto a tudo com a serenidade de quem já atravessou todas as provações. E tento manter-me calma. Nem sempre consigo, mas tento.

Gosto desta fase da minha vida. Gosto de ter tempo para mim. Gosto de ter tempo para realizar tarefas simples, pelas quais ninguém dá nada ou, mesmo, tempo para não fazer nada.

Talvez por isso gosto de ver vídeos assim, tranquilos, como este aqui abaixo.

Escolher uma vida mais lenta
 Reflections of Life

Existe uma riqueza silenciosa que se revela quando nos movemos a um ritmo mais tranquilo. Ao deixarmos de correr, o dia abre-se e a vida deixa de ser sobre esforço e passa a ser sobre sentirmo-nos ancorados no lugar onde já estamos.

Quando o ruído diminui, a nossa consciência transforma-se. Escolher a lentidão não significa isolar-se do mundo, mas sim regressar a ele com uma sensação de conexão mais clara. Lembra-nos que o significado reside muitas vezes nas pausas — aqueles momentos em que nos sentimos parte de algo maior do que o nosso próprio ritmo.

Nestes espaços mais calmos, um sentido mais profundo de pertença começa a criar raízes. Reconectamo-nos connosco mesmos, com os outros e com o mundo que nos rodeia de uma forma que parece constante e verdadeira. Uma vida mais lenta não exige perfeição, apenas a vontade de abrir espaço para o que realmente importa.

Com Antony Osler - https://www.stoepzen.co.za

Filmado em Colesberg, África do Sul.


Que tenham um feliz dia de domingo

sexta-feira, setembro 26, 2025

A mãe da vizinha da minha mãe.
E uma preocupação: como travar um idiota demente antes que se transforme num verdadeiro fascista?

 

A minha mãe tinha uma vizinha cuja mãe, viúva, vivia sozinha longe dela. Era uma senhora cheia de iniciativa, muito dinâmica, empresária (pequena empresária), extrovertida, empreendedora, dona de várias casas (algumas arrendadas) e terrenos, sempre muito produzida e com muitas amigas com quem ia em passeios, a espectáculos, a restaurantes, etc. E, até aqui, tudo bem.

Até que a filha começou a detectar algumas inconsistências nas conversas. Por vezes, por telefone, relatava à filha episódios inesperados ocorridos com amigas, passeios fantásticos que tinham feito, visitas que tinha recebido. Só que a filha, que lhe ligava todos os dias, estranhava. Por fim, começou a ter quase a certeza de que a mãe inventava altas proezas. Isto incomodava-a, achava que estava a descobrir que a mãe começava a revelar uma certa tendência para a mentira.

Até que um dia a senhora partiu uma perna. Foi operada mas a filha achou que ela precisava de algum acompanhamento e que seria mais fácil ter a mãe por perto. Como mora numa moradia que tem um anexo que, na prática, é outra casa, convenceu a mãe a ir viver para lá, pelo menos até se recuperar. A senhora concordou mas numa lógica temporária, não queria perder a sua independência. E lá foi. A vizinha da minha mãe contratou uma funcionária experiente para ir lá cuidar da mãe. E, desta forma, passou a acompanhar a mãe de perto.

A senhora continuava a parecer a imponente senhora de sempre, queria arranjar o cabelo, vestia-se sempre com cuidado, era educada, simpática, bem disposta. Mas cada vez mais apareciam façanhas que a filha desconhecia e que lhe pareciam improváveis. Mas tudo sempre dito com assertividade, com relatos pormenorizados. Se a filha mostrava que duvidava, ficava ofendida, amuava, dizia que assim não podia confiar nela, que nunca mais lhe contava nada. E a filha ficava mesmo na dúvida, às tantas a mãe estava a falar verdade.

A minha mãe, por vezes, ia visitá-la. Dizia que era sempre uma tarde bem passada: que ela era uma conversadora impagável, desinibida, com grande sentido de humor, que contava episódios antigos de namorados, que era um ponto que só visto. Só que, no fim, a filha dizia que parte do que ela tinha contado era, quase de certeza, mentira. 

Contava à minha mãe que tinha falado com a médica e que começava a ficar claro que havia ali um quadro de demência que, embora quem não soubesse nem desconfiasse, parecia que ia progredindo.

Contudo, a minha mãe dizia que não percebia se era a senhora que ficcionava mais do que a conta ou se era a filha que não ficava confortável com a desinibição da mãe e preferia transmitir a ideia de que aquilo não era para ser levado a sério.

Mas um dia a minha mãe confirmou. Estavam a lanchar quando a senhora desatou a contar um episódio engraçadíssimo passado com uma cunhada. A minha mãe contou que tinha chorado a rir com a graça dela, com o insólito da história, imitando a voz e os modos da cunhada. Só que, no meio da narrativa, tinha intercalado o seguinte: 'Ainda há bocado, quando o Luís aqui esteve a almoçar, nos fartámos de rir, a lembrar as macacadas dela.'. Ora o Luís era o marido, falecido há uns anos. A minha mãe ficou passada, sem saber como reagir.

E foi assim que a coisa foi evoluindo até que, por fim, já não dizia mesmo coisa com coisa e já era tudo uma ficção pegada, já sem ponta por onde se pegasse. Depois teve um avc e a degradação física e mental foi inexorável.

Quando se vê Trump a dizer e a fazer disparates atrás de disparates, sem qualquer tino, sem noção do ridículo, penso nela. A diferença é que, ao contrário de Trump, a senhora tinha sido uma empresária bem sucedida, não era parva nenhuma.

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How Trump Just Proved He's an Idiot: Michael Wolff | Inside Trump's Head

Trump chronicler Michael Wolff joins Joanna Coles to examine a week where Trump’s world collides with scandal, faith, and science. From Epstein’s secret photo stash and Kash Patel’s embarrassing congressional testimony, to Trump’s jarring rage at Charlie Kirk’s memorial, Wolff dissects the cracks in MAGA’s political and spiritual future. Erika Kirk’s moving forgiveness speech, Trump’s uninformed vaccine rants, and Sam Nunberg’s blunt “Trump is an idiot” verdict all point to a deeper question: how much longer can Trump’s anger and anti-science rhetoric hold his MAGA movement together?

  • 00:00 - Introduction
  • 01:48 - Fergie Haunted By Her Epstein Relationship
  • 04:10 - Kash Patel Is In Over His Head
  • 06:09 - Photos Of Trump With Girls At Epstein's House
  • 09:05 - Why Charlie Kirk Isn't Actually A Political Figure
  • 13:25 - Erika Kirk Commands Spotlight At Charlie's Memorial
  • 16:30 - Sam Nunberg Calls Trump An Idiot
  • 18:32 - Trump's Wild Autism Comments
  • 20:33 - Why Trump Clings To Autism Issue
  • 27:14 - Lindsey Halligan's Turn As US Attorney
  • 33:31 - Click The 'Join' Link Below And Become An Official Member Of Our YouTube Community


Desejo-vos uma feliz sexta-feira

segunda-feira, julho 28, 2025

Um domingo feliz

 

Festejámos, em família, o último aniversário de Julho, o terceiro. Daqui por poucos dias iniciam-se os de Agosto, mais três. Bem quero manter-me na linha, mas as tentações são sempre mais que muitas. Claro que eu poderia manter-me de boca fechada, em especial quando chega a hora dos bolos. Mas com a falta de açúcar que entra na minha dieta rotineira, quando me apanho com um doce à frente nem tento controlar-me. Pelo contrário, sobe em mim uma insana vontade de me desforrar, vontade essa que não contrario.

De cada vez que nos encontramos pasmo com o que está a acontecer-me. Estou, de dia para dia, relativamente mais pequena. Uma coisa que me deixa diminuída, digamos assim. E, contudo, fora deste contexto há quem me ache alta. Alta eu sei que não sou mas, caraças, também não sou uma anãzinha. Mas é assim que me sinto quando estou ao pé dos mais altos. E repare-se que a meio da semana almoçámos com dois dos meninos e no domingo anterior tinha estado com todos. Portanto, não passou um mês desde que os tinha visto. E, no entanto, juraria que este domingo estavam todos mais altos. Já ao fim do dia, fiz questão de me fazer fotografar entre os dois rapazes mais altos. Grandões, peludos, cabeludos, com o braço sobre os meus ombros, tenho que virar a cabeça para cima para lhes ver a cara. A impressão que me faz o ritmo a que isto se processa. 

A minha menina também já está uma mulher. No outro dia, andando em passeio, estava a apanhar banhos de sol sobre uma rocha e a fotografia que o meu filho enviou tinha sido tirada de um ângulo em que eu não via muito bem a cara. Parecia-me ela mas achei que pelo corpo não podia ser, devia ser a mãe dela. Virei o telemóvel para ver se a via de frente mas o telemóvel rodava a imagem. Só então reparei na minha nora, de pé, na água, junto à rocha. Só visto. Também já me ultrapassou. Com os seus olhos claros, toda ela grande, faz-me lembrar as jovens do norte da Europa. O mano seguinte também está mais alto, claro, quase a apanhar-me. Mas ainda não entrou naquela fase da adolescência em que, quais feijões mágicos, deitam corpo diariamente. O mais novo, ainda na primária, evidentemente ainda se mantém um menino (apesar de um espertalhão e de um reguila de primeira, o que não é de admirar face à 'escola' que tem de todos os lados - para além dos dois irmãos, pelo lado do pai tem dois primos e, pelo lado da mãe, tem mais quatro; isto já para não falar dos primos em segundo grau e dos inúmeros filhos dos amigos dos pais).

Enfim, é a vida a florescer, uma primavera radiosa.

Os telemóveis têm vida própria e o meu volta e meia, geralmente à noite, dá um toque que me parece o de uma mensagem a chegar. Vou ver e é para me dizer e mostrar que tem uma nova história. . Há dois dias era uma história de há 3 anos. Por sua alta recriação, junta fotografias, passa-as de carreirinha como um vídeo e junta-lhe uma música. Quando fui ver até estremeci. A primeira era da minha mãe, toda sorridente, jovem, bem encarada, elegante. Estávamos no Algarve. Um dos meninos já estava espigado mas o que hoje está já da altura do mais alto ainda era um menininho, bem mais pequeno, nem se compara, carinha de menino. O que eles cresceram nestes três anos nem dá para acreditar.

Fiquei a pensar que a minha mãe, naquela altura em que respirava saúde, em que andava pela praia sem se cansar, sempre na boa, em que, a caminho dos noventa, nos deixava pasmados com a sua vitalidade, mais do que certamente já tinha o mal a crescer dentro dela. Aliás, creio que foi pouco depois disso que fez um exame que alertava para a probabilidade de haver ali um problema, recomendando exames complementares, exame esse que ela escondeu de toda a gente bem como escondeu o facto de a médica lhe ter telefonado duas ou três vezes a insistir para ir fazer o exame e a informá-la do que poderia vir por aí. Mas, na altura das fotografias no Algarve, por tudo o que me recordo e pelo seu ar tranquilo e bem disposto das fotografias, tenho quase a certeza de que ela pensava que estava tudo bem. E como não, se não tinha qualquer sintoma? Sabia, isso sim, que tinha insuficiência cardíaca, mas não era nada de especial e os médicos diziam que, na idade dela, era normalíssimo. Estava medicada e eu estava descansada. Nunca a vi a tomar um único comprimido que fosse, mas, se eu lhe perguntava, dizia que já tinha tomado e que depois voltava a tomar à noite, antes de se deitar. Porque haveria eu de desconfiar? No entanto, poucos meses depois vim a descobrir que a insuficiência cardíaca se tinha agravado e que, se eu sabia que um dos comprimidos ela se recusava a tomar por achar descabido e com muitos possíveis efeitos colaterais (julgando eu que a médica estava ao corrente dessa sua decisão e a relevava), muito provavelmente também não tomava o outro que eu julgava que, para ela, era pacífico. Mas, naquela altura, ela estava tão bem que eu não tinha razão para duvidar de coisa alguma. Isto há três anos. E ela já morreu há ano e meio. Ou seja, tudo o que se passou, passou-se muito rapidamente e de uma forma muito incompreensível para mim pois a gestão que a minha mãe fez do seu quadro clínico deixava-me muito confusa. Com o que vim a descobrir aos poucos, estou em crer que o que a arrasou mais e motivou as suas decisões foi o seu pânico em tomar medicamentos e, com certeza, muito mais, em fazer quimio ou radioterapia. Preferiu fazer de conta que tomava os medicamentos e, sobretudo, preferiu fazer de conta que não sabia o mal que tinha.

Mas, enfim, não vale a pena estar a pensar nisto. Tenho que pensar que, com a idade que tinha, provavelmente não poderia mesmo fazer tratamentos agressivos e viveríamos todos na angústia de saber que não viveria muito. Assim, pensávamos que não tinha nada e ela não se viu forçada a ser tratada como uma doente terminal. E, se calhar, acreditou naquilo que em que falávamos muitas vezes: nestes casos, a idade joga a favor, as células já não se multiplicam rapidamente. Aparentemente tinha esperança de viver muitos mais anos e isso também foi bom.

Hoje os meninos lembraram-se dos belos crepes que ela fazia. O mais novo disse que nunca mais tinham comido daqueles crepes. Não sei quem disse que, sim, já tinham comido, sim. Ele esclareceu: 'Feitos pela avó não'. Apeteceu-me comentar que ficava contente por se lembrarem dela. Mas não quis parecer que estava a querer puxar ao sentimento, pensei que isso poderia deixar os miúdos constrangidos, poderiam pensar que me estavam a entristecer ao falarem nela. As coisas devem ser naturais. É bom que percebam que a vida continua, que a alegria deve viver entre nós, juntamente com as memórias que cada um guarde.

Quando chego ao fim do post, penso como hei-de resumir tudo num título. Agora vacilo. Ia escrever 'Um domingo feliz com saudades dentro' mas vou deixar ficar só o 'um domingo feliz' porque as memórias e as saudades não têm que macular a felicidade. Não maculam. Integram-na.

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E ia escrever sobre mais uns vídeos que, agora à noite, vi com declarações de várias mulheres que foram vítimas de assédio e abuso por parte do Trump, mas, vejam só, derivei para esta conversa. Acontece, não é?

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira