Do que a gente se apercebe, uma coisa é o que as pessoas são no dia a dia e outra é o que são por dentro. A gente vê pessoas que convivem, que dizem piadas, que riem, que trabalham, que são bem sucedidas, que têm uma vida normal, dir-se-ia que bem-sucedida e feliz, e, depois, quando mergulham dentro de si próprias, começam a desenterrar demónios, memórias angustiantes que, aparentemente, as têm mutilidado toda a sua vida.
Uma vez mais concluo que as pessoas são muito diferentes umas das outras pois as coisas de que muitas pessoas se queixam, passei por elas e não me fizeram mossa. De resto, só me apercebo disso ao ouvir relatar, com mágoa, o que lhes aconteceu. Penso: 'Olha, comigo também aconteceu isto...', porque, na verdade, nem me lembrava, pouca ou nenhuma relevância lhes tinha atribuído.
E, note-se, comparo comigo não porque me considere o fiel de alguma balança ou o alfa e o ómega do pedaço mas porque é o caso que tenho mais à mão e de que posso falar sem estar a cometer nenhuma inconfidencialidade.
Sou fã do Anderson Cooper em tudo o que faz. E o podecast em que conversa com pessoas sobre perda, sobre luto, sobre dar a volta, é muito interessante. Ele não apenas pergunta como ouve, ouve empaticamente, e faz observações sobre si próprio. São sempre momentos de partilha e, dado o tema que é, momentos de uma considerável intensidade.
Aqui fala com Sharon Stone. A bomba sexual de Instinto Fatal, a mulher com o cruzar e descruzar de pernas mais sensual do planeta, tem tido uma vida do caraças. E há que definir 'caraças' pois se há alturas em que ser do caraças é do melhor que há, noutras é o exacto oposto. É o caso.
Desde a hemorragia cerebral que a tirou deste mundo e a fez deslocar-se pela célebre luz branca, até ao complicadíssimo divórcio, à perda da guarda partilhada do filho, os vários abortos, a difícil relação com a mãe.... tudo lhe tem acontecido.
Mas está cá para contá-lo e isso é o mais importante. Com os olhos muito abertos, tentando controlar o choro, com a voz embargada, quase não conseguindo falar, Sharon Stone -- que já não é a mulher jovem e apetecível mas sim uma mulher interessante, pintora, defensora da igualdade de oportunidades entre homes e mulheres --, não contorna os obstáculos: vai de frente, fala, expõe-se, despeja o saco.
A mãe nunca lhe disse: 'Orgulho-me de ti. Gosto muito de ti'. E ela toda a vida carregou esse não-reconhecimento com uma grande mágoa. A minha mãe também nunca me disse isso. Mas nunca me importei. Provavelmente a diferença é que eu sempre acreditei que não são precisas palavras, e que, apesar de não o verbalizar, era isso que a minha mãe sentia por mim. De resto, há palavras que, a mim, muitas vezes me parecem enfeites desnecessários. Basta-me tomar o pulso à essência, senti-la lá, viva. Basta-me, e basta-me muito bem. Do que se percebe, e certamente por todos os antecedentes, Sharon Stone duvidava que a mãe o sentisse.
Mas não é só da mãe que ela fala. Carrega outras dores. A que foi uma das mulheres mais desejadas do mundo, que espalhava glamour por onde passava, tem, afinal, carregado muitas provações ao longo da sua vida.
Convido-vos a ver.
O luto complexo de Sharon Stone: "Para mim, está tudo bem sentir-me livre da minha mãe."
Sharon Stone viveu muitas perdas na sua vida, a mais recente das quais a morte da mãe, Dorothy, em 2025. Conta a Anderson Cooper que sentiu alívio após a morte da mãe e se sentiu "livre da minha mãe, livre do trauma dela".
0:00 O luto complexo de Sharon Stone
11:49 Stone fala sobre a sua falecida mãe
18:00 "Queria que ela morresse em paz"
23:59 "É normal ter todos os sentimentos que se tem"
A família tenta que eu não fique tão exclusivamente focada no problema que nos toca a todos. Não há quem não tente pôr-me racionalidade na cabeça. Compreendo-os mas há coisas que não resultam apenas da nossa vontade. O meu marido, para além disso, quase me empurra à força para a psicóloga. Mas eu, nesta fase, não tenho disponibilidade de qualquer espécie pelo que não vou já agendar nada; mas acredito que, mais tarde, talvez agende umas sessões.
Mas não estou passada de todo pelo que, pelos meus próprios meios, estou a tentar continuar a viver com a normalidade possível.
[A minha filha disse que quando, no final do ano (ou no início deste?) fiz o balanço de 2023 só falei das coisas negativas, esquecendo-me de todos os bons momentos, do muito que escrevi, de todas as muitas vezes em que estivemos juntos, etc. Disse-me também que nem pareço eu pois eu, tal como era, não reagiria como estou a reagir. E o meu filho, no outro dia, disse-me que não posso esquecer-me que tenho filhos e netos. E disse-me que parece que envelheci trinta anos. E eu, ouvindo-os, reconheço que têm razão em tudo o que dizem.]
Então, fomos todos almoçar fora, passeámos à beira rio, os meninos estiveram e brincaram juntos e eu senti-me feliz. Claro que há sempre aquela sombra, aquela preocupação, aquela angústia que me aperta as entranhas. Mas vê-los contentes, conversadores, estando com eles e deixando-me contagiar pela alegria buliçosa das crianças, sinto-me melhor e, de vez em quando, consigo mesmo abstrair-me do que se passa.
É que, por muito que nos custe assistir, de perto, diria até que por dentro, a uma situação como aquela que atravessamos, a vida continua.
E os meus netos são bem a prova viva disso. E são também, só por si, um motivo de felicidade absoluta, tal como o são os meus filhos.
Portanto, apesar dos pesares, este domingo foi um dia feliz, luminoso.
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E agora, para que não venham outra vez dizer que parece que não sou capaz de falar de outra coisa, deixem que partilhe convosco dois vídeos muito interessantes. Pode até parecer heresia juntar a Sharon Stone e o Rothko mas eu sou herege. Nada a fazer.
[Os textos abaixo são traduções google dos textos que acompanham os vídeos]
Sharon Stone, artista
Quando era estudante universitária, Sharon Stone viveu a vida de uma artista faminta, vendendo as suas pinturas por US$ 25 cada. Hoje, a atriz nomeada para um Oscar voltou ao seu amor pela pintura, com as suas obras a ser vendidas na casa das dezenas de milhares. Já teve duas exposições em galerias nos EUA, com uma terceira prestes a ser inaugurada em Berlim. O correspondente Lee Cowan visita Stone no seu estúdio em Los Angeles e observa-a a criar um novo trabalho.
Mark Rothko -- visita privada à exposição na Fundação Louis Vuitton
As obras abstratas… Sim, mas não só. Mark Rothko defendeu-se afirmando que a sua pintura estava viva. Demonstração aqui na Fondation Vuitton, com esta magistral exposição, a maior do mundo dedicada a ele. 115 obras-primas em formatos absolutamente monumentais que estão disponíveis nos 4 andares da instituição parisiense. Diante desta paleta XXL, é difícil não nos sentirmos absorvidos por essas cores difusas, quase hipnóticas, que exercem sobre nós esse misterioso poder de fascínio. À distância, massas perfeitamente equilibradas, com geometria difusa. De perto, um nevoeiro difuso que nos absorve. Dê um passo para trás. A obra não é mais o que você via no início. Nosso olhar muda, decifra, sente.
Exposição Mark Rothko -- Fundação Louis Vuitton, Paris -- Até 2 de abril de 2024
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As fotografias foram feitas no domingo no Parque das Nações
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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
A primeira vez que ouvi a palavra idadismo foi à minha mãe. Numa aula de uma cadeira da Universidade debateram o tema, discriminação baseada em critérios de idade. Pensei que fosse um neologismo criado de propósito para consolar os alunos de uma universidade sénior. Ou seja, lá está, reagi com preconceito, como uma verdadeira idadista.
Mas, como depois não voltei a ouvir a palavra, varreu-se-me.
Achei interessante a entrevista e acabei por ver a conferência na qual Ashton Applewhite fala sobre o assunto e que, abaixo, partilho em versão legendada.
Nada de extraordinariamente novo mas, juntando as pontas, percebe-se como o idadismo está na base de uma generalizada mentalidade que condiciona todos quantos, em vez de estarem contentes por estarem vivos e com vontade de seguir em frente, ficam é angustiados por se verem mais velhos. Sobre esta base desenvolvem-se florescentes negócios.
Não há nada que mais facilmente faça mover a sociedade e, logo, a economia do que o medo.
Neste caso:
o medo de que os outros nos vejam como velhos, acabados, gastos;
o medo de nos vermos ao espelho e nos acharmos uma triste sombra do que, em tempos, fomos;
o medo de nos sentirmos olhados com desdém ou compaixão;
o medo de pressentirmos um fim cada vez mais próximo.
Medo. Medo, medo. Medos.
E sobre este medo medram múltiplos negócios.
Cosméticos anti-aging, anti-rugas, anti-flacidez, anti-manchas, para as primeiras rugas, para as rugas instaladas, para peles maduras, para peles pós-menopausa. Cosméticos quer de venda em farmácia, quer de nicho (produtos a peso de ouro de marcas que se sabem publicitar bem), quer grande público (marcas vendidas nas grandes superfícies).
E tratamentos estéticos de toda a espécie e feitio para combater os efeitos da idade (botox, lifting, laser, etc).
Ou seja, há toda uma rentável indústria bem assente na publicidade e, agora, nas redes sociais que faz mover esta vontade que as pessoas têm de parecer mais novas.
E isto não é apenas uma questão de pele. É toda uma fileira: ginásios, personal trainers, massagens, drenagens, sei lá.
Sobretudo, as pessoas não querem parecer mais velhas. Mas, do que me apercebo, a preocupação é mais com o exterior do que o interior.
Quando digo que, um dia destes, quando me reformar, quero encetar uma vida nova, tenho a sensação que ninguém me leva muito a sério, penso que tomam isto como uma daquelas excentricidades que não dará para levar muito a sério. Quem é que, em vez de descansar de uma vida de trabalho, vai começar uma vida nova depois dos sessenta?
E, no entanto, é o que me apetece: começar uma vida completamente nova, percorrer caminhos que desconheço, ter dúvidas, ter que aprender, sentir as tremuras e a humildade dos primeiros passos. Qualquer idade é idade boa para isso.
E depois isto das rugas que se vão cavando, das carnes que vão perdendo a rijeza, dos cabelos brancos que vão despontando... que mal tem?
Para quê uma pessoa fazer 'preenchimentos', inchar-se, esticar-se? Para ficar a parecer um peixe balão?
Se uma pessoa está bem, se tem vontade de bulir, se aceita com naturalidade uma dorzinha aqui ou ali de quando em vez, se ainda consegue sentir o deslumbramento da beleza e das primeiras vezes, então todos os dias são dias de festejar a vida. Seja qual for a idade.
Let's end ageism | Ashton Applewhite
It's not the passage of time that makes it so hard to get older. It's ageism, a prejudice that pits us against our future selves -- and each other. Ashton Applewhite urges us to dismantle the dread and mobilize against the last socially acceptable prejudice. "Aging is not a problem to be fixed or a disease to be cured," she says. "It is a natural, powerful, lifelong process that unites us all."
E, que nem de propósito, eis Sharon Stone, 64 anos -- renascida de um AVC que a deixou perto de partir desta para melhor -- a posar para a Vogue Arábia. Diz que não se preocupa em querer parecer mais nova e que se sente mais criativa e feliz que nunca. Novos tempos, apesar de tudo.
São dela as fotografias que estão ali em cima. Claro que tomaram todas as mulheres de 64 anos ser belas e elegantes como ela mas o que interessa não é isso, o que interessa é que não se esforça por parecer tão nova e tão femme fatale como era quando deixou o mundo preso ao seu sensual cruzar e descruzar de pernas.
Oscar-Nominee Sharon Stone for the September 2022 Issue | Vogue Arabia
Se a mim me fizessem esta pergunta em público teria que dar a resposta óbvia. Qualquer outra, para além de poder ser não verdadeira, poder-me-ia trazer sarilhos.
E se eu gosto de beijos. Não há amor de verdade se não houver o prazer de beijar -- isto se for amor entre um casal, bem entendido. Mas, mesmo nos outros tipos de amor, penso que um beijo, um beijinho ou uma beijoca são laços indispensáveis na explicitação do afecto.
Mas, no caso da Sharon Stone, não houve esse tipo de pruridos: a pergunta referia-se a beijos em contexto profissional. Provavelmente não terá sido beijo técnico mas, sim, um pouco melhor que isso mas, de qualquer maneira, um beijo no contexto do trabalho que estavam a levar a cabo. Portanto, quiçá nada a ver com afecto mas com profissionalismo. Felizmente não sou actriz, senão não sei se conseguiria ser tão profissional quanto isso. O distanciamento suficiente para estar aos beijos e ficar como se não tivesse sido nada comigo parece-me coisa inantigível. Um beijo na boca é um momento de tal aproximação, de tal cumplicidade e comunhão que não sei como é possível ficar-lhe indiferente. E a verdade é que Sharon Stone parece também não conseguir ficar alheada e, passado tanto tempo, ainda recorda o bom que foi beijar Robert de Niro. E não me admiro.
Robert de Niro é um homem da cabeça aos pés, daqueles homens que respiram masculinidade por todos os poros. E para um homem beijar bem uma mulher, bem, mesmo bem, tem que ser muito homem. Acredito que uma mulher também consiga beijar bem outra mulher. Mas lá está, para que o beijo seja bom tem que ser muito mulher. Ambas. Tal como um beijo homem-mulher só é uma porta aberta para o paraíso, para o covil dos amores, para o início e o fim dos tempos, se o homem for muito homem e a mulher muito mulher. Só assim haverá ternura, entrega, comprometimento, atração fatal.
O filme onde Sharon Stone degustou os belos beijos de Robert Niro, os melhores beijos da sua vida profissional (e se ela tem beijado...), foi o Casino. Por acaso, foi filme que não me encheu as medidas. Filmes entrecruzados por um narrador que, em voz off, vai tingindo a fita com explicações e embaciamentos, perdem fluidez e filmes sem fluidez (tal como livros ou conversas sem fluidez) são uma seca.
Não encontrei nenhum vídeo dedicado às cenas com beijos (mas, certamente, não tarda vai aparecer) mas encontrei este aqui abaixo onde dá para perceber a qualidade e envolvimento que existiu entre ambos.
E para provar a minha teoria, se Robert de Niro é um homem muito homem, Sharon Stone, por diversas vezes, também já deu provas mais do que suficientes de que é uma mulher muito mulher: quando representa e ousa como gente grande, quando tem um avc e recupera e se lança para uma nova vida, quando se apresenta de cara lavada mostrando as rugas, a pele macilenta e a perda de viço que as pessoas não esperariam ver numa femme fatale e, mais recentemente, quando se mostra, enervada, revoltada e, de certo modo, poderosa, falando do caso da sua família devastada e ameaçada pela covid, apelando a um voto que não num assassino.
Sharon Stone é uma mulher bela, elegante, inteligente, segura de si e orgulhosa da sua sensualidade.
Muita água rolou debaixo da ponte desde que deixou meio mundo alucinado com o trocar de pernas de Catherine Tramell. Mas não foi só o movimento das pernas e o que ele deixou entrever ou adivinhar: foi também o charme, a forma como desconcertou os agentes que a interrogavam. A sedução e a inteligência são um poderoso afrodisíaco. O humor é o condimento que torna a atracção irresistível.
Depois da fama brutal e de passar a ser vista sobretudo como um poço de sensualidade, veio o igualmente brutal AVC. E, depois do AVC, veio a travessia do deserto e o renascimento. E veio a luta por reencontrar o seu espaço, sempre com dignidade, sem auto-comiseração, como um alerta. E, entretanto, Sharon Stone, ainda e sempre uma bela mulher, voltou à universidade, voltou ao trabalho, voltou à vida normal.
O discurso que proferiu na cerimónia na qual lhe foi atribuído o prémio Mulher GQ do ano 2019 é o discurso de alguém que teve tudo e que depois passou ao lado da morte, e seguiu caminho. Sempre de cabeça erguida.
Não sei se ainda há quem padeça do preconceito de que as mulheres bonitas tendem a ser pouco inteligentes e, mais ainda, se forem louras -- mas, se ainda o há, é bom que ponham os olhos na inteligente e talentosa Sharon Stone.
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E porque é um testemunho muito objectivo, muito claro e, ao mesmo tempo muito impressionante (e tranquilizador), deixo também aqui a sua descrição do que foi a passagem para o outro lado no momento de quase-morte.
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A fotografia lá em cima é da autoria de Annie Leibovitz para a Vanity Fair
Há algum tempo recebi a visita de uma ex-colega que não via há algum tempo. Quase tive um choque. Mantinha a mesma maneira de se pentear e de se vestir mas tinha engordado, o rosto tinha papos por todo o lado, a pele estava baça e disfarçada com base, num colorido artificial. O cabelo estava também sem vida apesar do tom avivado. No conjunto, estava uma caricatura do que tinha sido.
Quando uma outra colega entrou na sala em que estávamos, não a reconheceu. Tive que fazer de conta que ela estava distraída: 'Então, sempre acelerada, nem repara na Drª Ana que aqui veio visitar-nos...?'. Pela reacção, quase um sobressalto, percebi que estava a ter a mesma involuntária impressão. Ao fim do dia, quando pude comentar com esta última, ainda não me tinha restabelecido: 'Já viu como ela está...? Tive que me esforçar para não deixar transparecer a surpresa que estava a sentir'. E ela: 'Nem me diga nada... tive que disfarçar...' E eu: 'Mas o que é? Está mais gorda...? Viu os papos? Quase parece desfigurada...' E ela: 'O que é? É simples: são 10 anos a mais. E acha que nós estamos iguais ao que éramos há dez anos...?' Acho que já não respondi. Devo ter ficado apreensiva, senão mesmo um bocado triste.
Tendo trabalhado em várias empresas e passado por fusões e cisões, tem sido frequente perder de vista muitas pessoas e, passados alguns anos, calhar a encontrá-las. E há uma interjeição recorrente quando me vêem: 'Ah... mas está igual...' ao que geralmente respondo: 'Olhe que não, olhe que não... capaz é de estar a precisar de óculos, não...?'. Racional como sou, não me deixo levar pois, a ser verdade, ainda estava com cara de dez anos.
Creio que já contei que, num dos últimos enterros a que fui, dei de caras com um homem que conheci na minha infância. Ele estava com uma mulher que não reconheci como sendo a mulher dele até porque estava certa de que ela tinha morrido. 'Não me estás a conhecer, pois não...?', disse-me ele. E eu, atónita, a achar que não podia ser, o senhor não podia estar quase igual ao que era umas décadas atrás, apenas um bocado mais velho. Não arrisquei: 'Acho que sim, que conheço mas não estou bem a ver quem...', até porque tinha até ideia de a minha mãe, em tempos, me ter dito que o senhor também tinha morrido. Então ele disse-me o nome e eu só não me deixei cair para trás porque já aprendi a disfarçar quando levo um murro no estômago. Era o meu grande e insubstituível amigo, o meu primeiro amor, minha companhia de brincadeiras e longas conversas -- até ter ido cada um para seu lado. Fiquei sem acção. E ele: 'Pois eu conheci-te logo, estás igual, o mesmo sorriso.' E eu muda, provavelmente o mesmo sorriso pasmado no rosto. Depois apresentou a senhora, era a mulher. E ela disse: 'Toda a vida ouvi falar de si'. E eu, em estado de estupor catatónico, incapaz de retribuir a simpatia. Só me ocorria que a senhora parecia capaz de ser minha mãe, que não podia ser a mulher do meu amigo de infância e que ele não podia estar transformado naquele homem enorme, encorpado, ar pesado e olhar triste. Quando comentei com a minha mãe, ela contou-me que ele tinha saído do banco onde tinha um cargo dirigente, tinha tido uma depressão, vivia agora toda a semana numa quinta, que estava transformado num homem do campo. Ao fim de semana, vinha à cidade ou a mulher ia ter com ele ao campo. E senti alguma tristeza. Já aqui falei muitas vezes desse meu grande amigo. Sempre foi reservado, tímido. De uma inteligência invulgar, chegou a receber o prémio do melhor aluno do país, coisa que soube pelos meus pais e não por ele. Eu era então provocadora, gostava de fazê-lo sofrer, fingia que não gostava dele, fingia que preferia os outros meninos, desafiava-o para fazer coisas que ele não gostava de fazer mas que se sentia compelido para não me contrariar. Mas, na verdade, eu não conseguia passar sem ele. Andávamos sempre juntos. Eu conversava, sonhava alto, fazia-o viajar nas minhas palavras e ele, calado, sorridente, nunca me contrariava. Nunca, nunca. Tinha uma paciência incrível e eu, embora nunca lhe dissesse, sentia-me agradecida por poder contar com ele.
Não suportou o peso da vida na cidade e a sede daquele grande banco que fervilhava com centenas de pessoas, aquele ambiente, aquela pressão, foram-lhe insuportáveis. Aguentou talvez uns trinta anos e depois refugiou-se no campo.
Mas isto para dizer que o tempo passa inexoravelmente sobre nós. Sorte a de quem lhe sobrevive.
Quando aqueles que achamos muito belos morrem na flor da idade, lamentamos muito e guardamos deles a imagem da sua eterna juventude. Habitam a nossa memória (e agora habitam também o infinito repositório da net), cristalizados, iguais ao que eram quando a sua beleza impressionava quem os via.
Claro que agora aquela app que, através da inteligência artificial, não apenas fica com um manancial de inumeráveis rostos como simula como ficam as pessoas quando envelhecerem, conseguimos ver como seriam hoje aqueles que, em tempos, cativavam o mundo com a sua radiosa beleza. Os próprios fazerem isso é uma coisa, cada um decide por si. Ou fazer isto com pessoas que estão vivas também é como o outro. Agora, quando fazem isso com quem já morreu, sinto que é preciso ingratidão e maldade para querer ver como teriam sido frágeis e decadentes aqueles que se evadiram da lei da vida sem que o mundo as visse a perecer.
E eu, ao olhar o belo rosto de Sharon Stone, que está viva e bem viva, e ao ver como as pálpebras tombam e o cabelo embranquece e como o seu corpo tentador hoje se encobre para lamentar o afastamento a que se viu votada, sinto pena -- o tempo é ingrato e mau. Ou não é o tempo, são as pessoas. Ingratas e más. E, no entanto, que bonita que ela é e que bem que está e que sorte teve ao escapar, sem sequelas, a esse inferno que é um maldito AVC. E que solidariedade, cá muito minha, sinto ao pensar no que ela deve ter sofrido ao ver-se sem falar, sem andar, totalmente dependente, a ter que reaprender tudo, a força necessária, a coragem, a superação do medo e do desgosto. Tão difícil tudo.
Penso no meu pai. Tão bem que estava, tão saudável, tão orgulhoso que sempre foi e, no entanto, um dia viu-se inerte, apenas com metade do campo de visão, sem orientação, sem força num braço, sem andar, de fraldas, a ter que ser alimentado à boca, a ter que ser lavado, a ter que depender de outros para tudo.
Felizmente ela conseguiu ultrapassar tudo: está bem, saudável, inteira.
Mas queixa-se que a esqueceram, que deixaram de lhe dar trabalho. O cinema queria-a como mulher sensual, maliciosa, enérgica, intimidantemente tentadora, não como uma mulher de meia idade que, em tempos, foi isso tudo e que agora perdeu o viço. Como deve ter sido difícil para ela esforçar-se por recuperar, sentir que estava de novo a reconquistar a plenitude das suas facultadas e, ainda assim, sentir-se rejeitada. Uma coisa horrível.
Quando agora fiz anos perguntei aos meninos se sabiam quantos anos eu tinha feito. Não sabiam, atiravam números à sorte, uns para cima, outros para baixo, e eu esclarecia-os dizendo que tinha cem anos. Desatavam a rir, que era impossível. E eu, muito séria, dizia que era mesmo. Cem anos. Riam, perguntavam aos pais. Mas eu, no meu íntimo, antecipava o prazer de viver cem anos e ainda estar para as curvas, com vontade de brincar e de rir, com vontade de seduzir, de provocar, com vontade de me pôr a caminho.
Isabella Rossellini, Jack Nicholson e Jennifer Lawrence aparecem aqui sob o efeito de uma outra app, desta feita uma que converte as pessoas em pinturas de antanho. Por acaso, se não me importasse de oferecer o meu rosto a estranhos, gostava de me ver nesta.
A Lady Di, a Marilyn Monroe, o Brad Pitt, o Putin, o Trump, o Zuckerberg e outro que não sei quem é foram envelhecidos pela FaceApp e nesta é que eu não me meto. Livra.
A Sharon Stone, na fotografia, está como é agora e como era antes, sem inteligência artificial à mistura.
Crossroads pelo Don McLean, que eu não conhecia e que é tão bonita, está aqui porque estou a gostar imenso de ouvir. Acho-a triste, triste, mas não consigo deixar de ouvir.
Tenho andado a tentar reavivar o meu Ginjal e Lisboa, a love affair pelo que, se estiverem para aí virados, serão muito bem vindos nesse meu lugar à beira Tejo plantado. Hoje tenho: E o seu nome seja o seu próprio pudor sobre poema de António Ramos Rosa ao som de Divna Ljubojević. E eu gostava muito que gostassem de lá estar.
[E desculpem por, nos últimos dias, não ter respondido a comentários ou mails mas, acreditem, o meu tempo não dá para mais. Hoje respondi, ou melhor, coloquei uma pergunta porque era um único comentário e a minha pergunta era simples. Mas leio sempre (e fico sempre com um sentimento de culpa por achar que parece pouco educado por não retribuir a simpatia de quem por aqui passa mas ponho-me a escrever posts e quando dou por ela são quase horas de me levantar)]
Depois de, no post abaixo, ter aqui trazido São Mateus para me ajudar na resposta ao Quiz relativo às próximas legislativas, em que nos explica, com todas as letras, porque é que os PàFs deviam era ter vergonha na cara, agora parto para outra. E a outra tem um nome bem conhecido: Sharon Stone.
Não fazia ideia do que se tinha passado com ela. A gente lembra-se dela das cenas calientes de Instinto Fatal, o famoso cruzar e descruzar de pernas, a sedução provocante, a bissexualidade implícita, e a elegância e ambiguidade no Casino... e depois vai perdendo o rasto, e acaba por se fixar nas imagens do passado quase esquecendo que não está a vê-la no presente.
Até que a Harper'z Bazaar traz de volta uma Sharon Stone esbelta, carnes lisas, corpo escorreito, sem uma gordurinha a mais, nem um pneu que nos sirva de consolo. Nua. Completamente nua.
O rosto já não tem aquela malícia que lhe escorria do olhar; mas como poderia uma mulher que se abeira dos sessenta anos ter a disponibilidade ostensiva dos trinta? Deixo-me, pois, de observações eivadas de caridade disfarçada, na verdade quase invejinhas bobas, e reconheço que tomara eu, caraças, tomara eu um corpinho bem feito destes.
E depois ponho-me a ler e vejo, com surpresa, o que se tem passado na vida desta mulher desde que em 2001 quase foi desta para melhor.
Transcrevo:
(...) To add insult to injury, Stone kept forgetting her lines.
"That was humiliating," the actress recalls. "Having worked with the finest people in the industry, I was like, 'Wow, I'm really at the back of the line here. I'm wearing L'eggs panty hose, and in makeup they start out by putting this white primer on my face.' I'm like, 'This is so bad. What did I do to deserve this?' "
The situation had to do in part with an aneurysm that Stone suffered in 2001 and a subsequent cerebral hemorrhage that lasted nine days. She emerged from the hospital stuttering, limping, and unable to read. Over the next few years, her marriage to journalist Phil Bronstein fell apart, and she lost custody of their adopted son, Roan, then eight. (...)
Only recently has Stone begun to talk openly about the brain hemorrhage and its crushing impact on her life. As she recalls it, she felt unwell for three days before she went to the emergency room. It turned out she'd had a stroke, and she lost consciousness soon after being admitted. "When I came to, the doctor was leaning over me. I said, 'Am I dying?' And he said, 'You're bleeding into your brain,' " she remembers. "I said, 'I should call my mom,' and he said, 'You're right. You could lose the ability to speak soon.' " Stone's mother flew in from Pennsylvania so quickly that she arrived at her daughter's bedside still in her gardening shorts.
Several days and two angiograms later, Stone was finally diagnosed with a ruptured vertebral artery. She says that at one point she woke up to find herself being wheeled into surgery and got into a screaming match with a doctor about alternative treatments. "I was hemorrhaging so much that my brain had been pushed into the front of my face," she says. Surgeons ultimately repaired the artery with 22 platinum coils.
The stroke and its aftermath transformed Stone in ways she's still discovering. "It took two years for my body just to absorb all the internal bleeding I had," she says. "It almost feels like my entire DNA changed. My brain isn't sitting where it used to, my body type changed, and even my food allergies are different." It took months for her to regain feeling in her left leg and years for her vision to return to normal; she also fought to eliminate a persistent stutter. (...)
Mas, apesar de tudo, ela cá está, de novo a tentar voltar para papéis dignos, para o palco mediático onde se sente em casa. E bela, belíssima. Queixa-se que há muito tempo que nenhum homem a convida para sair, parece que já nem se lembram das suas capacidades de flirtar mas, enfim, é certamente coisa temporária e parece-me pormenor perante a sua resistência, a sua força e, já agora, perante a beleza do rosto e das formas perfeitas do seu corpo.
...
E viva a vida
- que, tantas vezes, é traiçoeira e tantas outras é boa, feliz; e que é sempre efémera.
...
Em 1992, longe de saber o horror pelo qual iria passar, era assim:
Instinto Fatal
[realizado por Paul Verhoeven, onde Sharon Stone, fatal e provocante, contracena com Michael Douglas]
.....
E permitam que recorde: se é pelos frutos que os devemos conhecer, então, sigam, por favor, até ao post seguinte para que se veja a quê, na actualidade, podemos fazer corresponder os ensinamentos de Mateus.
...
Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado, feliz, tranquilo.
A sedução é das coisas melhores de praticar: seduzir e ser seduzida, fingir que não se dá por nada, que não se quer, mas depois deixar que o olhar pareça ter derrapado e logo corrigir o deslize, fazer com que o outro sinta curiosidade, tente, receie tentar, queira tentar, ouse tentar, se arrependa de ter tentado, queira tentar de novo, queira ir mais longe. O jogo, o desafio, a pulsação num desvario, o gostinho bom da transgressão.
Ou se nasce sedutor ou não. Mas pode treinar-se, experimentar ser, tentar ver se resulta.
Para os que se sentem inseguros na arte da sedução ou para os amadores que gostariam de ser pro, para os que já o são e queiram confirmar as tácticas, aqui fica uma aula teórico/prática ministrada por Chen Lizra, uma expert.
Ouçam-na, vejam-na, imitem-na, levem-na a sério. E não menosprezem o lado fácil e gostoso da vida. Angústias, preocupações, inseguranças, pensamentos pesados e sombrios, está bem que literariamente tudo isso é muito lindo mas, caraças, que graça tem viver uma vida de neura e agastamento?
No outro dia, um amigo meu contou-me que tinha estado com um outro amigo que estava acompanhado pela mulher, ambos meus conhecidos. Dizia-me ele que tinha ficado surpreendido, que 'ela está velha, velha, velha'. Surpreendi-me: se há alguém neste país que tem todos os meios possíveis e imaginários para se manter bem cuidada é ela. Dado que há já algum tempo que a não vejo, admirei-me: 'eu até tenho ideia que ela já se esticou...'. Confirmou, 'sim, deve ter-se esticado, parece que já lhe faltam feições. Mas está toda ela muito velha'. Fiz contas de cabeça e pensei que a dita deve agora andar pelos 50. Não é inusual que a pele das mulheres, quando sobrevém a menopausa, perca a elasticidade. Mas entre cremes, massagens faciais, boa vida e refeições monitorizadas à lupa por nutricionaistas, não teria conseguido evitar a flacidez facial?
Estou curiosa. Sempre a vi com cara de boneca, toda lisinha, uma camada muito fina de base a disfarçar uma ou outra imperfeição, cabelo impecável, roupas de marca (e ponham marcas nisso) - não estou a imaginá-la com ar de velha. Além do mais, é casada com uma bela figura de homem a quem os anos têm trazido charme e patine e ficaria estranho ele todo executivo, sports man, e ela toda velhinha. Não acredito. Mas, enfim, a vida às vezes não poupa alguns rostos.
Lembro-me de, quando eu era pequena, uma das minhas avós já me parecer velha, com rugas na cara, cabelo já muito grisalho, dores nas mãos que, mais tarde degenerariam em artroses. Lembro-me de uma fotografia minha ao colo dela e ainda agora quando a vejo já me parece uma mulher quase velha. E, no entanto, ainda não tinha 50 anos.
Será que os meus pimentinhas também já me vêem como velha? Não faço ideia, tenho que lhes perguntar. Mas tenho ideia que um deles fez um desenho com a família e que a minha filha perguntou se eu fazia parte dos velhos e que ele, muito admirado, disse que não.
No outro dia cruzei-me com duas senhoras que caminhavam em passo acelerado. Diria eu que tinham idade para serem minhas mães. No entanto, uma olhou para mim como se me conhecesse mas eu não a conheci, nem abrandei o passo. Mas, mal começámos a afastar-nos, fez-se-me luz: eu conhecia aquela cara. Olhei para trás mas ela já seguia em passo apressado no sentido contrário ao meu. Mas não tive dúvidas. Gorda, gorda, cabelo grisalho, uma coisa extraordinária. Tinha sido minha colega na faculdade. Até fiquei mal disposta. Será que, quem me olha, também me vê envelhecida, irreconhecível? Acho que não mas vá lá a gente saber.
Mas já me aconteceu ver-me em fotografias e ter vontade de lhes dar uns (re)toques. Volta e meia, o meu filho apanha-me nuns grandes planos que não me favorecem especialmente. Já faz isso para me indispor, é malandreco. Mas photoshop? Para quê? Para enganar quem? Maquilho-me ao de leve e isto durante a semana. Ao fim de semana limito-me a passar uma sombra ao de leve na pálpebra superior, coisa ligeira, apenas para fazer algum contraste. Sou o que sou e boa noite.
Tive em tempos uma colega que pouco ria, que não se baixava e mais uns quantos cuidados, tudo para que a cara não lhe pendesse e para não ficar com rugas do riso. Sempre achei isso patético - mas ela não. Quando se reformou, parecia uma bonequinha que tivesse ficado presa na teia do tempo..
Mas, enfim, na permanente luta para conservar a juventude, há de tudo: os razoáveis, os fundamentalistas e os tarados.
Sharon Stone, a bela e sexy arrasadora de corações, que deita a seus pés legiões de homens babados, fez o mês passado 56 anos e temos dela a imagem da sensualidade perfeita.
Elegante, tentadora, difícil é aos homens não ficarem presos pelo beicinho quando a olham.
No entanto, sem maquilhagem, embora bela, quem a reconheceria como uma mulher fatal?
Deixo-vos agora com um vídeo sugestivo: reparem na transformação operada através de maquilhagem e photoshop.
Face a tudo isto e para rematar, só tenho a dizer que, pela parte que me toca, vou manter-me fiel ao meu velho princípio: back to basis. Nem plásticas nem photoshop. Vá lá um risquito na pálpera superior, uma sombrazita discreta para valorizar a cor dos olhos e um pouco de ar saudável. E chega. Até há pouco tempo ainda pintava os lábios ou, pelo menos, passava um gloss em tom de fambroesa. Agora nem isso.