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terça-feira, junho 23, 2026

Susie e Bella, duas amigas

 

Um dia atarefado com coisas cá minhas, mas incomodada com o calorão abafado que a mim me pesa e tira o fôlego. Em dias assim, as coisas custam-me. No domingo, ao fim do dia, reguei alguns vasos e tinha pensado deixar para esta segunda-feira os vasos dos terraços e as buganvílias; mas não consegui. Não sei se a pressão atmosférica faz baixar a minha tensão arterial ou se é outra coisa, o que sei é que a minha energia parece ficar tolhida.

Ainda assim, fui ao ginásio. Muita gente que nunca vi antes. Algumas pessoas vão com personal trainers e sujeitam-se a verdadeiras torturas. Outros sujeitam-se às torturas por si mesmos. Hoje um homem, com uns gémeos de uma grossura irreal, dobrava-se ao meio, as pernas presas, e elevava e baixava o tronco pegando numa grande bola que parecia pesar uma tonelada. Ao vê-lo naquele esforço insano, dei por mim a pensar: 'Só espero que nunca morra nenhum enquanto eu aqui estou'. Um outro, bem mais velho, com idade para ser pai do outro, estava deitado, um altere em cada mão, abria os braços e depois fechava-os sobre o peito. E eu pensei: 'Se lhe falha a força e uma daquelas coisas lhe cai em cima, esborracha-o'. E não sei se já falei de uma a quem eu e o meu marido nos referimos por cavalona: deve medir um metro e oitenta ou mais, é escultural, usa uns trajes que lhe salientam os glúeos, um top curto, soutien na realidade, e atira-se às máquinas com um afinco que me deixa de boca aberta. Usa um rabo de cavalo ao alto e desloca-se entre as máquinas com passada larga e uma pressa carregada de violência que parece ser apenas vontade de que ninguém lhe ocupe o lugar. Há também rapazes e raparigas, praticamente das mesmas idades, que, em vez de olharem uns para os outros, de flirtarem ou, pelo menos, tentarem perceber se há ali alguma potencial afinidade, não senhor, no intervalo de cada exercício enfiam os rostos nos telemóveis, por vezes sorriem com o que veem, escrevem mensagens mas, sobretudo, deslizam o dedo nos ecrãs. 

Se eu tivesse lata, pedia licença para fotografar ou filmar todos esses meus parceiros, e gostava de lhes fazer perguntas. Mas não tenho. Fico calada, a olhar de soslaio.

Faços os meus exercícios modestos e lembro-me de uma coisa que li no livro da Siri Hustvedt: não é possível escrever sobre o que vai passar-se a seguir. Por isso, eu sei o que fazia e como era quando tinha a idade deles. Eles não sabem como serão e o que farão quando tiverem a minha idade.

Bem. Filosofia à parte.

O que sei é que, com este calor e a preguiça que desce em mim, agora à noite apeteceu-me uma coisa soft, light, tranquila. E nada como as conversas simpáticas, afáveis, com tempo, de Bella Freud com os seus convidados. Desta vez, a conversa é com uma amiga de longa data, a serena Susie Cave que eu apenas conhecia de ser mulher de Nick Cave. 

Aqui, Susie, impecavelmente vestida, calçada e penteada, conversa sobre o amor que bateu forte logo que os olhares dela e de Nick se cruzaram, fala de como começou a sua carreira de modelo, fala sobre o desgosto que quase a devorou quando um dos filhos morreu, fala do seu trabalho como designer de moda e como isso foi a mão que a salvou do abismo. É uma conversa pausada que condiz com o belo rosto de Susie e com o olhar carinhoso de Bella. Sabe bem ouvi-las.

Susie Cave fala sobre Steven Meisel e o seu encontro com Nick Cave | Fashion Neurosis com Bella Freud

Susie Cave é uma modelo e estilista britânica. A sua carreira começou quando foi descoberta durante umas férias em Nova Iorque pela famosa agente de modelos Bethann Hardison, que a encaminhou imediatamente para Steven Meisel, aconselhando-a a regressar à escola, uma vez que tinha apenas 14 anos. A sua beleza marcante e presença etérea rapidamente lhe valeram um lugar em campanhas de alta costura e capas de revistas, incluindo, mais recentemente, uma campanha de perfumes da Gucci e a capa da revista Another Magazine em 2020. Em 2015, Susie lançou a sua marca de moda, The Vampire's Wife, que ficou conhecida pela sua mistura de estética gótica e romântica. A Vogue descreveu o seu inconfundível vestido como o "vestido do momento", e a The Vampire's Wife rapidamente conquistou um público fiel, atraindo celebridades como Florence Welch, Cate Blanchett e Kate, Princesa de Gales, entre as suas clientes. Os designs de Susie são um reflexo do seu estilo pessoal — romântico, misterioso e profundamente artístico — consolidando-a como uma voz singular na indústria da moda. É casada com Nick Cave, vocalista da banda The Bad Seeds. Neste episódio de Fashion Neurosis, Susie Cave e Bella Freud conversam sobre como foi descoberta pela lendária Bethann Hardison e o seu encontro com Steven Meisel aos 14 anos; a primeira vez que viu o seu futuro marido, Nick Cave, num dos desfiles de Bella; e como o luto pode ser canalizado através da criatividade.


Desejo-vos um belo dia

quarta-feira, outubro 04, 2023

A felicidade através das pequenas coisas

 


Por acaso hoje não fomos à praia, isto é, para a areia, para a água. Ontem, sim. O meu marido mergulhou e eu estava afoita, convencida que não teria dúvida em ir também. Mas à última hora vacilei. Não passou do peito.

Estar na praia nesta altura do ano é uma maravilha. A praia quase sem ninguém, a temperatura amena, a luz muito limpa. Por todo o lado pequenos gaivotinhos, saltitando à beira de água.

Enquanto lá estava pensava que há menos de um ano estava eu a trabalhar, com toda a gente a trazer-me problemas para que eu, com invisíveis varinhas mágicas, os resolvesse num ápice. Isto enquanto o meu colega (e amigo) lutava contra os medos por ter descoberto que o cancro, que julgava extinto, afinal, silenciosamente, se tinha espalhado. Mas, para não desastabilizar, não quis que se soubesse. Ausentava-se para exames ou por não estar bem e eu tinha que aguentar tudo sozinha, inventando desculpas para as ausências dele. Foram tempos muito complexos e pesados. 

Por mil motivos, estas minhas belas férias sabem-me pela vida. Sinto-me feliz por poder estar a desfrutá-las.

Poder andar a fazer exercício dentro de uma piscina funda, durante o dia, também me enche de bem estar a satisfação. Antes trabalhava de sol a sol sem tempo para mim. Agora posso levantar-me às horas que me apetece, posso ir à praia, andar na piscina, escrever, dormir a sesta, ler, apanhar sol, caminhar... e isto durante o dia.

Muitos antigos colegas de escola, da minha idade, portanto, ainda trabalham. Dizem que não se imaginam sem nada que fazer. Digo-lhes que é uma sensação tão boa, que, se soubessem, não quereriam outra coisa.

Não fomos para a praia mas, ao fim do dia, fomos caminhar à beira dela, respirar o pôr do sol, ver o mar.

Trouxemos sushi para o jantar, um sushi muito fresco, muito bem feito. Também é bom não ter que fazer todas as refeições.

Vi um vídeo em que um estudioso, um professor universitário, investigador, dizia que a felicidade se obtém com coisas simples: 

  1. ter amigos, amigos de verdade, não amigos virtuais, não amigos daqueles que fazem parte de um networking de interesses, pessoas que nos podem ser úteis, mas, sim, amigos de verdade, que não servem para nada a não ser existirem e serem nossos amigos
  2. partilhar afecto com a família, falar com a família, partilhar momentos e memórias, acarinhar as raízes comuns, cuidar do futuro com cuidado e devoção
  3. sentir que se faz parte de algo maior, seja porque se professa uma religião ou se está integrado num clube ou se adora e venera a natureza, ou coisas assim, em que nos sentimos bem
  4. sentirmo-nos agradecidos por estarmos vivos, por termos o que temos, por sermos como somos (diz ele que o maior inimigo da felicidade é a inveja)
  5. perceber que os outros não têm que ser iguais a nós, não querer, a todo o custo, encontrar almas gémeas, perceber que é das diferenças que nasce a aprendizagem
  6. procurar a beleza das coisas facilmente alcançáveis: ler, ouvir música, apreciar a arte, descobrir a perfeição das flores

Coisas simples. Não alimentar rancores, por exemplo. Não ficar preocupado por não ter o que outros têm. Não traçar objectivos difíceis de alcançar cujo não atingimento seja interpretado como um fracasso.

Gosto bastante de ler ou ouvir coisas assim. Revejo-me nelas. Gosto mais de ouvir isto do que estar junto de quem desfia viagens que fez ou de quem despeja citações, títulos de livros, ou exibe o que toma por sinais de um status superior. Isso cansa-me. Ouvir falar de coisas simples agrada-me.

Por exemplo, uma colega de piscina levou-me um vasinho com pés de pitanga para eu poder plantar no jardim. Fiquei agradecida e tocada pela generosidade dela, por se ter lembrado de mim, por ter tido essa ideia e por ter ido com o vasinho para me dar. 

E é isto, por hoje. Há pouco adormeci e custou-me a acordar. Lá o consegui pois queria escrever isto. E agora ainda quero ir fazer outra coisa. 

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Nick Cave & Warren Ellis interpretam We Are Not Alone 

(do filme La Panthère des Neiges)

Pintura de Kang Un

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Desejo-vos uma boa quarta-feira

Saúde. Alegria. Paz.

segunda-feira, novembro 28, 2022

Sobre a incerteza da vida, sobre o luto, sobre a fé

 

Entrei numa loja com a minha mãe, ela para ver de um 'casaquinho', eu para provar uma camisola quente e confortável. Afinal a camisola de que gostei ficava demasiado larga e ela não gostou de nenhum casaco. Enquanto isso, o meu marido foi andando com a fera. Quando saímos da loja não os vimos. Lembrei-me de ir a uma sapataria que costuma ter sapatos confortáveis de trazer por casa. Afinal estava fechada. Continuei sem saber deles. Liguei ao meu marido. Disse-me que estava no largo e que tinha encontrado um primo meu (disse o nome).

Fui com a minha mãe à procura deles. Estavam longe. Apenas os identifiquei porque vi, à distância, um grupo com um cão cabeludo. Lá estavam: o meu primo, a mulher que é metade dele, e a filha, a miúda mais nova. Já não os via há algum tempo. Ele na mesma. Altíssimo, magro, sempre com aquele seu ar levemente sonhador, sempre zen, pouco falador. Ela, muito mais nova que ele, super enérgica, super jovial, faladora, alegre. Os dois miúdos mais velhos tinham ficado em casa. O cão também. A menina, pequenina, igual à tia, irmã do pai (minha prima, portanto). Igual, igual. Olhei a menina e pareceu-me estar a ver a minha prima quando tinha a idade dela, era eu recém casada nessa altura. Nunca vi coisa assim. Como se fossem gémeas com uns quantos anos de diferença.

A mulher do meu primo contou-nos que o pai morreu há cerca de três meses e ficou triste ao falar disso. Ficámos admirados, não sabíamos que estivesse doente. Não estava. Foi no verão.

Os pais do meu primo, dois tios muito queridos de quem aqui já falei, não chegaram a conhecer esta menina que nasceu quando os irmãos já eram crescidos. O meu tio também não chegou a conhecer a menina mais nova da minha outra prima. Morreu quando ela soube que estava grávida, nem nos quis dizer isso no velório ou no enterro, só disse depois. Percebi-a muito bem. A minha tia ainda conheceu essa menina mas por pouco tempo. Estava muito mal, mas apesar disso, ainda foi para casa da filha para a ajudar pois tinha a casa cheia de crianças.

Lembrei-me do casamento do meu filho, em que ainda estavam todos vivos. O meu pai tinha tido o AVC e andava com alguma dificuldade (mas andava) e foi esse meu tio, irmão da minha mãe, que o ajudou discretamente pois o meu pai sentia-se diminuído e não gostava de ser visto assim. Esse meu tio era forte, uma força da natureza, ajudava muito. E a mulher, muito divertida, poderia ter sido uma comediante, era descomplicada e ajudava muito a minha mãe e ajudava todos, levando tudo para a brincadeira.

Afinal, poucos meses depois, viemos a saber que o meu tio, apesar de todos pensarmos que respirava saúde, estava com um cancro. Tratou-se, ficou melhor, aparentemente bem. Mas poucos meses volvidos, foi a minha tia que soube que também estava com um cancro, e neste caso avançado. Foi operada, fez tratamentos. O meu tio foi-se completamente abaixo pelo que estava a acontecer à mulher. Eram amicíssimos, inseparáveis. Pouco depois, morreu. E ela também se foi, pouco depois. 

A morte deles foi um abalo muito grande para todos nós. Pensávamos que eram saudáveis, fortes, felizes, uma ajuda para todos, eternos. E, no entanto, foi um instante enquanto desapareceram. 

O meu pai também já cá não está. Hoje, ao saber da morte do pai dela, não muito mais velho que eu, lembrei-me dele e da mulher no casamento deste meu primo. Um casal bem disposto que não sei como terá reagido ao casamento da sua menina com um homem quase com idade para ser seu pai. Casou tarde, esse meu primo, depois de uma vida algo aventureira e quando se pensava que haveria de ter namoradas, uma aqui, outra ali, em países para os quais viajava e de onde elas vinham para visitá-lo, mas que, se calhar, nunca se sentiria tentado a 'assentar'. Afinal foi esta miúda, simpática, alegre e desempoeirada, que o levou à certa. Com semblante triste, falou da mãe, agora sozinha, abalada pela morte prematura do marido.

A vida é assim, incerta, por vezes efémera, por vezes traiçoeira, tantas vezes injusta. 

Mas a verdade é que, apesar do desgosto que sentimos quando se vão os que nos são queridos, a verdade é que a vida continua, regenera-se sem eles.

Temos que é que aproveitá-la bem enquanto dura tal como temos que aproveitar a companhia dos que amamos enquanto cá estão. Não sabemos nunca o que vai acontecer no dia seguinte pelo que levar uma vida incompleta à espera de poder vivê-la mais tarde pode vir a revelar-se uma aposta furada. Não sei se as pessoas que têm fé ou que praticam os preceitos de alguma religião se sentem mais acomodados perante a incerteza da vida mas eu que sou agnóstica tenho para mim que a vida é finita e milagrosa e que devemos agarrar cada instante como se tivéssemos sido abençoados em recebê-lo. E devemos estar na vida de coração aberto, generosos, bondosos, compreensivos, tolerantes. Nada disto é sinónimo de sermos bonzinhos, caridosos, passivos, beatolas, panhonhas, maria-vai-com-as-outras. A vida é boa se dermos o peito às balas e soubermos erguer bem alto as bandeiras das nossas convicções. 

E não digo mais nada porque a partir daqui já seria eu a deitar-me a filosofar, coisa para a qual notoriamente sou desprovida de competências.

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Posso apenas acrescentar que penso que o meu marido hoje percebeu que teria muito a ganhar se passasse a usar óculos na rua.

Já no carro, contou que ia a passear com a sua fera quando ouviu, ao longe, chamar o seu nome. Olhou, não reconheceu ninguém, admitiu que não seria com ele. Mas o chamamento continuou, 'Aqui!'. Então, olhou nessa direcção. De longe, pareceu-lhe que era a cunhada de quem ontem aqui falei. De facto não diferem muito, excepto que a minha cunhada deve ter uns vinte anos a mais que a mulher do meu primo. E, quando, de longe, viu o homem ao seu lado, pensou, atónito, que o irmão estava muito diferente. Devo dizer que o meu primo tem à vontade trinta centímetros a mais de altura que o meu cunhado e que, a nível de peso, é capaz de ter menos uns trinta quilos. De cara então não há comparação possível. Portanto, face a esta inexplicável confusão, acredito que talvez o meu marido admita que teria muito a ganhar se passasse a usar óculos na rua.

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Bem. Se não tenho mais a dizer posso, no entanto, recomendar uma entrevista muito interessante. Muito interessante, mesmo. Posso ser suspeita porque gosto muito do Nick Cave mas não quero saber: ele é um homem carismático, com uma densidade artística que me prende. Além disso, a sua vida tem tido momentos de fractura e dor que dão corpo a algumas das suas criações artísticas mais tocantes e intensas.

Lamento que não esteja legendada mas, ainda assim, até como se de um repositório de agrados o blog se tratasse, incluo-a aqui. 

Nick Cave on faith, grief, and music: The Newsnight Interview

The artist talks about the death of one of his fifteen-year-old twin sons, Arthur, seven years ago, and how he has addressed loss and grief through music, particularly his hugely lauded album Ghosteen.  

He talks about his new book, Faith Hope and Carnage, which is distilled from a series of telephone conversations during lockdown between Cave and journalist Sean O'Hagan, in which the musician talks about questions of belief, faith, grief, love and his music.  

In a rare TV interview, Kirsty Wark also hears about his project, The Red Hand Files, in which he solicits questions online and then responds to the ones which pique his interest with advice and musings which are often tender, and sometimes funny.

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As pinturas são de Manuel Cargaleiro

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Boa sorte. Paz.

sábado, julho 02, 2022

É até heresia este salmo estar aqui...
mas também não se pode dizer que este blog seja um local muito dado à devoção

 


Sempre gostei de ter as janelas abertas. Quando morava na cidade, uma vez entrou um pombo para a sala de baixo. O meu marido passou-se, disse que já me tinha avisado mil vezes que isso poderia acontecer. Foi o fim da picada para o tirarmos de lá. O pobre andava assustado, às voltas. Vimos o caso mal parado. 

Mas pior foi a gaivota. Grande, umas asas enormes. Já estávamos preocupados, com pena. Já o contei aqui. Dei uma de S. Francisco de Assis. 

(Não sou de listas mas um dia hei-de começar a fazer uma com as cenas incríveis que já aconteceram na minha vida, começando pelas vidas que salvei. Não sei se no caso da gaivota é correcto dizer que lhe salvei a vida mas, pelo menos, salvei-a de um mau bocado)

A gaivota estava presa na varanda pois, quando queria abrir as asas, batia nas paredes e não conseguia elevar-se para dela sair. Aquela varanda, em concreto, é uma varanda estreita. O meu marido tentou ajudá-la mas ela assustava-se, não aceitava ajuda, fugia. Estava num desespero (ela -- mas ele também). Gritava, esvoaçava a batia com as asas de um lado e do outro. Uma coisa que fazia impressão e pena. Pensei que tinha que acalmá-la. Então fui-me aproximando devagarinho. Pedi ao meu marido que me trouxesse uma vassoura. Comecei a falar com ela, a falar baixinho. Fui-me aproximando, ela foi ficando mais calma. Eu falando, apaziguando, dizendo que ia ajudar. Ela já sossegada a ouvir. Depois deitei a vassoura no chão e tentei que ela se pusesse em cima da parte mais larga. Assustada, a escapar-se. A tentar esvoaçar. E eu falando baixinho. Até que ela aceitou que eu deslizasse a vassoura sob as suas patinhas. E eu: 'Schhh, não tem medo, só quero ajudar, schhh...'

Isto pode parecer inverosímil e, ao escrever, até a mim me custa a acreditar. Mas aconteceu. O meu marido assistiu a tudo. Atónito. 

Quando ela já estava em cima da parte mais larga da vassoura, comecei a ver se levantava a vassoura na horizontal. Queria pô-la ao nível do parapeito para que pudesse voar. Assustou-se com o movimento. Eu a segurar a meio do cabo, muito perto dela e sempre a falar baixinho, 'não se assusta, não tenha medo, vou ajudar...' e ela sossegadinha, assustada, trémula. Até que comecei a conseguir levantar e ela quase imóvel. Muito pesada. Tive que segurar o cabo mais perto. Ela já confiando. E eu a fazer um esforço enorme para não a deixar cair. O meu marido em silêncio a observar. E eu sempre falando: 'está a ver? está quase... não tem medo, já vai voar..'. Até que consegui elevá-la até ao ponto em que ela percebeu que já podia abrir as asas. E voou. 

Quando me lembro, sinto-me emocionar. Um momento extraordinário.

In heaven temos mais cuidado. Já bastam os aranhiços, os bichos de conta, as melgas, as borboletas. Agora pusemos redes mosquiteiras, já é outro sossego. Mas há uns meses entrou um ratinho pequeno. E às vezes encontramos pele seca de cobra lá perto. Não quero pensar se um dia alguma entra. Isso assustar-me-ia. 

Aqui nesta casa só hoje vi um bicho aqui dentro. Não. Já uma vez entrou um passarinho lá para cima. Pusemos as janelas todas abertas e lá conseguimos que encontrasse o seu rumo.

Deixo as janelas a bascularem de dia e algumas à noite. Mas à noite os estores estão para baixo, não entra nada. Mas, de dia, se calhar entram. 

Há pouco vi um bicho aqui na sala. Não sei se era grilo, se quê. Matei. O urso felpudo nem aí. Coisa pequena destas não lhe faz mossa. Eu aqui sozinha na sala é que tive que resolver a situação. Quando, de manhã, contar ao meu marido vai fazer logo aquele número de me perguntar quantas vezes já me avisou. Mas gosto de ter as janelas abertas para entrar a luz e o ar da rua.

Custa-me matar bichinho. Não me fez mal nenhum. Porque o matei? Nem sei. É daqueles gestos reflexos em que a gente nem pensa. Poderia ter pegado nele com um papel, aberto a janela e atirado lá para fora. Foi uma crueldade desnecessária.

E hoje não tenho mais nada para contar. As reuniões foram demoradas, pouco tempo sobrou para mim. Os telefonemas também. Estou naquela fase do ano que, quando o telefone me toca depois das seis e tal, já fico irritada. E quando o tema é chatice só me apetece é pedir que me deixem em paz. Ou, como diz o José Leôncio lá do Patanal: 'larga da mão'.

Mas digo isto por dizer. Na verdade, não tenho de que me queixar.

No outro dia, ao fim da tarde, fui a uma consulta de rotina. Como sempre, o médico estava atrasadíssimo. A televisão estava sem som. Então, ia -- discretamente -- observando as outras pessoas. Nada de especial para observar. Até que uma senhora já de uma certa idade recebeu um telefonema de uma prima e o atendeu em alta voz. Todos na sala ouvimos tudo. E o que ouvi deixou-me nem sei como dizer. Não quero contar pois foi há poucos dias, não quero cometer uma inconfidência. Quem estava na sala ouviu o que eu ouvi mas a senhora que estava a falar não foi avisada de que a chamada estava em alta voz. Quando a gente pensa que tem um problema esquece-se de relativizar e pensar que há quem não tenha um mas, sim, vários problemas. E nenhum deles problemazinho, tudo problemazões. E, no entanto, nada fatalista e sempre simpática e generosa, preocupando-se com a saúde da prima com quem estava a falar.

Enfim. A vida de algumas pessoas, de facto, não é nada um mar de rosas.

Mas como estamos a entrar no fim de semana, não é altura para carpir ou reflectir. Não é altura para filosofias ou metafísicas. 

Mas para arquitectura, com vossa licença, já pode ser. 

Deixem, pois, que partilhe dois vídeos bons de ver, em especial por se situarem em extremos opostos

 La Casa Rosa, uma casa moderna projectada por Luigi Rosselli Architects, um prestigiado e galardoado arquitecto

E agora algo de verdadeiramente fabuloso. 

O Zaha Hadid Architects projectou o centro cultural de Xi'an para evocar "vales sinuosos". Foram divulgadas imagens do Jinghe New City Culture & Art Center, que abrange uma autoestrada de oito pistas em Xi'an, na China.

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Imagens da vida selvagem do Guardian

I Come Alone and to You de Nick Cave, do álbum Seven Psalms

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Desejo-vos um bom sábado
Tudo a correr bem

segunda-feira, outubro 19, 2020

Perdas, ausências, saudades no ano da (des)graça de 2020

 


Tenho saudades de algumas coisas e de algumas pessoas. Não posso dizer que seja saudosista e talvez que o que sinto nem seja exactamente saudades, talvez seja mais a falta que sinto. Há coisas ou pessoas que ganham espaço dentro de nós e, quando nos faltam, deixam um vazio. Claro que o tempo vai empurrando outras coisas e outras pessoas para esse espaço mas, não nos enganemos, há faltas que não se ultrapassam.

De vez em quando, do nada, sinto uma vaga de tristeza e saudade que cresce dentro de mim. Sem que tenha tempo para controlar, dou por mim com lágrimas nos olhos. Felizmente é à noite que isto me dá e, portanto, não há quem o veja nem me peça explicações. Não teria como dá-las. Não é nada de muito definido. É, sobretudo, aquele sentimento de saudade. Por sorte, não é frequente. Mas, até pela raridade, maior a estranheza e intensidade.

Quando o 2020 chegou, pensei que um número tão redondo viesse carregado de coisas especiais. E assim foi mas, infelizmente, quase todas especiais no mau sentido. Perdas, sustos, preocupações. Também coisas boas, claro, mudanças. Mas as perdas e os abalos têm sido violentos.

Nem falo nas perdas pessoais que essas são dolorosas demais para poderem estar aqui mas, depois, há todas as outras.

Lembro-me do dia em que saímos do escritório, despedindo-nos uns dos outros, preocupados, um pouco tristes, sem sabermos quando voltaríamos a ver-nos, sem sabermos o que viria aí. 

As reuniões por teams ou zoom ou hangout atenuaram as distâncias a nível profissional mas há muitas pessoas com quem não tenho relações profissionais directas que não vejo há meses. Todos os dias havia um bom-dia dado por quem estava na recepção, um bom dia, conversas e sorrisos trocados na copa. E havia aquelas pessoas com quem se trocavam ideias, inofensivas fofocas, sugestões. Temos falado mas muito menos, nada que se compare. 

E, pelos anos, juntava-se mais família e parentes e, este ano, foi tudo minimalista ou, mesmo, nulo. Pessoas que este ano nem sequer vou ver. Quando chegava o natal eu tinha fotografias para oferecer a toda a gente, feitas nas vezes em que tínhamos estado juntos. Este ano não devemos encontrar-nos pelo natal e, a muitas pessoas, não terei fotografias para distribuir.

Penso que gostava de convidar algumas pessoas a virem conhecer a nossa casa nova. Gostava de organizar um almoço ou um jantar, todos à volta de uma mesa grande. Agora não podemos. 

No outro dia, no escritório, tive uma reunião com um colega com quem sempre muito conversei. Contei-lhe da casa. Ficou admiradíssimo. Sabia como nós gostávamos tanto da outra casa. Achou uma aventura. Percebi que, ao ver o meu entusiasmo, achou engraçado, deu-me os parabéns, desejou-me as maiores felicidades. E ria, achando divertido esta nossa decisão. E fez muitas perguntas, mostrei-lhe fotografias, percebi que gostaria de vir conhecer. Em situação normal, talvez eu organizasse também uma vinda dele cá, talvez dele e de outros que asseguram sempre um ambiente animado. Agora, não pode ser.

Mas sinto também falta do gosto que tinha em andar pelas livrarias. Toda eu mudei. Sinto agora como que uma certa repulsa pelo acto de consumir. A desabituação está a marcar-me. Vejo as minhas estantes, agora tão bem organizadas, tantos livros por ler -- e não consigo ter vontade de voltar a uma livraria. Quando penso nisto sinto um aperto. Se muito mais pessoas houver como eu é toda a cadeia ligada ao livro que se afunda: escritores, editores, livreiros. Mas a mesma coisa com vestuário. Não faço a mínima ideia de como estão as modas. Tenho roupa que chega e sobra para os próximos anos. Desinteressa-me o consumo. Ir a lojas, provar roupa? Nem pensar. Para quê? Para acumular roupa? Não. E os perfumes? Sinto pena de já não ter a vontade e a oportunidade que antes tinha de me perfumar. Pouco me perfumo. Só quando vou ao escritório. Se me perfumo fora disso já me parece escusado. Recebo mensagens das lojas de perfumes: oferecem pontos, vales, vouchers. Nada me tenta. 

E sinto saudades de ir ao cinema. Ah, isso sinto mesmo. O escurinho do cinema. Não se compara a ver filmes em casa, nada a ver. Tenho muitas saudades de ir ver um filme numa sala de cinema -- de preferência sem pipocas por perto. Há uma emoção, uma envolvência que é especial, para a qual não há sucedâneo. 

Vejo os filmes que estão a ver a luz do dia, não sei quando virão para Portugal mas, ainda que venham, não consigo pensar em enfiar-me numa sala fechada, com ar condicionado cuja qualidade desconheço. Mas como gostaria que a pandemia acabasse e eu pudesse voltar a ir ao cinema. Será que, com o tempo, se isto se prolongar, acabarei por me esquecer do bom que era?

Quando estava em Março ou Abril pensei que, com o confinamento, as pernas da curva haveriam de ser partidas e que, até ao verão, a coisa iria ficando controlada e que, no verão, ao ar livre, a coisa seria suave e, quando o verão acabasse, já deveria haver tratamento eficaz. Não acreditei que houvesse vacina mas acreditei que tratamento haveria. Acreditei mesmo. Ou seja, acreditei que, chegando ao outono, com tanta ciência focada na causa, apesar de uma segunda vaga, a covid já haveria de ser virose da treta. Não imaginei nem que a curva viesse com toda esta força nem que se estivesse ainda tanto na infância da arte. Ainda não se sabe porque ataca tanto uns e nada outros, ainda não se sabe como impedir a progressão fatal em alguns casos, ainda não se sabe a extensão dos danos, ainda não se sabe em que condições reincide. Pouco se sabe. E disto eu não estava à espera.

Estamos ainda no início do Outono, com o Inverno pela frente, tempo de frio e chuva em que não dá para conviver na rua, tempo em que nos locais de trabalho e escolas não dá para estar com as janelas abertas, espaços confinados, propícios ao contágio, tempo, ainda por cima, de gripes e resfriados. E os números a crescerem a partir de uma base que já é alta demais. Não é bom.

Em Março eu pensei: põe-se a malta toda em casa e isto quebra. E quebrou. Mas agora em Outubro todos sabemos o mal que o confinamento geral faz e, por isso, não defendo isso. Mas tem que haver outras medidas. Isso tem que haver. Tem que haver medidas para impedir a disseminação descontrolada do vírus na sociedade, sob pena de nos descobrirmos dentro do pior pesadelo. De notar que, em alguns hospitais, já há equipas clínicas em quarentena, equipas de manutenção de equipamento médico em quarentena, e isso, como é óbvio, reduz a capacidade de resposta. A partir de agora, nada ajuda. 

O lema de todos sempre foi 'esperarmos o melhor, prepararmo-nos para o pior' e, neste momento, temo que que não esteja a ser feito tudo o que há para fazer para nos prepararmos para o pior. Ou melhor: para impedirmos o pior.

E eu não gostaria nada de, daqui por uns meses, estar ainda mais pessimista do que já estou e com mais saudades do que já estou. 

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E adiante que se faz tarde: estes são dois filmes que gostaria de ver. 

Será que, quando chegarem a Portugal, já conseguirei ir, descontraidamente, ao cinema? Tomara, oh céus, tomara.





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Pinturas de Marcella Barceló ao som de Nick Cave interpretando Suzanne de Leonard Cohen

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

sexta-feira, julho 24, 2020

Não temos o tempo todo do mundo





Há pequenos momentos. Por orgulho, eu tinha virado costas a um grande amor. Logo depois tive vontade que as coisas voltassem ao que tinham sido mas, em vez de dar um passo nesse sentido, dei no sentido errado. Acto contínuo, por razões diversas que agora não vêm ao caso, deixei que o amor de uma outra pessoa por mim me proporcionasse aquele agrado que, em querendo uma pessoa iludir-se, pode confundir-se com amor correspondido, nomeadamente correspondido por mim. Eu recebia diárias manifestações de amor e, agradada, deixava que elas me fossem prendendo. No entanto, no mais fundo de mim, eu sabia que não era bem aquilo que eu queria para a minha vida. Mas, na altura, eu não sabia se o que eu intuia que queria para mim alguma vez se materializaria e, portanto, por comodismo ou sei lá porquê, ia-me mantendo naquele romance.


Contudo, havia qualquer coisa nos beijos. Ele adorava os meus beijos, não se cansava de o dizer, escrever e cantar. Mas, sem que eu soubesse traduzir o que sentia em pensamento, muito menos em palavras, qualquer coisa no meu íntimo me impedia de verdadeiramente me entregar, nem sequer enquanto beijava. Eu sentia que uma parte de mim permanecia inexpugnável. Ele não sentia isso nem, na altura, eu sabia que o sentia. Hoje sei que sentia. Com o tempo a gente vai descodificando algumas partes menos compreensíveis da nossa existência.

Até que um dia aconteceu uma coisa.

Estávamos no S. Jorge e sei que era um grande filme. Sempre gostei de belos filmes vistos em boas salas de cinema. Gostava do S. Jorge. Estava concentrada, emocionada. Contudo, a certa altura, ele chegou-se a mim e disse-me que ia lá fora. Não estranhei. Se calhar ia à casa de banho. Contudo, estranhei quando reparei que não voltava. Mas o filme prendia-me. Sair para ir lá fora ver o que se passava parecia-me um desperdício. Mas depois, como tardasse demais, tive mesmo que ir. Estava sentado, num sofá do corredor. Perguntei o que se passava. Disse-me que tinha ficado mal disposto com uma determinada cena. Não percebi. Disse-me que tinha sentido que, se ficasse a ver, poderia desmaiar. Não percebi mesmo nada. Tinha sido uma cena no meio de muitas outras, já não me lembro bem mas tenho ideia que alguém agredia alguém, que havia sangue. Eu estava estupefacta. Um filme tão bom e ele cá fora, sem o querer ver, por causa duma cena violenta. Não quis voltar e eu, aborrecida, fui ver o resto do filme sozinha. Nesse dia, ganhou forma a ideia que se vinha formando dentro de mim. Ele não era para mim. Foi como se tivesse havido a revelação de que eu estava à espera.

A partir daí, de vez em quando lembrava-me disto e uma mancha de desagrado alastrava e anulava todo o amor, ternura e agrados com que me me cobria. Lembro-me que era frequente que, enquanto ele me beijava com paixão, eu sentia que nunca eu entregaria a minha alma e o meu corpo a alguém que não tinha suportado ver uma cena de nada, só porque tinha sangue, e me tinha deixado sozinha a ver um filme tão bom. Jamais seria meu companheiro para a vida.

De facto, foi uma questão de tempo e de circunstâncias. Nunca falei sobre isto com ele nem nunca fui capaz de lhe dizer que, certamente não por sua culpa, ele estava muito aquém do que a minha alma e o meu corpo reconheciam como essencial.

Curiosamente não consigo lembrar-me do filme. Recordo 'A amante do tenente francês' mas não deve ter sido esse, esse não tenho ideia que tivesse cenas mais violentas, só me lembro do amor entre a Meryl Streep e o Jeremy Irons, da voz deles, uma voz tão bonita, do olhar apaixonado entre eles. Não acredito que fosse esse.

Já vivi muitos anos. Tem passado a correr. Sinto-me ainda a mesma jovem que se deleitava e embevecia com tudo, sempre com vontade de rir, sempre disponível para ir em busca de bons momentos. Mas, se me puser a pensar, percebo que a minha vida já pode começar a organizar-se por décadas. Um dia que eu tenha sossego ainda hei-de sentar-me a escrever as minhas recordações, especialmente aquelas de que aqui não posso falar. De forma geral, tem sido tudo bom. É com doçura que as evoco.

Tenho ideia que, salvo talvez o caso referido e algumas concessões a nível profissional que, por forças que mais alto se levantaram, sempre fui muito franca, muito directa na expressão das minhas vontades, sempre fui atrás do que queria, sempre neguei aquilo que não queria, sempre me deixei tocar pela beleza, pela emoção dos bons sentimentos.

Sempre tive muito presente a noção da minha finitude, a certeza de que sou efémera e que tudo o que de bom se relaciona comigo deve ser agarrado com agradecimento e cuidado pois pode desaparecer. Vita brevis. Tempus fugit.

Por isso vos digo: aquilo que queremos, que queremos não à superfície mas no nosso íntimo, deve ser procurado e, uma vez encontrado, preservado e acarinhado. E aquilo que não nasceu para fazer parte da nossa vida deve desaparecer para que se abra o espaço onde a felicidade verdadeira deve poder florescer. Não temos a eternidade pela frente. Temos apenas estes breves instantes em que temos a sorte de poder viver.


O vídeo abaixo, que o omnisciente algoritmo do YouTube hoje me apresentou, pelo que vejo na apresentação de Slyfer2812, resulta de uma compilação de excertos de filmes e respectiva edição de um jovem estudante de vinte anos. Não apenas gostei muito como fiquei surpreendida por um jovem de vinte anos já ter uma percepção tão nítida do que é importante na vida.


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As pinturas que hoje resolveram aqui dar as caras são de Micky Allan e gosto delas

De Nick Cave não vale nem a pena falar: gosto sempre, não sou isenta
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Um dia feliz. Uma vida feliz.

quinta-feira, abril 23, 2020

Carta de amor





Todas as cartas de amor são ridículas? Talvez para quem está de fora. Talvez também para quem está dentro e não queira ver.

         Ofelinha, amorzinho. 

         Bombonzinho. Passarinho. 

Conversinhas pirosas, nicknames que não lembram ao careca, réplicas apatetadas, criancices absurdas. 

Não gosto de ler cartas de amor alheias. Parece-me devassa. Sinto-me a entrar em território estrangeiro, lugar em que apenas os amorosos se sentem em casa, conhecedores de uma língua própria. Não gosto.

Apenas suporto quando a coisa tem um toque de drama ou de graça, de encenação, quando vira teatro ou prosa declamada, quando é outra forma de ser poesia, quando ganha vida própria, eterna, longe da vida demasiado humana que lhes esteve na génese.

Cartas de amor, declaração de amor, confissão sofrida de um amor nunca antes visto, desabafo insensato, coisa assim isso também já não me vejo a escrever. Parece que ganhei aquela dose de vida que já só se compadece com cara a cara.
Talvez agora pudesse ser por videocoisa. Mas a videocoisa já é igual a olho no olho. Tempos novos requerem abertura a novas coisas.
Mas, quero eu dizer, que neste momento já apenas me vejo a verbalizar sentimentos a valer. Escrever: amor do meu coração, não sei viver sem ti, és a minha paixão, a minha razão de viver, coisas assim já não me parece que façam sentido que sejam traduzidas em escrita. Em escrita só se for mais subliminar, mais metafórico, mais virado do avesso, mais como se fosse outra coisa, mais disfarçado de indiferença, de quero lá eu saber.

Mesmo dito não me dá jeito dizer: amo-te. Só se for em momento de brincadeira. Amo-te é muita sílaba muda. Momento a sério não requer tradução em palavra gasta. Muito menos pergunto: amas-me? Não soa bem. Os lábios nem descolam. A-mas-me. É palavra pasmada, sem graça, sem vida. Não corresponde ao que é suposto. Não uso.

E a mesma coisa com receber carta de amor. Se aquele que o meu coração ama me escrevesse uma carta, mail que fosse, com uma conversinha deste género, amada minha, coração da minha alma, o que seria eu sem ti? alimento-me do teu amor, diz que também vives e dormes a pensar em mim, diz que sou o teu amorzinho, diz, minha eterna gatinha, diz, miau, eu ia deitar fora e dizer o tipo é mas é maluco, foge. 

Para mim, carta de amor para tocar o meu coração tinha que vir envolta em coisa rara, em loucura, em desvario, em coisa acima de tudo, em inteligência rara, em requinte intemporal, temperada com apontamentos de ternura, de entrega, de rendição. E tinha que vir escrita de uma maneira que me deixasse louca de espanto. E não deveria ter a palavra amor. Isso eu é que teria que adivinhar. Ora isso talvez já não haja. Portanto, tiro daí a ideia.


Mas, neste canal, eu gosto de ouvir ler carta de amor. Lá está: não sei quem são as pessoas. Poderiam não ter existido ou ser coisa de escritor e sua musa. Poderia ser tudo inventado. Virtual. Um amor virtual mas vintage.

Não conheço Edith Bowman, muito menos sei quem foram os seus avós. Mas gosto de a ver na sua casa a ler uma carta do avô para a avó. Se calhar é porque é dita em inglês e me soa a coisa de novela da BBC, coisa, também ela, vintage e de bom gosto.


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E a carta que aqui vinha partilhar era outra, a de uma pessoa muito triste. Mas de repente pensei que pessoa alegre se calhar não quer ver coisa triste e pessoa triste se calhar também não. Por isso, à última hora desisti. Fiz a agulha. Mas não sei. A gente sabe lá como tocar o coração dos outros. Se calhar a gente toca mesmo sem querer e sem dar por isso ou, outras vezes, quer lá chegar e fica é à porta. Ou ao portão, com os cães a ladrar. Sabemos lá. Eu, pelo menos, não sei.

Sei é que tive um dia excessivamente longo e, até passar da uma da manhã, estava a pensar que não vinha aqui escrever nada. Estava sem nada que dizer. Cansada. E estava à espera de um mail que não chegou. Não seria de amor, seria um mail diferente. E continuo à espera que chegue.

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As pinturas são de Alexander Roslin e parecem-me que fazem um bom pendant com a Love Letter que Nick Cave canta. 
Mas isso, claro, é subjectivo. E tudo o mais também.
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Uma boa quinta-feira. 
Saúde. E força.

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

Quem sou eu?





Nas estatísticas deste blogue, na secção das palavras-chave que trazem as pessoas até aqui, ou seja, o que escrevem nos motores de busca e em que, a partir daí, são remetidas para algumas das minhas páginas, continua a ter lugar de destaque a dúvida que vem desde há anos: 'quem é a autora do blog um jeito manso?'. 

Já fiz vários posts tentando satisfazer essa curiosidade: já pedi ao meu marido e aos meus filhos que falassem de mim, já gravei o meu marido a fazer-me 'entrevistas', já publiquei fotografias minhas feitas por ele, inclusivamente nua, e já me descrevi de diversas maneiras. E, no entanto, pelo que continuo a ver, a curiosidade persiste. 

Dá-me alguma pena isto pois preferia que o blog valesse por si e que quem o escreve fosse assunto de somenos importância para quem o frequenta. Sendo um blog anónimo até poderia ser escrito a quatro mãos ou poderia ser obra de uma equipa que se fosse revezando. Ou poderia ser escrita por um homem a fazer-se passar por mulher ou por uma bibliotecária centenária a fazer-se passar por esta que aqui vos escreve. Mas, enfim, as coisas são o que são e, pelos vistos, a obra parece incompleta a quem a consulta sem que se conheça a autoria.

Portanto, uma vez mais, vou dar o meu melhor na tentativa de me dar a conhecer. E hoje a abordagem é outra, a ver se desta é que que fica claro.


Sendo que se diz que somos o que comemos, vou descrever as minhas refeições típicas durante a semana.

Pequeno almoço

Se tenho mais tempo:
  • Logo em jejum, um copo de água morna com sumo de um limão
Depois tomo banho e etc. Só a seguir tomo o pequeno-almoço propriamente dito:
  • Num prato junto uma mão cheia de salada (alface, canónigo, cenoura ralada, etc, o que houver), um ovo cozido às rodelas, uma beterraba pequena ou parte de uma maior, cozida, uma banana e uma laranja devidamente cortadas. Tempero com orégãos em folhinha seca, um pouco de mel e azeite. 
Se não tenho tempo:
  • De véspera, numa tacinha ponho água e um bocado de flocos de aveia. Levo ao micro-ondas durante dois minutos. Na manhã seguinte, junto uma banana cortada aos bocados, alguns cajus secos, uvas (o que houver à mão).
Depois, tenha ou não tempo, bebo um nespresso, longo e forte, sem açúcar.

Durante a manhã
  • Durante a manhã, habitualmente bebo uma um duas chávenas de infusão do que calhar (cidreira, lúcia-lima, etc.).

Almoço
  • Durante a semana, almoço sempre 'fora' e, obviamente, tento variar. Gosto de ir a restaurantes indianos e aí não dispenso uma chamuça de frango, um pão naan com queijo, depois pode ser borrego com especiarias ou com frutos secos ou com outra coisa qualquer e que pode acompanhar com basmati simples ou couscous. Mas também pode ser uma salada de quinoa com peixe cru, edamame, alface, rúcula e algas. Ou uma empada de salmão fresco acompanhada com puré de legumes e alcachofras. Ou coisas assim. Pode acontecer que também seja cozido à portuguesa. Por norma, não como sobremesa. E por norma acompanho com água das pedras fria, por vezes com gelo e limão.

Lanche
  • Se tenho fome, como alguns miolos de amêndoa. É o meu snack que me faz sentir gulosa, tanto que gosto.

Jantar
  • Sempre sopa. A que hoje comi -- e que é ainda a que fiz no domingo à noite -- levou cebola, cenoura, abóbora, nabo, courgette, chuchu e uma maçã (sem caroços mas com casca). No fim, juntei azeite, moí e juntei espinafres cozidos brevemente.
  • A seguir, qualquer coisa, carne ou peixe, acompanhada apenas por salada. 
  • Depois fruta. Agora tem sido meio dióspiro daqueles grandes (daqueles rijinhos mas maduros, dos que não deixam a boca áspera -- e nada de interpretações enviesados) que corto às rodelas. E aqui é que começa a minha perdição. Em cima de cada rodela ponho uma fatia fininha de queijo e polvilho com canela. Hoje abusei pois, em vez de emental ou flamengo, coloquei ricota. Fica delicioso: dióspiro, madurinho, docinho, e ricota com canela. Mnham-mnham. 
  • Por fim, estrago ainda mais a dieta: um ou dois quadrados de chocolate preto e, ao mesmo tempo, dois ou três cubos de gengibre cristalizado (compro no pingo-doce uns saquinhos com cubos bem definidos; os do auchan são uns cubinhos ínfimos que, ou meto uma mão cheia deles na boca ao mesmo tempo, ou a sensação fica muito aquém).
Durante a semana, habitualmente não bebo chá (melhor: uma infusão) à noite, enquanto aqui estou. 


Agora alguém que tire a bissectriz a isto e descubra a matéria de que sou feita. E, escuso de dizer, a minha doçura tem a explicação simples que se viu. E a barriguinha à Rubens que me enfeita também.

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E se daqui se tira a matéria, há depois o alimento que mantém o espírito e aí o que tenho a dizer é que, nesta vertente, também não há grandes novidades: durante o dia, quando não estou a trabalhar, há música variada, há espreitadelas ao Guardian, há espreitadelas a outros blogues, há espreitadelas a livrarias, há espreitadelas a perfumarias, há condução pela cidade, há momentos de pensamentos à solta, à espreitadelas pela janela. E há olhar o rio quando me levanto e olhar as árvores sempre que posso e olhar as pessoas.

E pensar nas coisas. E nas pessoas. E nos caminhos que tento adivinhar.

E há os mistérios das coisas. E das pessoas. E de tudo. Dos acasos, do devir. Dos deuses que adivinho disfarçados de tempo, de ar, de mar, de árvore. De presenças imateriais e longínquas. Mistérios que me esforço por não desvendar.

E há a poesia que leio e ouço sempre que posso e na qual penso e que me norteia e conduz. E que tento não compreender para não me perder da melodia silenciosa das suas palavras.


E há, aqui à noite, o desdobramento de mim. E o alimento, neste caso, é o perfumado pot pourri composto pelo que calha mas que tem que ser sempre de paz (espreitar um ou outro livro, ver fotografias, ver vídeos, ler com mais calma alguns blogues, voltar a espreitar as notícias, olhar de soslaio a televisão, ler os mails ou os comentários do blog, escrever estas coisas que se alimentam não sei de quê e que servem também não sei para quê mas que, estranhamente, me alimentam a alma)

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E agora, uma vez mais, vou chamar por todos os anjos não apenas para me garantirem uma noite descansada como para vos protegerem

Santa Maria, Santa Teresa, Santa Anna, Santa Susannah
Santa Cecilia, Santa Copelia, Santa Domenica, Mary Angelica
Frater Achad, Frater Pietro, Julianus, Petronilla
Santa, Santos, Miroslaw, Vladimir and all the rest


As quatro primeiras fotografias que usei são de Nick Knight e as duas são de Uldus Bakhtiozin. Aos muito distraídos, informo que nenhuma das retratadas sou eu. A primeira é Sky Ferreira, que não sei quem é, e a segunda desconheço. A música escolhida faz parte da banda sonora de Until the end of the world. 


Flores para todos como agradecimento pela vossa presença aí desse lado.

E um dia feliz.

domingo, fevereiro 03, 2019

E o que é um tomate roxo?
[E isto para não me alongar com a auditoria à CGD, com aquelas denúncias de cenas que se passam nas autarquias PCP, com a baderna que para ali vai na Venezuela, com a extraordinária Elizabeth Holmes, com a criminosa greve dos enfermeiros ou, mesmo, com as minhas andanças nocturnas in heaven, preferindo, com a vossa licença, deleitar-me com Jane Goodall]
-- E sim, um ponto verde no canto da sala é uma ervilha de castigo --




Claro que, na volta, eu devia era falar dos créditos e das imparidades da Cixa Geral de Depósitos. Mas, para falar disso, porque não falar tambem das do BPN, do BES, do Banif, do BCP, etc? Que disso, upa, upa, há por todo o lado e, de uma forma ou de outra, todos temos tido que lá meter dinheiro. E não que com isso esteja eu a querer branqear a coisa. Zero. Não. Mas há os créditos dados a ver se se salva uma fábrica, uma actividade que conjunturalmente está a passar um mau bocado e há os dados por vã ambição, ganância, mania das grandezas. Quem, ignorantemente, ponha tudo no mesmo saco vai por mau caminho. A avaliação técnica de um crédito tem mil e uma vertentes e não é num comentário apressado que se pode tecer opinião. 

Por isso, passo adiante.


Também podia falar da avalancha de notícias sobre os compadrios nas autarquias geridas pelo PCP. Não atiro pedras e não porque ache que o PCP não tem telhados de vidro mas porque prefiro ter a certeza da veracidade de tudo o que está a aparecer. É que há tal coincidência nas pedradas que a coisa parece orquestrada e eu de orquestrações prefiro as musicais. A ter havido abuso de confiança, uso e abuso de recursos autárquicos para fins partidários, dolo na gestão de dinheiros públicos ou infracção de regras claro que acharei mal e que defenderei que não estejam, como ninguém pode estar, acima da leia. Mas, até que para mim esteja claro o que se está a passar e se há fundamento nas denúncias, manter-me-ei expectante e de bico calado.

Sobre a Venezuela é diferente: não quero cá saber do nome que os próprios dão às coisas como se o nome fosse rótulo que garante imunitade. República bolivariana o escambau. Um atraso de vida é o que é. Há populistas, parvalhões e abusadores para todos os gostos e este Maduro é um deles. Que a Venezuela está entregue à bicharada é inegável e o PCP mostra que tem um cordel agarrado ao pé e às ideias quando não é capaz de se desdogmatizar para apreciar as coisas como elas são. Não faço ideia de qual é a do tal de Guaidó pelo que, às cegas e sem o conhecer, custa-me defendê-lo. Nem sei como ficará a Venezuela depois de correrem com aquele parvalhão, prepotente e atraso de vida que é o Maduro mas sei que alguma coisa tem que ser feita. Um país daqueles não pode estar naquela penúria, naquela regressão, naquela indigência a todos os níveis. Mas falta-me competência -- e disposição -- para me pôr para aqui agora a dissertar sobre tema tão sério.

E digo-vos uma coisa: não fora este meu mau hábito de apenas me dedicar ao blog quando a noite vai alta e a minha energia escasseia, aquilo de que eu falaria mesmo seria de Elizabeth Holmes, 35 anos, aquela a quem se augurou ser a próxima Steve Jobs, ex-CEO de uma brutalmente valiosa empresa. E se emprego o qualificativo brutalmente é porque tudo aquilo era uma fraude. Mais um caso em que o mundo ilustrou a célebre doença da cegueira injustificável. Uma história fantástica a que prestaremos atenção quando o filme que já está por aí a rebentar com Jennifer Lawrence aparecer. Agora que é apenas uma história real, não queremos saber. E, no entanto, apesar de não conhecer Elizabeth, juraria que consigo adivinhar como é que aqui se chegou. E adivinho não porque detenha dotes divinatórios mas porque já vi uma história assim. E é tudo tão inacreditável e a cegueira colectiva tão difícil de compreender que não me espanto ao ver como a fantástica e valiosa empresa Theranos se despenhou tão facilmente.


Mas não falo de Elizabeth, hoje não me apetece -- até para não fazer associações a coisas de que nem é bom falar.

E há a criminosa greve dita cirúrgica dos enfermeiros mas acho-a tão aviltante para quem trabalha na área da saúde que, só de pensar nisso, sinto vergonha alheia. Só espero que a justiça arranje maneira de pôr um ponto final na actuação degradante daquela gente que deveríamos respeitar mas que, com o que andam a fazer, só nos fazem sentir repulsa e medo de algum dia virmos a ser vítimas de gente tão perigosa. Passo adiante para não me sentir agoniada.

E, portanto, estando numa de passar ao largo de tudo o que é assunto, poderia limitar-me a contar como andámos até ser noite enfiados no meio das árvores a podá-las, a desramá-las, a dar fim a pés bastardos. Podia contar como os nossos olhos se vão habituando à visão nocturna, como, depois de pensarmos que não vamos conseguir ver nada e que o melhor é ir para casa, nos vai sabendo bem perceber que afinal nos orientamos, como o que sobra de luz  -- e que não sei se era algum vislumbre de luar, se uma réstea de luminosidade de alguma estrela longínqua ou de quê -- é suficiente para ali continuarmos a serrar, a cortar. Ou poderia, ainda, limitar-me a contar como o ar foi ficando cada vez mais frio, como há sons que esperam pela noite para aparecer. E o cheiro das árvores e da terra acentuado pela frialdade nocturna, como é bom.


Mas nem para isso me está a dar para falar. Enquanto escrevo, estou a ver e ouvir Jane Goodall, uma maravilhosa jovem de 84 anos que ama a natureza, que é indomável e que sorri enquanto fala.


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E, assim sendo, volto a perguntar: o que é um tomate roxo?

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[As imagens mostram a exposição Until de Nick Cave]