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terça-feira, dezembro 01, 2020

Uma mulher feliz
[Life isn't about finding yourself, life is about creating yourself]

 


Conheço uma pessoa, muito boa pessoa, daquelas pessoas discretas de que quase ninguém se apercebe. Ela conhece-me a mim há mais tempo do que a conheço a ela. Quando me foi apresentada, disse-me que já me conhecia há uns anos, que eu frequentava um lugar onde ela costumava estar. Não tinha ideia. Eu ia de visita: para mim, tirando a pessoa que eu ia visitar, todos os outros eram desconhecidos. Para quem lá estava, eu era a que vinha de fora para ter reuniões com o Big Boss, o Senhor Doutor. 

Simpatizei logo com ela. A minha filha, quando a conheceu, dizia que parecia saída dos anos oitenta. Sim, parecia. Um ar antiquado: a roupa, o cabelo, a armação dos óculos. Parecia que tinha cristalizado no tempo. Mas dizia-me também: 'É tão querida. Daquelas pessoas mesmo queridas.'. E era. 

Durante algum tempo pensei que era daquelas mulheres que vivem para o trabalho. Trabalhava horas a fio. Por mais complexo que fosse o trabalho que alguém lhe entregasse, o trabalho aparecia feito e bem feito. E isso orgulhava-a tanto que parecia mesmo que se alimentava desses seus sucessos em que ninguém reparava ou agradecia. 

Rapidamente me tomou como sua confidente. Queixava-se, com alguma tristeza, mas parecia uma tristeza conformada, que exigiam, exigiam, sem quererem saber do trabalho que dava e sem quererem saber do que tinha que sacrificar para cumprir. Mas que, apesar disso, cumpria e sempre cumpriria, assegurava com orgulho. 

Quanto melhor a conhecia mais a admirava. E olhando-a, sempre com aquele seu ar um bocado fora de moda, eu pensava que, a trabalhar como trabalhava, era natural que não tivesse tempo para andar às compras ou a embonecar-se.

De vez em quando levava pão de ló com doce de ovos, feito por ela, que distribuía. Ou bôla de carnes, deliciosa. Pelo Natal, fritos de Natal. Massa folhada com recheio de noz, pastel de massa tenra com receheio de abóbora. Tudo feito em casa. Quando eu me espantava, descrevia, com simplicidade, as receitas. Faz-se uma calda, quando estiver em fio, mistura uma a uma, mas tem que mexer bem .... Contava com todos os preceitos. Parecia ter tempo para tudo. 

Um dia, para meu espanto, percebi que, afinal, tinha uma família, marido, filhos. Conseguia dar conta de tudo. Sem carta de condução, gastava horas em transportes públicos. Nunca consegui perceber como conseguia trabalhar tanto, gastar tanto tempo em transportes, muitas vezes despachar processos em casa e, ainda assim, tratar da casa, dos filhos adolescentes, fazer bolos e outras iguarias.

Depois adoeceu. Esteve mal. Chegou a ter que fazer transfusões. Um grande susto. Quando andou a fazer os tratamentos subsequentes, ficou algum tempo de baixa mas depois quis ir trabalhar. Lembro-me que, muitas vezes, nessa altura, depois dos tratamentos, ao chegar, tinha que se deitar num canto que preparou com um cadeirão antigo e uma cadeira, a fazerem de cama. Mas sempre com aquele seu ar simples, sorridente, nunca pessimista. A admiração que tinha por ela aumentou. Parecia eu mais preocupada que ela. Isto passa..., dizia ela.

E felizmente passou. 

Mas decorria depois algum tempo durante o qual eu, também sempre atarefada, pouco a via e em que, para falar verdade, quase me esquecia dela. 

Um dia vi-a com semblante fechado, coisa rara nela. Perguntei-lhe. Contou-me que estava preocupada com a mãe. Que tinha sabido recentemente que a mãe andava sem apetite há algum tempo, com a sensação de não conseguir engolir. Exames feitos, coisa má, adiantada demais. Contava isto e a boca secava-se-lhe, a garganta estrangulada. O medo bem visível. Uma médica dizia que a mãe tinha que ser operada de urgência, outra dizia que já não se ia a tempo. Até já tinha ido a um médico naturista. Estava desesperada. Acompanhei-a e ajudei-a como pude, triste porque, afinal, já nada havia mesmo a fazer. E levei-a ao hospital e fui lá buscá-la, sempre que me foi possível. Acompanhei-a na aflição. O sofrimento de ver a mãe a esvaziar-se de vida, sem qualquer esperança. Por fim, não se alimentava de todo, emagreceu muito, perdeu o andar. Ainda foi a casa pelos anos, sabendo que seria a última vez que estava em casa. Regressou ao hospital para atenuar o sofrimento e ela tentava conter o soluço de tristeza ao contar-me isso. Que tiveram que levá-la ao colo, um corpinho de menina, dizia ela. Ligou-me uns dias depois, era feriado. A mãe tinha morrido. Daqueles telefonemas que a gente nem sabe bem o que dizer. Acabou a agradecer-me. E eu nem quis ouvir tal coisa. Agradecer o quê?

Por precaução, o médico quis que ela própria fizesse um exame, é daqueles casos em que a hereditariedade conta. Infelizmente, o exame deu positivo. Encarou com naturalidade, disse que já estava à espera: o tio, irmão da mãe, tinha morrido da mesma coisa. Teve que se submeter a uma cirurgia. Falava disso sem dramatismo, quase sem preocupação. Pelo meio mostrava-se apreensiva com o trabalho que tinha em mãos e que ia atrasar-se, com os filhos, o marido a ter que se sacrificar. E eu ouvia e pensava: se fosse comigo, ficaria paralisada de medo. Ela não, falava como se fosse apenas mais uma tarefa a cumprir. E a verdade é que voltou a ficar bem. A sorrir, sempre optimista em relação a tudo.

Um dia, encontrei-a numa azáfama, apressada, tinha que ir a casa do pai, estava arreliada, atendia telefonemas, disse que depois me explicava. Perguntei se precisava de boleia. Que não, que o taxi devia estar a chegar. 

Contou-me no dia seguinte. O pai tinha uma empregada que ela achava muito suspeita, achava que era mais do que apenas empregada. O pai andava a levantar muito dinheiro, não queria lá a filha, tudo muito estranho. Um dia que ela tinha manifestado preocupação, tinha-se virado, furioso, e perguntado: 'Não posso gastar o que é meu? Porquê? Queres todo para ti?'. Ofendida, não voltou a dizer nada. E naquele dia, o pai que tinha tido que ir à terra, ao regressar a casa, tinha encontrado a porta escancarada, a casa quase vazia, nem televisão, nem os melhores móveis, nem o dinheiro e até os caixilhos das janelas tinham levado. O pai tinha-se sentido mal ao ver aquilo, tinha-lhe ligado e tinha-lhe pedido para ir ter com ele. 

Entretanto, ela e o marido foram com o pai à polícia. Disseram que iam investigar mas não se mostraram surpreendidos: velhos, viúvos, com algum dinheiro são presa fácil. Ah, e, claro, ninguém sabia da empregada.

O pai teve que ir para casa dela. Foram tempos difíceis, o pai com um feitio complicado. Contou-me que a mãe sofreu muito com ele, que ele só foi bom para a mulher quando soube que ela estava a morrer. As coisas que ele lhe fez, nem quero pensar, muitas lágrimas ela chorou. Coitadinha da minha mãe. Tentava conter as lágrimas enquanto me contava isso. 

Ao fim de pouco tempo, obras feitas, o pai regressou a casa e ela voltou à mesma alegria discreta. Dizia que tinha recuperado a intimidade da vida em família, que o pai sempre haveria de ser para ela um estranho. E já descontraída, contava-me dos filhos, contava-me de receitas novas. Depois, uma vez levou uma peça de cerâmica. Tinha adquirido um forno, estava toda orgulhosa. O marido tinha-lhe transformado a garagem num estúdio para os seus trabalhos de cerâmica. Usava termos técnicos para se referir ao forno e às técnicas que usava para modelar, para pintar - mas agora não me lembro deles. Contou que antes já o praticava mas que tinha que ir pôr as peças num forno colectivo. Fiquei espantada: ainda tinha tempo para isso? Claro que tinha, dizia ela. Sempre tranquila, sempre feliz. Trabalhando até mais não poder, noitadas que os outros davam como adquiridas e depois, não sei como, ainda lhe sobrava tempo para os seus hobbies. Pelo meio, lamentava que não a valorizassem e, ao mesmo tempo, lhe atirassem para os braços trabalhos tão complexos, demorados, e, sobretudo, sempre tão em cima da hora. Mas, minutos depois, já me falava dos filhos, e, toda orgulhosa, anunciava que ia ser avó.

Recentemente, sem se fazer anunciar, mais uma má notícia, mais um susto. Um grande susto. Um enfarte. Hospitalizada, algumas sequelas. Comentávamos: coitada, tudo lhe acontece. E, no entanto, há-de aí aparecer como se não fosse nada com ela.

E assim foi. Para surpresa geral, ao fim de duas ou três semanas, nem sei, ei-la de volta. Cansando-se ao falar, cansando-se a andar, mais magra, mal encarada. Isto passa, descansava-nos ela. E a verdade é que, dias depois, quando a vi, nem queria acreditar. Digo dias mas, se calhar, foram semanas. Não sei. Apareceu com um outro corte de cabelo, outra cor. De facto, bem mais magra, jeans, blusa justa. Parecia filha da outra. Toda sorridente, explicou: O médico disse que tinha que fazer dieta, fazer mais exercício. E apeteceu-me uma vida nova.  Já não trabalho tanto. Vou mais cedo para casa. Todos os dias vou fazer uma caminhada. Está na altura de pensar em mim'. Toda orgulhosa e feliz. Eu olhava para ela e parecia-me outra. 'E já vem outro a caminho, imagine'. Um segundo neto. A vida não para. Toda contente. Perguntei-lhe pelo pai. Riu: 'Já não quero saber. Anda outra vez de namorada nova. No outro dia fui lá a casa, estava uma a sair que não enganava ninguém. Sempre foi disso que ele gostou. Há-de acabar depenado. Deixa-o, é o que quer, quem sou eu para impedir?'. Nem mais, concordei. Leve, leve, ela. Ajeitou a bolsa a tiracolo, um livro na mão. Ar de teenager que vai à descoberta do futuro. Vou mais cedo, dá para ler nos transportes.

Já não a vejo há muitos meses. Não sei se voltarei a vê-la. Mas há-de estar sempre optimista, sempre feliz. A ver se, da próxima vez, sou eu que lhe ligo.



Fotografias cá de casa ao som do Amalgamation Choir que hoje a conversa é no feminino

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E tenham um bom dia feriado.
And be happy