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segunda-feira, abril 12, 2021

Um dia luminoso

 


Dia muito bom, dia de reunião de família. O menino do meio fez dez anos no outro dia mas, nesse dia, não se podia circular. Reunimo-nos este domingo na praia. Cantámos os parabéns a você com algum vento à mistura. Felizmente a areia não andava demasiado pelos ares.

De manhã fomos buscar a minha mãe. Apesar de estar vacinada, usa máscara: a vacina, tanto quanto sei, evita doença grave mas não evita que uma pessoa vacinada seja contagiada e contagiante. Portanto, usa ela e usamos nós. Em casa, mantivemos as janelas abertas e almoçámos na mesa grande, nós numa ponta, a minha mãe na outra. Por nós e por ela, achámos que deveríamos manter-nos cautelosos. 

Depois de almoço fomos, então, para a praia, ter com os mais novos que já brincavam e jogavam uns com os outros, felizes da vida por estarem juntos. Para nós, havia panos grandes para nos sentarmos em cima mas, para a minha mãe, levei uma cadeira destas aqui do jardim, uma meia espreguiçadeira levezinha. Isto merece ser registado porque, quando vamos para a praia, somos todos minimalistas e, desta vez, dia de festa em tempos covid, até uma geleira levámos. A minha mãe, que fez dois bolos, levou também um saco térmico. Portanto, foi um filme. Geleira e cadeira. Só faltou um chapéu de sol. Aliás, quando viu o sol a descobrir, quando estávamos quase a chegar, a minha mãe disse isso: se calhar eles também não trouxeram uma sombrinha. Claro que não. Nem devem ter. O que lhe valeu foi que tinha vindo prevenida com um chapéu de palha de aba larga, uma verdadeira capeline. De resto, concluiu que a ver se as lojas abrem para ver se arranja um chapéu mais apropriado a sol com vento, talvez um de pano.

Quanto, ao repasto: juntámos os salgados, os doces e os sumos e fez-se a festa assim mesmo. Não exactamente um déjeuner sur l'herbe mas um lanche sobre a areia.

A dada altura estava a olhar para eles, para todos, feliz da vida por estarmos juntos, diz o mais pequeno: tira uma foto. Com o vento e a algazarra deles, nem percebi. Ele repetiu: tira uma foto. Imagine-se, pois, o estado de enlevo em que eu estava para ter que ser o mais novo a chamar-me a atenção para que o momento requeria uma fotografia.

Claro que, em condições normais, da praia viríamos todos para cá. Mas não é prudente, os miúdos andam sempre em cima uns dos outros, entrariam em casa. Espaços fechados, ajuntamentos: ainda não é uma boa ideia. Mas foi o que se pôde arranjar: a gente habitua-se às circunstâncias. Estivemos juntos, bem dispostos, animados. Claro que fiz de tudo para matar saudades deles, abracei-os pelas costas, beijei-os na nuca ou na cabeça ou nas costas, mesmo que com a máscara. Limitações, limitações. De vez em quando ouvia chamar por mim. Era algum dos crescidos a chamar-me a atenção, 'Atenção à Covid!'. O meu filho, então, cada vez que me vê agarrada aos seus dois filhos rapazinhos, diz: 'Cuidado, estão cheios de covid'. A menina usa máscara, é mais cuidadosa. Como os mais novos na escola não têm que usar máscara, é verdade: nunca se sabe. Mas, podendo parecer que não, acho que até sou cuidadosa.

Depois de termos estado a tirar ainda mais fotografias no parque de estacionamento, despedimo-nos. A minha mãe veio para minha casa. 

Era para fazermos o IRS dela mas, afinal, tinha-se esquecido de trazer as passwords. Estive a tirar dúvidas do mail, de como pesquisar mails, etc. E estive outra vez a ensiná-la a tirar fotografias e a partilhá-las por mensagem ou por mail. Mas, cá para mim, amanhã já vai outra vez estar sem saber bem e com receio de se aventurar. Por mais que lhe diga que ouse, que não tenha medo, está sempre com medo de fazer estrago, seja no telemóvel, no tablet, no correio, nas mensagens. Receia apagar indevidamente, estragar, meter-se em trabalhos. Medos, medos. Por isso as crianças aprendem tudo tão facilmente: não têm medo de nada.

E andámos a ver as rosas: ela também nunca viu isto. Rosas do mesmo pé de rosa que ora nascem amarelas, ora cor-de-rosa, cor-de-salmão ou cor-de-laranja. Escandalosas de tão belas e únicas.

Ao fim do dia, fomos levá-la. Ia feliz da vida, dizia que os dias assim grandes são uma alegria. No carro, fomos falando nos meninos, nos pequenos, nos grandes. Tínhamos ido para a mesma praia para onde ela e o meu pai iam com os meus filhos quando eram pequenos. 

Gostou de ter ido. E os meus filhos também ficaram contentes por estar na praia com a avó. Há muitos anos que ela não vinha à praia: se o meu pai não podia ir, ela também não ia, ficava com ele. E agora estava ali, anos depois, já não apenas com os netos mas já com a família que os netos formaram. Uma alegria para todos. Um dia luminoso.


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As rosas são cá de casa e acompanham Anoushka Shankar & Norah Jones em Traces Of You

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Desejo-vos uma boa semana

domingo, julho 17, 2016

O homem que viu o infinito




Há coisas difíceis de explicar. Se alguém souber explicar porque é que se sente atraído por outra pessoa, ou porque é que se emociona ao ouvir uma determinada música, ou porque é que fica tomado por dentro (como se o próprio corpo de rarefizesse) perante uma pintura, ou porque é que fica quase em êxtase perante uma certa paisagem, ou porque é que se sente tão estranhamente sereno dentro de uma qualquer igreja é porque nada do que sentiu foi desmedido, único.

A mim, que sou de sensações intensas, de emoções fáceis, extrovertida na manifestação dos meus sentimentos e pensamentos, acontece-me, por vezes, passar por situações extremas em que não há racionalidade, não há explicação, não há nada que possa ser traduzido por palavras normais ou lógicas comuns.

Com o tempo fui-me habituando a não tentar explicar algumas coisas. Sinto que para elas não há explicação ou que, a haver, ela não é deste mundo (e, sendo eu um ser racional e nada dado a esoterismos, quero, com isto, dizer que admito que há tanto por saber e descobrir que forçosamente algumas explicações pertencem ao conjunto de saberes que o futuro desvendará).

Acontece-me, por vezes, saber, de certeza absoluta, coisas que não tenho como explicar. Trabalhei com pessoas que acreditavam na minha intuição mas trabalhei também com um que é o meu oposto, um que tem que ver a explicação de a a z para poder aceitar a conclusão do que quer que seja. Eu a dizer-lhe que se devia fazer uma coisa qualquer porque a minha intuição assim o diz e ele, armado em meu educador, a explicar-me que as coisas não funcionam assim, que não podemos guiar-nos pela intuição mas pela lógica demonstrável. Um sofrimento para mim ter que lidar com pessoas assim.

Sempre fui muito de chegar à conclusão sem saber ou sem me interessar conhecer os passos intermédios. Quando estudava, acontecia ter a sensação de estar a responder ao acaso e, até, verdadeiramente incapaz de o fazer da maneira usual, passo a passo. 

E acontece-me também em relação a algumas pessoas: pode uma pessoa parecer o maior anormal, o maior traste, um ser detestável e, no entanto, vá lá eu ser capaz de explicar porquê, eu ver ali uma pessoa boa, uma pessoa de quem tenho vontade de me aproximar.

Ou o oposto: toda a gente estar embevecida perante um qualquer alguém e eu olhar e ver ali um oportunista, um saco cheio de nada. E não ser capaz de explicar porque acho isso. 

Ou uma obra de arte: emocionar-me perante ela como se estivesse perante um anjo e toda a gente olhar incrédula sem ver ali ponta de graça. E eu incapaz de explicar o efeito de tal absoluta rendição.

Da matemática, esta atração, esta verdadeira atracção. Nem por isto ou por aquilo em especial. Mais pela estética da lógica subjacente ao seu entendimento, pela suprema beleza dos conceitos em abstracto.
E já esquecida de tudo, incapaz de trabalhar com logaritmos ou de fazer integrais, longe, longe de tudo isso, como se nunca tivesse sabido.
E, no entanto, ainda a sensação de perplexidade amorosa perante uma construção abstracta, elegante, de uma beleza impoluta. Um fascínio para mim, a matemática. Mesmo que não compreenda. Ou melhor, especialmente se não compreender.

E a memória do desagrado das aulas, das colegas muito estudiosas, dos professores burocratas, dos exercícios repetitivos. Tudo parecia conspirar contra uma beleza que se queria poética, luminosa, inexplicável porque muito pura, divina. 

E a memória da sensação aguda de vórtice, de atracção para um momento de extremo prazer quando a mente era conduzida para a evidência de uma realidade abstracta de rara beleza, uma teoria, a demonstração de que não há realidades complexas mas apenas realidades que ainda não atingiram o estado da perfeição que é sempre sinónimo de simplicidade.

Acontecia-me ir quase em transe, arrepiada, desbravando so caminhos da minha própria mente. Resolver equações, fascínio grande. Começar com elas bem complexas, cheias de indecifráveis enigmas e olhar e começar a ver a aresta onde a lâminha afiada do desbaste iria começar a poda e, aos poucos, a singeleza da evidência a aparecer, a convidar à descoberta final.  A solução. 

Ou um problema complexo com mil restrições, mil variáveis, mil constantes, insolúvel, para esquecer. E eu, com a calma dos perdadores, começar a sentir o nervo do problema, o latejar da resistência, mas prosseguir com a frieza de quem sabe que vai conseguir e, como que por magia, começar a descobrir entropias, a detectar redundâncias, a desmontar falsidades, a acabar com elas, e desbastar, desbastar e, por fim, já o sol a despontar por detrás de um horizonte límpido e encontrar a solução e sempre uma solução tão simples, tão elegantemente simples.


Ou encontrar padrões, testá-los, validá-los, modelizar a vida, reproduzi-la, vê-la na sua essência, simples, bela, quase reprodutível.

E o desconhecido para o qual caminhamos e de onde viémos, o mais e o menos infinito, esses territórios habitado por números imaginários, e que explicam o que não existe, a anti-matéria, os buracos negros que sugam a matéria e de onde se evola uma música subtil, sinuosa e imaterial.

Por isso, ao saber deste filme, O homem que viu o infinito, para ele acorri sem hesitar. Baseado na história verídica do matemático autodidacta Srinivasa Ramanujan, o filme é uma maravilha para quem gosta da matemática daquela forma inexplicável com que se gosta de uma poesia, de uma flor, de uma outra pessoa.


Muito belo, muito belo. Muito comovente. Por diversas vezes chorei. O meu marido, no fim, admirou-se, diz que estou cada vez mais maluca, que não havia ali nada para se chorar. Mas havia. Momentos tristes, para chorar, e momentos emocionantes, que me deram vontade de chorar. Ou que me arrepiaram. 

E Jeremy Irons no papel do matemático G.H. Hardy, o amigo que não sabe perceber os afectos, o protector que sabe disinguir o génio, magnífico, aquela voz, aquela contenção, aquela arte que parece coisa espontânea.

O HOMEM QUE VIU O INFINITO - Trailer Oficial Legendado (Portugal)




Uma benção para quem ama a matemática, este filme caído do céu.

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As imagens que usei mostram diversas formas, em diferentes épocas, de arte indiana.
Lá em cima, Anoushka Shankar interpreta, com Alev Lenz, Land Of Gold.

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E, caso vos apeteça ver as fotografias do calor in heaven, queiram, por favor, descer até ao post já a seguir.

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