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quarta-feira, abril 28, 2021

Os invisíveis

 

Na rua em que eu vivia apareceu um jovem com bom ar que ajudava os condutores a arrumarem os carros. Os lugares eram largos, não havia dificuldade. Ninguém precisava de ajuda. No fim pedia uma moeda. Nunca lhe dei. Uma vez enchi-me de coragem e disse-lhe que ele deveria ir ao centro de saúde pedir ajuda, que não deveria habituar-se a uma vida assim, que seria aconselhado e teria tratamento. Ficou estupefacto a olhar para mim. Nunca mais me estendeu a mão. Contudo, sempre fiquei na dúvida. Será que dizer isto a uma pessoa que vive de esmolas faz sentido? Era alcoólico. Andava sempre embriagado e com uma garrafa de cerveja na mão. Não sei se também se drogava. Mas deveria ter também a sua dignidade. E não sei se o que eu lhe disse lhe soou a uma vontade de ajudar ou a uma ingerência escusada.

Depois deixou de aparecer. E voltou a aparecer, cada vez mais debilitado, mais aos tombos. Depois desapareceu. Depois voltou a aparecer à porta de um supermercado, o cabelo a escassear, o rosto a mostrar a erosão dos excessos, sentado, encostado a uma parede, o boné no chão para recolher esmolas. 

Não imagino o que seja o sofrimento de uma mãe que tenha um filho que leva uma vida de autodestruição, que viva aos tombos, aos caídos. Não consigo imaginar.

Uma vez vi-o a sair de uns escombros. Ele e uma mulher escanzelada, cabelo quase rapado, sem dentes, com aspecto de ser mais velha que ele. Mas não se sabe. A rua estraga a saúde, envelhece. Ambos aos tombos. Iam a andar à pressa, como que a querer fugir mas tropeçando, quase caindo, um esperando pelo outro. Uma tragédia. Provavelmente viviam ali. Nunca me passaria pela cabeça que ali, por entre ruínas, pudesse viver outro ser vivo que não gatos ou pombos. 

Mas viver sem tecto não é apenas o destino de quem se vê à mercê de vícios, incapaz de uma vida entre família. Distúrbios mentais, pouca sorte, acasos, falta de chão quando a vida prega uma rasteira, desgostos destruidores, ausência de um amparo no momento em que ele mais é preciso -- tantas razões.

São os invisíveis. Os indesejados. O incómodo a céu aberto. Podemos vê-los sob os viadutos da cidade, em casas improvisadas com cartões, podemos adivinhá-los quando vemos cobertores, sacos, em alpendres ou escadas. De noite acolhem-se e, antes que o dia amanheça, desaparecem sabe-se lá para onde. Invisíveis.

Gente como nós.

Michael

Feliz. Perdeu os dois filhos. Perdeu o irmão. Tem um cancro em fase avançada. Sorri e diz-se feliz.


Michelle

Diz que o ex-marido é um homem rico. Vive na rua. Teve AVC´s. Diz que vai levantar-se.


Dakota tem 29 anos. Saiu de uma relação abusiva. Quando saiu de casa, o marido deu os filhos para adopção. Sente muita falta dos filhos.


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Desejo-vos um dia feliz

sexta-feira, julho 13, 2018

Coitado do Juncker... Bebedeira...? Não, que ideia. Estava era mesmo aflito da ciática...
O que lhe valeu foi a mão que o nosso Costa lhe deu...
Veja aqui o vídeo. Hilariante


Estive todo o dia fora e sem ouvir notícias ou ver televisão. Só agora, tarde e más horas, ligámos a televisão. Estava a dar um breve resumo do dia. 

E, a terminar, estava eu meio distraída, ouvi a notícia de que aquilo do Juncker é que ele estava com uma crise de ciática. Mas já não vi as imagens. Estranhei. Que notícia mais inusitada. Pensei cá para mim: sim, sim, chama-lhe ciática. Depois ocorreu-me uma dúvida clínica: mas querem lá ver que o vinho agora prende o músculo ciático? 

Fui à procura no YouTube e apareceu-me outra notícia inesperada:

Juncker poisoned by US president Donald Trump. 


Uuupsss... Mas depois vi que talvez não. Transcrevo a legenda:
BREAKING NEWS: EU on the brink of war with the USA after US president Donald Trump has poisoned EU leader Jean Claude Juncker. According the European Commission this means war with the animals. It is not clear what poison the Donald used but rumors  have it that Juncker was "red wine" waterboarded??? In other words he is piss drunk. 12-July 2018.
Bem esteve o nosso António Costa a dar-lhe a mão, a dar-lhe o braço, sorrindo e tentando que ele avançasse pelo seu pé. Vi-o e deu-me vontade de rir. Imagino-o a rir à gargalhada a contar a cena ao Marcelo.

Aqui ao meu lado, ouvi: 'Estava cá com uma tosga...'

E assim vamos: a Comissão Europeia nas mãos de uma pessoa que padece desta boa maneira de ciática.

domingo, dezembro 24, 2017

A solidão ou o infortúnio em tempo de Natal






Chegamos ao Natal debaixo de um outono ensolarado. Ouvi que no propriamente dito dia vai estar de chuva mas, por enquanto, há sol e passeei debaixo de um límpido céu.

Lembrei-me hoje de um dia, mil anos atrás, em que também estava sol e frio. Lembro-me da boneca que recebi nesse Natal. Mais tarde a minha mãe haveria de lhe fazer uma saia de fazenda aos quadradinhos azuis e brancos e uma camisolinha de malha canelada branca e é assim que eu me recordo dessa boneca. Não me lembro do nome que lhe dei. Só me lembro que tinha cabelo comprido louro e tinha um rosto que não era bem de boneca embora tivesse feições delicadas. Fiquei orgulhosa por ter uma boneca tão invulgar e tão linda.

Recebia os presentes no dia de Natal, de manhã, junto ao sapatinho que deixava na véspera junto à chaminé, e era o Menino Jesus que mos dava. Depois fomos almoçar a casa dos meus avós paternos e, claro, levei a minha boneca nova.


Do outro lado da rua da casa da minha avó morava a avó de uma colega minha da escola infantil. Era uma menina chinesa. O pai tinha estado numa missão em Macau e veio de lá com essa filha. Depois casou com uma das educadoras da escola onde eu andava, uma grande amiga da minha mãe. A menina passou a ser aluna da madastra.

Essa minha educadora era muito simpática e divertida mas, por algum motivo que ninguém compreendia (e em que a minha mãe, quando eu lhe contava, se recusava a acreditar) passava-se com a enteada e não apenas se zangava para além da conta como, frequentemente, lhe batia. Eu ficava consternada. Não compreendia o que desencadeava aquela violência sobre a minha amiga, sempre tão bem comportada e tão doce. Claro que ela tinha uma certa falta de vocabulário mas eu achava isso mais do que compreensível e não percebia como é que a minha educadora, sempre tão simpática, conseguia ser tão agressiva com uma menina tão querida.

Talvez por isso, a minha amiga era silenciosa e, por vezes, triste.


Penso que hoje ninguém consideraria admissível que uma educadora desse bofetadas numa criança em plena sala de aulas mas, nessa altura, ninguém dizia nada.

Nesse dia de Natal, pedi aos meus pais para ir visitar a minha amiga que eu sabia que estava a passar o Natal com o pai e a madastra na casa da avó emprestada.

Lembro-me bem. Estava sentada na cama do quarto onde ficava quando lá pernoitava. Tinha apenas um livro. Como ainda não sabia ler, estava a folhear, a ver os bonecos. Tinha um ar muito triste. Nunca falava da mãe excepto quando eu lhe perguntava. Dizia que não sabia dela, que, se calhar, tinha morrido. Vendo-a assim, ali sentada sozinha e apenas com um livro como presente, fiquei triste por ela. Pensava que, tivesse ela uma mãe de verdade, e haveria de ser mais feliz. Ia para lhe mostrar a minha boneca mas passei-a logo para os seus braços. Só vim de lá quando a minha mãe me chamou. Voltei cabisbaixa, com muita pena da minha amiga. 


Anos mais tarde, essa amiga da minha mãe conseguiu finalmente ter filhos. Soube depois que chegou a pensar que não conseguiria. Talvez por isso sublimasse a sua frustração, sendo agressiva para com a filha do marido. Quando conseguiu ser mãe, adoçou em relação à enteada. Os miúdos gostavam muito daquela irmã mais velha, de rosto redondo, olhos rasgados e cabelo preto escorrido e ela era do mais carinhoso que há para com os seus irmãozinhos.

Quando vem o Natal, lembro-me muitas vezes daqueles para quem o Natal, por algum motivo, não é tempo de alegria.

Dantes eu não tinha máquina de café expresso em casa e, por isso, tomava-o na rua. Como nas vésperas de Natal me deito sempre tarde (como em todos os dias, mesmo sem ser Natal...) -- e no dia havia a 'cena' dos miúdos a verem os presentes, e depois era pôr o almoço ao lume -- só depois, geralmente já depois do meia-dia, é que conseguia ir ao café. Era um café muito grande que servia também refeições simples, como sopa, bitoque ou coisas do género. E fazia-me uma impressão terrível quando via algumas pessoas sozinhas a almoçarem ali, no dia de Natal. Reparava como as pessoas comiam de olhos baixos, talvez para não encararem os olhares das outras pessoas, quase como se estivessem envergonhados por estarem a almoçar sozinhos, no café, no dia de Natal. Aquilo era para mim muito triste. E, no entanto, não sei se era. Mas, para mim, sempre rodeada de amigos e família, era como se aquelas pessoas estivessem abandonadas e o meu coração sentia-se condoído por elas.


Em tempos, havia um rapaz com bom ar que eu via aqui na rua frequentemente alcoolizado. Fazia-me também muita impressão. Tão novo e naquilo, tão novo e sem que a família conseguisse impedir aquilo que parecia desenhar-se como um crescente vício. Uma vez, para minha surpresa, vi-o a fazer o papel de arrumador. Quando estacionei, ele veio pedir-me dinheiro e, como sempre, estava embriagado. Disse-lhe que não lhe dava dinheiro porque achava que ele não precisava de dinheiro mas de procurar tratamento. O rapaz ficou a olhar para mim meio atarantado e fez um gesto respeitoso com o boné. E eu fiquei a sentir-me estúpida por ter ousado pensar que sabia aquilo de que o rapaz precisava. O tempo foi passando e ele por aqui. Aos tombos, pedindo dinheiro a quem estacionava. A mim nunca mais me pediu dinheiro. Pelas companhias em que passou a andar percebi que se tinha tornado um sem-abrigo. Depois começou a andar com uma mulher mais velha, esquelética, com ar de alcoólica ou drogada, não sei. Deixou de ser um rapaz. De garrafa na mão, sempre. De vez em quando, passam-se grandes temporadas sem que o veja. Penso que estará a tratar-se ou penso que caíu de vez. Hoje, por entre aquele frenesim de entra e sai, promoções e luzes e cânticos de natal, quando ia a entrar no supermercado, reparei num homem já com a calvície a despontar e com o boné na mão, a pedir. Era ele. Fiquei cheia de pena. Não lhe dei esmola. Não sei porquê mas acho que iria ferir o seu orgulho (se é que lhe resta algum orgulho). Mas custa-me muito pensar no que aquele rapaz fez da vida dele. Tinha um ar saudável, andava bem vestido e agora está transformado num pedinte. Não sei que memória guardará ele destes seus anos de decadência. Talvez não guarde memórias. Penso: tomara que a família não o veja assim, o boné na mão estendida, nas ante-vésperas de Natal.

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Depois de andar a falar em presentes e compras e coisas do género, pode até parecer disparatado eu estar aqui hoje a falar de assuntos que não têm um smile estampado na testa, quando deveria talvez era estar a falar em preparativos para a festa. 

Mas se o Natal tem algum significado -- e para mim é, sobretudo, um período de convívio familiar -- é nos que se sentem mais sozinhos e tristes que eu hoje penso. Ontem, o Um Jeito Manso teve quase 3.000 visitas. Talvez alguns desses meus Leitores também se sintam também sozinhos e tristes. Aliás, sei que sim. Alguns. E é para eles, em especial, que vão os meus sentimentos. Gostava que, de alguma maneira, as minhas palavras fossem o abraço que gostariam de ter. Não estão sozinhos.




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E um piano mágico para animar o espírito.



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As fotografias foram feitas este sábado

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quarta-feira, novembro 01, 2017

Bárbara Guimarães e Manuel Maria Carrilho -- a violência doméstica, o alcoolismo.
Kevin Spacey -- a homossexualidade, os excessos de uma noite regada a álcool.
[Dramas privados de quem vive exposto ao público]


Não sou dada a moralismos e, muito menos, gosto de pisar quem está na mó de baixo. Custa-me saber de sofrimentos vividos em carne viva, à vista de todos. Por isso, custa-me saber da intransigência e maldade de quem se apressa a puxar o tapete que resta a quem já escorregou.

Da mesma forma, por oposição, faz-me alguma impressão o deslumbramento cego que, algumas pessoas demonstram nos momentos de sucesso, como se não se apercebessem de que tudo é efémero, de que tudo é relativo e que a exposição excessiva esvazia a alma. Pensam que compram a estima eterna quando, afinal, estão a empenhar a sua liberdade individual junto de um público que, na realidade, em momentos de fraqueza dos seus ídolos, não conhece a tolerância, a piedade, ou, sequer, a empatia.

Bárbara Guimarães foi, em tempos, uma jovem bonita e talentosa, que transmitia uma imagem de alguma ingenuidade embora, desde logo, fosse notória a sua sensualidade. Foi progredindo na carreira de figura mediática e a sua imagem de mulher carnal com um corpo sinuoso foi encurtando a sua carreira profissional.


No auge da fama, institucionalizou a sua beleza glamorosa, casando com um ministro. Mas...  afinal... o casamento não foi bem um casamento porque... afinal... já era casada, e afinal o casamento que não era casamento também não foi bem uma cerimónia privada porque... afinal... tudo foi fotografado para uma revista (coisa que hoje é banal mas que, à data. foi relativa novidade). 

E assim foi avançando a sua vida. Com uma imagem cada vez mais sensual, por vezes já brejeira, foi também muleta para a campanha eleitoral do marido, um filósofo com um temperamento também sinuoso.

As emoções expostas ao público, a necessidade de aparecer sempre bonita e sorridente, o marido ciumento e numa fase mais complexa da sua vida profissional e política, as tensões crescentes mas sempre tudo disfarçado, o casal perfeito e sorridente. As revistas sempre por perto. As poses, os sorrisos, os olhos nos olhos, só amor.

Até que um dia a casa veio abaixo e, de novo, tudo às escâncaras: afinal já não havia amor, apenas violência, álcool. E vieram as difamações espalhadas pelas revistas, as vinganças, os insultos graves. As crianças metidas no meio da crise. Tudo exposto ao público, num perigoso crescendo.

Soubemos agora de mais um triste incidente: Bárbara alcoolizada a sair de um hotel de madrugada, o seu carro a bater em dez carros estacionados e ela, confrontada com os factos, a assumir publicamente os seus problemas e a necessidade de tratamento. 


Depois Manuel Maria Carrilho a pedir a guarda da filha, invocando riscos e a referir um recente acidente que a menina terá sofrido supostamente numa briga mal explicada com a mãe e do qual terá resultado uma sutura com mais de 30 pontos. 


Agora saíu a sentença de um dos processos dele: condenado por violência doméstica, 4 anos de pena suspensa. Diz que vai recorrer. Um ministro, professor, antes com algum prestígio e agora isto. Saíu do julgamento a espezinhar ainda mais a ex-mulher, como se os problemas que atravessa no presente fossem desculpa para as suas agressões no passado. E, claro, tudo isto perante as câmaras de televisão, os flashes das revistas, os sempre presentes e cúmplices microfones. 


E, quase em tempo real, nas revistas, jornais online e televisões, vamos sabendo do que se passa na vida privada destas pessoas -- e é com tristeza que penso na situação dramática que estes dois estão a viver, eles que antes viviam uma vida de glamour e que agora parecem quase uns corpos exangues, consumidos pelo mediatismo.

Foi também esta semana que o actor Anthony Rapp contou que, quando tinha 14 anos,  foi assediado sexualmente por Kevin Spacey, então com 26. 


Confrontado com a notícia Kevin pediu desculpa e , de caminho, ganhou coragem e assumiu que é homossexual. 

E meio mundo caíu-lhe em cima pois o que estava em causa, dizem, era um episódio de pedofilia. Ser homossexual não é desculpa para se atirar a um jovem adolescente. 

E as consequências não se fizeram esperar. Kevin Spacey não mais continuará a dar corpo ao inesquecível Francis de  House of Cards.


E eu, que sou admiradora do seu trabalho, fico também com pena. Ao saber do sucedido, não me ocorreu sentir-me com direito a censurá-lo ou a dar-lhe lições de moral. A percepção da gravidade de certos actos é diferente agora do que era há cerca de 30 anos e o que hoje é um crime grave, era, até não há muito tempo, tolerado. Tolerado à boca pequena. Melhor: silenciado. Ainda me lembro de ouvir a um empresário que um certo ministro gostava de meninos. Dizia-se assim, em privado. E sorria-se. Gostos inconfessáveis de que os outros sorriam com alguma comiseração ou complacência. Ninguém denunciava às austeridades.

Seja como for, não me custa admitir que um jovem que, há 30 anos, vivesse a sua sexualidade com alguma ambivalência e escondesse as suas tendências, vivendo num ambiente de representação, filmagens, festas, num momento de embriaguez, e, portanto, com a libido não reprimida, tivesse tido uma atitude destemperada. Eu que tanto (tanto, tanto!) me choco com a pedofilia, não consigo crucificar alguém que, há 30 anos, naquelas circunstâncias e num momento de irreflexão, tenha perdido a tramontana. Não aplaudo, não fico confortável -- mas não crucifico.

Mais. Em situações assim, em que a opinião pública perde o sentido de compreensão e compaixão para com quem se encontra exposto e, talvez, desamparado, sinto que há na natureza humana uma crueldade que me assusta. Mais do que ter vontade de destruir quem esteve mal, eu, pelo contrário, sinto vontade de tentar perceber o que se teria passado.

Tal como me repugna ver as capas das revistas a expor a situação triste pela qual Bárbara Guimarães está a passar também me custa saber que Kevin Spacey passou de um momento para o outro de bestial a  besta, sem que ninguém se levante para estar ao seu lado neste momento de assumpção do erro, de pedido de desculpas -- e de assumpção pública da sua homossexualidade, coisa que deveria ser normal e isenta de riscos mas que, sabemo-lo bem, pode comportar toda uma avalancha de reacções, muitas das quais desagradáveis, que podem fragilizar quem passou uma vida inteira a querer preservar a sua intimidade.


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Bárbara: a exposição sem defesas



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Kevin Spacey: um excelente actor.

Aqui com as suas conhecidas imitações


E a graça com que canta: no The Tonight Show Starring Jimmy Fallon


Ragtime Gals - Talk Dirty



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Um dia feliz a todos quantos por aqui passam.

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segunda-feira, abril 10, 2017

Afinal havia outra...
[E uma outra confusão]
(E ainda a bagunça armada pelos estudantes em Torremolinos)





Pouco tempo depois, outro mail. Pedindo desculpas, confessando o embaraço.

Ontem, para criar algum suspense, não referi aquilo que, claro está, desde logo me tinha ocorrido: o que a redonda adivinhou. Aquele mail não era para mim.

Pouco tempo antes eu tinha comentado num sítio que enviava mail de aviso para o seu autor, ficando lá, portanto, o meu endereço. Distraído, ao enviar o seu mail de amor à mulher que amava em silêncio, ele nem reparou na rasteira que o gmail lhe estava a pregar.

Claro que o teor do mail não era exactamente o que escrevi pois, logo que vi que se tratava de engano, apaguei. Mas a memória que guardo é de um grande e secreto amor descrito de uma forma muito sentida e muito digna.

Contudo, fiquei a ver os riscos que, sem querer, se podem correr. Achei graça mas imagino o embaraço que o autor sentiu, expondo os seus sentimentos perante uma desconhecida.
Sou pessoa de confiança e, portanto, jamais faria alguma coisa que lhe causasse algum desconforto. Tranquilizei-o, apaguei o mail e saí de cena. Mas imagino o mal que uma coisa destas poderia desencadear se o mail tivesse ido parar às mãos de uma daquelas pessoas mesquinhas que apenas se comprazem com o mal alheio.
Enfim. São histórias que vão passando na nossa vida. Episódios.


Outra 'cena' curiosa passada com os mails (e sobre a qual, com vossa licença, também não vou revelar qual a segunda pessoa envolvida): por vezes, recebia dos mais variados remetentes (e escrevo no passado porque talvez há mais de um ano que isso não acontece) mails que eram destinados a conhecida figura pública. Na altura, ele era conhecido do mundo cultural (e televisivo). Agora, justamente há ano e picos, também exerce funções políticas. As pessoas escreviam-me como se eu fosse ele. Convites diversos, incluindo para participar como orador em palestras ou outros ainda mais interessantes. Claro que informava os remetentes que eu não era essa pessoa e encaminhava os mails para a pessoa em causa, cujo mail consegui encontrar. Quer ele, quer eu nunca percebemos a origem de tal confusão. Mais: que pesquisas é que alguém, querendo escrever-lhe, iam desembocar no meu endereço de mail? Um mistério que ambos nunca decifrámos mas a que ambos achámos sempre alguma graça. Acho que a minha escrita é suficientemente feminina (digamos assim) para que alguém possa pensar que, por detrás da persona que aqui escreve, esteja um homem. Além do mais, são sabidas as minhas orientações políticas e situam-se em quadrante bem mais à esquerda do que as da referida pessoa. Mais: como leitora, acho que a confusão é simpática para mim mas penso que só gente distraída seria capaz de achar que a minha escrita lhe poderia ser atribuída. Pois, garanto-vos que até gente da cultura brasileira se me dirigiu tomando-me por ele. E isto é absolutamente verdade.


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PS:

E eu, enquanto escrevo, estou a ver o Jornal da Noite e, como não podia deixar de ser, o tema continua a ser o mesmo: os desmandos que os estudantes portugueses fizeram em Espanha. E eu pasmo, pasmo mesmo!, com o regime em que estas excursões se fazem: bar aberto? bebidas à discrição? 


Quem organiza isto é que deveria ser responsabilizado. E os pais aceitam que os filhos vão nestas circunstâncias? Que vão para se embebedarem até caírem para o lado? Para armarem desacatos? Que pais são estes? E as escolas acham bem? Ou lavam as mãos?


E um jovem acaba de dizer que é normal partir coisas e uma miúda esteve a dizer que viu as paredes riscadas, os elevadores danificados e a iluminação do jardim estragado mas nada de mais, nada daquilo que está a ser noticiado. E isto para nos dizer que as notícias são exageradas, como se fosse normal dar cabo do hotel em que se está...

Acho tudo isto extraordinário. Tudo gente doida ou quê?

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(E agora tenho aqui o Passos Coelho que, com o que está a dizer, como se nada tivesse a ver com a derrocada do BES e com o figurino escolhido para o Novo Banco, me parece ainda mais alucinado ou delinquente do que os estudantes que escaqueiraram os hotéis e nos aparecem agora, com ar cândido, a dizer que é normal. Fogo. O que vale é que o meu marido chegou agora aqui e mudou de canal).


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Como é bom de ver, as fotografias que escolhi não têm nada a ver com o que escrevi.

Lara e Mara Bawar são duas gémeas albinas de 11 anos. Têm uma irmã de 13, Sheila. Tão belas são que começam a ser disputadas para fotografia publicitária. Aqui são fotografadas por Vinicius Terranova.


Lá em cima, de Vivaldi, o Concerto Dresden 

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Até já.

domingo, dezembro 01, 2013

"Nigela Lawson é viciada em cocaína e em comprimidos". "Bárbara Guimarães é alcoólica e também viciada em comprimidos". Ambas são figuras destacadas no panorama televisivo, ambas conhecidas também pela sua sensualidade. Divorciaram-se ambas na sequência de queixas de violência doméstica por parte dos maridos, maridos esses, respectivamente Charles Saatchi e Manuel Maria Carrilho, que, desde que as acusações vieram a lume, têm feito uma sistemática campanha para arrasar a imagem das ex-mulheres. Não sei se são culpados das acusações de agressões mas lá que são responsáveis por violentas campanhas de violência mediática, lá isso são. E escrevo isto quando sei que este sábado foi morta outra mulher (Celina, 47 anos, Castro Verde) na sequência de longo historial de violência doméstica. A 34ª vítima este ano.


Há uns meses atrás o mundo foi surpreendido ao ver a sensual Nigella a ser agredida em público, num restaurante, pelo marido. Na sequência disso ela pediu o divórcio e ele viu a sua reputação arrasada.

Mas eis que agora os jornais estão cheios de uma revelação não menos surpreendente. Nigella nos últimos 10 anos terá sido consumidora de cocaína e de comprimidos em larga escala. O marido, o milionário Charles Saatchi, nunca desconfiou. Supostamente, como contrapartida para se manterem caladas e sobretudo para que o marido nem sonhasse com o que se passava, as duas ex-assistentes dela, as irmãs Grillo, teriam tido permissão da Higella (como agora Saatchi lhe chama numa alusão ao seu suposto estado de pedrada - high) para gastarem o dinheiro que quisessem com o seu cartão de crédito.


As irmãs foram acusadas de desvio de dinheiro da conta de Nigella e, em tribunal, defenderam-se contando a 'verdade'. Claro que Saatchi não se tem esquivado a dissertar sobre os condenáveis hábitos da mulher, hábitos esses que diz que desconhecia. Por causa disto, já se fala na possibilidade de Nigella ser despedida do Channel 4 onde agora tem estado a trabalhar como júri num programa de culinária. E, seja como for, de vítima rapidamente está a passar a culpada perante a opinião pública.

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Também Manuel Maria Carrilho não se tem cansado de revelar com todo o pormenor os hábitos descontrolados de Bárbara Guimarães que vão desde tomar diariamente dezenas de comprimidos, a beber vinho até à embriaguez, a encher-se de silicone, a viver obcecada com a idade e com o aspecto físico, e sempre de rastos a seguir a cada apresentação de galas ou coisas do género. A partir das entrevistas que ele tem concedido quase ficamos a pensar que, como mãe, Bárbara Guimarães deixa muito a desejar e, que, como pessoa, é fútil e desorganizada.


A semana passada, uma vez mais na fila do supermercado para pagar, deitei mão a uma revista e fiquei, uma vez mais, petrificada com a maldade de Carrilho ao dizer tudo aquilo, com desumano detalhe. Destrói-a. Seja ou não verdade, uma coisa é certa: quem a vir de novo a trabalhar vai olhar para ela de uma outra maneira. 

Bárbara Guimarães regressa aos écrans de televisão este domingo, apresentando o Factor-X. 


Imagino como se deve estar a sentir, a pressão, a insegurança. Como já aqui o disse anteriormente não sou especial admiradora dela mas, independentemente disso, lamento o que lhe está a acontecer e só espero que consiga reunir forças para enfrentar com dignidade este e todos os desafios que tenha pela frente. 


Sofrer humilhações em privado é coisa insuportável. Sofrê-las em público deve ser mil vezes pior. Por isso, é de admirar a força, a coragem, a capacidade de superação que pessoas como Bárbara Guimarães ou Nigella Lawson demonstram quando, depois de tudo o que vêem escrito sobre si próprias, conseguem manter-se de pé, cabeça erguida, a darem o peito às balas. 

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E eu fico a pensar se o que está a acontecer com Nigella Lawson e com Bárbara Guimarães não é aquilo que as mulheres que são vítimas de violência doméstica mais temem: que, apresentando queixa contra os maridos, venham a ser objecto de vinganças, de maldades, de destruição? O que é isto senão uma destruição sistemática, implacável em praça pública? É uma coisa aterradora. É que mesmo que uma consuma cocaína, outra beba, ou que tenham pavor de serem postas de parte nas televisões onde trabalham, ou que façam qualquer outra coisa, isso não deveria nunca ser tão humilhantemente exposto na praça pública onde serão, por muitos, crucificadas e desprezadas. 

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Este sábado Celina, uma mulher de 47 anos com 3 filhos, saíu de casa. Ia levar a filha de 9 anos à patinagem. O ex-marido saíu-lhe ao encalço e, ali mesmo, atingiu-a com um tiro na cabeça. Morreu. A filha de 9 anos terá assistido ao crime. Diz a vizinhança que, quando estavam juntos, era conhecido o historial de violência doméstica. Dizem que, depois da separação, o ouviam dizer que ainda acabava com ela. Acabou mesmo. 




Celina foi a 34ª mulher a ser assassinada este ano em Portugal por maridos, companheiros ou ex. Não entram nesta contabilidade as mulheres cujo carácter é destruído na praça pública e que, não sei como, conseguem continuar a parecer que estão vivas.

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Permito-me informar que, para conhecerem a opinião de outro instigador da violência em Portugal, poderão ler o meu post a seguir onde falo da entrevista do filósofo Rui Nunes concedida ao Expresso deste sábado

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E, por hoje, por aqui me fico. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, um domingo muito bom, vivido em paz.

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Um filme revelador de Iris Berardi, a mais recente namoradinha de Silvio Berlusconi

Não me interpretem mal. Acho que Silvio Berlusconi ser primeiro ministro de um país como Itália é de opereta, tal como aconteceu, por exemplo, com Ronald Reagan ao ter sido presidente dos EUA. Inimaginável e ilustrativo do estado de degenaração a que a democracia pode chegar.


Silvio é prepotente e usa os meios de comunicação social que controla para manipular a opinião pública e é demagogo e é pouco polido e talvez mais mil razões para não se perceber como chegou ao lugar e, sobretudo, como lá consegue manter-se (e já nem falo das acusações de corrupção ou da incompetência).

Mas tem carisma, sentido de humor, tem reacções que o tornam próximo do italiano classe baixa e o facto é que a maioria dos votantes o voltariam a escolher, se fosse a votos. Acho-o um personagem óptimo para uma british com.

Dito isto, gostaria de ser sincera mesmo que política e socialmente incorrecta. Eu percebo que a ex-mulher de Berlusconi tivesse que dizer basta pois as aventuras do marido eram já demais e, sobretudo, demasiado públicas. Não apenas nomeia para cargos públicos mulheres que seduziu ou gostaria de seduzir como começaram a ser divulgadas as festas de sexo e álcool, de desbunda e excesso, que envolvem prostitutas e, pior que isso, menores.

E oferece colares, apartamentos e outros presentes a meninas e faz de tudo o que é suposto não fazer. E, ainda por cima, aparece, cheio de base, maquilhado, e a rir, gozão.

Claro que não vou dizer que acho extraordinário que o sexo seja comprado, que acho inofensivo que homens ditos poderosos levem jovens para festas em que o álcool, a droga e o sexo são entretenimentos banalizados, claro que não. Ao saber o que se passa naquelas fantásticas e luxuosas villas, parece que voltamos aos tempos da Roma decadente em que a luxúria escorria livremente apadrinhada por Baco.

Tudo o que é mocinha chegada do Brasil, de Marrocos e de outros países que exportam carne fresca, se for bonitinha e extrovertida, ambiciosa e aspirante a modelo ou a actriz, deve fazer de tudo para se aproximar de alguém que conheça o Condottiero, o Senhor que abre todas as portas – sejam elas as portas de agências de moda, de estúdios de gravação, do parlamento.

(A outro nível e com outro tipo de protagonistas, estamos perante uma outra versão da história Renato Seabra e Carlos Castro. Mas sem a carga de culpabilização e de conflitos interiores de Renato e sem a carga de paixão obsessiva e possessiva de Carlos Castro).

As meninas podem ter 17 anos mas, em termos de ser crime um adulto ter sexo com alguém de 17 anos (rapaz ou rapariga) isso já me parece, hoje, uma coisa do passado. Hoje já não há virgens aos 17 anos. Para quem não lide de perto com jovens, basta ver as reportagens de televisão. Claro que se pode dizer que, dada a diferença de idades, o adulto pode estar a coagir psicologicamente o jovem. Mas também pode não estar. Podem apenas estar ambos a aproveitar o que o outro quer dar. Olhemos as meninas de quem se fala, no que ao Berlusconi se refere: têm corpo de mulheres e têm com certeza mais experiência sexual que muitas mulheres de 50, não são meninas saídas de colégio de freiras ou do coro da igreja.

Claro, "mas têm 17 anos! E aos 17 anos ainda não há maturidade". Claro. E é essa imaturidade, associada ao deslumbramento dos meios onde dinheiro e sexo andam a par, é essa ilusão que toma conta da vida que, por vezes, conduz a situações de fractura psicológica. Mas isso deve ser visto numa perspectiva mais global, numa vertente mais sociológica e menos moralista.

Por exemplo, quando se ouve censurar o Berlusconi por ter sexo com raparigas que nem adultas são - e, agora, falando da realidade portuguesa - interrogo-me: e as meninas de 12, 13 e 14 que, com o consentimento dos pais!, andam alcoolizadas no Bairro Alto à noite? Que falam com naturalidade das pastilhas, dos shots e da confiança que os pais têm nelas? Que descrevem como os pais e as mães confiam e as deixam chegar a casa às 6 da manhã? Que andam com dinheiro no bolso que chega para começarem à tarde com cerveja no Campo Pequeno e continuarem, noite fora, com vodka e shots no Bairro Alto? Que praticam sexo sem que se lembrem bem do que aconteceu na manhã seguinte?

E têm 14 anos ou menos!

Porquê, então, tanto moralismo, nestas mesmas pessoas, com as 'meninas' de 17 anos a quem Berlusconi oferece colares? Prostitutas imigrantes ou meninas cujas mães as oferecem? Teve sexo com elas? Olhem, meus caros: não fico nada chocada com isso. Vejam a menina Iris Berardi. Parece-me uma mulher feita e certamente não seria uma virgenzinha pura e inocente antes de passar pelos braços de Berlusconi. Não creio que tivesse sido coagida. Win-Win: ganha ela, ganha ele. Ele, um homem libidinoso, com poucos escrúpulos, elas, jovens cuja educação ou condição social não condena esta forma de ascensão social.

Mil coisas piores são socialmente aceites perante a passividade de todos.

Para começar: olhe-se para os nossos meninos que passam dias e noites no facebook (que, no caso dos jovens, pode traduzir-se numa aberração comportamental, numa preversão emocional), olhe-se para a iliteracia dos jovens que não leêm, que quase não sabem falar nem escrever, que bebem desalmadamente destruindo os fígados e os cérebros, que têm sexo sem saberem antes o significado do amor, que dizem 'ando' e querem dizer que andam a fazer sexo, que com a maior das naturalidades falam das curtes de uma tarde. E tudo sob a 'confiança' dos pais que compram o seu alheamento da vida dos filhos com dinheiro que chega e sobra para que estes se entretenham sem os maçarem.

Olhe-se para isso que está bem próximo de nós antes de se agitar a espada do moralismo contra esse doido excessivo que é o Berlusconi.