Por motivos que mal compreendo, o facto de me sentir indignada com a invasão da Ucrânia por parte da Rússia e chocada e revoltada com a barbárie a que temos assistido, uma destruição e uma chacina impensáveis, tem desencadeado em algumas pessoas que por aqui me lêem reacções verdadeiramente violentas contra mim. Alguns comentários (que não publico) são abjectos, ordinários, violentos e, alguns, ameaçadores. Isto foi exponenciado pelo que escrevi ontem, espantada e incomodada que tenho andado com as reacções do PCP que, envolvendo as suas opiniões em algodão doce, na prática está ao lado de um psicopata assassino, autocrata e cabecilha de um regime de oligarcas, de seu nome Putin. Publiquei dois desses comentários mas não publiquei todos, alguns porque são excessivos e violentos e outros por não usarem linguagem compaginável com este blog.
Contudo, como bem devem saber, sou osso duro de roer. Por isso, de novo aqui o digo e repito: há qualquer coisa de triste na forma como os comunistas portugueses ficarão para a história, colados a um déspota, a um psicopata, a um assassino que ousou invadir um país, que ousou tentar a sua destruição, que violou todas as regras do direito internacional, que é responsável por toda a espécie de crimes de guerra em larga escala.
Poderia acrescentar aqui o lado caricatural de tudo isto: a tareia que uma superpotência como a Rússia está a levar da Ucrânia que, apesar de ferida na carne e na alma, está a resistir e a obrigar a Rússia a bater em retirada de Kyiv e de muitos outras cidades e a sofrer pesadas perdas. Mas isso, neste momento, não é para aqui chamado, isso poderá esperar para quando ficar claro que, se a Ucrânia está arrasada, a Rússia não o ficará menos. E Putin será responsabilizado por isso. Portanto, o PCP ficará colado a um bandido assassino que ficará para a história como um segundo Hitler, um desgraçado que destruiu tudo em que tocou antes de acabar ingloriamente derrotado.
Entretanto, a par dos putinistas, dos comunistas, aparem também os negacionistas. Sempre que há qualquer tema mais relevante, cá aparecem eles. São os que se acham mais inteligentes, vendo o que todos os outros não vêem. São os que negam a existência da covid, os que sabem sempre o que o resto do mundo não sabe, são os sabem, de fonte segura, que a terra é plana.
Psicologicamente deve haver explicação para isto: o que leva a que, perante todas as evidências, imagens, testemunhos, validação de informação por fontes isentas e diversas, algumas pessoas se agarrem a narrativas ficcionadas, inverosímeis, ridículas?
Aquando dos picos covid, fomos sabendo de negacionistas que, às portas da morte, se arrependiam das suas campanhas anti-vacinas, pedindo desculpa pelo absurdo do seu comportamento.
Não sei se alguns dos que por aí andam, defendendo Putin* e atacando a Ucrânia ou lançando suspeições ou insultos virão a público reconhecer que se enganaram e pedir desculpa. Se calhar não. Se não conseguiram, até agora, reconhecer o assassino que foi Estaline e o rasto de pavor que espalhou, como irão agora ter a humildade de reconhecer que, uma vez mais, se puseram do lado errado da história ao apoiarem Putin?
[* E não vale a pena dizer que não estão a apoiar Putin. Estão. Ao não serem capazes de condenar inequivocamente Putin, estão a pôr-se do seu lado. )
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De novo, partilho alguns vídeos de quem, no terreno, testemunha o horror e a evidência do que têm sido as práticas das tropas russas. A crueldade humana pode ser excessiva. Em tempos de guerra, mesmo os inocentes perdem a inocência. Parece haver provas de que a violência não terá sido apenas fruto do álcool, do stress causado pelo medo misturado com a adrenalina, mas de algo premeditado para intimidar e fazer vergar a resistência ucraniana. Seja como for, é uma tragédia ilimitada.
Ukrainians say Russian soldiers used them as human shields - BBC News
Clear evidence of Russian troops rounding up Ukrainian civilians and using them as human shields has been found by the BBC.
In multiple interviews, villagers from Obukhovychi, north of Kyiv, have said they were taken from their homes at gunpoint and held in a school gym by Russians trying to stop advancing Ukrainian forces.
Local people also gave accounts of Russian troops shooting civilians and holding others captive in and around neighbouring town Ivankiv.
The BBC’s Jeremy Bowen reports from Ivankiv.
Ukrainian girl vlogs siege of Mariupol: 'My nerves collapsed'
When the Russian invasion reached Mariupol in Ukraine at the end of February, Alena Zagreba, 15, went from filming vlogs with her friends to chronicling the destruction of her home city. While most people hid in bunkers and cellars, Alena and her parents stayed above ground, and her videos are a rare insight into the intense attacks by Russian forces.
Alena melted snow for water while her parents cooked on makeshift fire pits outside. The family survived by moving from house to house as shelling made their home and other shelters uninhabitable. Alena said at one point in the diary that her nerves had been 'destroyed' by the constant bombardment.
After fleeing to the Ukrainian-controlled city of Zaporizhzhia, Alena and her mother moved to Luxembourg, where the teenager has resumed school – while her father is still in Ukraine as men aged 18-60 have been ordered by the government to remain in the country
The Horrors Russia Left Behind | Russia-Ukraine War
After weeks of heavy fighting in Kyiv’s suburbs, residents who had been in hiding returned to the streets to find damage and carnage — land mines, bullet holes and corpses.
On April 4 and 5, video journalists from The New York Times entered the towns of Bucha, Borodianka and Hostomel to talk with witnesses and document the aftermath of the Russian occupation.
Ao mesmo tempo, há qualquer coisa de rudimentar e de incompreensivelmente impreparado na forma como toda esta operação militar russa se tem desenrolado. Numa perspectiva muito diferente, o que abaixo se vê é também de bradar aos céus. Os soldados russos que ocuparam a central nuclear de Chernobyl andaram a cavar trincheiras em solo radioactivo, andaram por ali como se nada fosse. Devem estar carregados de radioactividade. E o que parece é que com a mesma leviandade com que ocuparam a central, também se expuseram, eles próprios, ao risco como se totalmente ignorantes estivessem do que ali se passava.
E tão estupidamente a ocuparam como desocuparam. Não se percebe qual o planeamento e a lógica de muito do que se passa, parecendo evidenciar que não há liderança nas hostes russas, apenas desvario.
'It’s already squeaking showing excess' says a Ukrainian official surveying the trenches dug by Russian forces in the Red Forest exclusion zone surrounding the Chernobyl nuclear plant.
The footage shows members of the State Agency of Ukraine for Exclusion Zone Management walking through former tank positions and trenches.
At one point one of the men can be seen measuring the radioactivity of the area. “It’s already squeaking showing excess,” he’s quoted as saying.
The International Atomic Energy Agency was investigating reports that forces had been impacted by radiation poisoning, but said on March 31 it was unable to confirm and was seeking further information.
The footage was released by Ukrainian Witness on Thursday. Russian troops took control of the plant on February 24 and withdrew weeks later on March 31.
Vladimir Putin’s troops occupied site of the world’s worst nuclear disaster, after they captured it in the early days of their Ukraine invasion.
Dozens of Russian soldiers are said to have been struck down with acute radiation sickness and were taken in seven busses back across the border in nearby Belarus.
The site of the 1986 nuclear tragedy in northern Ukraine was captured in the opening days of the war, sparking fears of a major radioactive disaster as a result of heavy fighting around the plant.
Russian troops dug trenches in the highly toxic Red Forest zone, just a few miles west of the plant, but have now retreated as part of a pull-out from around the capital Kyiv.
Tenho muita vontade de que aconteça alguma coisa que nos volte a colocar no trilho da normalidade. Sofro pelo que acontece e, de cada vez que, na televisão, vejo um prédio esventrado, uma pessoa a chorar mostra a sua casa toda destruída, abrigos cheios de gente amontoada, comboios ou camionetas cheias de gente que olha pela janela com o olhar perdido, crianças que deixam a sua vida cheia de futuro para ir rumo ao desconhecido, sinto compaixão, revolta, incompreensão, espanto, admiração, medo.
Tento não pensar apenas nisto, não quero ficar obcecada, mas, de cada vez que não penso, quase sinto que estou a trair a solidariedade que aquelas pessoas tanto merecem.
De manhã fui passear à beira-mar com a minha mãe. Estava cinzento e a ameaçar chover mas, mesmo assim, arriscámos. O urso felpudo fica numa alegria, salta, salta, abraça-a. Lá em casa, corre pela casa toda e, num ápice, vê o que pode apanhar para fazer avaria: uma almofada, um trabalho em crochet com novelo e agulha agarrada. Ela zanga-se mas vê-se que lhe acha muita graça.
Vi também o meu tio e uma das minhas primas. Ela não conhecia ainda este franjinhas, espantou-se por ele ter os olhos tapados por pelo, e, com ternura, falou dos seus dois, um já idoso e outro mais novo. Ao contrário de outra das minhas primas que é relativamente parecida comigo na maneira de ser, esta sempre foi muito diferente. Sempre se portou bem, sempre estudou muito, sempre fez tudo o que se considera certo. E continua a ser assim. É muito pragmática, muito directa mas, ao mesmo tempo, sempre com o comportamento exemplar que os pais desejavam. Eu era aquela por quem os meus pais receavam pelo que os vizinhos ou familiares poderiam dizer, sempre muito independente e sempre completamente nas tintas para o que dissessem ou deixassem de dizer. Pela minha prima nunca houve esses receios. Muitas vezes a minha mãe confrontava-me com o exemplo da minha prima. Nunca tal me incomodou pois a mim fazia-me confusão ela ser sempre tão bem comportada, nada reivindicativa, nada problemática, sempre tão estudiosa e sempre tão bem arranjada. Por isso, sempre senti admiração pela sua maneira de ser embora sempre tenha sentido uma certa dúvida sobre se ela é absolutamente assim ou se há nela, nalgum recanto secreto, alguma vontade de inconformismo ou alguma saturação pela vida de trabalho, esforço e bom comportamento que sempre teve.
De tarde fomos até a um viveiro de plantas. Uma das trepadeiras que está junto a uma das janelas do meu quarto parece que está morta. Não há a certeza do óbito mas, pelo menos, adormecida está. O meu marido não tinha vontade, apetecia-lhe estar em casa sem nada que fazer. Além disso, o tempo estava desagradável. Mas fomos pois durante a semana nunca conseguimos e agora, com a chuva, é capaz de ser boa altura para esta operação. Tinha chovido e tudo, lá no viveiro, estava molhado mas, talvez por isso, ainda mais bonito. Mais parece um jardim botânico do que um viveiro. Sempre gostei de viveiros, daquele ambiente verde, das plantas que nascem e se desenvolvem, do conhecimento íntimo que os jardineiros têm de cada pormenor do seu desenvolvimento. Descrevi o que queria e a jovem jardineira foi-me mostrando as que davam flores mais bonitas, as que precisavam de mais sol, as de crescimento mais rápido. Escolhi uma que dará flores em cor de rosa clarinho. Trouxe uma já crescidinha. Infelizmente esqueci-me do nome para poder ler alguma coisa sobre ela.
Já a transplantámos. Como não quis arrancar o tronco da que está adormecida, quiçá num sono duradouro, e como está encostada à casa, junto ao caminho empedrado, não havia margem para fazer um buraco grande. E como o vaso era grande, a situação estava complicada. Fez-se o que se pôde. Espere que resulte bem. Uma trepadeira florida é uma coisa bonita. Dá vontade de regressar a uma casa que tem trepadeiras floridas.
Enquanto jardinávamos, o urso felpudo brincava, tentava disputar-nos a pá, rebolava-se na terra e bebia a água dos pratos dos vasos. Para ele isto deve ser a felicidade.
Andei a fotografar as flores. O jasmim florido e perfumado, a glícínia, a outras trepadeiras. Agora, de vez em quando, já consigo descobrir os passarinhos que se escondem por entre os ramos das árvores. Fico feliz quando vejo um.
Quando fizemos uma caminhada ao fim do dia, começou a querer chover mas felizmente pouco. Encontrámos uma senhora que procurava o cão perdido há uma semana. Continua a procurá-lo. Num estado de ansiedade, quase a chorar. Percebo-a bem. Quando se perde um animal que é da família, não se sabe se está bem, se anda perdido, se alguém ficou com ele, se sofre. Claro que ao vê-la tão ansiosa e agora ao escrever penso como é tudo tão relativo. Lá ao longe mas aqui tão perto caem mísseis, ouvem-se explosões, fica-se sem casa, perdem-se familiares, não se sabe o que vai ser da vida -- e, no entanto, as pessoas sobrevivem e lutam pela liberdade. E esta senhora angustiada pelo seu amigo perdido. E a angústia é também grande, bem o vi pelas suas lágrimas e pela voz presa ao descrevê-lo, meigo, bom companheiro.
Entretanto, leio notícias. Leio blogs. Leio sobre perdas. Emociono-me. Todos vamos sofrendo perdas ao longo da nossa vida. Algumas perdas doem-nos mais. Umas são irreversíveis, outras pode ser que não. Que não se perca a esperança. Algumas são incompreensíveis e, talvez por isso, muito dolorosas: perdemo-nos sem sabermos porque nos perdemos, porque, na realidade, não queríamos perder-nos. A vida é feita também de labirintos. E de abismos.
Há pouco, ao estar aqui, passei pela 2 e estava a acabar uma entrevista à Ana Cássia Rebelo. Pus para trás e vi do início. Desconcertante e divertida. Não tenho o seu Babilónia. Não sei se quero ler. Tenho que folhear para perceber.
Agora chove. Ouço a chuva lá fora. Aqui ao pé de mim a pequena fera está deitada de barriga para cima, cabeça de lado, pernas abertas. Mexeu-se e soltou um suspiro, depois ajeitou-se. Vive em paz e está junto aos donos que o protegem e acarinham.
E eu, a cada momento, penso que era bom que acontecesse um milagre, que o mal fosse varrido da superfície da terra, que a vida voltasse ao normal, que quem se perdeu se reencontre. Tenho esperança.
Às vezes dá-se às coisas o nome de quem as faz mesmo antes de saber se as coisas vão ser especialmente bem sucedidas. Pode acontecer que, depois, as coisas ganhem vida própria e o nome das coisas passe a existir por si só, esquecidas de quem as fez e de quem lhes deu nome.
Sucedeu hoje que, ao ver a notícia de que uma certa pessoa tinha sido encontrada sem vida na sua cela de prisão, não tenha prestado atenção: nem o nome nem a cara me diziam nada.
John McAfee. Nunca me tinha ocorrido que o nome do antivírus era o nome do seu criador. O produto mantém-se vivo, vai tendo novas versões, e, enquanto isso, o seu criador é preso por fuga ao fisco. E, agora, ao saber que ia ser extraditado e que arriscava uma pena de dezenas de anos, não terá aguentado mais. E assim acaba a vida de uma pessoa que um dia desenvolveu uma aplicação que se tornou internacionalmente célebre e com a qual certamente ficou mais do que multimilionário.
Nestas coisas, volta e meia, as pessoas pensam que são eternas, que viverão milhares de anos, e que, para tal, precisam de aferrolhar muitos milhões, se necessário for fugindo ao fisco para ficarem com ainda mais. Até que a coisa dá para o torto e o homem eterno e muito rico acaba, morto, numa cela num país estrangeiro.
Mais uma história triste que só prova uma coisa: os humanos são frouxos das ideias.
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O meu dia foi tranquilo apesar de activo. Estou a tentar o equilíbrio, coisa que me é um pouco estranha. Pouco antes das sete da tarde, antes de ir fazer arroz de tomate para acompanhar os filetes, o meu marido apanhou-me a escrever um mail. Ele não sabia mas deveria ser o décimo no espaço de pouco tempo. Escrevo razoavelmente depressa. Disse-me: 'Olha para isso, a escrever compulsivamente há não sei quanto tempo. Estás a voltar ao mesmo, não consegues, está-te no sangue...'. Disse-o com ar censor mas acho que tem razão. Depois de uns dias em que tentei travar às quatro rodas, aos poucos vou reatando o meu normal. As ideias surgem-me e, com elas, a vontade de fazer, de fazer acontecer. Pode alguém ser quem não é?
De tarde, fiquei sozinha. Preocupam-se que eu fique sozinha em casa. Eu não. Então, para reduzir o tempo em que estava sozinha em casa, o meu marido sugeriu que eu fosse ao supermercado comprar fruta. Achei absurdo. Ideia mais sem jeito.
Contudo, quando acabei de almoçar, apeteceu-me mesmo ir dar um giro. A ideia do supermercado pareceu-me tentadora. Ao que eu cheguei.
Meti-me no carro e fui. Comprei pêssegos normais, pêssegos do paraguai, morangos, maçãs, laranjas. Gosto muito de fruta. Gosto de comer, gosto de comprar, gosto de sentir o perfume da fruta quando estou na cozinha.
Lavo-a toda e coloco-a em taças para estarem sempre disponíveis para serem comidas. Assim é que deve ser. E não venham com isso da língua portuguesa ser muito traiçoeira que eu não vou nessa.
Aproveitei e comprei uma loção corporal. Para avaliar qual delas, se a da tampa amarela se a da tampa lilás, levantei um pouco a máscara para sentir o perfume. Mais agradável a amarela. Trouxe, imaginando-me cheirosa como uma taça de frutas.
Trouxe também um vasinho com uma hortênsia cor-de-rosa. Agora terei que arranjar um vaso bonito para a pôr e, claro, um lugar bem pensado para pôr o vaso. Estas coisas nunca se ficam só pela primeira derivada. E aqui não é uma questão de língua portuguesa mas de cálculo diferencial.
Bem.
Era para lavar a cabeça esta quinta-feira de manhã mas afinal pediram-me para antecipar uma reunião que tinha convocado para o início da manhã. Vai ter que ser muito cedo. Para não ter que me levantar ainda mais de madrugada e depois estar com o cabelo a pingar, lavei-o de tarde. Depois do banho, com o corpo ainda húmido, apliquei a loção. Fiquei a sentir-me mesmo bem, frutada.
Ah, e mais: confirmo que, quando vou sozinha ao supermercado, consigo cirandar por onde habitualmente passo a correr e descobrir coisas impensáveis, deveras tentadoras. Assumo: trouxe uma máscara regeneradora. Imagine-se.
Depois do banho, tirei a dita da embalagem e apliquei-a. Olhei-me ao espelho e pensei que deveria fazer uma selfie. Uma legítima múmia. Deitei-me no sofá e por pouco não adormeci, apesar da coisa molhada na cara.
Quando a tirei, fui observar-me ao espelho e, para dizer a verdade, não descobri nada de diferente. Se calhar, não faz efeito à primeira. Também não se pode esperar que uma coisa que custa um euro e picos produza o mesmo efeito que o botox. Se calhar, tenho que reincidir. A ver se me informo qual a periodicidade aconselhada para me mascarar.
Portanto, a tarde foi boa. Claro que trabalhei mas teve estes motivos extra de interesse.
Acredito que não são verdes nem parecidos connosco. Podem ser transparentes, podem ser raios de luz, pode ser qualquer coisa que não se nos assemelhe de maneira nenhuma. Mas pode haver inteligência mas talvez seja uma outra forma de inteligência. Andamos mortos por pôr o pé em Marte sem nos ocorrer que o mesmo pode estar a passar-se com seres de outros planetas em relação a nós. Mais: quem nos garante que não estejam já entre nós? Partículas inteligentes a ouvirem-nos, a rirem que nem umas perdidas com a nossa totozice.
Não tarda, vai ser divulgado pelo Pentágono um relatório sobre ovnis e acontecimentos relacionados com actividade extraterrestres e aí é que vamos todos ficar com a pulga atrás da orelha. A pulga ou um alien -- nunca se sabe. Um alien atrás da orelha, isso é que era, a ouvir tanto como nós, a conhecer todos os nossos segredos, a fofocarem uns com os outros com as coisas que vão ouvindo aqui e ali.
E, aliás, levantando um pouco o véu... quem vos garante que esta que vos escreve não é uma alien?
Estas semanas não andam a facilitar-me a vida. Escasseia-me o tempo e sobram-me os afazeres. Talvez pudesse ser melhor acomodável se fosse espremido, ou seja, se não tivesse que fazer tantos quilómetros por dia, grande parte deles em percursos sempre atrapalhados, desperdiçando anos de vida no trânsito. Consequentemente, nos últimos dias tenho adormecido aqui no sofá nem conseguindo responder a comentários ou a mails. Uma lástima.
Acontece que, a noite passada, o meu marido, que ia levantar-se muito de madrugada, conseguiu acordar ainda mais cedo do que o necessário e foi buscar o telemóvel para o pé da cama. Então, quando o despertador tocou, pegou nele, na cama, e, em vão, tentou desligá-lo. Por razões que me transcendem, não conseguiu à primeira tentativa, à segunda e por aí fora. Ou seja, precisada de sono como sempre ando, acordei a meio da noite com um despertador a tocar, sem parar, ao lado da minha cabeça. Claro que ele achou que isso não era nada de especial, que me virasse para o outro lado e voltasse a adormecer. Como se isso fosse possível, furiosa como estava. Ou seja, essas duas horas de sono sonegadas também não ajudaram nada. E daqui a nada tenho que estar a pé pois é a minha vez de ir passar o dia fora. Portanto, atalhando: é esta a história da minha vida.
Mas isto como intróito a despropósito pois o que que quero mesmo dizer é que, quando ia no carro, para almoçar, e tendo apanhado o enésimo incidente na estrada, num daqueles infernais pára-arranca que me roubam qualidade de vida, me pus a espreitar os blogs da galeria do lado. Note-se: isto nos momentos em que estava parada que eu sou muito respeitadora das regras (de trânsito). E um deles foi o do Eduardo Pitta. E, aí chegada, foi uma epifania. Um novo livro de John Williams, o Augustus. Quem não seja dado a emoções esfuziantes perante casos desta natureza talvez não compreenda o que digo, talvez ache que estou a exagerar. Não estou. Uma alegria, uma adrenalina, uma vontade de tê-lo já, de pegar nele, de o conhecer, de começar já a desfrutar. Já aqui o referi e não me canso de o repetir: o Stoner ou o Butcher's Crossing foram daqueles livros que me agarraram do princípio ao fim e que, em minha opinião, ilustram o que é literatura. Verdadeira literatura. Saber que, afinal, havia outro foi para mim uma superlativa alegria. Portanto, tomada por um entusiasmo trepidante, decidi que ia arranjar um bocado para ir buscá-lo. E assim foi.
Ao contrário das últimas vezes, em que entro na livraria de freio nos dentes, à rédea curta e praticamente com uma venda nos olhos, desta vez entrei com um espírito vitorioso. E, portanto, desencabrestada de alto a baixo, foi para a desgraça. Foi esse e outros que me saltaram para as mãos. Tanto livro bom, senhores, tanto livro bom, tão grande, tão incontornável a tentação.
Hoje não vou aqui enumerá-los pois, como qualquer viciado, até tenho vergonha de confessar uma tão grande recaída. Mas, de entre eles, vou falar em sete livros, da mesma colecção, a que não resisti. 'A casa de quem faz as casas'. Livrinhos sobre as casas de arquitectos. Carrilho da Graça, Gonçalo Byrne, Manuel Graça Dias, etc. Eu que gosto de casas, que gosto de livros de arquitectura, que gosto de ler entrevistas a arquitectos, que gosto de decoração, não podia resistir. Acresce que cada livro custa cinco euros. Um achado. Que vontade até tenho de dar um pontapé para o alto no blog e me pôr aqui a desfolhar estes livros. E isto já para não falar nos outros. O Augustus fica para o fim de semana porque os grandes prazeres têm que ser degustados com tempo, com entrega total.
Vim da livraria ajoujada sob um daqueles big sacos que lá vendem e que pus ao ombro, carregadinho como um tesouro pejado de preciosidades. E de tal forma estava pesado que temi que tamanha desconformidade me provocasse uma tendinite no ombro ou me desse cabo dos joelhos pois, quando ando com grandes carregos, os joelhos por vezes parece que ficam com vontade de dar de si.
Agora à noite, depois de termos ido fazer a nossa caminhada diária, fui ao carro e tentei passar despercebida, tirando de lá o saco como se fosse coisa ligeira. Mas não consegui. Então o cavalheiro foi-se a ele. E ficou passado. Recordou-me a minha determinação em não encher a casa de livros e mostrou a sua estupefacção com o peso do saco. Não tentei desculpar-me. Pequei e como boa pecadora devo assumir a minha culpa.
Agora tenho-os aqui ao meu lado: livros tão bons. Pecado mais bom de ver. E melhor será de saborear.
Entretanto, tenho estado a ler os comentários sobre mindfulness e lembrei-me que seria uma ideia engraçada sentarmo-nos confortavelmente, eu e os caríssimos comentadores, a conversar sobre o assunto. Penso que seria uma tertúlia animada.
Não podendo, vou dizer uma coisa aqui sobre isso: eu sou uma pessoa que quando se embrenha num assunto estou totalmente nele. Quando aqui estou a escrever, o meu marido volta e meia fala comigo e eu não respondo logo. Eu ouço-o mas é como se fosse uma voz de um outro filme, de um filme que me fosse externo. Ouço-o e sei que tenho que responder mas primeiro tenho que sair do mundo em que estou. O meu marido diz que estou em modo blog. Ou quando me ponho a ler ou a fazer tapetes de Arraiolos ou a pintar: toda eu estou naquilo. Ou quando ando, num comprimento de onda muito meu, a fotografar in heaven (e leia-se com um sotaque british para o Francisco não achar que também me baldeei para o lado dos amaricanos). Posso não ser capaz de explicar ou pode ser coisa tão inacreditável que ninguém me leve a sério mas o que sinto nessas ocasiões é que sou bicho, animal saído de dentro da terra, entregue ao prazer de descobrir flores, pedras, a luz através das folhas, a cor de tudo, os cheiros, os sons, e toda eu, inteira, estou ali, parte do todo (justamente, JV, e nem preciso de fazer Ooooonmmmm). E sinto-me tão tranquila, tão bem, tão em paz que acredito que é assim que se sentem as pessoas que fazem meditação. Agora uma coisa é certa: não ando a questionar-me nem procuro encontrar o sentido do que penso ou do que faço pelo que se o dito mindfulness passa por aí então isso não é comigo. Espero nunca chegar ao ponto de não ter outros motivos de interesse que não o que penso ou digo. Gosto de me desconhecer pelo não tenho qualquer curiosidade em interpretar os meus actos ou os meus pensamentos. E isto não que seja assumidamente anfibológica (thanks, bicho-mau, por mais uma palavra nova) mas a ambiguidade, a abstracção e a gradação de cores entre os extremos do espectro são-me atraentes (qual preto e branco, ó ~CC~? Toda eu jorro cores).
Quanto ao ioga, juro que gostava de saber fazer -- mas mais pelos alongamentos e pela elasticidade do corpo -- e o flutuário, bolas, deve ser fantástico -- mas desde que não me fechem dentro daquela cápsula. Se puder flutuar no azul, em silêncio, e sem estar fechada, juro que vou pedir de presente pelo Natal.
E agora, pedindo desculpa por incluir um poema tão lindo no meio do salsifré que é este post, vou transcrever o que o anfibológicobicho mucho mau, a quem muito agradeço, me deixou num comentário lá mais abaixo. Para ler em silêncio.
Pena não poder ser lido de olhos fechados. Ou escutado como quem escuta um lento murmúrio.
Cicio de Amor
Aonde, oh aonde te apressas, tão célere assim?
O arbusto do deserto ao vento suplica.
Triste me sinto aqui.
Não anseias também tu por ir-te,
para longe desta poeira jornadear?
Pleno de desejo sim, mas ai de mim,
por estes pés sojugado.
Aonde, oh aonde, tão célere assim?
Aonde quer que fique meu lar,
longe, longe deste lugar.
Que Deus te guie e proteja,
mas peço-te, por amor de Deus,
cedo p'ra lá deste ermo estejas, a salvo deste grã temor,
segreda à chuva, ao jardim em flor, o meu cicio de amor.
Mohammad Reza Shafii Kadkani
(a partir da tradução inglesa por Pari Azarm Motamedi)
As fotografias referem-se à campanha Rodarte Outono/Inverno 2019 e só estão aqui porque gosto delas. O mesmo acontece com a música que escolhi, Kate Wolf a interpretar Green Eyes: estava a ouvir o Whisper of love e, quando chegou ao fim, passou sozinho para esta que não conhecia e que me soou bem.
Ao abrir a porta, veio aquele ar gélido, quase húmido. Duas semanas sem virmos e a casa ressente-se logo. Escura, triste e muito fria.
Arrumei a comida no frigorífico, fui abrir as janelas.
Depois disse, como geralmente digo, 'vou dar uma volta'. Peguei na máquina e lá fui. O ar bem mais quente do que em casa, um ceu azulinho com algumas nuvens, uma aragem muito leve, um perfume bom no ar, a terra ainda húmida das frescuras da noite. Tudo verdinho, tão bonito.
A perfeição da natureza é uma lição: não é preciso que tudo esteja alinhado, não é preciso que seja tudo da mesma cor para que o conjunto seja harmonioso. Vejo beleza na delicadeza das estrelinhas verdes e macias de que é feito o musgo, vejo beleza na caruma, nos líquenes, nos restos de folhinhas secas, vejo beleza nos contrastes cromáticos. Vejo beleza na paz e no canto dos pássaros que habitam in heaven.
Aproximei-me. Comecei a ver manchas claras. Aproximei-me mais. Uma renda fina. Orvalho.
Fui andando e verificando que nos sítios mais escondidos, junto aos troncos, por debaixo dos arbustos, um pouco por todo o lado havia destas pequenas rendas brancas e delicadas. Pensei: sou ma caçadora de orvalhos. E agradou-me a ideia. Talvez um dia escreva um conto autobiográfico com este nome: a caçadora de orvalhos. Ou talvez a ideia me anime quando, entre vidros e paredes brancas, numa torre asséptica e sem janelas, me sentir aprisionada e cansada,
As gotinhas muito visíveis, a graça de se encontrarem suspensas na cama de caruma e musgo, tudo tão quase invisível.
Depois, uma pintinha branca. Aproximei-me, fui rente ao chão. Um cogumelo ínfimo. Como saem estes bichinhos perfeitinhos e tão frágeis do interior da terra é coisa que sempre me espanta.
Fui então em busca de mais. Desapareceram os gigantes, desapareceram os amarelinhos do outro dia. Aparentemente desapareceram todos com excepção daquele pequenino, ali refugiado junto ao orvalho. Se calhar acabou a época deles.
Mas mantive-me atenta, deslizando silenciosa como uma gata, espreitando a terra. Até que descobri. Lindos, quase da cor da caruma, muito pequeninos, muito elegantes, quase irreais.
E ia eu assim, enlevada, quando ao fundo, na curva, junto ao cedro grande onde a terra é fofa e está coberta de musgo, umas grandes pegadas. E, ao longo do caminho, aquelas marcas. Que bicho grande por ali andou não faço ideia. Depois, em alguns locais, a terra um bocado revolvida. Um bicho a tentar encontrar comida enterrada? A desenterrar raízes? Não sei. Não coloco as fotografias pois não ficaram bem, não se percebem as pegadas pois, sendo tudo terra escura, ficaram com contraste insuficiente. Amanhã tentarei usar flash pois gostava de vos mostrar, talvez alguém perceba o que pode ser.
Depois as marcas desapareceram. Ainda um dia gostava de deixar uma câmara a filmar o que se passa na nossa ausência, em especial de noite. São pegadas recentes, presumo que durante a noite.
Mais à frente, no chão, o que, num relance e vindo eu intrigada com as grandes marcas na terra, algo estranho.
Parecia a cabeça de um monstro vista de perfil, a cavidade do olho, a boca aberta com os dentes à vista. Aproximei-me. Ah... não. A casca de uma árvore. O monstro que anda in heaven não deixou ali a cabeça.
E mais à frente outro espanto. Afiadas como lanças dirigidas ao céu, umas pequenas pontas verdes. Será possível que as folhas das figueiras já estejam a querer despontar? Ou são espadas a que o monstro deita mão quando luta contra nuvens, fazedores de orvalho, pássaros invisíveis?
Também não sei. O que se passa aqui, in heaven, é um permanente mistério. E eu adoro isto, adoro estar aqui, faltam-me é as palavras para o dizer.
Comecei a escrever este post no sábado à noite. Mas estava a escrevê-lo a meio do sono, não lhe dei um fio condutor nem consegui acabá-lo. Ou melhor, tive dúvidas se o que estava a escrever fazia sentido e resolvi deixá-lo em banho-maria.
Agora é domingo e, depois de ter visto um macaco porcalhão e de o ter mostrado em acção, essencialmente para que se veja bem que no melhor pano cai a nódoa -- se é que o pano alemão é coisa que se cheire -- vim aqui espreitar o que ontem deixei a meio. Foi isto que a partir do vídeo com a talentosa Laura Mvula se vê.
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Adormeci a meio da tarde, não sei por quanto tempo dormi. Estava quase a acabar um livro de que estava a gostar mas o calor e o sol levaram-me para outro lado. Gosto de estar a ler e sentir que vou adormecer, é como uma queda lenta num espaço de suave silêncio e sombra.
Entretanto, já acabei a leitura.
Grande livro. Ao princípio não estava muito convencida mas depois, aos poucos, foi ganhando espessura, a empatia com aquele homem foi crescendo. Por vezes, momentos de diversão pura - e quase me lembrei do Murphy. Outras vezes momentos de perplexidade. Outras de profunda melancolia. Outras de pesado desalento.
Gostava de ser capaz de descrever o Oliver. Ocorreu-me dizer que é um vencido mas isso seria redutor. Não sei se é um vencido. Também o Stoner poderia ser descrito como um vencido e, no entanto, isso estaria longe de ser uma boa descrição. Talvez o Oliver tal como o Stoner sejam simplesmente homens normais.
A vida de uma pessoa é feita de opções, a cada momento temos que optar: dizer ou não dizer. fazer ou não fazer. Por vezes, uma palavra basta para nos afastar de uma pessoa ou de um caminho. Todos os dias isso acontece. Mesmo que nada aconteça, o não acontecer é uma opção. Poder-se-ia sempre fazer acontecer alguma coisa, procurar alguém, percorrer um novo caminho.
A vida de Stoner é a vida de um homem que, por vicissitudes e circunstâncias diversas e pela sua maneira de ser, pode ser descrita como uma vida frustrada. Mas a vida de grande parte das pessoas que conheço é isto: podia ser diferente, mas é apenas o que é. A vida de Oliver Orme também. A partir do momento em que ele fala connosco, é uma sucessão de insignificantes acontecimentos que lhe provocaram turbulências interiores mas turbulências que ele enfrenta em estado de negação, ou quase desinteresse ou, sem força ou saber para fazer de outra forma. E, digamos assim, com contenção de esforços. Contudo, por tudo o que se passou, grandes acontecimentos tiveram lugar na vida dos que, directa ou indirectamente, estiveram envolvidos naquele período da sua vida. Grandes acontecimentos para os próprios, fait divers na comunidade em que viviam. Nulos, quando postos numa perspectiva mais ampla. Não conto mais porque não tem graça contar histórias de livros ou filmes.
A verdade é que é uma escrita tão perfeita, tão por dentro dos personagens, que, à medida que o livro avança, já somos nós, leitores, que nos aproximámos deles. O livro, de que, por exemplo aqui, já falei, é A Guitarra Azul, John Banville.
Entretanto, chegámos a casa. Já se jogava a segunda parte do jogo Portugal-Áustria. A primeira parte viemos a ouvi-la no carro. Estava com preguiça, deixei-me ficar a ver o futebol. Uma decepção, e também já disse aqui falei.
Depois de uma bela pizza (de frango desfiado, queijo de cabra, nozes e manjericão, que temperei com um fio de mel), de arrumações, de afazeres e tal, regressei ao bem bom. Já não era a boa espreguiçadeira ao pé da figueira gigante na qual tinha preguiçado de tarde, desta vez o poiso foi o sofá, e já com outro livro, e outro de que também estou a gostar, desta vez sobre um Harry. Um torturado Harry. Talvez o autor se estivesse quase a descrever a si próprio, e talvez que, por esse mundo fora, outros Harrys errem pelo mundo da mesma forma solitária e inconsequente. Talvez alguns ao lerem o livro sintam que estão a ver-se ao espelho e, na companhia da sua imagem reflectida nas páginas de um livro, se sintam menos sozinhos. Talvez. Não sei.
Só que, enquanto lia, com o sono atrasado que acumulo durante a semana e com o calor, aqui reclinada no sofá, com a luz do candeeiro em cima, fui de novo transportada para o reino dos sonhos.
Agora, acordada e vagueando entre sonos, apeteceu-me voltar a escrever mas estou a escrever quase deitada, o computador em cima de mim, a fazer-me calor. Tinha pensado transcrever um excerto deste livro mas não vejo como, nesta posição.
Pensei, então, em escrever sobre a calamidade que grassa pelo Brasil, a humilhação pública, o descalabro, a confissão de que estão sem dinheiro para acabar as obras para os jogos olímpicos, que alguém faça alguma coisa, o desespero expresso perante a comunidade nacional e internacional. Uma vergonha sem tamanho, coitados. Depois, o governo a dizer que ajuda. E uma pessoa pensa: mas então aqueles malucos lançam uma bomba daquelas sem antes se articularem com o governo? Pensar que o Brasil, não há muito, era um eldorado prenhe de amanhãs que cantavam... Mas custa-me falar disso. É daquelas situações em que certamente toda a gente prefere 'entregar para deus' e esperar que, mesmo sem saber como, tudo se resolva.
Também pensei que devia ir passar as fotografias de hoje para o computador. Vi uma coisa que me perturbou e fotografei ao de leve mas agora estou na dúvida. Não me apetece falar nisso. Nunca tinha visto tal coisa, incomodou-me mesmo.
Aliás, acho que agora vou dormir. Vou guardar isto e logo vejo se apago se publico.
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E foi aqui que fiquei na madrugada de sábado para domingo, seriam talvez umas duas e tal da manhã, nem sei.
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Entretanto, este domingo fomos à praia. Muito boa a praia, boa, boa mesmo. Caminhámos pela beira da água, a água nada fria. Havia um cheiro intenso a maresia. Um banho de vitalidade. E algumas fotografias. Mas continuo preguiçosa, sem passá-las para o computador. Apetece-me ir ler um pouco mais, ficar por aqui a descobrir os transtornos do Harry.
Mas foi um dia muito tranquilo, este domingo.
A semana que me espera está cheia de enigmas e eu tenho cada vez menos tempo livre. Não sei como vou conseguir continuar a escrever como até aqui, como se não houvesse amanhã. Se calhar terei que abrandar. Talvez vão notar alguma diferença. Não será desinteresse nisto de escrever no Um Jeito Manso, será pura necessidade de descansar um pouco mais.
Naquilo das bifurcações de que a vida é feita, eu opto geralmente pelos caminhos mais arriscados, de preferência desconhecidos, e gosto de entrar sem manual de utilização, sem recomendações, sem quaisquer preconceitos, livre de influências, Talvez também por isso, ande quase sempre motivada -- como quando, aos quatro anos, entrei para a pré-primária e conheci muitos meninos e meninas, professoras, brincadeiras novas, ensinamentos inesperados, e tudo me interessava, tudo me seduzia. Ainda é assim.
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Novos começos
[Dedicado a todos quantos ainda não sabem que todos os dias são bons dias para novos começos]
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Lá em cima Laura Mvula interpreta Sing to the Moon
As fotografias que escolhi para ilustrar o texto pertencem à série "Glas" de Ingar Krauss
O bailado é New Beginnings pelo New York City Ballet, a partir da coreografia After the Rain de Christopher Wheeldon. A música é talvez a que já aqui mais vezes figurou, Spiegel Im Spiegel de Arvo Pärt, que vem bem a propósito das fotografias e, de certo modo, com parte do texto. Os bailarinos Maria Kowroski e Ask la Cour dançaram ao nascer do sol no terraço de um 57º andar em Manhattan,
À hora a que publicar este texto estarei sem computador, no país profundo, longe de casa. Não terei ouvido notícias, pouco saberei do que se passa no país, quanto mais no mundo. Estou, por estes dias, num retiro. Não será propriamente um retiro espiritual mas, ainda assim, é um retiro. Como sempre, não conseguirei fazer nem um pouco de turismo - e se eu gosto destes sítios por aqui, de passear nas ruas, de me sentar numa esplanada. Mas não me será possível.
À hora a que vocês, Caros Leitores, estiverem a ler isto, estarei eu ou a dormir ou a ouvir outras pessoas dizendo de sua justiça. Como essas pessoas estarão, certamente, a dizer coisas interessantes, não estarei, nessa altura, a dormir. Terei já encontrado gente que não via há algum tempo, sorriremos, gostamos sempre de rever amigos, conhecidos. E teremos comido manjares feitos por deusas, teremos elogiado a comida, sempre tão boa.
Como sempre terei comigo um livro. Desta vez será Butcher's Crossing de John Williams, livro em que pegarei a medo. Quando se gosta muito de um escritor, não se lhe deve exigir demais.
É como gostar de um blog: a gente deve deve dar tréguas ao seu autor, não esperar que esteja sempre nos seus melhores dias, deveremos perdoar-lhe se o virmos preso no seu labirinto. Mesmo quando a gente sabe que ele é bom e tem a certeza que um dia será capaz de fazer ainda melhor, a gente não deve mostrar-lhe que espera, a gente deve dar-lhe largueza, tempo.
Stoner é um livro excepcional. Não era, pois, minha intenção voltar tão cedo ao seu autor, queria esquecer-me de como tinha escrito um livro tão incomum, queria que, no dia em que a ele voltasse, fosse já sem memória daquela escrita seca, no osso, que tanto me prendeu. Mas, como sempre, constatei que sou fraca. A verdade é que não gosto de contrariar os meus apetites. Não me preocupo por não ser forte, preocupo-me é se não for de encontro ao que puxa por mim. Saíu este livro e nem pensei mais nas minhas boas intenções, comprei-o logo. Esperar por amanhã...? Ná, isso não faz o meu género. Mas tomara que não esteja a lê-lo e a pensar que o outro livro lhe saíu melhor, tomara que não, porque é absurdo fazer esse tipo de comparações.
Mas, dizia eu, terei comigo o livro. Dúvida, dúvida será se terei lido alguma coisa. Nestas ocasiões nem sempre se volta ao quarto de hotel, tarde e más horas, com disposição para grandes leituras, ainda para mais sabendo que, no dia seguinte, a alvorada será ao raiar da alba.
Antes de o guardar na mala, terei espreitado o início e o fim. Gosto sempre de começar por aí, pelo fim.
Tendo em conta a direcção indefinida que tomara, não sabia para onde ia, mas sabia que com o correr do dia o destino lhe viria à mente. Avançava sem pressas, sentindo atrás de si o sol que despontava vagarosamente e endurecia o ar.
E terei lido que John Williams (1922-1994) escreveu apenas quatro romances, este em 1960. O Stoner foi escrito cinco anos mais tarde que este Butcher's Crossing. E terei lido também que era neto de agricultores, criado no Texas, que trabalhou em rádios e jornais até se alistar na Força Aérea em 1942. E que esteve destacado na Índia e na Birmânia até ao fim da Segunda Guerra Mundial. E que estudou na Universidade de Denver e que concluiu na Universidade de Missouri o doutoramento em Literatura Inglesa. E que regressou a Denver onde conciliou a vida académica com a literatura até se retirar em 1985.
E terei olhado o seu rosto e terei pensado como é fácil perceber pelo rosto de um homem como é a sua natureza: de um John Williams de feições fortes, quase telúricas - que certamente não vestiria fatos de riscas ou camisinhas afectadas, com botões de punho - não se poderia jamais esperar uma escrita fútil, com artifícios ou efeitos de estilo.
Sobre este livro, leio na contracapa:
Em 1870, Will Andrews chega a Butcher's Crossing. É jovem, fartou-se de Harvard, quer descobrir na natureza o seu 'eu inalterado'. E naquele vilarejo, num Oeste prestes a ser domado, encontra o seu mentor: Miller, um caçador de poucas falas, que conhece o refúgio da última grande manada de búfalos.
Seduzido pela promessa de aventura, o protagonista junta-se à expedição. Serão quatro homens em marcha, por terra bravia, numa luta épica contra o tempo, a sede e os elementos. Até que chegam ao vale, um paraíso perdido povoado por milhares de búfalos. O que se segue é uma carnificina, o batismo de sangue de Will, a sua viagem iniciática ao coração das trevas.
Que, desde que o vi, este livro chamou por mim é um facto. Que a primeira impressão que me causou é marcante como devem ser as primeiras impressões também. Veremos como progredirei nele. Depois vos darei conta.
Finalmente: talvez à hora a que publicar isto já se saiba o que decidiu Cavaco Silva. Não é coisa que me interesse muito. Cavaco foi ultrapassado pelos factos. Tal como a gente da coligação PàF se diz perplexa com o que está a acontecer, também Cavaco ficou preso nas teias de aranha que habitam a sua mente. A hora de Cavaco Silva está, pois, prestes a extinguir-se. O País atrasado, cavaquista, pafiano, acabou. Pode não ter acabado hoje mas está a caminhar inexoravelmente para o fim. São personagens já fora da história, com o seu quê de patético.
O futuro contará com aqueles que têm um olhar novo sobre o mundo, gente que percebe que o tempo que conta é o que está por vir e que o futuro somos nós que o fazemos, segurando as rédeas do destino nas nossas mãos -- e que os dias que temos pela frente são um campo aberto.
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As fotografias são de Marcin Sobas e mostram um lugar maravilhoso: Moravia na República Checa.
A música é Happiness does not wait - Olafur Arnalds
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma sexta-feira muito feliz.
No post anterior já vos falei de uma tentação que temo bem que possa tornar-se um vício. Ora já sabem que não sou mulher de virar as costas a uma boa tentação. Por isso, vamos ver como, daqui para a frente, vou conseguir conjugar este prazer que é bem capaz de passar a ser um prazer diário com esta minha devoção, a de vir aqui dar-vos conta do que me vai na cabeça.
Mas, enfim, sobre isso falo a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. O prometido é devido.
My one and only thrill
No seu quadragésimo terceiro ano de vida, Stoner aprendeu o que os outros, muito mais jovens do que ele, tinham aprendido antes de si: que a pessoa que amamos no início não é a mesma que amamos no fim, e que o amor não é uma meta e sim um processo através do qual uma pessoa tenta conhecer a outra.
Na sua mocidade, Stoner imaginara o amor como um estado absoluto do ser ao qual uma pessoa, se tivesse sorte, podia aceder um dia; na idade adulta, decidira que era o paraíso de uma falsa religião, que uma pessoa devia encarar com uma divertida incredulidade, um suave desprezo familiar e uma nostalgia embaraçada. Agora, na meia idade, começava a perceber que não era nem um estado de graça, nem uma ilusão; via-o como um acto humano de transformação, uma condição que era inventada e alterada de momento para momento e de dia para dia, através da vontade, da inteligência e do coração.
Por vezes, na preguiça ensonada que os assolava depois de fazerem amor, ele ficava deitado num fluxo lento e suave de sensações e pensamentos; e, nesse fluxo, nem sabia se falava em voz alta ou se reconhecia simplesmente na sua mente as palavras que traduziam essas sensações e pensamentos.
A vida que tinham juntos era uma vida que nenhum deles imaginara verdadeiramente. Passaram da paixão a um desejo intenso e do desejo a uma sensualidade profunda que se renovava a cada instante.
- Desejo e saber - disse Katherine, uma vez. - No fundo, é só isso que importa na vida, não é?
E Stoner teve a sensação de que era exactamente verdade, que era uma das coisas que aprendera.
Começou a sentir por Edith um curioso sentimento que raiava o carinho e até conversavam, de vez em quando, sobre tudo e sobre nada.
Era preciso fazer um esforço para se lembrar de que estava a enganar Edith. As duas partes da sua vida eram tão distintas uma da outra como o podem ser as duas partes de uma só vida, e embora soubesse que as suas capacidades de introspecção eram fracas e que era capaz de se autoiludir, não conseguia acreditar que estivesse a fazer mal a alguém por quem sentisse que tinha responsabilidades.
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O texto acima é um conjunto de excertos não sequenciais do livro Stoner do qual já ontem falei, da autoria de John Williams. Como penso que é fácil perceber, Katherine é a amante, Edith a mulher do professor William Stoner.
A música é Melody Gardot interpretando My One and Only Thrill
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Relembro: sobre a série Borgen que começou a sua exibição na RTP 2 esta segunda-feira, que será exibida todos os dias úteis das 22:00 às 23:015 e que promete, falo no post já a seguir.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.
Espero que para mim e, em especial, para uma pessoa que me é muito querida também o seja.