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domingo, novembro 22, 2020

O congresso do PCP e o encontro de profissionais das artes no Campo Pequeno: descubra as diferenças
-- E, ainda, o imperdível comentário de um ciclista extraordinaire a propósito de uma infalível "receita para a desgraça" --

 


Ao ouvir as perguntas de alguns jornalistas no fim da conferência de imprensa durante a qual António Costa explicou as medidas para os próximos quinze dias, voltei a pensar que deve ser preciso ter muita paciência para aturar gente que parece não perceber nada de nada e que não se coíbe nem um bocadinho em mostrar a futilidade em que se movem.

Perante a imprevisibilidade do que está a passar-se, parece que ninguém se preocupa a sério com as tremendas dificuldades pelas quais todos os profissionais ligados à saúde estão a passar, a lidar com um fluxo crescente de doentes que não é compensado pelos que se curam, em que muitas vezes devem desejar que alguns morram mais depressa para haver vaga para acudir aos que entram. Ninguém pergunta se há tratamentos que estejam a provar bem ou se não há receio de efeitos secundários, ninguém quer saber sobre quais as instalações e pessoal de recurso para quando falharem as vagas em todos os outros hospitais. Ninguém quer saber das investigações em curso em Portugal para se ter produção de vacinas ou tratamentos. Ninguém quer saber de nada de relevante. Apesar de ter sido pacientemente explicado pelo Costa que as medidas são aferidas regularmente face à evolução dos números e ao conhecimento que se tem das circunstâncias, o que a maioria dos jornalistas quis saber foi o que vai acontecer daqui por um mês, pelo Natal. Ou, então, depois do Costa ter lido a legislação e explicado que o Presidente e o Governo estão limitados face ao que podem fazer no caso do Congresso do PCP, o que queriam saber era se o Governo não achava mal ou se isto e aquilo.

Uma futilidade que até dói.

De cada vez que o PCP quer organizar alguma coisa, levanta-se uma onda de indignação empolada pela comunicação social que até parece que estão a querer andar a espalhar covid pelos próprios e pela população circundante. Já quando foi a Festa do Avante foi a mesma coisa. Depois o que se viu é que aquilo até foi uma coisa triste, quais gatos pingados meio abandonados, pelos cantos, afastados -- sem qualquer risco. Agora, em Loures, deve ser a mesma coisa: máscaras, afastamento, sem drama. As pessoas do PCP podem não ser especialmente criativas, podem não ser capazes de perceber l'air du temps e ter o golpe de asa para dar corpo a novas preocupações e tendências, mas são pessoas responsáveis, honradas e sérias. O seu historial deve merecer-nos respeito. 

E eu, ao ouvir a fixação daqueles jornalistas todos a fazerem marcação cerrada em cima do Costa por causa do congresso do PCP, só me perguntei se aquela gente não sabe que mais de 1.000 pessoas ligadas ao mundo do espectáculo estiveram, este sábado, reunidas no Campo Pequeno

Tanta histeria por causa das pessoas do PCP e depois silêncio e desinteresse totais perante o facto de o dobro das pessoas terem estado juntas no Campo Pequeno? 

E, note-se, não tenho nada contra isto do Campo Pequeno. Primeiro, percebo a sua preocupação. O mundo das artes está em desintegração. Não sei se alguma vez voltará a ser o que foi. Não faço ideia. Imagino que tenham que ir pensando em reinventar-se. Espectáculos como antes não sei quando voltará a haver. Ou se voltará a haver. O mundo está a mudar para toda a gente. Mas, enquanto muda e não muda, são muitos os que estão com os pés no ar, sem chão. Muitos ou quase todos. Percebo que tenham que reflectir em conjunto e, em conjunto, pedir a atenção dos outros. Tempos complexos para quase toda a gente. Mas agora o ponto nem é esse: o ponto, o segundo, é se, estando tanta gente junta no mesmo recinto, não houve risco agravado de contágio. Vi-os. Estavam de máscara, afastados. Diria que sem problema. Mas se isto é sem problema para uns, tem que ser sem problema para todos. Para mim, que os artistas tenham estado no Campo Pequeno não é problema tal como não será que as pessoas do PCP se reúnam, cumprindo as directrizes da DGS.

Nisto dos ajuntamentos, o problema não é propriamente o número de pessoas: é a forma como estão juntas. Se não houver abraços, brindes, festança, malta sem máscara à mesa em animadas almoçaradas (como há nos casamentos, aniversários, despedidas de solteiros, baptizados, etc) e se o espaço estiver bem ventilado, então, em princípio não deverá haver problema. A menos que o problema, para quem tanto se insurge, seja o de serem comunistas. 

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Ao ler o comentário ao meu post O perigo dos burros em tempos de pandemia do ciclista extraordinaire que habita lugares de onde se avistam os mais largos horizontes, achei que tinha que puxar para aqui as suas palavras que são palavras de quem sabe do que fala.

Carl Sagan, afirmava que vivemos numa sociedade absolutamente dependente da ciência e da Tecnologia (grandes motores da civilização e do bem-estar) mas que a maioria das pessoas é ignorante nestes assuntos. Ou seja, uma receita para a desgraça.

Em regra, até aqui passava para a sociedade conhecimento testado, verificado, com potencial de previsão e que era globalmente aceite pela comunidade científica. Isto leva tempo. O que se passou com o SARS-Cov2 foi o processo científico em directo nos média, “live”.

Seria preciso perceber o processo científico, os avanços, os ziguezagues e os becos sem saída, a validação e reprodução pelos pares, para a maioria das pessoas compreender o que se está a passar. Sobretudo perceber que informação não significa conhecimento. Informação pode ser um código zero/um. E também que o conhecimento é parcial, nunca absoluto e que a ciência é o domínio da dúvida, do cepticismo, da permanente correcção. Não afirma o que está certo ou o que está errado mas o que se conhece com graus distintos de certeza. Se a isto juntarmos, a divulgação da informação feita por leigos, a vaidade de alguns investigadores à procura de notoriedade mediática, a competição entre as big pharma (fazer ciência custa muito dinheiro) e os especialistas do “achismo” e do “bitaitismo” (para não mencionar os charlatães) a mandar as suas postas por todo o lado, o cenário para a confusão fica muito bem composto.


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E uns passinhos de dança para entrar no domingo com leveza

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As fotografias provêm do Guardian que dá conta da curiosa iniciativa: Artists reinvent the mask – in pictures

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Desejo-vos um feliz dia de domingo
 

sábado, novembro 21, 2020

O perigo dos burros em tempos de pandemia

 



Quanto mais ouço os ignorantes a quem as televisões põem um microfone à frente mais me agonio. As televisões e as redes sociais são um perigo, estão cheias disto. Obama diz que a internet é um dos maiores riscos para a democracia e eu concordo. Charlatões e ignorantes são do pior que há. Não percebem nada, deturpam o que ouvem, propagam aldrabices e parvoíces de toda a espécie  -- e, pior, falam muito, falam em todo o lado; e o pior é que, quanto mais disparates dizem, mais os outros gostam de ouvir. O espaço público está invadido por parvoíces, asneiras, maldades. Em vez de haver opinião informada, sensata, há um ruído de fundo que inflama descontentamentos, descrenças, que alimenta a apetência por discursos simplistas, populistas.
Por exemplo, a que propósito (ou com que propósito) contratam um João Miguel Tavares desta vida? Alguma vez gente desta diz alguma coisa que se aproveite? Palermas que falam do que não sabem, que não sabem pensar, que opinam usando as patas e não os neurónios para tentar raciocinar. Mesmo o Ricardo Araújo Pereira, que é culto e não é burro, para que é que é contratado para dar opinião? Por vezes lá diz alguma coisa de jeito, em especial quando contraria o JMT, mas, na maior parte das vezes, cede à mais soez e gratuita maledicência na ânsia de apelar ao riso fácil. Falei destes mas são estes e mais dezenas deles e delas. As televisões cheias. E imagino as barbaridades que grassam nas redes sociais. Uma poluição insuportável.
Tudo o que é mentecapto gosta de ter de que dizer mal. Como nunca conseguem ver a floresta, vão andando às cabeçadas de árvore em árvore e, claro, vão acusando cada árvore em que se espetam. Não percebem que o problema é deles que não sabem orientar-se, que não conseguem ver; não conseguem perceber que, se forem de encontro a elas, se vão magoar. É escusado. Não percebem. Assim são os burros: por mais que a realidade lhes entre pelos olhos adentro eles não percebem.

Nisto da covid não há conhecimentos para poder dizer uma coisa hoje e dizer a mesma coisa passadas duas ou seis ou doze semanas. Há cientistas a seguir diversas linhas de investigação, por todo o mundo. Andam às apalpadelas. E é normal que andem. Este vírus é novo e, ao que parece, com um comportamento algo atípico. Por uma questão de partilha (a ver se, em rede, se chega lá mais depressa), as pequenas conclusões, algumas certas, outras nem tanto, vão sendo conhecidas. Mas alguém, a esta altura do campeonato, sabe alguma coisa ao certo? Creio que não. À medida que se vai sabendo mais algumas coisinha, vão-se adaptando as instruções. É o melhor que se consegue fazer.

Mas os burros não percebem isto. Os burros acham que o corona veio com manual de instruções. Ao fim de todo este tempo, ainda não perceberam que não. 
Por exemplo, ainda não se sabe porque é que, numa mesma casa, dos quatro habitantes, o marido, quarenta e tal anos, está positivo e seriamente doente, a mulher, da mesma idade, positiva e apenas doente, o filho positivo e completamente assintomático e a filha negativa. E isto está a acontecer com uma conhecida, tudo gente longe de pertencer a grupos de risco, saudáveis, com vidas saudáveis. O que há neles que os leva a que, perante o contágio, os seus corpos reajam de maneiras tão distintas? Ou porque é que um jovem médico, menos de quarenta, saudável e forte, e que trata todos os dias, desde há meses, doentes covid, sabendo os do's e os dont's e como tratar-se quando a coisa aperta, está agora seriamente doente? Que conclusão é que os burros, que sabem tudo, retiram disto? Face a isto, se fossem governantes, que recomendações emitiriam que fossem válidas para toda a população in saecula saeculorum?
Acham que a directora da DGS, antes que qualquer outra pessoa no mundo, deveria saber como prevenir o contágio. Não percebem que se os sinais e as recomendações da OMS vão num sentido, à falta de melhor informação é nesse sentido que se deve recomendar que se vá. Se, passado algum tempo, os cientistas e as evidências apontam noutro sentido, então é nesse sentido que as recomendações devem passar a ir. A isto chama-se inteligência. Ora, como é sabido, a inteligência é algo a que os burros têm aversão. Por isso, mal vêem qualquer coisa que não percebem, a primeira coisa que fazem é zurrar e dar coices.

Os burros acham que não: acham que se antes se pensava uma coisa, então, para não se sentirem baralhados, é nesse sentido que se deve continuar. Os burros não percebem que a coerência -- ou melhor, a inteligência --, quando se navega por mares nunca antes navegados, é ir ajustando a rota.

Os burros não percebem outra coisa: não percebem que quem governa tem que tentar traçar a bissectriz entre múltiplos vectores: o da saúde pública, o da economia, o dos recursos existentes, o da estabilidade social. Etc. Os burros não percebem -- porque geometria ou cálculo vectorial não é com eles -- que encontrar uma bissectriz nestas circunstâncias é impossível e que o melhor que se pode conseguir, em contexto de geometria variável, é ir fazendo iterações.

Os burros não percebem que isto, o que está a acontecer, esta pandemia, não é uma coisa simples que eles possam compreender. Se nem os inteligentes e estudiosos compreendem, como podem eles compreender? Portanto o que se espera é que os responsáveis pela comunicação social não dêem palco aos burros, sejam eles comentadores, comunicadores ou simples amadores. Numa altura destas, o ruído e a poeira só servem para atrapalhar.

E depois há alguns políticos. Refiro-me agora, em concreto, aos burros. Acham que há aqui matéria para se armarem em revolucionários -- como se a saúde pública em caso de emergência fosse tema com que se brincasse às liberdades. São uns irresponsáveis e, em matérias destas, a irresponsabilidade é imperdoável. 

Se não tivesse havido estas medidas mais restritivas que o estado de emergência permite, dentro de dias estaríamos com mais de dez mil infectados por dia e com o dobro no mês seguinte. Não há camas, não há médicos, enfermeiros, técnicos ou ventiladores que cheguem para acolher quem precisa numa extensão desta ordem de grandeza. Mesmo assim, com estas medidas e com estes números, a situação é dramática e mais dramática ainda vai ficar.

Os burros acham que a culpa é do desinvestimento no SNS. Burros. Não há -- nem aqui nem em alguma parte do mundo -- sistema de saúde apto a lidar com uma pandemia como esta, caso extremo, de dimensões imprevisíveis. Os recursos dimensionam-se -- aqui e em qualquer parte do mundo -- para as situações médias, admitindo-se a possibilidade de escalar dentro de percentagens razoáveis. Mais do que isso é desperdício. E o desperdício sai dos bolsos de alguém, mormente do dos contribuintes.

Um hospital é um edifício físico. Tem lá dentro enfermarias, espaços para cuidados intensivos, blocos cirúrgicos, salas de recobro, etc. Quando se intensificam os doentes, há alguma elasticidade. Por exemplo, há corredores  onde se podem ir pondo macas ao lado umas das outras. Até caberem. Mas, como não se quer misturar doentes covid com doentes não covid, a elasticidade não é tão grande quanto isso. Podem ainda montar hospitais de campanha no lugar de estacionamento. Certo. E os enfermeiros, médicos para tudo? Dizem os políticos burros e as histéricas do costume: contratem-se. Boa. Onde? Há médicos e enfermeiros no desemprego? Não me parece.

E quando há médicos, enfermeiros e técnicos infectados ou em quarentena e as equipas começam a diminuir? O que se faz? Vai buscar-se ao privado? Boa. E os doentes que estão nos hospitais privados? Vão para casa? Ou deixamo-los morrer? Ou será que os burros pensam que quem vai para os hospitais privados são só os ricos e, portanto, não há mal nenhum se quinarem? Se é isso, explico: sabem que os funcionários públicos, via ADSE, frequentam os hospitais públicos? Ou que as empresas pagam seguros aos seus funcionários e eles, mesmo os de mais baixos recursos, vão a hospitais privados? 

Agora mesmo ouvi um burro a dizer que acha mal que Marcelo tenha falado na 3ª vaga de covid lá para Janeiro ou Fevereiro. Insurgia-se, dizia que sabe lá o Marcelo se vai ou não haver uma terceira onda. Mas eu -- que não sou cientista nem bruxa -- daqui posso assegurar: se se aliviarem as medidas, nomeadamente se a malta puder dar largas aos afectos e desatar a matar saudades com ceias, abracinhos e todos juntos a abrirem os presentinhos no Natal, de Janeiro para Fevereiro a coisa dá um pinote que vai lá, vai. Chame-se terceira onda, pinote da curva ou desgraça da grande tanto faz, é uma questão semântica. 

Agora uma coisa eu continuo a dizer. Continuo a achar mal -- e aí critico Governo e Presidente da República -- a não existência de campanhas de divulgação em força, básicas, que entrem pelos olhos adentro dos burros e dos distraídos, e concertando-se com os canais de televisão para que haja uma permanente atenção a comportamentos de risco. 

Continuo a ver montes de gente de nariz de fora. Se o contágio nasce sobretudo de quem tem a boca de fora da máscara, seja porque falam, bocejam ou o que for, porque se expele com maior vigor pela boca, projectando as gotículas, o contágio dá-se, certamente, em quem tem o nariz de fora. Portanto, quer para evitar contagiar quer para evitar ser contagiado, o uso da máscara tapando boca e nariz é essencial, sobretudo quando se está em espaços fechados ou em espaços muito povoados, mesmo que ao ar livre. 

Hoje vieram entregar uma coisa cá a casa. O rapaz que a veio trazer não usava máscara. Quem o atendeu foi o meu marido que, quando lhe agradeceu, recebeu de volta uma tentativa de aperto de mão. Um caso entre tantos. Mesmo agora vejo nas televisões programas de debate em que não há distanciamento nem separadores de acrílico e, claro, não há máscara. Que exemplo estão a dar? 


Mas, enfim, vinha para aqui hoje para me divertir e não para isto. Mas passei pelo Expresso da Meia-Noite, pelo O último apaga a luz e pelo Governo Sombra e o que vi e ouvi tirou-me do sério. Mas também quem me manda a mim armar-me em masoquista? Querem lá ver que, na volta, a burra sou eu...?

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Não vá dar-se o caso de acharem que as imagens e a música lá de cima não são suficientes para não darem a vossa visita por perdida, permitam que partilhe mais um vídeo, desta vez com um pouco de dança. 

Nederlands Dans Theater (NDT) | Medhi Walerski -- 'SOON’ 
(sobre a voz de Benjamin Clementine)

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As pinturas são da autoria de Luigi Ontani e vêm na companhia de Bill Fay com Never Ending Happening 

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E um bom sábado.
Saúde. Força. Alegria.