Este sábado, depois da manifestação, tive um programa familiar com baby sitting até tarde pelo que só cheguei a casa à uma da manhã, incapaz de fazer outra coisa que não dormir como uma pedra. Este domingo, durante o dia, também não me foi possível chegar aqui. Só agora o consigo.
Tirei centenas de fotografias pelo que seleccionar algumas para vos mostrar não é tarefa fácil. Uma vez mais refiro que, se alguma das pessoas que aqui aparece não o autorizar, bastará que me escreva que eu retirarei a respectiva fotografia.
O que foi aquele mar de gente já todos o viram pelo que, uma vez mais, vou tentar fugir às visões panorâmicas e tentar aproximar-me das pessoas. Aqui como lá, são as pessoas e o que significa a presença de cada uma na grande manifestação de cidadania que se viveu este sábado, que mais me interessa.
Não sou comedida, é sabido, pelo que o programa de festas puxou um pouco pelo físico. Partimos de Santos a pé, deveriam ser umas três da tarde e, daí até às oito e meia não parámos. Presumo que tenhamos feito uns seis quilómetros (mas quem anda de gosto não se cansa - e foi o caso).
Começámos por subir a D. Carlos I. A Assembleia estava tranquila, claro. Contudo, alguns carros da polícia mostravam que estavam preparados para o que desse e viesse.
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A Assembleia da República protegida por grades e em estado de alerta |
Depois, ali para as bandas de S. Bento, uma inscrição numa parede fazia a pergunta certa nestes dias de violência contra os portugueses.
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Até quando vais ser ovelha? |
Nas ruas todos os caminhos iam desaguar no Marquês. Descendo a Alexandre Herculano via-se a Fontes Pereira de Melo cheia de gente, o Marquês cheio.
Famílias com crianças, gente de meia idade, gente de muita idade, gente em cadeiras de rodas, gente improvável em manifestações até há poucos meses atrás.
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O descontentamento saíu à rua |
As pessoas fizeram os seus pequenos cartazes, as suas própria formas de manifestar o seu descontentamento e eu acho isso maravilhoso: as pessoas estão a desinibir-se, estão a sair de casa, começam a exprimir o seu aborrecimento ou desespero.
Por essa altura já a Avenida da Liberdade estava cheia. Um mar de gente. A criatividade estava patente em incontáveis pequenos cartazes. Mas a mensagem era comum: toda a gente está farta de tanto abuso, toda a gente está descontente, toda a gente perdeu o respeito a esta gentinha que nos (des) governa.
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FODA-SE: Fora Os Déspotas Agiotas - Serviços de Empobrecimento! |
Os muitos milhares de pessoas que, em uníssono, em sintonia, desciam a Avenida da Liberdade eram formados por gente de todos extractos sociais e níveis etários. A maioria seria gente da classe média, a classe média que está a ser perseguida, ofendida, espoliada. A classe média que, em parte, costuma votar no PSD e no CDS.
Encontrámos conhecidos, colegas, gente que nunca se imaginaria ver numa manifestação. Mas estavam lá, 'tem que ser', diziam, 'isto assim já não vai lá'.
No sábado à noite, quando os meninos já dormiam, ouvi no Eixo do Mal o Pedro Marques Lopes (anteriormente apoiante de Passos Coelho) dizer que tinha lá estado pois considerou importante demonstrar que esta não foi uma manifestação de esquerda. E contou que muita gente se lhe dirigiu a mostrar o cartão do PSD ou dizendo-lhe que tinha votado no PSD mas que agora estavam indignados, queriam que fosse posto cobro a isto.
Esta foi, pois, uma manifestação de todos. E muitas crianças: uma das gerações ameaçadas, filha de pais e avós ameaçados. Deviam ser o futuro e tudo deveria ser feito para que o seu futuro fosse vivido em Portugal.
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Não somos lixo, somos o futuro!! |
E vinham os grupos ligados à Saúde, os ligados ao Ensino, os Precários, o pessoal da RTP.
E uns seguravam cartõezinhos encarnados, outros seguravam as folhas escritas em casa. Todos juntos, falando a uma só voz. O povo unido jamais será vencido. O povo unido jamais será vencido.
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Se emigrarmos, quem cuidará de Portugal?
Emigra tu, Coelho! |
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A política não pode continuar na mão de 'habilidosos', corruptos, medíocres. Basta!
A austeridade tem limites. Haja decência, haja sensatez! Haja vergonha! |
É preciso lutar de novo, lutar sem parar, para que volte a ser do povo tudo o que nos estão a roubar.
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Os números do Pedro:
6.500 milhões de euros para recapitalizar a banca, 1.400.000 desempregados, queda do PIB em 3.2%, 100.000 portugueses que emigraram, 1672 tentativas de suicídio em 2012 |
Ao contrário do que ouvi o Prof. Marcelo dizer há pouco, não achei que as pessoas estivessem tristes. Não. Acho que as pessoas estavam unidas, determinadas, por vezes emocionadas.
De repente, as pessoas perceberam que têm voz, que as ruas são suas, que há muitas na mesma situação de descontentamento e revolta.
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Investigo. Logo trabalho. |
E, de repente, toda esta gente, muita gente, que vem para as ruas sente-se à vontade para dizer o que pensa. Novos, velhos, ricos, pobres, brancos, pretos, saudáveis, doentes. Todos iguais.
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Ulrich não aguentamos sustentar-te
Professor Karamba a Ministro das Finanças |
E viam-se famílias inteiras, do avô ao neto, grupos de amigos, foliões, amigos de idade, gente sozinha. A rua a todos acolheu. O povo. O heróico povo. O nobre povo.
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Heróis do Mar, nobre Povo |
Claro que havia muitas caras conhecidas, de todos os quadrante. Não as mostro aqui porque estavam lá não como figuras públicas mas como cidadãos em revolta. Mostro apenas uma delas porque vi que estava a ser entrevistada.
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Catalina Pestana, apoiada na sua bengala, fala com Pedro Moutinho da SIC |
E, depois, via-se como algumas pessoas tinham trabalhado para trazerem para a rua uma mensagem mais elaborada e como faziam questão de mostrar ao mundo a sua visão dos tempos que correm. E chega a ser tocante a forma como certamente trabalharam em casa para mostrar um trabalho bem feito.
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"A obediência dos povos é a fome dos tiranos", Agostinho da Silva |
E eu ia descendo a Avenida. Um mar de gente. Um mar. Mais à frente os chapéus de chuva da APRE! cobrindo muitos cabelos brancos. Muita gente de muita idade. Gente com bom ar. Os que contavam que o Estado honrasse os seus compromissos e que contavam ter uma velhice digna, usufruindo do que tinham contratado e agora apontados como uns parasitas usurpadores. E gente humilde. E gente certamente a a atravessar sérias dificuldades. E gente emocionada por ver a força que a união faz.
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APRe! Não somos descartáveis |
Nem todos protestavam contra o Governo (embora a maior parte o fizesse): alguns protestavam contra Cavaco Silva.
Aliás, um dos aspectos mais claros neste protesto é que a indignação das pessoas é em primeiro lugar contra os membros deste Governo, mais até do que contra a Troika ou o FMI - embora se ouvisse, de vez em quando, FMI, fora, fora daqui! FMI, fora! Fora daqui!
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Os cortes não são para todos
O que ganham os que nos cortam:
Presidente da República
7.630 de ordenado + 3.052 de despesas de representação
Acabem com elas! |
E, claro, para além das mensagens de protesto, mais ou menos explícitas, havia também elegância, irreverência, beleza, carisma, pinta.
Sem comentários, alguns exemplos, antes de prosseguir com o 'relato' da manifestação.
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Que se lixe a troika. O povo é quem mais ordena! |
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Fora!
(Apesar da beleza e da doçura deste sorriso) |
Tristeza? Não, que ideia. Sorrisos. Força, união, vontade de lutar.
Estava, então, já no Terreiro do Paço. Um cartaz ao alto dizia ao que íamos. Um coelho e um cartaz: Rua!
Aliás, das palavras de ordem mais ditas, gritadas, cantadas, sobressaía a seguinte: Deixa passar! Estou na rua para o governo derrubar. Deixa passar!
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Rua! |
Quando cheguei ainda a cabeça da manifestação não tinha chegado. Consegui circular, andar por ali, pelo Páteo da Galé, pelas arcadas, sentindo a energia daquele ambiente, fotografando. Depois foi escolher o local onde depois me iria posicionar para ver de perto a entrada no Terreiro de Paço, junto à entrada da Rua do Ouro.
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Ser pacífico não significa ser passivo. Prefiro mudar o país do que mudar de país
Queria um mano mas os meus pais dizem que a troika não deixa |
Aqui continuavam os cartazes improvisados, alguns feitos visivelmente com algum carinho. Uma mostra de criatividade e, também, de cultura e humor na forma de protestar.
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Quem sabe faz a hora, não espera acontecer (Geraldo Vandré) |
A manifestação começava então a chegar em força, um rio de gente unida que desaguava no Terreiro do Paço.
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Os portugueses não merecem isto!
Governo imoral arruina Portugal |
E depois aconteceu um dos momentos mais emocionantes: a chegada dos reformados. Chegaram cantando e as pessoas batiam-lhes palmas. Não são descartáveis. Claro que não. São estimados por toda a população e não vale a pena Passos Coelho querer virar os jovens contra os velhos porque cá estamos todos para nos respeitarmos mutuamente. Emocionei-me muito com as palmas de carinho que acolhiam os reformados.
Os meus pais são reformados. Um dia eu serei reformada. Exijo respeito agora e sempre. Por eles, por mim, por todos. Apre!
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Os reformados empobrecidos e mal nutridos a alimentarem um governo anafado |
E depois chegou o momento. Eram 18:30, a hora em que a rua cantou o Grândola, Vila Morena. Momento emocionante. A uma só voz, o canto elevou-se. Alguns punhos erguidos, a força que se sente a nascer. O Povo é quem mais ordena!
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Até quando? |
Ao meu lado um senhor de alguma idade, boina militar, medalhas ao peito, certamente antigo combatente. Preparou-se a rigor para vir fazer a sua luta. Estava sozinho, emocionado. E eu, que não estava sozinha nem tinha medalhas ao peito, nem estive em nenhuma guerra, estava ali ao seu lado, emocionada também.
Vi que passava na manifestação um antigo ministro da Cultura. Todos iguais. Todos em luta.
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O 25 de Abril que o meu pai fez vou ter que o fazer outra vez |
O dia começava a escurecer e o rio continuava a desaguar. Gente, gente, gente.
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Se você acha que a educação é cara... experimente a ignorância!
Se já não andam aí a fazer nada... façam como o Papa e demitam-se |
Deixa passar! Estou na rua para o governo derrubar. Deixa passar! Deixa passar!
E sempre o maravilhoso sentido de humor dos portugueses.
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1974 - 2013
O Governo é quem mais ordenha |
Depois, no meio da multidão, duas senhoras de alguma idade, Cataluña apoya. Sorriam, cantavam a Grândola. Muito bonito.
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Temos que falar, temos que gritar nem que seja no dezerto - José Saramago |
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Abaixo Passos.
Manda emigrar a tua tia! |
Grande parte dos cartazes era dirigido a Passos Coelho, ao Relvas, ao Gaspar. Humorísticos uns, zangados outros. A impaciência dos portugueses tem vindo a aumentar à medida que as provas de incompetência se avolumam.
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Gaspa-te daqui p'Fora |
Este governo desmereceu o respeito dos Portugueses - e isto é como nos casamentos: quando se perde o respeito, está tudo perdido.
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Ó Passos sabes o que curtar? O teu car.... |
E depois já era quase noite, os candeeiros de Lisboa já se acendiam. E a manifestação começava a chegar ao fim. Mas é o fim por agora porque esta energia, esta união, esta revolta, esta vontade de ocupar a rua, esta vontade de manifestar o desagrado não vai parar. Não vai. Não vai.
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Fome de cultura
0.1% |
E depois a minha máquina ficou sem carga e já não consegui fotografar os elementos da LGBT que, divertidos, na maior animação, gritavam Troika, troika, só na cama! Troika, troika, só na cama!
Tristeza?! Não contem com isso. Desânimo?! Isso queriam eles! Não contem com isso. Com humor, a cantar, os portugueses mostram que estão fartos, que não são parvos, que não são ovelhas.
PS: Não posso, contudo, deixar de mostrar alguma decepção face à forma como a organização da manifestação não soube, uma vez mais, aproveitar aquela imensa mole humana. É certo que não é uma organização 'a sério' mas, ainda assim, penso que 'dispor-se' de centenas de milhares de pessoas e não proporcionar um motivo de retenção parece um desperdício lamentável. À medida que a manifestação desaguava no Terreiro de Paço, as pessoas dispersavam pois não havia ali mais nada que fazer. Teria sido razoável, lógico, interessante que artistas cantassem, tocassem música, lessem poesia, fizessem números circenses, etc. Não apenas isso faria com que as pessoas se sentissem mobilizadas para ali ficar um pouco mais como seria mais fácil mostrar a verdadeira dimensão do infindável mar de gente.
Ouvi o Prof. Marcelo, citando um artigo do Público, tentar quantificar o número de pessoas a partir da área do Terreiro do Paço. Ora, é um cálculo errado pois o Terreiro de Paço escoava mal as pessoas chegavam e estando ainda muitas por chegar.
Mas nem é por isso: é que manifestações deste tipo poderiam transformar-se em grandes e mobilizadores e encontros que acabassem em festa.
Fica para a próxima. E, de qualquer maneira, mesmo assim, valeu a pena!!!!
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Meus Caros Leitores, hoje apenas coloquei uma música no
Ginjal, uma belíssima interpretação ao piano de Martha Argerich (com Eduardo Delgado) de Ravel. E, no post de 27 de Fevereiro, incluí o Guernica de Federico Garcia Lorca lido por Germaine Montero, de acordo com sugestão preciosa de uma Leitora e, só por isso,acho que vale bem a pena a vossa ida até lá.
Nem consigo ainda responder aos comentários nem aos mails. Apenas consegui pegar no computador já tarde, este post saíu loooooooooooongo (e só espero que me desculpem esta reportagem tão, tão, tão excessiva...!) e, antes, a escolha das fotografias tomou-me também muuuuuuuito tempo. E agora já é tarde, não consigo mesmo. A ver se amanhã consigo retomar a minha disciplina habitual, está bem?
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana.
E nada de desânimos.
Não é hora de baixar os braços.
Lutemos sempre que a vida deve ser gostosa de viver.