Durante o dia choveu que Deus a dava. Uma coisa quase diluviana. Tentei fazer a minha caminhada mas não foi possível. Chovia, chovia. Muito bonito de ver. Uma tranquilidade boa.
Mas tanta a força da chuva que, inclusivamente, entrou água na sala. Provavelmente alguma telha levantada, talvez caruma ou folhas de azinheira acumuladas. O meu marido pôs a escada e foi lá acima ver mas chovia tanto, tanto, que não deu para grande coisa.
Olhei a rua pelas janelas. De repente reparei, um pouco ao longe, numa mancha redonda, muito branca, entre a folhagem. Vesti uma capa e, numa corrida e munida com a máquina, fui ver. Era um enorme cogumelo branco, muito liso, muito redondo, como que insuflado. Uma coisa quase fenomenal. A natureza é cheia de coisas curiosas e estranhamente belas.
De tarde, estava eu concentrada no meu tapete, intrigada com o branco que estava a usar que me parecia mais branco do que era suposto quando, num zapping, o meu marido estacionou numa entrevista. Numa confortável saleta, com um sofá bonito e uma estante, uma jovem entrevistava um senhor que dizia que era de Olhão, que falava pelos cotovelos, e ao lado do qual estava uma senhora com o cabelo muito mal penteado e com uns sapatos curiosos, creio que acobreados e muito grandes. A senhora olhava para as mãos. O senhor falava ininterruptamente, como se lhe tivessem dado corda. Falava tanto, tanto, sem que eu percebesse bem de que é que ele estava a falar e a senhora, ao lado, mantinha-se cabisbaixa. Às tantas, talvez atormentada pelo fluxo palavroso do senhor, começou a balouçar-se, para a frente e para trás, sempre de cabeça baixa. O meu marido interrogou-se: 'Será autista?'. Olhei e achei que podia ser. Às tantas, quando olhei com mais atenção, vi que o senhor se chamava Fernando Cabrita e que a senhora do descuidado penteado era, afinal, a Ana Cristina Leonardo. Comecei a prestar atenção para ver o que era aquilo. O meu marido protestou: 'Mas de que é que o gajo está a falar?'. E nisto cortaram a emissão e o meu marido disse: 'Claro, tiveram que cortar a emissão, era a única maneira de lhe cortar o pio'. Mas logo apareceu a locutora a dizer que havia um avião desgovernado nos ares.
Ficámos logo preocupados com os nossos filhos. Tentei ver no mapa se o avião andaria sobre os espaços onde eles estariam. Mas ele, nestas coisas, é mais precipitado que eu: 'Liga já aos miúdos'. Serão sempre os miúdos, os nossos miúdos. Liguei logo pois, se não o fizesse, ele ficaria numa ansiedade. Ambos acharam o meu telefonema um bocado parvo, sem perceberem o que queríamos nós que eles fizessem. Senti-me burra, claro, quando disse: 'Olha, tenham atenção, se virem um avião às voltas tenham cuidado'. Como se uma pessoa se pudesse chegar para o lado para se desviar de um avião desgovernado a despenhar-se. Enfim. Mas, claro, estava mesmo nervosa com aquilo. Mas logo depois soubemos que estava a ir para o aeroporto de Beja e logo de seguida que, à terceira tentativa, tinha aterrado bem. Portanto, tudo bem.
Entretanto, ao chegarmos a casa, enquanto eu andava nos cozinhados, nas lavagens e arrumações e ele nas lides dele, estava a televisão ligada -- e ouvimos nas notícias que aquilo que se esperava há muito tempo tinha acontecido: Bruno de Carvalho tinha sido preso. Parece que é ainda aquilo de Alcochete. Pudera. O meu marido disse: 'Este gajo não vai acabar bem' e até parece que senti alguma pena na voz dele. Não aprofundei.
Depois ouvi falar num tal Mustafá. Parece que também preso. Em tempos, uma vizinha da minha avó tinha um gato chamado Mustafá. Era traiçoeiro e eu ganhei medo a gatos por causa da sua má fama, e mais ainda porque a minha mãe temia gatos que se assanhavam e o Mustafá era o pior de todos. Não sei se a alma do velho gato Mustafá desceu no corpo do tal mal afamado da Juve Leo ou se não tem nada a ver. O que sei é que o Bruno de Carvalho e o Mustafá e as suas dangereuses liaisons são o pratinho que faltava aos comentadeiros das televisões. E já não há pachorra para tanta má vida.
Depois ouvi falar num tal Mustafá. Parece que também preso. Em tempos, uma vizinha da minha avó tinha um gato chamado Mustafá. Era traiçoeiro e eu ganhei medo a gatos por causa da sua má fama, e mais ainda porque a minha mãe temia gatos que se assanhavam e o Mustafá era o pior de todos. Não sei se a alma do velho gato Mustafá desceu no corpo do tal mal afamado da Juve Leo ou se não tem nada a ver. O que sei é que o Bruno de Carvalho e o Mustafá e as suas dangereuses liaisons são o pratinho que faltava aos comentadeiros das televisões. E já não há pachorra para tanta má vida.
Depois, enquanto jantávamos, tínhamos a televisão na SIC. Clara de Sousa picava o Marques Mendes e a nossa reacção foi de mudar de canal mas, naquela altura, falavam do Rui Rio, do Silvano, da Emília. Ficámos a ouvir. Marques Mendes arrasou os três. Arrasou completamente. E enterrou Rui Rio. Gostei de ouvir.
Agora estou na sala, descansada, estive a passar as fotografias para o computador e, como sempre, quando vejo as imagens daquele meu espaço de paz, sinto uma emoção agradecida, uma serenidade absoluta, como se lá estivesse o meu refúgio, o meu ninho, o meu paraíso.
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Até já