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quarta-feira, abril 22, 2026

Como atrair passarinhos

 

Por estes dias tenho andado muito ocupada. Percebo agora que estava a modos que a hibernar. Bem digo que tenho um lado de bicho. O meu corpo porta-se de uma forma peculiar, que não segue muito os cânones. Estava frio, húmido, chuvoso, e o meu sono e preguiça não me deixavam espaço para grandes aventuras. Agora que veio o sol parece que ressuscitei, só me apetece fazer coisas, retomar projectos, avançar mesmo que não vá dar onde queria, como queria, quando queria. Por isso, tenho trabalhado horas a fio. Claro que, ainda assim, continuo a caminhar, a fotografar, a tratar da casa, a ir ao ginásio, a fazer compras. Mas, nos intervalos, é sempre a bombar.

Por isso, não tenho conseguido responder aos comentários (mas leio-os e o meu marido também lê os que se referem ao que ele escreve! E agradecemos as vossas palavras). 

Agora são duas da manhã (apesar de ouvir e ler toda a gente a dizer que se deve ir cedo para a cama, continuo a ser a incorrigível ave nocturna de sempre) e esta quarta-feira tenho que acordar muito cedo pois a vida não pára e vamos cá ter quem vem fazer arranjos na maquinaria em que esta casa é fértil. Quando para cá viemos gostámos de tudo, e eu continuo a gostar de quase tudo. Quase. É que, se tivéssemos sido nós a instalar muitas destas coisas, não teríamos tanto equipamento para tudo e mais alguma coisa pois é tudo muito lindo quando tudo funciona, mas é uma carga de trabalhos quando deixa de funcionar e não sabemos porquê, onde mexer, porque deixou de funcionar, com o que é que está relacionado. Mas, enfim, é o que é. De todo o verso há um reverso. Mas, portanto, se não vou já para a cama daqui a nada tocam à campainha e ainda estou a dormir. É que, ainda por cima, é sempre precisa muita interacção: ligar o disjuntor, voltar a ligar, testar a ver se funciona, etc. Isto para não falar que é preciso prender o cão, que ladra como um possuído e, portanto, pelo meio, o meu marido pega nele e vai com ele dar uma volta.

Portanto, com isto, não consigo pronunciar-me sobre as bagunçadas desnotícias que por aí trumpolinam por tudo o que é canto e esquina. A malta que trabalha com ele deve estar a dar em doida. Qualquer dia, de cabeça perdida, ainda se atiram a ele e lhe dão uma tareia. O mundo dos humanos deve ser uma absurda gaiola de malucos para, perante um rei maluco destes que anda a causar mortos e feridos, destruição e desestabilização global, não haver mecanismos para resolver a situação. 

Concluindo, alienada da realidade diária, fico-me por um tema que verdadeiramente me motiva: os passarinhos nos jardins. Adoro, mas quando digo adoro é mesmo de adoração que falo, ouvir os passarinhos, vê-los, estar sossegada a senti-los a andar, felizes da vida, por aqui. Por isso, partilho um vídeo que despertou verdadeiramente o meu interesse.

Como transformar o jardim num paraíso para pássaros
Os conselhos de Alan Titchmarsh

1. Instale casotas para pássaros - certifique-se de que estão fora do alcance dos gatos e num local abrigado. Precisam de ser resistentes, pois na primavera os pássaros podem usá-las para as suas crias.

2.º Instale comedouros para pássaros - no outono e no inverno, os pássaros têm menos alimento do que o normal, pelo que beneficiarão muito de um fornecimento extra.

3.º Plante plantas amigas das aves - plante pelo menos uma das seguintes para fornecer alimento ou abrigo aos seus amigos emplumados:

Os Cotoneaster horizontalis, Pyraccantha e Callicarpa são arbustos que fornecem frutos para as aves.

O Azevinho e a Berberis fornecem espinhos para os ninhos.

A macieira-brava 'Golden Hornet' e a cerejeira.

Os Prunus autumnalis rosea são ótimas árvores para fornecer frutos para as aves.

4.º Construa um bebedouro para pássaros - os pássaros precisam de água e de um local para se limparem. Aqui está uma forma simples de criar um bebedouro para pássaros com um orçamento limitado. Basta fixar um vaso de jardim num pires usando silicone, adicionar pedras para pássaros mais pequenos e encher com água.


Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, abril 07, 2026

Instintos

 

Se cada um de nós é uma improbabilidade, um milagre, o que acontece à nossa volta não o é menos. Como as células se dividem, multiplicam, agregam, ajeitam, e, no fim, surpresa, surpresa, sai um patinho, um peixinho, uma baleiazinha -- milagres. E como, uma vez nascidos, logo começam a respirar, a alimentar-se, a movimentar-se. E como se fazem à vida e, logo depois, se reproduzem e continuam o ciclo vital. Milagres.

E o mesmo, mais coisa menos coisa, com flores, árvores. Tudo se reproduz, tudo se alimenta, tudo sabe como sobreviver.

O vídeo que abaixo partilho é daqueles que, de tão simples, poderia servir para contar uma história infantil. Os patinhos-bebés que falam entre si mesmo antes de nascerem, a mamã pata que sabe que tem que arriscar e levar os seus filhos a aprender, a procurar comida, os filhotes que se inquietam quando a mamã-pata os deixa, e como, percebendo que têm que se afoitar, se atiram do precipício para a procurar. Tudo muito belo, muito comovente. O instinto da maternidade e da sobrevivência aqui, de forma cristalina -- instintos vitais.

A vida começa depressa para estes nove patinhos

sexta-feira, agosto 08, 2025

Um caso a seguir

 

Em mais um dia longe de notícias e fofocas, regresso chez moi tarde e más horas e, incapaz de reunir forças para ir também passear o cão, fico-me por casa e, claro, não tem como não, reclino-me no sofá e pimbas: já foste, tiro e queda.

Por isso, agora que já decorreu um bocado e que me encontro naquele limbo entre o quase acordada e o quase a dormir, enquanto arranjo energia para me deslocar até aos meus aposentos, partilho o único vídeo que despertou a minha atenção. 

Um caso de visão estratégica, resiliência, paciência, determinação. Há um objectivo a atingir? Bora, vamos lá. A obra é para ser feita? Bora, é para fazer, faz-se. 

Nem mais. Um exemplo.

Inside the world of weaverbirds' stunning nest creation | BBC Global

How does the weaverbird attract a mate?

Watch as they build intricate nests along the Blue Nile.

Tenham uma feliz sexta-feira

segunda-feira, abril 07, 2025

O rapaz-pássaro

 

Samuel Hendersen tem 11 anos e imita, na perfeição, o canto de 50 pássaros. É autista e tem síndrome de Tourette e, no recreio, isolava-se dos colegas para ensaiar o canto dos pássaros. Por isso, os outros meninos não conheciam as suas habilidades.

Quando se colocou a hipótese de o levar a um palco onde pudesse mostrar o seu talento, a mãe morreu de medo com medo que as outras crianças troçassem e o fizessem sofrer.

Mas o que aconteceu foi que, depois da estranheza, os colegas ficaram surpreendidos e rendidos. 

Samuel, o menino um pouco peculiar, é agora o mais conhecido da escola.

E eu comovo-me quando vejo crianças que, por serem um pouco diferentes, são olhados com estranheza fazendo com que os pais se sintam ainda mais angustiados.

Não sabia que um rapazinho desta idade poderia ter Síndrome de Tourette mas, pelos vistos, pode. Contudo, neste caso, os sons que emite são o canto de pássaros.

11-year-old boy who can imitate 50 birds wows at school talent show

sábado, abril 05, 2025

Lamento mas não são passarinhos a comer os meus flocos de aveia. Isso tem que ficar para outro dia...

 

Ultimamente tenho feito flocos de aveia. Num tachinho com água deito uma pitada de sal, raspa de uma laranja ou de um limão, a casca inteira de uma tangerina, a tangerina ela própria, em gomos, um pouco de canela e os flocos (suaves ou pequenos ou lá o que é) de aveia. Deixo ferver mexendo sempre, senão pega-se ao fundo, e, depois de começar a fazer bolhinhas, mexo mais um pouco, um minuto talvez, e desligo. Está feito. 

Ao pequeno almoço, como sou lambona, misturo uma colher de sopa daquela papa no kefir, misturo também umas sementes (como quero ver se perco mais algum peso, controlo-me e não misturo também uma mão cheia de nozes e amêndoas e arandos e tudo o que calhar), misturo uns pós de latte dourado... e fica uma maravilha. 

O meu marido come as papas de aveia, mas apenas isso, e nem consegue conceber como é que alguém consegue gostar das mistelas que eu faço. Por isso, mantém-se dentro do peso ideal sem qualquer esforço enquanto eu é o que é.

Mas durante muitos anos ninguém se lembrou de comer papas de aveia. Por isso, há algum tempo descobrimos um pacote de flocos esquecido, já completamente fora de prazo. Em vez de deitar para o lixo, tive uma ideia: iria espalhar os flocos no pátio para atrair os passarinhos. 

Só que, com a chuva, fui retardando. 

Há uns dois ou três dias, estando sol, pensei que era a altura. Espalhei, então, os flocos no dito pátio e sobre a relva. Pensei que os passarinhos desceriam de imediato dos céus para se banquetearem. Fui a casa buscar o telemóvel pois pensei que iria fazer uma reportagem extraordinária. Só que, do nada, começou a chover. Claro que fui a correr apanhar a roupa que estava alegremente ao sol. Entretanto, o cão recolheu-se também e fui limpá-lo. Conclusão: nem mais me lembrei dos flocos de aveia. 

Quando me lembrei, os flocos tinham desparecido. Ia até a pensar que poderiam estar feitos em papa. Mas nada. Desaparecidos da superfície do planeta. Se a chuva os lavou e arrastou e se diluíram na terra ou se a passarada se atirou e os devorou em três tempos, não sei. O que sei é que as belas imagens que eu desejava ter feito com espécies raras, aves de belíssima plumagem, quiçá até avestruzes, não aconteceram.

Mas, em contrapartida, tenho aqui um vídeo adorável. Lindo, lindo. 

Relax with the Cornell Lab's 21 Favorite Bird Videos from 2024

The Cornell Lab of Ornithology's Macaulay Library collects and archives videos, photos, and sound recordings of wild species from around the world.  This year, we combed through all 33,000+ recordings that users uploaded to the archive in 2024, looking for our favorites. We searched all seven continents to bring you this compilation highlighting fascinating species, intriguing behavior, stunning beauty, and skillful cinematography. 


Desejo-vos um belo sábado!

Be happy.

terça-feira, fevereiro 25, 2025

O amor de (ou por) um pequeno ser

 

No outro dia, quando, ao fim da tarde, dávamos o nosso passeio, o nosso cão, que odeia outros cães -- cães, género masculino; porque, se forem cadelas, desfaz-se em simpatias, cheira-as, deixa-se cheirar, andam em volta um do outro -- atiçou-se todo contra um outro, pequeno, que andava à solta.

Sendo um cãozito pequeno, não houve drama. Cães à solta são um caso sério, e, ainda mais, se não houver dono por perto para ajudar a separá-los. Já tivemos várias cenas complicadas, com cães que atacam o nosso e vice-versa, e em que nos vimos à nora para os separar. Mas com um canito, a coisa é mais tranquila pois o próprio cão pequeno acaba por ter receio e afastar-se. Mas, neste caso, o problema é que, andando à solta, não apenas poderia afastar-se da sua casa como ser atropelado.

Estava uma outra caminhante a passar e ficou igualmente sensibilizada, com receio do que pudesse acontecer-lhe.

Olhámos em volta e não vimos nenhum portão aberto. Resolvi ir até à zona mais comercial, saber se teria passado por ali algum dono a perguntar por um cão perdido. Não, ninguém sabia de nada.

Telefonei, então, para a Polícia inquirindo o que se poderia fazer. Disseram-me que só a Câmara pode mandar a brigada de resgate de animais mas que, àquela hora, já estariam fechados. Mas avisaram-me que, se o apanhassem, o levariam para o canil.

Enquanto eu tinha ido fazer as inquirições, a outra senhora ficou perto do cão para tentar impedir que ele fosse para a estrada. E o meu marido tinha-se afastado um pouco com o nosso, para não estarem a provocar-se mutuamente.

Quando cheguei ao pé da senhora, já a pensar no que faríamos, já ela andava a tocar às campainhas. 

Numa das casas apareceu um homem que reconheceu o cãozinho e disse que já no outro dia ele tinha fugido e disse qual a casa. Fomos, então, até lá.

Apareceu uma jovem, aflita, com crianças em volta. Andavam à procura dele no quintal e não o achavam. Explicou, então, que o cãozinho se escapava por entre a sebe que serve de vedação e que tem que estar fechado em casa. Mas a filha, pequena, tinha pena dele e abria-lhe a porta para ele brincar no jardim. Agarraram-se logo a ele, felizes.

E eu e o meu marido lá fomos à nossa vida, e a senhora-caminhante lá foi à vida dela.

No outro dia, eu que gosto de dormir com a janela aberta (mas, agora só a abro quando o meu marido se levanta pois ele recusa-se a dormir de janela aberta quando está frio), acordei a ouvir a voz de um homem e a voz de uma mulher a chamar 'Dula!', 'Dula!'. As vozes eram de aflição e percebia que andavam de um lado para o outro. Depois deixei de ouvir.

O meu marido contou-me que eram uns vizinhos de uma casa lá mais para a frente, na rua, que tinham ido buscar uma cadela ao canil mas que ela, nem eles tinham percebido como, se tinha escapado. Foram encontrá-la mais à frente, no quintal de outra casa.

Com este nosso, quando era pequenino, apanhámos um susto. Fugiu para a rua e corria, corria, atravessava a rua de um lado para o outro, numa brincadeira maluca. Eu e o meu marido a mandarmos parar os carros e ele, feito doido, numa brincadeira. Até que o meu marido conseguiu agarrá-lo.

E com a nossa boxer doce como mel também apanhou, ele, um susto. Tinha ido passear com ela ao jardim que havia não muito longe de casa e ela tinha conseguido escapar-se dele. Já era de noite. Ele chamou por ela, chamou, chamou, andou por ali à volta à procura dela. Quando foi para casa, inconsolável por ela se ter perdido, estava a pequena patifa à espera dele à porta de casa. 

A estima que uma pessoa desenvolve pelos animais, em especial pelos nossos, mas, também, de forma geral, por todos, é sempre tocante. É uma questão de respeito, de generosidade, de afecto -- não sei.

O vídeo abaixo é exemplo disso. A natureza é fascinante e quando sabemos respeitá-la e amá-la geralmente ela recompensa-nos.

Homem resgata um colibri preso numa teia de aranha e o que aconteceu depois foi incrível

Um homem compassivo chega a casa e descobre um pequeno colibri preso em teias de aranha no seu jardim. Neste comovente documentário sobre a natureza, testemunhamos uma bela demonstração de bondade humana enquanto ele ajuda cuidadosamente o colibri a escapar da sua sedosa prisão. A sua abordagem gentil com os animais e a sua dedicação à natureza criam um vínculo caloroso, à medida que cria um refúgio seguro para o seu pequeno amigo, com um alimentador para colibris.


Um dia feliz

quarta-feira, novembro 27, 2024

Outras terras, outros sons: na Casa Branca

 

Não sei exactamente de que se trata mas, ao ver a imagem da casa no vídeo que aqui partilho, percebi que era em Portugal. E confirma-se. 

Pus a andar e gostei de ver e ouvir, embora não perceba bem o que se passa ali. Mas, para gostar, também não é preciso compreender - a emoção e o pensamento nem sempre têm que andar a par e passo. É um encontro de pessoas que têm interesses comuns, isso certamente. Não sei porquê ali, naquele lugar, mas isso também não interessa. Enquanto escrevo, estou a ouvir pela segunda vez e agrada-me. 

E qualquer coisa no ambiente que ali se percebe me fez lembrar uma amiga de longa data. A sua profissão é no domínio da razão e do conhecimento, é médica, mas sempre foi um pouco alternativa. E aqui apetece-me dizer 'alternativa no bom sentido' mas também não sei o que isso seja. Mas, só para se perceber, aos dias de hoje, não tem telemóvel. Passa bem sem isso. Não lhe apetece ser incomodada. Quando precisa de contactar alguém, usa o telefone fixo. Quando alguém a quer contactar e ela não está em casa, é o diabo. Quem tem o número do marido, liga-lhe. Quem não tem, terá que ir ligando até que ela regresse a casa. Mensagens, grupos de whatsapp, coisas dessas, é tudo o que ela não precisa, não gosta, não quer, não sente curiosidade. 

Interessa-se por mil coisas mas sobretudo coisas ligadas à terra, à natureza. Sabe muitas coisas que eu não sei. No outro dia, por exemplo, falava-me da planta de onde vem a alpista. Eu não fazia ideia, claro. Também viaja muito e diz que visita museus, galerias, coisa assim, mas aquilo que prefere é andar na rua, ver as pessoas. Por exemplo, já foi algumas vezes à Índia e tenciona voltar. Gosta de andar pelas aldeias, gosta de ver como as crianças se arranjam para ir à escola, por muito modestas que sejam, gosta das cores, dos cheiros, dos sons. 

Agora que deixou de trabalhar, diz que gosta muito de estar no jardim a ler ou a observar. Conhece todos os pássaros, os seus cantos, os seus hábitos. Eu não conheço nada do que ela sabe.

Mas surpreendo-me sempre com o que ela diz. Só para verem, estava a falar-me dos estorninhos, dos pardais, das rolas. Às tantas, falava creio que do melro. Mas não sei se era do melro ou do tordo. E estava naquilo quando me diz: 'Quando andam de roda das oliveiras, gostam de comer o que sobra das azeitonas. Esses são os mais saborosos.'

Fiquei de boca aberta, claro. 

Quando eu era pequena e o meu pai ia aos pássaros com os amigos, armando armadilhas que deixavam, de noite, regressando a casa após as recolherem de madrugada, nós comíamos passarinhos fritos e eu achava-os uma delícia, era um petisco que eu apreciava imenso. Mas desde há mil anos que não consigo pensar em molestar os inocentes passarinhos, muito menos comê-los. E, no entanto, a minha amiga, toda natureza, toda peace and love, ali estava a falar-me do sabor dos passarinhos quando se alimentam de azeitonas maduras. Ainda pensei que não tinha ouvido bem: 'Mas quê? Comes?!'. E ela, sem perceber o meu espanto, 'Claro'. 

A vida é assim mesmo, surpresas, surpresas, surpresas.

Amanhã, se me lembrar, conto uma outra, de uma outra amiga. Uma 'surpresa' que me deixa a rir de cada vez que me lembro.

Mas agora passo a palavra a Mary Keith, que também parece ser bem cool, bem boa onda -- para além de ter um cv bastante interessante.

Other Lands Other Sounds

A setting of the choral processional song used in "Vias", the final performance of the Curiosa "Other Lands Other Sounds" residency at Casa Branca, Portugal summer 2024. 

Music and words by Mary Keith and Kelsie Moore, with thanks to Kate Smith for arrangement ideas, images by Mary Keith, Beatriz Martinez, Ani Keyahova and Ana Torres, with thanks.


domingo, julho 28, 2024

A beleza da rendição

 

Por estes dias, por estas bandas. têm havido muitas festas ou encontros. As ruas enchem-se de carros e vemos os donos das casas virem à porta cumprimentar os que chegam. Hoje, numa das casas aqui em frente, todos os que chegavam vinham carregados. Não sei se seria picnic, daqueles em que cada visitante traz comida, o que é muito prático. Vi isto pois, quando ainda estávamos só nós dois em casa e eu a ler no cadeirão junto à janela, o cãobeludo estava num desatino, só a ladrar. Espreitei para ver que irritação era a dele. Quando vê movimento aqui na rua, em especial perto de nós, fica logo em modo de alerta. 

Hoje soube de um caso em que, porque se juntaram cerca de oitenta pessoas numa casa aqui perto, foi pedido a cada família que trouxesse mesa e cadeiras, daquelas desmontáveis de jardim, e uma toalha branca. Não tinha pensado nisso mas, na realidade, é ter sentido prático.

Também soube que contratam sempre serviços de catering, e que entregam tudo 'quentinho'. Um amigo meu também só funciona assim e, no caso deles, não apenas contrata o fornecimento de comida como contrata louça, talheres, mesas de apoio e cadeiras. E fica lá pessoal para ir recolhendo a louça e, no fim, levam tudo e ele fica com a casa arrumada. E sem trabalho nenhum.

Eu não consigo. Neste capítulo ainda sou completamente old school que é como quem diz, bota-de-elástico. Faço tudo (com alguma ajuda do meu marido). Ainda hoje comprei quilos de carne no talho e viemos do supermercado carregados com três grandes sacos. Como este domingo vai ser casa cheia e duplo festejo, já aqui estou a programar-me para, mal me levantar, pôr logo isto ao lume e mais aquilo e mais o outro e começar a preparar as saladas e mais a de frutas e arranjar a carne e trinta por uma linha. 

Há pouco, quando voltámos a ficar só os dois, saímos para fazermos uma caminhada nocturna com o nosso cão de guarda. Por aqui, há muito mais vida nas casas no período de férias ou de fim de semanas. 

Por exemplo, a casa de um conhecido actor hoje estava particularmente animada. Dezenas de carros à frente da casa dele e da dos vizinhos. Só de passar ao lado sentia-se o perfume de gente jovem, bronzeada e bem tratada. E, lá dentro, uma animação. Música, risos, conversa, muitas, muitas vozes, muito movimento. O jardim todo iluminado, muito bonito. Antes das redes sociais, quando ainda havia paparazzis, festas estivais assim deviam ser pitéu a não perder. Agora já não faz sentido pois o mais provável é que muitos dos presentes publiquem fotografias e façam a sua própria divulgação.

Quero ainda falar de outra coisa, uma que não tem nada a ver com isto. Estávamos num sítio a conversar com umas conhecidas. Nisto, vimos o nosso cão, agachado no chão, a olhar fixamente para qualquer coisa mais à sua frente. Eis senão quando uma delas viu que era um passarinho ultra bebé. Claro que foi um castigo para conseguir resgatar o passarinho pois a nossa fera já estava a achar que aquilo era coisa sua.

Mas, então, uma das nossas conhecidas pegou no passarinho com todo o cuidado e pôs-se a ver de onde ele tinha caído. No entanto, na árvore por cima, um chilreio aflito, ansioso. 'É a mãe', disse ela. E, como não se tivesse descoberto o ninho, uma delas foi arranjar uma caixa pequena de cartão e conseguiu prender a caixa entre ramos para que a mãe lá fosse buscá-lo ou alimentá-lo. Fiquei comovida, rendida. As pessoas que têm cuidado e amor aos animais são certamente boas pessoas.

E hoje pouco mais tenho para dizer.

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Mas tenho aqui um vídeo que me diz muito, um tema de que antes fugia a sete pés e sobre o qual agora finalmente começo a perceber que essa atitude é um disparate. Espero que o considerem tão interessante quanto eu o achei.

Beauty of Surrender

The one unifying and undeniable fact of life is that we will all experience loss - the death of loved ones, the end of relationships, the shattering of dreams. In a society that so often tells us to ‘stay positive’ and ‘move on’, it is easy to view grief as something shameful. But what if, instead of a weakness to be avoided or a burden to be carried, embracing grief is actually a sacred invitation to heal, to grow, and to transform? 

When we have the courage to feel our grief, to surrender to its depths, something miraculous happens. We begin to heal. We reconnect with our own soul, with the love and support of those around us. We find meaning in our losses, discovering that our pain is fertile soil for new growth.

So let’s not be afraid of grief. It is a fierce and loving teacher, a guide to our deepest self. Embrace it, learn from it. As the Persian poet Rumi recommends, let it crack our hearts wide open. That’s how the light of love gets in. On the other side lies a life of greater meaning and connection.

Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, junho 29, 2024

Jogos de sedução

 

Nada de muito novo. É sabido que, nisto, é sempre a fêmea que escolhe e que resolve quando dar o ok. Da mesma forma, é sabido que o macho tem que saber seduzir, tem que ter calma, tem que ter arte e, sobretudo, humildade. E tem que saber perceber o momento de avançar para a conquista. Tudo, sempre, sabendo que nada é definitivo pois a fêmea pode sempre mudar de ideias.

Mas, quando ambos compreendem sempre o seu papel e sabem interpretar o momento com graça e mestria, é uma maravilha digna de ser festejada.

Ostrich Gives the Performance of His Life | The Mating Game | BBC Earth

The end result might not be as smooth and slick, but this ostrich does have some moves… 


domingo, março 03, 2024

A paz in heaven

 

In heaven o terreno é atravessado por um caminho de acesso a outras propriedades. Chama-se serventia mas, na prática, é uma estrada. 

Quando, há muitos anos, por causa dos caçadores que, na altura, iam atrás dos coelhos marimbando-se para o facto de estarem a invadirem propriedade privada, a aproximar-se perigosamente da casa, com receio que algum dia ainda houvesse alguma chatice, tanto mais que os miúdos ainda eram pequenos, vedámos todo o terreno na parte em que está a casa. 

Quando trabalhava, pensava que, um dia que nos retirássemos, talvez nos dedicássemos ao pedaço de terra que está do lado de lá da estrada. Mas o que acontece é que agora há tempo mas não há motivação, energia. 

Depois, em teoria ou em abstracto, tudo é possível. Mas, na prática não é bem assim. Há a hidro deep, há o dia em que vai este, o dia em que vai aquele, o dia em que o cão vai para a 'escola', o dia em que temos que tratar disto ou daquilo. Ou seja, em boa verdade, não se consegue estar no campo muitos dias de seguida. Continua a ser muito na base do toque e foge ou, então, nas férias das actividades. Portanto, onde é que há tempo e energia para, lá chegados, nos pormos a cavar, a plantar, a cuidar? Não há.

Mas tenho pena. 

Ainda hoje, ao andar por lá, no terreno do outro lado da estrada, me lembrei que, durante muito tempo, tive vontade de lá ter uma casinha na árvore pois, daquela zona, a vista é uma maravilha. Mas fazer uma casinha na árvore... para quem? Para mim? E ia lá estar sozinha? Não estou a ver o meu marido querer ir para uma casinha na árvore... E os miúdos, em especial nesta época fria e chuvosa, pouco lá vão, e ainda mais agora em que três deles são jogadores de competição e têm geralmente jogos aos fim de semana.

Mas a vida em ambiente natural continua a ser para mim o paraíso. O ambiente de bosque, o arvoredo, os musgos e os líquenes, os pássaros, agora os esquilos, tudo é para mim uma maravilha. Sempre que ando sozinha neste ambiente, mesmo que sob chuva e com vento e frio, sinto uma paz absoluta, uma grande felicidade. Pode parecer impossível, conversa fiada. Acredito. Mas é a verdade.

E talvez por isso, me ponha a ver, de gosto, vídeos como aquele que partilho que é da autoria de Stefano Ianiro de quem já antes mostrei pelo menos um outro.

Fico encantada e sempre com vontade de fazer qualquer coisa do género. Parece que não é difícil. E atrai tanta vida... O pior é a preguiça... Dá-me ideia que é ele, o rapaz do vídeo, sozinho, que faz tudo. Tem máquinas. Nós não as temos. Nem temos a idade e a energia dele. Teríamos que contratar quem nos ajudasse e estou mesmo a ver o meu marido a estar para ter lá gente a perturbar a nossa existência, ainda por cima para se fazer coisas sem as quais ele passa muito bem.

Contento-me em ver. E pode ser que faça alguma versão minimalista.

O que aconteceu com o lago para banho de pássaros que construí?


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Desejo-vos um bom dia de domingo.

Saúde. Serenidade. Paz.

sábado, setembro 10, 2022

Os meus dias complicados --- e Hanna Naude e a sabedoria de não saber

 


Não foi hoje, foi já noutro dia. Estive num lugar muito especial não apenas pelo simbolismo mas também pelas pessoas que ali de vez em quando se reúnem. Mas a própria decoração e todo o ambiente são únicos. Tive lá uma reunião que marca um passo importante na minha vida. Se eu pudesse falar, teria matéria para vários posts. Mas não posso. Portanto fica apenas o tópico, talvez para que num improvável dia em que por aqui passe encontre este registo.

Esta semana foi complexa, tive muito trabalho, enfrentei situações complicadas, prenhes de conflitos, por vezes com ameaças ou chantagens veladas não sobre mim directamente mas em relação a circunstâncias sobre as quais me cabe decidir. E foi uma semana com aquela particularidade que me deixa francamente cansada: tudo consecutivo, quase sem tempo para descansar a cabeça, para respirar. Num dos dias o meu almoço foi metade de uma daquelas espécies de pudim com proteínas. Umas colheradas apressadas na esperança que encobrissem a fome até às quatro e tal que logo tentaria comer mais qualquer coisa. Mas, afinal, as coisas atrasaram-se, há sempre solicitações inesperadas, pessoas que sentem necessidade de ser ouvidas, problemas que se enredam uns nos outros. Regressei a casa perto das cinco e já estava a receber telefonemas de que já estavam à minha espera para começar outra reunião, esta remota. Por isso, só às sete e tal, já começava a querer escurecer, ao fim da segunda reunião (da segunda depois das cinco, leia-se), é que consegui ir à cozinha buscar uma maçã e sair para ir fazer uma rápida caminhada.

Nada disto interessará a quem me lê e, na verdade, nem a mim interessa. Mas a verdade é que semanas assim passam tão a correr que nem dou por elas e isso é um bocado aflitivo pois sei bem que o tempo não espera por mim. 

Esta sexta-feira, que tinha pensado que talvez fosse um dia mais tranquilo, foi outro dia complicado. Para já, começou demasiado cedo. Por duas vezes esta semana fui acordada por telefonemas complicados. Gosto de me levantar ao meu ritmo. E não estou a conseguir. Pensei que, para compensar, ia tentar despachar-me cedo. Pensei que gostaria de, ao fim da tarde, me ir sentar debaixo do manto de jasmim amarelo tentando retomar o imbróglio em que me meti na minha escrita. Não consegui. Recebi chamadas até depois das sete e, no fim, ainda tive que ir fazer um mail também complicado. Fomos, então, caminhar aqui à volta. Os pássaros grandes e pretos que não sei se são gralhas, corvos ou melros grasnavam no topo dos grandes pinheiros. Deve ser a forma que têm de se despedir dos dias. Quando chegámos a casa eram oito e tal. E era quase de noite. E isto ainda a hora não mudou. Quando mudar, lá para fim de outubro, já é noite cerrada por volta das sete, ou antes. Detesto mergulhar no breu quando o meu dia de trabalho acaba e estou disponível para começar o 'meu' dia.

À hora de almoço, comi a correr e fui atender uma chamada lá fora. Ouvi o toc-toc de um pica-pau. Queria olhar com atenção para ver se o descobria. Mas logo tive que ver uma coisa no computador. E só agora voltei a lembrar-me desse pássaro tão lindo que é o pica-pau, bicho colorido, todo festivo.

Muitas vezes me pergunto se é problema meu não saber repelir o trabalho. Não sou capaz de me furtar às minhas responsabilidades mesmo quando sinto que não são apenas minhas ou não são, de todo, minhas. Mas sou incapaz de, perante alguém que me relata um problema e me pede ajuda, dizer: 'O que é que tenho a ver com isso? Desampare!'. Não sou capaz.

E, com esta minha estupidez intrínseca (provavelmente nasci mesmo para burra de carga), estou a deixar passar o verão, daqui a nada o outono entra já com o pano a baixar, prenunciando o inverno, e não consigo dizer o que tem andado a consumir o meu tempo para assim me impedir de viver fazendo minimamente o que me apetece.

E com isto não me sobra tempo para equacionar aspectos que podem ser decisivos numa etapa da minha vida que se avizinha. Mas, pronto, é sexta-feira e as sextas-feiras são para ser festejadas: thanks god, it's friday..

Aliás, pensando bem, vi agora as oras e já é sábado. 

No outro dia apeteceu-me falar sobre as medidas do Governo para atenuar os efeitos da inflação mas ainda não tive disponibilidade, sobretudo mental, para isso. A ver se um dia destes falo. Estava também à espera de saber as medidas para poupança de energia pois, em alguns pontos, poderiam intersectar-se. Afinal não. Posso contudo adiantar que fiquei decepcionada e, mesmo, algo apreensiva, em especial no que se refere aos pensionistas. 

Mas agora já chega de maçadas. 


Por isso, permitam que me despeça com um daqueles vídeos da Green Renaissance que sempre gosto de ver. Tudo gente boa onda, zen, tudo peace and love, natureza, sabedoria, convívio com animais e com tudo o que é simples nesta vida. Gente que vive vidas tão diferentes da minha...

The wisdom of not knowing

Why are we so obsessed with knowing everything? While there's nothing wrong with knowledge and understanding, our insatiable desire to know and control all aspects of our lives often gets in our way of trying new things.  

There is no shame in not knowing, there is only freedom.  An uncertain mind is an open mind. It is a mind which is curious and interested.  It allows us to be creative and willing to live in a state of wonder and possibility, like children do.  

When we meet life with a genuine sense of uncertainty, we cease to project that which we think we know, and we instead begin to see life for what it truly is.  It is life itself, unfolding before our eyes.

Filmed in Montagu, South Africa. Featuring Hanna Naude.
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As fotografias são algumas das que podem ser vistas em Bird photographer of the year – the winning pictures

Mariam Batsashvili interpreta Franck: Prélude, Fugue et Variation, Op. 18: I. Andantino
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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Tranquilidade. Paz.

domingo, julho 03, 2022

Luzinhas, amorzinhos, casinhas para passarinhos

 


Aquele pequeno prolongamento do terraço ficou muito bonito. Acolhedor. Ganhou vida. É agora um lugar onde é bom estar. Penso que uma das coisas que mais contribui para ser tão agradável ali estar à noitinha é aquilo que arreliou o meu marido. Agora já concede que fica bonito. São grinaldas de bolinhas brancas que se iluminam à noite. Funcionam com energia solar. Na sexta-feira, trouxe da loja um outro candeeiro que estava em promoção. Trouxe-o por cinco euros. O meu marido logo a torcer o nariz. Sendo quase cem por cento minimalista, assusta-se perante a perspectiva de ficar com os espaços transformadas em arraial. Mas não. Também sou um bocado discreta. Este consta apenas de uma bola branca, grandinha, talvez uns vinte centímetros de diâmetro. Pode ser o globo que encima um pé que se enterre no chão. Mas eu não usei o pé, limitei-me a pô-la encaixada num vaso branco. Quase parece uma mono-peça. Se não me esquecer, amanhã fotografo para vos mostrar. À noitinha ilumina-se e dá uma luz bem boa. Ao fundo do jardim também está uma grinalda de luzinhas solares. 

Acho uma graça, as luzinhas brancas que, de dia, nem se vêem e que, à noite, como que por magia, ficam luminosas.

Tenho cá três meninos a dormir. Jantámos lá fora e depois deixámo-nos lá ficar até já passar das dez da noite. Fomos conversando, eu penteando-a, ela penteando-me a mim, eu penteando o mano mais novo. Estávamos todos num cadeirão lounge comprido e largo. Obviamente que o urso felpudo não podia faltar. De vez em quando saltava para se ir pôr a ladrar ao cão da casa ao lado. Mas depois vinha pôr-se ali no meio dos meninos. O meu marido também esteve. Depois a menina esteve a pentear o mais cabeludo que se ia virando de um lado e de outro para ela o escovar bem.

Por volta das dez e tal, viemos para casa, vestiram-se para dormir, lavaram os dentes e ela juntou-se aos irmãos no quarto dos rapazes para ouvirem mais uma história da Margaret e do seu irrequieto cãozinho. Eles é que escolhem o tema. E eu desenvolvo. Margaret vai ao oceanário. Depois quiseram mais uma: Margaret no Zoo. Fartam-se de rir. O mais novo conta coisas suas a propósito do que vai ouvindo. Os irmãos mandam-no calar-se receando que se perca o fio à meada. Claro que o urso felpudo estava no chão, enroscado num canto, também a ouvir s histórias. É a encarnação viva do irrequieto e querido cão das histórias da Margaret. A meio de uma história, o mais novo disse: 'Gosto tanto dele. Vou dar-lhe uma festinha.' e levantou-se e foi mesmo fazer uma festa ao seu amigo.

Depois ela foi para o quarto dela e o dog de guarda foi pôr-se no corredor entre as portas dos quartos deles. Algum tempo depois acabou por entrar no quarto dela. Está deitado no chão, ao lado da cama. Ela ficou contente. É a orgulhosa madrinha dele e gosta de ver estes sinais de atenção por parte do seu afilhado.

Hoje está com as unhas pintadas de azul claro. Disse-me que é um verniz vegan. Não faço ideia do que isso significa. Mas é uma cor bonita e fica-lhe bem.

No outro dia, disse-lhe que tinha pensado, um dia que deixe de trabalhar, pintar o cabelo de cor de rosa  claro. Perguntei-lhe a opinião. Disse-me que sim, que acha bem. Mas depois acrescentou: Mas eu acho que preferia em azul. É cá das minhas, não se preocupa com a opinião dos outros, pensa pela cabeça dela. 

Teve notas altas, vários cincos e vários quatros. Mas a EVT teve três. Admirei-me pois adora desenhar e pintar. Perguntei-lhe que matéria deu para não ter gostado assim tanto. Disse-me: 'Perspectivas e assim'. Depois encolheu um pouco os ombros e esclareceu melhor. 'Prefiro o abstracto.' Achei um piadão. Nestas coisas, acho que esta miúda tem muito de meu. 

E hoje fico-me por aqui pois estes passarinhos acordam cedo. Hoje estavam cansados. O mano do meio foi finalista e teve nesta sexta-feira o seu jantar de despedida. Toda a turma e respectivos pais e irmãos. Foi festa até à uma da manhã, dança e brincadeira. Apesar disso, no sábado, praia com eles. Portanto, agora à noite estavam de olho gordo, mesmo com sono. Ela é que agarrou uma espertina das brabas. Diz que não sabe porque não dormia porque até estava com sono. Acontece. Mas estão habituados a levantar-se cedo pelo que mais vale que eu esteja preparada para me pôr em pé quando der por eles já acordados. 

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A beleza de viver

Rugas, linhas, cicatrizes - há muitas formas através das quais o tempo deixa a sua marca nos nossos corpos. No entanto, a cultura dominante teme envelhecer - somos instados a combater o processo de envelhecimento e muitos sentem-se pressionados a mentir sobre a sua idade. Mas, como disse Betty Friedan: "O envelhecimento não é a 'juventude perdida', mas um novo estágio de oportunidade e força".

Com a idade pode vir a confiança e a liberdade para perceber quem realmente somos. À medida que envelhecemos, desenvolvemos um tipo mais profundo de beleza que funciona de dentro para fora. É uma beleza mais autêntica porque irradia de dentro. Então vamos celebrar vidas bem vividas. E sintamo-nos com sorte por acordar todas as manhãs para apreciar o que o novo dia tem para nos oferecer.


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As casinhas de pássaros são algumas das que podem ser vistas no artigo Home tweet home: birdhouses designed by artists – in pictures e estão na companhia de Three little birds. O vídeo, como é bom de ver, é da Green Renaissance

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

terça-feira, maio 17, 2022

Três extraordinárias previsões para o futuro -- e alguns dilemas da minha vidinha

 


Tenho vários temas relevantes por resolver. 

Por exemplo: gosto de ver às outras mulheres mãos com nails em vermelho rubi, carmim, bordeaux, grenat ou mesmo em quase negro. Além do mais, sei que a saison, talvez para espantar as pesadas nuvens negras que por aí andam a pairar, requer nails multicores, uma unha de cada cor, e cores alegres, cor de laranja, verde pistachio, azul turquesa. 

Em abstracto tudo isso me agrada. Melhor: seduz-me.

Mas depois vem o lado prático. Não consigo ter unhas compridas nem consigo paciência para as pintar ou retocar frequentemente. Além disso, há que ter precisão para que o colorido não transcenda a pequena superfície que lhes é destinada. Debato-me, pois. Imagino que vendam pequenos estojos com frasquinhos multicores, pincelinhos pequeninos, e sinto-me tentada a experimentar. Mas, depois, já sei que acabarei sem aplicar nada ou, quanto muito, apenas um brilhozinho transparente, quanto muito um discretíssimo nude. 

Dilemas.

Se não trabalhasse, também ousaria uma maquilhagem divertida. Sombras nas pálpebras também em cor-de-laranja. Ou em verde-alface. E lábios em morango suculento e brilhante. Assim, trabalhando, não dá. Não seria levada a sério se me apresentasse assim a discutir propostas que, já de si, deixam alguns com os cabelos em pé. Tenho que me reservar para um dia mais tarde.

No domingo, quando fomos passear com a minha mãe, estava fresca, colorida e jovial: calças justas, alinhadas, em branco, uma tshirt justinha em verde seco e uma blusinha de lã fina em cor-de-laranja sobre os ombros. Ténis brancos. Completava a toilette com um chapéu de palhinha e de abas largas. Elogiei-a, disse-lhe que finalmente se veste como lhe fica bem, sem se preocupar se a toilette é adequada à idade ou com o que amigas e vizinhas pensam. Riu-se. Disse que finalmente tinha começado a libertar-se. Pensei -- mas não disse -- que já não era sem tempo. 

Pode parecer futilidade -- e quem sou eu para o negar -- mas a forma com a gente se arranja é meio caminho andado para a forma como a gente se sente. Se estamos com roupas tristes e desiluminadas, vai ser difícil sentirmo-nos especiais. E claro que é importante sentirmo-nos especiais. Pode haver quem pense que não quer sentir-se especial, quer apenas sentir-se vivo/a, e tudo bem -- só que não é a mesma coisa.

Há também a questão das flores. Vi umas florzinhas lindas, delicadas, em suave lilás. Estavam nas areias, nas dunas, junto à praia. Estou com vontade de ir colher umas quantas e pôr numa jarrinha. Hoje, nas reuniões, pensei que aquelas florzinhas ali ao meu lado fariam toda a diferença. Mas o que gostava mesmo era de apanhar com raiz e plantar um canteiro por aqui. Mas será que flor de beira mar vai dar-se bem em terra? Não sei. Nem sei se tente. Não quero fazer coisas contra natura mas, por outro lado, quem garante que elas não gostariam de mudar de ares?

Dilemas.

E depois há os pássaros. O meu marido reclama da gaiola grande que trouxemos da garagem para pôr aqui no jardim. Diz que está ali para nada, que não sabe porque quis eu trazê-la para aqui. Expliquei que pensava que, tendo a portinha aberta, os passarinhos entrariam e dali fariam a sua casa, podendo sair sempre que quisessem. Mas toda a gente me explicou que era uma armadilha, que os passarinhos que entrassem não conseguiriam sair. E a verdade é que a gaiola ali está de portinha aberta e nem um pássaro lá entra. Mas aí lembro-me de uma coisa. A anterior proprietária tinha periquitos. Nunca prestei atenção a essa ideia. Mas no outro dia lembrei-me de uma vez ter falado ao telefone com uma amiga e só ouvir uma orquestra de pássaros por trás. Ela disse: são os periquitos que a minha mãe aqui tem, são muitos, às cores, cantam que só visto. E era uma alegria. Sou muita contrária a pássaros prisioneiros. Mas será que os periquitos não se tornaram bicho de gaiola? E sendo a gaiola grande e estando no meio de árvores, não será para eles um resort que apreciem? Não sei. 

Dilemas.

E estou com esta conversa nem sei bem porquê. Será que fico com vontade de me remeter à maior simplicidade sempre que ouço falar de temas que me deixam as entranhas num frenesim?

Estive a ouvir três previsões muito prováveis para os próximos tempos. Algumas são-me, à partida, um pouco incómodas. Robots que se auto-fabriquem parece-me coisa meio assustadora. Mas se isso acontecer em Marte talvez não seja mau de todo. Robots que construam fábricas e enviem o fruto da sua produção para a Terra. A Terra transformada em paraíso, sem poluição, sem esforços, só desfrute. Talvez a vida ainda possa vir a ser uma coisa boa e o mundo um lugar feliz e pouco perigoso. E também me é estranha a ideia de fazer download do cérebro e pôr máquinas a usarem as ideias e memórias. Ou a perspectiva de se transmitirem emoções ou sensações e não apenas informação. Não sei bem o que pensar nisso. Mas parece-me provável e potencialmente estimulante. E depois há a promissora ideia de aprendermos, ab initio, se temos células que vão degenerar em cancro. Termos em casa sanitas com auto analisadores que detectem sinais de alerta que permitam que não se formem tumores -- o fim do cancro. Uma maravilha. Um alívio para todos.


Michio Kaku: 3 mind-blowing predictions about the future | Big Think

Carl Sagan believed humanity needed to become a multi-planet species as an insurance policy against the next huge catastrophe on Earth. Now, Elon Musk is working to see that mission through, starting with a colony of a million humans on Mars. Where will our species go next?

Theoretical physicist Michio Kaku looks decades into the future and makes three bold predictions about human space travel, the potential of 'brain net', and our coming victory over cancer.

"[I]n the future, the word 'tumor' will disappear from the English language," says Kaku. "We will have years of warning that there is a colony of cancer cells growing in our body. And our descendants will wonder: How could we fear cancer so much?"


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As luas pertencem ao artigo Super flower blood moon – in pictures e estão aqui na companhia de Blue Moon pela Billie Holiday and Her Orchestra
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Desejo-vos um dia tão bom quanto possível
Alegria. Força. Paz.

sexta-feira, maio 13, 2022

Duas coisas: uma sobre a qual não quero falar e outra sobre a qual nem vale a pena falar

 



Hoje é um dia importante na minha vida. Não o festejei senão ao fim do dia quando fui caminhar para a beira da praia. Aí, não é que tenha festejado como costumam ser os festejos. Aliás nem comentei com ninguém. Nem me lembrei de comentar com o meu marido. Mas descontraí, aspirei o ar húmido e perfumado, havia uma maresia quase palpável que me refrescou a alma.

E tanta gente, tanta. Na areia, na água, no passeio. Parecia um dia de verão, de férias. A paz é uma coisa muito boa, uma dádiva.

Durante todo o santo dia trabalhei. A principal reunião da manhã foi tão boa que valeu por um belo festejo. Aquela reunião não devia ter acontecido. Aconteceu a pedido dele. Eu não sabia de que se trataria mas também não perguntei. Gosto de ir para as reuniões (algumas reuniões) sem saber a quantas vou, sem me preparar, sem rede. É o que prefiro: ser surpreendida. E fui surpreendida e foi muito motivante.

Os últimos tempos têm sido algo surpreendentes. Daqui por algum tempo falarei nestas situações, mas falarei en passant, recordações que virão ao correr da pena. Agora não, é tudo ainda muito recente. Agora apenas afloro. E faço-o apenas para eu própria tentar perceber o que me acontece.

Outro assunto.

Por vezes tento contabilizar: quantos homens já choraram ao pé de mim? Não sei. E falo de homens pois é suposto ser menos frequente chorarem do que as mulheres. Não sei se chorarão ao pé de outros homens. Não o creio. Que efeito produzo nas pessoas (em algumas pessoas) que as faz desabafar, confessar anseios, chorar quando estão a conversar comigo? Não sei. Não sou de me pôr a chorar o que poderia ser contagiante, não tenho conversas de apelar ao sentimento. Nada. Acima de tudo gosto de ouvir, de tentar compreender. E, no entanto, acontece.

Neste caso, no outro dia, eu estava a ouvir, a olhar com atenção, estava em silêncio a tentar compreender os argumentos que me estavam a ser expostos. Não esperava que acontecesse o que aconteceu a seguir. No segundo antes de acontecer, ainda o não tinha o antevisto. E foi tão inesperado que quase fiquei paralisada. Depois falei. Mas durante o resto do dia fiquei a pensar no que se tinha passado. Contei ao meu marido. E não tenho parado de pensar.

Há uma coisa que não sei: quando uma pessoa que não costuma chorar -- que cultiva a imagem de ser forte, imbatível -- desmorona e chora como uma frágil criança, será que consegue relativizar, no seu íntimo, a dor que sente? Ou, no momento em que as dores se transformam em lágrimas, todas as dores são imensas, iguais?

Os tempos vão atípicos. A finitude vai tocando uns e outros, vai-se fazendo lembrada, por vezes de forma subtil, por vezes de forma ameaçadora. Todos caminhamos para o fim, bem o sei e bem mo lembram, frequentemente, alguns dos meus caríssimos ensimesmados leitores. Mas, enquanto dura a caminhada, se estivermos bem e felizes, se não nos lembramos disso -- não é preciso, para quê a gente se haveria de estar sempre a lembrar disso, a pensar que estamos a caminhar para o fim? -- é melhor. É lugar comum: o objectivo da caminhada não é o lugar onde vamos chegar, não é chegar ao fim, o objectivo é a própria caminhada, é o que vamos vendo, descobrindo, o prazer que vamos sentindo, as agruras que vamos superando, as memórias que vamos guardando (ou partilhando). 

E, nessa caminhada, vamos tomando como grandes desafios ou grandes problemas, coisas passageiras, sem importância nenhuma. Mas, ao resolvê-los, ficamos contentes e esse contentamento torna a caminhada mais agradável.

E ainda mais um assunto.

No outro dia tinha uma coisa para dizer e, depois, meteram-se outros temas e acabei por não dizer. Digo hoje. Comecei um diário. Achei que era o dia certo. Nesse dia dei um passo importante. E, para o marcar, comecei o diário. Quis que fosse essa a primeira coisa a ser escrita.

Como sou muita dada a aspectos logísticos, comecei por criar uma pasta nos meus documentos. Pensei num nome sugestivo. Depois abri o documento de word e dei-lhe o nome. Depois escrevi a data, a primeira entrada, e comecei a escrever. Quando dei por mim, estava a escrever coisas que não interessavam para nada. Pensei apagar e começar de novo. Depois recebi um telefonema, depois isto e aquilo -- e não voltei a pegar-lhe. Nem ontem nem hoje. Há pouco, pensei que, se era para ser diário, mais valia escrever qualquer coisa em vez de escrever no blog. Mas, quando fui à procura dele, já não me lembrava do nome que tinha dado à pasta. Tive que entrar pelo word para encontrar o dito cujo. E agora estou aqui a escrever isto e a pensar que o melhor é esquecer aquilo. Não tenho disciplina para diários. Venho aqui ao blog porque isto é numa base anarca, escrita-livre: escrevo sobre o que calha e não me preocupo em ter uma sequência coerente. Num diário, digo eu, haveria de ser mais organizada na escrita, mais dissertativa. Não é para mim.

Enfim.

Bem, distraí-me e falei de tudo e de nada e não expliquei porque é que foi um dia importante para mim. E agora já é tarde. 

Também não ia dizer... (queriam...)


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E, agora, para que não se pense que me esqueci da suprema cavalgadura, aqui está ela. Sempre tive para mim que um tipo que nem sequer sabe estar à mesa é para esquecer. Olhem bem para este animal aqui abaixo. Tira um bocado, inspecciona, volta a pôr no prato. Um burgesso, um trongalaronga que nem sabe estar nem conversar. Se não tem maneiras para estar à mesa, como haveria de ter maneiras no resto? 

Nem vale a pena a gente perder muito tempo com uma besta destas (pardon my french), há-de cair por si.

(Quanto ao pormenor da bota acho que também não há muito a dizer. É a kultura, dirão os amantes da grande alma russa. E o que eu tenho a dizer é que sim, sim, está bem, abelha)

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As fotografias provêm de Leap of the imagination: the best of Photo London 2022 – in pictures onde há outras igualmente interessantes

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Desejo-vos um dia tão bom quanto possível

Boas descobertas. Boa sorte. Tudo a correr pelo melhor. Paz

sábado, março 12, 2022

A chegada dos pombos da floresta

 



Ao fim de vários dias de perplexidade e angústia ao ver a tragédia que se passa ali tão perto, eis que tenho vontade de me abstrair para abrir espaço para a primavera que se aproxima e para a natureza que, em paz, é livre de exibir a sua beleza.

Quase me sinto mal ao dizer isto... mas a vida continua...

Indiferentes à guerra e à maldade, uns pombos da floresta passeiam agora no nosso jardim. 

Não sabíamos o que eram, tive que pesquisar. São muito grandes, nada a ver com o tamanho usual dos pombos ou das rolas. 

Nos dois dias em que os vimos estávamos em casa, vimo-los através das janelas, e, por isso, eles devem ter achado que podiam andar por ali à vontade. E acharam bem. Hoje eram três. Fico feliz quando vejo que o jardim atrai os pássaros.

Agora não temos visto os pica-paus que são tão bonitos. O que é mais frequente são as rolas, quase brancas e muito tranquilas. E muitos passarinhos pequeninos. Estão nos ninhos e nas árvores. Os ninhos que supostamente eram de andorinhas estão cheios de passarinhos mas creio que não são andorinhas. Todo o santo dia chilreiam.

O jasmim-amarelo já estava florido, bonito. Agora também o jasmim normal, o das florzinhas brancas, o está. E perfumado. O ano passado estranhei o odor intenso do jasmim. Agora não estranho. Gostei de o ter de volta, foi como se um amigo estivesse de volta.

Duas outras trepadeiras estão em flor e as abelhas não as largam. Pensei que seria boa ideia ter uma colmeia para depois poder adoçar-me com o mel destas flores tão exuberantes.

As magnólias continuam a maravilhar-me embora sejam tão efémeras que quase lamento a sua curta existência. São belíssimas, elegantes, sofisticadas. Mas rapidamente se desfazem em pétalas caídas pelo chão.

Quanto à nossa pequena fera, está grande, muito mais peludo, mais inteligente, sempre brincalhão, sempre enérgico. Anda agora na escola. Ou melhor, andamos agora na escola para aprendermos a lidar com tanta energia e teimosia. Aprende logo tudo mas, mal acabam as aulas, desata a correr em círculo em grande velocidade, brinca, salta, extravasa toda a muita energia que acumulou durante a aula.

Este sábado parece que vai chover e fico contente por isso. 

Tomara que todas as pessoas no mundo vivessem em paz para poderem alegrar-se com a harmonia e a perfeição das flores, dos animais, das coisas simples. Tomara que não houvesse gente má.

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Desejo-vos um dia feliz.

Saúde. Serenidade. Paz.

quarta-feira, setembro 22, 2021

Autárquicas 2021 -- é impressão minha ou é tudo mais do mesmo?

 



Há vários dias que praticamente não vejo televisão. Cansa-me a televisão. Quando não estou nas minhas lides profissionais ou nas minhas coisas de casa ou de família, e antes de vir aqui cumprir o vício do dia, vejo Homeland (a extraordinária série que em português dá pelo nome de Segurança Nacional). De cada vez que abro a netflix aparece-me anúncio de outras séries e várias delas me parecem tentadoras. Como o tempo escasseia, cinjo-me à Carrie e ao Quinn e ao Saul e ao Brodie e a todos aqueles fantásticos personagens que me trazem presa à intriga internacional e ao jogo mais do que duplo e tantas vezes sujo da espionagem e da contra-espionagem. 

E, se aqui à noite espreito as notícias nos onlines, nada me convoca. Cá pelo burgo tudo gira em torno das autárquicas. Em termos de notícia, é tudo coisa de interesse nulo. Identicamente, de cada vez que vejo um cartaz ou um folheto, tendo a achar que é quase tudo de uma tremenda falta de imaginação. 

No outro dia, quando andávamos a caminhar, vimos dois homens a andar junto às vedações das moradias. Achei aquilo intrigante. Tinham bom ar, é um facto. Não era gente de que se suspeitasse que andasse a ver se dava para assaltar alguma casa. Nada disso. Reparei que tinham qualquer coisa na mão. Pensei que, quando nos cruzássemos, nos dissessem qualquer coisa ou dessem um papel. Isto se andassem a distribuir papéis. Poderiam ser Testemunhas de Jeová, que andam sempre aos pares. Mas os das Testemunhas têm um ar menos urbano e andam todos mais arranjadinhos. Estes tinham um ar desempoeirado. Bom ar, já o disse. O meu marido disse que deviam ser de alguma imobiliária. Cruzámo-nos com eles sem lhes darmos atenção e eles também não nos deram. Nem atenção nem qualquer papel.

Mais à frente, noutra rua, junto a uma outra moradia, vimos uma mulher muito vistosa, ampla melena platinada. Foi deixar um papel na caixa de correio. O meu marido disse: ''Vês? Não te disse? Acho que esta é da remax'. Não fiquei convencida que os outros também andassem ao mesmo.

Hoje fui ver a caixa de correio e, para além das cartas, tinha vários papéis. Remexi os papéis para ver o que ali havia. De agências imobiliárias, de empresas de obras e reparações e, vários, de partidos. E, de repente, ao ver as fotografias de um dos papéis, juraria que eram os dois que tínhamos visto. Pelos vistos andam por aí, pelas casas, a distribuir folhetos. 

Dei-me ao trabalho de ler alguns: uma ou outra ideia vagamente interessante mas, em geral, mais do mesmo. 

(As ideias que eu teria para o meu município... Caraças, as ideias que eu teria.)

Esta gente é muito virada para o passado: 'o que nós fizemos', a 'obra feita'. Ou, se é para a frente, nada mais é do que replicar a dita 'obra feita'. Mais do mesmo. Não há um golpe de asa, não há uma disrupção para partir para outra. Não há uma verdadeira visão de cidadania, de conhecimento, de partilha, de modernidade. Ora, sem modernidade não há futuro que valha a pena.

Não vejo escolas abertas para gente de todas as idades, espaços de arte e de investigação, bibliotecas e museus abertos e livres, creches e residências seniores abertas, voluntariado a sério, mobilização dos cidadãos para o arranjo e limpeza das casas e das ruas e dos jardins, a natureza dentro dos espaços urbanos -- mas com uma visão moderna, a começar na arquitectura de todos os espaços (que é determinante para abrir mentalidades). Não vejo propostas arrojadas, daquelas que nos deixam de boca aberta, daquelas que nos fazem ficar a pensar. Não vejo.

A cidadania constrói-se caminhando nos caminhos da democracia. Mas constrói-se sem peias, sem ditames, sem preconceitos, sem amarras a feudos ou preceitos partidários, sem a disciplina das casas burocráticas em que nas concelhias ou nas distritais se cozinham os tachos, os favores, os amiguismos.

Estive a pesquisar na net alguns programas partidários de autarquias que não a capital: tretas. Só de olhar para as caras de parte das listas, logo se vê que é gente arregimentada nos partidos não por terem uma visão de futuro para as autarquias mas por serem disciplinados e acéfalos. Não vamos longe assim.

Não vou referir nem autarquias nem listas (até porque numa delas concorre um meu sobrinho) mas direi que, salvo uma ou outra honrosa excepção, é tudo o nosso portugalzinho a marcar passo. 

Não nego que o país está mil vezes melhor agora do que estava há vinte anos. Mas o que digo é que, salvo algumas modificações verdadeiramente diferenciadoras (do que conheço, grande parte delas em Lisboa e grande parte relacionadas com urbanismo -- honra seja feita a Manuel Salgado), o resto é um mero melhorzinho na continuidade.

O país pode e deve dar um salto qualitativo: temos uma geografia e um clima extraordinários, uma beleza natural ímpar, temos mão de obra bastante qualificada. Temos tudo para atrair imigrantes que nos façam abrir os olhos à diferença e à inclusão, temos tudo para lançar programas de apoio à natalidade, temos tudo para atrair e fixar jovens, temos tudo para nos tornarmos um lugar de futuro -- em vez de continuarmos a ser um país envelhecido, em que quase não nascem crianças, em que grande parte do país ainda parece que vive no século passado, em que ainda há demasiados guetos de pobreza e marginalidade. 

Hoje soube de um jovem que acho muito promissor e cuja selecção passou por mim há cerca de um ano: tenciona ir-se embora daqui por uns meses. Terá dito que já pouca coisa o prende cá. Senti uma enorme tristeza. Disse para o desafiarem a ficar connosco, em teletrabalho a partir do outro país para onde quer ir para se juntar à namorada. Não me interessa onde é que ele viva nem a partir de onde trabalha. Gostava era que continuássemos a contar com ele. Olharam-me com estupefacção mas depois deram-me razão. O mundo mudou. E as nossas mentes também têm que mudar. O mundo pode e deve organizar-se de outra maneira. E as cidades, as vilas e as aldeias têm que saber acolher estas novas formas de viver.

Acho eu de que.


Inté. Vou pregar para outra freguesia.

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As fotografias aqui usadas são do 2021 WildArt Photographer Of The Year

Sheku Kanneh-Mason acompanha-nos em Nimrod de Elgar

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Mas, antes de me ir, que entre Sergei Polunin com The Road To Eternity

Voa, Sergei, voa


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Desejo-vos uma feliz quarta-feira
Saúde. Alegria. Motivação.