Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, setembro 13, 2019

Reportagem da mulher-pássaro





Começo com uma imagem nocturna mas é só para despistar. O tema é outro: a seguir às casinhas seguem-se os passarinhos. 

Deixei de fora os pombos, não que os ache da ralé, do bas-fond do passaral ou coisa quejanda mas por serem bicho muito infestante, especialmente se houver quem os alimente quase à boca. Agora, felizmente cada vez menos. Não há muito, havia uma senhora que, perto de mim, todos os dias, ia para um banco do passeio, que é largo, e levava um grande saco cheio de bocados de pão e de milho. Atraía pombalhada que não vos digo nada, era pombo a vir de todo o lado, parece que ouviam sirene, vinha tudo à uma, uma coisa quase sinistra. Mas ela, coitada, ficava feliz com aquilo, acho que devia pensar que estava a fazer uma boa acção. Só que isto das boas acções, como é sabido, é coisa subjectiva. 
Veja-se a Teresa Guilherme: achava que as que tinha eram das boas e, afinal, deu no que deu, menos que pombo mal arraçado. A ver o que o juíz acha do assunto, se foi o Salgado que as tinha mal alimentadas ou se foi ela que, como aquela senhora no banco, não viu o que estava mais do que à vista. 
Mas isto para dizer que vi muito pombo mas não os fotografei. Também vi passarinho miúdo mas apanhá-los só à fisga ou com tripé. 
À fisga nem pensar, sou do bem. Nunca atirei pedras com fisga a passarinhos; mas os meus amigos da escola e o meu primo mais novo sim e eu, na altura, achava normal, brincadeira de rapazes. Até moí muito a cabeça ao meu melhor amigo, rapaz atilado, gozando com ele por não ser dado a essas aventuras que eu via nos outros rapazes. O meu primo, então, tinha cá uma pontaria. E depois comia-se os passarinhos. E eu gostava. Já fui muito bárbara. Primitiva, mesmo.
Mas, pronto, isto também para dizer que para passarinho miúdo na copa das árvores só à força de muito zoom e muito zoom não é compaginável com vento a dar-lhe ou com estar quase a andar quando disparo

Ou seja, só pássaro de bom tamanho. O chamado passarão. 

Este que estava num declive de areia mesmo à beira-mar era grande. Melro só se for de raça gigante. Não sei o que seja. Habituado ao infinito do mar e ao canto das ondas, não esteve nem aí para mim. Fotografei-o, aproximei-me e foi o que se vê: desprezo.


Aqui abaixo uma menina gaivota, toda mesuras, toda a fazer pose para a imagem ao espelho, coquette e cheia de formosuras. Só falta mesmo uma pulseirinha no tornozelo para ficar ainda mais feminina. 


Esta aqui a seguir não sei se será mesmo gaivota. Mais uma marquesa-gaivota, talvez. Só tapete de veludo, chão, para a menina, só se for alcatifado em verdes e azuis, E toda ela prosa, toda ela andar de gazela, bico escuro, coisa distinta, plumagem em tigresse. Nada de confianças com a plebe.


Segue-se a pernilonga bailarina. Creio que seja uma garça real. Mas não sei. Parecia jovem do Chapitô, andando sobre andas. Só sei que levantava o pezinho de cada vez que a suave ondulação trazia a ondinha. Muito atenta, dá ideia que não houve mexilhão tresmalhado que lhe tenha escapado.


Volto-me agora para a praça da vila. O chafariz cheio de pombos gulosos e de gaivotas aventureiras, molham-se, bebem, gozam a vida. Mas alguém se levanta de uma mesa, deixando migalhas ou restos nos pratos, eis que largam o lazer e já aí está a fauna da limpeza. Quer os pombos, quer as gaivotas. Qualquer dia aparece uma nova espécie urbana: a pombota, misto de pombo e de gaivota.

Como disse, pombos não fotografei, só gaivotas. E vejam a pinta desta madame aqui abaixo, andando, toda flauteada, como se fosse gente. Alguém lhe empreste uns óculos escuros, se faz favor.


E quando estão de papo cheio, elevam-se aos beirais e ali ficam a curtir um banho deste generoso e suave sol de Setembro.

Andar à pesca ou atrás dos barcos dos pescadores dá muito trabalho. Andar a rapinar batata frita ou restos de pão pita ainda a saber a hamburguer dá menos trabalho e sabe melhor. Chamem-lhes burras.


E, de regresso às águas, e o sol já a dourar-se para a cerimónia do entardecer, eis uma que se acha um pato ou um cisne, deslizando sobre o lago. Só lhe falta levar auscultadores para ir ouvindo Tchaikovsky, toda na perfeição, alheada das agruras do mundo.


E depois apareceu um ser curioso, patas encarnadas, armada em inspectora, a passar a pente fino o lodo. Só lhe faltava uma lupa ou uns óculos de alta graduação.

A fotografia não está especialmente nítida -- as minhas desculpas. A fraca luz já não me deixou obter melhor definição. Ou isso ou o meu compagnon de route que não parava de chamar por mim. Agora diz que o meu pára-arranca para fotografar passaralhos (quando começa a ficar furioso comigo, trata assim os pobres passarinhos) lhe faz doer as pernas. Como se eu acreditasse. Agora claro que me desconcentra. Veja-se como ficou a fotografia.


E não vos faço perder mais a paciência com tanta passarada. E olhem que só mostrei as que estão a andar ou a nadar ou a repousar. É que tenho bué a voar. Mas poupo-vos.

Termino com um casalinho. Ele ousado, pluma arrebitada, olhar de galaroz, todo pimpão. Ela toda hashtag, #MeToo, sem querer nada com manobras de sedução, toda a ameaçar com denúncia de assédio. Ou isso ou beata, não deu para perceber. Ou, então, mulher honrada, daquelas que não têm ouvidos nem olhos nem neurónios (não ouvi, não vi, não sei de nada). São as piores.


E, por ora, c'est ça (a propos: muitos franceses também por aqui) A luzinha que estou a usar para escrever é discreta, apontada ao teclado,  mas, ainda assim, estou a ser fortemente instada a desligar isto (sendo que isto é luz e computador). Este cavalheiro que aqui tenho ao meu lado não se habitua a ter uma blogger a teclar na sua cama. Não é millennial como eu. estas disparidades geracionais são um problema. Mas, pronto, hashtag vou dormir.

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E um dia feliz a todos vós, passarões e passarinhas.

domingo, julho 28, 2019

Receita de cozido a modos que, crónica de um dia que meteu voltinhas de carrossel, casinhas de passarinhos azuis e mais algumas coisas e tal





Hoje houve voltinhas no carrossel, mais uma voltinha mais uma viagem, os meninos chamando uns pelos outros, felizes da vida, e isto a seguir ao passeio à beira mar onde respirarámos todos o ar fresco, pintado de maresia. E isto, por sua vez, depois da visita semanal aos meus pais. 

E à noite houve brincadeira e pijama party com um DJ que só lhe deu para escolher a Marisa e, quando os outros protestaram, disse que amanhã logo punha a Ana Moura. E quando alguém protestou, disse que ele próprio, gostava de cantar o fado. E cantou. Seis anos de alma fadista.

E depois de quererem ouvir uma história, coisa que desta vez não esteve a meu cargo mas da menina grande, acabaram por cair no sono. E depois fiz uma trança no cabelo grande e pesado da menina grande, para que aquela manta não lhe dê calor ao dormir. 

Agora as meninas dormem numa sala, os rapazes nesta em que estou. As camas das meninas são daquelas desdobráveis, os meninos dormem em colchões aqui no chão. Por uma razão ou por outra, nenhum dormiu no quarto. Dois quartos sem freguesia e as duas salas à pinha. A dormir no quarto, como se não fosse nada com ele, só o sortudo do avô. E à larga porque eu vou ficar a dormir aqui, num sofá. Prefiro assim, não vá o bebé levantar-se e pôr-se por aí a cirandar de noite, e eu, no quarto a dormir, não dar por nada.


Para o jantar fiz um cozido meio marroquino, meio à portuguesa. Assim:
Num tacho grande com bastante água, coloquei sal, meio chouriço de carne, duas cebolas e uns bocados de pá de porco com osso. Depois de já ter aberto, mais de meia hora, juntei frango do campo, em especial pernas e coxas mas também miúdos. No fim juntei uma farinheira e deixei que cozesse um pouco mais.
Às tantas, para um outro tacho, retirei um bocado do caldo do tacho das carnes. Juntei feijão verde aberto ao meio, bocados de abóbora e courgette. Cozinhou.
A seguir, num tabuleiro grande, coloquei couscous, meia chávena por pessoa, reguei com azeite, coloquei um pouco de manteiga, pouco e, cobri com sensivelmente a mesma quantidade de caldo das cozeduras. Talvez um pouco mais do que a quantidade dos couscous. A olho. Depois dos grãos piquinininhos incharem, mexi com um garfo. Depois alisei. Coloquei por cima, a meio, os pedaços das carnes. Em volta coloquei num lado o feijão verde, noutro a abóbora, noutro a courgette e no outro o chouriço às rodelinhas e a farinheira. Por cima, para dar graça, um fiozinho de azeite.
Comeram que se regalaram.

Depois morangos e, para rematar, o resto da tarte das framboesas de ontem e um magnum pequenino para os mais comilões.

Amanhã para o pequeno almoço haverá ovo cozido e ovo mexido, queijo fresco de cabra, cheddar, limiano, papas de aveia, leite, pão, fruta, iogurte, frutos secos. Toda a gente tem apetite e gosta de variedade e, assim, com um buffet à maneira, saber-lhes-á a férias num hotel. Se calhar os que agora ainda estão num casório e que devem de vir de lá a belas horas ainda se nos juntam para o breakfast.


E, por hoje, nada mais de relevante que faça sentido aqui colocar. Se é que o que aqui coloco faz algum sentido. Mas enfim.

O que sei é que, por tudo isto, estou a milhas do que este sábado se passou no mundo. Provavelmente continua a onda de calor mais a onda de palermice e, ainda, a onda de coisas sem nome e sem história. E eu dar ou não por isso não alterna em nada o rumo das coisas pelo que diga eu alguma coisa ou coisa alguma vai dar no mesmo.

Fiz algumas fotografias mas foram às danças, às brincadeiras e aos afectos e isso não é coisa que eu aqui possa publicar. Por exemplo, agora fui espreitar os rapazes que aqui dormem e é uma ternura. Até estou com vontade de ir fotografá-los outra vez. O mano do meio está abraçado ao bebé. Lindos. Claro que não vou depois aqui publicar tal. Portanto, vou à procura de fotografias de passarinhos azuis.

É que, à falta de melhor, com vossa licença, deixo-vos com um vídeo muito bonito. Al Larson, um senhor agora com 97 anos, faz ninhos para passarinhos. Calcula que cerca de 50.000 bluebirds tenham tido habitação feita por si. centenas de casinhas para passarinhos azuis. Um feito que o mantém vivo e motivado. Um feito que me enternece.


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Como d'habitude estou a escrever completamente a dormir e tenho cá para mim que o texto está polvilhadinho de gralhosas de toda a espécie e feitio. Tremo de pensar nas vírgulas que, só para me atentarem o juízo, pousam onde calha ou nas letras que, também para me amofinar, voam das palavras para fora ou trocam as pernas, baralhando o tino das palavras. Mas não posso fazer nada, tenho que me ir estender no sofá senão daqui a nada está o galo a cantar e o quartel a levantar-se rebentando de fome.

Portanto, até já e tenham um belo dia de domingo.

terça-feira, julho 09, 2019

Uma coisa é certa: entre o Rui Rio e o Snowball eu votaria, sem dúvida, no Snowball


Acredito que o Rui Rio não seja má pessoa de todo, acredito que, no cômputo geral, não tenha sido um péssimo presidente de Câmara, acredito que, à frente do saco de gatos que é e sempre foi o PSD, ele nem seja dos piores que por lá passou. Mas é daqueles erros de casting que não dá para disfarçar.  Acho que é daqueles casos em que um assessent lhe iria mesmo a calhar, para ver se atina com as coisas em que se mete. Por exemplo: poderia eu ter uma brilhante carreira como cantora de ópera? Claro que não, não levo jeito nem para o Ó Rama, ó que linda rama, quanto mais para a Carmen ou para a Butterfly. Está bem, está. Mas, lá está, tenho noção disso. E é, justamente, dessa noção de que Rio carece.

Como manga de alpaca, o Rui Rio estaria óptimo: ninguém teria nada a dizer, ninguém se demitiria, ninguém vinha dizer nada para os jornais, não haveria artistas e intelectuais a queixarem-se ou vice-presidentes a demitirem-se, chingando o pobre coitado de ditador, de ser um orelhas moucas, um centralizador e o escambau. Agora nas aventuras em que ele se mete, claro, só dá barraca. Uma falta de jeito que dá pena. Farto de ser conotado com uma bota de elástico, agora resolveu armar-se em modernino e pimbas: correu com toda a malta, não ficou pedra sobre pedra. Ã frente das listas só malta jove (assim mesmo: jove, sem m no fim), desconhecidos, putativos falcoezinhos, jotinhas recém nascidos, imberbes e deslumbrados, já todos a defender o planeta e o ambiente e essas causas que, de repente, ficaram in. Ou seja, foi ao partido e fez uma razia: nem autarcas, nem barões, nem malta que anda há anos e anos a dar o corpo ao manifesto. Tudo para o lixo. E nem digo que isso é bom ou mau porque laranjadas misturadas com sacos de gatos é coisa que não me assiste, não opino, nas tintas. Só digo é que percebo que a malta que dá votos se sinta renegada. Desapareceram do filme, da foto de família: uma limpeza soviética, uma lavagem a la Mao, coisa radical, photoshop feita com lixívia. Portanto, como é bom de ver, essa malta que foi de asa não vai descansar enquanto não fizer a folha ao manguitas de alpaca que, como é bom de ver, não vai ter como defender-se. Não tem trunfos.

É que aposto que, no meio daquela estonteante falta de jeito, nem é bom de dança.


Snowball, the cockatoo, esse, sim, é um caso, um exemplo. Não apenas dança ao som da música que ouve mas, na verdade, adapta a coreografia, fazendo passos elaborados e surpreendemente ajustados. Dezasseis tipos de passos. 

E, vendo-o, penso: ainda há quem se sinta o rei da cocada preta, desdenhando dos outros animais. Eu gostava de ver quantos desses narcisos enfatuados que por aí andam seriam capazes de competir com esta catatua.

Não sei o que é que a habilidade de Snowball diz sobre a parasitária espécie humana (vide o que um/a leitor/a simpaticamente aqui deixou no outro dia: "Humanos são praga no planeta", diz David Attenborough) mas a mim deixam-me com vontade de mostrar este vídeo a um certo pé de chumbo que eu cá sei, a ver se aprende. Talvez se enchesse de brios e me puxasse para o tango a preceito. Mas, cá para mim, não é só a mim que o catatuo seduz. Ah não deve ser, não.

E uma coisa é certa: se o Rio e o Snowball forem a votos, até me filio no PSD só para ter o prazer de votar no cockatoo. E, no fim, a ver se não era ver o Rio a sair pela porta dos fundos e o Snowball a subir ao palco em passo de dança. Ai não, não.

sábado, maio 11, 2019

Dizem que o azul quase não existe





Ouço que não há animais azuis. Como se isso fosse possível. Se calhar também pensam que não há flores azuis. Ou, sei lá, a ignorância é tanta, que não há corações azuis. Pensam, talvez, que o azul é uma cor rara, uma quimera.

E, no entanto, são azuis as palavras que me chegam de longe, envoltas em enigmas, em mistério, em saudade, palavras que descrevem uma geometria impossível, palavras sem sombra, sem mácula, azuis na sua mais íntima essência. Fecho os meus olhos e vejo uns outros olhos que, ao longe, as deixam cair, lágrimas límpidas, azuis,  que calam o que a boca está proibida de dizer. 


E, no entanto, são azuis os pássaros que voam das árvores à minha passagem, deixando um rasto de luz pelo céu, também ele azul. E cantam gritos de amor, de amor louco, azul, infinito, gritos que atravessam o espaço e vêm depositar-se, devagarinho, na concha macia da minha mão. Cantares azuis de pássaros azuis, transportando sonhos sem rumo, memórias esquivas que se escondem de ti e de mim e nos desafiam. Como se os abismos pudessem ser também azuis, tentadoramente azuis.


E são azuis as borboletas que rasgam o silêncio das árvores que sobem pelo infinito afora, azuis, muito azuis, azuis de veludo, borboletas que dançam magias pela noite adentro. Voam, caprichosas, enquanto cortejam o movimento das suas asas, efémeras, belas demais para poderem ter uma vida longa. E voam como um sopro azul, um sopro carregado de sublimes segredos que a noite me traz.

E, no entanto, são também azuis os recônditos esconderijos onde o meu coração bate, bate pelo teu, um coração tão azul como o meu, um coração de tigre azul, invisível, imaterial mas sempre presente junto a mim.


E, no entanto, é azul o lobo triste cujos longínquos uivos me chegam, um lobo que desliza pela noite em toda a sua magnífica solidão, um lobo que sinto e pressinto escondido por entre as paredes em que o meu corpo se enleia, chamando na noite pelo teu. Um lobo azul, fugidio, um lobo que espera por mim por entre os labirintos da noite, que me deixa palavras para sempre perdidas, uivos lancinantes, de um negrume quase azul.


E, no entanto, são também azuis as pétalas de rosa que encondro, de manhã, dispostas em volta do meu corpo regressado da noite. Azuis, macias, de um veludo azul e perfumado, pétalas que espalhas durante os sonhos em que o meu corpo anseia pelo calor prometido do teu abraço, apertado, longo, azul, tão, tão azul.


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Os animais não podem ser azuis -- dizem


(mas eu não acredito)

segunda-feira, março 25, 2019

Um dia in heaven
[E uma noite a preparar a semana que já aí está --- e um casal muito especial que vive em montanhas diferentes]





Às sete e tal da manhã uma mensagem. Tinha deixado o telemóvel a carregar na sala. Já estava sozinha na cama. Durmo com um madrugador. Já andaria nos seus passeios por entre arvoredos e orvalhos matinais, quando os verdes ainda estão azulados pela frescura da noite. Levantei-me, ensonada, para saber o que seria àquela imprópria hora da manhã. Desde que troquei de telemóvel comecei a habituar-me ao convívio com um ser inteligente e pespineta, cheio de opiniões mesmo que a despropósito. Era o caso: não era uma sms mas uma notificação. Dizia-me qual a temperatura e a humidade relativa do local. Só me apeteceu mandá-lo bugiar mas consegui não descer a esse ponto. Deixei-o lá e voltei para a cama. Soube-me tão bem, a cama quentinha e eu ainda com tempo para dormir. Enrosquei-me e foi até às dez. Acordei a ouvir lá fora o som da escada. Era ele a entrar em casa e a arrumá-la. Pensei que já devia ter desramado os dois cedros gigantes que tinham sobrado da véspera. Levantei-me. Fui ver. Era. O chão estava forrado com uma densa e perfumada manta de ramos de cedro. 

Ali mais à frente, eram ramos de azinheira. No sábado, ao fim do dia, tinha andado a alguns metros de altura, com o serrote na ponta, a serrar os ramos grandes que estavam a vergar na direcção do telhado do estúdio. Pensei que não fosse conseguir mas conseguiu. Cá em baixo, muitos ramos enormes. 

Mais longe, grandes ramos de pinheiro que, ali no chão, quase pareciam pinheiros autónomos.


Voltei para casa, lavei-me, vesti-me ao de leve, comi uma banana, uma laranja, meia dúzia de miolos de amêndoas, bebi um café e parti para a luta. O meu marido arrastava os grandes ramos lá para baixo. Peguei no serrote que já pouco corta e fui cortar mais ramos de pinheiro, de azinheira e aroeira. Uma luta.

O José Ferreira Marques recomenda uma serra eléctrica de bateria. No outra dia à noite fomos ao Leroy e vimos lá uma delas mas é daquelas de corrente e o meu marido tem uma cisma com correntes. Temos uma. Melhor: duas. Uma a gasolina e outra eléctrica. Ambas de mão, não destas telescópicas. Em ambas, ao fim de minutos a corrente solta-se. Não posso ajudar: aparelhos eléctricos desse género não são a minha praia. Podendo parecer que não, a verdade é que tenho um acentuado lado feminino. (Se calhar, dizendo isto, torno-me machista). Mas as coisas são o que são. Tal como nunca atinei com mudança de pneu ou lavagem de carro na bomba automática, também não me dá para pegar em rebarbadoras, roçadoras, berbequins ou serras eléctricas. Quando o vejo passado a tentar pôr a corrente à volta da lança, tento ajudar. Mas, de facto, não consigo. Aquilo ali é um karma. Não se percebe como há tanta gente que se ajeita com uma serra eléctrica e nós é isto, uma tremenda falta de pouca sorte. (Ou isso ou falta de jeito).


Gosto de desbastar árvores. Olho para elas e vejo o que está a mais. Não podendo cortar fartas cabeleireiras de mulher, coisa que tanto gosto de fazer, limito-me ao escasso cabelo do meu marido e às minhas bem amadas árvores.

Depois fui também carregar os ramos, os que eu tinha cortado e os que ele tinha cortado. Os ramos mais pesados são os de cedro. Pesam toneladas. Verdes, densos, com aquelas bolas que adivinho cheias de sementes, pesadas. A distância é grande e eu esgoto-me a puxar aqueles pesadelos. 

Lá ao fundo, o meu marido fazia a fogueira (autorizada, sacramentada). Não se imagina o braseiro forte, não se imagina a força do calor do inferno que dali se solta. Mas o lustro, o brilho de óleo que refulge quando a chama lambe os ramos do pinheiro radiata é o mais surpreendente. Bonito. A azinheira crepita, a aroeira frige, o cedro inflama. Mas o pinheiro derrete primeiro a sua essência. É um instante bonito e breve. Logo será nada. Um imenso mar de ramagens fica reduzido a um insignificante montinho de cinza. E só isto deveria ser suficiente para nos reduzirmos à nossa insignificância.


O meu marido disse que, de manhã, enquanto comia uma maçã, se pôs a contar os ramos que cortou do cedro grande e que pensa que foram pelo menos cinquenta. Ninguém imagina o quanto temos reduzido as ramagens das árvores. Os técnicos florestais chamam-lhe combustível e eu, que sou sensível às palavras, assusto-me e corto o que posso.

Mas, com tudo isto, apenas almoçámos às duas e tal. De tarde, adormecemos. Mas antes e depois estivemos a ler uns livros incomuns, mas mesmo muito incomuns, sobre história, arquitectura e tudo o que se possa imaginar em torno disso. Foi um amigo que me emprestou, antevendo que eu iria gostar. O autor é senhor de muita cultura e muito humor.  De facto, há pessoas extraordinárias e uma pessoa que se põe a escrever livros daqueles só pode ter uma personalidade invulgar. Num dos livros fala muito do nosso primo presidente. Era primo da minha bisavó. A minha avó, que o designava assim quando falava no primo Manel e eu lhe perguntava qual era esse, lembrava-se de ele ter sido recebido na cidade em grande festa e de, ao passar por elas, a ter puxado por um braço e a ter levado a cavalo com ele. Era pequena, claro.


Andei também a fotografar, dentro e fora de casa. Reflexos nos vidros, relances, uma rola pensativa. Também uma das pequenas estantes com dvd's. Houve uma altura em que víamos muitos filmes quando lá estávamos. Uns eram comprados, outros vinham com os jornais, outros nem sei. Olho para eles e, em relação a alguns, tenho dúvidas que os tivesse comprado. Mas a vida é assim mesmo, com curvas, desvios, alçapões. E tudo bem. E vejo que um dos miúdos riscou o banquinho amarelo. E vejo também que as aranhas estiveram entretidas a tecer entre os pés do que foi a máquina de costura de uma das minhas avós e que agora é uma mesa com tampo de azulejos. E só agora o vi pelo que ainda lá ficaram. Para a semana as teias estarão mais compostas. 

Bem. De volta à cidade, vinha de desejos de um gelado. Ao domingo à noite fico de desejos, em especial de kumkuat ou gianduja. Juraria que não estou grávida, que isto é só gula. Mas já era quase oito da noite, a gelataria estava desgraçadamente fechada. Uma carência. Ainda estou assim, de apetites. Não está certo, não se nega um desejo a quem muito o deseja.


Cá em casa já fiz uma máquina de roupa, uma panela de sopa, um tachinho de papas de aveia para o pequeno almoço de amanhã, um tabuleiro de lombinhos de porco no forno. E já pintei as unhas e já arrumei roupas e etc. E sei lá que mais.

Há bocado concluímos que temos trabalhado que nem uns mouros. Pensei e disse-lhe: 'um dia que a gente se reforme, temos que descobrir coisas que fazer para nos mantermos ocupados'. Ele disse que eu sou é maluca, que é justamente ao contrário, que espera é que nessa altura consiga tempo para descansar.

Se calhar tem razão. Mas eu gosto de fazer coisas, não me imagino sem ter o que fazer.

Bem. É tarde e já escrevi demais. Uma parladeira, é o que sou. Mas só a escrever. Ao vivo, sou contida.

É verdade: ontem enganei-me. Não eram flores de marmeleiro, eram de pereira. Hoje quando estava ao lado da pereira, fui cheirar as florzinhas e pensei: 'olha que burra, então ontem fotografei as flores e fui confundi-las com as outras.'. Fica a correcção.

Também, a propósito de falos, fotografei a antes erecta flor do aloé. Agora está como aqui abaixo de vê, murcha. É a vida. Daqui por uns meses volta-lhe o vigor. Dir-se-á que meses de intervalo não é grande performance. Mas, como dizia o outro, é a vida.


E agora permitam que partilhe um vídeo muito bonito. Um estilo de vida que me atrai. A paz do campo e das montanhas envolve a alma e eu cada vez preciso mais disso.


Uma boa semana, a começar já esta segunda-feira.

terça-feira, outubro 16, 2018

Portanto, dizia eu: só se algum flamingo salvar a coisa...


Dizia eu, ontem à noite, depois de ter elaborado um raciocínio em torno das cuecas da menina Louise e antes de apagar, que ia ver se me ocorria alguma coisa esperta para dizer ou, se não fosse bafejada pela sorte, se algum flamingo salvava a coisa.

Acontece que a coisa se resolveu de outra maneira. Fui violentada pelo Morfeu que se aboletou aqui em cima de mim e que não apenas não pediu previamente o meu consentimento como veio ao engano já que não trouxe um único sonho de presente.

Portanto, ontem à noite os flamingos ficaram a fazer equilíbrio nos pernões para nada. Mas, lá está, guardado está o bocado para quem o há-de comer e ei-los aqui, agora, para nos virem brindar com a sua rosada existência.



As fotografias estão assim a modos que etéreas porque foram feitas de longe, quando estava a fazer bird watching no domingo à tarde num lugar lindo demais para explicar.

Foi a minha filha que me falou e que nos convenceu a ir lá passear. Juntámo-nos lá. De longe fiquei espantada com a altura dos meninos. Estou com eles todas as semanas mas, sei lá, talvez seja seja por vê-los ao longe, ao pé da mãe. Tão grandes. Não tardará muito que não estejam da altura dela. E ela é alta. Ou seja, antes disso, vou eu, quando estiver ao pé deles, parecer uma insignificante vovózinha lilliput. 

Mas, então, dizia eu, fomos dar a um lugar que parece fora deste mundo. Se eu andasse com veia poética poderia aqui descrever aquela paisagem encantada. Mas não. Ando prosa, prosa, prosa. Mas prosa de primeiro ciclo. Só consigo dizer coisas terrenas, básicas, assim como as vedes. 

Onde é que eu ia? Ah, sim. Que os fotografei de longe. Zoom ao máximo e uma aragem desmiolada. Ou seja, algumas desfocadas e outras reduzidas a pormenores no infinito.

Salvaram-se umas quantas -- e vai lá, vai -- que, com vossa licença, aqui partilho convosco.


E isto para dizer uma coisa que se tem vindo a firmar dentro de mim como irrefutável e horrorosa: a gente passa pela vida sem saber nada. Julga que sim mas está bem, abelha. Por exemplo: até há algum tempo pensava que conhecia razoavelmente a terra onde nasci. 

Pois bem. Basta ir a um lugar destes para perceber que conheço é uma ova. Nem sonhava. Ia andando e parecia que estava a entrar num outro comprimento de onda. Salinas, sim, já tinha visto não muito longe, zonas de sapal, também mais ou menos. Mas uma coisa destas. Que surpresa. Horizontes largos, ar limpo, uma luz clara, uma forma de natureza inesperada.

Pássaros, flamingos (que não são bem pássaros mas enfim; pelo menos acho que não fazem piu-piu), barcos de verdade onde não se espera. 


E o espaço do Moinho de Maré muito bem reabilitado, uma sala de estar que não dá para acreditar,  só mesmo vendo, uma  esplanada muito acolhedora, uma varanda pequenina e com uma vista ampla. Tudo muito recomendável. 

E esculturas de flamingos no passadiço. Uma graça, uma ideia agradável.
Não sei se tudo aquilo tem dedo da presidenta mas não me admiraria que tivesse pois parece ser mulher de acção e bom gosto. 
Chega-se à Mourisca e, ao aproximarmo-nos do moinho, vamos vendo aquelas elegantes esculturas da autoria de Pedro Marques e percebemos logo que estamos a chegar à terra deles.


Fiquei a pensar: se calhar, numa casinha aqui talvez eu conseguisse ser escritora. Uma casinha pequenina -- e não era para brincar aos pobrezinhos, era mesmo só para ser fácil de limpar -- com vista para os flamingos, com um pinheiro manso no quintal, com chão de tijoleira e uma mesa azul encostada à janela. E vasinhos com flores na parte de fora do beiral das janelas. Podia fazer caminhadas por entre as pequenas lagoinhas, podia fazer fotografias, quando a maré estivesse cheia podia pôr-me num barquinho a remos e, quem sabe, ir à pesca. Se apanhasse peixinho podia assá-lo num fogareiro. Depois, podia ir beber um café ao moinho. E à tarde poderia ficar sentada numa cadeira de balouço a ouvir os pássaros.

Não sei é quando é que escrevia. Se calhar, tinha que ser a partir das onze da noite. E na volta tudo se haveria de resumir a um post fajuta no blog. Uma sina, um desconsolo. 


Bem, escritas à parte, aquele lugar é abençoado. Muitos deuses esvoaçam por ali.

Acho que vou ter que lá voltar para melhor os poder ver e fotografar a voar. Uma mancha alada e rosada.

Também gostava de os ver a marchar. Les flamants roses. Um pequeno exército de vaidosos insolentes que só têm de desculpa o serem tão deliciosamente efeminados. Uns pássaros não vos digo nem vos conto: bichas, bichas, bichas. Parecem ser divertidos e alegres como as bichas malucas costumam ser.

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Lá em cima coloquei o Manon (uma coreografia Kenneth MacMillans dançado pela Tamara Rojo e pelo Carlos Acosta do The Royal Ballet) porque foi o que me ocorreu quando me apeteceu ter aqui um bailado interpretado por humanos.

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terça-feira, julho 24, 2018

Coisas porcalhonas
-- que, logicamente, devem ser evitadas --







Pode ser que às mentes auto-sustentáveis as estações do ano não alterem a disposição. Mas a minha ainda é movida a coisas que se escafedem com o dealbar das temperaturas mais altas -- mesmo quando de altas não têm nada.

Sempre me lembro de chegar a estas alturas e já estar por tudo. Ficam à espera que proteste e eu moita. Podem provocar, tripudiar, saltar em cima a pés juntos que eu olho de longe, indiferente às minudências do pequeno mundo. Acham que o meu silêncio não prenuncia nada de bom, temem chumbo grosso mas eu, em paz, nada digo -- porque, simplesmente, estou sem paciência, desejando que passem à frente porque a mim tanto se me dá.


Hoje, no restaurante, ao almoço, dois dos meninos contaram que o outro avô defende o Bruno de Carvalho e acha que o Marta Soares é que é o culpado disto tudo. O meu marido ia entrando em apoplexia, que não podia ser, que essa não, que estavam equivocados, que o avô era pessoa de bom senso. E os meninos que não, que o outro avô era mesmo a favor do Bruno de Carvalho. O meu marido, fora dele, pediu aos meninos que dissessem ao avô que, que ele ache que o Salazar foi o maior, ainda vá que não vá, agora que ache que o Bruno de Carvalho deve voltar ao Sporting essa é que não. Os miúdos disseram que sim, que levavam o recado. E, dizendo isto, o meu marido atirava-se para trás na cadeira, perplexo, indignado. E eu, observando-o, gabava-lhe a energia.

A mim não apenas aquilo me foi completamente indiferente como nem que por ali adentro entrasse o clã Aveiro em peso, com a D. Dolores de shorts esfiapados e nalgas ao léu,  o namoradão todo camioneiro e altamente barrigudo feito sleeping partner, mais as manas Cátia e Elma em monoquini, bota alta e purpurinas multicores artisticamente espalhadas pelo corpo, com o CR7 em tronco nu a dar saltos no ar e a uivar, e a menina Georgina com três bebés ao colo e com as mamocas e as quatro bochechas três vezes maiores que eram quando ele a conheceu, que a mim me daria igual. Sem ânimo para me exaltar ou entusiasmar com o que quer que seja. Mesmo se entrasse o Marcelo a dar beijinhos de mesa em mesa eu juro que ficaria pregada à cadeira, impassível -- e se ele fizesse mesmo questão numa selfie comigo pois que viesse ele sentar-se ao meu colo que eu nem aí.


E isto para dizer que parece que nada do que vou sabendo sobre a actualidade me tira do sério, me entusiasma ou me revolta. Tudo me parece mais do mesmo. Monotonia mais chata esta.

[Mas sou eu. Sei que sou. É a energia dentro de mim que parece esfumar-se, retirando-me a vontade de espadeirar o mundo à minha volta. Fico mansa como uma rola budista num galho de azinheira]


Só coisas meio desasadas é que puxam por mim. Por exemplo, isto dos hábitos pouco higiénicos. Isto, sim, parece-me útil. Chamem-lhe coisa de estação pateta, chamem-me a mim desmiolada-mor. Tanto se me dá. A mim parece-me instrutivo e pertimente.

Portanto, transpondo -- em tradução e ordenação livres -- o artigo Tous ces gestes du quotidien qui ne sont pas hygiéniques, de Ophélie Ostermann, publicado no Le Figaro . Madame, partilho convosco dez dos erros mais frequentes a nível de higiene quotidiana. Cenas a evitar, portanto.


1. Nunca limpar o telemóvel

Uma nojeira. Pousamo-lo em todo o lado, mexemos nele sem quaisquer cuidados. Encostamo-lo quase à boca ou à cara mesmo que esta tenha cremes ou esteja transpirada, pegamos-lhe com as mãos pouco limpas. Portanto, façam o favor de, volta e meia, o limpar. Dizem as boas regras de higiene que bom mesmo era limpá-lo três vezes por dia com uma toalhita anti-séptica. Mas, se calhar, se o fizermos, ainda corremos o risco de nos tornarmos num daqueles maníaco-compulsivos com a mania das limpezas e, caneco, tudo menos isso. Eu diria que, talvez, uma vez por semana não fosse mau de todo. E, não havendo toalhitas dessas, talvez um papelinho com álcool. Melhor que nada.


2 . Não deixar arejar a cama

Parece ser coisa de gente arrumada mas é um erro. Refiro-me a, de manhã, quando se sai de casa, deixar a cama toda feita, muito bem feitinha, sem que o colchão ou o lençol de baixo fiquem a arejar. Errado. O ideal será deixar a roupa puxada para trás, lençol de cima incluído. Arejar é bom.


3 . Cortar o melão no prato (sem ter a certeza que foi previamente lavado)

Ou bem que se lava o melão antes de cortá-lo (tal como se deve fazer com toda a fruta) ou descasca-se antes de colocá-lo no prato. Nunca se sabe se traz vestígios de terra, de fertilizantes, herbicidas ou estrume de bicho cagador. Por via das dúvidas, há que ter cuidado.


4 . Partilhar a toalha da casa de banho

Se parece um bocado nojento partilhar a escova de dentes, pode parecer normal partilhar a toalha do lavatório da casa de banho. Errado. Limpar as mãos ou a boca deixa na toalha bactérias, células mortas e, num ambiente quente e húmido, ainda mais os germes se multiplicam. A menos que goste de partilhar micoses, verrugas e cenas que resultem de bicheza variada, não o faça. 


5 . Beber bebidas pela lata

Uma porcaria. Quando se levanta a tampa, uma parte que está em contacto com o meio exterior mergulha na bebida e lá vai toda a espécie de micróbios ao banho na bebida que vamos beber. Portanto: não beber bebidas directamente pela lata é o conselho a ter em atenção.


6 . Não lavar as mãos depois de mexer em moedas ou notas

Escuso de lembrar que quase não há dinheiro que não contenha vestígios de droga. Mas, mesmo não pensando na droga, sabido é que, de mão e mão, a bicheza miúda vai-se acumulando. O ideal seria usar toalhitas de limpeza ou aqueles sprays desinfectantes para ir mantendo as mãos limpas depois de mexer em dinheiro. Não havendo, água e gel de lavagem são melhores que nada.


7 . Pousar a malinha de mão ('carteira', para as tias) ou o saco das compras em cima da mesa da cozinha, da mesa do restaurante ou em cima da cama

Esta espero que o meu marido não leia. Volta e meia pouso o que não devo onde não devo. Errado. Razão tem ele em chamar-me a atenção (mas, lá está, prefiro que ele não leia isto para não me aparecer a cantar de galo). Em especial se já os pousámos no chão, nos transportes públicos ou noutros locais onde a higiene não abunde, nada de os pôr em locais que se querem limpos como a mesa onde comemos, a bancada da cozinha ou a nossa rica caminha. 


8. Não lavar as mãos antes de, na casa de banho, limpar as partes íntimas

Penso que já é bem sabido que, depois de irmos à casa de banho, devemos lavar as mãos. No entanto, pasmo, mas pasmo mesmo, por, em casas de banho públicas, ver frequentemente mulheres que saem do habitáculo privado e... ala moça que se faz tarde, e aí vão elas, as porcalhonas, sem lavar as mãos. Pois bem. Depois, sempre. Isso já deveria ser sabido e consabido. Mas, se temos as mãos pouco limpas, deveremos lavá-las também antes de limparmos as intimidades ... a menos que não nos importemos de correr o risco de nos contagiarmos com as porcarias que, incognitamente, transportamos nas mãos.

9 . Não lavar a roupa antes de a vestirmos pela primeira vez.

Penso que toda a gente lavará a roupa interior nova antes de a usar. Contudo, talvez não lavem a roupa que se encontra exposta e disponível para ser provada. Errado. Excepto se forem peças dobradinhas e resguardadas, parece de bom tom lavar o que já pode ter sido provado por gente transpirada, suja e mal cheirosa (já para não dizer com doenças estranhas e contagiosas). Agora que o escrevo, dou por mim a pensar que... bem prega Frei Tomás. Mas, de facto, pensando bem, parece uma nojice uma pessoa vestir uma coisa que sabe-se lá quem é que a vestiu antes. (Credo... só de pensar nisso...)


10 . Dormir com cuecas

Já aqui, no blog, referi uma vez que é mais saudável dormir nu ou, pelo menos, sem cuecas. E repito: as cuecas podem favorecer o desenvolvimento de irritações, inflamações, culturas de fungos -- especialmente se forem de fibra (as cuecas). E isto é tanto mais relevante para as mulheres. Arejar é que é bom. (E isto é regra que se aplica à genitália, ao colchão da cama e, assim de repente, a tudo)

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Para tentar atenuar -- que um tema sobre práticas pouco higiénicas não será do mais apelativo que há, reconheço --  resolvi aqui ter as melhores fotografias (em grandes planos) tiradas em jardins e que integraram o conjunto em apreço na eleição do melhor Garden photographer of the year com o patrocínio de Royal Botanic Gardens in Kew, London [no The Guardian]. São lindas, não são? Ah como eu gostava de ser capaz de fotografar assim.Tão, tão, tão bonitas.

E para que o ambiente fique mesmo limpinho, peço agora a ajuda do grande Cine Povero

Ruy Belo :: Algumas proposições com pássaros e árvores / Por Luísa Cruz



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Lá em cima Antoine Ciosi interpreta Ti Tengu Cara e talvez também não tenha nada a ver com nada mas eu gosto, sabe-me bem ouvi-lo.

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domingo, junho 24, 2018

Esta manhã de domingo





As portadas de madeira estão abertas para que entre a luz e as portas de vidro também estão abertas para os sons do campo e para a leve aragem que, de quando em quando, se faz sentir.


Estou descalça porque gosto de sentir a frescura do chão de tijoleira. Mesmo quando ando lá fora, junto à casa, ando frequentemente descalça apesar de, por vezes, sentir algum desconforto pelas omnipresentes pedrinhas, por alguma caruma ainda não varrida, pelas bolotas ou seus carapucinhos, pelas formigas que, carnívoras, parecem querer comer-me.


Estou de biquini porque hoje só aqui estamos os dois e gosto de andar à fresca. Já andei a fazer a minha caminhada e, sempre que ouvia algum carro a passar lá em cima na estrada, ocultava-me entre o arvoredo. De resto, durante quase uma hora acho que isso só aconteceu duas vezes e, mesmo assim, foi muito.

Está calor e, em alguns lugares, onde as árvores se fecham e o bosque se torna mais acolhedor, sente-se um perfume quente a subir da terra. Estes são os lugares de que mais gosto. Sinto-me cúmplice da terra e agradecida por partilhar a sua intimidade. Ouvem-se os pássaros e os insectos que tremem de alegria com o verão que finalmente se faz sentir.


O meu marido está lá fora. Levanta-se cedo, faz também uma caminhada. Depois põe-se a trabalhar. Ou desrama árvores ou corta as silvas ou apanha os ramos que arruma em montes que se multiplicam. Quando passo por ele diz que 'isto não tem fim' e eu digo que ainda bem. Vendo numa perspectiva, é o mito de Sísifo em versão campestre. Vendo noutra, é uma forma simples e agradável de existir.

Eu estive a arrumar o quarto, a seguir vou arrumar e limpar e varrer a sala. O almoço está pronto: bacalhau com brócolos, feijão verde, cebola, batata doce e ovo.  


Provavelmente, a seguir ao almoço, voltarei a deitar-me lá fora, na espreguiçadeira que porei à sombra fresca da figueira e, até adormecer, continuarei a ler o livro de Miguel Sousa Tavares que estou a ler de gosto.


Há pouco, enquanto andava na lida, ia vendo, na televisão, na RTP 1, um programa invulgarmente bonito, Sob o abrigo dos carvalhos, que amplificava os sons do campo que me entram pela porta. Inteligentemente, os sons não eram maculados pela locução do que se estava a ver. Apenas, de quando em quando, alguma música muito discreta e uma ou outra legenda escrita. A quem possa, permito-me recomendar que tente vê-lo.

Entretanto, o meu marido, já todo bem disposto com o seu bem amado Sporting, veio ver as notícias e confirmar o que já se sabia: o sinistro Bruno de Carvalho foi corrido e, por artes mágicas, passou-lhe o amor ao clube. Ainda bem. Que vá curtir o desgosto para bem longe que, pelos lados do Soporting, já causou estragos que cheguem. Imagino o estado quase calamitoso em que as contas devem estar e o risco para quem depende do dinheiro que de lá recebe. Será, certamente, a prioridade número um para quem pegar na gestão daquilo tudo. O meu marido, contudo, diz que isso parece não transparecer e fala-me num significativo adiantamente por parte de um patrocinador (creio que a NOS). Tomara que, de facto, não haja drama e que eu, por uma vez, esteja a ser pessimista.


Mas, por agora, não é tema de que queira aqui falar (até porque, neste preciso momento, está outro maluco encartado na televisão e este com poderes bem maiores e mais perigosos: o doido Trump em mais um dos seus tresloucados discursos contra os imigrantes).

Portanto, se me permitem, fico-me, por ora, por aqui: tenho que ir concluir a limpeza da casa antes que o meu marido reentre para tomar banho e almoçar.

Até já. E um belo dia de domingo a todos quantos me lêem.

domingo, maio 27, 2018

Um rapaz selvagem encanta uma mulher da cidade





Quando foi o Butcher's Crossing adorei. Não era só a escrita, nem sei se era a história. Talvez não. Penso que foi, sobretudo, aquela escrita tão próxima da natureza, a terra a mudar aos longo das estações do ano.

Depois foi a descoberta das Oito Montanhas. A mesma coisa. Os elementos. O frio, as neves, o calor, o degelo, o céu que muda, as árvores que mudam em função da altitude, as pedras, os caminhos, o céu à noite, os sons da natureza.


A meio da semana, na fugida à livraria, novo livro de Paolo Cognetti, 'O rapaz selvagem'. Trouxe-o logo. Li-o hoje no carro, li à tarde antes de adormecer. Que bom. Autobiográfico. Nada de situações empolgantes, nada de enredos viciantes. Apenas a  descrição da vida na montanha. Paolo foi passar uns tempos sozinho, numa cabana alugada em plena montanha. A forma como passa os dias, os passeios, os animais que espreitam, os ruídos nocturnos, o amigo pastor. As páginas vão fluindo e eu presa a elas.


Encontro-me comigo quando leio uma escrita assim, tão próxima da natureza.

Hoje in heaven estive assim. Percorrendo devagar, maravilhada, o fulgor do renascimento. Depois das chuvas a terra fica ainda mais fértil. E tudo, tudo me encanta. As rochas e os verdes que as emolduram, as grutas tentadoras mas onde não quero entrar, os cheiros que perfumam o ar quente que faz vibrar os odores da terra, das árvores, do alecrim, do rosmannho, do funcho. A lagartixa que foge, os animais que não vejo mas cuja corrida ouço.


Estava à porta da sala. As portadas abertas, as portas de vidro abertas. Estava com a máquina fotográfica a tentar capturar a luz por entre os verdes, a luz nos muros, as sombras nas rochas. Então ouvi uma espécie de grito. Depois outro. Vinha do pinheiro grande. Um grito, outro grito. Depois um pássaro grande veio em voo urgente para pousar na azinheira ao pé de mim. Era cinzento com cores em volta do pescoço e asas em azul e verde. Gritou e logo um outro pássaro igual mergulhou também do pinheiro e veio ter com ele e logo o primeiro voltou a voar de volta ao pinheiro. Gritavam. Voo nupcial, talvez. Tudo tão rápido que não consegui registar.


O meu marido andou com a roçadora a cortar as silvas e o tojo que estão a despontar com todo o vigor e eu andei atrás dele com medo que corte os orégãos, os lírios e outras florzinhas do campo. Ele não quer que eu ande ali, prefere andar à vontade. Mas ando. Os óculos de plástico de protecção e a vontade dele em cortar a direito não me deixam descansada quando anda com aquela máquina terrível. Mas fica um cheiro bom a erva, a campo, a flores. Adoro. Já o disse muitas vezes: para mim é como se assistisse a milagres. Contemplo a natureza, venero a sua transformação, maravilho-me com a sua harmonia e perfeição.


Talvez por isso, ler palavras de alguém que sabe trazer à escrita estes sentimentos de profunda intimidade é um prazer.

Como disse, o livro chama-se 'O rapaz selvagem' e eu fico a pensar que, se calhar, também eu, que adoro andar sozinha e em silêncio nestes caminhos que são tão meus, sou uma rapariga selvagem. E, no entanto, grande parte da minha vida decorre entre avenidas lentas, sobrecarregadas e escritórios onde não entra o ar da rua nem se ouve os cantos dos pássaros.





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