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quinta-feira, janeiro 31, 2019

Jardins e suspiros





Tanto trânsito, tantos acidentes. A grande e bela cidade tem isto de mau: muitos carros em circulação. E, quando vem a chuva, vêm os acidentes. Hoje passei por vários. Felizmente, não vi feridos. Num deles, dois carros amachucados e uma mota literalmente desfeita. Impressionante o estado em que estava a mota. Mas não havia ambulâncias, apenas pessoas com coletes, trocando informações. Por isso, porque olho e não vejo sofrimento, não me compadeço. E repare-se que digo que olho não porque me detenha a olhar, empatando ainda mais o trânsito, mas porque, dada a redução de vias, quem conduz não tem outro remédio senão ir a passo. E o que acontece é que uma pessoa, às tantas, só quer é poder chegar ao destino a tempo e horas e já fica é furiosa por não o conseguir, enredada naquele horrível pára-arranca. Quer-se lá saber se é só chapa ou se algo mais, quer-se é passar ao largo e seguir viagem. E digo isto com total franqueza, sabendo que pode parecer insensibilidade, porque a verdade é que tanto tempo perdido todos os dias já nos torna impacientes, indiferentes. E, no entanto, quem se vê metido nesses assados também não tem culpa, não o faz de propósito.


Naquela altura em que parecia que tinha uma nuvem negra a pairar em cima de mim, maçadas e pressões por todo o lado, na mesma semana bateram-me duas vezes por trás, escaqueirando-me o carro. Numa das vezes foi de tal forma que o meu carro saltou e foi espetar-se no da frente, ficando o carro também espatifado à frente e até de lado, tal a violência do impacto. A seguradora chegou a equacionar perda total. Em qualquer das vezes eu estava parada. Em qualquer dos casos, quem me bateu, fê-lo por distração. No primeiro caso, o rapaz viu abrir o verde para a fila do lado e pensou que era também para ele, avançando à confiança. Três dias depois, foi um homem de uns cinquenta e tal anos que, passado um bom bocado, quando conseguiu sair do carro, apenas me disse: há dias em que uma pessoa não devia sair de casa. Pediu-me muita desculpa, perguntou-me várias vezes se eu estava bem. Estava enervado, preocupado. Tinha os óculos partidos, a cara e a camisa cheias de sangue, parecia ter o nariz partido. Presumo que, com o impacto, tenha disparado o airbag e lhe tenha feito todo aquele estrago. Não consegui perceber como foi possível aquilo. Estávamos parados e, de repente, o carro veio bater-me com aquela inexplicável violência. O do carro da frente também estava espantado com o que tinha acontecido mas o causador não se explicou, apenas pediu muita desculpa, aparentemente também sem perceber o que lhe tinha acontecido. O que sei é que durante uma meia hora ali estivemos a atrapalhar o trânsito e a atrasar a vida a muitas dezenas de pessoas. Por acaso, agora estou a lembrar-me que nem me lembrei de vestir o colete. Aliás, estava muito vento e os papéis voavam todos. Uma chatice. Quando liguei ao meu marido e lhe disse: 'Bateram-me outra vez' ele fez um tom de voz preocupado, como se fosse o cúmulo da pouca sorte, como se ficasse receoso do que poderia vir a seguir. Como não sou fatalista, não me preocupei demais, fiquei foi arreliada por tanta maçada na mesma semana.


Depois de almoço fui a um sítio sem estacionamento próprio mas com um parque público subterrâneo ao pé. Pois estava completo. Tive que ficar à espera que um carro saísse para que a cancela levantasse. A seguir, tive que dar várias voltas, em vários pisos, até encontrar o lugar vago.

Imagino que quem me lê, tendo a sorte de viver numa terra pequena onde se pode ir a pé para o trabalho, onde, querendo usar o carro, há sempre onde estacioná-lo, nem consiga perceber o que é viver assim, gastando, em média, cerca de três horas por dia dentro do carro.

Há vantagens, claro que há. Há a possibilidade de ter acesso a muitas coisas boas, interessantes. Ainda hoje. Gostei muito. Não é todos os dias que se tem uma sorte destas.

Mas a verdade é que chego a casa, chego aqui ao meu sofá, e só tenho vontade de me evadir. Não consigo falar de temas românticos, não consigo ter vontade de falar de política, não consigo pensar em assuntos com alguma substância. Só me apetece ver vídeos tranquilos, jardins, bailados, ouvir sonetos, sei lá.


Passa da meia-noite, vou ainda fazer um bocadinho de tapete que só eu sei o que vai ser este dia e, se não desligo, se não esvazio a cabeça para acordar brand-new, não vou ter as asas soltas, os pés decididos a descobrir e a fazer caminho, os braços fortes para afastarem todo o mato que se me atravesse, todos os escolhos, a cabeça arejada, os olhos limpos para verem ao longe e pacientes para verem ao perto. Por isso, não levem a mal que me ponha aqui, sossegadinha da vida, a ouvir umas musiquinhas boas, umas boas pianadas, a olhar o verde da natureza, a descansar a alma. Vou buscar um soneto à toa sem querer saber do que diz, só para escutar a beleza das palavras, vou escolher um bailado solto, um jardim no meio da natureza. Fiquem comigo, está bem?.








Be happy. 
Be lucky.

domingo, outubro 02, 2016

O mar em Sintra
[Perante uma beleza tão imensa, como pensar naquele ínfimo cavaco que durante anos se terá gabado:
'Maria, encolhi o IMI'?]



De novo Sintra. Passeio pelas pequenas terras que se alojam nas dobras da larga saia de Sintra, a majestosa Rainha da Lua. 

Depois, descida até ao mar. Sempre belo, o grande mar português. 

Desta vez, Magoito, o mar brilhante, o céu luminoso, a maresia iodada, o ar limpo. 

O País, quando visto de lugares assim, mostra-se grande, magnífico.


E todas as notícias de cavaquinhos, pequenos embusteirinhos, videirinhos disfarçados de pequenos estadistas, reizinhos que saltam da marquise clandestina para o palácio, levando a marquise colada a si, a esposazinha espevitada e controleira sempre a tiracolo -- todas essas imizices disfarçadas de gaivotas azuis (gaivotas!? gaivotas ou cagarras...?) perdem relevância. 

Não precisou que a história o arrumasse num sótão povoado de limas azedas. Não, Ainda nem um ano passou e o País já nem sente um frémito, por pequeno que seja, com o cotão que se descobre nos seus despojos. O País já nem sabe de quem falam quando falam desse aníbal que se deu com bandidos, que se queixou de não poder empochar mais e que, no deve e haver, se safou bem com os dinheiros mas muito mal com o que os portugueses pensam dele. Um zero. Não: menos que isso. Bem pode andar roído de raiva, ranger enquanto escreve roteiros póstumos, planear vingar-se dos que se vingam dele, bem pode. Mas nada do que faça apagará o desprezo que os portugueses sentem dele.
Sentindo a frescura deste mar tão belo, nem sei quem foi esse de que as notícias falam. Um qualquer chico-esperto. Um hiato na história do meu país. Concentro-me no azul, na força das águas, na beleza de lugares assim. Concentro-me no que vale a pena.

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E desçam, por favor, para verem o céu on fire no anoitecer em Lisboa 

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quinta-feira, maio 26, 2016

Postal ilustrado de Sintra




De vez em quando vou a Sintra mas, como tantas vezes me acontece, chego cedo, vou à minha vida, estou todo o dia onde tenho que estar e saio ao fim da tarde, por vezes já de noite, meto-me no carro e faço o caminho de regresso. Ou seja, passear pela vila, descansada, turista, calcorrear as ruas de máquina em punho, isso não dá.

Mas hoje deu. No outro dia, antes das nove, já os autocarros despejavam turistas e já as ruas se acotovelavam tentando encaixar mais um. Mas vi isso do carro. E não é que goste de frequentar locais a transbordar, mas gosto, isso sim, de me sentir estrangeira pois parece que é a maneira certa para ver as coisas com olhos de primeira vez.


Ao passar pela esplanada lembrei-me de, não há muito tempo, ao chegar de manhã e, ao passar por lá, ouvir chamar o meu nome e ver uma mesa cheia de homens de fato e gravata, folgazões, contando piadas e rindo, dizendo que me juntasse a eles. Juntei-me, claro. Com receio do trânsito, tínhamos chegado cedo demais e ali ficámos fazendo tempo. 

Desse grupo de bons malandros já não trabalho com nenhum. De vez em quando falamo-nos ou vemo-nos mas a animação que então reinava entre nós de cada vez que nos juntávamos, essa ficou naquela mesa, sob as árvores, numa manhã em Sintra que não sabíamos que ia ser a última.

Mas a vida é assim mesmo, de vez em quando pega nuns e leva-os para um lado, pega noutros e empurra-os porta fora e, alguns, sabe-se lá como, são poupados. Mas, de facto, pensando bem, poupados a quê?

Enfim, adiante, que hoje isso não é tema.

Hoje, então, passeei com tempo, por minha conta. Fotografando, espreitando as lojas, vendo as pessoas que passavam, olhando as árvores, as gigantes e belas árvores de Sintra. E olhando os muitos idosos que, em ruidosos bandos, enchem as ruas de várias línguas. Muitos italianos, muitos mesmos. Mas também muitos jovens, casalinhos jovens. 

Não se percebe, mas a jovem mãe estava a amamentar o bebé enquanto caminhava rua acima

De mão dada, como uma adolescente de férias, radiante de ter roubado tempo para usar gostosamente o tempo, por ali passeei também eu, e comprei queijadinhas e travesseiros, almocei, fotografei, desviei-me de outros turistas, feliz da vida.
Com pouco me sinto feliz, parece que basta desviarem-me uns poucos quilómetros da minha rota usual para já eu me sentir livre de pesos, descontraída, como se estivesse num país desconhecido, à descoberta. 
Agora há muitos tuk-tuk, muitos. Os cavalos estão parados à espera de clientes, que preferem andar a pé ou de tuk-tuk (não sei se é com k ou com c)


Para além das usuais lojas para turistas, há muitas de qualidade, com peças antigas ou artesanato urbano de qualidade. Numa vi um senhor a querer saber se podiam enviar uma grande garça de madeira para o Canadá. A bela peça custava cerca de 300 euros e valia bem o valor. E percebi que a transação se ia concretizar. Ou seja, do que observei por ali, são turistas com poder de compra e não daqueles que varrem tudo sem gastar um tostão furado.



Lá vi também o novo museu das notícias que, vá lá saber porquê, pelos vistos para ser percebido pelos turistas de língua inglesa, se chama News Museum. Não entrámos. Apesar de estarmos com tempo, uma outra maratona nos esperava e, por isso, hoje foi mesmo apenas flanar, curtir, esticar as pernas, desfrutar.

(E não é que, por ter falado nos bolos, agora estou aqui com uma vontade danada de ir à cozinha assaltar a caixa e atirar-me a um belo travesseiro...? Não sei se vou conseguir resistir, vou já avisando)


Quando íamos a caminho da Periquita II (que a original está fechada), dei com o fantástico homem-estátua da fotografia aqui abaixo. As pessoas lá se põem ao lado dele para a selfie do costume e ele não é de modas, quando estão para se irem embora sem deixarem dinheiro, ruge e aponta o lugar onde devem deixar a paga. Numa varanda mais acima, um manequim completa o quadro com mais um apontamento de fantasia.


E num recanto, num lugar sem qualquer imagem religiosa mas com uma cruz em cima, alguém pintou umas mãos postas. Gostei de ver. Mesmo sem o simbolismo religioso, duas mãos juntas são sempre um símbolo de esperança, de prece, de agradecimento.

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Lawrence's
Inaugurado em 1764 é o hotel mais antigo da Península Ibérica.

She walks in beauty, de Lord Byron


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 Lá em cima Natalie Merchant interpreta The Letter
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.


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segunda-feira, novembro 10, 2014

Casas e jardins especiais


No post abaixo mostro uma entrevista divulgada pelo site da Vogue inglesa, At Home with Kate Moss. A propósito falo um pouco dela e do quanto ela tem inspirado artistas variados - mas graça mesmo o que tem é a conversa dela.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Ando um bocado constipada há uns dias, sinto-me ligeiramente adoentada, há bocado tomei um anti-histamínico e, por tudo isso, estou com menos pilhas do que o habitual. Claro que, quando anunciei que este domingo não estava disponível, que ia ficar em casa, me perguntaram se tinha febre e parece que o pimentinha mais crescido até perguntou se eu tinha legionella. Pois, acho que não, nem andei por aquelas bandas (a não ser que passar na A1 na zona da Vialonga e Alverca conte). Mas, mesmo não sendo isso (noc-noc-noc, três vezes na madeira) e sendo apenas uma porcaria de uma doençazeca, a verdade é que estes resfriados ou gripes ou lá o que isto é deitam uma pessoa um bocado abaixo. 
Mas amanhã já vou estar fina até porque tenho programa nocturno e ai de mim se falhava o evento. Depois logo conto até porque promete; mas, como devo chegar tarde a casa, talvez seja apenas uma nota breve. Logo vejo o que consigo fazer.

De tarde, enquanto, deitada no sofá e tapada com uma manta quentinha, lia de gosto O Grande Rebanho de Jean Giono, ia pensando que, à noite, aqui, no Um Jeito Manso, tinha muita matéria para pôr em dia. Pensava, por exemplo, nas ligações de Durão Barroso ao BES ou noutras coisas desagradáveis como a venda do País ao desbarato, seja a chineses, angolanos, brasileiros, omanitas, a quem calhar; mas a verdade é que, agora, não tenho disposição para falar das teias de que se tem tecido a vida política em Portugal, grande parte dela subordinada a interesses oportunistas e, em alguns casos, pouco mais do que feudais.


Contudo, em dias assim, quando não estou em grande forma, só me apetece falar ou pensar em coisas que me agradam.

Por isso, com vossa licença, que se lixem o Cherne e as suas liasons ao BES, a Isabel dos Santos, agora com a OPA sobre a PT e a quem já não deve faltar muito para ser a nova DDT, e os anormais sempre de perna aberta que acham muito bem que se perca a soberania num abrir e fechar de olhos, sem que se lhes ouça um ai


Vou antes partilhar convosco casas ou jardins de que muito gosto.


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.  1  .




Já não é a primeira vez que aqui trago Luis Barragan, cuja arquitectura muito me inspirou numa dada altura em que pintei várias telas a pensar nas linhas puras, nos recantos subtis e nas cores quentes das suas casas.


A sua casa é maravilhosa. Se um dia me sair o euromilhões (coisa que acho que um dia vai acontecer e, por isso, apesar de saber que a probabilidade é ínfima, jogo todas as semanas), tentarei descobrir um arquitecto que me desenhe uma casa - uma casa tripla (para os meus filhos poderem viver perto de mim) - do género da casa de Barragán. A casa mete-se pelo jardim e o jardim, quase selvagem, entra pela casa e, mesmo que não houvesse tudo o resto, quase que só isso bastava. Mas há: as cores, os ângulos de luz, o silêncio. Um despojamento que me toca.


Casa Estudio Luis Barragán, México





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.  2  .


Há um outro jardim que acho muito belo. As cores, a vegetação, a água do Jardim Majorelle em Marrakech, Marrocos, são exuberantes e maravilhosas. Aquela conjugação de azuis escandalosos com os verdes em todas as gradações, as flores, os cactos, o marulhar da água, tudo aquilo é superlativo. O jardim foi desenhado pelo artista francês Jacques Majorelle em 1920/1930 e adquirido em 1980 por Yves Saint-Laurent para evitar que fosse convertido em hotel. YSL dizia que aquele jardim era uma inesgotável fonte de inspiração. Acredito.



Jardin Majorelle, Marrakech




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.  3  .



Não queria deixar de aqui ter um jardim português ou uma casa mas não encontrei vídeos sobre aquilo de que me estava a lembrar. Até que pensei no parque ligado a um palácio que acho também de grande beleza e a merecer uma visita, Monserrate.

Transcrevo o texto que acompanha o vídeo.

O Parque de Monserrate integra exuberantes jardins e um palácio, testemunho ímpar dos ecletismos do século XIX, onde os motivos exóticos e vegetalistas da decoração interior se prolongam harmoniosamente no exterior. O relvado fronteiro ao palácio permite um descanso merecido, antes de prosseguir na descoberta de um dos mais ricos jardins botânicos portugueses. Em setembro de 2013 o Parque de Monserrate recebeu European Garden Award para "Best Development of a Historic Park or Garden" (Melhor Desenvolvimento de um Parque ou Jardim Histórico). 



Parque de Monserrate, Sintra, Portugal


 


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Relembro: sobre aquela que (aos 40 anos) continua a ser uma musa para fotógrafos e demais artistas e uma extraordinária máquina de fazer dinheiro, falo um pouco sobre ela e partilho um vídeo agradável, At home with Kate Moss, no post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

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