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domingo, setembro 05, 2021

Uma vez que a sexualidade do Paulo Rangel não é tema que me assista, deixo que sejam o Marcelo e o Balsemão a levá-lo ao colo e ocupo-me cá das minhas coisinhas

 



Os dias têm sido preenchidos, animados, atarefados, uma festa, uma alegria. No fim do dia, quando uns se foram e outros recolhem aos aposentos, encontramos meias espalhadas pela casa, os quadros da parede por cima deste sofá tortos, o tapete da sala todo enrolado, o comando da televisão levou sumiço, há copos vazios um pouco por todo o lado. 

Há bocado, ao contar mais um episódio da história da Margaret ('um clássico'), o mano do meio dava cambalhotas para a frente e para trás como se estivesse fresco, acabado de acordar. O mais pequeno intervinha na história como se fosse um personagem. Aliás, os três interromperam-me mil vezes para esclarecer aspectos ou para acrescentar pormenores. Eu a querer que se calassem a ver se lhes dava o sono e eles só a falarem. Sento-me na cama do mais novo. Os dois rapazes dormem no mesmo quarto. Ela vem do seu quarto para se sentar nas almofadas do chão. E o do meio, fica na cama dele às cambalhotas. Para ver se o mais pequeno se cala, faço-lhe festas na cabeça. Às tantas, quando estava a falar do Kikas, o cão traquinas, grita-me ele: 'Eih! Não sou nenhum cão!!!'. E eu, admirada: 'Claro que não. Porque é que dizes isso?'. E ele: 'Estavas a fazer-me festas como se eu fosse um cão!' E eu: 'Que ideia, não estava nada'. E ele: 'Estavas, estavas'. Entretanto, no meio das cambalhotas, o do meio soltou um grande arroto. E logo de seguida: 'Desculpa, avó, sei que isto não se faz. Foi só para sentir o sabor da comida do jantar'. Isto às escuras, eu a inventar a história da Margaret na festa do Avante, já depois de ter inventado a Margaret no cinema. Hesito entre zangar-me, conter a vontade de me rir, desesperar por não lhes dar o sono. A irmã, perante estes desmandos, limita-se a dizer com voz de desdém: 'Porco'.

De manhã tinham estado a brincar às empresas e, de tarde, com os primos, a brincadeira retomou. Pasmo com o que dizem, com a agilidade e oportunidade dos seus raciocínios. E zangam-se e discutem perante situações que forjam mas que, depois, discutem como se fossem reais. Uma das vezes que fui lá, estava o mais crescido em acesa discussão com o irmão porque este tinha vendido 200.000 máscaras sem as ter. E dizia que tinha que se ver como se resolvia isso, se era anulando a venda e compensando as pessoas, porque não queria danos na imagem da empresa ou redução do seu share value. Não garanto que tenha sido share value que ele disse mas que falou em share, falou. O irmão discutia, não aceitava, queria vender na mesma. Sugeri que renegociassem, que faseassem as entregas. Entusiasmados, aceitaram a sugestão. Passado um bocado já estavam outra vez desencontrados. A fábrica das máscaras tinha fechado e o mais novo queria contratar os trabalhadores da fábrica e pô-los a fazer as máscaras. O mais velho dizia que uma empresa que vende máscaras, como uma farmácia, não é a mesma empresa que produz os artigos que vende.

E, em catadupa, iam surgindo questões concretas, que poderiam ser reais. 

De manhã, no meio da conversa, ela dizia: 'Esperem lá. Que barulho foi este?!'. Tão realista foi que caí. 'Que barulho? Não ouvi nada?'. Ela fez-me um gesto que não levasse a sério, que fazia parte da encenação'. Foi espreitar e informou: 'Foi um carro que se despistou e veio bater no prédio'. Nesta altura o avô apareceu e logo o do meio correu para o agarrar, que tinha que chamar a polícia. Perguntei: 'Mas então o que é isso agora?'. E logo ele: 'Está bêbedo, andava aí de carro a bater nos prédios, é caso de polícia, vai ter que prestar serviço comunitário'. O avô perplexo sem perceber o que estava a acontecer.

Por vezes tenho vontade de andar de roda deles a fazer filmes com as suas brincadeiras e conversas. Mas geralmente tenho o jantar ou outra coisa para fazer e não consigo andar apenas entregue ao lúdico do momento. 

Ao jantar, conversavam sobre quem tinha nascido primeiro, uns ainda se lembravam do dia do nascimento de outros. E falavam das primeiras palavras que tinham dito. Estavam os cinco sentados na mesa redonda. Não precisam de qualquer apoio. A gente serve-os e eles limpam os pratos. Alguns repetem, outros perguntam o que há a seguir. E, pelo meio, conversam em contínuo. E as conversas deveriam mesmo ser gravadas. A graça que é ter o mais crescido, o que fez agora treze anos e que já está a ficar com a voz grossa, a conversar e a explicar tudo ao que fez quatro. Talvez seja porque todos lhe explicam tudo que o mais novo sabe as coisas mais incríveis. Hoje, na brincadeira, fazia de conta que recebia uma chamada. Depois anunciava: 'Boas e más'. O irmão disse-lhe: 'Mas tens que dizer quais são as boas e quais as más'. E ele, acto contínuo: 'As más é que o prédio tem que ser demolido com as pessoas lá dentro. As boas é que sobrevivemos durante um dia'. Provavelmente isto na sequência da irmã ter anunciado que um carro se tinha despistado de encontro ao prédio. E a brincadeira continuou. E eu fico estupefacta, incrédula.

Depois de jantar, aqui na sala, enquanto os rapazes jogavam um jogo na play station e o mais novo tirava fotografias e fazia avarias, ela pintava as unhas à tia e a mim, pedia-me massagens, pedia-me penteados. E a tia via fotografias de quando eu e o pai nos casámos, fotografias de quando ela era pequena, fotografias das festinhas de anos, dela ou do irmão, a família reunida, tios e primos, amigos, a casa cheia. E os meus pais, os meus sogros, os meus tios, os meus avós. Eu com vinte e poucos anos, quase uma outra. E, no entanto, memórias tão próximas. Olho as fotografias e tenho presentes as situações. Chego a sentir na pele o tecido dos vestidos que, naquele momento, usava. 

E pronto, estou com sono e daqui a nada os passarinhos levantam-se, começa o chilreio. A ver se amanhã ou depois respondo aos comentários. Hoje já não dá. 

Em tempos normais teria comentado a entrevista e os destaques que toda a comunicação social dá à entrevista na qual a homossexualidade do Rangel, há muito conhecida, foi por ele publicamente assumida Mas agora não tenho vontade de dizer nada. O Marcelo anda impaciente com a totozice do Rio e os outros do PSD também. Têm que arranjar alguém. E não estão a conseguir. A laranja secou. Sobra o Rangel mas tinha que ser reciclado. Aqueles vídeos, aquelas coisas que se diziam. Portanto, com o Balsemão a ver se fabrica um sucessor, com a ajuda do Marcelo a ver se cria um facto político com a possível saída do Costa, a SIC começa a preparar o caminho ao Rangel. Pode ser que pegue. Nada como pôr o Daniel Oliveira a perguntar o que dizem os seus olhos a ver se deles brota a célebre lagriminha para a malta começar a aderir.

Mas eu, quanto a tudo isto, não tenho nada a dizer. Não é a minha praia, como sói dizer-se.

Portanto, com vossa licença, fico-me mesmo por aqui.

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Pinturas de Wassily Kandinsky enquanto Roo Panes interpreta There's A Place

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Desejo-vos um belo dia de domingo

sexta-feira, agosto 27, 2021

Pode um simples bouquet...?

 



Mais um daqueles dias com (quase) tudo lá dentro. Preciso desesperadamente de férias. Esta sexta-feira vai ser obra. Queria estar já numa de zero reuniões, reuniões free, mas não consegui. Não me dão tréguas. E mandam-me documentos para aprovar e eu não consigo aprovar o que quer que seja sem ler atentamente. E tem sido com cada um.... Dose. Portanto, há dias em que é praticamente non stop. E isso, nesta altura do campeonato, pesa a dobrar.

Trabalho à parte, a mesa de que eu gostava tanto e que se desconjuntou foi considerada um caso perdido. Mas o tampo é muito bonito e estava bom pelo que o meu marido se lembrou de lhe arranjar uns pés de tipo cavalete que tinha visto no Leroy. Assim, ficamos com a mesa suplementar de que temos falta para refeições de grande ajuntamento. A mesa nova creio que não acomodará mais do que 10 pessoas o que é curto. Além do mais, em tempos covid, não é de bom tom estarmos todos de boca aberta, sem máscara e colados uns aos outros. Portanto, a solução do tampo e dos cavaletes que se fecham e arrumam é uma boa. 

Aproveitei para trazer do Leroy uma latinha de dourado. Acho que alguns dos móveis pintados vão ficar uma belezura com um filet em dourado.

Ao lado do aparador, a minha filha fez uma mistura de mesas e de cores e numa jarra que está sobre o dito aparador, achou que ficaria bem umas flores no tom. Então, já que tínhamos que ir também comprar uma cafeteira (até a máquina do café se avariou) e uma box para a tdt (que se avariou), resolvi ir num pulo ao Gato Preto. Será escusado dizer que, em pleno Gato Preto, tive que me chatear pois, mal entrei, já ele estava passado. Detesta compras. Detesta. Sempre detestou. Quando eu não estava em teletrabalho, jardinava e passarinhava à vontade sem andar com ele. Agora, trabalhando em casa, aproveitamos os fins de dia para estas incursões em conjunto. Mas nunca correm bem. Ver flores no Gato Preto é porem-no a andar descalço sobre brasas: só quer correr dali para fora. Tive que lhe dizer, com maus modos, que parasse de me perseguir, loja fora, a dizer que não estava para aquilo. Ficou ainda mais bravo. A empregada vinha perguntar se precisávamos de alguma coisa mas deve ter percebido que havia raios e coriscos entre nós e arrepiou caminho. 

Portanto, lá escolhi apressadamente um little bouquet e lá nos viemos embora. Mas deve ter percebido que exagerou na birra pois no parque de estacionamento já vinha todo simpático a perguntar se não seria melhor irmos comprar comida para não ser preciso cozinhar quando chegássemos a casa. 

Felizmente a minha mãe não estava connosco senão punha-se logo do lado dele. Habituada a que o meu pai pusesse e dispusesse, condicionando-a nas suas vontades, faz-lhe muita impressão que o meu marido se mostre abertamente contrariado por fazer algumas coisas e que eu não acate cegamente a vontade dele. Eu digo que ele tem bom remédio: não vir comigo. Mas ele acha que eu sou despistada, me perco ou me distraio a ver isto e aquilo e nunca mais apareço em casa e, portanto, contrariado, vem. Mas vem mais numa de me controlar e obrigar a despachar. E isso irrita-me. Em contrapartida, há vantagens. 

Como estamos numa de, in heaven, tornar o ambiente mais claro, as carpetes da sala da lareira, que eram de tons mais intensos (Arraiolos feitos por mim respeitando as cores originais), foram para a zona mais antiga da casa e, para ali, a sala estava precisada de umas mais suaves. Portanto, hoje, a seguir aos pequenos electrodomésticos e às florzinhas fomos comprar uma carpete. Ou seja, um rolo bem gigante e bem pesadão. Poderia ter encomendado online? Poderia. Mas não seria a mesma coisa. Escolher um tapetão é daquelas que só mesmo ao vivo. E é também daquelas que eu não teria conseguido trazer sozinha.

Portanto, a ver se ele não se enfurecia mais e me dizia que carregasse eu com a carpete, calei-me caladinha. A vida de casada, quando a gente se gosta e se conhece, tem disto: um jogo de equilíbrios em que o deve e haver se misturam, se confundem, perdem o sentido. E, além disso, as pequenas quezílias evaporam-se instantaneamente (pelo menos connosco, é o que acontece).

Quando chegámos a casa, perto das nove da noite, fui ainda fazer uma proeza: pintar as raízes com tinta comprada no Lidl. Já o contei: na linha lateral de contorno do rosto, entre as orelhas e as laterias da testa, tenho já alguns cabelos brancos. Aliás, em meu entender, bastantes. Se usar o cabelo caído, mal se vêem. Mas, se o apanhar como gosto de fazer no verão, vêem-se bem. Também podiam ficar assim mas parece que não gosto ou, pelo menos, ainda não me habituei a gostar. Segui todas as instruções. Vinte minutos nas raízes e depois dez no resto para não ficar um contraste grande. Agora ainda o tenho um pouco húmido mas parece que ficou bom. Creio que até está igual à cor original. A ver se amanhã, sequinho e ao sol, está como deve ser. Acredito que sim. Jantei ao lado do meu marido e ele não disse nada. Acho que nem reparou. Ora isso significa que nada a reportar, que é o que importa.

Pelo caminho, encomendámos comida num restaurante e pouco depois estávamos lá a buscar a encomenda. Rolinhos de porco no forno com champignons, batatas em mil folhas, trufas e mais não sei o quê. Bons.... de comer e chorar por mais. Souberam-nos que nem ginjas boas, boas. Também... com a fome com que estávamos...

Com tudo isto, cheguei aqui e, como sempre, não apenas me constatei sem assunto como, para mal dos meus pecados, foi logo tiro e queda. Portanto, vou mas é pregar para outra freguesia que aqui, por hoje, parece que isto já deu o que tinha a dar. Sorry.

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Fotografias (lindas) da autoria de Nick Knight enquanto Roo Panes interpreta Childhood

PS: Se o que escrevi estiver pejadinho de gralhas, peço o favor de que relevem. Ou me corrijam, Please.

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Desejo-vos uma bela sexta-feira. 

E, se não for pedir demais à suprema entidade reguladora, desejo que todo o fim-de-semana e toda a próxima semana sejam bons a valer para todos quantos estiverem a ter a paciência de aí estar, desse lado, a fazer-me companhia.

quinta-feira, junho 04, 2020

Calls, covides, graças, pão quentinho, coração também quentinho







Antes de ontem ligou-me o meu filho. Tinham pensado vir cá passar o dia. A senhora da limpeza, ao fim de dois meses e meio, ia fazer limpeza lá a casa e não dava jeito com eles todos lá em casa. Claro que sim. A seguir ligou-me o bebé. Disse-me: 'Nós amanhã vamos aí'. Não disse 'aí'. Entre nós o heaven tem outro nome, um nome muito bonito. Foi isso que ele disse. Eu aproveitei para esclarecer: 'Escuta, quero falar com o pai. Quero saber se vêm em teletrabalho ou em férias. Podes passar ao pai?'. E aí, o meu bebé fofo, que já não é tão bebé quanto isso pois já fez três anos, em vez de passar o telefone ao pai, resolveu logo o assunto: 'Não. Hoje o pai e a mãe estão a tabalhar e os manos tão na escola. Mas amanhã eles não tabalham e os manos não têm escola porque amanhã é domingo e ao domingo não se tabalha nem há escola'. Desatei a rir: 'Ó meu amor, vocês amanhã vêm cá mas não é domingo.' E ele: 'É, é, amanhã vamos aí, amanhã é fim de semana'. e eu: 'Ó meu querido, vens cá mas desta vez não é ao fim de semana. Passa lá ao pai'. Por fim, lá me apareceu o meu filho. Que vinham em trabalho, claro, e os miúdos com escola. Que estariam cá pelas nove horas.


E, mais coisa menos coisa, cá chegaram. Instruídos para o distanciamento. Sem beijinhos. Mas ao longo do dia o distancimento foi-se estreitando. Meus queridos. A minha menina veio ajudar-me a fazer o almoço e o jantar. Diz que gosta de cozinhar. E quis que a penteasse, que lhe fizesse tranças. Diz que gosta que lhe mexam na cabeça. Somos muito iguais. Surpreendo-me. Gosta do que eu gosto, faz gestos que eu faço, gosta de ousar e, a bem dizer, também se está nas tintas para o que os outros pensam. O meu espigado menino do meio continua divertido, brincalhão, esperto que se farta, sabe tudo, preocupa-se com tudo, quer perceber tudo. Tal como os primos, têm aulas através do computador (ela até aula de ballet teve) e tudo com a maior das naturalidades, como se sempre tivessem tido aulas por essa via. Quando eu disse que ia ter uma reunião, o bebé perguntou-me e eu nem queria acreditar: 'A que horas é a tua call?'. Quando eu estava a sentar-me em frente do computador, ele espreitou, apontou para um pequeno símbolo que estava na barra inferior e perguntou-me: 'Ah, vais usar o teams? Tens que carregar aqui'. Fiquei de queixo caído.


Para o jantar fiz bacalhau à Gomes de Sá. Mas, depois de descascar um monte de batatas, achei que não chegavam. Pedi ao bebé, que andava ali de roda, que fosse pedir ao avô que me trouxesse outro saco. Ele assim fez. Passado um bocado vinha o avô, a rir, com ele ao lado. Contou-me: 'Perguntou onde é que estavam as batatas e eu disse que estavam ali de lado porque as tínhamos trazido ontem à tarde do supermercado. E vai ele e pergunta-me: E agora já não têm covid?'. Menino inteligente e divertido.

Ao jantar, quando vi que ele tinha deixado alguma comida no prato, perguntei-lhe: 'Olha, ainda tens comida no prato, acaba lá'. Fez um ar enfartado, abanou a cabeça ao de leve e respondeu: 'Tou cheio...'. E não comeu mais. O meu filho disse: 'É um menino livre. Saíu-lhe a sorte grande com isto do covid'. E de facto. A sorte de estar em casa com os manos e com os pais. Longe vão os tempos em que os pais os deixavam cedo e iam buscar tarde, ambos cansados, muitas vezes em viagem.


Entretanto, antes de almoço, vi no telemóvel do meu filho um amigo deles, de bata. A mulher ia ter um bebé naquele instante, ele ia entrar para assistir. Ainda o ano passado cá tinham estado a passar uns dias com um bebé que o nosso bebé odiava, podre de ciúmes, não o deixando mexer em nada. Agora já estava outro bebé a chegar. Ao fim da tarde já estavam todos em videochamada, a jovem mamã já com o seu bebé a seu lado, os amigos a festejarem a chegada de mais um amigo.

Ah, e esqueci-me de uma coisa muito importante. Quando chegaram de manhã, traziam com eles uma grande bola de massa que foi direitinha para o forno. Várias vezes tinha visto no whatsapp os belos pães que a minha nora faz. Ia finalmente experimentar o que, nas fotografias, parece tão apetitoso. Daí por um bocado já cheirava a pão que era uma maravilha. O cheiro do pão a fazer é das coisas boas desta vida. Não usa fermento, ela, nem quaisquer outros produtos químicos, usa a técnica da massa velha. Cresceu, cresceu. E, no fim, ficou um pão grande, saboroso, saboroso, saboroso. 

A minha menina queria ajudar e eu já não tinha o que ela fazer. Disse-lhe então para fazer um petisco. Num pratinho, pôr azeite e depois um fio de vinagre balsâmico, agitando depois o pratinho para que o fio se transformasse em bolinhas. E o que posso dizer é que aquele pão delicioso, ainda morninho e molhado no azeite com o toque de balsâmico é de comer e chorar por mais.


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E é isto. Por hoje, pouco mais tenho a acrescentar. Não tenho visto notícias. Não sei se o mundo ganhou juízo e se toda a gente vive inteligentemente. Seria bom que sim. Rodeada de passarinhos que cantam desabaladamente, com lagartixas por todo o lado, borboletas a esvoaçar cores por cima de tudo o que é flor ou folha, e com os meus meninos, aos poucos, a retomarem à minha companhia, tenho dificuldade em perceber como se pode viver sem ser assim, em paz e harmonia.

As fotografias, como é bom de ver, são de Nick Knight e vêm ao som de Little Giant, segundo Roo Panes 

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E desejo-vos uma bela quinta-feira.

sexta-feira, dezembro 20, 2019

Apontamentos soltos na noite em que a Elsa soltou os cachorros





Os dias andam apressadamente, empurrados pela idade que vou acumulando, empurrados pela invernia, empurrados pela estranheza de ver o passado a crescer no meu rasto.

Em Abril eu comecei a querer resolver alguns assuntos com receio que se prolongassem e que, depois, se metessem as férias e as coisas se complicassem. Isso foi há muito pouco tempo e, no entanto, onde é que isso já vai? As férias vieram e passaram e eu, já outras preocupações a desenharem-se, quis que toda a gente apressasse o passo. Dizia: daqui a nada está aí o Natal e depois já se sabe como é. Em Outubro já as lojas estavam enfeitadas para o Natal e eu já a ver que o tempo estava a escassear; e agora as lojas já estão preparadas para a passagem de ano. E mal Dezembro começava a anunciar-se já eu estava com almoços e jantares de Natal e o meu tempo a ficar escasso. E eu no trabalho: 'Era isto que eu dizia, o Natal estava aí, e agora já aí está mesmo e daqui a nada já passou. Bem que eu quis antecipar'. Tanta coisa para fazer. Sempre tanta coisa para fazer.

Não há tréguas. No trabalho, em casa. E as compras. E o trânsito. 

À hora de almoço fui, numa corrida, comprar os dois presentes que faltavam. Mas qual corrida? Corrida contra o tempo, isso sim. Acidentes, muita chuva, trânsito parado. Na grande superfície, o estacionamento pejado.
Ah, Estimados Leitores, pudesse eu andar a pé, visitar o comércio local, ter tempo para vagarear... Acreditem. Pudesse eu.
Depois a loja a deitar por fora, um sufoco. Eu a querer despachar-me e aquilo cheio, as pessoas a encherem e a empatarem tudo. E eu no meio a fazer o mesmo. Depois filas para os restaurantes. Depois filas para as casas de banho. Depois filas para o trabalho. A passo de caracol, o tempo a passar e eu presa no carro.

E o mau tempo. As árvores tresloucadas, a chuva nem assim tanta naquela altura mas atirada contra tudo pelo vento.

Percebi o que ia acontecer. Disse que saíssem mais cedo. Saí eu também mais cedo para dar boleia a uma colega até ao comboio e para levar outra ao colégio dos filhos. Levei duas horas e meia para chegar a casa. Estava este temporal que se sabe. Fomos entretidas, mostrando fotografias no telemóvel, falando de pais, filhos e netos, conversando. Às tantas, estávamos debaixo de um plátano gigante e era como se o carro estivesse a ser torpedeado. Aqueles ouriços caíam disparados, fazendo estremecer o carro que, já de si, estava a ser açoitado pelo vento e pela chuva. E pequenos ramos voando. Na rádio, ouvíamos falar em árvores tombadas em cima de casas e viaturas e só desejávamos que não nos acontecesse o mesmo. Elas iam falando à família, sabendo onde estavam, dizendo onde estavam. Eu também. 

O meu marido chegou bem depois de mim. Sozinha em casa, coisa tão rara, aproveitei a oportunidade para ir para a sala de jantar e, em cima da mesa, separar presentes. É que, quando faço as compras, tudo sempre a correr, trago tudo a eito, em sacadas. Depois, levada pela embalagem, pus-me a separar as fotografias. Também já isso resolvido. 

A casa é que ainda não está enfeitada, só uns pequenos ramos com luzinhas na entrada. A ver se este fim de semana isso também fica. 
Agora por isso. No outro dia estava sentada à secretária e olhei para a janela. No edifício em frente, um Pai Natal daqueles que se suspendem nas varandas. Fiquei quase estarrecida. Ali? Como? Impossível. Levantei-me. Nessa altura entrou um colega e viu-me a levantar-me num sobressalto para ir ver melhor. 'Então?', perguntou ele. 'Estou a ter uma visão', esclareci. Mas, vendo bem, logo desatei a rir. Ele, de novo: 'Então...?'. Confessei: 'Alucinei momentaneamente. Olhe ali. Parecia-me um Papai Nöel.' Desatámos os dois a rir. Era um alpinista vestido de encarnado a lavar os vidros do edifício envidraçado, um edifício que nem varandas tem quanto mais pais natais pendurados.
Bem. 

Maço-vos, certamente, com estes nadas destes meus dias tão preenchidos. Sei que apenas ando a falar de irrelevâncias. Não posso falar do que se passa no meu trabalho e, para o resto, pouco tempo tenho tido. Acho que ando um bocado cansada. A verdade é que os rituais viram azáfamas. Se isto era para ser liturgia, diria que ficou lost in translation. Liturgia...? Meaning...?

Continuando.

A ementa do dia de Natal também já está fechada. Parte dos mantimentos já comprada, parte encomendada e não muita coisa pendente. Falta ainda tratar do que vou levar para o jantar da véspera que não é em minha casa. 

Até lá esperam-se dias animados e pouco tempo disponível. Pena é estar este mau tempo. A chuva faz falta mas, caraças, tem que vir com esta histrionia e a cavalo na Elsa?

Mas enfim, não vale a pena falar. É o que é. E episódios climáticos extremos cada vez hão-de acontecer mais frequentemente.

No trabalho, entre nós, já falamos sobre os dias entre o Natal e o Ano Novo e, porque uns estão e outros não, já estamos a pular a época festiva, é como se fossem dias omissos do calendário, e já estamos a agendar reuniões para Janeiro. Ou seja, para o ano que vem. Comemos o tempo, sem o respeitarmos.

E já estamos também a definir objectivos para 2020 e a dizer quando é que cada coisa vai estar pronta, se é primeiro semestre, se é último trimestre, se é ao longo do ano. O ano 2020 já tu cá, tu lá comigo. Como se já estivesse nele. E eu que detesto este ritual da fixação dos objectivos com estas métricas e rigores. Não acredito nada que isto seja fundamental para uma boa gestão. Uma coisa são orientações gerais, metas a ter presentes. Outra é isto de estratificar o ano e reduzi-lo a KPI's e outras fracas metáforas. Não acredito, não gosto, não tenho pachorra. Mas tenho que fazer de conta que estou alinhada para não desestabilizar as hostes por tão fúteis motivos.

É que eu, se pudesse, detinha-me era a viver cada dia como se fosse o último. Mas não posso, tenho que andar a galgar semanas, a correr atrás do tempo e a deixar que ele passe por mim sem eu poder dar-lhe o devido valor. Mas, enfim, isso não interessa para nada, são coisas cá minhas.

Ouço o vento enquanto escrevo. Não sei se está a chover, não ouço a chuva. Mas o vento sopra, silva,  sacode, quase assusta. Coitadas das pessoas sem casa ou que vivem em casas frágeis. Como transformar esta minha pena em alguma coisa de útil? Não sei.

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Fico-me por aqui. A primeira pintura é de Manet. A terceira é de Vanessa Mae. As duas últimas são de Chen Yiching. A quarta é a fotografia do vidro de um carro à chuva cujo autor desconheço. Das restantes não consegui descobrir.

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Desejo-vos uma boa sexta-feira.

quarta-feira, dezembro 26, 2018

Um post pós-natalício e meio desgovernado


Se não me alongar, percebam que estou um bocadinho cansada. Um bocadinho só. 

O dia foi muito bom, bom, bom, mas preparar os comes todos (que aqui não se compra comida feita, é tudo feitinho de raiz e algumas receitas foram a atirar para o elaborado), ter a casa cheia, com muuuuuito movimento, o som sempre no máximo que é tudo gente com boa garganta, e depois arrumar minimamente a casa deixou-me assim a little bit com vontade de, agora, me encostar e descansar.

Os presentes foram bons, todos muito inesperados, todos surpreendentes e gostei francamente de tudo.

Os festejos começaram na véspera, decorreram hoje desde antes de almoço até já ser noite e continuam esta quarta-feira. É assim e é bom, do melhor que há. Mas isto tem um reverso: é que chego a esta hora e estou como vos disse: capaz de cair para o lado.

Por isso, desculpar-me-ão mas não vou falar de nada que faça sentido. Os meus dedos por aqui andam como as galinhas sem cabeça, mexendo-se descomandados, às voltas.

Se eu tivesse energia contava a receita do rolo de carne e respectivo molho de acompanhamento ou a receita do galo capão e a do arroz de forno que o acompanhou ou a receita dos rolinhos folhados de ricota e alheira ou ricota, maçã e salmão fumado, ou a dos cor flakes salgados e com queijo ralado no forno. Das ervilhas temperadas com hortelã ou do bacalhau com todos não daria a receita porque são coisas já muito conhecidas. Acontece que estou off e se me ponho a escrever receitas nunca mais consigo adormecer como um bebé.

Se tivesse energia também contava quais os presentes que recebi para verem como foram tão bons, todos inesperados e surpreendentes. Gostei francamente de tudo e até gostava de vos contar. Mas não dá. Talvez amanhã ou depois. Agora a minha cabeça, que está desligada, está a querer encostar-se e sem fôlego. Até podia fotografar algumas para verem como não estou a exagerar.

Ou contava graças e gracinhas dos meninos, uns já tão grandes, outros a caminho disso e o bebé tão boa onda e afoito. Tão bonitos, tão queridos, tão inteligentes, tão irreverentes e traquinas. Mas tantas eles fazem que, se me punha para aqui a contar, toda babada, embalava até de madrugada e vocês todos chateados, a acharem que estou uma daquelas maçadoras que não se calam a contar peripécias de crianças sem perceber que estão a exagerar na dose. 
Mas, se não se importam, conto só esta: estava o meu filho a zangar-se com o do meio, ele a esconder-se atrás de mim, estávamos no hall junto à copa, e o meu filho à minha volta e e o menino a correr agarrado às minhas pernas, quando, não me perguntem como, me senti a cair desamparada, de costas, no chão de tijoleira da copa, com ele praticamente debaixo. O miúdo aflito, a chorar, 'desculpa, desculpa'. O meu filho acorreu logo, 'então, como foi isso?' e puxou por mim, para me ajudar. Levantei-me meia dorida, a minha filha que andava na cozinha com o bebé ao colo também acorreu a rir à gargalhada depois de me ver deitada de costas, e todo o mundo veio da sala ver o que tinha acontecido. O meu filho disse que tive sorte por não ter partido o fémur que é o que costuma acontecer às velhinhas que caem, o menino, depois de refeito do susto, disse que tinha sido um bom golpe de judo e eu confirmei, atirou-me ao tapete com uma grande pinta. Também podia contar como o bebé atacou a minha filha que o tinha ao colo, primeiro a dar-lhe marteladas com o martelinho do xilofone e, acto contínuo, quando ela se queria defender das marteladas, com a outra mão a puxar-lhe o cabelo -- enquanto ela gritava por socorro a rir-se, espantada com o sorrisinho safado do sobrinho mais novo.

Mas não me alongo. Aliás, já me alonguei foi demais. Se não se importam, agora vou apenas deixar-me estar aqui a ouvir uma música, convosco. Roo Panes acompanha-nos e, digo eu, ficamos em boa companhia. A pintura que acompanhou estas minhas palavras meio descomandadas é da autoria do pintor chinês Wang Xingwei e, se acham que, uma vez mais, nada têm a ver com o texto, saibam que eu não apenas acho que têm tudo a não-ver como aposto que ainda hei-de voltar a ele pois parece ser rapaz cá muito dos meus.


Se acordar, talvez ainda cá volte.

sexta-feira, outubro 26, 2018

No melhor pano...




Não posso jurar que nunca a tivesse visto. Eu tinha estacionado num piso muito inferior e estava no elevador quando ela entrou. Pensei: estacionou no piso das visitas. Mais alta que eu, mais nova que eu, mais bonita e elegante que eu. Perfumada e bem cuidada, cabelos muito bem tratados. Olhei-a o mais discretamente que consegui. Pensei que deveria ser advogada pois notoriamente não dispensava roupa e sapatos de marca e tinha aquela segurança e requinte que caracterizam as mulheres que pensam bem, que ganham ainda melhor, que frequentam os corredores do poder e que estão habituadas a só beber do fino.

Tinha um vestido justo, levemente acima do joelho, de manga curta, num tecido suave com flores em azul claro, com laivos de lilás e uns toques de branco e cinzento. Trazia um colar e uns brincos de pérolas. Os sapatos, muito altos, eram no mesmo tom de azul. Olhou-se discretamente no espelho, sacudiu levemente o cabelo. Estava absorta, parecia nem dar pela minha presença.

Quando chegámos ao meu andar, percebi que ela também ia sair. Deixei que saísse antes de mim. Agradeceu e saíu em passo determinado. 

Então, no momento em que eu própria ia a sair, reparei que no chão, no local onde ela tinha estado, estavam umas gotas de sangue.

Fiquei petrificada. Quis fazer alguma coisa, dizer alguma coisa. Mas, sem saber bem como, devo ter hesitado. E logo as portas se fecharam e eu, sem querer, segui no elevador. 

Voltei a marcar o meu piso. Olhei o chão. 

Quando saí, reparei que até à porta do escritório havia mais umas duas ou três gotas. Espaçadas mas grossas. Perguntei à recepcionista quem era a mulher que tinha entrado. Disse: 'Não sei. A secretária do presidente tinha-me dito que ele estava à espera de uma pessoa. Quando a avisei que tinha chegado, ele mesmo veio recebê-la. Estão os dois no salão nobre. Bonita, não é?'. 

Respondi: 'É, pois. E o vestido?'. Ela fez um ar apreciador: 'Lindo'.

Pensei: uma cadeira de veludo vai ficar em mau estado (são em verdinho claro); e do lindo vestido azulinho nem se fala.


PS:

Confirmei depois: é mesmo advogada e, segundo consta, infalível. 

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[Depois deste escrito pré-halloween, caso estejam in the mood há aqui já a seguir dois posts cada um com um poema mais bonito que o outro]

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