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sexta-feira, outubro 16, 2026

Sobre o rapazinho malcheiroso que veio entregar coisas a minha casa

 

Estava ainda na cama e já o telefone tocava, que não tardaria estariam a chegar. De imediato liguei ao meu marido a avisar que estavam quase a chegar as coisas (para a remodelação da casa de banho). Há sempre este lado logístico, de garantir que o cão fica isolado. Fui fechar um dos portões e passado um pouco já ele tinha chegado a casa, já andava a pôr a fera do lado de lá. E imediatamente chegou a camioneta e logo começaram a descarregar. O rapaz que carregou o material mais pesado e que trouxe o móvel mais alto e o móvel com o lavatório para dentro de casa era quase um miúdo, novinho, magrito. Negro, de gorro, com um casaco desportivo. A força dele impressionou-me. O colega estava na camioneta a passar-lhe as peças que ele carregava. Mas o motivo que aqui me faz falar dele é outro: o cheiro. Horrível. Um suor antigo, impregnado, um misto de cebola e de putrefacção. Quando saiu tivemos que ter portas e janelas a arejar, e custou a sair. 

Pensei que alguém deveria avisar o apaz de que não pode andar assim em casa das pessoas. Mas depois ocorreu-me que provavelmente vive num daqueles dormitórios em que se acumulam, com uma casa de banho para muitos, se calhar com banhos condicionados e, até, sem banhos.

Um rapaz destes não ganha mais que o salário mínimo. E, com o salário mínimo, na melhor das hipóteses partilha-se um quarto ou vive-se num bairro clandestino.

Por vezes quando caminhamos, passamos por uma rua em que passa um autocarro. Ao fim da tarde juntam-se, na paragem, alguns jovens que vêm de fora daquela zona residencial, de um sítio em que há alguma construção nova. Todos os rapazes são negros. E cheiram sempre muito bem, a banho acabado de tomar, a desodorizante acabado de pôr, a perfume. Aquelas obras pertencem a uma zona de construção de qualidade, em que há certamente balneários para os trabalhadores.

Mas, no sector das cargas e distribuição, não deve haver balneários. Aquele rapazito não deve tomar banho há algum tempo nem deve conseguir lavar a roupa em condições. 

Ao ver os manifestantes no Porto, constato que é outro patamar: são jovens estudantes, talvez bolseiros, nitidamente classe média ou mesmo abastada. Não conseguem arrendar ou comprar uma casa no Porto. Compreendo as suas razões. Os centros das cidades não deveriam ter sido reconvertidos em Alojamento Local. Uma rapariga que trabalhava comigo, em Lisboa, e que era do Porto, tinha a casa, no sentro do Porto, em AL e dizia-me que ganhava tanto ou mais com aquilo do que com o seu ordenado na empresa, e na empesa ganhava bem. Compreende-se que os donos das casas as ponham em alojamento local, se é um rendimento interessante,

Mas, como em tudo, há sempre o outro lado da questão. 

Antes de me casar, eu e o meu marido andámos à procura de casa. Obviamente não tínhamos dinheiro que chegasse para uma casa no centro da cidade, e aceitámos isso com naturalidade. Ainda me lembro de andarmos a ver casas em subúrbios onde nunca antes tínhamos posto os pés, lugares que nos pareciam lúgubres, e aceitávamos isso sem drama, para nós era óbvio que com os nossos parcos rendimentos e sem património, não poderíamos almejar ao mesmo que quem já estava mais instalado na vida, mais folgado de dinheiro. Nem nos ocorria pedir ajuda aos nossos pais. Era uma decisão nossa, casar e arranjar casa, pelo que nos parecia natural resolvermos tudo pelos nosso próprios meios. Como nem mesmo assim conseguíamos, resolvemos que ficaríamos a viver no quarto em que eu vivia, um quarto de estudante, numa casa habitada por uma senhora de alguma idade que ficou toda contente com essa perspectiva. E tomámos essa decisão sem qualquer fatalismo, auto-piedade, ou revolta. Pelo contrário, com muita naturalidade. Aconteceu, porém, que dias antes de casarmos, soubémos de um apartamento T1, numa cidade em que nem eu nem ele alguma vez tínhamos posto os pés e que sempre tínhamos associado a uma cidade-dormitório. A renda era baixa, conseguíamos pagar. Ficámos felizes da vida. Foi a nossa primeira casa.

Agora, parece que todos os jovens em início de carreira se acham com direito a arranjar casa no centro das cidades. Parece que não há aquela noção que eu e o meu marido tínhamos de que começávamos por baixo, com o que nos era possível, e que logo iríamos progredindo.

Mas ocorreu-me uma outra coisa. Quem está a protestar, seja no Porto, seja em Madrid, seja onde for que se protesta, são jovens que nada têm a ver com os que, de certeza, de certeza muito absoluta, têm verdadeiras carências a nível habitacional e que, porque têm que trabalhar de sol a sol, nem conseguem manifestar-se.

O rapazito magro que hoje deixou a minha casa a feder de certeza que não acampa no centro de uma cidade nem se manifesta. São os pobres, muito pobres, que não têm voz e que mais precisam de uma casa digna.

Toda esta conversa, todas estas manifestações, todos estes debates, todas estas medidas não resolvem o verdadeiro, o gravíssimo problema da habitação. E o problema é tão simples quanto isto: não há casas que cheguem. Em especial não há casas para os mais pobres, em particular para os imigrantes. Claro que também não há casas para os jovens estudantes ou em início de carreira, e isso também tem que ser resolvido. Nada disto se resolve a não ser com mais casas. Muitas casas.

E tem que haver habitação social, pública, rápida, económica, se calhar de uma gama mais baixa, e não é por discriminação mas sim pelo valor do investimento, porque são muitas casas e porque essas têm que aparecer rapidamente, tem que se construção económica, provavelmente em terrenos cedidos pelos municípios (como o Isaltino passa a vida a falar). E depois têm que aparecer outros bairros, também muitos prédios, esses do género dos de Espanha, com jardins, com parques infantis, construção também rápida mas a cargo de PPP, parcerias público-privadas, terrenos públicos, construção privada. 

Enquanto o Governo e os municípios não perceberem que é nisto que têm que se concentrar, o problema vai persistir, vai engrossar, vai extremar-se

A esquerda, mais uma vez anda a reboque da burrice, a fazer dos senhorios os bodes expiatórios, quando nada disto tem a ver com senhorios. Se os senhorios põem as casas a arrendar por 2.500 ou 3.000 euros e aparecem inquilinos, tudo bem, é porque há mercado para isso. E se os inquilinos não pagam, pois que seja fácil pô-los a andar e que seja dada a vez a quem paga. Mas isto é fait divers. Nada disto tem a ver com a crise da habitação, com a tremenda escassez de casas, são centenas de milhares de casas que estão em falta, só na Grande Lisboa cerca de 300.000. 

E que não se centre a discussão nos filhos-família que não conseguem comprar ou arrendar um apartamento no centro da cidade, olhe-se também para os esquecidos, para aqueles que não se manifestam, para as milhares de pessoas que constroem as nossas casas, que distribuem as nossas encomendas, que limpam as ruas, os hospitais, as que tratam de doentes e idosos -- toda essa gente indispensável ao funcionamento do país e que, coitados, mil vezes coitados, não conseguem ter as mínimas condições de vida digna.

O problema da habitação é um problema gravíssimo. E ainda não vi uma única proposta de solução.

De vez em quando ouço o Moedas ou o Pedro Duarte ou um qualquer outro munícipe apresentar como um feito que foram atribuídas mais uma meia dúzia de casas. Só me apetece lá esta e ter uma vuvuzela para fazer barulho e protestar: não é de meia dúzia de casas que deveriam estar a falar, caraças, isso é apenas ridículo, a escala tem que ser outra --  eram milhares de casas, fiadas e fiadas de prédios, que deveriam estar a ser construídas e atribuídas. 

Li que o António Costa está a querer trazer o tema da habitação para o centro da preocupação europeia e acho muito bem. Que imprimam dinheiro, que lancem obrigações, que inventem fundos, qualquer coisa, mas que se mobilizem os primeiros ministros para anunciarem para o curto prazo projectos a sério de construção de habitação a custos acessíveis e com licenciamentos ágeis e processos construtivos rápidos.

Mais do que a porcaria do IRS jovem que não serve para nada a não ser para dar uma valente talhada nas contas públicas ou do que a isenção do IMT para os jovens que só tem servido para aumentar a especulação, o que fará com que os jovens se fixem e formem família e procriem (sejam eles jovens estudantes ou jovens em início de carreira, sejam jovens imigrantes brutalmente carenciados) é que tenham casa, que sintam que podem ter uma vida digna. Mas, a nível dos muito pobres, não são só os jovens que têm falta de casa. No outro dia, numa reportagem, uma senhora, também imigrante, dizia que trabalhava num supermercado. Mulher de meia idade. A viver numa casa clandestina, num bairro clandestino. Nem morada conseguem ter. Isto é de uma indignidade brutal. E não vejo ninguém a lutar por estas pessoas. Onde andam as esquerdas que parece que se esquecem dos mais pobres? E onde anda a beatagem? Em vez de andarem a bater perna a caminho de Fátima ou lá de velinha a cantarem, não poderiam mobilizar-se em favor destas pessoas, nem que fosse apenas para pedir soluções para que possam ter uma vidgna digna?

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Desejo-vos uma sexta-feira feliz

quinta-feira, janeiro 15, 2026

Coisas que os ricos nunca compram e a que os pobres não resistem

 

Há um canal no youtube intitulado Warren Advices que se apresenta com a imagem de Warren Buffett e, supostamente, com a sua voz. Contudo a voz é gerada por inteligência artificial e o que é dito, na realidade, não foi dito, pelo menos com aquele fraseado, por ele. Há um disclaimer em que isso é explicitado. Os autores dizem que os vídeos têm intuitos educativos e, aparentemente, coligem um conjunto de afirmações ou conselhos que Buffett ao longo da sua vida tem divulgado.

Estive a ouvir o vídeo que aqui abaixo partilho e, de facto, são conselhos sensatos e o que aqui é dito faz genericamente sentido. E, se eu não me incluo no grupo dos ricos, a verdade é que, como já aqui referi algumas vezes, conheço algumas pessoas muito ricas e posso testemunhar que praticam muito do que aqui se diz. 

Esta distinção entre ricos e pobres pode parecer classista, redutora e, até, absurda. Mas, pondo de lado esse aspecto, a verdade é que os há, os ricos e os pobres. E também há mil explicações para cada afirmação que se faça. Mas também me vou abstrair disso pois o objectivo deste post é apresentar as ideias que um dos homens mais ricos do mundo supostamente professa. Se ouvirem o vídeo, saberão que há uma ideia base: os pobres pensam sobretudo no aqui e agora, querem uma coisa e fazem de tudo para obtê-la, custe o que custar, sem pensar muito no médio/longo prazo. Gostam de ostentar e acham que a ostentação vale o preço que for. Os ricos (os muito ricos) não gostam de ostentar e, antes de gastarem dinheiro, pensam no que podem poupar se não comprarem o que se lhes apresenta.

Vários exemplos insignificantes se poderiam apontar. Uma pessoa pode tomar o pequeno almoço na rua, acha que não é por isso que vai ficar mais pobre. Como tomo sempre o meu em casa, nem faço ideia de quanto pode custar tomar o pequeno almoço fora. Vamos admitir que 3 euros. O que são 3 euros? Nada, pensará quem tem esse hábito. Mas um rico pensa de outra maneira. Vou falar no meu caso concreto: ao pequeno almoço, como uma laranja e a seguir kefir, natural, sem açúcar, de marca branca, com algumas sementes e canela. A seguir bebo um café. Se calhar, no conjunto, custa-me 1 euro. Façamos as contas. Poupo 2 euros por dia face a um pequeno almoço fora. Dois euros não é nada. Mas 2 euros vezes 30 dias por mês, são 60 euros por mês. 60 euros vezes 12 meses são 720 euros por ano. Ao fim de 10 anos, dá 7.200 euros. Com os juros anuais, em especial se capitalizarem, dará mais qualquer coisa. 

Ou os almoços fora. Claro que, quando se trabalha, muitas vezes é impossível não almoçar fora. Mas, admitindo que há alternativa, pensemos num exemplo. Uma pessoa, podendo almoçar comida feita em casa, opta por ir ao restaurante. Admitamos que é um restaurante económico e gasta, digamos, 15 euros. Um bom preço, não é? E se for só duas vezes por semana, também não é nada de mais. Contudo, um rico se calhar pensa de outra maneira. Se comesse em casa, provavelmente gastaria o mesmo por 5 euros. Ou seja, pouparia 10 euros de cada vez que não comesse no restaurante. 10 euros duas vezes por semana, seriam 20 euros poupados por semana. Vezes 4 semanas por mês, já a poupança iria em 80 euros por mês. 960 euros por ano. Ao fim de 10 anos, 9.600 euros, fora os juros.

E só nestas duas insignificâncias, já estaríamos a falar de 7.200 + 9.600 = 16.800 euros, fora os juros.

Não é muito...? Não. Mas poupando um pouco aqui, mais um pouco ali, e, se calhar, se quiser comprar uma televisão nova ou um carro ou qualquer coisa dessas, em vez de comprar a crédito por não ter qualquer poupança, pode comprar a pronto e evitar a enormidade que são os juros das compras a crédito de curto prazo que arruínam muita gente pobre.

Abro aqui um parêntesis para contar uma história verídica: uma vez, entrou-me no gabinete um funcionário da empresa, dizendo que queria sair da empresa e negociar a saída, ou seja, receber uma indemnização por saída antecipada. Espantei-me. Era novo de mais para se reformar e velho de mais para arranjar outro trabalho. Quis saber a razão. Desatou a chorar. Tinha arranjado uma namorada, tinha querido impressioná-la, foram passear e as viagens foram a crédito, tinha comprado uma televisão grande, a crédito, iam jantar fora muitas vezes e isso saía caro e tinha pedido um crédito pessoal, e depois não tinha conseguido pagar o empréstimo e tinha pedido outro... e depois mais outro... e já não sabia o que fazer, já andava a viver de dinheiro que pedia emprestado aos pais octogenários que viviam de reformas baixas. E chorava. Tentei que não fosse adiante com essa ideia pois iria usar o dinheiro da indemnização para pagar os empréstimos e, no fim, ia ficar 'liso' e sem trabalho. Disse que ia viver do subsídio de desemprego e que ia para a província tentar arranjar trabalho onde calhasse. Implorou-me que autorizasse. Tivemos uma reunião com a Direcção de Recursos Humanos. Muitas, muitas dúvidas. Mas acabámos por aceder. 

E não foi caso único. Foi talvez o mais dramático pois o total das dívidas já era brutal. Mas era frequente eu receber pedidos de autorização para se pagar antecipadamente os subsídios de férias ou natal a este ou àquele, ou para receberem antecipadamente parte do ordenado e, muitas vezes, quando eu falava com as pessoas para perceber o que se passava e para saber se precisavam de ajuda, concluía que se metiam em despesas absurdas sem acautelarem o que se passaria a seguir. E via como continuavam a gastar um dinheirão em tabaco, que é caríssimo (isto, sem falar, no malefício para a saúde), ou noutras despesas que facilmente poderiam ser suprimidas.

Mas, se estive a falar de 'trocos', a verdade é que, depois, há as grandes despesas como, por exemplo, comprar um carro novo. Uma pessoa rica (refiro-me aos ricos a sério, que fazem contas) nunca compra um carro novo. Compra um carro com poucos anos e poucos quilómetros. Comprar um carro 0 kms a crédito é um erro, um absurdo, um sugadouro.

Enfim. 

Quando fiz voluntariado numa escola situada numa das zonas mais carenciadas do país, um dos tópicos que abordava com os miúdos, que já eram crescidos, relacionava-se com isto: com a necessidade de fazer contas, de planear o futuro, de não pensar apenas no curto prazo, de não gastar dinheiro inútil que poderia vir a ser útil numa situação futura.

Calo-me já e passo ao vídeo. 

Os ricos NUNCA compram estas 5 coisas (mas os pobres compram diariamente)

Automóveis zero quilómetros: O ativo que mais deprecia, perdendo valor exorbitante assim que sai do concessionário.

Casas que não pode pagar: Endividar-se até ao limite não deixa nada para investir e prende-o a décadas de prestações.

Artigos de luxo para impressionar os outros: Marcas de luxo, relógios caros e símbolos de status que destroem património em nome das aparências.

Coisas a crédito que perdem valor: Pagar 20% de juros sobre ativos que depreciam é suicídio financeiro.

Opiniões alheias: Tomar decisões de despesa com base no que os outros pensam, em vez de pensar no que constrói património. 


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Abaixo há um vídeo, também de Inteligência Artificial mas num outro registo.

E um dia feliz

sexta-feira, dezembro 05, 2025

Resumo da matéria dada

 

Apeada de computador, obrigada a usar uma coisa com teclado virtual, letra após letra como uma galinha a comer grão a grão, a minha pica esvanece. Gosto de deixar os dados voarem sozinhos. A minha cabeça não alcança a velocidade dos meus dedos e essa é a única maneira que conheço para escrever. A forma  como agora estou, a ter que vigiar se o dedo não fez uma secante à tecla adjacente, condiciona a minha liberdade e, logo, a minha motivação.

Por isso tenho escrito muito menos e, por isso também, tenho evitado os assuntos que puxam pela minha língua, que fazem com que eu solte os cachorros. A tropeçar nas letras deste teclado de faz de conta, toda a  minha verve se sente tolhida.

Mas vou ver se, pelo menos, sintetizo umas e outras.

1. Debate Tozé Seguro e Marques Mendes. Ao fim dos 5 minutos de cada um, adormeci. Não o lamento pois tenho a certeza de que não perdi nada. E, para provar esse axioma (que, por natureza, nem carecia de demonstração), juro-vos que não me lembro de nada do que disseram enquanto estive acordada. Quanto mais não seja, não concebo um presidente da República que tenha cara de menino da lágrima ou de boneco de ventríloquo. Claro que, se acontecer o desastre de um deles ir à 2ª volta com o Ventura, terei que abdicar do meu bom gosto e contarão com o meu voto. Mas, na 1ª, nem pensar.

2. Debate Catarina Martins e Cotrim de Figueiredo. Não vi porque não estava em casa mas tenho pena, talvez tenha dito alguma graça.

3. Escutas a António Costa publicadas pela Sábado. Não li. Não vou ler. Não leio escutas sejam elas quais forem, não alimento o culto pela devassa e pelo voyeurismo mais sinistro,  não me deixo tentar pelo fruto de comportamentos pidescos, não pactuo com atentados ao Estado de Direito, não legitimo nem normalizo a judicialização da política nem o torpe conluio entre o MP e a imprensa sensacionalista.

4. A mãe que raptou a filha-bebé. Em lágrimas, faço minhas as palavras da Mafalda Anjos no Instagram: "mafaldanjos Peço um bocadinho da vossa atenção. Coloquem-se no lugar de uma pobre mulher pobre. Que engravida, tem um bebé. Quando a criança nasce, a mãe não pode trazê-la para casa porque já estava sinalizada. Outro filho já lhe tinha sido retirado, não por maus-tratos ou falta de cuidados ou amor, mas por falta de condições habitacionais. Porque, cito, vivia numa “casa abarracada”. Esta mãe continua todos os dias a ir visitar o seu bebé ao hospital. Não o abandonou algures, não o largou num canto. Quatro meses de visitas diárias, com a avó. Cuida da sua menina, dá-lhe colo, muda-lhe as fraldas. Toma-lhe o peso nos braços, sente-lhe o cheiro. Certo dia, dizem-lhe que o seu bebé vai ser institucionalizado e entregue a uma família de acolhimento. Desespera. Retira-lhe a pulseira e foge com a menina. “Rapta”, dizem os noticiários. Não sabemos ao certo os contornos do que aconteceu no Hospital de Gaia. Mas tudo indica que terá sido mais ou menos isto. Conseguem imaginar-se no lugar desta mãe? A dormir na sua cama, na sua barraca, com as hormonas em ebulição, a chorar por um filho que ama e que não quer perder? Conseguem conjeturar a sua dor, para fazer algo desesperado assim? (...)"

Concordo com a Mafalda Anjos: foi avaliada a viabilidade de atribuírem uma habitação social e algum apoio a esta mãe? É que retirarem a uma mãe um filho querido parece-me um acto de uma violência extrema.

quarta-feira, julho 16, 2025

Sobre a demolição de barracas

 

Vi, estarrecida, imagens horríveis de barracas a serem destruídas sem que qualquer solução fosse apresentada aos seus habitantes e destruído ficou o meu coração ao pensar na aflição daquelas pessoas. 

Fotografia de José Fonseca Fernandes

Hoje disse aos meus netos que se me saísse muito dinheiro no euromilhões, pegaria em parte do dinheiro e estudaria em conjunto com algumas das autarquias em que o drama é maior qual a forma mais expedita de dar casas com conforto e dignidade às pessoas que vivem em condições miseráveis.

Custa-me conceber que, por exemplo, se arranje dinheiro a rodos para a Defesa ou dinheiro para jorrar sobre os médicos do SNS (médicos ditos 'tarefeiros' num daqueles expedientes para fugirem ao fisco e a todo o tipo de controlo -- enquanto estupidamente se continua sem se perceber que o tema da Saúde tem que ser 'agarrado' a sério por gente competente) ou dinheiro aos montes para fazer cartazes que poluem as estradas e as rotundas de cada vez que há eleições ou, nas autarquias, dinheiro a perder de vista com assessores e parasitas partidários e, depois, não há dinheiro para encontrar uma solução para estes pobres coitados que não conseguem um tecto seguro e legal para se acolherem.

Não há muito vi fotografias de um parque de campismo gigantesco na Costa da Caparica. Não parecem tendas, parecem casinhas, ou tendas de campanha, não sei bem, todas iguais. Disseram-me que muitas pessoas vivem ali todo o ano. Perguntei se não poderia ser uma solução para instalar com um mínimo de conforto e dignidade as pessoas que hoje vivem em bairros clandestinos. Responderam que o problema destas soluções é que, em vez de provisórias, soluções assim tendem a ser definitivas. Claro que não sei qual a melhor solução mas parece-me que qualquer solução é melhor do que a indiferença perante a aflição de quem não tem onde viver, de quem não tem uma morada, de quem não tem onde se lavar ou de quem não tem um mínimo de condições decentes para ter filhos.

Não sei se o PRR previu verbas para alojar as muitas pessoas que, tantas vezes vindas de longe, tantas vezes completamente desenraizadas, desaculturadas, vulneráveis, e, ainda assim, trabalhadoras, não têm outra solução senão juntas chapas, cartões e o que encontram para fazer um abrigo mais do que frágil, mais do que impróprio para um ser humano. Se previu, previu pouco e virá tarde de mais. Se não previu, os irresponsáveis que não pensaram nisso deveriam ser corridos.

Há tempos vi uma reportagem com prédios devolutos que pertencem ás Forças Armadas. De que se está à espera para lá instalar pessoas? E quem diz isso diz muitas outras casas do Estado. Ou da Igreja. 

Marcelo, que tanto falava dos sem-abrigo, já se esqueceu? Ou só se lembra quando as televisões o filmam a distribuir a sopa dos pobres? Quanta hipocrisia.

E já nem falo no cagalhoças do Moedas, essa anedota que para aí anda a armar-se em bom. Mete-me nervos de cada vez que o vejo: um saquito cheio de nada, um daqueles sacos pequenos para apanhar o cocó de cão. Obra feita, zero. Real sensibilidade e capacidade de acção para o que é preciso, zero. Só conversa fiada, só, só.

E o de Loures, com aquela vereadora, insensível, empedernida, gente desalmada, que nervos que também me dão. Caraças.

Enfim. Fico-me por aqui. Sinto-me verdadeiramente impotente perante a desgraça desta pobre gente que precisa urgentemente de habitação social. Estão a trabalhar para nós. Não podemos ignorá-los nem deixar que vivam como animais. Neste caso o tema não é o arrendamento acessível nem sem ser acessível pois estamos a falar de pessoas que primeiro precisam de se organizar, de se estabelecerem decentemente, só depois se pensa em como poderão pagar alguma coisa -- neste caso o tema é mesmo alojamento social, urgente, dar tecto e meios de higiene, dar uma morada e uma ajuda àquelas pessoas, permitir que sejam cidadãos de pleno direito.

quarta-feira, outubro 16, 2024

Tomar o destino nas mãos.
Fazer reviver um solo morto
Mudar o clima
Sentir como suas as palavras: I am the master of my fate. I am the captain of my soul.

 

Hoje, por aqui, chove que dá gosto. Por isso, talvez não seja o melhor dia para falar da falta de água, de solos desidratados, sem vegetação e, logo, sem vida animal, terras desertificadas, populações em êxodo. Mas sabemos que é essa a progressão em curso -- a menos que saibamos perceber a natureza, respeitar e guardar o que a ela dá, aprender a o milagre da regeneração.

Transformar terras áridas em solos férteis é daqueles projectos que penso que deveriam ser amplamente divulgados, financiados, acarinhados.

O vídeo abaixo explica bem o que está a ser feito por aquelas bandas, a alegria que traz à população, a esperança que traz, o futuro com que poderão sonhar. Querendo, podem pôr-se legendas em português, embora apenas de autotradução automática, ou seja sem grande qualidade. Ainda assim, faço questão em partilhá-lo.

A genius way to restore dead soil

Soil is vital for plant growth, supports biodiversity, filters water, and keeps ecosystems balanced. But in Kenya, worsening droughts have left the soil damaged and dry, threatening both nature and local communities.
In our 20th Planet Wild mission, we're supporting a surprisingly simple method to help transform these barren lands into thriving ecosystems. 
A special thanks to Dr. Rob Thompson / University of Reading for providing us with additional footage.
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Invictus

I am the master of my fate. I am the captain of my soul.


segunda-feira, junho 01, 2020

A decoração da casa dos pobrezinhos que é capaz de ser o menor dos males nisto do corona.
E a bela casa de Nina Campbell (que nada tem a ver com o assunto).





Isto dos signos é coisa estúpida, sem qualquer explicação científica que lhe valha. Vai contra tudo aquilo em que acredito: não assenta em nada que consiga explicar-se, não faz sentido sob qualquer perspectiva. E, no entanto, ao que parece, estatisticamente as pessoas revêem-se nas descrições e nas previsões. Pelo menos foi o que li num livro escrito por matemáticos que se dedicaram ao estudo do fenómeno. 

No meu signo diz que sou dada a tudo o que na realidade sou. E uma dessas coisas é a casa. Sou muito dada à minha casa. Sou muito sensível a casas.

Se há coisa que me faz muita impressão é estar numa casa que me parece escura, triste, sem alma, imprópria para acolher pessoas. Se entro numa casa assim, não consigo abstrair-me do que eu faria se pudesse. As pessoas falam comigo e eu com elas e, em background, estou a pensar: este conjunto de móveis escuros, sofás escuros e quadros pendurados junto ao tecto é mais do que suficiente para quem aqui vive sofra de depressão profunda. Ou olho para uma casa toda neutra, incolor, desprovida de graça e penso: eu punha aqui umas almofadas em turquesa e, naquela mesa de apoio, uma jarra em azul profundo com uma flor única, alta, em bordeaux indecente. E um espelho naquela parede a reflectir a luz da rua. Mas não digo nada, não quero perturbar a inércia e a propriedade de quem lá vive.

Mas porque sou assim, dada a decorações e a intuições, ainda mais me custa saber as condições dos que vivem quase sem dinheiro para comer quanto mais para frescuras. Casas pobres, precárias, quartos tristes e alugados, camaratas em que apenas interessa que o corpo possa descansar, ou a pobreza humilde que disfarça as dificuldades ou a pobreza remediada que vê o facebook e o instagram e gostava de ser e ter igual mas o que sobra mal dá para um verniz, uma blusinha. 

Dizer isto é mera conversa e mesmo que, por dentro eu sinta que não é mera conversa a verdade é que, de facto, é mera conversa. Conversa que não produz efeito é conversa deitada fora, ociosa, fútil.

Falo de barriga cheia.

E não vale a pena armar-me em irmãzinha da caridade que, em vez de orações, distribui bibelots e conselhos de decoração. Mas o facto de nada disto, na verdade, não fazer sentido não anula o facto de que  a verdade é que, quando ouço nos novos focos de contágio, penso nas condições em que vivem aquelas pobres pessoas. Muitos são imigrantes, muitos são simplesmente pobres. E ser pobre deve ser tudo menos simples. Portanto, dizer que alguém é simplesmente pobre é uma coisa que é simplesmente estúpida.

E eu só espero -- e nada mais posso fazer do que esperar -- é que os muitos milhões que virão dos apoios para recuperar a economia sirvam para trazer um pouco mais de dignidade às pessoas mais pobres, às que vivem amontosadas, às invisíveis que mantêm o mundo a funcionar quando os outros se recolhem para se proteger de contágios, às que não conseguem constituir família ou, se o conseguem, mal conseguem acompanhar o seu desenvolvimento, quanto mais pensar na decoração da sua casa.

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O meu domingo foi descansado, tirando a parte de ir ao supermercado e à loja das ferramentas. O dia esteve cinzento mas bom. Há bocado, estava a ver umas coisas do trabalho, depois a ler blogs, e, por fim, fui ver o Youtube. Apareceu-me um vídeo e gostei muito de vê-lo. Gosto muito da casa que aqui se mostra. Podia ser a minha casa. Gosto da Nina Campbell. Se a conhecesse o mais certo era dar-me bem com ela.


E, no entanto, é nas pessoas dos bairros da periferia que agora merecem a preocupação de quem se ocupa das coisas da saúde pública que eu penso enquanto vejo o vídeo. No sábado, quando estava a vir de casa da minha mãe, passámos por uma carrinha, daquelas de muitos lugares (oito? nove? mais?). Era branca e ia cheia de homens jovens, quase todos negros. Iam apertados nos seus lugares. Todos sem máscara. Era sábado à tarde, deviam vir do trabalho. O mundo é um lugar perigoso para o ser humano, em especial para alguns seres humanos.



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As cores e as fleurs que aqui apareceram não são du mal, são do bem. Pretendem trazer alguma luz a um tema que me ensombra o coração. Pintou-as Monet.

Chet Baker canta Almost Blue.

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Uma boa semana para todos

domingo, abril 12, 2020

O quanto lhes devemos





Nunca como antes ficou tão evidente o quanto todos precisamos de todos e o quão importantes -- e vitais -- são algumas das profissões de que tanto nos esquecemos ou que tão arrogantemente menosprezamos.

Se uma grande parte de nós pode estar confinada, protegida de contágios, trabalhando em casa, uma outra parte tem que continuar a sair todos os dias para manter os serviços essenciais a funcionar e para garantir que a cadeia de abastecimento não se interrompa, vencendo o medo, correndo riscos, muitas vezes separando-se da família. 

Claro que, desde logo, obviamente, os profissionais de saúde -- embora desses talvez não se possa falar tanto em baixos ordenados (pelo menos, de forma generalizada) mas em que, tema de cifrões à parte, o que há a enaltecer agora é a dedicação, a entrega, a superação que os leva a enfrentar o risco de peito feito -- mas, também, os técnicos que mantêm os equipamentos operacionais e os auxiliares, os bombeiros, os funcionários dos lares e residências de terceira idade.

E, uma vez mais, refiro também os que trabalham nas empresas de águas, nas empresas de electricidade, nos operadores de comunicações, os camionistas, os que se ocupam da recolha de lixo, os empregados dos supermercados, os agentes de segurança, os farmacêuticos, os motoristas de transportes públicos, os carteiros, os operários fabris cujas fábricas ainda laboram, os entregadores de tudo, os donos e empregados de pequenas mercearias, e tantos, tantos outros. 

A todos esses nunca agradeceremos o suficiente. E seria bom que a nossa memória, que é fútil e fugidia, nunca os esquecesse. Devemos-lhes tanto. 

Uma parte significativa das pessoas infectadas pelo corona serão, certamente, pessoas com essas profissões. Só ligados à Saúde, se bem registei, serão mais de mil e quinhentos os que já foram infectados.

Para nós que, quando vamos ao supermercado, chegamos a casa e nos lavamos e relavamos e que temos mil cuidados com as coisas que trouxémos (e fazemos bem), imagine-se os riscos que as pessoas que circulam, que lidam sabe-se lá com quem, com  o quê, correm. E, no entanto, todos os dias têm que fazer frente à inquietação e ir à luta.

Não sou moralista e detesto a caça aos culpados de cada vez que acontece alguma coisa. Mas esta situação da covid que, à primeira vista, parecia uma treta sem relevância, um corona como tantos outros, uma cagada em três actos, veio a revelar-se a gota de água que fez transbordar o desconchavo que é este mundo. Os países paralisados, as ruas desertas, as lojas fechadas, as escolas vazias, silenciosas, grande parte das fábricas paradas, alguns países a deixarem morrer ao abandono os seus mais velhos ou os mais pobres, mortos a serem deixados à espera de vaga na morgue, enrolados em plástico ou enfiados em caixões de cartão ou enterrados em valas comuns -- tudo coisas impensáveis nestes tempos que julgávamos de abundância, nestes tempos que julgávamos civilizados.
[E isto também já para não falar numa coisa de que um dia iremos perceber o alcance mas que, para já, não é tema para aqui chamado: em toda a linha da satisfação das necessidades vitais, equipamentos e tecnologia chinesa. Em tempo de guerra não se limpam armas e, estando em causa a vida humana, a nacionalidade das armas e munições é secundária. Mas é tema a que, quando estivermos saudáveis e fortes, a viver uma vida normal, certamente haveremos de voltar.] 
Para concluir, que hoje não me sinto de muita conversa: um dia que tenhamos que voltar à normalidade, à 'nova normalidade', certos de que ainda corremos riscos -- conscientes de que são sempre muitos os riscos que corremos porque essa é a nossa natureza, frágil, efémera, vulnerável  -- tendo que vencer o medo, é bom que nos lembremos de quem nunca pôde estar resguardado, de quem, todos os dias, venceu o medo para que nós, os fantásticos e os melhores do mundo, pudéssemos estar resguardados.

Embora por melhores palavras, é também isto que diz Emily Maitlis.

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Já depois de ter escrito isto, vi no DN que também o Pedro Marques Lopes fala no tema:
A menos democrática das crises

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Antes de começar o post, vinha para falar do meu dia -- que foi de trabalho de manhã e tranquilo à tarde, ao sol e entre passarinhos -- mas, não sei porquê, comecei a pensar no dia em que vamos sair da hibernação... e derivei para isto. Não nos vai ser fácil, imagino. O mundo que conhecíamos deverá, então, parecer-nos estranho. Deve parecer-nos pouco seguro. Depois, dei por mim a pensar outra vez nas pessoas que continuam a dar o corpo às balas enquanto os outros, como eu, se confinam, tudo fazendo (e bem) para quebrar os elos de propagação do vírus. Não sei como faremos para agradecermos a essas corajosas pessoas e, sobretudo, para que passemos a tratá-las com o respeito que lhes é devido.

Claro que não devia aperaltar o texto com macacadas, pinturas ou esculturas com máscaras,  mas é que acho que não vale a pena pôr um ar ensimesmado para falar de coisas sérias. E, de resto, andarmos com máscaras vai ser o que nos espera nos próximos tempos. E também sinto que deveria ter esperado por um texto mais adequado para aqui partilhar o Moving On pelo Leonard Cohen. Mas, na volta, não bato certo e o que melhor se me ajusta são coisas que pouco têm a ver umas com as outras. Seja como for, peço que também vejam o vídeo do Moving on, tão bonito.

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A quem atribua um sentido religioso ao dia, desejo que esta Páscoa traga a esperança que a ressurreição significa.

A todos, desejo força para lutarmos todos, juntos, por um mundo melhor, por uma vida mais feliz.

sábado, abril 04, 2020

Não sei sobre o que escrever. Muito menos sei que título dar a uma conversa à toa.





Não vou falar do meu dia.

Só uma coisa: é que, no meio da trabalheira, me lembrei de convocar a família para uma vídeoconferência. Como em cada casa há mais que um computador, os dos adultos e o iPad dos meninos -- que na escola já o usam e agora por maioria de razão -- receberam todos convocatória. E, então, foi uma alegria. Na casa do meu filho, os meninos estavam felizes, cada um em seu sítio, conversando uns com os outros por esta via e aparecendo, de surpresa aos outros, para mutuamente se surpreenderem. O primeiro meeting foi a seguir ao almoço mas houve confusão pois um dos da minha filha estava a ir para as aulas. Mas a menina apareceu toda aperaltada. Adorei vê-la. Disse-lhe: 'Mas estás tão bonita, com uma roupa tão bonita...'. Ela, coquette, disfarçando: 'Não, não, nada, apeteceu-me foi pôr umas collants, há muito tempo que não usava...'. Ouvi o pai a dizer: 'Foi, foi...'. O meu marido segredou: 'Não digas nada, não a envergonhes'. A posteriori, tive que lhe explicar que a alegria de perceber que os outros reparam em como nos arranjámos bem às vezes parece timidez. Mas, por baixo do que parece timidez, está a alegria, a motivação para uma próxima vez.


Ao fim da tarde já estávamos todos. O que em tempos era, aqui, por mim, chamado de ex-bebé e que agora já é um menino crescido com nove anos estava a fazer um lego que lhe oferecemos e que os tios encomendaram, por nós, recorrendo à glovo. Gostou do presente. Estava já resignada à ideia de não podermos oferecer-lhe um presentinho, quando os tios se lembraram desta alternativa. Assim, quando ele até estava conformado com a ideia de que, face às circunstâncias, não poderia ter presentes, o meu menino mais querido recebeu vários. Aliás, do lado da mãe, também. É que mal ela pressentiu que isto poderia acontecer, ainda a porca não tinha começado a torcer o rabo, foi logo a correr, num fim de dia, e preveniu-se com o qb para lhe organizar uma festinha e ter presente para o seu 'bichinho'. Entretanto, o menino do meio queria era combinar jogar o fortnite com os primos. Ela mostrou-nos o trabalho que tinha feito de tarde e que me pareceu um cogumelo cheio de brilhantes e que, afinal, era uma menina, creio que com brilhantes no cabelo. O bebé andava à aventura, descobrindo os irmãos, perguntando coisas, radiante da vida. O mais crescido de todos, está cada vez mais um pré-adolescente. Ainda hoje, ao vê-lo numa fotografia de costas, até tive que ampliar, já me parecia um rapazinho crescido, outro que não ele. Meu amor mais lindo.
Foi ele que me baptizou como Tá. Era bebé, ainda não falava e quando eu lá ia a casa, ria, brincava e dizia tá, tá, tá. Um dia a minha filha disse: eu acho que a tá és tu. Não achei, achei que era apenas alegria. Mas, à medida que foi crescendo e dizendo as primeiras palavras, foi ficando cada vez mais claro que a Tá era mesmo eu. E era. E ainda hoje sou.

Momentos bons. Aos poucos vamo-nos habituando a apreciar os sucedâneos, como se estivéssemos a descobrir outras formas de expressar o afecto. 

E esteve sol. Não um sol exuberante mas, antes, aquele solzinho manso que nos faz brilhar os olhos e o coração. Depois do cinzento e do frio que me custou na alma, um dia suave, morninho, aprazível.

Tive reuniões na rua. Via-me no monitor do computador com o cabelo luzindo ao sol, o rosto atravessado pela luz. Do outro lado, ouviram os passarinhos. Senti-me melhor, consegui trazer um pouco do encantamento do lugar para dentro de situações que de encantamento têm raspas.


Na parte da manhã, só me despachei do trabalho bem depois da uma e, antes do meeting familiar das duas, tinha que almoçar e telefonar à minha mãe pelo que foi de raspão que, antes de fazer a chamada, vi os números. Vi o número absoluto dos novos casos e mentalmente calculei que não devia chegar aos 10%. Fiquei contente. Em número absoluto são muitos, os casos difíceis vão surgindo, cada vez mais, os que não resistem também. Mas, se conseguirmos continuar assim, regredindo na percentagem, estaremos a ir no bom caminho e talvez consigamos evitar chegar ao desespero mais absoluto em que, por exemplo, se vive em algumas regiões de Espanha ou Itália. Mas, ainda assim, vai ser muito mau. Quem está mal, está mal durante muito tempo. É daqueles casos em que a matemática também ajuda. Neste caso é a teoria das filas de espera que entra em cena. Neste caso há mais doentes a chegarem aos cuidados intensivos do que a sair deles. Desenvolve-se o efeito de acumulação que, neste caso, tem a particularidade de estarmos a falar de pessoas a precisarem de assistência para respirar e de os que lá estão não darem o lugar a outros senão ao fim de muito tempo (a menos que morram antes, claro). É, pois, fácil modelizar a situação para calcular de quantos ventiladores se vai precisar tal como é fácil perceber que, por muitos que haja, serão sempre poucos.

Caneco. Não queria falar nisto.


Queria falar noutra coisa.

Mas a esta hora estou a ver o Governo Sombra e, uma vez mais, aprecio a sensatez e a honestidade intelectual de Pedro Mexia e a estupidez insanável de João Miguel Tavares. Agora acha que o governo vai ter que dizer em que data é que se vai poder abandonar o distanciamento social. Como se o governo devesse ser mentiroso e estúpido só para lhe agradar. Só um mentecapto pode pensar assim, caraças. E eu a única coisa com que me espanto é por alguém o convidar para emitir opinião. E não apenas o convidam como lhe pagam. Gente, certamente, ainda mais burra que ele.

E, já agora que voltei a descambar para este tema tão incontornável, deixem que expresse a minha estranheza por não ver sinais de solidariedade e compaixão por parte da Igreja. Não digo que não haja, digo apenas que não vejo. Esperaria que os cardeais e bispos anunciassem que os mosteiros e demais edifícios habitáveis tinham sido cedidos para alojar idosos de lares onde surgem casos ou, de futuro, se não houver lugar para albergar infectados ou doentes em recuperação mas ainda contagiosos. Assim como esperaria que a Igreja tivesse já anunciado que padres, freiras, diáconos, acólitos, beatos e demais fiéis tinham sido alocados ao cuidado de idosos isolados em casa, ao cuidado dos sem abrigo e de todos que sejam vítimas indefesas desta droga virulenta. Mas não ouvi ainda nada disso. Não sei o que se passa. Agora que missas e outros ajuntamentos estão fora de questão (e presumo que nem façam grande falta), não estaria na altura dos devotos receberem formação e mostrarem que existem para abnegadamente servir os outros? Mas, na volta, está bem, está.


Bem. Digo que não quero falar nisto e, mal me distraio, aqui estou caída. É que queria era falar do post tão bonito do Steve McCurry, do qual retirei as fotografias e as citações abaixo que aqui partilho convosco: Proud, Strong, Unshakeable: Portraits of Resilence. 
  • The world breaks everyone, and afterward, some are strong at the broken places – Ernest Hemingway
  • Resilience is the ability to overcome adversity, cope with setbacks, and persevere in the face of  trauma and deprivation.
  • The greatest glory in living lies not in never falling, but in rising every time we fall. – Nelson Mandela
  • The bamboo that bends is stronger than the oak that resists. – provérbio japonês
E queria falar disto porque sinceramente acredito que, no meio da adversidade, da saudade, do medo, do sofrimento, do desespero, das dificuldades e da falta de alento, é necessário que, de dentro de nós, se levante a força que todos temos, uma força mesmo que desconhecida, se levante a esperança, se levante a persistência. Haveremos de chegar a dias melhores. É respirar fundo, olhar pela janela, procurar uma ideia que traga paz e beleza, levantar a cabeça, esperar que melhores dias cheguem -- e acreditar. 


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Um bom sábado. Saúde.

sexta-feira, novembro 29, 2019

Transformar água salgada em água potável, transformar luz do sol em energia. Nada de mais.
[E um breve esclarecimento sobre doutoramentos]


Não é que já esteja tão flexível como antes do mau jeito mas acho que já estou um pouco melhor. Não sei se foi do ben-u-ron, se do brufen, se do omega 3, se de tudo junto que eu, se posso evitar andar empanada, não facilito. Ben-u-ron de madrugada, que nem conseguia mexer-me ou, quase, respirar, duas balas de omega 3 ao pequeno almoço, brufen ao almoço e, agora ao jantar, mais duas balas do omega 3. E a coisa parece que já está a resultar. Se mais daqui a nada perceber que subsiste algum ensarilhamento muscular, vai outro ben-u-ron e, expectavelmente, a coisa ficará resolvida. Talvez amanhã já possa voltar a fazer a minha caminhada e isto já para não falar nas minhas piruetas acrobáticas.

Tenho ideia de que quando apanho uma constipação (como apanhei na sexta-feira da semana passada, depois de ter passado o dia com os pés gelados), tendo a ficar com alguma debilidade que leva a que os músculos se mostrem mais sensíveis a coisas pesadas ou a movimentos invulgares. Nem sei se também não fico mais atreita a tendinites ou contracturas quando ando mais cansada. 

A minha mãe preocupa-se, não gosta que eu tome medicamentos, tem medo que me façam mal. Digo-lhe que os tomo porque tem que ser e que é só por um ou dois ou, vá lá, três dias. Não se deixa convencer. Sugere que eu passe a beber chá de gengibre ou de curcuma, a comer maçãs e outras coisas que ajudem a reduzir inflamações e a tornar mais resistente o sistema imunitário.

Por isso, quando cheguei, fui ao supermercado e comprei um bocado de gengibre e uma caixinha de saquetas de chá também de gengibre. Também já o bebi. Não encontrei foi curcuma. Tenho que ver no Celeiro. Nem sei se curcuma é para fazer chá ou para temperar a comida. Tenho que me informar. E, por via das dúvidas, antes de jantar comi um bravo de esmolfe. Acredito muito nos saberes da minha mãe.

Bem, não interessa, até porque isto de ter uma dor aqui e outra acolá é tudo menos original. De resto, nem é bem nas costas.
Tirando isso, estou como a Ana: também não tenho adidas, não faço ideia se tenho ou não cento e vinte canais de têvê pois se vejo uma meia dúzia já é muito, não estou inscrita num ginásio, não tenho qualquer bicho de superior estimação, não tenho mau dormir, não tenho o sonho de uma viagem sem retorno, credo, cruzes, nem pensar, claro que quererei sempre voltar, não tenho suspeita de ser diferente, nem pensar, nem isso nem pitada de jeitinho para poeta, felizmente não tenho um rol de incompetentes e invejosos ao redor, nunca me passou pela cabeça aquilo de um ou dois mortos queridos merecerem mais a vida do que os outros, nem nenhuma culpa abandonada no altar, nem tenho quaisquer nobilíssimas intenções nem baú de rancores lá no fundo, muito fundo, do armário. 
Pronto, adiante, já chega destes trololós.

E a ver se hoje, que já não tenho aquele ferrete aqui espetado a doer-me para escambau e a tirar-me do sério, não me dá para provocar de novo uma certa pessoa com mais uma inocente private joke, já que ontem acabei foi a desencadear justas perplexidades junto dos demais Leitores. Portanto, dentro do género, acho que já bastou o que escrevi ontem.


E, falando muito a sério, claro que acho bem que as pessoas estudem, investiguem, se tornem doutoras. Claro que sim. Só se fosse burra de todo é que acharia que não; e posso ser burra mas, na minha inocência e auto-caridade, acho que não de todo. E claro que acredito que não é por serem estudiosas, especializadas num assunto e sabedoras a sério, que vão deixar de usar perfume. Ora essa, que é uma coisa tem a ver com a outra? Sou maluca mas não sou parva (acho eu). Mas é que há quem, à conta de se doutorar, deixe de viver, quem se esqueça de que há outros assuntos que também interessam, de que há dias com luz do sol, quem se esqueça de apanhar ar, de conviver e dar uso aos sentidos, etc. -- e o que escrevi foi, em especial, para uma pessoa assim. Uma pessoa, de facto, especial.

Mas adiante que o tema que aqui quero trazer também não é nada disto, é completamente outro.

...   &   ...   Mudança de agulha   ...   &   ...


No outro dia, ao ver o mapa das regiões de Portugal que estarão alagadas no prazo de trinta anos, involuntariamente dei por mim a pensar que idade terei se viver até lá. Pensei que, se fosse com outra coisa, era capaz de pensar que até lá não me doa a mim a cabeça. Mas esta não é uma coisa qualquer.

E tomara que não aconteça senão no prazo de décadas. O que se passa é que há fenómenos que desencadeiam outros e aquilo para que os cientistas cada vez mais chamam a atenção é que várias linhas vermelhas foram já ultrapassadas e que a emergência pode chegar mais cedo do que se pensava. E pode ser horrível.

Mas não penso apenas em mim. Tenho que pensar os meus filhos, nos meus netos e nos meus bisnetos, chegue eu a conhecê-los ou não. E penso não apenas neles mas em toda a gente. 

Sempre pensei, a propósito de tudo, que tenho como que a obrigação de deixar as coisas melhores do que as encontrei. No trabalho, por exemplo, penso isso frequentemente.

E, nisto do planeta, sinto que não vou cumprir. Aliás, acho que, colectivamente, estamos a caminho de falhar. E isso frustra-me. E preocupa-me, dá-me medo.

Mas é bairrista pensar apenas no que nos rodeia e esquecer os que já vivem com as dificuldades com que provavelmente nos vamos deparar daqui por uns anos. A falta de água potável é fatal. Nada medra: nem plantas, nem animais, nem gente. 

Por isso, conseguir que as populações tenham água limpa e energia é vital. E tudo o que possamos fazer para divulgar iniciativas como as que hoje aqui mostro ou, mesmo, para ajudá-las é pouco.


Permitam, pois, que divulgue o vídeo abaixo. Não o faço pela organização em si mas, em geral, pela necessidade de haver quem o faça. Um dia pode acontecer que sejamos nós a precisar de transformar água salgada em água potável.


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E, por ora, é isto.

A todos uma bela e white friday

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segunda-feira, novembro 25, 2019

Podia ficar-me pelo meu encantamento in heaven ou pela maravilhosa decadência do Ginjal.
Mas prefiro chamar a vossa atenção para aquilo que sabem.





Fim de semana tranquilo. Mas não estive na melhor forma, estive um pouco adoentada. Resfriei-me na sexta-feira e mais do que pensava. 

No sábado estive no campo. De tarde, pensei que estava melhor, pus-me a passear por entre as árvores, andei nas minhas deambulações, nem dei pelo frio. 

Voltaram a aparecer as pegadas de bicho grande, a terra escavada. Eu estava longe mas pareceu-me o meu nome chamado pelo meu marido. Era ele mesmo: tinha visto aquelas marcas, quis alertar-me não fosse haver javalis por ali. Mas não. Provavelmente só por ali andam à noite. Pelo menos, assim o espero.


O que é curioso é que aparentemente andam a lavrar a terra com o focinho ou com as patas exactamente nos mesmos sítios onde andaram antes. A minha mãe no outro dia, quando lhe mostrei fotografias de tantos cogumelos, disse: 'Se calhar, também por lá tens trufas'. Não sei, não faço ideia. Mas, ao ver como a terra está, fico com a ideia de que há animais por ali a quererem encontrar alguma coisa. Será mesmo trufas? Nem sei como descobri-las. Sei que se parecem com torrões de terra pelo que não faço ideia de como procurá-las. E há também muitos cogumelos arrancados, meio comidos.


O campo está verde, lindo. Tudo se cobre de musgos, de líquenes. Não consigo olhar para os campos e ver ali o ocaso de nada. Pelo contrário, o próprio processo de transformação das folhas rubras em nada, misturando-se e preparando-se para a a dissolução final, tudo me parece um fenómeno maravilhoso, de uma beleza difícil de reproduzir ou descrever, como se tudo estivesse a nascer, a acontecer.


As cores e os perfumes e as aragens enchem o espaço bem como o canto dos pássaros que parecem andar mais felizes e livres do que nunca. 

Fotografo, fotografo. Parece que nunca vi tamanha beleza, parece que é um milagre que estou a testemunhar pela primeira e única vez, parece que é uma bênção de que me é dado fazer parte.


O sentimento de pertença que ali sinto envolve-me toda, todas as células do meu corpo. Uma paz, uma felicidade, uma harmonia tão absoluta, uma total fusão com a terra, com o ar que transporta cheiros e cantos, com a magia da luz cuja cor muda os cenários em minha volta. Um estado de encantamento, de puro e agradecido encantamento. Não sei dizer de outra forma.


Convencida de que já estava bem, fui à noite a casa dos meus pais. Por precaução, levei a echarpe em volta do pescoço, a tapar-me a boca. Embora um resfriado não seja contagioso, não quero que haja o risco de lhes passar alguma coisa.

Mas talvez tenha voltado a apanhar frio. Este domingo de manhã estava outra vez um pouco congestionada mas, como não tenho paciência para estar fechada e me apetecia ir a um sítio onde não ia há algum tempo, fomos ao Ginjal.


E, de novo, aquela sensação de alegria pela descoberta. A cada vez que lá volto as paredes estão diferentes. Como um ser vivo que se transmuta, assim aquelas velhas e decadentes paredes: sempre novas, cada vez mais belas. 


Fotografei, fotografei. Como é possível um lugar assim?

Lisboa vista dali é bela, magnífica. Tão bonito tudo. E tão bom andar por ali. A maré muito cheia, as águas muito perto, aquela frescura boa, molhada, aquele cheiro a beira do rio, aquela vastidão, aquela perfeição que as paredes grafitadas, tingidas, devastadas pelo tempo apenas complementam. E o rio, largo, imenso. E os barcos e as gaivotas e as pessoas. Tudo tão bom, tão bonito.


E, de novo, devo ter apanhado algum frio pois voltei a sentir-me pior. Felizmente a mim o chá quente e uma sesta fazem milagres e voltei a sentir-me boa. 

Estive a ler. Cercada de livros, no conforto desta minha sala tão acolhedora, com um chá quente, com uma luz a incidir nas páginas e pouco mais, eu estou nas minhas sete quintas.

O meu marido antecipou-se-me e está ele com o Augustus do Stoner. Não faz mal, leio-o a seguir. Estive com aqueles livros em que os arquitectos falam das suas casas, mostrando como é o lugar onde vivem. Gosto do que dizem os arquitectos (alguns arquitectos). Casas, objectos, memórias, o espaço, a luz, o interior e o exterior, o conforto, a simplicidade, a história das suas vidas, a partilha -- uma maneira interessante de falar das coisas.

E agora que aqui estou, depois de há bocado ter escrito sobre a Joacine e o Livre, estou a ouvir a chuva, a ouvir música, sons bons que se misturam, feliz e tranquila, sentindo o conforto bom da minha casa.

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Antes de começar a escrever vinha com a ideia de falar um pouco mais sobre como é impossível romper com o sistema (seja lá o que isso, na realidade, significa) estando dentro do sistema como, por vezes, ingenuamente parecem acreditar os que se deixam encantar por falas aparentemente rebeldes como as do Livre (e digo isto simpatizando com o Rui Tavares a quem acho um homem genuinamente bem intencionado).

E tinha a ideia de mostrar um vídeo que me impressiona bastante. E impressiona-me não apenas pelo vídeo em si mas porque fico a pensar que o mundo poderia ser um lugar menos perigoso se mais pessoas, em lugares de decisão e poder, pensassem e agissem como parece que o protagonista deste vídeo, Feike Sijbesma, CEO da DSM, pensa. Mas não sou ingénua. As disparidades são tão abissais, o mal feito ao planeta é tamanho, a estupidez intrínseca dos humanos é tão destruidora que não é a visão solidária e inclusiva de uma pessoa, ou de cem pessoas que sejam, mesmo de mil pessoas, mesmo de cem mil pessoas que vão fazer a diferença.

Ou talvez seja. Talvez.

Talvez se muitas vozes se levantarem, talvez se, em vez de se propagarem mentiras, intrigas, futilidades e disparates nas redes sociais e na comunicação social, se difundirem bons exemplos, gritos de alerta, passos no caminho certo, talvez progressivamente haja uma leve inflexão no sentido da destruição, talvez nos desviemos da rota para o abismo que temos vindo a trilhar. Talvez. 

You know


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Sergei Polunin está lá em cima no lugar das bandas sonoras mas, obviamente, é mais, muito, muito mais que isso. Não deixem, por favor, de ver como ele voa.

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E uma boa semana a todos a começar já por esta segunda-feira.