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sábado, março 14, 2026

Linha do tempo de um dia tranquilo

 

Geralmente é o meu marido que, de manhã, levanta a persiana do quarto. Levanta-se bem antes de mim, toma o pequeno-almoço, vai acordar o pobre do cão e arrasta-o até à rua, a seguir vai podar árvores, árvores e arbustos ou causar estragos que não lhe perdoo pois corta sempre demais e, quando já não sabe o que mais fazer, vai até ao quarto e pergunta-me se ainda não são horas. Isto para dizer que, quando levantou a persiana, vi que estava sol. Pensei: 'Vou mas é pôr já a roupa a lavar'. E assim fiz. Lençóis, toalhas, panos das mãos e o mais a que deitei a mão (compatível com temperaturas e cores, bem entendido), tudo para a barrela. 

Depois tomei o meu pequeno almoço. Laranja, depois um copo de kefir natural com sementes e latte dourado. A seguir um café.

Depois de estendermos a roupa, tarefa que dividimos, fomos para o ginásio. E, a propósito disso quero aqui deixar um apontamento: no outro dia, se calhar por causa duns stresses que vieram bater-me à porta (e de que já me livrei), estava com um torcicolo, acho que falei nisto aqui, o pescoço tolhido, a nuca apanhada e dorida. O meu marido pensou que eu não ia ao ginásio e, para dizer a verdade, ainda hesitei. Mas depois resolvi que ia na mesma. Não abusei muito, mas fiz o habitual, embora não tivesse puxado demais pelos ombros ou braços. Não piorei. E voltei. E pus-me boa. Sem tomar um comprimido. 

Aqui há algum tempo li um artigo científico em que se concluía que, para osteoartrites e inflamações de articulações e/ou artroses, o melhor remédio é o exercício. Não o repouso ou contenção de movimentos mas, justamente, o oposto, o exercício. Não sei se é para todas as situações, mas o que me tem parecido é que, pelo menos comigo, parece ser verdade. Em contrapartida, sinto que estar muito tempo sentada, andar pouco, fazer pouco exercício, isso é que dá cabo do corpo todo.

Bem.

Vindos do ginásio, tomámos banho, apanhámos a roupa e fomos almoçar. E não sei se foi a essa hora que ouvi a notícia que me pareceu a mais estúpida do dia. No meio das desgraças inomináveis das guerras absurdas e cruéis que estão em curso e de todas as implicações que já aí estão e as muitas mais que por aí virão, ouvi novidades da mais recente e espectacular operação da Polícia Judiciária, a Rigor Mortis: que as buscas à morgue do Hospital Santa Maria e às casas das pessoas, aparentemente, têm por base o facto de os funcionários da morgue receberem verbas entre 5 e 30 euros por cada corpo que preparam antes de os entregar às funerárias. Ouvi isto e só me apeteceu atirar um copo de água à cabeça do maluco que mobilizou investigadores da Judiciária para uma treta destas. É que não sei quem é que fica prejudicado com isto. Se os pobres coitados que têm como profissão lidar com mortos preparam minimamente os respectivos corpos e, com isso recebem uns trocos, que mal há nisso? O hospital fica prejudicado? Alguém fica prejudicado? E, mesmo que haja aqui qualquer coisa de vagamente ilícito, é caso para mobilizar tanta gente, tantos investigadores que custam caro, para uma coiseca destas? Não andariam melhor a apanhar traficantes de droga? Não andariam melhor a apanhar traficantes de armas de todo o tipo? Não andariam melhor a caçar pedófilos? Não andariam melhor a prestar atenção a bandidos que praticam violência doméstica e ameaçam as mulheres caso estas os denunciem? E a comunicação social também não tem neurónios? Que sentido dar tanto destaque uma notícia destas que nem se percebe que raio de notícia é? Não bastaria dar uma rabecada aos pobres coitados que, pelos vistos, ganham uns trocos indevidos? Era preciso tanto aparato? 

Bolas, só maluquices. Caraças.

Adiante.

Depois de almoço, estava um sol bastante jeitoso. Pensei que não era cedo nem era tarde: boa ocasião para a vitamina D. Vesti uns calçõezitos e uma tshirtezita e estendi-me numa espreguiçadeira. E senti-me abençoada por poder receber assim, em liberdade, um calorzinho tão bom. Ser reformada tem destas coisas: não ter horários nem obrigações, não ter que estar enfiada em escritórios de manhã à noite, a respirar ar condicionado e a resolver problemas e a aturar gente em contínuo, por telefone e em pessoa, sem possibilidade de pôr o pescoço de fora para curtir um raiozinho de sol.

Pois, pois. Foi mas foi sol de pouca dura. Veio uma nuvem e foi-se o verão. Logo depois estava frio. Tive que vir para dentro, mudar de farpela.

Tenho ainda a dizer que cá em casa praticamente não se comem doces: o meu marido não aprecia e eu aprecio mas, por cada 10 gramas de açúcar que ingiro, aumento 1 quilo. Além disso, não gosto de fazer sobremesas. Mas, de vez em quando, apetece-me. E o meu marido, volta e meia, diz: 'devia haver qualquer coisa que se comesse entre refeições, quando nos apetecesse, para não ser só frutos secos'. Pois bem. O Instagram tem-me trazido coisas com piada. No outro dia apareceu-me um japonês que dizia que se pode fazer um doce sem farinha e sem açúcar. 

E mostrava: esmaga-se batata doce cozida, mistura-se um ovo, leite de amêndoa e cacau em pó, bate-se e leva-se ao forno. E ficava com bom aspecto.  Então resolvi fazer. O pior é que não tinha quantidades. Tudo a olho. Não tinha leite de amêndoa mas tinha kefir. Pensei que, com o kefir, ainda deveria ficar menos doce. Então, antes de vazar a mistura para a forma, juntei algumas, poucas, tâmaras e nozes cortadas aos bocadinhos. Levei ao forno. 

E, se querem que vos diga, acho que ficou razoável. O meu marido não ficou extraordinariamente convencido e diz que com mais tâmaras talvez fique melhor pois assim parece que ficou com pouco sabor. É que, quando a gente vai comer um bolo -- e este fica macio, com um ar até a modos que apetitoso -- vai à espera de lhe saber a doce. E este doce, doce, não é. Para a próxima junto-lhe ou uma colherzita de mel ou mais tâmaras e talvez, até, algumas passas e arandos. Contudo, há pouco reparei que, apesar de lhe saber a pouco, até já comeu um bom bocado.

E depois fomos fazer uma caminhada e vi umas florzinhas amarelas muito lindas, lindas mesmo, um amarelo torrado, mais do que dourado, quase a querer alaranjar, mas tão perfeitas, tão harmoniosas, as pétalas quase translúcidas... Umas florzinhas ali, nascidas do nada. Nunca as tinha visto. Fiquei fascinada. 

A natureza é uma coisa repleta de mistérios. Tira-os da manga a toda a hora. Fotografei-as e filmei-as e depois coloquei o vídeo no instagram. Não sei se quem vê estas minhas platitudes pensa que, se não tenho nada de mais original para partilhar, mais valia estar quieta. Talvez. Mas, para mim, estas coisas não são vulgaridades, são, isso sim, verdadeiros milagres. E milagre que é milagre deve ser louvado e, se é para louvar, que o seja com testemunhas. Por isso, partilho.

O pior é que, quando estava a pôr aquilo no instagram, recebi uma chamada. Interrompi o processo, Quando acabou a chamada, carreguei na coisa de partilhar ou publicar ou lá o que é. E lá vai disto. Fui à minha vida. 

Há bocado, fiquei perplexa: vi que publiquei duas vezes. Ou seja, quando recebi a chamada, sem querer devo ter publicado. Depois dupliquei a dose. Agora quero apagar um deles e não consigo pois têm ambos visitas. Quem vê deve achar que sou maluca, publicar duas vezes a mesma coisa. 

E, pronto, vou ficar por aqui, não vou pôr-me ainda a falar do jantar nem da minha magnólia -- que está espectacular, coberta de um manto de flores belíssimas -- nem da nova bebé da família, fofa, fofinha, fofésima, uma ternurinha, por sinal minha homónima, nem do meu tio que está cada dia mais confuso, o único sobrevivente daquela geração, nem de mais nada que isto já vai para aqui um lençol que não se aguenta.

[Nota: Dei o título de 'linha do tempo de um dia tranquilo' pois agora está na moda isto da linha do tempo: por tudo e por nada, lá sai a linha do tempo à cena. E eu embirro solenemente com estas coisas que viram virais e só tenho pena que a ironia não se perceba bem sem uma expressão facial de malícia ou desdém. E aqui, a escrever, e ainda por cima num título, sem verem que isto tem ironia à mistura,  penso que, sem eu acrescentar esta nota, não perceberiam que claro que isto não é nenhuma linha do tempo, é um simples desfiar de tarefas irrelevantes ao longo de um dia normal, bom mas normal.]

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Mas, antes de ir pregar para outra freguesia, toma lá mais esta, ó Chalamet, vê lá se percebes que meteste a pata na poça.

Jiří Kylián: Sechs Tänze

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Desejo-vos um belo sábado

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Bella Figura


Ausência de palavras. Vagar. Olhar, apenas. Deixar que a música e o movimento dos corpos faça o seu lento caminho dentro de nós. Só isso.

Nederlands Dans Theatre (NDT) | Peça 'Bella Figura' de Jiří Kylián


A ideia de Bella Figura (1995) é uma parábola sobre a relatividade da sensualidade, da beleza e da estética. Em italiano, “Bella Figura” não significa apenas “bela figura”, mas também representa a resiliência das pessoas perante uma situação difícil, ou “manter a compostura”. Sobre esta obra, Kylián afirma: “Há muito que me pergunto: o que é uma performance e quem são os performers? Quando começa ou termina a performance? (...) Onde está a fronteira entre a arte e a artificialidade, entre a verdade e a mentira? Interesso-me por este mundo “entre”, pouco antes do início de uma performance, quando os bailarinos começam a transformar-se de pessoas comuns em performers. É um mundo em que todo o tipo de realidades se fundem de uma forma imprevisível e surreal.”

sexta-feira, dezembro 27, 2019

O meu último dia de Natal do ano da graça de 2019 -- também com reportagem fotográfica




Esta noite estou verdadeiramente na ressaca. Aliás, a ressaca começou ao início da noite, na viagem de regresso de casa dos meus pais. Mal o carro arrancou, qual bebé, adormeci profundamente. Mas não fui só eu: os três que vinham no banco de trás do carro caíram igualmente no sono. Cheguei a casa quase inerte e assim me tenho mantido. 

De manhã, só os dois, tínhamos ido passear para a beira do rio, lugar de todos os retemperos.


Fotografei e foi o deslumbramento de sempre. Olhar a bela cidade através da lente tem outra magia, parece que os movimentos das gaivotas são coreografias, que as cores das casas o cenário, parece que os pormenores se salientam para passarem para primeiro plano, tudo parece muito belo e sereno. Olho tudo como a primeira vez e essa atenção descansa-me a mente e o corpo. Entrego-me, de todo, à boa sensação de ali estar.

Olhei as águas, a paisagem, aspirei o ar fresco. Tão bom. Fico sempre a sentir-me renascida.

Já aqui o disse algumas vezes: se calhar, sem o saber, isto tem em mim o efeito que a meditação tem noutras pessoas.


O ria ia cheio de frutos e daquela folhagem que as fortes chuvadas arrancam das margens e que as correntes puxam a caminho do mar.

O meu marido gozou logo: será que o Marcelo, qual sereia, vai atirar-se ao rio para o limpar? É que, na reportagem da véspera, ele diz que viu o Marcelo a apanhar daquilo. E eu até o gravei a fazer essa pergunta. Mas agora, ao ver se dava para colocar aqui, reparo que, como sempre, não mantive a máquina estabilizada e almareia só de olhar.


Voltámos mesmo a tempo de preparar o almoço, misto de restos e misto de coisa nova. É que logo, logo, chegou parte da turma que iria connosco, juntando-se aos restantes, em casa dos meus pais. Almoçámos e zarpámos. 

Como sempre, apesar de mais do que avisada para evitar os habituais abusos, a minha mãe voltou a preparar um banquete. Mesa farta. Tudo feito por ela. Uma coisa surpreendente. Não apenas o lanche foi dos bons como as meninas grandes ainda vieram carregadas de petiscos. Não sei que energia e boa cabeça é aquela: apesar dos oitenta e muitos mantém-se impecável e acho-a mais jovem de cabeça do que quando eu era miúda e vivia lá em casa. Os presentes que comprou para toda a gente, quase todas as compras para a casa, a orientação e acompanhamento de todas as rotinas relacionadas com o meu pai e, sempre que as tropas se reúnem lá em casa, lanche para todos. Uma força, uma agilidade, uma criatividade fantásticas. Quem me dera que seja genético e que tenha passado para mim e para os meus filhos e netos.


Desta vez não houve futebolada no jardim. Nota-se que os rapazes estão cansados. Em vez da bola, das lutas, das corridas e da confusão barulhenta, puseram-se a ver televisão. A maior agitação deu-se quando eles quiseram ver futebol e ela lhes rapinou o comando e quis pôr nos canais de desenhos animados ou coisa do género.

Os mais crescidos também já davam mostras de algum cansaço e talvez a mais fresca fosse mesmo a minha mãe.

O meu pai, apesar de não ver e de mal ouvir, parece que pressentia que havia movimentação e estava um bocado agitado. Por isso, felizmente os miúdos não estavam naqueles dias de grande fuzuê senão é que ele ficava mesmo inquieto.

De tarde os rapazes, os grandes e os pequenos, tinham estado a apanhar laranjas e, portanto, também trouxémos umas sacadas.  Umas laranjas sumarentas e doces de dar gosto.

De presente da minha mãe recebi o Nº5, eau de parfum que sempre me oferece, uma écharpe macia e quentinha numas belas cores quentes que coloquei logo e que ainda não tirei. Desdobra-se e fica uma capa de lã aconchegante.

E recebi um livro surpreendente. É um livro da autoria do seu médico de sempre, um médico que ainda tem mais idade que ela mas que é outro jovem de cabeça. Tenho estado aqui a folheá-lo e é bastante interessante, conjugando medicina e história. E, graça das graças, tem uma dedicatória que me é dirigida. 

Conheço estas figurinhas nem sei há quanto tempo.
Pelo Natal saem à cena.
Agora estão no móvel pequeno onde estão as fotografias dos cinco bisnetos, quando recém-nascidos:
é o presépio da casa dos meus pais

Estivemos também com o meu tio. Tenho-o achado mais caído. A minha tia tem estado adoentada e o alterarem a sua rotina de saírem todos os dias, está a deprimi-la e, a ele, está a causar abalo pois não apenas os seus hábitos se têm alterado como ver a minha tia assim o deixa também bastante triste. E a mim custa-me muito vê-lo assim. Para mim ele será sempre aquele meu tio amigo e cúmplice que, tal como o meu outro tio, ia comigo dar passeios de mota à socapa dos meus pais. Mas o tempo passa. Hoje, daqueles três homens muito jovens, o meu pai e os meus dois tios, desportistas, todos cheios de vida, um está acamado, outro já morreu e outro está a envelhecer a olhos vistos. Enfim. Vi que ele ficou contente a conversar com os sobrinhos-netos e, em especial, com o meu filho que lhe falou da empresa onde ele trabalhou a vida inteira.

E, com esta visita e com este dia dei por encerrada a época natalícia. E, como é bom de ver, já se começou a falar do que será o almoço do primeiro dia do Ano Novo.

Tempus fugit. Vita brevis.

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E, nem sei bem se a propósito de alguma coisa, permitam que coloque aqui dois vídeos com bailados do Nederlands Dans Theater, um lugar muito especial. Talvez sejam dois presentes para quem me faz companhia aí desse lado. Já vêm fora de tempo mas pode ser que aquilo de Natal ser quando a gente quiser seja verdade.

Com músicas de Heinrich Ignaz Franz Biber, John Cage, Philip Glass, Johann Sebastian Bach e coreografia de Jiří Kylián: uma beleza do outro mundo



Sobre música de Igor Stravinsky e coreografia de Jiří Kylián: belíssimo


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Uma boa sexta-feira.

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Trompe l’oeil: a arte da ilusão




Mais do que os ângulos óbvios, a mim atraem-me os dúbios, os súbitos, os incompreensíveis. Se possível, indecifráveis.


Claro que uma flor é uma flor é uma flor e que, por isso, há que respeitá-la não a mascarando entre ilusões. Ou uma árvore. A dignidade de uma árvore não permite a dispersão. Afinal uma árvore também é uma árvore também é uma árvore. Mas o reflexo de brinquedos numa janela de vidro de onde se vê o jardim pode dar uma ilusão interessante. Ou o emaranhado a la Pollock de mil pequenas folhas, pequenos pauzinhos, pedrinhas, florzinhas -- também curioso. 

Também me interesso pelo que não se vê do exterior. Uma fenda numa parede de onde nasce uma luz vinda não se sabe de onde, um navio que nasce de um telhado plasmado na janela da minha sala, uma lua suspensa nos ramos nus tangenciais a um telhado.

Na vida a três dimensões também me interesso pelo que existe sob a pele, seja a minha, seja a dos outros. 

Por exemplo, alguém sempre sorridente que, afinal, está em sofrimento por uma razão que ninguém imagina e que precisa tanto de desabafar. Ouvi-la, espantar-me por ela saber disfarçar tão bem. Ou outra pessoa, conhecida pelo seu profissionalismo numa área bem comum e que, afinal, é também pintora, com obra exposta. Ou um outro, pessoa com vários cargos relevantes, uma vida profissional preenchida, com muitas viagens a muitos países, alguns bem longínquos, e que, afinal, nada conhece do seu país e, na verdade, pouco parece conhecer do mundo real.

Situações que fazem nascer a vontade de olhar melhor, de prestar mais atenção para conhecer o que está para além do imediato. A vida como uma infinita sucessão de camadas quase invisíveis. Ou de véus. Ou de espelhos.

Isto a propósito de.

Sou devota de Steve McCurry. De cada vez que há uma entrada no seu blog, vou logo espreitar. E são sempre imagens extraordinárias, algumas das quais cometi a ousadia de trazer aqui. E gosto de ver as sóbrias citações que escolhe para acompanhar as imagens. O post de hoje tem o nome que dei a este meu. E foi de lá que também transcrevi, em tradução livre, o que abaixo coloco em itálico.
Vivemos num mundo de fantasia, um mundo de ilusão. A grande tarefa que temos na vida é encontrar a realidade.
– Iris Murdoch
Há uma ilusão de óptica em cada pessoa que conhecemos 
– Ralph Waldo Emerson
Sou obcecada com o trompe l’oeil – a ideia de algo que existe e não existe
– Alessandro Michele

Não é todo este mundo uma ilusão?
– Angela Carter


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Trompe L'Oeil -- Jiří Kylián



sexta-feira, junho 08, 2018

Palavras desconfessadas





Não sou de dar lição. Dou palpite. Coisa fraca, bagatela. Opinião, quando muito. Mas lição não dou. Não sei o suficiente. Não me peçam conselho. Quando muito direi: eu, se fosse eu, faria assim. Mas pode acontecer que eu, noutra altura, já fizesse de outra maneira.
Já contei: amei a relatividade. Parecia coisa poética e eu, já na altura, era dada à poesia. Também já contei: estava no Portinho a ler o ABC da Relatividade e o homem mais lindo do mundo e com um corpo demasiado belo para ser de verdade aproximou-se de mim quando eu estava a nadar, e vinha de debaixo de água, e isto para me dizer que me tinha visto a ler sobre a relatividade. E falou em francês para ser tudo ainda mais improvável. E desde aí nunca mais larguei isto da relatividade. Coisa do domínio do improvável, de uma elegância que mais se diria ser coisa quitada. Aprendi: tudo muito relativo, tudo, o tempo, o espaço, o que a velocidade faz à massa dos corpos, a luz. E aquilo das ondas curvas e melódicas que atravessam o universo ainda mais ajuda à festa. Uma beleza absoluta, isto da relatividade.
Quero eu dizer: não sei nada. Eu própria posso ser nada. Quem sabe, nada mais senão uma partícula anónima circulando no imenso espaço.

Até porque é mesmo isso: estou de passagem. Meio mundo está para ficar. Lutam para aprisionar o tempo entre as mãos.
Mas nada se segura entre as mãos. Só o afecto, coisa fugaz, mas isso também não conta para aqui.
Sabem tudo, querem tudo, nada arriscam para não perturbar a monotonia que os encanta. Eternos. Para todo o sempre por cá, agarrados aos seus privilégios, garantias adquiridas que perdurarão até ao infinito. Gente feliz.

Eu não, eu sou efémera, perecível. Desligada de certezas. Despreocupada e desavergonhada como um bicho inocente.


Também não sei interpretar, muito menos decompor a semântica, enunciar signos ou desfiar semióticas. Mesmo que quisesse fingir que sim, a verdade é que não. E o pior é que não quero. Só quero ser capaz de gostar ou não gostar, sem explicações, sem convenções.

Atraem-me as topologias abastractas, as bolas ditas abertas, os espaços sem fronteiras, as geometrias variáveis, as palavras que rasgam o véu que normaliza a realidade. Coisas assim que, como se vê, não alimentam grande conversa.

Ah. O texto parece meio solto. Está meio solto. Mas não podia ser de outra maneira porque as ideias soltas estão. Não quero aprisioná-las.

As escolas deviam ensinar a subverter, a manter os pensamentos em liberdade, a inventar caminhos. Mas isto sou eu, desconstruída mental, a falar.

Não sou de seccionar frases. Sou mais de limpar polinómios. Cansa-me o ruído. Atrai-me o silêncio.

E comecei a escrever este texto para falar do que acho que deveria ser a escola hoje mas, porque não sei do assunto nem sei dizer bem o que penso, deixei que aquela velha driving force que constantemente me leva para sítios imponderáveis, me fosse desconduzindo para lugar nenhum.

Por isso, esqueçam.


Vou mas é limitar-me a ficar aqui, sossegada, a apanhar luz do candeeiro para me preparar para o ar condicionado que amanhã vou respirar


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E, então hoje, Lady Kina, o que tem a dizer-me?

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quarta-feira, março 02, 2016

Já a nossa vida não tem alicerces





Noite que me apetece de silêncio. 

Não há assuntos na política nacional que me motivem. O governo está a começar. Há que lhe dar tempo para se instalar, conhecer os cantos ao país, organizar-se. Um ou outro tropeção são normais, há que não dramatizar. Até agora nada de grave, as intenções são boas, o rumo é o correcto.

A oposição está gasta, é um saco vazio. Gastas as figuras, gastas as ideias. Não consigo ouvir aquela gente, tudo aquilo é nefasto.

E, se não quiser falar em política e me virar para o dia a dia, ou me deito a efabular ou a deitar perfuminhos no ar, ou, se olho para o que se passa à minha volta, o que vejo a toda a hora é que a vida de tantas pessoas é uma angústia, uma verdadeira angústia. Por exemplo, hoje à hora de almoço ouvi na rádio uma senhora que se queixava de que o edifício onde trabalhava, com amianto, lhe causava alergias e que de vez em quando estava de baixa. E que, além disso, lhe tinha aparecido um cancro. E que vários colegas estavam também com problemas de saúde, já para não falar nos que tinham morrido. E eu ia a ouvir isto com uma crescente tristeza. E só pensava, com espanto, como é que a senhora conseguiu falar o que falou sem estar lavada em lágrimas. Em condições normais, humanas, uma pessoa, perante uma situação daquelas, largava aquele emprego e ia trabalhar para um sítio onde se sentisse bem. Mas a situação que se vive (por todo o lado, não apenas aqui) é de tal ordem que uma pessoa, mesmo nestas circunstâncias, continua a trabalhar num lugar que lhe dá cabo da vida. Ouvi que vão agora fazer obras no edifício mas, pelos vistos, foi necessário que várias pessoas tivessem chegado a estados limites para que alguém achasse que era preciso fazer alguma coisa, Ora isto não é uma sociedade humana, é um grupo de estúpidos, de gente cretina. Em contrapartida, há sempre dinheiro para injectar nos bancos. E o jornalismo acéfalo -- que se precipita de microfone em punho para ouvir as asneiras que diz um sujeito que devia estar escondido durante anos (para ver se a gente se esquece do que andou a fazer ao longo de quatro anos e que por aí anda armado em importante) -- raras vezes  documenta o que de mau (e de bom!) existe por aí, raras vezes faz investigação ou reportagem, raras vezes indaga das aspirações das pessoas, das suas condições de vida, dos seus sonhos e sobressaltos,  ou seja, raramente se interessa pela vida das pessoas.


Mas, se olho para fora, ou me foco no espaço e aí facilmente me deixo levar pelas boas ondas, ou, se me detenho no que se passa com os humanos à solta nas camadas terrestres, fico igualmente desmotivada.
  • A situação nos EUA é deprimente, aquele regime parece cada vez mais duvidoso tal a iliteracia e incultura, e de tal forma grande parte da sociedade está capturada pelos interesses da indústria da guerra, da indústria farmacêutica, da indústria do petróleo, etc, e aquilo a que se assiste não parece próprio de um grande país democrático. 
  • A União Europeia é uma carroça desconjuntada, descomandada. 
  • A situação na Síria e arredores é um pavor -- e sabemos quem ajudou à festa. 
  • África é um desconsolo: corrupção, pobreza, uma crise permanente, escravos ainda. 
  • O Brasil é o que se sabe, um país imenso e sempre envolto na nebulosa da corrupção e de uma crise que se reinventa e se regenera. 
  • E a China e a Rússia... 
  • ... e, por todo o lado, um latejar de problemas de toda a espécie. 
Mas é tudo de tal forma incomensuravelmente problemático, tudo tão descontrolado, tão irremediavelmente desregulado, tão imenso e fora da esfera de acção individual que ou nos afogamos em desespero ou nos alheamos. 

E eu, a esta hora, por mais que queira mostrar a minha preocupação, já não consigo dizer nada, parece que nada que eu diga está à altura do que queria dizer. Nem, neste momento, tenho capacidade para fazer opções, acho que nem sequer para pensar direito. Estou cansada. Só me apetece paz, palavrinhas boas, gestos amigos, saltos de pássaro feliz.

E, por isso, com vossa licença, deixem-me mergulhar em poesia.
Devagar, devagar. 


Já a nossa vida não tem alicerces: pássaro sem nexo,
ela conduz-nos a qualquer lugar e também
não nos faz promessas. Deixa andar.
Todas as coisas serão finalmente reconduzidas
à sua própria dimensão
e nós próprios, melhor será não esperarmos nada
e agradecermos qualquer gesto de amor ou qualquer acto de camaradagem,
como se realmente o não merecêssemos, dádiva esplendorosa e gratuita
da nossa vida sem alicerces.

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Tu estás aqui

Ruy Belo





E criar, sonhar, fazer: Zaha Hadid

A arquitectura escultura



Vídeo feito para a disciplina História da Arquitetura IV do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie



 E voar. Apetece-me tanto voar, tanto.


Una Noche con Kylián (Sleepless, Petite Mort, Sinfonía de los Salmos) - Compañia Nacional de Danza no Teatro de la Zarzuela de Madrid
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As esculturas de vidro e luz são da autoria de  Michele Gutlove

O 'Poema dos alicerces da nossa vida' é de Luís Filipe Castro Mendes in 'Outro Ulisses regressa a casa'

 Lá em cima, da autoria de Biagio Marini: Passacaglio in G numa interpretação de Andrew Manze

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.

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terça-feira, maio 19, 2015

O senhor subcomissário bateu no adepto benfiquista à frente dos filhos? Pois não vou falar disso. Sou contra a violência. Sou a favor do amor. Diz André J. Gomes, um verdadeiro pipoco nestas coisas do amor: O amor é para os atrevidos, deixe de coisa e vá buscar o seu. Ninguém sofre de amor, a gente sofre é quando ele falta. Quanto mais amor a gente tem, mais medo a gente sente.


Os media andam doidos, cheira-lhes a confusão com futebol à mistura, coisa do melhor que há.

À falta de tremores de terra, naufrágios ou atentados bombistas, descarrilamentos ou atropelamentos, roubo de esticão, provocações passistas, sms para maria-amélias,
(e andando a ministra-loura de bico calado, o c-rato tão disfarçado de bom menino e todos os outros tão caladinhos, tudo na moita a ver se a gente se esquece deles; 
e sendo já um déjà-vu que o Super-Judge Alex esteja em todas tal como que o Prof. Marcelo comente sobre tudo e apresente livros em todo o lado, ambos a comprovarem que a ubiquidade é um dom com que foram abençoados, mais omnipresentes que Deus nosso Senhor) 
atiram-se como cães a bofe à confusão armada no fim do jogo do Benfica. Os polícias bateram nos adeptos, os adeptos bateram nos polícias e o frenesim que isso gera nas redacções é uma festa. Mas não é só nas televisões, é também nos jornais online. Já nem é tanto aquilo do Benfica ter ganho o campeonato que interessa, é mesmo o furdunço que houve a seguir.

O momento mais épico aconteceu quando a polícia bateu num senhor à frente dos filhos e do pai. O BE já pediu explicações, o senhor sub-comissário diz que o pai das crianças ameaçou cuspir-lhe, a criança já não quer jogar futebol, toda a gente esqueceu o menino que apanhou estalos ou o outro das orelhas grandes, agora toda a gente se concentra na tareia que o senhor levou. 


Note-se que não estou a sub-valorizar o episódio -- que acho a todos os títulos lamentável -- mas sim a desviar-me da forma histérica como a comunicação social repete até ao enjoo imagens de violência, quase a banalizando, quase banalizando a forma como toda a gente é levada a manifestações de repúdio instantâneas que apenas duram até à próxima.

E agora, enquanto escrevo, já estão os comentadores todos num excitex, animadésimos, uns contra uns, outros contra outros, advogados, ex-ministros, tudo opina minha gente, tudo disserta sobre leis, sobre moral e sobre costumes - e já ninguém quer saber das crianças que assistiram à violência sobre o pai ou do pai que assistiu à violência sobre o filho.

Ora quem sou eu para me pôr a competir com tão ilustres opinadores...? Ninguém.

Viro para a RTP1, Prós e Contras, a Fátima Campos Ferreira tão dramática, invasiva e grandiloquente como sempre. Falam da desregulação do trabalho. Até poderia ser interessante mas a esta hora estou sensível, ouvidos sensíveis, alma sensível, toda eu a precisar de paz e sossego, vozes em pianíssimo. Por isso mudo-me.


A seguir é o FMI que quer mais austeridade, parece. Não se sabe se é a Lagarde -- o Blanchard não é de certeza -- talvez seja o Subir, quiçá até o careca. Mas não vou comentar, que aqueles lá gostam é de jogar aos jogos de soma nula, um diz uma coisa, outro diz logo a seguir o contrário. Uns brincalhotos.


E aí vou, eu, portanto, tentando em vão descobrir alguma coisa que se aproveite. Mas qual quê? Só disto.

Por isso, com vossa licença, vamos mas é dar uma voltinha ao jardim dos amores.


Pipoco e uma namorada no metro - a arte antiga nos tempos modernos


Descobri, na Revista Bula, um cronista mesmo à maneira: sabe do amor à brava e partilha o que sabe, nada destes nossos experts, mais doces ou mais salgados, que gostam de se armar em bons, apregoando conhecimentos, conquistas aos molhos, e, com ar displicente falam de decotes assim, decotes assado, e, como se desdenhassem, vão deixando cair umas dicas de quem supostamente é grande connaisseur na matéria, minhas senhoras para aqui, minhas senhoras para acolá - mas de onde nunca sai ensinamento útil ou dissertação que possa fazer escola.

Pois este André J. Gomes parece saber do que fala e escreve com aquele torrãozinho de açúcar nas palavras que faz a prosa rolar gostosa, não se limitando ao título ou a duas ou três frases soltas que chamam clientela mas que insinuam mais do que fundamentam. Não, aqui o André percorre com sabedoria todos os caminhos do amor: a insegurança, o medo, a persistência. Tudo. No que abaixo transcrevo limito-me a extractos de três crónicas mas tem lá para um tratado das paixões da alma.

E não estou a brincar, concordo com tudo aquilo que ele diz. Capaz de toda a gente concordar que, quando a prosa é solta, a gente gosta mesmo que seja só por gostar e, enfim, nisto também já não há muito a inventar.







O AMOR É PARA OS ATREVIDOS. DEIXE DE COISA E VÁ BUSCAR O SEU



Então fica assim. Para o bem de todos os amantes, para a saúde de todo ser amado, quem quiser um amor verdadeiro vai ter de ir buscar. Esse negócio de esperar no sofá, a TV ligada, o olhar perdido, a vida em estado de suspensão por longos fios de baba enquanto a pessoa perfeita não vem, tudo isso fica revogado até segunda ordem. Desista que do céu não vai cair.

Quer amor? Levante e vá buscar. Não tem delivery, compra por catálogo, encomenda, disque-pizza. Não se pode pedir pela Internet. Faça por merecer!

Aos distraídos de boca aberta, os encalhados na correnteza, os pesos mortos e os zumbis sentimentaloides só chegam moscas, mariposas, lesmas, vermes e outros pequenos bichos. O amor é para quem sabe o que quer e, sobretudo, para quem sabe o que oferecer.

É para quem se atreve, se arrisca e se lança. Para os que ousam devolver o prato mal feito e o que mais não serve, para os insubordinados e os insatisfeitos, aqueles que procuram sem fim. Procuram até achar. E se acaso encontram e perdem de novo, retomam a busca sem frescura.




NINGUÉM SOFRE POR AMOR. A GENTE SOFRE É QUANDO ELE FALTA



Quem já andou de amores por aí sabe bem do que se trata. Entende como funciona. Sentir amor é a maior sorte que a vida nos dá. Do sentimento amoroso brota um mundo inteiro de possibilidades novas, vontades honestas, intenções felizes, projetos abençoados. Do amor vem todo o resto.

O amor nos empurra para a frente, nos leva adiante. Faz nascer em nós razões irresistíveis e toda sorte de desejos, ímpetos e motivos para romper amarras mesquinhas, vencer torcidas contrárias, superar encalhes derrotistas, evoluir, melhorar. E merecer mais amor.

Aos sortudos escolhidos na roda dos acasos, o amor chega trazendo fortuna. Melhora a pele, desopila o fígado, clareia a vista. Amor jamais segura, não atravanca e nem atrasa. Amar faz bem e ponto.

Sentir amor faz de nós bombas atômicas ambulantes, reagindo em cadeia aqui e ali com outros seres amorosos, varrendo a terra de ternuras. Quem sente amor o espalha pela vida, transborda o mundo de festa. É o que nos salva da sanha dos patifes, invejosos, cretinos, estúpidos e patetas tão dedicados a distribuir descaso e apatia e desamor.

Amar o ser amado, um ofício, uma ideia, um sonho, não importa o quê. Amar faz bem e só. Sempre! Quando faz “mal”, como acontece a quem ama e não se sente correspondido, já não é amor. O que machuca quando o amor não é recíproco é a frustração, a carência e esses sentimentos decorrentes da indiferença do outro. Não o amor.

Isso também acontece com o amor não declarado, não vivido: o que castiga é a ansiedade, a aflição, a espera do que nunca vem. Não o amor. 

(...)

Ninguém sofre de amor, não. A gente sofre é da falta dele. Amar nos dá sorte. Enche os olhos de sonhos e os dias de esperança. Quem ama não faz jogos. Ama simplesmente. Jogos são para apostadores. Amor é para os amantes.

(...)



QUANTO MAIS AMOR A GENTE TEM, MAIS MEDO A GENTE SENTE



Quem tem amor tem medo. Eu tenho. Todo mundo tem. É assim mesmo, sempre foi. Uns têm mais. Outros, menos. Outros tantos, quase nada. Tem ainda os que morrem de pavor mas vivem negando. De qualquer jeito, toda criatura que sente amor, toda alma que já amou alguém na vida também já sentiu medo.

(...)

É medo de ver o amor acabar como acabam a água, o leite, a comida da despensa. Medo de não ter para onde ir buscar mais. Medo da sombra que paira no olhar da pessoa amada depois do riso, medo de não ser aceito, medo das conversas pontuadas de silêncios tensos.

Também tem o medo da insegurança que vira e mexe nos acomete e, por ironia suprema, nos afasta de quem amamos pelo simples pavor de perder.

Há quem sinta medo de deixar o medo travar-lhe as pernas e endurecer-lhe o coração. Medo de se permitir paralisar. E tem aqueles que sentem medo de não perceber o óbvio: aos que amam, o medo é um aviso sublime. É o alerta divino para cuidar do amor. É a consciência de que o ser amado pode partir, de que o amor periga fraquejar ninguém sabe quando. Então é melhor amá-lo agora e amanhã e depois e depois e depois. Só assim o medo esmorece. E se esconde no escuro solitário do porão.

Amor é sentimento irmão do medo. Quem tem um, tem o outro. Pode ser pouco, pode ser muito. Mas há sempre um medo repousando no coração dos amantes. Ou para que serviria a tal coragem de quem ama se não há medo nenhum a enfrentar?

Então, que o amor nos venha cheio de medos inevitáveis. Que venha! É melhor viver com amor e sentir medo que morrer de medo e viver sem amor.

(...)


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O eterno ele-ela


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  • A música lá em cima é Fadinho de António Chainho com Marta Dias
  • A primeira imagem é photoshop puro, uma pintura de antanho transposta para uma estação de metro, da autoria do ucraniano Alexey Kondakov.
  • As restantes ilustrações são aguarelas de Elena Romanova
  • As crónicas completas, estas e outras, de André J. Gomes podem ser vistas na Bula.
  • O bailado está a cargo de The Nederlands Dans Theater, numa coreografia de Jiří Kylián
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um dia muito feliz.

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sexta-feira, março 27, 2015

Das 150 pessoas a bordo, apenas Andreas Lubitz soube que iam morrer





Eu desejo estar só. Não busco companhia.
Quero só o silêncio. Não me agrada murmúrio
nenhum à minha beira.





Jogo a minha vida, troco a minha vida.
De qualquer maneira
ela está perdida...





Tragédia nos Alpes. Passageiros só se aperceberam do desastre no último momento



É apenas nos últimos segundos da gravação retirada da caixa negra que se ouvem gritos dos passageiros que iam a bordo do Airbus A320 da companhia de baixo custo Germanwings. Este facto leva o procurador-geral de Marselha, Brice Robin, a concluir que os tripulantes apenas se aperceberam que o avião ia colidir no último momento.    


"A morte foi imediata, o avião explodiu ao colidir com a montanha" a uma velocidade de 700 km/h, acrescentou esta quinta-feira Brice Robin, em conferência de imprensa com os familiares das vítimas. O avião perdeu progressivamente altitude ao longo de oito minutos, antes de se despenhar - nesse período, e segundo os investigadores, o copiloto não deixou o piloto entrar na cabine. O comandante tinha-se ausentado momentaneamente.

Além dos gritos dos passageiros, a gravação revela ainda que, momentos antes da colisão, a respiração do copiloto, o alemão Andreas Güenter Lubitz, se mantinha calma, o que mostrava que o copiloto estava vivo e consciente - invalidando a tese de um problema de saúde repentino.   


Brice Robin anunciou esta quinta-feira que o copiloto alemão, de 28 anos, destruiu o avião intencionalmente, bloqueando a porta da cabine de pilotagem após o comandante Patrick Sonderheimer ter saído momentaneamente.   

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Apesar de se falar numa anterior depressão penso que ainda será prematuro adiantar explicações para um drama tão impressionante.

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  • O bailado é Falling Angels, coreografia de Jiří Kylián, pelo Bałtycki Teatr Tańca
  • A primeira imagem é parte de L'ange déchu e a segunda é um estudo para a mesma obra de Alexandre Cabanel.
  • Os pequenos excertos fazem parte respectivamente de Admonição aos impertinentes e Relato de Sergio Stepansky de León de Greiff.

quinta-feira, março 26, 2015

Robert Mapplethorpe, a perfeição, a beleza. Jiří Kylián, a Bella Figura. Pablo Neruda, se tu me esqueceres




Procuro a perfeição da forma. Nos retratos. Nos sexos. Nas flores.




Se eu tivesse nascido há cem ou duzentos anos, teria sido sem dúvida escultor mas a fotografia é uma maneira rápida de olhar, de criar uma escultura.




De facto, sou obcecado pela beleza. Quero que tudo seja perfeito.




Eu mergulho completamente nesta flor. 




Eu adoro as minhas fotografias de flores. Prefiro-as mesmo às flores reais.




Lisa Lyon faz-me lembrar os modelos de Miguel Ângelo que esculpiu mulheres musculosas.




O sexo é mágico. Se for bem carnalizado, há mais energia no sexo do que na arte...

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Bella Figura, uma coreografia de Jiri Kylian pelo Nederlands Dans Theater 




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If You Forget Me de Pablo Neruda (lido por Tom O'Bedlam)



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sexta-feira, fevereiro 20, 2015

A indignidade segundo os desgovernados que nos desgovernam. Ou a indignidade a que nos sujeitamos por sermos desgovernados por eles. Ou a canseira que eles me dão.


Abaixo dediquei-me à pornografia. Conto, claro, com a benevolência dos meus Leitores que já sabem que sou dada a actos desesperados quando me quero alienar da triste realidade. O striptease e uns corpinhos bem feitos sempre têm mais graça do que especular sobre a choldra que se abancou nos órgãos de poder cá do burgo.

A verdade é que estou com a maior das dificuldades em dedicar-me à crítica relativamente ao que se passa em Portugal, em especial no que se refere aos pontos de contacto com a realidade grega. Custa-me. Causa-me repulsa. Por aqui tenho andado a ver se lhes fujo. 

Estive a folhear a Ana de Amsterdam da Ana Cássia Rebelo e O crocodilo que voa, entrevistas a Luiz Pacheco. Pensei: há semelhanças entre eles? Ela gostaria de ter conversado com ele. E ele achar-lhe-ia graça, tensa, ela. No outro dia passei ao pé da residência para idosos Haja Deus e lembrei-me da crónica do semáforo. Lá estavam os anões. Depois pus-me a folhear Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou, Norberto Nunes pinta poemas de Fernando Pessoa. Cheirei o livro, tacteei-o. O prazer que deve ter dado a fazê-lo. Depois estive a ver vídeos de bailado. Pensei: vou fazer um post com excertos daqui e dali que é bom é respirar ar puro, dançar à luz limpa, saber os pensamentos de quem sabe pensar.


Mas, enquanto me debatia para me alhear, a amarga realidade não parava de me puxar.

Gaita. Vou ter que ceder.

Os gregos podem ter ludibriado as contas (com a ajuda da Goldman Sachs e a conivência alemã, não nos esqueçamos), podem ter autorizado reformas antecipadas a profissões que de risco não tinham nada, podem ter fechado os olhos a uma brutal evasão fiscal. Mas por que raio de carga de água nos achamos moralmente superiores a eles? 

Não é verdade que temos na presidência da Assembleia da República uma senhora que se reformou bem cedo apesar de não ter exercido nenhuma profissão de risco? Não é verdade que temos na presidência da República um senhor que optou por receber a reforma por ser mais alta que o ordenado de presidente e que ganhou uns trocos valentes com umas acções duvidosas de um banco que foi para o buraco por fraudes e má gestão e que era gerido por um amigo seu? 

Não é verdade que num espaço de poucos anos e sob a vigilância cega dos reguladores foram para o buraco não apenas esse mas mais uns quantos bancos, lesando o património de muita gente honesta?

Não é verdade que muitos supostos honoráveis cidadãos eram especialistas em evasão fiscal? Não é portuguesa uma família que estourou com as fortunas de muitas outras, enviando para o desemprego muita e muita gente? 

Não é português um brilhante gestor que arruinou uma grande empresa portuguesa e agora ainda vem reivindicar milhões de prémios que não recebeu na altura para pagar menos impostos?

(Etc)

E não é em Portugal que são precisos meses para convocar eleições? Dias e dias para formar governo? Tempos e tempos primeiro que comecem a mexer-se, levando os primeiros meses a culpar o governo anterior e outros tantos a destruir o que o anterior tinha feito?

(Etc)

Então por que raio de carga de água é que essa cambada de papalvos para aí anda a menear as ancas armados em baronesas na mula russa? Que nós não somos a Grécia? Que nós é que estamos bem? Afundados em desemprego e pobreza e nós é que estamos bem? 

Não há pachorra!

Ao longo destes anos tenho-me debatido com a dúvida: a gente deste governo é mal intencionada ou simplesmente ignorante? A minha análise pende para esta última hipótese. Não lhes tenho visto miolos para terem uma ideologia. Salvo uma ou outra honrosa e rara excepção, só burrice. Incultos, pouco dados ao conhecimento, medíocres, fraquinhos, fraquinhos, fraquinhos. 

Juntaram-se uns quantos jotas e arraçados, pouco escolados, nada dados à aritmética, marrões de meia tigela que ficaram com umas quantas patacoadas coladas com cuspo, incapazes de perceber o que ouviram, incapazes de adaptar essas cábulas mal marradas à realidade - e resolveram armar-se em governantes. Contam com um feitor que lhes apara todos os golpes, todas as burrices, e contam com uns quantos papagaios avençados que se empoleiraram nas televisões e jornais e que, faça a cambada a a porcaria que fizer, a louvam.

E, portanto, com gente desta estirpe foi o que se viu. Na altura em que os banqueiros estrangeiros que cá tinham dinheiro se assustaram com o ataque dos fundos abutres e resolveram engendrar uma estrangeirinha para virem cá sacar à força o seu, contaram com os bajardolas do costume, aqueles que sempre se deitam de perna aberta, os engraxadores e bajuladores de serviço, os que gostam de andar à trela, de apanhar com a chibata e que ainda choram por mais. 

O que espanta é como esta cambada conseguiu convencer tanta gente. Os pobres coitados que tinham comprado um plasma, os pobres coitados que andavam a pagar a prestações umas férias a Quarteira e arredores, os pobres coitados que iam ao centro comercial comprar roupa nos saldos, toda essa gente se deixou convencer que era sua a culpa de tudo isto. Um que com a voz bem colocada convenceu os incautos de que sabia do que falava, disse que tínhamos que empobrecer, depois xingou-nos, que éramos uns piegas, outro disse que os jovens emigrassem, outro disse que éramos um protectorado, e à vez baralharam e deram de novo toda a espécie de engodos, de enganos, de trapalhices. Pode a realidade desmentir todos os seus embustes, pode a dívida estar muito mais alta do que então, o desemprego maior e mais duradouro, a economia débil, o investimento paralisado, a demografia em regressão, que ainda há por aí quem ache que todo este bouquet de indignidades foi um sucesso. Custa a perceber mas é verdade.

Aparecem agora os gregos a levantar-se e a dizer que isto não resultou, que a austeridade cega não é cura, é praga, que a dívida não faz senão aumentar, que estão pobres e sem esperança no futuro e que já chega, não aceitam mais ser humilhados. Podem os que apadrinharam estas políticas vir publicamente dizer que se enganaram, que não tinham o direito de humilhar os povos com medidas que afinal estavam erradas, podem os ideólogos das teorias vir confessar o erro - que nada faz estes ignorantes perceber que andaram a fazer porcaria  a troco de nada. Em vez de solidarizarem com os que, tendo recebido um voto maioritário do povo, tentam ajudar a reerguer o país da humilhação a que tem estado sujeito, o que fazem estes papalvos, estes marrões pategos, estes capachos dos schäubles desta vida? Viram as costas aos gregos e juntam-se aos burocratas que, sem voto, têm usado os povos como cobaias, pedem mais sacrifício, atiram-lhes pedras, ignoram os seus anseios, insultam-nos.

Tenho vergonha que o meu País esteja entregue a este tipo de gente.

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Bolas para isto.

Mais valia que estes desgovernados, em vez de nos andarem a phornicar, se entretivessem era a phornicar-se uns aos outros, ó cambada!

(E reparem como sou phina no uso da língua portuguesa).



Uma vez mais aqui no Um Jeito Manso:
Jiri Kylian  coreografou "Birth-Day" para o Netherlands Dans Theater


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A corajosa e colorida rã que cavalga o bicho mau foi fotografada por Hendy Mp.

As baleias estranhas que andam perdidas no meio dos bosques são da autoria de Alicia J. Kutchaw

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Relembro: striptease no masculino para deleite dos assistentes é já a seguir. Pornografia pouca quando comparada com obscenidades que ouvia na televisão enquanto escrevia.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira.

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