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terça-feira, novembro 07, 2023

Dia complicado em que se salvaram as favas com entrecosto

 



Dia complexo, complexo. Um dia destes logo vejo se me dá para contar... Mas não foi totalmente mau. Pelo menos, até ver, está a acabar sem crises. 

Para agravar está a doer-me a garganta. Vou ter que ir chupar uma pastilha.

Está mais frio. O meu marido diz que isto da garganta é de eu andar de manga curta quando está tempo para casacão.

Há bocado adormeci. Tive que me levantar muito cedo e, antes, já tinha sido acordada. O meu corpo de pensionista desabituada de horários e despertares antecipados já se ressente.

Pelo meio, conversa boa com uma amiga de longa data. Muito diferente de mim mas muito articuladas.

E, apesar de tudo, ainda houve tempo para um bocado de boa leitura ao som de boa música.

E também ida ao supermercado e, cá em casa, embora um bocado fora de horas, culinária.

Para além da sopa de legumes fiz uma coisa de que gostamos bastante, que faço pouco (porque me esqueço) e que ficou bem boa.

Vou contar como fiz as Favas com Entrecosto

Num tacho coloquei um pouco de azeite, uma cebola gigante cortada aos bocados, um alho francês inteiro, cortado aos bocados, claro, salsa, louro. Tudo a frigir, sem queimar nem pouco mais ou menos. Depois coloquei tiras de entrecosto com carninha boa (ou seja, sem ser só pele e osso). Coloquei um pouco de sal, uns bocadinhos de bacon, poucos, só para dar um saborzinho engraçado. Envolvi para selar mais ou menos a carne. Juntei meia cerveja. Com o tacho bem tapado, ficou a cozinhar.

Quando se via a carne a querer despegar dos ossos, juntei uma cenoura grande aos bocadinhos, meia curgete (com casca) aos bocados e uma embalagem de favas (cuja embalagem estava há umas duas ou três horas fora do congelador). Deixei cozinhar até estar tudo macio.

Facílimo. Creio que saudável. Económico. 

Acompanhámos com salada de alface com coentros.

Quanto ao resto, digam-me vocês o que aconteceu pelo país e pelo mundo (como diz o outro). Digam-me, é como quem diz. É que a verdade é que desconheço mas não sinto falta. Portanto, se não aconteceu nada de bom, não preciso que me digam. Um dia destes vou pesar os prós e os contras de hibernar.

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Um dia bom

Saúde. Serenidade. Paz.

domingo, outubro 09, 2022

Este meu sábado de outono

 


De manhã fomos à segunda aula de comportamento canino. Tranquilo, cordato (refiro-me à fera; mas o professor também é assim). O urso felpudo já interiorizou que o professor não vai atacar-nos e, portanto, já o cooptou. O prof. goza connosco, diz que o seu aluno vai ficar a gostar mais dele do que de nós. Eu já não digo nada. De tpc, mais técnicas, mais tácticas e estratégias para praticarmos, por nós, nos próximos quinze dias.

Depois da aula, passeámos no parque, visitámos outro jardim -- um lindo jardim de um palácio --, e regressámos. No caminho, pensámos que, em vez de comermos a comida que lá tínhamos em casa, melhor faríamos se fossemos buscar uma daquelas maravilhosas pizzas de forno de lenha. Bem o dissemos, melhor o fizemos.

De tarde, deitei-me no sofá do terraço e estou convencida que adormeci instantaneamente. Agora há moscas por todo o lado, incomodativas como melgas. Pois o sono foi tão profundo que nem dei por elas. Um calorzinho bom, absurdo para esta época do ano. De chuva nem sinais. Em pleno outubro, vestida à verão, dormi uma bela sesta ao ar livre.

Quando acordei, retomei  'O acontecimento'. 

Lá está: se calhar isto é literatura. Não há palavras caras, não há jogos de palavras ou de estilo, não há enredos do caraças. Nada. tudo simples. Há apenas uma escrita pessoal, sincera, tão pessoal e tão sincera que chega a ser íntima e que, de forma discreta, como se nada fosse, nos vai mantendo presos. 

Aos meus pés, dormia o meu amigo cabeludo. De vez em quando, levantava-se e ia pegar-se com o do lado que também se pica com este. Estão separados por um muro mas, totós como fingem ser, portam-se como se um pudesse invadir o território do outro.

Passado um bocado chegou o meu marido que provavelmente tinha estado a dormir na sala, quiçá enquanto via algum jogo de futebol.

Fomos, então, para a parte da frente do jardim para os trabalhos que tínhamos em carteira. A casa tem ali, naquela zona, pouca luz. Quando chegamos à noite, se não tivermos deixado a luz acesa, não é fácil. Muitas vezes tenho que ligar a lanterna do telemóvel. O meu marido recusa-se a fazer buracos nas paredes da casa para pendurar novos candeeiros ou a fazer puxadas de electricidade ou seja o que for que lhe dê mais trabalho. Ele diz que não é isso, até se ofende com a minha insinuação, que não quer é desfear a casa. Se calhar, é mesmo e, verdade, verdadinha, não lhe tiro a razão. Por isso, não quer instalar daqueles projectores com sensores de movimento nem quer substituir os candeeiros que lá estão a menos que tenham furação compatível, o que ainda não encontrámos. Mas tudo bem: se não tens cão, caça com gato ou se, te dão limões, faz limonada. Ou coisa do género. Pensámos, pois, que, nesse caso, partiríamos para o capítulo seguinte: luz solar. 

E, então, andámos a ver onde pendurar os projectores e as demais iluminações que comprámos no outro dia em sítios que apanhem sol e em que os pudéssemos prender com arame (na vedação, na armação metálica em volta de uma janela por onde cresce uma trepadeira, no tubo que está na esquina da casa e que desce do algeroz, etc). Não foi fácil. Nem sempre concordamos com a abordagem, com o processo ou com a perfeição da obra. Além do mais, nestas coisas o meu marido prende-se a minudências que não lembram ao careca (no pun intended) como não querer que eu corte o arame verde pois acha que não puxo com o cuidado devido, posso enleá-lo, ou refila porque, segundo ele, corto bocados demasiado grandes e não apenas no tamanho necessário. Depois eu quero mais acima mas, para lá chegar, só com a escada grande e pesada que está na garagem e ele não quer, diz que não é preciso ser tão acima, e eu acho que tem que ser. Visto de fora não sei se não parecemos os marretas. 

Estivemos ainda a pôr uns arames a partir de uma rede para ver se a glicínia se orienta por ali, criando um túnel florido no corredor lateral, e estivemos a puxar umas guias gigantes que já vão pelos ares no jardim da vizinha para ver se seguem estas novas orientações.

A seguir, já ao fim da tarde, fomos fazer uma caminhada alargada. Gosto de caminhadas longas, sem pressa, gosto de ver as casas ao fim do dia, as luzes já acesas, gosto de ver os jardins já com ar de outono, alguns muros cobertos por vinha virgem, linda, rubra. Há plantas que exalam um perfume agradável, doce, bem aventurado. Não sei quais são mas creio que ainda haverei de descobrir.

Regressámos já de noite. 

E, milagre, as luzinhas já estavam acesas! Não estávamos à espera pois mal apanharam sol. Fiquei surpreendida e contente. O jardim iluminado, os sensores de movimento em acção, tudo funcional e bonito. O meu marido também gostou, notei isso. Por mim punha mais umas luzinhas mas ele é conservador, diz que não é natal para enfeitar o jardim com luzes. Seja. (Também já não falta muito para o natal).

Aliás, ontem, quando estava no shopping, ao passar pelo Gato Preto nem queria acreditar: árvores de natal, pais natal, presépios. Pensei: já estamos no natal. Entrei para me certificar de que não estava a ter visões (e, confesso, para ver se havia algum presepiozinho pequenino, fora da caixa, daqueles que não têm nada a ver, de que gosto). Saí sem figurinhas mas com a sensação de que o tempo anda acelerado e que a vida mal consegue acompanhá-lo.

Tirando isso, o que sei é que já é domingo. 


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E agora vou partilhar um vídeo que acho o máximo, uma daquelas coisas que me enche as medidas. Vejam bem e, se vos apetecer, aproveitem também para dançar. É do caraças. E tem um final feliz.

Haute saison com Gordon Tracks & Giorgio Poi, dirigido por Natalie Portman e produzido por Rob & Jack Lahana


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Desejo-vos um feliz dia de domingo
Saúde. Sorte. Afecto. Boa sorte. Paz.

segunda-feira, novembro 22, 2021

Saudosista eu...? Ná...

 





Não tenho propriamente saudades. Tenho recordações. Saudades no sentido de querer voltar a viver, isso não tenho. Nem há nada que gostasse de voltar a viver para fazer o que na altura não fiz ou para repetir o momento. 

Se, agora que escrevo, tentar pensar em momentos bons que gostasse de reviver apenas me ocorrem instantes. Mas não seria bem reviver o que eu gostaria, seria mais estar de novo dentro daquele momento, agora que sei que aquele momento ficou retido no passado.

Por exemplo, eu teria uns catorze anos e houve uma gincana num fim de semana. Éramos pares e a prova incluía percurso de carro, depois eu saía e tinha que fazer tiro ao alvo, depois no carro aos esses, depois andar com um ovo numa colher, depois no carro a fazer peões. E o meu par, no carro, era um jovem bem mais velho que eu (na altura eu achava que ele era bem mais velho mas se calhar tinha uns vinte ou vinte e poucos) e eu achava-o um ás do volante e aquilo era muito renhido e nós estávamos empenhados em vencer e estava a correr-nos bem, eu entrava e saía do carro quase em andamento e era muito emocionante, ouvia gritar por nós e, no fim, ganhámos. E lembro-me de ter os cabelos compridos, soltos, e lembro-me que tinhas uns calções curtinhos e uma blusinha em azul turquesa com o desenho de malmequeres. E estava sol e eu lembro-me que, naquele instante, estava tão feliz e que pensei que ia sempre lembrar-me daquele momento.

Também me lembro do dia em que já era de noite, no inverno, os dias eram curtos, e estava um nevoeiro cerrado. Teria uns quinze ou dezasseis anos, estava sozinha, devia ter vindo daquela casa onde supostamente ir ter explicações mas em que, na realidade, ia pela tertúlia, pelo ambiente de liberdade e alguma clandestinidade que ali se vivia, e ia para a paragem de autocarro, apenas se viam vultos, eu estava um pouco assustada. E, então, um vulto cruzou-se comigo e disse o meu nome mas no diminutivo. E eu olhei e já não vi ninguém. E fiquei arrepiada, trémula, no frio e nevoeiro. E não me importava de voltar a estar ali para tentar perceber quem era aquele homem. Só por isso. E também pelo ambiente cinéfilo, um suspense materializado.

Lembro-me daqueles dias em Angola, tanto calor, tanta humidade, os meus cabelos fartos e compridos ao fim do dia sempre ainda mais pesados e húmidos. Ansiava pelo banho para poder limpar aquela humidade que se colava à pele e aos cabelos. Usava blusinhas cai-cai, quanto muito com uma fita que se atava atrás do pescoço. E ele -- que tinha um perfume que, na sua pele, se tornava afrodisíaco em contacto com aquele calor africano -- a olhar-me fixamente e a dizer que os meus ombros o deixavam maluco. E eu ria e dizia que ele tivesse juízo mas, lembro-me bem, o que eu queria mesmo é que ele não tivesse juízo nenhum. Ele tinha namorada em Portugal e eu também.  Talvez fosse bom voltar a esses dias. Mas seria só para observar melhor aqueles momentos em que, de verdade, senti o que era ser mulher e como era bom estar com um homem. Não quereria voltar a revivê-los nem daria largas à vontade forte que sentia de deixar correr sem qualquer preocupação pois sei que se isso tivesse acontecido talvez a minha vida tivesse seguido outro rumo e eu gosto muito do rumo que ela seguiu. Mas não me importava nada de nos ver naqueles longos e maravilhosos dias.

E lembro-me da manhã de um dia 10 de Dezembro, dia também húmido, Lisboa branca, envolta em neblina. O primeiro dia do resto da minha vida. Não queria reviver mas fotografá-lo, fotografar-nos, aos dois, envoltos num tule branco e molhado, naquele dia em que não conseguíamos parar a torrente de beijos nem separar-nos. Gostava de saber como nos viam aqueles que se cruzavam connosco porque nós não víamos nada, apenas tínhamos olhos e mãos e bocas um para o outro.

E, claro, lembro-me de mil instantes de mil ternuras, eu e os meus filhos, bebés, depois mais crescidos, depois adolescentes, depois adultos, depois a viverem as suas vidas, a terem os seus filhos, mil momentos de amor. Mas revivê-los não, apenas revê-los. Sonho é com os momentos que estão por vir.

Não sinto, pois, vontade de regressar ao passado para o reviver. Não. Só o futuro me interessa. Tenho é muita vontade de ser surpreendida pelos momentos que o acaso e a sorte têm para me oferecer. Que nunca me faltem os bons momentos para relembrar. Gostava de ter pela frente mais muitos mil instantes luminosos cintilando na minha memória.


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E que entrem as Avós da Razão para dizerem de sua justiça sobre o Saudosismo


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Fotografias feitas este domingo aqui em casa ao som de Autumn Leaves com o Chet Baker

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Desejo-vos uma semana feliz a começar já por esta segunda-feira

sábado, outubro 19, 2019

Não fui capaz de comer o amor-perfeito




À minha frente estava um inglês. Por detrás dele estava a melhor vista de Lisboa quando avistada de dentro de Lisboa. Lisboa e rio e o lado de lá. Um daqueles cenários tão maravilhosos que uma pessoa poderia ficar um dia inteiro a olhá-lo. Talvez a ouvir música, música muito a meu gosto. Ou alguém a tocar piano num canto, sem que eu visse onde. 

À entrada, reparei numas jarras grandes, de vidro, quadrangulares, com pedras brancas no fundo, e água e flores amarelas muito bonitas. Flores tão lindas. Pensei: não podem ser verdadeiras. Não há flores amarelas tão exóticas, tão grandes, tão exuberantes. Então, discretamente, enquanto os outros falavam da vista e diziam olha ali o castelo, olha ali a basílica, olha ali o passeio junto ao rio, eu passei a mão nas pétalas. E eram verdadeiras. Tive vontade de tirar uma flor, de ficar com ela, trazer para casa, pousar na mesa. Mas o momento não era para frescuras. Disfarcei, escondi a alegria de ter descoberto que a natureza é capaz de coisas tão raras e que a beleza é infinita e inesperada.

Como não podia deixar de ser, falámos do Brexit. Ele ainda não quer acreditar que isso vai acontecer. Contou uma coisa que se passou num lugar, uma experiência social, em que as pessoas votaram numa coisa contrária aos seus interesses e, na verdade, sem saberem em que é que estavam a votar e tudo porque alguém os manipulou, acicatando as pessoas contra uma coisa de que não gostavam e embrulhando a outra coisa nessa tal que foi usada como engodo. Eu disse que por vezes tudo parece uma anedota: as decisões estúpidas que as pessoas tomam, a gente estúpida que as pessoas elegem, o rumo estúpido que as coisas levam. E ele disse que até tem vergonha. E eu compreendi e não disse mais nada pois não quis envergonhar um inglês com um accent tão british, todo ele tão gentleman.

Do que comi nem vou aqui falar pois foi bom de mais. Mas posso dizer que, para sobremesa, a tarte não era só boa, era também linda. Tinha em cima não apenas umas bagas pequeninas, lindas como enfeite de natal, como um amor-perfeito pequenino. E o amor-perfeito era amarelo fulgurante e roxo de veludo. E era tão lindo que não consegui comer. Cometo heresias a toda a hora mas comer uma flor tão linda é heresia para lá de violenta, do lado de lá da linha vermelha que não ouso transpor. Disseram, coma, é bom. Mas nem pensar. Disse que não com a cabeça e olhei para a cidade grande, vasta, estendendo-se ao longo do rio. No pratinho ficou um risquinho sólido de chocolate, e ficou porque estava pregado ao prato, e a florzinha que se salvou por ser tão linda.

Depois das despedidas fui para o parque subterrâneo. E aqui acaba a poesia e começa a comédia. Mas como tudo tem vários lados, para mim foi comédia mas para a outra pessoa envolvida foi um sufoco, um drama.

Mas já lá vou.

Agora antes.

Horas antes, quando entrei, depois de passar a cancela e percebendo que o piso estava cheio, dirigi-me para a descida para o piso inferior. A faixa livre tinha sinal de proibido e na outra faixa vinha uma lady a subir dentro do seu formoso bólide. Pensei: tinha que ser, enganei-me, enfiei-me no lugar onde só se sobe. Então comecei a fazer marcha atrás mas, como todos os parque novos nesta cidade, é tudo feito para carrinhos pequenos ou para ilusionistas capazes de encolher os carros. Então, pensei: estou frita. E como estava apenas a pensar não foi frita que pensei. Mas pensei: tenho que conseguir. E lá comecei a tentar fazer uma manobra impossível até porque já tinha outro carro atrás. Nisto ouvi alguém a bater no vidro. Era um senhor com ar aflito. Abri a janela. E ele: onde é que vai? não consegue fazer marcha atrás. E eu: mas como é que vou para o -2? Aqui é proibido. E ele: Mas a senhora vai bem, aquela que vem a subir é que vem na faixa errada, enfiou-se em sentido proibido. Então foi quase a correr ter com ela. E ela muito admirada, como se estivesse tudo maluco, lá fez uma manobra também arriscada, saltando para a faixa do lado e eu lá consegui descer pela faixa já desobstruída.

Pois bem. Agora, então, à tarde.

Quando vinha a conduzir no parque para sair, apareceu à minha frente, vindo do -3, um mercedes antigo. Só que, em vez de virar logo, avançou até a um ponto em que ficou sem espaço para curvar, entalado entre dois pilares. Fazia marcha atrás e roçava atrás, chegava à frente e batia à frente. Não tinha espaço e notoriamente estava enervado. Saí do carro para perceber se havia margem. Não. Só batendo ainda mais. Ao princípio tinha pensado: Que aflição. Podia ser eu. Deve ser uma mulher. Mas não, era um homem. Ao seu lado, um rapaz. O rapaz também saíu. O homem pediu para ele tentar. O rapaz não queria. Disse: o carro é teu, não quero dar ainda mais cabo dele. Atrás do meu carro, parou outro carro e saíu de lá uma mulher. Perguntou-me: Mas o que é que se passa? Eu disse: Encravou o carro. Agora está ali entalado. Ela deu uma gargalhada: É uma mulher, certo? E eu: Pois, também pensei. Mas não, é um homem. E ela riu ainda mais: Mas não sabe conduzir, não? Como é que ele fez aquela merda? E foi, resoluta, ver se dava algum palpite. Mas voltou para trás e disse: Não tem solução, o carro é grande demais, só se lhe perder o amor. Entretanto, o rapaz passou para o lado do condutor. O condutor estava num estado de nervos de dar dó. Ajudou o rapaz. Mandou-o recuar contra um pilar. O som da lata a bater. O rapaz ganhou uns centímetros para curvar. Depois mandou-o curvar na direcção do outro e ouviu-se o carro a raspar violentamente no pilar. Ao fim de um bocado, lá conseguiu. Trocaram de lugares e seguiram e eu segui atrás deles e a outra mulher atrás de mim. Com isto atrasei-me. Mas não me importei. Soube-me bem estar ali sem fazer nada, aqueles minutos num parque subterrâneo, apenas à espera. Ao princípio pensei que provavelmente só com um guindaste para o içar e que isso poderia durar horas. E não me importei.


Também posso recuar outra vez a umas horas antes, a quando estacionei e, como era cedo, resolvi ir andar a pé. De dia, num dia útil, não costumo andar por ali a pé. E fiquei muito admirada. Street style. Fashion da boa. Tanta gente tão moderna, tão bem vestida, tão inusual. Parecia que estava na proximidade da Vogue, da Vanity Fair, nos boulevards elegantes de Paris. Há tantos mundos dentro do nosso mundo e o que conhecemos é nada. Quando cheguei ao meu destino, cruzei-me com uma cena de filme e era tudo filme, o cenário, grandes espelhos, grandes candeeeiros, um luxo, até as pessoas eram de filme. Pensei que a pessoa que não pertencia ali era aquela mulher que eu via no espelho e que me levava a mim escondida dentro dela, uma que gosta de andar pelo meio do mato, a pisar caruma, a andar por entre os pinheiros perfumados a apanhar pinhas para a lareira, a fotografar as folhas douradas com que o outono embeleza os meus dias in heaven.


Ou seja: não consigo resumir o meu dia e, de boa acção, acho que a única digna de registo foi não ter canibalizado o inocente amor-perfeito.

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Obtive a fotografia de Lisboa em 20 locais de interesse numa visita a Lisboa

As duas últimas foram feitas in heaven.

Espero que tenham vindo pela mão de Monteverdi. Pur ti miro, Pur ti godo

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A todos desejo um sábado à maneira

sexta-feira, novembro 30, 2018

Nesta altura do ano





Li, não sei onde, calculo que num dos blogs da galeria lateral, provavelmente enquanto estava no carro, presa no trânsito, alguém a queixar-se das folhas no chão num certo sítio da cidade. Mostrava fotografias de ruas pejadas de folhas e falava no perigo que é, que alguém poderia escorregar. E que a autarquia deveria varrer as ruas. Quis dar-lhe razão mas depois vacilei. A razão queria dizer que claro que as ruas deviam ser limpas de todo aquele folhedo mas... não me autorizei a tal pois a emoção puxava-me para o oposto.

Lembrei-me de uma queda brutal que dei há uma meia dúzia de anos. Tinha chovido e eu ia, com pressa, com coisas nas mãos. Virei para subir umas escadas e, nessa curva que dei, pisei uma folha molhada, presumo que já meia amolecida. Foi uma ínfima fracção de segundo. Levantei voo e aterrei violentamente de cabeça nos degraus de pedra da escada. Como tinha as mãos ocupadas, nem sequer tive o instinto de me agarrar ao corrimão. A cabeça sofreu um estrondo e eu pensei que a tinha partido. A custo levantei-me e, sabe-se lá como, consegui chegar a casa. Deitei-me na cama. Estava tonta e com uma dor tremenda na cabeça. Tinha sangue na cara mas era apenas superficial. Quando tentei levantar-me, mal consegui. Tinha tal dor nas costas e na zona pélvica que mal me mexia.

O meu marido teve que me levar às urgências no hospital. Já não me lembro bem mas acho que tinha uma micro fissura na zona da bacia e já não me lembro o quê na zona pélvica. Tive que ficar um ou dois dias em casa (ou mais? -- não me lembro, só me lembro que andei mais de um mês cheia de dores e, por vezes, ainda tenho um incómodo ali)

A forma desamparada como caí, sem tempo de reacção, batendo com a cabeça de uma maneira que a poderia ter estourado, fez-me passar a ter medo das quedas. E tudo porque pisei uma folha molhada.


Mas, por outro lado, que linda que é uma rua, uma praça, os jardins cobertos de folhas de outono, douradas, tão cheias de luz coalhada. Vejo e penso: ainda bem que ninguém as tira porque um chão coberto de folhas douradas é do mais lindo e romântico que pode haver. 
Interrogo-me: será que ver um chão coberto de amarelo e, em vez de se ficar encantado, ficar a pensar que o que ali está é um perigo, é sinal de que a idade começa a pesar? Forço-me a pensar que não, que não tem nada a ver, que é apenas um sinal de prudência. Mas não sei.
No outro dia, uma jovem colaboradora minha, falando de um colega mais velho, mais ou menos da minha idade, (mas, a sério!, parecendo bem mais velho que eu), relatava-me com a maior das espontaneidades uma conversa que tinha tido com ele: 'Já lhe disse no outro dia: ó pá, o que é ainda cá andas a fazer? E disse-lhe que eu, se fosse a ele, ia gozar a vida em vez de ainda andar aí a ter que se levantar cedo, a andar no trânsito, a aturar chatices'. Tive que lembrá-la que isso não é bem assim, que as pessoas não podem reformar-se antes da idade, quando querem. Ela olhava-me um bocado céptica, creio que sem se dar conta que poderia estar a falar de mim. Reparei como para ela, a partir de certa idade, já não faz sentido trabalhar, como se, atingido esse patamar, as pessoas já devessem ser poupadas, talvez porque mais frágeis, mais perto do fim. Não me dei por achada, até para não a atrapalhar, mas fiquei a pensar que, na realidade, chega-se a um ponto da vida em que se percebe que o tempo que falta é menos do que o que já se viveu e que, na realidade, é bom que a gente o aproveite bem.


Quando morreu a minha avó, o meu tio, filho dela, vendo-me triste, disse-me: 'No outono, cai a folha'. E eu, que associava o outono a uma estação suave, de cores douradas e rubras, um tempo de doçura e aconchego, fiquei a pensar que, na verdade, também pode ser visto como o fim do caminho, o tempo em que o fio de luz que ilumina a vida se extingue.

Mas, enfim, não vale a pena estar para aqui com estas conversas. Para cada coisa há sempre várias perspectivas para a ver e todas estarão certas. E não há fim, só há interrupção. E sempre um recomeço. Mesmo que numa outra forma, mesmo que invisível, mesmo que ninguém o perceba.


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That time of year thou mayst in me behold
When yellow leaves, or none, or few, do hang
Upon those boughs which shake against the cold,
Bare ruin'd choirs, where late the sweet birds sang.
In me thou see'st the twilight of such day
As after sunset fadeth in the west,
Which by and by black night doth take away,
Death's second self, that seals up all in rest.
In me thou see'st the glowing of such fire
That on the ashes of his youth doth lie,
As the death-bed whereon it must expire,
Consum'd with that which it was nourish'd by.
This thou perceiv'st, which makes thy love more strong,
To love that well which thou must leave ere long.




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domingo, novembro 18, 2018

Um OVNI?
Uma casinha de gnomos? A casa da música da fadinha? Um cogumelo inventado?

-- E outras coisas --


Fui à procura do cogumelo branco redondão da semana passada. Se estão lembrados dele, era gordo, bojudo, cabeçudo. Para meu espanto, já não existia. Não estranhei: os cogumelos desfazem-se, murcham, secam, esvaziam-se, dissolvem-se na terra. Ou isso ou tinha-se transformado. Agora, em vez dele, um ainda maior mas elegante, pé alto. E uma campânula que parece um disco, talvez uma nave espacial. Por baixo, é filamentado e, à volta, como que rendilhado. Branquíssimo. Muito grande. Como uma casa de gnomos, como uma aparição. 

Talvez seja por aqui que anda a fadinha do bosque. Quando o crepúsculo desce sobre o campo, as fadinhas saem dos buraquinhos das rochas e afoitam-se pelos caminhos. Vão com as suas asinhas luminosas, dando saltinhos, brincando ao luar. Depois, quando encontram uma casinha branca, percebem que ali podem ficar à vontade. Talvez, a esta hora esteja encostada ao caule, acolhida da noite e da grande chuva que cai copiosamente, talvez tocando uma harpa invisível. E, na copa da grande azinheira, ocultos pela folhagem escura e molhada, os pássaros escutarão em silêncio a melodia mágica que a fadinha fará sair das cordas da sua misteriosa harpa. Um som maravilhoso, secreto, rente à imaginação.




Mas, voltando à tarde: depois da descoberta do ovni branco, fui pelos campos, passeando. Por todo o lado, há folhas acobreadas por entre a caruma que também está rubra ou sobre folhinhas secas, pauzinhos, ervinhas cujo verde ainda resiste. Pensei: deus existe e vive aqui. Brinca com as folhas, brinca com as cores, brinca com tudo. Gosta da harmonia das composições. E gosta de me surpreender com a beleza das coisas. 

Pensei:
Há sempre um deus fantástico nas casas
Em que eu vivo, e em volta dos meus passos
Eu sinto os grandes anjos cujas asas
Contêm todo o vento dos espaços

Depois começou a chuviscar e fui abrigar-me sob o perfumado e belíssimo eucalipto, o maior deles. O som do vento na ramagem faz-me lembrar o mar (já o disse, eu sei). E vem aquele perfume fresco que sempre me fará lembrar um espaço de sombra e sonho pelo qual passava todos os dias, quando era pequena, e a minha mãe me ia deixar a casa da minha avó. Havia eucaliptos e havia um regato pequeno, de água fresquinha. Bebíamos água na concha das nossas mãos. E eu apanhava os chapelinhos dos eucaliptos.


Há sempre um deus por aqui, há sim, escondido nas árvores, nas grutas, nos caminhos. Espalha perfumes, espalha felicidades. 

E depois as surpresas. Estava a andar e pensava que as folhas do plátano tinham voado para bem longe dele, estavam por todo o lado. Sou míope e habituei-me a isso, a ter uma ideia, uma impressão -- mais do que a ver.  Mas como ando numa de micro-observação, baixo-me, ausculto, inspecciono. E vi. Não. Não eram folhas. Eram cogumelos. Por todo o lado. Por todo o lado. Acreditem: por todo o lado. Como se a terra fervilhasse de vida, como se dela rebentassem mil corpos, mil cores.


Uns pequenos e em grupo, outros isolados, outros grandes, reluzentes na sua textura lisa e carnuda. Uns estão intactos, outros parece que algum animal já andou a banquetear-se, tantas as dentadas. Não vejo por lá animais envenenados pelo que acho que posso concluir que não são venenosos. Mas não lhes toco. São sagrados, fruto da terra, mágicos, nascidos do nada.


Não sei o que significa isto, de haver tantos, tantos cogumelos. É que são em número surpreendente. Tantos. Já o disse antes e repito (mas sou ignorante, é um mero palpite): para mim é sinal de fertilidade da terra pois toda ela me cheira a fecundidade, a vida em estado puro, a beleza intacta.

O vento dos espaços. Ouço o vento. Em volta dos meus passos. Os deuses com as suas grandes asas. Sophia disse-o e eu sinto-o como se fosse eu a sentir.


As cores do Outono in heaven, o som da chuva e do vento, os cheiros da terra e das árvores. O tempo a esculpir e a pintar a natureza. A beleza das coisas, a simplicidade das palavras que falam do que é puro e bom. O silêncio e a música. A harmonia e a paz. O sonho e encantamento.


segunda-feira, novembro 27, 2017

Bordalo II, uma fadista e um Sto. António, uma musa pouco estimada, gaivotas e árvores, casas e barcos.
Lisboa, a bela, num dia de Outono






Caminhar. Descobrir. Rever como se nunca tivesse visto. Espreitar pela lente. O prazer da primeira vez.

Alfama, vielas, becos, escadinhas, arcos, varandas e varandinhas, vasos, piropos, roupa estendida -- e muitas casas reabilitadas.

Grandes armazéns e velhos prédios estão agora a ser restaurados, com bons materiais e bom gosto. Um hotel privado. Janelas de pedra, cortinas, gatos. Recantos que vêm de outros tempos.


Foi, pois, dia de passeio pela cidade. Eu turista, visitante de primeira viagem, sempre encantada, sempre à descoberta. Lisboa, a bela, tão visitada, tão cosmopolita e, no entanto, tão acolhedora, gente de todas as nacionalidades, raças, idades. Uns vestidos de invernia, outros de verão. Casacos, agasalhos. Calções, cavas.

E eu à procura de graffitis, de recantos, de gentes. Espreito as paredes, detenho-me, fotografo.


Na 24 de Julho, um fantástico novo trabalho do Bordalo II. Restos, lixos. O prédio abandonado ganha uma nova vida.

E os largos com árvores tingidas de Outono. Lindas, lindas. Fosse eu capaz de transformar emoções em palavras e haveria agora de estar aqui imaginando romances vividos em casas com vista para o arvoredo. Fosse eu dotada de capacidade de síntese e de musicar ideias e haveria de estar aqui a escrever poemas que soubessem transportar os cheiros da cidade, as cores e os sons e as saudades de todos quantos por aqui, ao longo dos tempos, se sentaram nas esplanadas e escreveram postais aos amados que ficaram noutras paragens.


O novo espaço do Campo das Cebolas quase pronto, uma engenhosa e bela solução que eleva o piso, cria uma nova zona de lazer ampla e luminosa com vista para o casario e para o rio. Um dos espaços mais inesperados da capital, que, certamente, irá trazer ainda mais pessoas para dentro da cidade e para bem próximo do Tejo.


Esta Lisboa que eu amo cada vez mais estimada, mais inteligentemente aproveitada. O novo e o velho, o luminoso e o escuro, o amplo e o esconso. Os azulejos gastos e os novos, os candeeirinhos, as escadinhas.

Há uma arquitectura muito própria que acompanha a orografia da cidade e há uma clarividência extraordinária de quem sabe inventar espaços novos que convivem com os antigos.


E os desenhos, os cartazes, o humor, a graça, o grito, o queixume, a rebeldia, a melancolia. O jeito lisboeta de ser onde a truculência se mescla com a nostalgia, o humor com a poesia, a exuberância da cor com a lágrima sentida.




E, depois, almoço no cantonês, caminhada à beira rio, o frescor do ventinho trazendo a maresia da baixa mar, as gaivotas, as muitas gentes, as muitas línguas.




E, de novo na avenida ribeirinha, o novo terminal de cruzeiros. Ao lado, um paquete enorme por onde entravam os viajantes. As árvores ainda são novas, os acabamentos ainda faltam mas já se percebe ali um outro espaço de modernidade. Não deu para andar por lá a cirandar, apenas o vimos do lado de cá. Um dia destes aproximar-me-ei pois ficámos em dúvida sobre se parte do edifício está ou não sobre a água.


E o Terreiro do Paço e o Cais das Colunas, lugar sempre tão tranquilo apesar da quantidade de gente que por ali anda. O símbolo da abertura portuguesa ao mundo. 


Quando voltámos a casa já a tarde se estava a pôr, já Lisboa anoitecia. Uma suave e serena tarde de Outono.

Era bom que chovesse mas não chove. Se chovesse não teria podido andar a palmilhar o ruedo e as avenidas da cidade, fotografando como se nunca tivesse visto a cidade que diariamente percorro. Mas era tão bom que viesse a chuva.

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Álvaro de Campos e Alberto Caeiro 

Lisboa e o Tejo




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terça-feira, novembro 07, 2017

Em vez do sacrossanto Web Summit,
a harmonia das cores de outono in heaven

Y, sin embargo, es mucho haber amado,
haber sido feliz, haber tocado
el viviente Jardín, siquiera un día.





Por uma vez. Ou melhor, por uma primeira vez (porque não posso garantir que não volte a acontecer), vou aqui fazer uma coisa que é contra os meus princípios.


Explico-me.

Não gosto de mostrar fotografias feitas por mim que não as do próprio dia. Parece-me que só me faz sentido se for o que vi há pouco, como se, divulgando-as mais tarde, já não correspondessem à verdade e, portanto, já estivesse a vender gato por lebre. Manias minhas. Como se, a cada dia, as coisas deixassem de o ser. E, mostrando depois, estivesse a mostrar uma coisa que já o não é. 


É a mesma lógica que me leva a fotografar mil vezes a mesma coisa e achá-la sempre diferente. 

É a luz, são as sombras, a patine do tempo, a transformação das coisas, etc. -- tudo muda. Um muro com o desenho que a sombra das folhas aí imprime, a cor do musgo, as texturas dos troncos das árvores, os castelos ou os monstros feitos de nuvens, o vento das ramagens, a metamorfose desde a flor ao fruto, o reflexo do mundo numa pequena mancha de água -- tudo, a mim, me encanta como se fosse coisa nova, como se estivesse a assistir à inauguração do mundo. 

Mas hoje vou abrir uma excepção e mostrar fotografias velhas, do fim de semana.


E também me explico.

A questão é que passei o fim de semana in heaven. Fiz umas fotografias, claro. Mas fiz também algumas limpezas e tive lá parte da turminha e, já se sabe, com programas assim, o tempo que sobra é pouco ou nenhum.


As crianças adoram lá estar e não param nem dão descanso. Entre comerem, brincarem, correrem lá para fora, correrem lá para dentro, por vezes cada um para seu lado mais, volta e meia sem casaco e já está a escurecer e um gelo que arrepia, e, entretanto, o bebé que come, dorme e, no intervalo, só quer brincar ou andar no laré ao colo, não me foi possível ver as fotografias que tinha feito, passá-las para o computador, arranjar tempo para fazer um post com fotos escolhidas. 

Impossível. 

Portanto, tive que optar: ou era um capítulo do folhetim ou as fotos do outono in heaven. E estava mais in the mood para o folhetim.


Contudo, fiquei com pena. Se um dia me der para ser saudosista e me encher de paciência para ver o correr do tempo aqui, no Um Jeito Manso, parece que poderia haver um hiato se aqui não pusesse algumas destas fotografias. Também mania minha, claro. O mundo acontece mesmo sem o registo dele. Mas parece que ficaria a memória incompleta sem estas fotografias que testemunham as minhas caminhadas ao som dos pássaros, envolta em doçura e perfumes familiares e bons.

Claro que muitas mil vezes mais gostaria de vos mostrar o sol a brilhar no cabelo da minha menina mais linda, a agilidade futebolística de um dos meninos, os meninos a subirem pela escada para irem tirar folhas das telhas, o sorriso encantador do bebé... e etc e tal. Mas como tenho isto de aqui não mostrar os meus amorzinhos, fico-me pela paisagem.

Portanto, explicações dadas e desculpas apresentadas, permitam que aqui coloque fotografias de sábado ou domingo.


Como dará para perceber, ao fim da tarde pôs-se mesmo frio. Tenho andado sempre sem meias, ou melhor, só com aqueles pezinhos de algodão que apenas cobrem a sola do pé, os dedos e o calcanhar, ou seja, que não são visíveis com sapatos calçados (e penso que não fui a única já que o tempo esteve de verão até há pouco e andar sem meias tem sido a regra) mas, naquele momento, arrefeceu de tal forma que tive que calçar umas meias que lá tinha e pôr um poncho de lã sobre a blusinha. E tão habituada estava à roupa fresca de verão que achei tão inédita ou inusitada esta vestimenta outonal que resolvi registar o momento e fazer a selfie acima.


E, uma vez mais, vestígios de chuva e, uma vez mais, umas cores maravilhosas, quase como uma pintura amorosamente feita.

Houve um Jardim ou tal Jardim foi sonho?
(...)
E, no entanto, é muito ter amado,
Haver sido feliz e ter tocado
o vivente Jardim, mesmo um só dia.

in

Adam Cast Forth - Jorge Luis Borges



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PS:

Assumo: o Web Summit a mim não me diz nada. Não digo que não seja coisa boa, cheia de coisas úteis. O que digo é que a mim não me diz nada. O futuro, cá para mim, não passa (so) por aqui. O futuro, cá para mim, há-de ser outra coisa. Mas isto sou eu -- e eu é como se nem fosse de cá.


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Até já.

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