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quarta-feira, junho 10, 2026

Camões

 

A falta de produtividade dos portugueses tem muitas explicações e, se calhar, a mais razoável terá a ver com a genética. Muito tempo gasto em coisas que não interessam, muita conversa gasta a remoer à toa, muita burocracia, muito enrolamento. Provavelmente tem também a vem com aquilo de que fraco rei faz fraca a forte gente: maus gestores que orientam mal quem deveria ser encaminhado para fazer coisas úteis e, em vez disso, está a perder tempo em renhonhós. E a malta aceita. Genética. Brandos costumes. Delicadeza. Por delicadeza deixamo-nos morrer, dizia o outro. Nós também. Não procriamos, envelhecemos, velhos no meio de velhos.  Deixamo-nos ir.

Não nos valorizamos.

Por exemplo, em qualquer outro lugar em que a malta esteja virada para valorizar a língua, as grandes histórias e as grandes figuras da história, já haveria filmes, séries, telenovelas. E mil documentários. E banda desenhada. E desenhos animados. E tudo e mais um par de botas a falar de Camões. Numa altura em que há tanto camelo a perorar contra os imigrantes, esses pobres que vêm de longe para tentar a sua sorte no nosso país, não seria interessante mostrar como foi quando fomos nós, também metidos em barquinhos, atravessámos mares em busca de um mais promissor futuro? Não se poderia usar a nossa literatura para retratar, de forma apelativa, inteligente, tantos personagens marcantes da nossa história, da nossa literatura?

Mas não fazemos nada disso. Modestos. Ou desfocados. Se passo o comando pelos canais, nos programas generalistas, se é ficção, é só porcaria: intrigas, traições, agressões, chantagens, mas tudo uma coisa rasca, personagens sem substância, tudo inventado por gente sem mundo, sem cultura. Uma patetice pegada.

O meu neto que está a acabar o 12º e que tem que ler os 'obrigatórios', passa-se com o que acha uma coisa sem ponta de interesse. Não sei se foi o Antero de Quental que o tirou do sério, já não me lembro, estava irritado, não percebia como é que um 'gajo' daqueles conseguia gastar tanto tempo a escrever coisas que não interessavam para nada, dizia que o 'gajo' devia ser um parasita para, em vez de trabalhar, estar só a escrever coisas a dizer mal, a carpir. Quando o ouço fico meio desconcertada pois quero argumentar mas, ao mesmo tempo, conheço-o bem: o mundo dele é outro. Se eu, quando estudei ou li estes autores já me cansei, imagine-se o que é, nos tempos de hoje, com as mil solicitações de hoje, continuar com um programa em que os alunos nem percebem porque é que estão a perder tempo com aquilo. Não sei qual a alternativa, estou a falar sem ter uma solução para apresentar. Mas estou em crer que se os alunos tivessem pequenos vídeos bem feitos, biográficos, filmados como ficção, ou alguém a ler, com voz bem posicionada, alguns trechos, talvez se sentissem mais cativados. Ou se os pusessem a eles a ler outros poetas ou prosadores, mais actuais, talvez se sentissem atraídos. Não sei. Não sou entendida na matéria.

Ainda me lembro do desespero do meu filho, provavelmente no seu 12º, deitado no sofá da sala, passado, enervado, a atirar Os Maias para o chão, a achar que não ia conseguir ultrapassar o que lhe parecia uma monstruosidade intransponível. Dizia: 'Já li não sei quantas páginas e não passa da decoração da sala, dos cortinados, e sei lá mais o quê! Não consigo!'. E, tanto o desespero, já nem assimilava o que lia. No outro dia o meu cão levou uma injecção e a veterinária dizia: 'Esta dói muito, o líquido é muito espesso'. Era o caso de Os Mais, assim, na base da injecção.

Curiosamente, este meu neto surpreendeu-me ao dizer que, por acaso, a Os Lusíadas até tinha achado piada. Disse assim. Achou piada. E eu achei piada a ele ter achado piada a Os Lusíadas que sempre foi aquele calvário que os estudantes tiveram que percorrer. Não sei se ainda se dividem orações de estrofe em estrofe, um absurdo quebra-cabeças que nem sei como não me fez odiar a língua portuguesa. Mas deve ter um bom professor pois achou piada a Os Lusíadas.

Esse meu neto teve 19 em interpretação de um livro que não leu. Já tinha tido, salvo erro, um 18 num trabalho ou numa apresentação sobre Os Maias, que identicamente não leu. Mas preparou-se. Quem o ouça, jurará que domina aquilo de trás para a frente. Sabe caracterizar os personagens, disserta sobre o enredo, tudo na mouche. E sem ler os livros. No outro dia, telefonou-me a perguntar-me coisas sobre O Ano da Morte de Ricardo Reis. Não me lembro o suficiente para esclarecer um aluno que vai fazer exame nacional de 12º, pelo que lhe perguntei porque não lia o livro. Respondeu que nem pensar, não tinha tempo, tem muita coisa para estudar, tem que se preparar bem a Matemática e também a Português. Acabei a sugerir que 'trabalhasse' em conjunto com o Claude. De resto, a minha filha diz que o ouve a falar, julga ela que com o Gemini, tu cá, tu lá, ele faz-lhe perguntas, inclusivé de Matemática, e 'ele' responde-lhe. E é assim que ele se prepara. Assim e vendo vídeos. 

Bem lhe falo na maravilha que é ler. Diz que não tem tempo. E não tem: é a escola, é o futebol que pratica, é o ginásio, é a namorada, são os amigos, são as festas, é o futebol a que assiste, são as contratações e as equipas de futebol que conhece ao pormenor, são os concertos, no outro dia foram todos para uma coisa qualquer de wrestling, há de ser a praia quando começarem as férias. Não há tempo para ficar em casa sossegado a ler um romance ou a ler poesia. E não vale a pena estarmos a idealizar que era importante que conhecessem, e bem, o Alexandre Herculano, o Antero de Quental, o João de Deus, o Eça de Queirós, o Saramago, o Pessoa,  pois o mundo perfeito é coisa que não existe. Era importante... era... se eles vivessem num outro mundo ou se esses autores lhes fossem apresentados de uma maneira que encaixasse na vida deles.

No outro dia li uma reitora não me lembro de que escola a dizer que estamos a preparar os jovens para um mundo que já não existe. Concordo. 

Não sei quem é que faz os programas escolares mas, no tempo da Inteligência Artificial, das redes sociais e da informação toda, a toda a hora, em todo o lugar, todo o método e o currículo escolar deveria ser repensado. O saber já não está só nos livros: o saber está em todo o lado e está misturado com toda a espécie de coisas -- com diversão, com manipulação, com 'toca e foge', com invenção, com tudo o que se possa imaginar.

Ainda assim, porque hoje o dia é de Camões e da nossa maravilhosa língua e do nosso querido País, partilho um vídeo. Antigo. Antiguinho. O género de coisa em que os meus netos não pousam os olhos nem por um minuto. Eu gosto de ver, tenho tempo, tenho paciência. Mas porque não se fazem documentários interessantes, com o género de filmagens que prendem os jovens, uma coisa mais picada, repicada, com cor, com alguma provocação, com movimento, mais curtos?

Quem és tu Luís Vaz de Camões?


Desejo-vos um belo dia

quinta-feira, setembro 21, 2023

Dilemas sem solução evidente

 

Não posso dizer que o dia tenha sido dos mais tranquilos. As situações com a minha mãe vão ocorrendo mas aparecem-me, sempre, envoltas nos receios que ela tem e que, voluntária ou involuntariamente, não me permitem clareza de análise. Acho que já o referi (e talvez, até, mais que uma vez): tem mais medo dos medicamentos do que das doenças. Por isso, faz de tudo um pouco, para provar que não precisa ou que não pode tomar o que prescrevem. 

No outro dia um amigo médico enviou uma piada de médicos (não sei se sabem mas há milhares de piadas sobre médicos e doentes que os médicos animadamente trocam entre si). Nessa piada a que me refiro, um 'paciente' vai ao médico contrariado, apenas para fazer a vontade à mulher que acha que ele está doente. O médico prescreve uma coisa que não ata nem desata, apenas para o homem sair dali confortada e a mulher convencida. A verdade é que o comprimido provoca um efeito secundário que deixa o homem incomodado e o leva novamente ao médico. A seguir segue-se uma longa narrativa em que para tratar o mal que os comprimidos anteriores fizeram, o médico vai prescrevendo outros. Às tantas, o pobre 'paciente' já está mesmo doente, toma todos os dias dezenas de comprimidos e, ao fim de algum tempo, morre.

E, até porque, na realidade, a gente nunca sabe o que vai acontecer e porque, na verdade, a minha mãe é autónoma e independente e sabe o que faz e é senhora do seu nariz, nunca quero pressionar. Mas não é fácil. O meu lado pragmático, racional, objectivo, fica sem saber bem como lidar com estas situações com que me vou deparando. E depois, com alguma frequência, as decisões dela, baseadas (ainda que não conscientemente ou, pelo menos, não assumidamente) nos seus medos, não dão bons resultados.

Mas, enfim... Apesar de tudo ainda consegui dar um salto até à praia. Estava boa. Pouco sol mas temperatura amena. 

E tinha metido na cabeça levar uma toalhita, daquelas pequenas e ultraleves, para me deitar ao sol. Não sei onde é que estava com a cabeça. Mal a estendi na areia, a fera fez-se de lord e, imediatamente, deitou-se-lhe em cima. Pimbas. Tudo dele. Pensou, imagine-se, que a toalha era para Sua Excelência. 

Afastei-o, claro, mas fez-se de desentendido e o mais que consegui foi espaço para me sentar. 

Logo de seguida, levantou-se e, freneticamente, desatou a escavar à volta, enchendo a tolha de areia. Tive que me afastar para não ficar revestida a grãos de areia.

A seguir, quando apareceu água no buraco que fez, enfiou-se lá dentro. E depois, todo molhado, sacudiu-se. E depois voltou para a toalha. Ou seja, impossível refastelar-me. Estive de pé, pois claro. Portanto, aquele devaneio de estar a apanhar banhos de sol saiu-me duplamente furada.

Menos mal. Só de estar na praia já é bom. E caminhámos e fui à água. Mas se me molhei à gato, a minha valentia não deu para mais, não consegui coragem para mergulhar. 

Em casa fiz sopa e caldeirada. E telefonei. E estive a ler.

E, de concreto, para além do relatado, pouco mais.

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E que entre Jacob Collier, ao vivo em Lisboa, com  Somebody To Love

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E chamo a vossa atenção para este alerta (por favor carreguem no link para lerem o texto completo da autoria do sempre atento e sempre jovem Eugénio Lisboa):

Eça vai ter de dar muitas voltas, no túmulo, a tentar destemidamente evitar que lhe remexam nos ossos. E não vale a pena invocar a autoridade de eminências académicas, para justificar o injustificável: os textos e a vida do escritor falam por si. 

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Desejo-vos uma boa quinta-feira

Saúde. Paciência. Paz. 

sábado, fevereiro 20, 2016

E a resposta é... Basílio. Primo Basílio.
Who else meus caros, who else por amor da santa...?


Acabei o post lá de baixo assim: Não, cara amiga leitora, ele não é o canalha que partiu o seu coração. 

E agora completo:

Ele é Basílio, personagem de Eça de Queiroz do livro "O Primo Basílio", que levou sua prima Luísa, de vinte e poucos anos, à ruína.





Publicado em 1878, o romance deveria ser leitura obrigatória para todas as meninas em fase de formação. 

Não apenas porque a narrativa é pungente e questiona os valores das famílias ditas tradicionais, tampouco por tratar-se de um grande clássico, com personagens riquíssimos; nem por nos prender à sua narrativa do começo ao fim das 266 páginas; mas porque, para além da chantagem que Luísa - a prima que se apaixona pelo primo galanteador – sofre da sua criada invejosa Juliana (que descobre a traição da patroa, casada com Jorge), podemos entender a lógica desse tipo de homem:
"Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris com aquele trambolhozinho! Trazer uma pessoa, havia sete anos, a sua vida tão arranjadinha, e patatrás! Embrulhar tudo, porque à menina lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora, o descaro! No fim, toda aquela aventura desde o começo fora um erro! Tinha sido uma ideia de burguês inflamado ir desinquietar a prima da Pratiarcal. Viera a Lisboa para os seus negócios; era tratá-los, aturar o calor e o boeuf à la mode do Hotel Central, tomar o paquete e mandar a pátria ao inferno - e ele, burro, ficara ali a torrar em Lisboa, a gastar uma fortuna em tipoias para o Largo de Santa Bárbara para quê? Para uma daquelas! Antes ter trazido a Aphonsine! Que verdade, verdade, enquanto estivesse em Lisboa o romance era agradável, muito excitante; porque era muito completo! Havia o adulteriozinho, o incestozinho. Mas aquele episódio agora estragava tudo! Não, realmente, o mais razoável era safar-se"!
Imagino que se eu tivesse lido a obra de Eça de Queiroz aos dezasseis anos teria poupado muitas lágrimas inúteis em minha vida e teria pensado algumas vezes antes de me jogar de cabeça em certas relações com janotas como Basílio. Talvez nunca tivesse pensado, como Luísa:
"As qualidades de Basílio apareciam-lhe então magníficas e abundantes como os atributos de um Deus. E estava apaixonado por ela! E queria vir viver ao lado dela! O amor daquele homem, que tinha esgotado tantas sensações, abandonado de certo tantas mulheres, parecia-lhe como a afirmação gloriosa de sua beleza e da irresistibilidade da sua sedução. A alegria que lhe dava aquele culto trazia-lhe o receio de o perder. Não o queria ver diminuindo; queria-o sempre presente, crescendo, balançando sem cessar diante dela, o murmúrio lânguido das ternuras humildes".
A pomba Luísa teve um final trágico - aliás, o final do livro é arrebatador –, porém não senti pena dela. Afinal, não passava de uma mocinha que vivia numa província, em 1878, que nada sabia da vida. Senti pena de nós, mulheres ditas modernas, que vivem sua sexualidade livremente, trabalham, têm acesso à informação, grau universitário; mulheres viajadas, inteligentes, cultas, independentes, que sabem se vestir, falam várias línguas, comandam empresas, escrevem romances, mas que ainda, sim, caem nessa pantomina.

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Na música "Amor I love You", de Marisa Monte, consta um trecho do livro - referente aos sentimentos de Luísa ao receber a primeira carta “apaixonada” de Basílio – na voz de Arnaldo Antunes. 
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Nota: Para os que têm dificuldade de interpretar texto, informo que as características citadas no começo dessa resenha (beleza, educação, erudição, gentileza, etc) são sempre muito bem vindas, em homens e mulheres, não há nada de errado com elas. O erro acontece quando tais características são usadas de modo perverso, como ferramentas de manipulação, como Eça de Queiroz nos demonstra brilhantemente com seu personagem Basílio.
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Quer o texto acima quer os que constam dos posts anteriores não são de minha autoria. Foram escritos por  Mônica Montone para a Obvious e trouxe-o aqui porque me parece uma forma inteligente de motivar o gosto pela leitura. Nos excertos anteriores dei um ou outro pequeno toque para não se perceber que estava escrito em português do Brasil.

Claro que me dá uma certa pena que, se for ao Youtube procurar vídeos sobre o Primo Basílio, só me apareçam (ou, pelo menos, apareçam nos primeiros lugares) vídeos brasileiros. E canções com excertos de Eça de Queiroz...? Alguma vez alguém se lembrou disso? Que eu saiba, zero.

Mas nós, portugueses de Portugal somos assim: parece que só damos valor ao que vem de fora. Valorizarmos a nossa literatura de uma forma abrangente e 'viva' parece que não é connosco. 
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Transcrevo ainda do Youtube, o texto que acompanha o vídeo que, veja-se bem, é obra de alunos de uma escola pública brasileira:

Publicado a 30/09/2013

Trabalho Escolar do 3º1Escola: Profª Magdalena Sanseverino Grosso - Artur Nogueira-SP (Brasil)


SINOPSE:

"O Primo Basílio" conta a história de Luísa, jovem sonhadora e ociosa da sociedade lisboeta, que acaba envolvida por Basílio, seu primo, com quem se reencontra, após anos de distância. Achando-a sozinha, já que Jorge, o marido, viajara a negócios, Basílio serve-se de sedução e galanteios, até levá-la a se envolver profundamente consigo, tornando-se sua amante. Juliana, a criada, descobre a corres­pondência trocada por ambos e chantageia a patroa.

Após sofrer muitas humilhações e ter que se submeter aos caprichos da crudelíssima criada, Luísa consegue, ajudada por um amigo, reaver as cartas; e Juliana, pressionada a entregá-las, ante as ameaças, acaba morrendo do coração. Após tanto sofrimento, Luísa adoece. Basílio, de há muito, encontra-se longe de Lisboa. Jorge regressa ao lar. Certo dia, chega uma carta do primo para a esposa e o marido intercepta a correspondência e toma conhecimento de tudo que ocorrera.

Desesperado e sofrendo demasiadamente, ainda assim Jorge resolve perdoar Luísa. Ela, no entanto, piora muito ao saber que o marido descobrira tudo o que fizera de errado, e vem a falecer. A reação de Basílio, ao saber da morte dela, é de pesar, por ter perdido sua diversão em Lisboa. Destaca-se, ainda, na obra, a figura do Conselheiro Acácio, amigo do casal, caricatura repleta de formalismo e hipocrisia.

A obra, um dos clássicos da literatura, é de Eça de Queirós.
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E, portanto, o louvor vai em exclusivo para a Teresa Diniz que adivinhou. Parabéns!


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom sábado.

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sexta-feira, fevereiro 19, 2016

É assim tão difícil...? Ainda ninguém adivinhou... Vou dar mais umas pistas. Vá lá.


Vá lá. Pense, recorde-se. Ele é bem conhecido. Na continuação do que ontem já escrevi, acrescento agora:

Quando (supostamente) apaixonado, escreve mensagens matinais como: "Que outros desejem a fortuna, a glória, as honras, eu desejo-te a ti. Só a ti, minha pomba, porque tu és o único laço que me prende à vida, e se amanhã perdesse o teu amor, juro-te que punha um termo, com uma boa bala, a esta existência inútil".

E faz promessas ardentes e enlouquecidas de paixão como: "Quando estou ao pé de ti sinto-me tão feliz; parece-me tudo tão bom... Queres que fujamos? Foge comigo, vem, levo-te! Vamos para o fim do mundo".

À medida que a relação progride e um certo grau de intimidade é estabelecido, ele passa a criticar paulatinamente o objecto de sua "paixão": "não use esse tipo de sapato", "aprenda a tocar tal música no piano", "fale baixo", "não acredito que nunca leu esse livro?!", “você é infantil”, “solte esse cabelo”.

E quando a dama finalmente se entrega, aceita os seus apelos e faz as malas para viver com ele, ele fica irritadiço, diz que as coisas não podem ser feitas de modo tão precipitado; diz que está a trabalhar demais e que em breve terá que viajar para o exterior a negócios, e... desaparece.

Não, cara amiga leitora, ele não é o canalha que partiu o seu coração. 


Este é outro. E você, caro Leitor, conhece-o.

Um tipo de homem a evitar
Com certeza V. já se deparou com um homem que achou que era a última coca-cola do deserto. Só que não.


No post a seguir a este lembrei coisas cá minhas, relatei como se portam os executivos cheios de nove horas quando se desinibem, mostrei o efeito da ausência de gravidade e mais umas quantas cenas.

Mas isso é lá mais para baixo e quem quiser já saltar para lá pois que não faça cerimónia.

Agora, aqui, vou falar de uma certa pessoa, alguém muito conhecido, um que se acha um charmoso e que pensa que arrasta atrás de si uma corte de seguidores (e seguidoras).

Passo, então, a descrevê-lo. Vou usar a imagem do Pierce Brosnan e faço-o apenas porque gosto de enfeitar os textos -- uma coisa certamente a atirar para o piroso, assim como pôr naperons em cima da mesa ou dos móveis (coisa que apenas uso na escrita, não em casa).

Mas não se deixem influenciar.

Aceitam-se apostas: sobre quem é que aqui abaixo se fala? Será que, quem é, me está a ler?

O que posso dizer é que alguém muito conhecido, todos conhecem ou, se não conhecem, já ouviram falar dele.





Ele é bonito, viajado, fala várias línguas, veste-se bem e é extremamente educado - segura sempre a porta para as mulheres passarem, puxa a cadeira, abre a porta do carro. 

Entende de vinhos, música erudita, literatura, teatro.

Não sei se é rico, mas sei que tem uma vida económica estável e cercada de pequenos luxos.

O seu humor é irónico, ácido. É incapaz de cometer uma indelicadeza com quem quer que seja; porém, é mordaz com quem possui intimidade - criticando roupas e o modo de andar e de falar dos que julga menos polidos do que ele.

Gosta de presentear e gosta de partilhar o seu conhecimento: "leia o livro x", "escute a música y", "vá ao teatro z".

No fundo, percebe-se que detesta o seu país. Por conhecer outros países, acredita que os seus conterrâneos são atrasados, mal educados, mal vestidos e incautos - sempre que pode, numa reunião entre amigos, desmerece a cultura do seu país com frases do tipo "aqui os actores representam tão mal".

E por ostentar uma altivez tamanha e sugerir (ainda que tacitamente) que possui algo que os demais não possuem, é extremamente sedutor - afinal a paixão é a crença de que o outro tem o que nos falta.

Trata-se de um hedonista que vivencia plenamente os prazeres que a vida pode proporcionar - do luxo e do requinte de uma boa mesa a uma cama com lençóis de seda e uma bela mulher sobre ela.

Ostenta a melancolia chique dos que fingem que por saberem que nada sabem não passam de reles miseráveis.


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Mais logo já desvendo o mistério e até trarei aqui algumas das suas próprias palavras mas, dado que sei que sou lida por gente de inteligência superior, estou certa que, neste momento, já adivinharam -- tanto mais que eu, boazinha como sou, já dei uma ajuda com o título. Só acrescento que não devem ser feitas leituras precipitadas.

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E agora aceitem o meu convite e deslizem por aí abaixo para sentirem o efeito da ausência de gravidade. 

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domingo, outubro 19, 2014

Os livros em minha casa. Pequenos oásis de arrumação - e depois o resto.


No outro dia falei de bibliotecas lindas, arrumadas, coisa de gente ordeira, cenários que gosto de admirar, invejosa, estrangeira.

Como tantas vezes já aqui desabafei, ainda não percebi como se consegue ter os livros arrumados mas acessíveis e presentes. Na minha casa, os livros multiplicam-se e quase ganham terreno sobre as pessoas.

No entanto, não pensem que a bagunça é generalizada, absoluta. Não. Em minha casa tenho alguns redutos em que eles se mantêm disciplinados e quietos. Como nisto é ver para crer, vou mostrar-vos alguns desses pequenos oásis.



Mas, se não se importam, vamos com música. 

Sonia Wieder Atherton no violoncelo com Daria Hovora no piano


Nigun




Em tempos que já lá vão, não havia internet e as pesquisas eram feitas através de enciclopédias, colecções, obras em vários tomos. 

Quando comecei a trabalhar, dando aulas no secundário, fui abordada para ver se queria comprar uma enciclopédia. Pagá-la-ia volume a volume. Não resisti, claro. Quando os meus pais souberam, sabendo da minha imensa paixão por livros e sabendo que, desde sempre, a minha perdição por livros se sobrepunha à dos bens de primeira necessidade, fizeram questão de ser eles a oferecer-me a dita enciclopédia. Um a um, os livros da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira iam chegando e depois, mais tarde, os volumes com as actualizações. Bem útil ela me foi desde sempre e em especial quando os meus filhos tinham que fazer trabalhos para a escola.

Desde o início, houve a questão de onde arrumar tão extensa e pesada colecção. Perto da minha casa havia uma loja de móveis que abastecia essencialmente embaixadas e que, portanto, tinha um mobiliário clássico que sempre me agradou. Parte dos meus móveis provém dessa loja. A escrivaninha de alçado onde a preciosa enciclopédia, hoje quase coisa de museu, reside provém de lá.


Também durante muito tempo fui sócia do Círculo dos Leitores. De lá são várias colecções de História, de História de Arte, relativas a Património, o Grande Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa belamente encadernado. 

Esses livros hoje também se conservam imóveis, arrumados como gente educada. Ao escrever, noto que isto me faz sentir mal, como se estivesse a ser ingrata, desleal, a esquecer e abandonar amigos que deveriam merecer mais atenção.

Mas é verdade: quando agora quero pesquisar qualquer coisa ou ler alguns apontamentos sobre qualquer um destes assuntos que antes me levavam a folhear estes livros, procurando os índices, lendo os excertos que me elucidassem, nem me lembro já de recorrer a eles.

O vasto mundo está perto das mãos através da internet. Os meus hábitos mudaram tanto desde então.


Depois há também os autores portugueses de vasta obra, os clássicos, Eça, claro. Há algum tempo que o não leio e, de resto, nem tenho o hábito de reler seja que livro for pois a imensidão do que vou tendo para ler pela primeira vez não me permite ocasião para revisitar velhos amores. Mas, como a minha mãe anda a relê-lo e me vai comentando, deliciada, a sua actualidade e a ironia, ando com saudade e vontade de lhe fazer uma visita. Talvez A Capital ou Os Maias.

Nesta estante aqui, que é das últimas que veio cá para casa e provém do IKEA, e onde estão alguns dos portugueses do início do abecedário (nem todos, pois o Aquilino, o Camilo, e outros que têm obra vasta, estão numa outra, dedicada a estas colecções), está por exemplo a diva Agustina, bendita mulher que se me deu a conhecer através da Sibila que tanto me impressionou, e também António Lobo Antunes, embora os livros dele de crónicas andem à deriva por outras paragens.

Tenho-o dito muitas vezes. Gostei muito, na altura, do sopro de novidade que foram os seus primeiros livros (Memória de Elefante, Cus de Judas) mas, depois, a sua escrita entrou numa tal elipse labiríntica que ao fim de me esgotar em alguns, comecei a desistir pois canso-me ao fim de umas dezenas de páginas. Tento, juro que tento, e acho que devo tê-los quase todos, sempre na esperança de voltar a sentir aquele encantamento inicial, mas não consigo vencer aquele cavar e remoer sobre o mesmo terreno. Mas as Crónicas, essas sim, leio-as de gosto. Ele acha que as crónicas são apenas um ganha pão, um entretenimento, coisa menor, mas eu é por elas que agora me fico. Também aqui tenho, nesta estante, o Abelaira que me encantou tanto, quando os li. 

A partir de certa altura, faltando-me o espaço para arrumar mais livros, comecei a olhar para cada recanto da casa a ver se lá conseguia encaixar pequenas estantes de forma a que não estorvassem o passo. Algumas destas estantes foram feitas a feitio, desenhadas por mim, medidas milimetricamente estudadas para que coubessem nos recantos e para que nela coubessem os livros.

Esta aqui é uma delas. Aqui é onde se alojam os autores de língua espanhola, autores geralmente vibrantes, sensuais, revigorantes que sabem transportar para a escrita o sal dos mares do sul, o sol, o sangue, a magia das lendas, o sonho.

Nesta pequena estante, como podem ver, tenho uns quantos saleiros, réplicas de peças de museu e caixinhas de porcelana. 

Durante muito tempo tive uma perdição por caixinhas. Tenho-as clássicas, de colecção, tenho-as de vidro, artesanais, de madeira, de metal, de pedras.

Agora não é que não tenha mais esse gosto mas tenho a percepção de que não posso continuar a trazer tralha para casa.

Sobre esta estante, se repararem, tenho um relógio derretido a la Dali. Acho-lhe imensa graça, claro está.

E ainda tenho mais umas quantas estantes que ainda consigo manter bem apresentadas. Mas há um problema. Estando os livros ali tão postos em sossego, acabo por me esquecer deles. Quando me apetece ir à procura de um livro novo para ler, esqueço-me de ir às estantes, não me dá jeito, está tudo tão adormecido.

Então, por isso - ou simplesmente porque transporto em mim a semente do caos - tenho à minha volta montes terríveis a que de vez em quando dou a volta pois ou tombam e tenho que os arrumar melhor ou vou à procura de um e gosto de os percorrer a todos. 

A mesa redonda que aqui vêem é a mesa onde escrevo. Estou no lado oposto ao da cadeira que se vê, num pequeno canto, cercada de pilhas de livros. As cadeiras eram as cadeiras de madeira de uma das minhas avós. Resistiram décadas mas estou sempre com medo que um dia sucumbam sob o peso que agora carregam. Há, em volta da mesa, apenas duas cadeiras livres, aquela em que agora me sento e outra que tem que estar livre para o caso do meu marido precisar de trabalhar no computador (coisa que o deixa doente pois gosta de alguma ordem e esta minha propensão para me entrincheirar no meio de livros parece-lhe prova da minha falta de razoabilidade e ele ter que partilhar este espaço tira-o do sério).

Mas sinto-me tão bem, tão acompanhada, junto dos meus livros. É uma atracção fatal aquela que sinto por livros. E não é apenas pelas palavras que eles contêm, não é apenas pelas ideias, pelas imagens se for caso disso. Não. É também pelo objecto que eles são: a capa, a textura do papel, a paginação, o peso, o toque. Não há outro objecto que tanto me seduza. Como pensar em substitui-lo pelo e-book? Não é possível. Estaria aqui, agora, numa mesa asséptica, vazia, e eu sem os escritores que agora tenho junto a mim, amigos, anjos da guarda, presenças reais.


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E, por falar grandes escritores, que dois espíritos brilhantes se juntem:

J. Rentes de Carvalho e Eça de Queirós







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Hoje estive com a tropa toda na casa nova-velha do meu filho. A tarefa dos homens hoje era estucar a cave enquanto as meninas iam ao cabeleireiro cortar o cabelo e os meninos brincavam no quintal sob minha vigilância. Contudo, os meninos quiseram ir ver o trabalho dos homens e acabaram também a estucar, verdadeiros aprendizes de trolha.

Quando as mães chegaram, ficaram em choque ao verem os filhos cheios de gesso mas, enfim, isso é um mal menor face à enorme satisfação deles por fazerem trabalho de tal responsabilidade. 

Gostava também de vos mostrar a casa por dentro que está quase pronta e que está mesmo bonita (a cave é que ainda está quase na mesma uma vez que ficou para o fim).

E queria contar-vos como, ao fim do dia, a dona da casa - com um belo corte Bob - foi comprar chouriço, que o marido depois assou, tal como assou também castanhas e como, depois, estivemos todos sentados a petiscar, no melhor convívio.

Mas passa das duas da manhã e eu tenho tanto sono... Se amanhã não se meterem outras coisas, talvez mostre. Não pensei alongar-me tanto com os livros mas sou sempre assim, ponho-me na conversa convosco e nem dou pelo tempo a passar. Fazia-me falta ter aqui um chá bem quentinho para irmos bebendo em conjunto. Gosto imenso de chá, seja chá a preceito, seja infusão do que for, lúcia lima, cidreira, camomila, tília, menta, qualquer coisa mesmo. Se vocês aqui estivessem comigo, nesta minha sala cheia de livros, eu servir-vos-ia um chá quentinho e perfumado. Teria era que ver onde é que pousava o bule...


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.
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