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quarta-feira, abril 17, 2019

Carta de Paulo* aos políticos e aos capitalistas hipócritas






Permita-me algumas considerações pessoais sobre o debate em torno da “Sustentabilidade do sistema de pensões português”. Não sou especialista na matéria e, correndo os riscos de imprecisão de um leigo, procurarei apenas com as minhas considerações pessoais ancoradas no tal estudo demonstrar que o grande problema do estudo não é “técnico” mas político. 

O “crime” cometido pelos autores e promotores do estudo é exatamente procurarem esconder a relação – incontornável – entre a economia (enquanto ciência) e a política.

Ora, os estudos em ciências sociais (e na economia em particular) adotam necessariamente um conjunto de pressupostos e assumpções as quais, na generalidade, podem facilmente ser associadas a determinadas opções políticas.

Neste estudo em particular as conclusões são facilmente explicáveis desde logo pelos pressupostos explícitos (ou seja, sem analisarmos os implícitos): consideram-se a) a imutabilidade das regras atuais do sistema, b) baseia-se num determinado cenário de projeções demográficas e c) assenta numa análise da evolução da economia no que concerne apenas ao emprego e salários.

O que salta logo à vista neste trabalho é uma análise cuidada dos diferentes efeitos associados à evolução da produtividade e à consequente distribuição da riqueza gerada.

- Para começar, mensurar a produtividade não é tão simples como possa parecer. O estudo adopta a perspetiva salários+contribuições sociais / hora trabalhada. Ora, este indicador é especialmente indicado para avaliar a resistência de uma dada opção política estabelecida face a possíveis efeitos exógenos. Por exemplo, a produtividade mensurada pelo PIB / horas trabalhadas dá-nos, naturalmente, perspetivas diferentes sobre a economia como um todo e é especialmente útil para analisar diferentes opções políticas face a um mesmo cenário.
https://data.oecd.org/lprdty/gdp-per-hour-worked.htm#indicator-chart 
Um dos argumentos do estudo para os resultados negativos do atual sistema de protecção social é uma evolução muito comedida do primeiro indicador de produtividade que referi. No entanto, um comportamento negativo deste indicador não tem de representar necessariamente uma baixa geral da produtividade dos trabalhadores (ou seja, não tem de ser propriamente “negativo”). De facto, tal poderá ocorrer por motivos positivos (por exemplo, redução do horário de trabalho mas manutenção dos níveis remuneratórios). Infelizmente, os motivos negativos provavelmente são os mais prováveis: uma tendência de moderação dos salários e contribuições, mantendo-os sistematicamente abaixo da evolução do produto interno bruto (ou seja, uma diminuição do bolo que é produzido atribuído aos trabalhadores…). Assim, um dos primeiros pressupostos questionáveis do estudo é considerar que os cidadãos vão permitir uma perda dos ganhos crescentes associados ao cada vez maior volume e valor da produção (que pode ser obtido por via da crescente automatização e robotização de muitos processos produtivos num período em que transitoriamente os trabalhadores não terão as competências necessárias para abraçar os novos trabalhos que surgirão na economia – e note-se que até estou a pressupor que no longo prazo não haverá propriamente uma destruição de emprego por via da robotização, mas no curto / médio prazo acho-a inevitável. 

Vamos agora às questões de distribuição.

As contribuições para a segurança social somam apenas 9,3% do PIB (valor que não tem registado grandes alterações desde 2000), sendo uma das percentagens mais baixas da Europa.
https://data.oecd.org/tax/social-security-contributions.htm 
Ora, não vejo porque devemos admitir que esta opção política de colocar em segundo plano o esforço coletivo na construção do sistema de segurança social não se irá alterar. De facto, poderá alterar-se de muitas maneiras. Podemos, claro, privatizar o sistema, o que provavelmente tornará o sistema mais caro e, desta forma, para os mesmos níveis de protecção, necessitaremos de gastar mais. Mas podemos admitir também que a segurança social passa a ser um dos grandes desígnios de política pública e, das duas uma, admitimos um aumento da carga fiscal (com a contrapartida de um sistema melhor e mais robusto) ou, mantendo a mesma carga fiscal em % do PIB, abdicamos do papel do estado noutras áreas geridas pelo estado. Note-se, no entanto, que o estudo refere, no cenário mais negativo, a necessidade do orçamento de estado transferir para a segurança social o equivalente a 5,2% do PIB. Ora, independentemente deste valor ser obtido por via do aumento de impostos ou realocação da despesa do estado, isto colocaria o peso relativo do financiamento da segurança social ao nível do que se regista hoje em países como a Alemanha, Eslovénia ou República Checa. Nada de extraordinário portanto.

Por fim, olhemos para o problema concreto do financiamento indexado às compensações por trabalho recebidas pelos trabalhadores assalariados (salários mais contribuições para o sistema de proteção social). O indicador que mede o peso dessas compensações em função do valor acrescentado produzido pela economia tem vindo a cair ligeiramente (de 54,92% do valor acrescentado em 2000 para 50,12% em 2015 e uma ligeira recuperação para 51.87% em 2018. https://data.oecd.org/earnwage/employee-compensation-by-activity.htm#indicator-chart Ora, estes dados sugerem que um dos grandes problemas do sistema de segurança social pode ser exatamente a cada vez menor repartição do valor acrescentado produzido com trabalhadores; como o financiamento da segurança social é sensível à alocação de recursos que a economia coloca nos trabalhadores, se estes recebem uma proporção cada vez menor, naturalmente o sistema, num momento de transformação demográfica, ver-se-á sobre pressão (lembra-se daquela medida fantástica do Passos Coelho de diminuir drasticamente as contribuições asseguradas pelas empresas por cada trabalhador e aumentar as contribuições diretas do trabalhador? Vinha exatamente acelerar este fenómeno de realocação dos recursos produzidos pela economia, beneficiando a empresa e os seus proprietários). Claro que a direita argumenta que é necessário dar uma parte maior do bolo às empresas, para elas investirem e fomentarem o crescimento económico; dando crédito a esta ideia peregrina em Portugal… eu diria… sim, tudo bem, mas não vamos financiar as empresas à custa da segurança social! (e depois são os “ciganos” que vivem à custa da segurança social…)



Agora que descasquei no estudo, vamos ao que interessa mas que os senhores do estudo se esqueceram – bem como a maioria dos actores políticos no geral: existem mudanças importantes / opções políticas “indirectas” que poderiam ser adoptadas e ter efeitos muito positivos sem mudar por aí além o sistema atual (ou seja, como os senhores do estudo fizeram, assumindo o sistema atual como ele é e atuando noutras variáveis do sistema socioeconómico que alterem, de alguma forma, os pressupostos base adoptados nas previsões que fizeram). De entre essas alternativas destaco algumas que poderiam permitir aumentar significativamente a eficiência do sistema contributivo atual:

- Acabar com grande parte dos inúmeros regimes de exceção de contribuições para a segurança social, os quais abrangem desde a) isenções a empresas como forma de estímulo ao investimento e à contratação (note-se que não falo acabar com estímulos ao investimento, mas sim que os mesmos não sejam financiados pela segurança social!) até b) os regimes de trabalho não reconhecido – puxando a brasa à minha sardinha – como é exemplo os bolseiros de investigação (mais de 25 000 que não contribuem durante anos para a segurança social, na fase da sua vida em que mais “lucro” dariam ao sistema! Estamos a falar de valores que devem andar na ordem dos dez milhões de euros por ano, que o estado desvia da segurança social para outras despesas públicas… ou seja, mais uma vez, fazendo outras políticas públicas com o financiamento que deveria ser direcionado para a segurança social!)

- Tornar os sistemas de proteção social na doença mais eficazes. É necessária uma “reforma estrutural” enérgica nas condições de segurança e higiene no trabalho: continuamos a ter estatísticas negras de acidentes de trabalho e a eficiência de utilização dos seguros de acidentes de trabalho está longe de ser efetiva (acabando quer por o serviço nacional de saúde ser onerado em muitos casos sem ser ressarcido pelas seguradoras, quer a própria segurança social que acaba por assegurar prestações e afins que deveriam ser asseguradas pelas seguradoras!). 

- Tornar o sistema de protecção no desemprego muitíssimo mais eficiente e focado naquilo que é essencial: requalificar a força de trabalho, diminuindo dessa forma as probabilidades de desemprego e aumentando o valor acrescentado que o trabalhador pode oferecer ao sistema produtivo. O sistema de proteção no desemprego atual está inundado de ineficiências – desde colocar os desempregados em formações curtas, de qualidade e utilidade questionáveis, desarticulando / segregando os desempregados socialmente, colocando os desempregados a cumprir exigências absurdas e descabidas (como a caça ao carimbo em empresas para comprovar a procura ativa de emprego) e terminando nos benefícios fiscais (mais uma vez redução ou isenções nas contribuições para a segurança social dos empregadores) na contratação de desempregados, sem que se garantam exigências como contrato sem termo, taxa de rotação reduzida, etc.


Desculpe(m) o longo comentário mas é um tema que me interessa e que me preocupa, pelo que não podia deixar de debater. E desculpe(m) a escrita enrolada (é texto bruto, sem revisão).

Permita-me só mais um comentário:

As conversas criticas / miserabilistas que refere não são propriamente uma inveja genuína sobre quem ganha razoavelmente. Essas conversas, parece-me decorrem de várias situações, das quais destaco: 1) as pessoas têm rendimentos miseráveis (o rendimento declarado por 72% dos agregados familiares não vai além de cerca de 1300€/mês mais coisa menos coisa!! cerca de 650€/mês/pessoa num agregado com dois elementos que obtém rendimento), pelo que acaba por ser difícil de compreender e aceitarem as decisões de consumo de outros que os rodeiam (até porque as condições miseráveis tornam as pessoas muito mais dependentes umas das outras e isso leva-as a criticar a pessoa que compra um livro e depois dá o golpe no autocarro e não paga o bilhete...); 2) as pessoas têm ambientes de trabalho muitas vezes inacreditáveis, convivendo com desigualdades gritantes no dia-a-dia, inclusive com a ostentação agressiva de pessoas que ganham pouco mais que elas mas o suficiente para investirem na ostentação e em mecanismos de uma patética demonstração de estatuto; e isto nem é tão pronunciado na grande empresa, onde o tal CEO , filho do patrão, ganha 153x (tipo pingo doce) mais que o empregado caixa (mas nunca se cruza com este e até mostra um certo low profile quando isso acontece) [se bem que me recordo do recente caso do senhor da altice que veio visitar o centro de investigação e desenvolvimento da empresa que comprou (PT), de helicóptero, com aparatos de rock star... e passado uns tempos desatou a despedir malta de forma agressiva... e estamos a falar de malta altamente qualificada nas tecnologias de informação... ], mas por vezes não se imagina a violência dessa ostentação agressiva a que as pessoas são sujeitas na "chafarica" da porta ao lado, onde trabalham, numa pequena / média empresa familiar, em que 50% dos funcionários são familiares em primeiro ou segundo grau, que não cumprem códigos do trabalho, de segurança e higiene, etc (e o nosso tecido económico é maioritariamente constituído por pequenas e médias empresas).

Sim, por cada exemplo mau, acredito que haja pelo menos um bom. Mas ainda assim... para quem vive com a corda na garganta todos os meses até o mais ínfimo luxo (um livro) pode ser uma "afronta". 



A classe média é importante sim. Mas infelizmente ela é muito reduzida e não tem propriamente aumentado. O que temos é muitas situações miseráveis e uma massa de malta remediada mas que tem pouco autonomia, depende muito da decisão do vizinho do lado (porque se ele se mostrar muito aberto a luxos, aumentam o pão...) e por isso pouco racional nas observações que faz sobre a vida dos outros.

Um problema complicado!




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* O texto que acima transcrevi é da autoria de Paulo Batista e gostei tanto de lê-lo que tomei a liberdade de o puxar dos comentários do post dos 'misteriosos pobrezinhos'  aqui para cima.

Fui intercalando pintura contemporânea da Argentina apenas porque me apeteceu ter aqui cores vibrantes e juntei-lhe Itzhak Perlman a tocar o meu tango preferido  só porque sim.

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Posfácio de Paulo Batista, depois de reler o texto publicado:


Acabei de reler o texto.

Desde logo fico preocupado: a displicência "gramatical" com que escrevo nos comentários deixa-me envergonhado exposto assim. Desculpe (e desculpem) o menor cuidado.

Fazendo alguma autocrítica ao texto, não posso deixar de salientar que talvez tenha sublinhado demasiado um certo conflito trabalhador versus empresa, quando não é tanto esse o ponto fulcral. Por exemplo, quando falo na opção de aumentar a carga fiscal não é tanto nesse dualismo trabalhador vs empresa. De facto, não sublinho o problema essencial que não permite que tal medida possa sequer ser equacionada: as enormíssimas desigualdades de rendimentos dos indivíduos e, sobretudo, a enormíssima desigualdade na taxa de esforço nas contribuições. Ou seja, o foco não é tanto um problema na divisão do bolo entre os trabalhadores e a empresa em abstracto, mas o comportamento, cada vez menos solidário, dos indivíduos que lideram essas mesmas empresas - não só aqueles que delas extraem o grosso dos seus rendimentos, mas também daqueles que as lideram, extraindo um quinhão substancial do rendimento gerado (os tais que ganham 153x mais que os trabalhadores que menos recebem). 

São estes grupos de indivíduos que não só recebem uma proporção pornográfica do rendimento, como ainda por cima contribuem substancialmente menos que a generalidade do trabalhador assalariado de baixo e médio rendimento - ou seja, são estes que subtraem a responsabilidade social das empresas que lideram em benefício próprio.

Alarmante ainda é a completa cegueira política, não só sucessivamente incapaz de desenhar soluções para esse problema, de redistribuição dos esforços, como tendo vindo a promover exatamente medidas que amplificam estes problemas. 

O problema não é assim tanto de desigualdade entre trabalhadores assalariados ou até dos esforços contributivos genéricos / proporções dos contributos trabalhadores vs empresas (enquanto instituição coletiva). O problema está nestes buracos negros de privilégio - dos monopólios entregues pelo estado e por ele protegidos, das suas concessões e parcerias ("público - privadas"), das suas ações de discriminação "positiva" desses mesmos "rendistas" (o caso do imobiliário é gravíssimo embora se fale pouco por desse fenómeno...), da proteção dessa elite "gestionária"(nomeadamente, da elite financeira / bancária), (etc etc etc), porque a estes "buracos negros" estão associados esses indivíduos que subtraem a esmagadora maioria do rendimento gerado, fazendo-o desaparecer (tantas vezes legalmente!), sem qualquer contribuição.

Concluindo, coloquei demasiada ênfase naquilo que são opções políticas, quando na verdade faltam até as condições de base para essas opções políticas serem discutidas. 

Um problema ainda complexo... 

quinta-feira, julho 14, 2016

A responsabilidade que temos quando confiam em nós





Voltei a chegar a casa muito tarde. Não me parece correcto interromper as pessoas, deixo-as falar.

Está a acontecer-me, uma vez mais, aquilo que tantas vezes me acontece nos mais variados contextos. Sem que eu perceba porquê, as pessoas, do nada, começam a contar-me a sua vida, os seus problemas, as suas ansiedades. No fim, agradecem eu ter-lhes prestado atenção, sorriem e, se antes, no início da conversa, estão soturnas, tensas, ansiosas, no fim sorriem, parecem outras.

E eu, por dentro, fico a pensar que não sei porque é que voltou a acontecer e sinto-me preocupada pela responsabilidade que isso representa. Se as pessoas me entregam segredos, preocupações, desilusões, me falam da sua vida pessoal, como posso eu correr o risco de vir a defraudar as suas expectativas? Mas que tenho eu para lhes oferecer?


Porque me acontece isto? Não sei. E, no entanto, passa a vida a acontecer. Se estou no supermercado à espera que chegue a minha vez para o peixe, como sucede que uma pessoa, que nunca vi antes, comece a falar-me das preocupações que tem com o seu filho, das dificuldades dele em manter um emprego, do pouco que liga ao próprio filho? E eu pouco digo, pouco, apenas ouço. De vez em quando faço uma ou outra observação que parece que incentiva as pessoas a prosseguirem os desabafos porque parecem achar que as entendo, ou que posso pronunciar a palavra certa que as vai aliviar. 

Ou, noutra vez, estacionar o carro e levantar-se uma senhora que estava sentada num muro e vir contar-me que lhe morreu o filho e que não consegue estar em casa sem ele?

Ou, mesmo aqui, receber mails em que as pessoas me contam a sua vida desde pequenas? Os medos, as dificuldades? Porque o fazem? Será porque acham que as vou compreender? Porque mais ninguém as ouve? Juro que não sei.


Agora também é isto. Falo com as pessoas para perceber o que fazem, pergunto-lhes o que gostam de fazer e, nem sei como, num ápice, já estou a ouvir confidências, já as pessoas parecem não conter a torrente que têm dentro de si. Hoje uma senhora, uma simpatia, dizia que não queria maçar-me, que era só mais uma coisa. Mas depois dessa vinha outra, e eu, que mais ouço do que falo, quando falo, ouço-me a falar como se já as conhecesse há muito tempo e, no meu íntimo, penso que tenho que descobrir maneira de as deixar felizes, de as fazer sentir úteis, a sentir que o seu mérito é reconhecido. Mas saberei eu como fazê-lo? 

E as pessoas falam comigo quase como seu eu tivesse o seu futuro nas minhas mãos e eu não sinto isso, eu sinto-me tão insignificante, tão cheia ainda de dúvidas. E digo-lhes isso, que estou a aprender, que quero reunir informação para decidir bem e vejo a compreensão no rosto deles, dizem-me que não é fácil, que mesmo que quisessem não saberiam o que me recomendar mas que confiam que decidirei bem.

Depois, à vinda, no carro, o dia já a querer anoitecer, faço as minhas chamadas, falo com a minha mãe, com a minha filha, com o meu marido (com o meu filho falo depois, a combinação é ser ele a ligar-me) mas, nos intervalos, sinto alguma vontade de chorar porque, de facto, das minhas decisões dependerá a motivação e o ânimo ou a desilução, a continuação do cansaço e da saturação daqueles que parecem confiar tanto em mim. Essa confiança toca-me, comove-me.


Quando se encomenda um trabalho a consultores, eles fazem levantamentos, fluxogramas, escrevem narrativas, elencam aquilo a que agora se chama quick wins, e, se lhes encomendarem isso, até fazem recomendações sobre o nome das pessoas que, na análise deles, corresponde ao profile ou detêm as skills para a função. É uma defesa para quem tem que tomar decisões: dir-se-á que maior transparência não pode haver, que as decisões foram neutras, que se seguiram as recomendações dos consultores e que eles seguiram as best practices. É assim a novilíngua de muito boa gente que pulula na gestão de empresas - e, note-se, não estou a criticar. Na volta, ainda é mesmo esta a forma correcta de trabalhar.

Eu não, eu sou old school. Eu não digo palavrões desses, não sigo modas. Falo com as pessoas com as palavras do dia a dia. Ouço-as.

Depois, claro, não consigo interrompê-las especialmente quando as vejo até emocionadas, coração nas mãos, confiando em mim como se eu fosse uma santa aterrada directamente ali. Daí, muitas vezes, as lindas horas a que agora ando a chegar a casa.

Mas nem tudo depende de mim nem é seguro que eu, perante dezenas de peças, sem instruções, consiga montar o puzzle perfeito.


Ao chegar, tarde e más horas, ainda tive a companhia do meu marido numa caminhada, depois fiz o jantar, fiz a mala, e, então, lá consegui chegar aqui.

E ainda estou com isto na cabeça, as pessoas a confiarem tanto em mim e eu ainda sem saber exactamente o que vou fazer (tanto mais que os meus propósitos não passam exclusivamente pela motivação das pessoas mas, também, por uma série de restrições e objectivos de outras naturezas entre as quais as de índole económica).

Por isso, ao ligar o computador, pus-me a ouvir músicas para ver se lavava a alma e a ver se encontrava imagens interessantes para aqui colocar, na vã esperança de me ocorrer algum outro assunto, tavez até rêveries, coisas à toa. Mas a minha cabeça hoje está noutro lugar. É mais fácil fazer as coisas longe das pessoas, contratar umas empresas para fazerem o trabalho limpo e outras para o trabalho sujo. O que eu faço tem risco, posso falhar e terei sido eu, apenas eu, a falhar.

Enfim. Conversa chata esta hoje, não é?

Páro já.


As fotografias mostram paredes graffitadas e muros de onde pendem flores secas no Ginjal.

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Lianne La Havas, lá em cima, tem uma bela voz e o vídeo é muito bom mas vou ver se descubro também um poema ou um bailado bonito para que não sintam que vieram aqui em vão. Já cá volto, está bem? 

Mas não posso demorar-me muito porque tenho que me levantar cedo. Também não sei se esta quinta-feira à noite conseguirei escrever alguma coisa pois vou para fora e, nestas coisas, jantar nas calmas e conversa sem pressa, volta e meia dão que o regresso ao hotel é tardio e, dado que, no dia seguinte, é também para madrugar, pode não dar para escrituras bloglosféricas. Mas logo vejo.
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Ora bem. Assim de repente:

Poema para Clarice Lispector -- Ferreira Gullar


[Porque, de facto, de facto, poucas coisas neste mundo dependem de nós]


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E agora, se estiverem de acordo, dancemos.

Uma vez mais: "Por una cabeza"de Carlos Gardel





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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.

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segunda-feira, maio 09, 2016

Querido Diário - 3
Hoje vi gatos a preguiçar junto ao Tejo



Os gatos devem ter passado o sábado abrigados. Eu também passei. 

À noite teria a casa cheia, tinha que me preparar, mal chegam a confusão está instalada e, o que não estiver feito antes, já não terá hipótese de ser recuperado. Mal se vêem, desatam a correr atrás uns dos outros, os rapazes jogam às lutas, ela mete-se pelo meio, riem muito alto, gritam, já ninguém consegue um minuto de sossego. Por isso, tenho que me abastecer de silêncios e tranquilidades antes que a casa vire um arraial e que a festa comece. Uma alegria. E, de resto, na rua, estava um vendaval e uma chuva capitosa. Convidava ao aconchego caseiro, às leituras atrasadas, ao suave calor da paz que reina dentro das casas quando se vê e ouve a chuva e o vento a bater nas janelas e as ruas transformadas em rios de água.

Mas este domingo amanheceu apaziguador e os gatos, tal como eu, logo procuraram o sol da beira do rio.

Serão mesmo deuses? Disseram-me uma vez isso, mas não sei se acredite. Não é tanto pela fonte não ser muito credível, é mais porque não sei se a alma que habita os gatos tem poderes sobre os elementos ou sobre os outros seres.

Olho-os intrigada. Olho os seus olhos. E eles deixam-se olhar. Baixo-me, aproximo-me. Seduz-me o olhar superior dos gatos. Agora aqui são dois, quase iguais, igualmente tranquilos.


Não esboçam uma emoção. Olham-me apenas. De vez em quando desviam o olhar. Não tenho coragem de lhes fazer uma festa. Nem sei se devo. Também não gostaria que um desconhecido me viesse passar a mão pelas costas.

Gostava de saber o que pensam, se apenas me acham bizarra ao olhar assim o seu olhar ou se sentem compaixão por eu não perceber o que não deve ser percebido. Talvez saibam melhor que eu que o fascínio não se explica.

Mais à frente um sinuoso gato preto de focinho branco, patas brancas. Gato ou gata. Ondula, meneia-se, rabo ao alto, provocador. Olha-me de soslaio. Ar de bandido. Atrevido.


Por una Cabeza 

(Carlos Gardel)
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