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domingo, abril 05, 2026

Renascimento

 

Dias de labuta, apetece-me dizer. Mas não digo, não gosto de exagerar. Nem gosto de apresentar como obra feita o que é, sobretudo, um desejo. Para onde olhe, vejo coisas que precisam de ser feitas.

Longe vão os tempos em que, ao contrário da maioria das pessoas e, em particular, a minha família, eu estava bem era com obras. Adorava idealizar, ter cá o senhor das obras, mostrar-lhe as minhas ideias, os meus desenhos que ele não percebia e fazia-os ele, à sua maneira, com um bocado de tijolo riscando o cimento ou um pau riscando a terra. E depois ver a evolução, montes de areia e brita, sacos de cimento, pilhas de tijolos. Era a minha praia.

E chegávamos ao fim de semana, depois de uma intensa semana de trabalho, e depois de um bocado a dormir (a bateria descarregava, ia abaixo, mas dormia um par de horas a mais e, num instante estava recarregada), varrer, lavar, sacudir tapetes e cobertas e colchas, e, à noite, pintar ou fazer de arraiolos até ser quase de manhã. 

Agora está bem, está... Olho para o muito que há para fazer e penso que não tenho energia nem para um décimo. É que, ainda por cima, dantes a natureza ainda estava a desenvolver-se, era vê-la a crescer. Agora desenvolveu-se, avança, cresce, e há que arranjar, abrir espaço, cortar, limpar. Tudo muito mais que antes. Ou seja, é um misto disso e da minha genica que já não é a mesma que antes.

Fomos almoçar fora. Descobrimos uma tasquinha simpática numa aldeia não muito longe. Come-se bem. Para começar, havia uma tacinha de azeitonas temperadas e uma cesta de pão variado. Num ápice voou tudo. Adoro pão com azeitonas. Depois pedimos uma entrada de ovos com farinheira. Óptima. Ovos macios, cremosos, pouca farinheira, salsa picadinha. A seguir mandámos vir bochechas assadas, uma dose para cada. Mas, nessa altura já apenas consegui comer duas, e eram pequenas, com salada, um arroz soltinho e umas batatas estaladiças. O meu marido, salvo erro, ficou-se por três. Pedi que pusessem o remanescente numa caixinha. Ainda dá uma refeição para um, nas calmas. Depois um petit gateau de chocolate do Dubai, quentinho, com gelado de pistaccio. Bem bom. 

Resultado: ao jantar apenas comi um pouco de iogurte grego natural, a que misturei sementes e um kiwi com um pouco de burrata. Mas, ainda assim, sinto que engordei cinco quilos. No mínimo.

Quando chegámos do almoço, fomos estender a roupa que eu tinha deixado a lavar.

A seguir, deitei-me debaixo da meia sombra da figueira e quase adormeci. Um dos lençóis estava estendido na corda que vai de um ramo da figueira até a um gancho no telheiro e, por isso, a aragem trazia-me o perfume bom do lençol lavado.

Mas foi sol de pouca dura pois sabia que havia muito trabalhinho à minha espera. Não apenas estava só a ouvir chegar mensagens como não queria deixar passar a tarde.

Varri, varri, varri. Bolotas secas, folhinhas secas de azinheira, caruma, pinhas roídas e secas. Mais a terra que se junta. Não sei quantos carrinhos de mão enchi e transportei e despejei. 

Parei já era quase de noite, e parei não porque já estivesse tudo feito mas porque receei que amanhã não conseguisse mexer-me.

Mas olho e vejo árvores que precisam de ser desbastadas, arbustos que rebentam demais, caminhos a precisarem de ser limpos. E dentro de casa há rodapés que, em algumas zonas, deveriam ser retocados. Sei lá. Sempre coisas para fazer. 

Ontem, quando se ligou a luz da cozinha, disparou o quadro elétrico. Percebemos, depois, que a lâmpada do candeeiro que está sobre a mesa, se tinha fundido. Mas pior, o casquilho parece que derreteu e não se conseguia tirar de lá. De cada vez que se ligava, o disjuntor disparava. Eu com uma lanterna e o meu marido em cima de uma cadeira a ver se conseguia sacar aquilo. Não conseguiu. Teve que tirar o candeeiro do tecto. Provavelmente com as humidades dos dias de muita chuva aconteceu alguma coisa. Agora, à noite, estamos à meia luz. Teremos que ir ver se encontramos uma peça que sirva de casquilho e se adapte àquele candeeiro. Ou seja, insignificâncias -- mas o pior é que, insignificâncias ou não, há sempre qualquer coisa mais para fazer.

E este domingo, logo de manhã, vem cá um senhor para dar um orçamento para tirar os cedros gigantes que tombaram ou caíram ou estão em vias disso e mais os pinheiros e mais roçar o tojo e etc. Não dá muito jeito, na manhã de domingo de páscoa, mas parece que é quando lhe dá jeito; por isso, muito bem, que venha. 

Nem quero pensar que me vou despedir de árvores que plantei, mínimas, e que agora têm muitos metros de altura e que não têm salvação possível. Uma dor de alma. 

E não sei se o excesso de água não continua a fazer estrago pois há mais um cedro e dois pinheiros completamente secos. Imagine-se: água como nunca se viu e as árvores secas. E mesmo um eucalipto gigante está com ar stressado, meio ressequido. A natureza tem coisas... Há que compreender e respeitar, bem sei. Mas o problema é que há coisas que custam a compreender. 

De qualquer forma, talvez para me consolar, penso que outras árvores crescerão, que a vida continuará como sempre continua, renascendo todos os dias.

E, enfim, é o que é. Os pássaros estão em festa, cantam, cantam. Esquilos é que nem sinais deles. Sempre gostava de saber onde é que, de vez em quando, se metem.

E eu chego a esta hora com sono. Mais uma vez não vou agradecer os comentários, um a um. Agradeço aqui colectivamente. É uma e tal da manhã e amanhã tenho que pôr a carne no forno cedo, para assar de vagar. E estar pronta quando vier o senhor. E o que me custa já levantar-me cedo...

O meu marido, há bocado, esteve a falar-me de umas coisas interessantes da Arte da Guerra, de Sun Tsu. Perguntou-me se eu sabia há quantos anos foi escrita. Respondi que talvez para aí há uns mil e tal anos. Não, foi escrita há mais de 2500 anos. Estava a fazer um paralelismo, por contraste, com os idiotas que agora não sabem causar outra coisa senão destruição e morte. Perguntei-lhe se não queria escrever um post sobre isso pois parecia-me bastante interessante (e eu, confesso, estava com preguiça de escrever, apetecia-me continuar a reler o Louvor da Terra de Byung-Chul Han). 

Mas ele também teve preguiça, também estava com sono, já foi dormir... E, por isso, aqui estou eu. Não tenho nada de interessante a reportar, só isto mesmo, mas a vida no campo também é um bocado isto, as pequenas coisas que vão surgindo todos os dias ou as pequenas conversas que se vão tendo.

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Desejo-vos um belo domingo

Que renasça a esperança em melhores dias, que renasça a paz onde hoje há guerra

Que a vida nos sorria a todos

terça-feira, novembro 29, 2022

Quando as casas nos escolhem

 



Uma coisa extraordinária nesta casa é que todos os móveis, candeeiros, quadros, espelhos, tapetes -- tudo o que estava na outra casa -- chegaram aqui e, como que por magia, encontraram o seu sítio. Aliás, parece que ainda estão melhor aqui do que estavam na outra casa. Quase parecem feitos ou escolhidos por medida. 

Se há uma parede em que, entre o interruptor e um ressalto, mede um metro e sete centímetros, agora acolhe uma estante com portinhas de vidro feita à medida para o hall do piso de cima da outra casa e que tem de comprimento um metro e três centímetros. Não podia estar mais ajustada, mais perfeitamente inserida. 

O pequeno móvel de madeira, uma pequena estante também com portinhas de vidro, em cima do qual está a televisão cabe, na justa medida, entre o aquecedor de parede e um outro ressalto na parede. 

A pequena cómoda de barriga, em pau santo, com tampo de mármore, em tempos comprada para um outro fim, está agora aqui ao lado deste sofá, lindinha, movelzinho de apoio, com gavetinhas onde guardo as coisas de costura, velas e outras coisinhas.

E estou apenas a olhar à minha volta. Mas isto acontece em toda a casa.

Esta casa tem vários recantos, é recortada como sempre gostei de casas, permitindo criar, dentro de si, para cada zona, lugarzinhos com identidade própria. E, apesar desta topografia irregular, tudo encontrou aqui o seu lugar certo, quase como se estivessem destinados a esta casa. É difícil explicar isto mas é verdade. 

O meu louceiro alto, comprado há muitos anos na Conceição Vaz Costa, ainda ela estava na Rua da Escola Politécnica, cabe milimetricamente na parede do recanto da sala de jantar. E o louceiro baixo, comprido, que tinha sido comprado à medida da outra sala de jantar, chegou aqui e ajustou-se entre duas janelas, devidamente descontado o espaço para os cortinados. Mas isto aconteceu com tudo. Como peças de um puzzle, tudo se foi encaixando.

Na altura, na fase de andarmos a ver casas, quando viemos vê-la, estava ainda mobilada. E a decoração, embora um pouco mais pesada do que a que normalmente me agrada, foi-me simpática. Deixava espaço livre, tinha cor, aproveitava a luz.

Quando decidimos comprá-la, andávamos nós numa azáfama com as mudanças, um verdadeiro pesadelo. Não acabava. Deitámos muita coisa fora, demos muita coisa, em especial roupa, mas tivemos que preparar infinitos sacos e caixotes. Nessa altura, estava sem tempo e pedi à minha filha que descarregasse as fotografias do site da agência antes que a casa, por ter sido comprada, saísse do ar. Receava que não soubesse bem como usar os meus móveis para aproveitá-los ao máximo e ver se não tinha que comprar muita coisa, e, para isso, julgava eu, talvez me ajudasse ver como os antigos proprietários tinham aproveitado os espaços.

Não foi preciso. Nem mais me lembrei disso.

Mas hoje lembrei-me de ver essas fotos. Lembro-me de, ao ver a casa ao vivo, ter pensado que, tendo a casa uma arquitectura tão peculiar requerendo uma decoração tão 'à medida', iria ter alguma dificuldade em aproveitar as minhas coisas. E, no entanto, agora, comparando-as, parece-me que as minhas coisas nasceram aqui. 

E penso muitas vezes que, se eu tivesse querido conceber uma casa para mim, não sairia tão bem como esta. É como se esta casa tivesse sido feita para mim. É como se, tal como aconteceu in heaven, a casa tivesse esperado por mim, me tivesse escolhido.

Hoje, ao fim da tarde, deu-me uma daquelas minhas vontades de mudança: mudar as coisas de sítio, fazer rearrumações, redecorar. No entanto, parece-me tudo tão exactamente bem colocado que não vejo nada em que mexer. Nem os quadros. Nem os bibelots que a minha filha escolheu de entre os existentes e colocou de uma maneira tão cirúrgica que não dá para mexer.

Percorri a casa, divisão por divisão, feliz por este milagre. Está aqui tudo e está tudo tão harmonioso, tão aconchegante, leve e alegre que não quero alterar nada. Se mexer, estrago.

(Só não sei como vou conformar-me por não ter como andar com as coisas às voltas...)

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Mas deixem que vos mostre duas casas muito bonitas -- uma na cidade, outra no campo -- em que a arquitectura e a decoração e o espaço envolvente e a luz se conjugam de forma harmoniosa e feliz. Foram ambas adaptadas de forma muito orgânica pela arquitecta e dona, Barbara Weiss.

Architect Barbara Weiss Takes Us On A Tour Of Her Upside-Down House, A Converted Pub In Westminster

Designing a home in central London comes with its fair share of challenges and considerations. See how architect Barbara Weiss has ingenuously overcome them, forging private spaces, a rooftop garden and soaring open plan living from an old pub.


Architect Barbara Weiss Invites Us To Her Inside-Out House, A Transformed Cottage In Wiltshire


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Pintura de Van Gog e peças em vidro de Murano na companhia de Jakub Józef Orliński que interpreta Sento In Seno de Vivaldi enquanto Kwinten Guilliams dança
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Um bom dia
Saúde. Harmonia. Paz.

sexta-feira, novembro 13, 2020

Uma experiência homossexual...?

 


Do que me conheço, em abstracto diria que seria altamente provável que eu fosse pansexual: ou seja, que gostasse de pessoas independentemente do seu sexo ou orientação sexual. Crio, naturalmente, uma forte conexão com pessoas de quem gosto. Pelo contrário, sinto repulsa, que é mesmo repulsa física, se verdadeiramente antipatizo com alguém. Não é frequente sentir uma antipatia assim, visceral: tenho que sentir, no meu mais íntimo, que é uma pessoa parva, oca, narcisista, destituída de inteligência, de genuínos sentimentos, de valor de qualquer espécie. Aí nada a fazer, só peço a todos os santinhos para nunca me aparecer à frente. Em contrapartida, se a pessoa é inteligente, se tem sentido de humor, se é generosa, simpática, se desenvolve empatia em relação aos outros, se é boa companhia, se sabe surpreender-me, então, tem a minha simpatia e facilmente me relaciono com ela.

Mas uma coisa é simpatizar, outra é sentir atracção física. Aí, nesse capítulo, sou muito selectiva. Quando eu desdenhava de muitos que toda a gente achava o máximo, havia sempre alguém que dizia: hás-de deixar-me ver o teu caixote do lixo. Para eu me sentir atraída por alguém tem que essa pessoa ser muito de muitas coisas e nada também de muitas coisas. Na atracção física sou fundamentalista. Não há meio termo, não faço concessões. Tem que fazer o pleno dos fundamentais. 

E, até hoje, isso só aconteceu com homens. Nunca me senti atraída por uma mulher. Identicamente, nunca me apercebi de que alguma mulher se sentisse atraída por mim. Que eu saiba, de entre as mulheres com quem me relaciono mais de perto apenas uma é homossexual, mas não assumida. A mim tanto se me dá. Não me faz qualquer impressão nem uma coisa nem o contrário. Simpatizo com ela por ser como é.

Se me forçar a pensar no que poderia ser a minha reacção se uma mulher se apaixonasse por mim ou pretendesse tocar-me de uma formais sexualizada, sinto incómodo. Penso que sentiria repulsa. Mas lá está: nunca aconteceu, o que pense sobre isso é em abstracto. Contudo, a verdade é que face aos antecedentes e à minha muito marcada inclinação hetero, julgo ser altamente improvável que alguma vez venha a ter alguma experiência homossexual. Para o ter, julgo que deveria haver da minha parte, a priori, alguma predisposição e não há. Ou melhor, até hoje nunca houve.

Mas, também em abstracto, uma coisa eu digo: se houvesse essa tal predisposição, não haveria da minha parte qualquer preconceito que me levasse a rejeitar, à partida, uma tentativa. Em abstracto, imagino que o melhor dos mundos deverá ser o mundo dos pansexuais: uma pessoa apaixonar-se e desejar uma pessoa só porque a pessoa nos cativa, nos dá vontade de estar próxima, abraçada a nós, bem apertadinha, nos apetece a sua companhia, nos apetece rir e conversar e passear e construir sonhos e projectos conjuntos e tudo isso pela pessoa em si e não por ser homem ou mulher ou gostar de homens e mulheres; isso parece-me um conceito irrecusável, a maravilha das maravilhas. Cá para mim, felizes os pansexuais. 

Agora que escrevi isto ocorreu-me uma dúvida: ser pansexual será a mesma coisa que ser bissexual? Deve ser, não é? Não sei se conheço alguém bissexual. Se conhecesse e se quisesse falar sobre o assunto, aproveitaria para satisfazer a minha curiosidade. 

Mas, pronto, não conheço, não sei. Não digo mais nada. Limito-me a partilhar um vídeo com as meninas mais prá-frentex de que há memória: Gilda, 78 anos, Helena, 92, e Sônia, 83.

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As fotografias são da autoria de Mario Finazzi na companhia de Portrait of a Lady on Fire (ao som de Vivaldi) e de Carol

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E tudo de bom para vocês, ok?

segunda-feira, outubro 05, 2020

Para que serve a escola?

 


Tenho que assumir: a infantil eu adorei. Toda eu era alegria, só descobertas, uma animação. Tanta animação que nunca consegui dormir a sesta. Depois de almoço, fechavam-se as janelas, estendiam-se os colchões, vinham as mantinhas. E toda a gente dormia. Menos eu. Mandavam-me deitar-me mil vezes porque levantava a cabeça a ver se descobria alguém acordado. Não tinha sono. Queria era que a hora da sesta chegasse ao fim. Vibrava com tudo aquilo. Tinha amigos e amigas, tinha meninos perdidos de amor e tinha a despontar em mim aquele gostinho de disfarçar que gostava de quem gostava e fazer de conta que me interessava por quem não gostava, just for the fun of fazer pirraça aos apaixonados. 

Depois a escola primária: uma graça. Aprender, aprender. Havia outras classes na mesma sala. Ouvia tudo, aprendia tudo sem me dar conta que não tinha a ver comigo. Só gostava de andar com os mal comportados. Pregávamos partidas, tramávamos outras, brincávamos muito e, a esta distância, sinto que namoriscava muito. Uma alegria permanente, uma festa de inocência e leveza absoluta. 

O liceu foi sobretudo uma descoberta dos sentimentos e daquilo que eu viria a ser. Aliás, acho que ainda hoje sou aquilo que já era nessa altura. Aliás, desde sempre. Gostava muito de aprender. Não tudo mas quase tudo. Literatura, sim. Gramática, não. Ciências, muito. Mas Botânica ou Mineralogia não. Tanto que hoje gosto da natureza e na altura as matérias da botânica e da mineralogia enclausuravam de tal forma o conhecimento em taxonomias que eu não consegui libertar-me de tão férreo espartilho. Línguas, muito. História ou Geografia, se tivesse que decorar, nem pensar. Física o mais possível. Química não. Matemática, tudo. Bem, tudo, tudo não. Na altura, Geometria Analítica nem por isso. Mas, de resto, quanto mais abstracto e incompreensível mais eu gostava. Educação Visual nem por isso pois tudo me apelava à liberdade e liberdade era coisa que ali não era permitida. Mas muitos amigos e amigas, muitos pretendentes, muita sessão dançante, muito namoro, muito amor, muito cinema, muita praia, muita descoberta, muita vontade de maior liberdade. 

Depois a universidade. Uma seca, aquela gente marrona. Ninguém parecia estar ali para curtir a vida, só para marrar. Gente mais maçadora. Professores e colegas, os maiores chatos. Tive que diversificar: conhecer gente de outras universidades e institutos, tive que ir em busca de quem tivesse da vida o mesmo entendimento que eu.

Mas as aulas, senhores. Que sofrimento. Matérias que eram de arrasar qualquer um, cadeiras que eram cadeirões. Muitas vezes pensava: que é que estou aqui a fazer? Uma vez fui ter com a minha mãe a meio da semana: chorei. Não gostava daquilo. Tudo excessivamente académico e inútil. Impossível extrair de tudo aquilo algum préstimo. E não havia um único colega que parecesse achar o mesmo que eu. Mais valia desistir. A minha mãe nunca me tinha visto assim. Não me lembro do que ela me disse, só me lembro do seu ar apreensivo.

Aguentei-me até à primeira ronda de avaliações, no fim do primeiro semestre. Para meu espanto, as pautas mostravam chumbos a encarnado de alto a baixo. Os marrões, aqueles que pareciam saber tudo, os puxa-sacos dos professores, afinal também não pescavam nada. E eu, embora tivesse notas que não tinham nada a ver com as minhas notas habituais (até um 12 eu tive), para minha surpresa, até tirei uns 14's e, pasme-se, um 19, que me levou até à primeira prova oral da minha vida, para defesa de nota. 

E toda a gente me disse que eu estava enganada, que estupidez dizer que não percebia nada, que era normal haver um choque, que me habituaria. E a verdade é que mil outras coisas começaram a acontecer, todas mil vezes mais importantes do que o curso. Pensei: se largasse isto, qual seria a alternativa? E nenhuma me pareceu perfeita. Pensei: para fazer o que quero fazer na vida, isto é capaz de ser uma boa muleta. E que se lixe. Que a vida andasse leve, feliz e que, cadeira após cadeira, o curso se fosse cumprindo. E algum tempo depois estava a trabalhar, depois a casar, sempre estudando. Sem dramas. Às vezes chegava a casa e ficava aterrada com o pesadelo que me esperava: sebentas intragáveis, livros gigantes, matérias estarrecedoras. Pensava muitas vezes que não conseguiria tragar tal bisonte. Nessas alturas, pouco dada que sou a altas filosofias, agarrava-me àquela velha máxima de que a forma de comer um boi é cortá-lo primeiro em bifes. Claro que, com o tempo, aprendi que, antes disso é preciso agarrá-lo e, em boa verdade, antes é preciso querer agarrá-lo. Mas, posta a posta, consegui despachar tudo e ver-me livre de tudo o que tinha para fazer até obter o diploma que quis à maneira antiga, verdadeiramente dentro de um canudo. Uma preciosidade, sobretudo com valor simbólico. 

E com o curso despachado, respondi a um anúncio, fui escolhida, larguei a docência e fui prosseguindo o meu caminho. De tudo o que aprendi, aproveitei, ao longo de todos estes anos, os básicos, os fundamentais. O resto, o conteúdo daquelas infernais sebentas e tinhosos livros, esqueci. De tudo, o que aproveitei foi, sobretudo, a capacidade para resistir à vontade de desistir. Aprendi a, mesmo não gostando, seguir em frente. Aprendi que, mais importante que tudo, a capacidade para lidar com o que não nos interessa, com o que nos maça até à medula, com o que nos parece uma perda de tempo, um atraso de vida é fundamental. Grande parte da nossa vida profissional é feita disso: de vontade de desistir e, ao mesmo tempo, vontade de chegar ao fim, de alturas em que damos tudo para ver como melhor nos livramos de desalentos, de empecilhos, de desmotivações, de malas pesadas e atrasos de vida. 

E, isso não tenho dúvida, foi na escola, sobretudo na universidade, que melhor o aprendi.

Agora, confesso uma outra coisa que, a mim, me custa a perceber: como é que há gente que faz de andar, durante anos e anos, a papar cursos um modo de vida? 

Ou será que há cursos em que é tudo filet mignon, bifinho do lombo, tudo do bom e do melhor, tudo da máxima utilidade e, ainda por cima, tudo piece of cake? Só se for isso. Escola é boa para a gente passar por lá, conseguir passar por entre os pingos da chuva, fazer desse processo uma aprendizagem, perceber o que é que, dali, faz sentido e pode ser útil, reter essas bases, aprender a aprender, e pronto, já está, bye bye, seguir em frente.

Escola para mim, para ser útil e boa, tinha que ser outra coisa. Exemplifico: vamos supor um curso daqueles que o comum dos mortais teme, digamos que, por exemplo, Física. Um curso carregadinho de Matemática, que vai das vulgares termodinâmicas até às mais puras abstrações, um cocktail de leis e funções e teoremas e calculatórias e o escambau. O que lhe faria eu? Pois bem: cinquenta por cento seria disso mesmo, teria mesmo que ser, talvez temperando com ainda maior dose de abstracção, tanta que quase se comparasse à poesia, e os outros cinquenta por cento seriam Literatura, Filosofia, Psicologia, Economia Política, Línguas, Arte, Saúde, Ambiente. E uma parte das aulas seria dada ao ar livre. E seria obrigatório que os estudantes vissem cinema, lessem livros e, em conjunto, nas aulas, os discutissem. As escolas deveriam ensinar as pessoas a serem completas, inteiras, íntegras, boas pessoas, generosas, tolerantes, curiosas, dignas, pessoas que gostem de viver e de apreciar o que a vida tem de bom.

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Fotografei estas flores este domingo aqui no meu jardim. Ainda não as tinha descoberto. Graças a um precioso conselho que o Corvo Negro em boa hora aqui deixou e que muito agradeço, instalei a app Plant-net que me acompanha nas minhas descobertas. Esta é a Passiflora 'Amethyst' e é tão linda e perfeita que me deixou encantada. E agora apeteceu-me ver como resistia a diferentes banhos de cor. E acho que resiste bem: a beleza resiste a tudo.

Enquanto isso, Roberta Mameli interpreta "Apri le luci, e mira" de Vivaldi

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E agora, com vossa licença, o vídeo da Voz da Razão que me fez escrever este post

(ie, das Avós da Razão, justamente sobre a escola -- ou melhor, sobre como ter vontade de ir à escola)

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Um bom 5 de Outubro.

E cuidado: usem máscara e guardem distância. 
Os coronas andem aí (alguns disfarçados de Trump).

quinta-feira, novembro 28, 2019

Cores, perfumes, sentidos, burnouts, pedras em equilíbrio, banho no gelo, coisas assim


by Tim Wlaker


No outro dia uma menina do escritório cruzou-se comigo, apressada, e eu também apressada, de entrada para uma reunião, e disse-me: a Cláudia tem uma pergunta para lhe fazer. De passagem pela secretária da Cláudia, abrandei o passo e perguntei-lhe o que era. Estava sentada mas rodou na minha direcção, chegando-se à frente para me segurar nos braços e perguntar: 'Cheira sempre tão bem... Mas ontem, então, deixou um cheirinho tão bom... Mesmo. Quando entrei na sala onde tinha estado, senti aquele cheirinho que pensei logo que tinha que ganhar coragem para lhe perguntar qual era o perfume'. Pensei um bocado e disse-lhe. Pela expressão, vi que nunca de tal tinha ouvido falar. De facto, é pouco divulgado.

Sou incapaz de sair de casa para o trabalho sem me perfumar. Que me lembre, nunca me esqueço. Dos brincos já me esqueci. Ainda no outro dia. Estava carregada de coisas e, ainda por cima, com sombrinha. Tinha umas calças pretas e uma camisa também preta com flores azuis. Levava uma écharpe também preta e também com flores azuis mas num azul mais forte que o da camisa. Olhei para mim no elevador e reparei que me tinha esquecido dos brincos. Olhei para o relógio. Ficaria apertado se voltasse a casa. Consolei-me: não tenho brincos mas tenho o piercing, sempre dá um ar de sua graça, e, além disso, o contraste das flores azuis sobre fundo preto talvez seja motivo suficiente para disfarçar. Quando cheguei à rua, ao fazer o movimento de passar o casaco de um braço para o outro, on the fly (como soi dizer-se), reparei que o colar que tinha posto puxava para o turquesa e não para o alfazema como o azul das flores da camisa. Foi um sobressalto. Impossível ir assim. Se há coisa a que sou excessivamente sensível é à harmonia cromática. Furiosa, dei meia volta e voltei a casa. A luz artificial é traiçoeira para estas nuances. A correr, mudei de colar e, claro está, aproveitei para resolver a outra lacuna: coloquei uns brinquinhos mínimos, duas bolinhas de azulinho transparente.

Coisas que acontecem. Pode parecer que são coisas que não interessam para nada mas é ilusão: interessam e muito. Se vou com alguma coisa que não me parece bem, é razão suficiente para ficar a tender para o indisposto e, com isso, o dia pode ficar irreversivelmente toldado e, lá está, pode até haver o risco de, com a minha indisposição, toldar o dia a quem não tem nada a ver com o assunto. É, em ponto pequeno, aquilo da borboleta que espirra na China e o gato no Chile, sem saber por quê, ficar com o pelo eriçado. 


E também escolho o perfume em função do dia, de como vai ser o programa de festas, da roupa que visto, da disposição que antecipo: o perfume é uma peça relevante do cenário que monto em mim. 

Aos poucos, tenho-me vindo a transformar. Depois da extrema lealdade, agora vario completamente. O Nº 5 continua o ser o special one até porque, em mim, se transforma de uma maneira que me agrada muito. Não é pesado, não é quente, não é cansativo. Pelo contrário, é leve, subtil, íntimo. Tenho lido muito sobre perfumes e sei que os perfumes são diferentes, ou melhor, evoluem diferentemente ao longo do dia, consoante a pele em que pousam. Mas a partir do momento em que comecei a ousar, primeiro dentro dos Chanel, depois com um que consumi com o maior prazer e que infelizmente deixou de ser comercializado (pelo menos nas perfumarias que costumo frequentar), o She Wood da DSquared2, fui-me libertando.

for Bulgari

Creio que já contei: no outro dia, deixei-me tentar por um da Elizabeth Arden: figo e chá verde. Uma coisa... Invulgar e, no entanto, de tal maneira cativante... 

Reza assim a sua descrição: 
Inspired by the lusciously sweet fruit, Elizabeth Arden Green Tea Fig takes you to a rustic countryside full of sparkle, warmth and laughter. A burst of Clementine, Green Tea Accord, Kadota Fig, Violet Leaf and Musk wrap you in the refreshing simplicity of this musky fruity floral. Green Tea Fig. Delight your senses.
E só estas palavras já contêm, em si, o perfume de todo um bouquet de emoções. Isto dos perfumes é uma arte. Cada vez mais acho isso.
Penso que é por descender dos bichos do interior da terra que tenho os sentidos todos muito activos. 
Nunca me deu para me doutorar e acho que nunca dará. Não teria paciência para perseguir um tema, um único tema, e aprofundá-lo, dissecá-lo, mumificá-lo, transpô-lo para um texto encavalitado por números e deitado sobre um rodapé sempre pejado de anotações que não são senão a ferramentaria transformada em bibelot. Coisa boa para gente paciente e muito dada ao intelecto, coisa que duplamente não sou. Eu é mais sentidos. Os seis.
© Gabriella for Vogue IT

Há bocado vi um artigo que pensei que me ia interessar: Il rapporto fra profumi, libri e letteratura. Mas não, nada do que eu pensaria. Estabelecer uma relação entre literatura e perfumes parece-me uma boa ideia mas uma coisa mais na base de um quizz. A gente dizia os livros de que gosta e um algoritmo adivinhava qual a fragrância que melhor nos assenta. Fiz agora uma pesquisa e há vários quizz para identificar a fragrância que melhor nos assenta mas tudo na base da banalidade, nada na base das preferências literárias. Portanto, o artigo desiludiu-me: é chato e não me traz dicas interessantes. 

Um blog que gosto de espreitar é o Bois de Jasmin. Tudo ali é de bom gosto. E depois há muita gente a comentar, com conversas curiosas, todo um mundo. 

Há muitos mundos paralelos. A todo o momento me apercebo disto. Habitamos o mesmo planeta, um planeta em exaustão, mas, sabe-se lá como, ainda assim conseguimos habitar mundos diferentes, mundos que se ignoram e que, na maior parte das vezes, se excluem mutuamente. Eu não sei bem qual o meu mundo. Talvez um limbo resultante da intersecção de vários outros mundos. 

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Hoje estou assim, sem energia. Durante estes dias, muita gente enervada à minha volta,  embora alguns negando-o, dizendo que estão tranquilos,  um ou outro provavelmente naquilo que dantes se dizia que era esgotamento -- e que agora se internacionalizou para burnout -- a chorar compulsivamente à minha frente, e, em cima disso, muita decisão para tomar, muitas vezes ter que fechar os olhos para não arranjar chatice e bola para a frente, e, ao mesmo tempo, em alguns aspectos, muita indefinição, muita procrastinação -- ou seja, alguma canseira. 

by Tim Wlaker

E, para ajudar à festa, um mau jeito que me traz dores. Ontem à noite, ao preparar-me para sair do carro, já a segurar na tralha que ia transportar, toca-me o telefone. E que é dele? Estiquei-me para o lado, para baixo e para o lado, para trás, em diagonal, toda esticada a apalpar até onde o braço atingia. Até que o telefone se calou. Felizmente, a seguir veio nova chamada e baixando-me mais, para perceber de onde vinha o toque, lá o descobri. A seguir a esses alongamentos forçados, foi vir carregada para casa. Conclusão: algum dos músculos que se esticou não gostou da ginástica. 

Vou tomar um ben-u-ron e vou dormir a ver se, durante o sono, os músculos de desensarilham. Hoje não estou nos meus dias. Que me desculpem os autores dos comentários mas hoje não vai dar. Logo hoje que são tantos e tão bons, tão sumarentos. Mas, para mal dos meus pecados, hoje não dá mesmo.

Mas, para que não sintam que aqui vieram para nada, permitam que partilhe convosco dois vídeos de Jonna Jinton, aquela jovem que vive uma vida que deve ser uma maravilha, num lugar fantástico. Este de colocar as pedras (que me faz lembrar aquele senhor que está ali no Terreiro do Paço, à beira de água) dá-me vontade de, lá in heaven, ir experimentar. Parece-me uma coisa muito interessante.



E este do banho no gelo também me parece uma boa coisa, bonito, embora não me imagine a ter tal coragem. Fogo...

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E é isto. Peace and love, minha gente.

domingo, setembro 15, 2019

Caminha no Caminho de Santiago.
E, com vossa licença, umas freirinhas e uma igreja muito linda e uma futebolada na praia e mais umas vistas.





Repito-me -- e peço desculpa por isso -- mas esta pequena vila tem sido um poçozinho de revelações. 

Agora mais uma: víamos chegar ao hotel pessoas que chegavam de mochila e que pareciam sair na manhã seguinte. Ou, então, grupos que chegavam e a seguir chegava uma carrinha com malas. Registavam-se e, entretanto, alguém ia deixar-lhes as malas na entrada. Estávamos intrigados com aquilo.

E nas ruas ou rente ao rio. Na direcção da foz, com mochilas, ar de caminhantes. Caminhantes por todo o lado. Víamos também grupos de ciclistas, mas ciclistas atípicos. 

Reparámos que muitos traziam nas mochilas uma concha e alguns também umas fitas. Começamos a perceber que se tratava de peregrinos. 


Pensámos logo: o Caminho de Santiago, el Camiño. Mas a passar por Caminha? Quem faz uma peregrinação não tentará todos os short cuts possíveis? Podendo traçar uma diagonal no percurso, porque haveria alguém de fazer o caminho mais longo, por Caminha? 

Mas, então, eis que, na Vila, na praça central, vendo-os aos magotes, reparei que alguns olhavam o chão. Olhei também. Umas pequenas placas. Confirmava-se, pois, que Caminha está na rota de Santiago.

Entretanto, numa pequena lojinha de artesanato, ao conversar com a sua simpática dona (e a ver se ainda faço um post com os recuerditos que trouxe), perguntei-lhe se agora é altura de peregrinação. Riu-se, não, é todo o ano, embora menos no inverno e mais no verão. Perguntei: muito movimento aqui, não? Ela disse: nas comidas e dormidas sim mas, nas lojas, não. Trazem pouca coisa, não podem andar carregados. Falou-me então em cadernetas, disse-me que punha carimbos. Falou-me na concha, nas fitas, que isso é o que lhe compram mais. E mostrou-me: lá estavam, iguais às que eu tinha visto. Perguntei se em Caminha há muito onde ficar já que via tantos peregrinos. Disse-me que talvez a maior parte fique no Albergue e creio que me falou em seis euros por noite (mas será que percebi bem? Seis euros...!?). Mas acrescentou que cada vez mais também no hotel, lá em baixo, na foz do rio. Pois, lá está. E acrescentou: mas cada vez há mais pois parece que estão a preferir mais o caminho do mar. Pensei: então é isso, preferem vir pela costa, o caminho português da costa, deve ser mais bonito apesar de mais longo.


E, entretanto, os ciclistas. Os e as. Muitas mulheres. Fotografei um grupo que aparentemente tinha ficado no hotel. De resto, na entrada do hotel, tínhamos estranhado uma zona de estacionamento para bicicletas. Era, então, isso. Falavam animadamente. Ingleses. Mais mulheres que homens. E, diria eu, maioritariamente acima dos cinquenta. Aliás, alguns e algumas, diria eu que bem acima dos sessenta. Estava pasmada. Como é que gente desta idade se mete a fazer percursos assim, de bicicleta? O meu marido, que não se espanta com nada, respondeu simplesmente: Com treino. Com certeza que não estão agora a andar de bicicleta pela primeira vez. Pois não sei. Nem sei que vos diga. Nem sei de onde partem para, sendo ingleses, estarem ali, a caminho de Compostela. O meu marido disse: Provavelmente vêm da terra deles de avião até ao Porto e aí é que, se calhar, começam o percurso. 


O grupo que fotografei saíu do hotel e, quando eu estava à espera que fossem pela ciclovia até ao cais do ferryboat, não, seguiram pelo passadiço, a caminho da praia. Voltei a ficar admirada. O meu marido disse: Se calhar aproveitam para conhecer os lugares por onde passam, se calhar vão ver o mar. Mas não. Nós, que íamos a pé para a praia, encontrámo-los na pequena paliçada do cais do barco-taxi e, aos poucos, na maior animação, começaram a ir.


Passado um bocado, andávamos nós a caminhar junto ao mar, reparei em pontinhos coloridos já do lado de lá, em Espanha. Eram eles. Já lá estavam todos. Esperaram que estivessem todos e depois ala, lá foram pedalando, um atrás do outro. Bonito de ver.


Perguntei ao meu marido: como será fazer uma coisa destas? Não de bicicleta, que não teríamos estaleca para tal, mas, sei lá, a pé. Nem respondeu. Perguntei: mas as pessoas virão por motivos religiosos ou pela graça de fazerem o percurso? Respondeu apenas: Sei lá. E não me deu conversa. Não é coisa que lhe interesse. E eu, se quiser ser realista, terei que reconhecer que uma caminhada destas deve ser obra.

Mas fiquei a pensar. Sendo uma coisa soft, ficando em hotéis, parte do percurso em autocarro, não seria uma caminhada boa de se fazer? Ir por aí, andando, conhecendo cada local, fotografando, até chegar lá, ao fim do Caminho. O meu marido acha que não, que, deslumbrando-me eu com cada pequena coisa e querendo fotografar tudo, nunca mais chegávamos ao nosso destino. Pois, se calhar tem razão.

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E já que falo em peregrinações (que, se calhar, maioritariamente têm motivações religiosas), faço a agulha para outro tema que também mete religião. 

Na esplanada no Largo principal de Caminha, uma freira já com alguma idade anda de mesa em mesa, chocalhando uma caixinha e perguntando se queremos uma medalhinha de uma santinha, não percebi qual. Quando se pergunta quanto é, diz que é o que se quiser dar. E a verdade é que muita gente lhe dá uma moedinha.


Quando, depois de termos petiscado, entrei na Igreja do Largo, lá estava ela na última fila, absorta, contando o dinheiro que tinha conseguido. Mas, ao ver aproximar-me, de imediato levantou a caixinha e fez a mesma pergunta: uma medalhinha da minha santinha? Achei graça.

Mas eu estava ali apenas para ver, para estar. Gosto de entrar em igrejas vazias. São frescas, são lugares de tranquilidade. E espaços bonitos, carinhosamente cuidados. 


Entretanto, quando, pouco depois, andávamos a passear, lá iam mais duas, conversando. E pode ser visão selectiva ou distracção mas a verdade é que não tenho ideia de ver em Lisboa um par de freiras a andar na rua há que séculos. Se calhar é porque não passo ao pé de algum convento onde elas vivam, porque é capaz de haver algum e acredito que ainda se vistam assim, em Lisboa como no resto do país. Mas a verdade é que achei graça. Tendo eu acabado de ver nas esplanadas gente com um ar tão ou mais cosmopolita do que em Lisboa e, inclusivamente, tendo acabado de fotografar uma mulher tal e qual a Lady Gaga, com um chapéu giríssimo que lhe ficava a matar, pareceu-me estar a ter uma visão do passado ao ver, naquela ruela, as duas 'irmãzinhas da caridade'.


E, por ora, é isto. Temo que, com tanto post -- e tão longos e com tanta fotografia--, já estejam fartos da minha reportagem em Caminha. Entretanto já lá não estou, já regressei à minha selva in heaven.

Mas ainda tenho aqui tanta coisa bonita que gostaria de partilhar convosco. Não sei o que faça. Também fomos a Vila Nova de Cerveira e também gostava de mostrar algumas imagens. Mas sei que uma pessoa pode tornar-se uma maçadora de primeira a querer impingir aos outros aquilo que viu. Portanto, calo-me já deixando-vos apenas com mais quatro fotografias. 

Fiz esta fotografia dentro de água, mesmo, mesmo na foz do rio, no sítio em que ele entra no mar.
(E, apesar do risco, a máquina fotográfica aguentou-se...)
Do lado direito Portugal, Caminha, e, do esquerdo, Espanha

Talvez nesta perspectiva se perceba melhor onde é a foz do rio Minho.
(Tal como a primeira fotografia, esta foi feita num dos miradouros da Vila.)
A ponta de areia que se vê mais ou menos à esquerda é o areal que, do lado de cá, é praia de rio e que, depois do bico, é praia de mar, indo em contínuo até Moledo.
Do lado de cá das águas é, pois, Portugal e, do lado de lá, Espanha
Não é uma paisagem tão linda?

Futebolada na praia (Espanha em frente).
A sorte destes miúdos...

Pôr do Sol do lado do rio (continua a ser Espanha o que se vê do lado de lá das águas)

E agora é que é. Vou ver se fotografo ainda os little recuerditos para vos mostrar. Tralha, inutilidades, diz o meu marido. Pois, não digo que não.

E um bom dia de domingo.

terça-feira, agosto 06, 2019

Como definir o que não pode ser dito?


[No seguimento de A oradora-surpresa]

Como prosseguir esta narrativa sem abrir demasiado o jogo? 

Não pensei ainda bem nisso. Só sei que tenho que ter alguma cautela. Costumo escrever sem pensar muito mas agora, pela sensibilidade do tema, não pode ser bem assim. A ver se consigo ou se, chegada a certo ponto, terei que interromper. Logo se vê. Se interromper, interrompo e só vos peço que não estranhem.

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Quando saí da conferência, já no carro, avisei a Clara que tinha dado o seu contacto ao Manuel. E escuso de dizer que os nomes deles não são estes. A Clara riu, 'Boa!', e eu também.

Mal tinha eu acabado de desligar, eis que chega uma chamada do Manuel.
‘Oi, Manel, então? Que é que conta?’
E ele a disfarçar (são tão imaturos, os homens): ‘Interessante, não foi? Temas oportunos… O que achou?' 
E eu: 'Gostei. Também achei interessante: um dia bem passado e algumas novidades. Mas vamos ver o que dizem os resultados do inquérito aos participantes.'
E ele, como se esse não fosse o tema do telefonema: 'E aquela doutora trouxe uma visão nova. Quem é que terá tido a ideia de a convidar?’  
E eu: ‘Concordo: a beldade que, pelos vistos, deixou os homens de cabeça à roda, é boa naquilo. Agora como é que ali foi parar não faço ideia, só sei que me pediram para acertar com ela alguns aspectos logísticos e, se quer que lhe diga, nem sei bem porque me pediram a mim, na volta, por ela ser mulher, aquelas cabecinhas pensadoras acharam que combinações com mulheres têm que ser feitas por mulheres. Enfim, é o que é... Mas, olhe, por sinal, até acabou por não me custar nada, achei-a, de facto, bem simpática.’ 
E ele, como quem não quer a coisa: ‘Ok. Olhe, estava aqui a pensar, não seria de lhe dar um toque a dizer que me deu o contacto dela para, caso eu, um dia destes, resolver ligar, ela não estranhar?’  
E eu: ‘Sim, está bem, eu dou um toque, na boa, fique descansado.’  
E ele, a disfarçar: ‘É que há várias coisas que ela ali disse que parece que se aplicam um bocado às minhas andanças, na volta ainda preciso é de algumas explicações…’ e sorriu fingindo que aquilo era uma graça, como se, de facto, o que quisesse fosse apenas conhecê-la melhor e estivesse a fingir que era outra coisa.  
E eu a pensar: 'Está bem, está, dança que o teu dançar tem graça'
O caso é que ele anda em negociações que envolvem empresários de outro país e não só o sector é crítico como tudo o que se relacione com esse tal outro país -- como dizê-lo? -- deve ser tratado com pinças.

Dias depois, encontrei-me com ela, casualmente, num pequeno restaurante de uma grande superfície. Mostrámo-nos surpreendidas com o encontro fortuito e logo ali, enquanto almoçávamos, mostrámos uma à outra o que tínhamos comprado nos saldos. Duas conhecidas que se encontram por mero acaso e mostram os seus bons achados. Banal.


E, entretanto, pusemos a conversa em dia. Naturalmente falámos por meias palavras e em voz baixa, mantendo o tom solto de quem troca informações sobre blusinhas, perfumes, pechinchas.
Diz-me ela: ‘Olha, sabes?, confirmei a nossa intuição. Cá para mim ele está mesmo na mão de alguém. Não tenho ainda provas... mas, olha, não devem tardar. No meio de piadas e veladíssimos piropos, e, olha lá, o tipo até tem graça, veio com conversas vagas, pediu conselhos abstractos, tudo a fingir que não era com ele, sempre como quem não quer a coisa, sempre que era para o caso de alguma vez vir a acontecer uma coisa a alguém, frisando que era informação geral para um just in case, sempre tudo intercalado com gracinhas charmosas, tudo meio a brincar. Ou seja, embora disfarçando, fazendo-se de descontraído e até a fingir que estava a fazer um charminho, cá para mim é uma questão de tempo até eu perceber o que se está a passar.' 
Sorri. Conheço a peça.
Certeira, ela continuou: 'Conta-me lá outra vez: como é que ele é? Com a mania que é engatatão?’ 
Reavivei-lhe a informação: ‘Viaja muito. É rara a semana em que não sai. Tenho-o por desconfiado e reservado. Geralmente meticuloso. Gosta de analisar ao detalhe o que tem em mãos. E não é pessoa que alardeie conquistas ou feitos. Faz-se, até, de humilde, gosta de se fazer passar por alguém que não tem ‘manha’. Mas também tem fama de não saber ceder a flausina que se lhe insinue. Contam-se-lhe alguns namoricos, já sabes, nestas coisas não é fácil distinguir o que é do que parece.’  
Ela não se admirou, ficou por um instante a pensar e depois concluiu: ‘Digo-te: são um perigo, tipos assim.’  
Confirmei: ‘Os piores’. 
Ela quis ainda saber: ‘E domina os gadgets ou é só fogo de vista?’ 
Fiquei na dúvida: ‘O que não faltam são outros mais info-excluídos que ele. Por isso, por aí não é dos piores. Mas, na verdade, acho que se limita a usar o básico e dificilmente tem entendimento para muito mais. Agora, como deves ter reparado, é só do bom e do melhor. E tem, por exemplo, uma coisa que não aprende nem por mais uma. Mas isso é ele e acho que quase todos os outros: tem que estar sempre ‘ligado’ porque se não vir os mails durante mais do que o tempo de voo, receia que as empresas se afundem’. E encolhi os ombros. Há causas perdidas.  
Ela também. ‘Típico.’
Depois combinámos algumas coisas mas naquela nossa forma, que só nós entendemos, e despedimo-nos da mesma forma alegre e descontraída com que nos tínhamos encontrado.

Nessa tarde, acidentalmente, cruzei-me com o Manel no escritório.
Ele, como quem não quer a coisa: 'Simpática, aquela doutora... Como é que ela se chama...?' 
'Quem?', fiz-me eu de sonsa.  
'Aquela que foi à conferência...' 
'Ah, a Drª Clara. Sim, também me pareceu. Já falou com ela?' 
E ele, blasé mas sem conseguir esconder a hesitação: 'Sim... Batemos umas bolas... nada de especial. Mas por acaso até acho que tenho alguma coisa a aprender com ela. Tenho estado a pensar e estou capaz de a convidar a dar um salto até aqui... O que acha? Acha que ela está para isso...?' 
Fiz-me eu de 'nem aí': 'Ah, isso não faço ideia. Não sei se ela dá explicações ao domicílio... Em que contexto lhe pediria isso?' 
Aí ele hesitou. 'Pois, essa é a minha dúvida. Mas se calhar até podíamos contratá-la. Porque não...? O que acha...?'  
Continuei a fazer-me de desinteressada no assunto: 'Sim, talvez. Porque não? Ausculte-a. Logo vê.'
E assim ficámos.

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[E a ver vamos se haverá continuação]

Talvez um dia destes explique porque estou a usar fotografias da Isabelle Huppert como Clara

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domingo, março 24, 2019

Post entre o fálico e o angelical





Almoçámos todos e, enquanto comeram, os meninos estiveram relativamente sossegados. O bebé come de tudo e gosta de fazer misturadas. Hoje misturou sumo de laranja na gyoza, nos noodles com frango, no pão chinês com carne e mel e no crepe vietnamita e continuou a comer de gosto. Os irmãos e primos comem mais que eu. São auto suficientes e têm um apetite voraz. À medida que cada travessa chega logo eles se atiram e, em segundos, a travessa fica vazia. 

O pior é que, mal acabam de comer, começam a conversar; daí a coisa evolui para ensinarem umas coisas uns aos outros e, sem darmos como, quando olhamos, já eles estão a fazer das deles. Hoje juntaram algumas cadeiras, tiraram os sapatos e, ali mesmo, usando os tampos das cadeiras, praticaram técnicas de judo. O bebé mal viu, quis sair da cadeirinha, depois quis tirar os ténis e também quis ir para lá. Um dos primos içou-o e ficou o bando dos cinco completo. Ela alinha, anda com os rapazes mas marca a diferença, não se mistura naquelas maluqueiras.Tinha um livro novo, com cheiros, e, no meio da maior confusão, pôs-se a ler.


No fim, depois de termos estado com eles no jardim ao sol e de os vermos a brincar,  concluímos os dois que as crianças já comem como gente grande e que cada vez é mais difícil perceber as quantidades necessárias. O meu marido acha que temos que nos precaver e contar com muito mais comida, senão fica a sensação de que foi quase à tangente.

Depois, voltámos à nossa labuta. Para salvar árvores, desbastamo-las até bem alto e até que as copas fiquem bem afastadas. Mas o serrote que está na ponta do cabo já está passado, já não corta nada. O meu marido trouxe um serrote novo para trocar mas acho que não conseguiu, não sei bem porquê. Não sei como é que ele, empoleirado lá no alto da escada, conseguiu serrar tantos ramos com aquele serrote. Eu, com o serrote pequeno, tentei serrar alguns ramos mais baixos ou serrar em troncos pequenos os ramos gigantes de cedro que ele cortou. Mas mal consegui. A madeira de cedro é muito dura e meio húmida. Vi-me grega. Esforcei-me, esforcei-me mas os resultados ficaram aquém do que o meu esforço indiciaria.


E fotografei as coisinhas dos pinheiros, pequenos falos com as suas pequenas glandes rosadas. Vultosinhos fálicos que contrastam com as flores angelicais e perfeitas dos marmeleiros.

Com os dedos abri um daqueles espigões peludos. É verde e húmido por dentro. E cheira tão bem, aquele cheiro bom a pinus de que eu tanto gosto. Peguei entre os dedos e fotografei.


Depois, já de noite, comecei a arrastar os ramos lá para baixo mas o meu marido chamou-me, aborreceu-se, não quer que eu ande lá por baixo sozinha. Mas eu gosto de andar na penumbra. E há perfumes diferentes de noite, perfumes mais intensos. E há sons misteriosos. E as árvores, à noite, são vultos que guardam enigmas. E eu gosto. Mas ele chama-me, fica zangado, não quer, não me vê, chama-me e eu não respondo porque estou longe, mal ouço e percebo que não tenho potência vocal para me fazer ouvir. Mas, assim, a ouvir chamar ao longe por mim, perco a vontade de andar devagarinho, sozinha nos caminhos escuros, confundindo-me com as sombras crepusculares da natureza.

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Ando com alguma dificuldade em dar nomes aos posts. Não planeio, as palavras deslizam para o ecrã e vêm ao fluir da  coisa, nem dou conta, nem sei bem que é isto que vou escrevendo. Sei que falo de muita coisa diferente e, na hora de resumir, não há denominador comum, ponto de intersecção. Por vezes há ponto de fuga e é ele que eu agarro para pôr no altarzinho. Agora, se não há, fico sem saber. Se calhar vou falar na pilinha do pinheiro. E digo pilinha por simplificação porque os ramos cortados tinham várias, deveria dizer 'pilinhas'. E, para dizer a verdade, a palavra tem um i e um l a mais. A palavra certa deveria ser 'pinha'. Mas como o processo foi interrompido e daqui nunca há-de nascer uma pinha prefiro fazer de conta que sou dada aos erotismos e chamar-lhe pilinha. Também quem manda ter aquela cabecinha cor de rosa na ponta, não é? E pronto, para contrabalançar, vou pôr no título as florzinhas inocentes dos marmeleiros. Dali nascerão marmelos e aí haverá mentes maldosas que poderão estabelecer conotações. Mas eu não, eu fico-me pela sua beleza angelical para ver se catequisam aquelas coisinhas que parecem dadas ao pecado.

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As anedotas e os cartazes com o tempero do humor britânico estão já aqui abaixo e, claro está, têm a ver com a anedota do Brexit.