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segunda-feira, junho 08, 2026

Uma entrevista a não perder

 

Falo por mim: do nazismo não tive, felizmente, conhecimento directo. O que sei, sei de ler ou ouvir. Mas sei que veio devagar, veio com apoio popular, espalhou-se perante o silêncio e a cumplicidade de muitos, se calhar, da maioria.

Daquilo a que assisto agora há muita coisa que me choca. Muita. A cobardia de quem ouve e, em vez de se levantar e virar costas, aplaude; a cobardia dos que, podendo renegar, se calam, se escudam com a diplomacia. Não fico incomodada, desagradada, revoltada apenas com os algozes, os pérfidos, os bandidos, os canalhas -- fico, quase igualmente, com os cobardes, os hipócritas, os oportunistas, os igualmente canalhas.

Assisto ao impensável nos Estados Unidos mas assisto igualmente ao impensável na Europa, ao calar-se perante as ingerências, as ameaças e as desconsiderações de Trump e da sua entourage. Assisto ao impensável por parte de Israel mas assisto igualmente ao impensável na Europa, ao calar-se, ao fechar os olhos, na prática, ao ser cúmplice de Netanyahu. Assisto ao impensável por parte da Rússia e, neste caso, assisto ao impensável por parte de todos quantos se têm manifestado a favor da deposição das armas por parte da Ucrânia. Não se extinguem aqui as ignomínias no mundo. Mas prefiro focar-me nos casos de maior dimensão, talvez pelo risco para a ordem mundial, talvez pelo risco para as democracias de todo o mundo, talvez pela quase habituação, e aceitação, da violação do direito internacional, talvez pelo risco da banalização do mal.

A entrevista que aqui abaixo partilho é apenas um caso. Mas é um caso a que não fico indiferente, e não é apenas pela emoção e pela revolta, pela tristeza que se sente nas palavras do entrevistado. Quando a imprensa, que deveria ser livre, fica nas mãos de quem apenas pensa em dinheiro, em lamber as botas do poder, em bajular os maiores inimigos da liberdade de expressão, mal, muito mal vão as coisas. Os sinos tocam a rebate pela democracia quando a imprensa livre é ameaçada.

Independentemente disso, a entrevista vale também pela qualidade da entrevistadora e do entrevistado. 

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Scott Pelley: O que aconteceu ao '60 Minutes' é uma tragédia | A Entrevista

Estreada na CBS em 1968, a emissora foi o lar de alguns dos jornalistas mais conceituados da televisão, de Mike Wallace e Ed Bradley a Lesley Stahl, Anderson Cooper e, até à semana passada, Scott Pelley.

Pelley, que trabalhou na emissora por 37 anos, incluindo como correspondente da Casa Branca, âncora do "CBS Evening News" e correspondente do "60 Minutes", foi demitido após uma série de eventos explosivos e muita turbulência nos últimos anos na CBS. Estes acontecimentos incluem um polémico acordo financeiro com o Presidente Trump sobre um segmento do "60 Minutes"; a venda da estação a David Ellison; e a nomeação de Bari Weiss, ex-colunista de Opinião do New York Times e fundadora do The Free Press, sem experiência em jornalismo televisivo, para liderar a CBS News.

A demissão de Pelley ocorreu depois de Weiss ter demitido vários de seus colegas e ter contratado um novo chefe para o "60 Minutes", Nick Bilton, com quem Pelley entrou em conflitonuma reunião de equipe. Pelley, juntamente com vários outros correspondentes do "60 Minutes" que foram demitidos, acusou Weiss de interferência editorial e parcialidade, acusações que a CBS News e Weiss negam.

Na sua primeira entrevista desde que foi demitido, Pelley conta sobre o incidente específico que considerou interferência, sobre as suas experiências na CBS News nas últimas semanas e meses e sobre o que espera que resulte deste período turbulento na emissora onde passou a maior parte de sua carreira.


Desejo-vos uma boa semana a começar por esta segunda-feira

sábado, janeiro 31, 2026

Por vezes é uma canção que une e exprime a comoção das multidões.
Talvez seja o caso de Streets Of Minneapolis de Bruce Springsteen.

 

Debaixo das intempéries, resistindo à invasão das tropas que mais parecem tropas nazis às ordens do louco, corrupto e cruel Trump, a corajosa população de Minneapolis ajuda os 'vizinhos', protege-os como pode da violência cega das milícias, vem para as ruas e protesta, protesta mesmo sabendo que, do outro lado, está gente impreparada, violenta, instruídos para espalharem o terror. 

De entre os mortos, emerge a morte à queima roupa, à vista de todos, tiros disparados sem razão e sem compaixão, de Renée Good e Alex Petti, dois inocentes cidadãos americanos. Mas que fossem chilenos, mexicanos, chineses, guineenses ou de qualquer outra nacionalidade. Nenhuma morte assim tem perdão.

E, no meio dos protestos e dando voz à tristeza e à revolta de todos, eis que Bruce Springsteen corporiza numa canção o que todos sentem. Um hino de coragem e resistência.

Bruce Springsteen - Streets Of Minneapolis (Official Lyric Video)

Through the winter's ice and cold
Down Nicollet Avenue
A city aflame fought fire and ice
'Neath an occupier's boots
King Trump's private army from the DHS
Guns belted to their coats
Came to Minneapolis to enforce the law
Or so their story goes

Against smoke and rubber bullets
In the dawn's early light
Citizens stood for justice
Their voices ringin' through the night
And there were bloody footprints
Where mercy should have stood
And two dead, left to die on snow-filled streets
Alex Pretti and Renée Good

Oh our Minneapolis, I hear your voice
Singing through the bloody mist
We’ll take our stand for this land
And the stranger in our midst
Here in our home they killed and roamed
In the winter of ’26
We’ll remember the names of those who died

On the streets of Minneapolis


segunda-feira, outubro 27, 2025

Pedro Paixão, o outro

 

Como vejo cada vez menos televisão deixei passar a entrevista a Pedro Paixão, feita, se bem percebi, a propósito do lançamento do seu último livro. Felizmente, o algoritmo do youtube, que, como se sabe, me topa à légua, agora serviu-ma de bandeja. 

Sempre gostei imenso de o ouvir. É daquelas pessoas que tem um grão daquela loucura que, quando vem com mansidão e com inteligência, se torna sedutora. 

Li vários dos seus livros, alguns com alguma perplexidade, outros com curiosidade, outros com admiração. Outros nem tanto -- mas isso não tem mal pois não é suposto que alguém agrade sempre a outra pessoa.

Pedro Paixão, pelos seus excessos e pela forma articulada e, ao mesmo tempo, despojada, é uma daquelas personagens contraditórias a que pessoas como eu acham piada. Pessoas mais recticulares, menos dadas a apreciar os desvios à norma, não acham graça nenhuma, dizem que 'o tipo é maluco' e viram-se para outro lado.

Desta vez, Pedro Paixão está diferente. Ele próprio o diz: mais sensato. De facto, achei-o outro. Mas, ainda, interessante. E ainda dado a excessos. 

Conta que, porque a mulher se ofereceu duas telas, uns pincéis e uns tubos de tinta, começou a pintar e já pintou para cima de 250 telas. Identifico-me muito com ele. Quando o meu filho me fez idêntica oferta aconteceu-me esse mesmo entusiasmo, uma loucura, ficava a pintar até às tantas da manhã, não conseguia parar de inventar formas, misturar cores, descobrir ousadias. Parei por já não ter onde guardar tantas, tantas, tantas telas. Tenho telas pintadas guardadas em todos os buracos que consegui descobrir. Tive que parar, claro. Mas só eu sei a vontade que volta e meia sinto, quase um formigueiro nas mãos.

Fiquei curiosa com o livro. Sendo o tema que é, um tema que nos rasga as entranhas, imagino que seja da pesada. Literalmente, até  -- tem mais de 800 páginas. Mas diz ele que são anotações que não precisam de ser lidas em sequência e, portanto, assim sendo, sinto-me desobrigada de ler como 'deve ser' podendo fazê-lo apenas salteadamente, e isso é bom pois cada vez mais sou praticante dessa forma de leitura. 

Nunca fui a Auschwitz nem nunca irei. E posso afirmá-lo com certeza absoluta. Não seria capaz. Nem nesta nem numa qualquer futura encarnação. Jamais. 

Houve uma altura em que lia muitos livros sobre o assunto e, de cada vez que os lia, ficava transtornadíssima. Depois deixei de conseguir ler. Há em mim uma parte que parece não ser capaz de assimilar a maldade extrema, a alienação doentia, a cegueira, a estupidez qualificada. O que se passou nesses anos é, para mim, algo que o meu entendimento não atinge. E essa falta de entendimento perturba-me. Como foi uma coisa assim possível? Como?! Como é possível haver pessoas tão doentiamente más que levaram a cabo tal desumanidade? Como é possível que tanta gente tenha pactuado? Como foi possível a tanta gente ignorar? Como foi possível a tanta gente viver depois do que aconteceu? Como não ficaram esmagadas pelo peso da consciência? Não encontro resposta para nenhuma destas perguntas. 

É quase a mesma perplexidade que sinto quando vejo que há tanta gente que não se indigna -- mas com uma indignação profunda, inequívoca, aquela indignação que vem das entranhas -- com o que se passa nos países em que há guerra e em que alguém decide invadir um país ou matar a sua população, destruir as suas casas, as suas vidas, os seus sonhos, o seu futuro. Ou quando vejo que há quem encare o que se passa nos Estados Unidos com bonomia, como se fosse apenas uma palhaçada, parecendo ignorar os perigos.

Diz o Pedro Paixão que depois de ter visitado Auschwitz deixou de conseguir ler ficção. Compreendo-o muito bem. Perante situações extremas, a cabeça reformata-se.

Ele foi corajoso: visitou o lugar e durante anos investigou o assunto, nomeadamente o papel da Igreja Católica em todo o processo. Deve ter-se sentido arrepiado muitas vezes. Diz que deu o livro por encerrado quando se encontrou sem forças para mais. Imagino. Anos mergulhado no horror devem deixar qualquer um esgotado.

Correndo o risco de estar a partilhar imagens que V. já conhecem, pois poderão ter visto a entrevista no dia em que foi emitida no Now, coloco o vídeo na mesma, nem que seja para aqui ficar como um pro memoria pessoal.

Da minha pequena janela vejo o mundo -  Pedro Paixão no Guerra e Paz, no NOW

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Dias felizes. Saúde, alegria, ânimo.
Paz.

segunda-feira, setembro 22, 2025

Just saying

 

Volto a um dos temas que me anda a preocupar por demais: a transição de regime nos Estados Unidos às mãos de um único homem.

Apesar de ser claro para toda a gente com dois dedos de testa que esse homem tem uma mente perturbada, a verdade é que o regime de um grande país como os Estados Unidos soçobrou em pouco tempo e que o resto do mundo assiste passivo e submisso, vergando as costas para agradar a esse narcisista maligno, psicopata, paranico, vingativo, demente, etc.

Este domingo, com as cerimónias fúnebres de Charlie Kirk, ficará na história como um dos marcos dessa perigosa viragem para um regime totalitário, obscurantista, persecutório, em que a bíblia, ou melhor, a sua interpretação desenquadrada e fundamentalista, substitui a Constituição. 

Uma multidão ululante, cega, avidamente transformou em mártir um influencer racista, xenófono, reaccionário, misógino que, não se sabe ainda porquê ou por quem, foi assassinado. Obviamente condeno este homicídio pois sou visceralmente contra o uso de armas e de violência para resolver diferendos ideológicos ou outros. Portanto, acho chocante que alguém faça o que foi feito, assassinando Charlie Kirk.

Mas condenar o seu assassinato não pode levar, de modo algum, à sua transformação num mártir nem ao branqueamento do que ele disse e fez.

Contudo, tudo o que aconteceu naquela tarde -- aquele disparo, um único tiro -- está tão cheio de contradições, de inexplicações e de impossibilidades que fico espantada por tanta gente achar normal uma narrativa que se desfaz a ela própria.

Não ouso alinhar-me com nenhuma das inúmeras teorias que irrompem mas, sem mais comentários, partilho vídeos que aparecem pela mão de ferrenhos MAGA's, amigos do peito de Charlie Kirk, que têm vindo a fazer saber que Charlie KIRK, nos últimos tempos, parecia estar a afastar-se de algumas linhas traçadas por quem parece mexer todos os cordelinhos da política americana. Por exemplo, estava a demarcar-se cada vez mais frontalmente de Netanyahu. Por exemplo, estava também a manifestar-se cada vez mais claramente sobre a possibilidade de Epstein ter sido um activo da Mossad ou da CIA ou sabe-se lá de quem. Por exemplo, estava a exigir cada vez mais abertamente a divulgação integral dos ficheiros Epstein, tema que, obviamente, deixa doido não apenas Trump como todos os envolvidos.

Sendo ele o ponta de lança do MAGA no recrutamento de jovens, o principal responsável em manter viva a chama  pró Trump e pró MAGA na camada universitária e junto dos jovens que vivem nas redes sociais, alguns dos mais ilustres e vocais MAGAs  (Megyn Kelly, Candace Owens e Tucker Carlson, por exemplo) sugerem, embora não o explicitem, que as inúmeras ameaças que Charlie Kirk vinha recebendo poderão ter alguma coisa a ver com o seu fim.

São mundos que me são estranhos, que me assustam, que me metem medo e sobre os quais nada sei. Apenas sei que gostaria que os meus filhos e netos vivessem sempre em democracias sãs, liberais, humanistas, livres, modernas. Gostaria que nunca no meu país se vivesse uma realidade diabólica, demente, disfuncional, distópica como aquela que se vive nos Estados Unidos.

Seria bom que os portugueses e os europeus em geral conhecessem um pouco melhor o que está ali a passar-se. Talvez só assim percebam o risco que é abrir as portas a movimentos populistas, anti-democráticos.

Partilho estes vídeos apenas porque penso que devemos ter um pensamento crítico, informado, que devemos questionar as narrativas que não nos parecem lógicas, que devemos olhar para o que se passa à nossa volta, para o que se passa atrás do que nos é mostrado.

Megyn Kelly Breaks Down the Controversy Surrounding Candace Owens, Ackman, Israel, and Charlie Kirk

Megyn Kelly breaks down the controversy surrounding Israeli Prime Minister Netanyahu’s comments on Charlie Kirk’s legacy, Candace Owens’ remarks about the letter and Kirk's views on Israel, Megyn and Charlie's conversation about Israel last month, and more.


Kirk on Epstein




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Desejo-vos uma boa semana a começar por esta segunda-feira

Que a paz, a democracia, a liberdade e o humanismo nunca nos faltem

quarta-feira, setembro 03, 2025

E não digam que elas não avisaram...


Diziam que estava morto. Vários dias sem aparecer quando toda a gente que se pela por falar aos jornalistas, três conferências de imprensa por dia, e isto numa altura em que as mãos aparecem cheias de derrames (que ele tenta cobrir com base), que se esconde atrás de mesas para ninguém ver os tornozelos inchados a transbordarem dos sapatos. 

Depois, quando apareceu, disseram que os da Segurança andavam a passear o morto. Tornaram-se virais os memes que parodiavam o fim-de-semana com o morto em que o morto era ele, de polo branco, barrigudo, e com aquele boné encarnado ridículo a dizer 'o trump teve razão em tudo'. Depois, quando ele falou mas sem aparecer, disseram que não estava bem, que a voz estava estranha, que mais parecia um tate-bitate a falar, que o mais certo é que tivesse tido um avc. Depois apareceu em pessoa e viu-se que, afinal, não só estava vivo como continuava igual a ele. Vi um pouco: continua repulsivamente megalómano, narcisista, doido varrido. E vingativo e pronto para levar a dele avante, seja lá o que for que lhe passe pela cabeça. 

Os avisos sucedem-se: ele é autoritário, incompetente, ignorante, maníaco, e quer fazer dos Estados Unidos a sua coutada, usar o país em seu próprio benefício. Expulsa e maltrata aqueles que elegeu como inimigos, silencia os que o denunciam, corta financiamentos aos que ousam ter voz própria, despede os que mostram independência. Explicam: foi assim que nasceu o nazismo, foi assim que se espalhou o fascismo. 

Agora meteu na cabeça que ser ser Nobel da Paz e anda a espalhar que já acabou com várias guerras. Começou por falar em quatro, depois passou para seis, agora já vai em sete. Tudo aldrabices sem ponta por onde se lhe peguem. Mais parece um filme cómico, tanto o disparate.

O Putin, então, anda a gozar com ele mas a gozar à cara podre: depois de o tourear no Alasca, agora anda a mostrar que faz dele o que quer e, às claras, mostra quem é a sua turma. Chama a Xi Jinping 'querido amigo' e, na volta, vai dizer o mesmo a Kim Jong-un e aos outros ditadores da grupeta que se juntou em Pequim. Aposto que os amigos do PCP, que tanto defendem Putin e que não conseguem ver porque é que o resto do mundo acha que Kim Jong-u é um ditadorzeco, também gostavam de ter sido convidados. Afinal, sentir-se-iam em casa porque aquilo lá, aquele grupinho de ditadores, é tudo uma maltosa que também abomina a Europa, a democracia, o livre pensamento.

Há muita gente que anda a falar publicamente contra Trump, a denunciar as suas patranhas, as suas jogadas de risco, o seu autoritarismo que não conhece barreiras nem lei. 

Mas hoje trago aqui um grupo de avozinhas que acho o máximo: as extraordinárias Piedmont Raging Grannies. Acho-as o máximo. Quando tendo a cair na desesperança, vejo coisas assim e encho-me, outra vez de esperança. Resistir. Resistir. Resistir. De todas as maneiras.

Tem que se arranjar maneira de furar a tacanhez, a grunhice dos burros do Maga, e, talvez com coisas assim, alguns, sentindo-se gozados, se sintam levemente vacilantes. Não sei. Mas, pela parte que me toca, diverte-me partilhar isto. Tenho a certeza de que no dia em que Trump (e J.D. Vance, esse outro bicho asqueroso que anda danadinho para tomar o lugar do palhaço-mor cor de laranja) caia e os Maga percebam a banhada que é o trumpismo, todos os movimentos populistas que por aí despontam também vão sofrer um revés. O Ventura inflou como inflou alavancado pela vitória de Trump -- é certo que levado ao colo pela Comunicação Social e depois levado em ombros pelo Mentenegro.

Fascist Donald Has a Game  -  Piedmont Raging Grannies


Trump is in the Files  -- Piedmont Raging Grannies

He’s trying everything he can think of to distract from breaking his promise to release the #Epstein files. So, here’s a reminder! 

Vivam as avozinhas! 
-- estas e as de todo o mundo, em especial as que se mantêm vivas, jovens, com a cabeça arejada.

domingo, junho 22, 2025

O MP, a PJ e os perigos para a democracia
-- A palavra ao meu marido --

 

A semana passada a PJ fez uma operação com o objetivo de desmantelar um grupo neonazi que atuava em Portugal. Curiosamente, só o fez depois de vermos reportagens jornalísticas sobre o grupo e de elementos do grupo terem agredido pacatos cidadãos que apenas faziam aquilo que conscientemente entendiam fazer sem qualquer prejuízo para a sociedade. 

Tenho sempre alguma dificuldade em entender a razão de as polícias não investigarem o que realmente é perigoso para a sociedade e para a democracia e andarem a reboque da comunicação social nestes assuntos. 

Soube-se, entretanto, que o grupo neonazi tinha militantes que pertenciam à polícia, à GNR e às Forças Armadas e que planeava acabar com o governo socialista por meio de uma ação violenta no parlamento. 

Enquanto se desenvolviam estas ações organizativas, criminosas e verdadeiramente perigosas para a democracia, o MP estava preocupado com os jantares do Galamba e com mais uma série de putativas parvoíces. É de " louvar" a perspicácia dos  magistrados que, por manifesta falta de qualidade ou por, porventura, terem agendas escondidas, em vez de investigarem assuntos verdadeiramente importantes, se ocupavam de menoridades inconsequentes. 

Não consta que durante quatro anos tenham feito oitenta e tal mil escutas telefónicas ao polícia que chefiava o grupo. Esqueceram-se ou não era prioritário? 

Também é curioso que a polícia e as forças armadas não consigam garantir que o respetivo pessoal cumpre os mínimos democráticos. 

Já agora não quero deixar de referir que a votação no Chega deu, em minha opinião, um forte contributo para estes grupos saírem do covil e aparecerem em público a defender ideologias intoleráveis, contra os mais elementares direitos dos cidadãos. Também se deve agradecer ao José Pedro Aguiar Branco o trabalhinho que fez como presidente da AR ao permitir que o Chega denegrisse o Parlamento durante toda a legislatura. Assim, se criam percepções que tornam as instituições alvos fáceis para quem quer destruir a democracia e se potencia o voto nas forças anti sistema. 

"Parabéns" José Pedro. Ou será que ainda é possível emendar a mão? Aguarda-se para ver o seu comportamento nesta legislatura.

Caminhamos numa direção muito perigosa e corremos o risco de em pouco tempo desbaratarmos o que levou muitos anos a conquistar. Os EUA, com o Trump, são um exemplo acabado deste retrocesso. Se não tivermos pessoas preocupadas e pressionantes e políticos à altura, isto não vai acabar bem. 

Infelizmente, do que se tem visto parece que a malta que agora governa está mais preocupada em seguir a agenda do Chega do que seguir um caminho escorreito. Tempos desafiantes.

segunda-feira, setembro 26, 2022

Quando a maior e mais nuclearizada nação do mundo está nas mãos de um único homem o que podemos dizer é que estamos a atravessar um dos períodos mais sombrios da nossa existência

 

Mesmo que se tratasse de um homem equilibrado, um democrata, um humanista, um tipo decente, um fulano culto e com uma visão holística do mundo, ainda assim seria perigoso. Toda a gente funciona bem até deixar de funcionar. E um país tem que ter camadas de poder, camadas não apenas horizontais (diferentes níveis de decisão) como camadas de poder distintas e independentes. E umas camadas devem vigiar as outras. E os termos em que a vigilância entre camadas independentes se exerce devem estar bem definidos.

Mesmo assim há perigos como vimos com Trump que, apesar de todos os checks and balances, conseguiu manter-se durante uns anos à frente dos Estados Unidos. E isto apesar de todas as suas mentiras, de toda a incompetência, dos reais riscos de deslealdade que a proximidade a Putin prenunciavam, do narcisismo doentio que o levava a toda a espécie de dislates e alarvidades, apesar da erosão política e social que cavou na sociedade americana. 

Agora imagine-se um regime obsoleto, baseado na distribuição de prebendas entre oligarcas (muitos dos quais, estranhamente, a aparecer mortos), em que as supostas primeiras figuras são humilhadas publicamente ou sumariamente descartadas, em que a lógica é a da concentração de um poder absoluto em Putin, um ex-agente do KGB, um saudosista de impérios de má memória, um psicopata assassino que governa ditatorialmente e que não se importa de sacrificar milhares de vidas para salvar a sua.

O que Fareed Zakaria diz no vídeo abaixo é muito interessante e muito claro. 

O que está a acontecer na Rússia e na Ucrânia é grave demais. Diz ele -- e eu acredito -- que a implosão do regime putinista não deve estar longe. O pior é o que vai acontecer até lá. O mundo está um lugar cada vez mais perigoso.

Zakaria explains what Putin's nuclear threat tells us about him

CNN's Fareed Zakaria discusses Putin's nuclear threats toward the West and what they tell us about  his war in Ukraine


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PS: Claro que os resultados em Itália também não podem deixar ninguém muito tranquilo

O nazismo e o fascismo cercam as democracias como feras sedentas de sangue.

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sexta-feira, abril 22, 2022

A história da velhinha e dos escuteiros explicada ao PZP

 

Tenho-me lembrado desta adivinha a propósito do negacionismo e da inacreditável posição do PZP a propósito da invasão e da destruição da Ucrânia por parte da Rússia.

Pergunta: Porque é que são precisos pelo menos seis escuteiros para ajudar uma velhinha a atravessar uma rua?

Resposta: Porque a velhinha não quer atravessar a rua.

Os comunistas têm engendrado a mais inqualificável narrativa para defender os actos criminosos de Putin: que os ucranianos também foram uns filhos da mãe com os russos na Crimeia, que os ucranianos é que provocaram a guerra querendo aderir à UE e à Nato. Sei lá.

Ou seja, os comunistaz portugueses parece que ainda não perceberam uma coisa: os ucranianos não querem deixar de ser ucranianos, não querem ficar sob o jugo russo. N-ã-o   q-u-e-r-e-m!

Os ucranianos são cidadãos de um país que se quer independente e livre e, como tal, querem ter o direito a decidir como entenderem e a fazer o que querem dentro das suas fronteiras.

Se os russos, a mando de um criminoso, pensam o contrário e, contra todas as normas do direito internacional, invadem a Ucrânia, os ucranianos têm todo o direito a defenderem-se como podem. Poderiam defenestrar os vendidos, os miguéis de vasconcelos e os pachecos desta vida, poderiam correr com os invasores à espadeirada, poderiam ser como a nossa padeira de Aljubarrota ou como a valorosa Joana D'Arc -- e, se calhar, têm feito um pouco de tudo isso. Perante as mais tenebrosas ameaças, há quem tenha a coragem de fazer o que pode para defender o país e a liberdade. E felizmente há heróis que, perante os golias, continuam a lutar, a dar a vida até à última pinga de sangue pelo seu país.

O nosso PZP não percebe isto? Não percebe que os ucranianos querem ser ucranianos e querem ser livres?

O que advoga o PZP? 

Defendem que os ucranianos deveriam ter-se deitado no chão para as tropas de Putin passarem por cima? Que servissem cafezinhos aos russos? Que se pusessem todos à janela a acenar com lencinhos brancos para receber os invasores? Ou o PZP acha que quem fale russo deve ser russo? É isso?

Felizmente não falo russo senão ainda seria condenada pelo PZP se me defendesse (apedrejando os bandidos ou fazendo o que estivesse ao meu alcance), caso os russos resolvessem destruir-me a casa ou dar-me tiros à queima-roupa por eu não querer ser russa.

Pasmo com isto. Estou muito desiludida com os nossos comunistas. Nunca pensei assistir a isto. Tinha-os, globalmente, em relativamente boa conta. Um bocado (ou bastante) politicamente autistas mas, ainda assim, gente de boa cepa.

Agora, com as cobardes e hipócritas posições que os vejo a tomarem, já ponho toda a minha ideia sobre eles em perspectiva. Acho até que quem assim pensa é gente perigosa. Aparentemente serão os primeiros a render-se e a vergar caso o país seja invadido e agredido, serão os primeiros a trair os mais sagrados valores da democracia. E, pelo que tenho observado -- vendo-os a usar os argumentos mais insanos e vendo a agressividade que usam na sua argumentação -- até admito que seriam capazes de denunciar aos russos todos os que não se vendessem ou não fossem alistar-se nas milícias pró-russas.

Caraças. 

Como é que não percebi antes que era gente capaz de tanto ódio à liberdade e tanta submissão perante a tirania?

Desonram o seu passado. Desonram os que deram a vida pela liberdade. 

Não serão todos, acredito. Acredito que muitos se desliguem do partido. Acredito que muitos, por honrarem o seu passado, se demarcarão do que o PCP hoje representa.

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Os desgraçados que se vêem nestas fotografias são os belicistas desta história? São!? 

Vejam bem, demorem o tempo de que precisarem, e depois respondam. Mas respondam ao espelho, a olharem-se nos olhos.









Fotografias da Reuters: A city destroyed: Scenes of devastation in besieged Mariupol

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No vídeo abaixo, Putin dá ordem ao seu Ministro da Defesa de não deixar passar nem uma mosca num local onde estão, isoladas, milhares de pessoas (militares e civis), decretando assim que morram à sede e à fome, sem água, sem luz, sem comunicações.

Mas Putin não está a dar ordens para o seu Ministro actuar dentro das fronteiras do seu próprio país: não, está a esmagar, a pulverizar um outro país, condenando ao êxodo os que conseguem sair e condenando à morte os que não conseguem. 

É isto que o PZP defende?

São belicistas os ucranianos que ficam sem casa, sem familiares, que se refugiam seja onde for e que, em alguns casos, são deportados para campos (de concentração?) na Rússia? São belicistas os que lutam até à morte?

Que vergonha, senhores comunistas, que vergonha, que vergonha tão grande. 

Russian troops to blockade Mariupol 'so that a fly can’t get through' says Putin


É isto que defendem, senhores e senhoras que não são capazes de condenar Putin?

Pela parte que me toca, quando agora vejo alguém do PCP na televisão a pôr-se ao lado de ditadores, criminosos e facínoras, mudo de canal. É mais forte que eu: sinto-me nauseada com as suas palavras, não aguento.

quinta-feira, abril 21, 2022

Se, por uma desgraçada malapata, o Putin viesse discursar na nossa Assembleia da República lá teríamos o PZP a aplaudir. Todas as outras bancadas vazias, claro.

 

E isto porquê? Porque Putin é declaradamente não comunista, absolutamente populista (Alexander Dugin dixit)? Porque é o grande protector dos oligarcas? Porque é um conhecido tirano, cabecilha de um regime totalitário que prende e envenena quem se lhe opõe? Porque não tardará a ser julgado como criminoso de guerra? Porque tem uma perigosa psicose imperialista de reconstruir a União Soviética e expandir até à ponta da Europa (leia-se: nós)?

É disto que o PZP gosta? É este o modelo que o PZP defende?

Ou porque acredita que... o regime putinista é anti-belicista

... Será...?

Veja-se o gráfico que mostra qual o país que tem o maior arsenal nuclear:


E é de notar que não apenas Rússia é o país com maior arsenal nuclear como tem sido público e notório que esse arsenal não está em boas mãos pois Putin, não apenas é um país invasor e agressor, violando todas as alíneas do direito internacional como, ameaçadoramente, usa e abusa de ameaças nucleares

Se há regime que na actualidade mais em risco põe os países vizinhos -- e todo o mundo -- é o regime russo, um regime belicista, criminoso e muito perigoso. Os historiadores o classificarão pelo que não me arrisco a antecipar se será fascista, nazi ou simplesmente demencial.

É este o regime que o moribundo PZP defende?

Tenho pena de assistir a esta morte sem dignidade. 

quinta-feira, março 31, 2022

Hitler comenta fotografias ao acaso

 

Se calhar, qualquer dia, em vez de paródias com Hitler tê-las-emos com Putin. Estão bem um para o outro: psicopatas e mitómanos. E tão excessivos são os seus crimes e tão alheados aqueles assassinos sempre se mostraram em relação ao sofrimento e destruição que causaram que os seus comportamentos só encaixam em caricaturas. E, não há dúvidas, dão bons bonecos. E tão tresloucados são na sua desmedida ambição e na ignorância dos seus limites que só podem ter um fim caricato, sem deixar saudades, bons para ficcionar.

NB: Estas capas nunca existiram. São um trabalho da autoria de Patrick Mulder

Daqui por uns tempos, quando Putin for passado, pode acontecer que também existam saudosistas e tarados que o venerem tal como hoje ainda há malucos que têm o Hitler como seu guru. 

Não será de admirar: há malucos para tudo. Cruz suástica tatuada, cabeças rapadas, gente parva. Podem sempre dar bons figurantes nas paródias.

[De notar, contudo, que só se consegue rir com as maluquices deles quando já não têm como exercer a sua sanha destruidora.]

sexta-feira, março 11, 2022

Pequenas acções com impacto mediático
-- como renomear as ruas das embaixadas russas como Ukrainian Heroes’ Street e Free Ukraine Street ou iluminar com as cores da Ucrânia alguns edifícios russos
Isso e a divulgação de tanques russos ao abandono nos campos da Ucrânia ou opiniões de quem sabe dizendo que Putin vai perder esta guerra -- tudo o que possa desmoralizar e ajudar os russos a perceberem que devem apear Putin

Небольшие акции с влиянием СМИ
– например, переименование улиц российских посольств в улицу Героев Украины и улицу Свободной Украины или подсветку некоторых российских зданий украинскими цветами < br>Это и огласка брошенных российских танков на полях Украины или мнения знающих людей о том, что Путин проиграет эту войну — все, что может деморализовать и помочь русским осознать, что они должны слезть с Путина.

 

Ao falar com o meu filho sobre o que se passa na Ucrânia, embora coincidindo no repúdio absoluto sobre a invasão e sobre a guerra, quando abordamos as motivações russas estamos em corredores distintos. Eu falo de um maluco criminoso, ele fala de estratégia política. Eu falo da repulsa que o mundo sente pelo que se passa e ele pergunta-me a que mundo me refiro. Eu digo que me refiro ao mundo civilizado e ele diz que isso é apenas uma parte do mundo e, para o provar, fala-me da China e da Índia que, em conjunto com a Rússia -- e os territórios que esta quer ter sob a sua influência -- são um pólo relevantíssimo e que não lhe parece que aí estejam muito preocupados com o que se passa. E fala-me também de países árabes -- ou seja, para ele, o tema tem muito mais a ver com equilíbrios geo-políticos que têm vindo a ser estudados pelo regime russo do que com o que se passa na cabeça de Putin.

Como disse no post abaixo, o meu feeling vai num sentido distinto. Na minha perspectiva, o que se passa é, acima de tudo, o delírio de um ditador, a deriva imperialista e mitómana de um narcisista criminoso.

Por isso, penso que nas estratégias para acabar com a chacina em curso deveria ser levado em conta a melhor forma de neutralizar Putin.

Seria bom que todo o mundo (pelo menos, o dito munto civilizado) se unisse de todas as formas possíveis e imaginárias para o derrubar, impedindo-o de continuar nesta sua deriva criminosa. É certo que isso já tem estado a acontecer mas era bom que, embora actuando de forma racional e tanto quanto possível prudente, se fosse mais intenso, mais ubíquo, mais arrasador. 

O apoio à Ucrânia com armas e munições é importante e as sanções à Rússia e a oligarcas russos também. Talvez sejam dos vectores mais rápidos e efectivos. Contudo, sabemos como o apoio com armas tem que ser cuidadoso para que não forneça o pretexto para que as coisas ainda escalem ainda mais... e arma puxa arma e mais gente vai caindo morta. E algumas sanções são impossíveis no imediato (quando se está dependente do assassino para algumas necessidades vitais, gestos de corte radical são bravatas que lesam mais quem toma a iniciativa do que aquele que se quer lesar). 

Por isso, que se deite mão a tudo o que se puder, seja o que for que tenha visibilidade e que possa chegar até à Rússia, em especial à opinião pública russa para que Putin seja desmoralizado, para que os russos se virem cada vez mais contra ele, para que percam o medo, para que mil forças convirjam para resolver o assunto.

Repesco exemplos já postos em prática em alguns locais e acrescento algumas sugestões. Tudo coisas com bastante visibilidade e repercussão e que tendem a fazer com que os russos que apoiam Putin se sintam ridicularizados e com que Putin comece a sentir as pernas fracas, humilhado.



  • Seria bom que, em todo o lado em que existam embaixadas ou consulados russos ou instalações de empresas estatais ou instituições russas, fosse seguido o exemplo da Lituânia que mudou o nome da rua da Embaixada russa para Rua dos Heróis da Ucrânia ou de outras capitais que estão a mudar para 'Rua Libertem a Ucrânia'

  • Seria bom que, sempre que possível, fosse seguido o exemplo de Portugal e se iluminassem os edifícios russos (embaixadas, consulados, empresas - o que for) com as cores azul e amarelo. 
  • Sei dos riscos mas seria bom que na própria Rússia houvesse maneira de que, nas principais praças e avenidas, vários edifícios começassem a aparecer assim iluminados.

  • Nunca julguei que me fosse possível defender a actuação de hackers... mas hoje vou fazê-lo. Seria bom que hackers conseguissem entrar nos sites mais vistos na Rússia e pusessem como home page e em todas as páginas imagens da guerra na Ucrânia. 
  • Seria bom que também conseguissem entrar no alinhamento publicitário das televisões e rádios russos e, no meio dos anúncios, aparecessem imagens da guerra ou mensagens denunciando os crimes de Putin. 
  • Seria bom que entrassem nos feed de todos os media russos mensagens denunciando os crimes de Putin
  • Seria bom que os aviões comerciais que sobrevoam a Rússia aparecessem pintados com as cores da Ucrânia.

  • Seria bom que tal como foi feito com Trump, fossem feitos mega bonecos insuflados de Putin colocando-o a ridículo, vestido de nazi ou com cara de diabo e as mãos a escorrer sangue. Seria bom que isso fosse aparecendo em imagens de manifestações por todo o mundo, passando em todas as televisões.
  • Seria bom que nos principais programas de comédia de todos os países começassem a aparecer imitações de Putin, que o mostrem como um nazi, como um assassino -- mas medroso, cobarde, mal preparado, a acabar traído pelos que lhe são mais próximos, incluindo pelas próprias filhas.
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E aqui partilho mais alguns vídeos que me parecem interessantes e indiciadores da trajectória desta guerra sangrenta, destruidora, levada a cabo por um poderoso serial killer -- que deve ser detido.

Ukrainian soldiers find field full of abandoned Russian tanks after invaders 'fled their post'

Ukrainian soldiers found that the area had been abandoned by the Russian aggressors, who reportedly fled their post and left behind military hardware for their foes to take advantage of in the defence of the country.

The General Staff of the Armed Forces of Ukraine released the images on March 6, saying: 'Mykolaiv region. The paratroopers of the Russian aggressor simply fled.'

The Ukrainian Armed Forces added: 'New trophies for our Ukrainian defenders.'

Russian captive inteligence members speak about their orders for the invasion of Ukraine

Sergey Galkin was born in 1987, he enlisted into the Russian army in 2013. 

On February 23rd his battalion got the order to invade Ukraine alongside other Russian forces, covered by massive artillery strikes on the Ukrainian territory.

The captive tells a story of constant bombardments of civilian objects by the Russian aviation and heavy artillery units. This is an important part of documenting the war crimes that Russia wages on the people of Ukraine and this footage will be used to bring war criminals to justice.


Ben Hodges: “I Believe That Ukraine Is Going To Win" | Amanpour and Company

Heavy fighting continues around Ukraine’s capital, Kyiv. What might happen as the conflict intensifies? Ben Hodges was a brigade commander during the U.S. invasion of Iraq in 2003 and later commanded the U.S. Army in Europe.

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Saúde. Paz.

quinta-feira, maio 13, 2021

Festejar o Sporting, celebrar Fátima.
E o segredo do homem mais feliz do mundo

 



A verdade é que há pessoas que precisam da companhia de multidões para celebrarem o que têm de mais íntimo. A vitória do campeonato ou o aniversário da pretensa aparição. A equipa de quem se gosta ou um santo da sua devoção. Creio que é o mesmo impulso: estar com os outros, celebrar em conjunto.

Ir para o Marquês, ir a Fátima. Gritar, chorar, rir, sentir o êxtase, constatar como os outros exultam da mesma maneira, sentir-se um de muitos.

Não é o meu caso. Não sinto o apelo da partilha colectiva de emoções. Devo dizer que sou, até, um pouco avessa a isso. Tenho o meu lado de bicho do mato. 

Mas não critico quem é diferente de mim. A vida é curta e cada um age como está talhada (ou calhada) para agir. 

Quem alguma vez passou pela nacional que leva a Fátima já terá visto aqueles grupos de peregrinos que caminham em grupo. Por vezes cantam e vão em grande animação. Outras vezes vão em esforço. Há qualquer coisa na componente religiosa disto que me custa a atingir. Mas eles já sabem. No futebol a mesma coisa. Estar na rua a gritar, a saltar, a beber é, para mim, a mesma coisa -- uma manifestação de emoções que escapa à minha racionalidade. 

Não consigo é culpar quem quer que seja por permitir que as pessoas se manifestem. Como proibi-lo: pôr um polícia à porta de cada casa? Ao fim de cada rua? Impedir, uma a uma, cada pessoa de ir para onde quer? Chegar às ruas onde as pessoas estão juntas e atirar-lhes com jactos de água para cima? Não sei. 

Há coisas que se conseguem quando há poucas pessoas. Agora quando, um pouco por todo o país, as pessoas saem de casa e se fazem à estrada para se manifestarem... o que fazer? Decretar recolher obrigatório? Sirenes a tocar para mandar recolher...?

Acho que não, que não é caso para isso. Claro que há o risco de saúde pública. Digo eu. Mas ao ar livre e com muita gente já imunizada talvez não seja dramático. Mas nem é isso. Se há pessoas que têm o irreprimível impulso de ir para a rua e juntar-se a outras... e se são muitas e muitas pessoas... como impedi-lo?

Mas que sei eu?

Tenho tido uns dias de cão. Tenho sido acordada com telefonemas cheios de crises. Detesto acordar e ter que começar a falar sobre problemas que me atiram para cima. Vou para a casa de banho e ouço o telefone a tocar. Estou a tomar o pequeno almoço e ouço o telefone. Todo o santo dia. E reuniões e telefonemas até às tantas. 

Por isso, chego a esta hora e estou condescendente. Zen. 

Aqui na sala, para me distrair um pouco, pus-me a ver vídeos e todos os vídeos interessantes eram de mais de uma hora. Não dá. Até que vi este aqui abaixo de um senhor de 101 anos que diz que é a pessoa mais feliz à superfície da terra. Pessoas que não duvidam nem se envergonham da própria felicidade enchem-me de curiosidade. Quero saber qual o segredo. Mas, geralmente, quem é assim não faz segredo disso. 

Diz ele que não odeia ninguém. E eu, ouvindo-o, pensei: Também eu não odeio ninguém. Puxo pela cabeça e não me ocorre alguém que odeie. Acho que nunca odiei. Depois ele acrescentou: Mas desprezo. E eu senti-me a rir e pensei: Também eu.

Ainda no outro dia alguém me perguntou, a propósito de uma outra pessoas: Mas alguma vez te fez mal? A conversa mudou e não respondi mas fiquei com a resposta entalada. Devia ter dito: Não, mal -- a mim -- não fez. Mas é parvo. E eu não tenho pachorra para gente parva. Aliás, sendo mais precisa: desprezo gente intrinsecamente parva. Não consigo disfarçar o tremendo incómodo que o convívio forçado com gente parva me causa  Apenas consigo fazer de tudo para não ter pessoas assim por perto. Causam-me brotoeja. Fico fisicamente incomodada. Uma repulsa que não tem cura nem atenuante. Gente parva para mim é gente que não consigo ter por perto, mexem com o meu sistema nervoso. 

Por isso, não odiando eu ninguém e fugindo a sete pés de gente que desprezo, estou sempre bem. Se estiver junto de pessoas que admiro, que respeito ou, melhor ainda, que amo, estou feliz. E é bom a gente sentir-se feliz. Se estiver sozinha e entretida a fazer coisas de que gosto também não estou mal. Mas sozinha, sozinha, também não aprecio.

Por exemplo, ontem acabei de trabalhar às sete e tal. Como o jantar era arroz de corvina, coisa que se faz rapidamente, pensei: tenho ainda tempo para tratar dos vasinhos de pendurar que tinha comprado no outro dia. Podia ter tratado de tudo sozinha. Podia... mas não seria a mesma coisa. Por isso, falei ao meu marido. E fomos os dois buscar terra. Mas ele estava ansioso por causa do futebol e, a seguir, entrou em casa para ver televisão. E eu fiquei a envasar as bromélias e as sardinheiras. Estava sozinha mas com ele por perto. Mexer na terra, mexer nas raízes das flores, regar... tudo coisas que me agradam de verdade. Estou nas minhas sete quintas. Feliz da vida.

Claro que vão surgindo coisas que me preocupam, que me maçam. Mas sobre o que não controlo e que me é exterior eu tiro do meu radar: se não posso fazer nada, mais vale nem pensar nisso. O que posso resolver, ataco de frente. E o resto, olhem, vou levando. Fazer o quê? Atafulhar-me em ralações? Ná, não é para mim. De invejas, ciúmes, desconfianças e coisas dessas que corroem também não padeço. 

Por isso, acho que também não tenho de que me queixar.

Mas o homem mais feliz do mundo tem outra bagagem. Estive a falar de mim apenas por facilidade. É que falar dele requer cuidado. A felicidade dele tem um peso e uma marca que não têm nada a ver com as minhas ligeirezas. A felicidade dele nasceu de uma história que lhe ficou impressa a ferros na mente e no coração. Tem a marca disso tatuada no braço. Já as sofreu na pele. E, no entanto, sorri e fala de felicidade. E isso é bom para ele e para quem o escuta e vê.


Eddie Jaku, o sobrevivente de Auschwitz que, aos 101 anos, se sente o homem mais feliz do mundo



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As fotografias são de Flora Borsi e estão na companhia de Billie Eilish que interpreta Your Power

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Desejo-vos um dia feliz

domingo, julho 08, 2018

A banalidade do mal


Já o conhecia há bastante tempo. Superficialmente. 
Homem de família. Simpático, bem disposto, divertido. Popular. Anedota fácil. 
Recentemente disseram-me dele, recomendando-o: relacional, bom trato, um tipo porreiro. E despachado, daqueles que fazem acontecer.

Sim. De facto. Não digo que não, pelo menos na aparência. Demais, aquilo do 'porreiro' não sei bem o que é, muita coisa pode lá caber dentro. E, no entanto... 

Penso que por ontem ter falado dele:
-- um déspota populista, amigo dos desvalidos, frequentemente divertido, aparentemente boa onda, que escolheu pessoalmente a quem distribuir prendas e prebendas deixando toda a gente agradavelmente surpreendida e supinamente agradecida, que se faz acompanhar ao almoço e ao café de subordinados que se sentem orgulhosíssimos por estarem a ser promovidos a acólitos, a quem vejo tomar toda a espécie de decisões incompreensíveis, contraproducentes, ora num sentido, ora em sentido contrário, a quem ouço diariamente gritos, dislates e impropérios, que interpela os outros aos gritos, que grita ainda mais alto se logo não acorrem, que, no acusa e destrata e, acto contínuo, ri e conta anedotas para, se tal lhe ocorrer, de seguida expulsar o interlocutor da sala como se de um objecto descartável se tratasse -- 
recebi um mail de um Leitor, a quem muito agradeço, com um vídeo.

O mail tem como assunto o título do vídeo que corresponde ao nome de um livro. A banalidade do mal de Hannah Arendt. Muito agradeço ao P. por mo ter enviado -- e é um facto: nada pior do que a banalização do mal. O mal praticado por motivo nenhum. O mal desalheado da consciência. O mal sem remorso, sem arrependimento. E, igualmente mau, a aceitação, por parte de alguns, desse mal. Como se o mal fosse mero acidente sem relevância, como se quem o praticasse não fosse mau e responsável pelos mal que pratica. E, ainda por cima, como se fosse bom merecer a atenção de quem pratica o mal.

Salvo as devidas distâncias e proporções, não posso deixar de estabelecer alguma relação.

No outro dia alguém me dizia, com algum espanto, depois de eu relatar alguns dos mil sucedidos: quando falo com ele, não me relata nada disso e, de resto, mostra sempre muita consideração por si.

Respondi. É um facto: comigo mostra sempre consideração. Mesmo quando faz coisas que me desagradam profundamente, mostra estar a ter consideração. Genuinamente penso que não se apercebe do mal que faz. Pelo contrário, se percebe agastamento nos outros, fica agastado como se não percebesse e fica abertamente contrariado. Também já o vi a gozar os outros pelas costas. E usa epitetos achincalhantes para se referir aos outros. Mas também goza pela frente, humilhando as pessoas. E já o vi lançar insinuações maldosas, desprovidas de sentido. E ri-se, satisfeito, com o que diz e faz. Acredito que não tem consciência do mal que faz. Para ele é normal. É banal.

Tenho constatado de perto: há pessoas que são perigosas. Podem destroçar a vida dos mais fracos como se nada de mal fizessem. Repito: acredito que nem dêem por isso. Tal como, quando ando, não reparo se pisar uma fiada de formigas. Não reparo, não fico arrependida -- até porque, como nem dei por nada, farei a mesma coisa mil vezes mais. É a mesma coisa. 



As fotografias mostram Adolf Eichmann (1906 - 1962), um dos principais organizadores do holocausto e de quem Hannah Arendt fala

segunda-feira, novembro 27, 2017

"Nenhuma poesia é possível depois de Auschwitz"...?
Está bem, está.





Poderá alguma coisa tornar-nos incapazes de certas impercepções, de certas cegueiras ou tipos de surdez? Alguma coisa poderá tornar a imaginação responsável e imputável perante os princípios da realidade da existência humana em nosso redor? Essa é a questão.
(...) Uma das respostas possíveis é dizer que toda a nossa cultura se mostrou totalmente impotente e sem defesa, aliás, embelezou uma grande parte do assunto.
Gieseking tocava a integral da música para piano de Debussy durante as noites em que se ouviam os gritos das pessoas nos vagões de comboio selados na estação de Munique com destino a Dachau, nos arredores. Os gritos chegavam à sala de concertos. Isto foi registado. Nenhum testemunho sugere que ele não tenha tocado maravilhosamente bem, tão-pouco que o público não se tenha mostrado completamente receptivo e profundamente comovido.


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"Na base de cada grande obra de arte estão os escombros da barbárie"- Walter Benjamim

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Nenhuma poesia é possível depois de Auschwitz, disse Adorno.

Mas a história encarregou-se de o refutar. Desde logo Celan e Primo Levi, lembra George Steiner. Embora se tenham suicidado a seguir, refere ele.

Mas habituamo-nos bem ao mal dos outros -- essa é a grande verdade. E isto já sou eu a dizer. Temos, aliás, uma extraordinária capacidade para nem nos darmos conta do mal dos outros. Todos nós. 

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Já agora.
Relembremos.

Se isto é um homem - Primo Levi


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SalmoPaul Celan 

Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,
ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.


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O texto lá em cima, em itálico, é um excerto da entrevista de George Steiner concedida à Paris Review em 1995, lida no 3º volume das Entrevistas da Editora Tinta da China.

As imagens representam Auschwitz. A primeira é da autoria de Bart Vromans e a segunda de Anne Berger

Walter Gieseking interpreta "Reflets dans l'eau" de Debussy

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Caso vos apeteça desanuviar, nada como uma caminhada por Lisboa. É só descer.

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quinta-feira, outubro 12, 2017

Os 31 crimes de Sócrates e a cegueira cúmplice de Brunhilde


No carro, no regresso, ouvimos. Noticiam que a acusação saíu antes de tempo. Ouvimos os jornalistas dizerem que Marcelo diz que fica contente quando a justiça acelera. A acefalia dos jornalistas. Um processo que se arrastou durante anos, furando prazos e desrespeitando a dignidade devida a qualquer pessoa, é agora referido como tendo sido mais lesto que o expectável. Se lhes puserem um papel à frente a dizer que a terra ficou quadrada e que a lua anda aos saltos eles vão lê-lo aos microfones sem pestanejar.

Depois ouvimos desfiar a lista de acusações, os crimes descritos com minúcia. E usam exactamente esta palavra: crimes. Muitos crimes. Dir-se-ia que o processo deu um salto quântico e se passou da fase da investigação para o resultado do julgamento.

Agora, já em casa, ouvindo a televisão, dou conta que o festim está ao rubro. De vez em quando, os crimes, as corrupções, os esquemas de lavagem de dinheiro e de fuga ao fisco são precedidos da palavra 'alegados'. Mas, na maior parte da conversa, para eles, os factos estão provados, dispensa-se o pró-forma do uso das palavras cautelares: alegado, alegada. Para quê esses cuidados se toda a gente já está farta de saber que ele é culpado? Saltem-se pois os passos intermédios e avance-se para o júbilo pela conclusão do processo. Recursos? Ah, sim, sim... Para quê?, alguém ainda tem dúvidas? 

Ouço. Ouvi José Gomes Ferreira, o vingador, feliz por terem sido dado por provados crimes que ele tanto denunciou. Sorri. Ganhou. Sócrates foi condenado, apodrecerá na prisão. 


Ouço Sara Antunes Oliveira, uma menina com ar castigador, que mal disfarça o estar notoriamente radiante por ter feito parte do júri de acusação e estar ali para relatar os factos. Crimes. Lavagens, Esquemas. Tudo provado. Os implicados negam. Não interessa, o que dizem não convence. Culpado. Nunca se viu nada assim. Um antigo Primeiro-Ministro apanhado num gigantesco esquema de corrupção. Sócrates é culpado. Ponto final. 


Mistura-se má gestão, esquemas e facilitismos, interesses cruzados e aparecem os antes elogiados e condecorados Zeinal Bava, Granadeiro, Ricardo Salgado  e, no meio, entre suposições e alegadas convicções, Sócrates. Um longo enredo em que vários anos de sabidos e consabidos compadrios foram apanhados pela rede dos investigadores e misturados com alegadas corrupções activas e passivas -- e agora, ao longo de milhares de páginas, alguém tentará perceber porque é que algumas delas coisas vêm ao caso ou se não vêm de todo, ou se há mosquitos e tubarões tudo misturado no mesmo saco, porque é que vaidosos e ladrões são avaliados pela mesma bitola.


Sei que este não é o tempo para raciocínios com princípio, meio e fim. Sei que devo esquecer-me do que aprendi quando estudei Lógica e esquecer-me tudo o que sei do método científico que exige que qualquer hipótese seja posta à prova antes de, sobre ela, se poder concluir que está certa ou errada. Sei que este é o tempo do facebook, do não querer destoar da manada, dos julgamentos sumários na praça pública. Sei que, se disser que não posso concluir que uma pessoa é culpada antes de os tribunais o terem provado, vai ser lido como uma prova de facciosismo.

Sei que, de repente, meio mundo esquece os mais elementares valores de um estado de direito, decretando a pena mesmo antes dos julgamentos. Sei disso. Sei muito bem.

Mas, ainda assim, digo o que acho.

E volto a dizer: se Sócrates for culpado, pois que seja condenado. Ficarei desiludida, desgostada, entristecida e não por razões pessoais mas apenas porque foi um Primeiro-Ministro que apoiei, em especial no seu primeiro governo. No segundo acho que já não geriu tão bem a situação mas reconheço as árduas condições em que se encontrava, cercado por todo o lado, e com a esquerda unida à direita para o derrubar (abrindo dessa forma a porta a um dos mais sinistros períodos da nossa história -- e disso eu não me esqueço)-

Mas, santa paciência, até ao dia em que se conheça a sentença definitiva sobre o caso, continuo a achar aquilo que acho em relação a qualquer pessoa: que Sócrates é inocente até prova em contrário. Acredito e defendo os valores da democracia e da liberdade e não abdico do respeito pelos pilares mais basilares do Estado de Direito em que quero acreditar que vivo.

Tenho estado a ler um livro de que já aqui falei. Uma vida alemã. É um livro que leio com um peso no peito. Para aliviar, intercalo com O grilo na varanda. Depois volto a Brunhilde Pomsel. Este livro deveria ser de leitura obrigatória. Não é literatura, é apenas um testemunho de quem viveu o nazismo por dentro e dele não se apercebeu. Ou, tendo-se apercebido um pouco, o desvalorizou. Ou, não o tendo desvalorizado completamente, achou que não poderia fazer nada. Até ao fim, acreditou nas histórias que a propaganda divulgava. Os alemães eram corajosos e valentes e os outros eram maus. Os alemães não perdiam, os alemães venceriam. Os judeus iam para o campo, iam viver melhor. Os judeus iam para campos de concentração para fugirem a perseguições, ali estariam protegidos. Mesmo perante o que agora classificaremos como 'evidências', os alemães não viam. Não sabiam. A manipulação colectiva acontece. Brunhilde trabalhava no Ministério da Propaganda. Conhecia Goebbels. 

Gente sorridente,
amigos dos seus amigos,
bons pais de família
(e, no entanto, tão perigosos)
Era um homem reservado, tranquilo. Um dia ela viu-o a discursar e não o reconheceu. Era um homem possuído que levou uma multidão ao enraivecimento colectivo. Brunhilde ficou incomodada. Percebeu que nunca se sabe do que as pessoas são capazes. 

Nada disto tem nada a ver com Sócrates. 

Não somos alemães, não há nazis entre nós. Somos inteligentes, prescientes, não nos deixamos manipular. Pois. 

E, no entanto, não nos importamos nada com o que se passa: a destruição moral de alguém que ainda não foi sequer julgado. E, no entanto, damos como provado tudo o que os jornalistas e comentadores desfiam como crimes. E até já nos esquecemos dos prazos sucessivamente ultrapassados e talvez até aplaudamos por terem condenado Sócrates (note-se: condenado e não acusado) de forma tão rápida.

Somos gente perigosa. 

E, para já, isso é a única que, com os dados de que disponho, posso concluir.

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E queiram descer até ao tempo das gaivotas,
um tempo bem mais aprazível do que este de que acabei de falar.

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