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quinta-feira, abril 11, 2019

O célebre buraco negro, uma gatinha incrédula, um perigoso aracnídeo, uma teia de dar medo (e outras coisas) -- tudo 3D, tudo ilusões de óptica e o escambau.
[Só os lencinhos é que se aproveitam]





Hoje numa reunião, um colega quis atirar-se para fora de pé e eu interceptei-o. Ele insistiu, tentando seguir numa deriva que, em meu entender, não ia levar a lado nenhum. E eu que não. Ele, então, do outro lado da mesa, em voz baixa, tentando ser discreto para não me envergonhar em público: 'open mind... está a perceber...? open mind...'. Achei graça. Interceptei na mesma, expliquei as minhas razões, ele percebeu. Mas fiquei a pensar naquilo. 



E há bocado voltei a pensar. Se em tempos alimentei o secreto desejo de me fazer tatuar com uma rosinha bonita perto de um ombro ou na parte de cima de um seio, a verdade é que me saíu completamente da ideia desde que a coisa virou banalidade. 



À hora de almoço estava à espera de vez para uma mesa, distraída. O meu marido disse-me em voz baixa: 'São copos?'. Não percebi. Ele disse-me: 'São copos no braço?'. Olhei e vi ao nosso lado um rapaz com copos tatuados no braço. Copos mal desenhados, sem ponta de graça, sem ponta de arte. Um disparate.


E agora dei com tatuagens em 3D. Antes de ver, só pela designação, não estava a perceber bem qual o efeito. Mas, caneco, quando vi achei assustador. Na volta é porque não tenho a mente aberta. Mas, caraças, imagine-se alguém que não esteja preparado par ao que vai ver, ao dar assim de repente com uma coisa destas. Que susto, bolas.


E, para terminar, a versão tattoo do mediático buraco negro que os outros viram por um canudo:


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Para contrabalançar a open-minded arte 3D sobre a pele, juntei dois apontamentos de beleza tradicional.

O vídeo lá em cima, obra de Sølve Sundsbø, junta Alexander McQueen & Damien Hirst e o resultado são écharpes de uma grande beleza. 

E o vídeo abaixo mostra outra maravilha. Seda marmoreada com desenhos lindos: Hrmè$. 


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terça-feira, setembro 12, 2017

Fugas no paraíso





Como já o disse, as minhas so-called férias foram deveras atípicas e não me apetece entrar em pormenores. Já basta o que basta, quanto mais pôr-me ainda a falar disso.

Mas, no meio do que foi sucedendo, outros sucedidos foram igualmente atípicos.

Conto.

Para começar, estávamos com uma fuga de água e sem fazermos ideia de onde. Todas as torneiras desligadas e o contador a correr. 

Isso podia ser mau mas pior foram as contas da água. Uma loucura. E sem fazermos ideia de onde saía aquela água toda. Em casa ou cá fora, que se visse, nem uma gota. Do contador até à casa principal e do contador até ao estúdio e do contador até ao telheiro: tubos enterrados debaixo do empedrado que rodeia a casa. Depois, em cada um desses sítios, canos everywhere. Mesmo debaixo do telheiro há a torneira da mangueira, depois o tubo vai enterrado ou por dentro da parede, não faço ideia, até ao lava-louça. E dentro da casa principal? Espatifar a casa toda até descobrir? É que vestígios, como disse, zero.

Falámos com o vizinho da ponta da rua que conhece meio mundo. Ficou de ir lá com um canalizador e já punha a hipótese de neutralizar as canalizações existentes e fazer novas, por fora, à vista. Mas o canalizador não podia, disse que ia mas depois não conseguiu.

Entretanto, abro a caixa do correio e um aviso de corte da água. Espantada. Porquê, caraças, se o pagamento é por débito directo? Mas ainda ia a tempo de pagar desde que fosse in loco, ou mandasse um cheque e que pagasse juros e mais as despesas que tiveram para activar o aviso de corte.

Aflita, liguei para lá. Mas o que se passa?! O banco não tinha pago a factura. Pedi: Dê-me a referência que pago por multibanco. Não, por débito directo não há cá multibancos. Liguei para o banco: Por que raio não pagaram a factura? Falta de saldo não é. Foram ver. Mandaram depois um mail. Quando autorizámos a transferência, colocámos um valor máximo e, dada a fuga de água, esse plafond foi amplamente ultrapassado. Portanto, não pagaram. Indignada, perguntei: E não avisaram? Responderam que não, que é tudo automático. Indignada, questionei as Águas: Mas, então, viram que o banco não pagou e ninguém nos avisa? Isso é assim?. Resposta: É assim, sim, é tudo automático, não sabemos, não damos por nada, não podemos avisar. Conclusão. Lá fui a uma estação dos CTT enviar um vale postal. 

Sem canalizador e sem pistas, procurámos na net e encontrámos uma firma que faz detecção de fugas através de uma máquina. Um balúrdio mas que remédio. Mas só dentro de dias.

Entretanto, o meu marido teve uma intuição: Não serão as raízes daquela azinheira? Não terão dado cabo da entrada dos canos em casa?

Toca a levantar a chão, as pedras todas fora, um buraco no chão. Nada. As raízes estão mais fundas que os canos.

Mas o meu marido com aquela intuição. Pediu ao pedreiro que chamámos: Abra mais. Um buracão. Nada. O meu marido: 'Mais'. O homem dizia: 'Pode ser noutro sítio qualquer'. Entretanto, naquelas nossas vidas agitadas, não pudémos lá ficar. Porque tudo isto se passou in heaven -- sim, no paraíso também há fugas. No dia seguinte, liga-lhe o vizinho: Teve sorte. Nem queira saber. Ao pé do portão, um repuxo! E logo ali combinaram que o vizinho, para resolver o repuxo, haveria de tapar os canos de qualquer maneira e que o canalizador depois ia arranjar aquilo como devia ser. 

Suspendemos a ida lá do senhor com a máquina que detecta fugas. Menos mal, o mistério tinha sido detectado.

Depois foi a espera pelo canalizador.  Que ia, que ia, mas nunca mais lá ia. 

Até que lá foi. Canalização toda nova naquele troço. Agora estamos à espera que lá vá o pedreiro tapar o buraco e refazer o empedrado naquela zona toda.

Dias depois, nova carta no correio. Novo aviso de corte. Mais uma factura tinha batido na trave. Nova ida aos Correios para pagar antes que, na nossa ausência, lá aparecesse alguém a cortar a água. É que sem água é que não: transpirados com aquela nossa lide de podar árvores, apanhar folhas e sei lá que mais, os banhos são imprescindíveis.

Dois dias antes de nos virmos embora, tinham caído umas pingas de chuva na véspera. Estava eu não sei onde, à noite, chama-me o meu marido para ir ver um fenómeno. Odeio que me chame e se limite, depois de dizer o meu nome, a acrescentar: 'Anda cá'. Quero sempre que me diga o que é, para eu ver se vale a pena. Adiantou: 'Para veres uma coisa'. Ora abóbora. Quis pormenores: 'Para ver o quê?'. Nada. Assertivo. 'Anda cá. Vem cá ver se percebes o que é isto'. Contrariada, lá fui.

Daquela é que eu não estava à espera. Chovia na cozinha. Chovia do tecto entre a chaminé e o frigorífico. Ele estupefacto, eu estupefacta. 'Mas não choveu nada de jeito... ' E ele, 'Estará uma telha fora do sitio...?'. Mas não tinha chovido que justificasse, um dia depois, uma chuva daquelas dentro de casa.

Foi buscar o escadote, espreitar dentro do sótão. Não conseguiu ver nada. E continuava a chover copiosamente. 

No dia seguinte, um SOS ao vizinho. Sempre prestável, apareceu com uma escada enorme, subiu ao telhado, destelhou, encavalitou-se e viu tudo molhado. Afinal a canalização passa pelo sótão e havia nova rotura. Desconhecíamos tal percurso. Não era coisa que ele soubesse reparar. Tinha que vir o canalizador. Meteram-se no carro e foram ver se arranjavam um. Difícil, outros trabalhos. Talvez mais logo. Senão logo de manhã. Na tarde do dia seguinte ainda esperávamos.

Tínhamos que fechar a água no contador. Mal a abríamos, uma chuva do caneco. Até que apareceu o canalizador. Foi ver. Veredicto: tinha que se abrir a placa para ele conseguir ver onde é que o cano trabalhava e onde é que havia o problema. Lá foi o pedreiro. À medida que abria o buraco na placa, a chuva caía mais copiosamente. 

A despensa alagada, baldes e alguidares por todo o lado, a tralha da despensa na cozinha, o micro-ondas, na cozinha, fora do sítio, o carrinho das batatas e cebolas e toda aquela tralha também fora do sítio.

E isto tudo no meio dos nossos problemas -- ao pé dos quais isto eram amendoins.

Até que tivemos mesmo que nos vir embora. Um buraco no telhado, os canos rotos, tudo a cheirar a molhado e desarrumado. E um buracão na zona do jardim onde tinha havido a outra fuga. O pedreiro ficou de ir lá tapar o buraco da placa e voltar a telhar o telhado. Acho que isso já fez. O do jardim é que continua no mesmo estado.

Entretanto, com tudo o que aconteceu, não voltámos lá. E as férias a chegarem ao fim. Resolvemos ir na quinta-feira passada para o Algarve. Ou seja, de facto, de facto, tivemos dois dias úteis de férias (já que o fim-de-semana, em que também lá estivemos, não será justo considerá-lo férias). Quando lá chegámos, como nesse dia contei, estava tão esgotada que, sem querer, deixei-me dormir até às tantas -- pelo que essa tarde foi quase perdida.

Parecia que tínhamos deixado para trás uma hecatombe tal a sucessão de sucedidos. Os dias no Algarve foram bons mas muito curtos. 

Esta segunda-feira já foi dia de trabalho. E eu só espero que agora sejam tempos de acalmia e que, para além disso, os canos parem de se romper porque não há paciência para tanta maçadoria. 

E, assim sendo, qual a conclusão...? Ou seja, apesar de tudo, what...?
E a resposta é: Apesar de tudo, cá estamos. Ou melhor, que isto do plural majestático não está com nada: Cá estou.
E a vida continua e é boa e eu gosto dela. 
Um tio meu, quando soube que tinha cancro nos pulmões disse, com ar tranquilo, que não se importava muito, que já tinha vivido bastante e tinha vivido uma vida boa e que tomara muitos terem vivido o que ele já tinha vivido. Quando partisse, partiria feliz. Infelizmente todo este estado de espírito viria a desmoronar-se quando soube que a minha tia estava também com cancro, e bastante adiantado. Mas, enfim, isso foi apenas um azar dos távoras que apareceu para acelerar as coisas e fazer com que ele não tivesse morrido feliz. Mas, ainda assim, partindo do princípio que azares destes só acontecem once in a lifetime, continuo a dizer que a vida é uma coisa muito boa. Boa, boa. 

E agora talvez vá já dormir que, parecendo que não, talvez eu tenha uns little motivos para andar ainda um bocadinho cansada. Já vejo se me aguento ou se vou juntar-me ao meu marido que já foi entregar-se aos braços do outro.
Do outro, salvo seja, claro, que isto do morfeu melhor fora que fosse assexuado para evitar confusões.
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Algumas fotografias são de Paolo Roversi e outras de Sølve Sundsbø. Podem não ter muito a ver com o descrito... mas quem vos diz que não têm a ver comigo...? E mesmo que não tenham. 

Thomas Rhett interpreta Die A Happy Man e escuso de explicar porque me apetece tê-lo aqui comigo. Connosco. Ou, se calhar, até devia para não parecer que vem a despropósito. Mas, olhem, ficamos assim.

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E um dia feliz a todos quantos por aqui passam.

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sábado, março 19, 2016

A beleza e a moda ao longo dos (meus) anos




Quando eu era miúda, estava desejando de ser adolescente para poder pintar os olhos, fazer penteados extravagantes, usar roupas de crescida, saltos altos, chapéus, adorava chapéus, imaginava-me sempre com chapéus exuberantes.


Depois, quando era adolescente, eu queria experimentar sombras nas pálpebras superiores, eye liners, blush, fazer penteados mais artísticos. Sempre tive cabelo farto e usava-o solto, espalhado pelas costas. Quando era miúda, usava muitas vezes tranças porque era uma forma de ter o cabelo domado. Ao ser adolescente, claro que as tranças foram de imediato banidas. Mas gostava de fazer um entrançado atrás ou apanhava o cabelo num rabo de cavalo no alto que entrançava e prendia à nuca, por vezes com pequenas flores no meio do cabelo. Mas se a roupa fosse mais a meu gosto e pintasse os olhos, os meus pais não queriam, diziam que dava nas vistas, que não era coisa de miúda, que quando fosse mulher logo me arranjava assim. Muitas vezes ensaiava pinturas, poses, e punha-me ao espelho a imaginar-me como seria eu quando atingisse a idade que me permitiria ser como eu queria ser.


E, portanto, era uma luta permanente, uma ansiedade de chegar à idade em que poderia andar como quisesse. A minha mãe era mais permissiva. Penso que o facto de ser professora a imunizava contra guerrilhas e geria bem as confrontações. Ou isso ou não se importava muito. Mas o meu pai era mais intolerante, não queria que eu saísse nos 'preparos' que a mim me apeteciam.

Com 17 anos acabados de fazer, na prática, tornei-me independente. Vim para a faculdade, alojada numa outra cidade, só ia a casa ao fim de semana. Desejei muito esse momento. E gozei-o intensamente.


Mas, aí, na faculdade, eram tempos de liberdade e pinturas nos olhos ou saltos altos ou roupa mais produzida era coisa que não estava com nada. Mesmo assim, vestia-me com gosto e o meu marido ainda fala num certo vestido justo, verde, curto, de um tecido que parecia seda, de alças, tão decotado que não podia usar soutien. Ao cruzar-me com ele, na escadaria, pareceu ficar enfeitiçado. Diz ele que nada disso, qual enfeitiçado, muito pelo contrário: pensamentos bem profanos lhe ocorreram, conta ele. Eu namorava com outro mas aquele olhar desviou-me do bom caminho. Míope, mal dava pelos olhares alheios mas aquele faiscou demais e eu vi-o bem. 

Mais tarde, já quando eu tinha deixado o poeta e namorava com ele, aborrecia-o que eu andasse sempre com cabelo na cara, disse que eu devia ficar bem com cabelo curto. Foi logo. Pela primeira vez, deixei de usar cabelo comprido e toda eu era jeans, tshirts justinhas, e nem me ocorria pôr blush, pintar lábios ou olhos.


Casei-me, chegaram os miúdos e, por força de trabalhar numa grande empresa onde as mulheres pareciam competir entre si pela melhor toilette (por força ou com o pretexto), voltei a produzir-me. Era então a única mulher com funções de mais responsabilidade, vivia entre homens, ouvia-os a comentar as outras mulheres, e aprendi, de perto, e perante uma amostra significativa, a perceber o que gostavam eles de ver nas mulheres e o que abominavam. 

Nessas alturas em que eles também me diziam piropos que, de certa forma, me eram simpáticos mas pouco relevantes, eu podia apreciar como as mulheres se arranjavam e andavam quase em função do efeito que queriam produzir nos homens, especialmente nos que tinham cargos de mais responsabilidade.


Aos trinta e um anos passei a directora e fiquei a ser a mais nova directora da empresa, entre homens e mulheres. Convivia, então, especialmente com os meus colegas directores, todos homens. E ficava espantada com a atracção que eles exerciam nas mulheres. Ter um caso com um director parecia ser a máxima ambição de um número significativos de mulheres. Secretárias, estagiárias, jovens técnicas, etc, -- tudo se produzia e exibia para cair nas boas graças deles. Os meus quatro maiores amigos de entre os meus colegas (todos casados e bem casados) tiveram vários casos, a que eu assistia divertida, tolerante. Percebia que, para eles, era uma forma de se sentirem admirados e desejados, uma forma de sorrirem com uma certa vaidade quando os outros se metiam com eles. Elas ficavam felizes e eles também.


Apenas um caso deu para o 'torto' -- e digo que deu para o torto porque passou a fasquia da brincadeira: o meu melhor amigo, que todos os dias ia conversar um bocado comigo ao meu gabinete e que começou por ter um 'casinho' com a minha secretária, apaixonou-se por ela e ela por ele e, depois de anos de hesitação e de, na prática, já viver em verdadeira bigamia, expôs o caso à mulher na esperança que ela aceitasse a situação e, como ela não aceitasse, separou-se a vive agora com ela. E são felizes apesar de ele nunca ter formalizado a separação da mulher. E continua a dar-se bem com ela. Nos casamentos dos filhos e aniversários dos netos, estão todos juntos na maior amizade.

Por essas alturas, eu tentava arranjar-me bem mas não muito 'à senhora' coisa que, afinal, também não fazia o meu género. Contudo, dado o dress code que forçosamente tinha que respeitar, comecei a ter que fazer uma certa ginástica para não me arranjar de forma muito desconstruída mas para não parecer uma madamezinha.


Uma vez, comprei um vestido em pied de poule branco e preto, abotoado de alto abaixo, com uma golinha, e que usava com um cinto fininho preto. Nunca antes me tinha vestido com ar tão formal. Quando lá cheguei toda a gente olhava para mim e sorria, tal a diferença. A minha secretária, mais ousada, disse: 'Bolas, bolas. Parece uma viúva' e depois sorriu e acrescentou 'Daquelas ainda muito desfrutáveis'. A partir daí passei a usar o vestido com um cinto largo encarnado para não parecer tão viúva e não fazer despertar aqueles sorrisos maliciosos. Mas nada disto alguma vez ocupou muito a minha mente nem nunca me vesti assim ou assado para agradar ou deixar de agradar. 

Agora continuo a vestir-me como me apetece e quero lá saber. É minha opinião que, mais importante que a moda, é o estilo, e, mais importante que o estilo, é a maneira de ser e, das maneiras de ser, a descontraída é que melhor qualidade de vida proporciona ao próprio e ao próximo. Tirando isso, pouco mais sei dizer.

Claro que tenho a noção das coisas e, portanto, obviamente não uso shorts, calças rasgadas ou descaídas, ou blusas transparentes sem nenhum top por baixo. Agora que já tenho idade para me vestir 'à senhora' não o faço porque continuo a não gostar de me vestir muito arranjada como se fosse uma consultora empedernida, uma beata sofisticada ou uma avozinha encartada. Pinto os olhos mas não muito, ponho baton ou gloss, deixo o cabelo solto ou apanho-o. Como me apraz em cada dia.

A minha filha que conhece bem o lugar onde eu trabalho, disse uma vez à minha mãe: 'Lá todas se vestem melhor que a mãe' -- e isso deixou a minha mãe apreensiva. Expliquei-lhe que não compito com as outras mulheres em nenhuma categorias e acho que ela percebeu.

E, aqui chegada, o que tenho a dizer é que o melhor que cada pessoa tem a fazer é andar, a cada momento, como se sentir melhor, sem sacrificar os seus gostos, sem pretender obter vantagens de qualquer espécie por ser ou andar assim ou assado, sem esperar por melhor altura, sem se importar com a opinião alheia.


Vivendo num meio masculino, altamente competitivo, nunca me senti preterida ou preferida por ser mulher. E nunca tive que sacrificar o que quer que fosse da minha feminilidade nem senti que podia obter qualquer coisa mais se a empolasse. Nem nunca achei que as feias ou as bonitas, as altas ou as baixas, as magras ou as gordas têm vantagem ou desvantagem. Nesse aspecto, acho que ser mulher é ser como um homem: o importante é ser-se autêntico e ser inteiro. O resto é invólucro, é passageiro. 


Chego a casa, desmaquilho-me, escovo o cabelo, despenteio-me ainda mais do que andei durante o dia, dispo-me, visto uma roupa confortável, e a capa que usei durante o dia desaparece. Esqueço-me dos meus problemas profissionais, das arrelias, esqueço-me de tudo o que, aqui em casa, visto de longe, perde relevância. Pego nos livros, ouço música, sento-me ao computador, escrevo. E sou eu, em qualquer altura, de qualquer maneira.

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Talvez algumas pessoas olhem para mim e digam que eu fui bonita, e, dizendo isso, estarão a pensar que fui, já não sou -- ou seja, a assumir que a beleza se me esvaíu com a idade. Eu olho para as minhas fotografias e vejo que, de facto, a idade tem vindo a passar por mim, são notórias as diferenças. Mas não quero saber disso para nada. Continuo a gostar de me arranjar e de me desarranjar, continuo a ser como sou -- e quem gosta, gosta, quem não gosta, paciência. O que sei é que me sinto agora mais mulher do que alguma vez antes me senti e que isso me dá ainda mais alegria e mais segurança em mim. Faço o que quero. E a beleza física, bem vistas as coisas, não é o mais determinante em coisa alguma. Tudo o que é importante na vida de uma pessoa è una cosa mentale -- e, ao terminar a conversa, isso é a única coisa que eu posso afirmar com alguma convicção.

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Esta conversa toda veio a propósito do vídeo que mostro abaixo e que fala de outras modas, de outras belezas, de outras mulheres, de outros mundos. Encontrei-o na Harper's Bazaar, onde se diz o seguinte:
For many people, "fashion" doesn't extend far beyond the runway and pages of magazines like BAZAAR. But in cities across the globe, it's so much more than what the media represents — fashion is a form of expression, veneration and even rebellion. 
In States of Undress, a new docuseries premiering on Viceland March 30, writer and model Hailey Gates will travel around the world, exploring what fashion and beauty means to society and culture in countries including Venezuela, Russia, China, Palestine, the Congo and more. 
In the first episode, Gates goes to Pakistan, where she explores Karachi Fashion Week—"taking place in what was essentially a guarded bunker in the middle of one of the most volatile countries in the world" — and meets with human rights activists, fashion PR execs and rebellious designers.

STATES OF UNDRESSBEAUTY AND FASHION IDEALS AROUND THE GLOBE

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O primeiro vídeo, lá em cima, é Fashion Story: A dreamy touch de Sølve Sundsbø.

As fotografias que usei ao longo do texto, se não me engano, são todas de Patrick Demarchelier excepto a de Jean Seberg (de cabelo curto) e não pretendo que pensem que sou parecida com alguma delas. Claro que não sou pois, se fosse, provavelmente também teria seguido a profissão de modelo: não sou muito alta, não tenho as medidas perfeitas, não passo, de facto, de uma pessoa completamente normal. Se alguma coisa me distingue, acho eu, é o facto de ser como sou (seja lá o que isso quiser dizer).
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E tenham, meus Caros Leitores, um belo fim-de-semana.

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quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Carnaval e outras memórias






Quando eu era pequena, gostava de brincar ao Carnaval. A minha mãe deixava que eu e a as minhas amigas escolhêssemos roupa dela à nossa vontade. Provavelmente restringia discretamente a escolha mas não me lembro de ter dado por isso. Tenho ideia que não dizíamos mascarar mas entronchar.
Agora que escrevi, fiquei na dúvida se era entronchar ou entrouxar e verifiquei que existem as duas palavras e que ambas fazem sentido no contexto. 
Vestíamo-nos à senhora, usávamos soutiens das mães que enchíamos com roupas para ficarmos mamalhudas, púnhamos roupa dentro das cuecas para ficarmos rabudas, calçávamos sapatos altos, eu gostava de usar casaco com gola de peles, e fazíamos grandes penteados e maquilhávamo-nos umas às outras. Isto passava-se nas férias de Carnaval. Não íamos assim para as escolas nem havia uma indústria e um comércio dedicado à época. Éramos nós que, com a prata da casa, nos aperaltávamos. Uma das minhas amigas, vizinha de rua, tinha uma mãe que lhe dava também largueza de movimentos. Então íamos também muito para casa dela e escolhíamos colares, malas, lenços, écharpes, algumas roupas extravagantes, pinturas, roupa. Eu adorava pois havia ali uma desarrumação que me agradava muito e que destoava da ordem que a minha mãe gostava de ter no seu guarda-fatos, gavetas, guarda-jóias.
Uma vez ela andava toda arreliada porque não sabia da cédula da filha, e acho que era preciso a cédula para tratar do Bilhete de Identidade, coisa de que apenas se tratava aos nove anos, quando íamos para o liceu (pelo menos é a ideia que, a esta distância, tenho). Dizia que já tinha corrido tudo e que não fazia ideia onde teria ido parar o diabo de cédula da filha. A minha mãe ria e, em casa, comentava: 'se ela soubesse é que eu me admirava'. 
Agora que estou a falar nesta minha vizinha, de quem eu gostava bastante porque era uma mulher de armas, divertida, super-tolerante, estou a lembrar-me que foi ela que me ofereceu o meu primeiro soutien. A filha ganhou corpo de mulher muito mais cedo que eu, menstruou ao dez anos, ao passo que eu, por essa altura, era ainda uma menina. Então, quando começaram a despontar os meus seiozinhos, uns botõezinhos salientes, ela, um dia, apareceu em minha casa com um soutien de  bordado inglês, muito bonito. Fiquei tão surpreendida, tão feliz. E a minha mãe também, toda ela se ria. Acho que a minha mãe só nesse dia é que se deu conta que a sua filha estava a começar a ser crescida. Lembro-me que, logo ali, quiseram que eu experimentasse e todas elas se riam e gabavam 'olha as maminhas, já tão crescidinhas' e eu toda vaidosa, a acreditar.
Uma vez, estando nós, miúdas e miúdos do bairro a andar de bicicleta numa descida, coisa que eu adorava -- tirava as mãos do guiador, abria os braços como se fossem asas, tirava os pés dos pedais e abria também as pernas, e sentia a bicicleta desabalada por ali abaixo, sempre a ganhar velocidade --, ao apanhar areia e tendo a bicicleta derrapado sem que eu fosse a tempo de a controlar, fui espetar-me contra o muro da moradia dela, partindo a cabeça. Foram todos a correr chamar a minha mãe, eu própria devo ter ido, só me lembro do alarido, da minha mãe aflita vendo-me a escorrer sangue da cabeça, e de, de repente, ter aparecido essa minha vizinha, uma corajosa, e nos ter enfiado a todas no carro dela e lá fomos, ela a acelerar a caminho do hospital e depois ela por ali dentro que nem um vendaval (não havia cá isso de triagens) e a minha mãe atrás, comigo e com a minha amiga, a minha mãe assustadíssima, quase sem um pingo de sangue apesar de ser da minha cabeça que o sangue escorria. 
O marido dessa minha vizinha tinha sido jogador de futebol do clube da cidade, era muito conhecido, muito estimado. Nessa altura, já não jogava, tinha uma loja de venda e reparação de bicicletas. Volta e meia juntavam-se lá em casa ex-jogadores, do tempo dele, e jogadores actuais. Ela fazia grandes almoçaradas, petiscadas que duravam até à noite, comiam, bebiam, riam à gargalhada. Nesses dias, a casa estava aberta e nós, miúdos, entrávamos e saíamos, e petiscávamos também. Eu comia lá coisas que nunca comia em minha casa: salada de orelha de porco, por exemplo, que era servida numas taças enormes que quase pareciam alguidares. Eu contava isso aos meus pais, gabando aquelas iguarias. Mas a minha mãe nunca se deixou tentar, nunca fez esse tipo de petiscos.
Havia ainda uma particularidade com essa vizinha (que era uma mulher bonita, muito morena, bem fornida de carnes sem ser gorda, sempre a rir, sempre a dizer piadas): um dos jogadores ainda no activo, um bonitão que tinha um carro todo vistoso, visitava-a regularmente durante a semana. O marido dela ia sempre almoçar a casa, depois dormia uma pequena sesta e, a seguir, voltava ao trabalho. Passado pouco tempo, chegava o jogador e lá ficava até ao fim da tarde, saindo antes do marido chegar. 
Toda a gente via mas ela era tão descontraída que não me lembro de alguém a fazer sentir-se inibida. Tenho ideia de os meus pais, entre eles, trocarem sorrisos maliciosos quando falavam disso mas nada de mais. Pelo contrário, se a minha mãe via o carro dele lá na rua, dizia para ficarmos a brincar no jardim da minha casa e não irmos para casa dela chatear.
Mais tarde, resolveram abrir uma casa de moda mas, claro, era coisa dela porque ele continuou com as suas bicicletas. Íamos lá muito, tinha sempre tecidos muito bonitos e, mais tarde, peças de pronto-a-vestir com bom gosto. Apesar de ter empregados, estava lá todos os dias. Recebia os clientes de forma calorosa, aconselhava, sugeria, ria-se com toda a gente. Foi um sucesso. 
Mas, voltando ao Carnaval: entronchávamo-nos e, felizes da vida, íamos depois em grupo pela rua, os rapazes apareciam também, com bigodes desenhados, armações de óculos sem lentes, chapéus ou bonés, casacos de homem, uns todos entrouxados, outros aperaltados. Corriam atrás de nós, fingiam que nos queriam apalpar as mamonas ou o avantajado rabiosque, pregavam-nos partidas. E isso era uma verdadeira festa.

Do carnaval a única coisa de que eu não gostava era das bichas de rabear. Dos estalinhos não gostava por aí além mas não tinha medo. Mas odiava quando eles atiravam as bichas de rabear. Também tínhamos bisnagas em forma de bananas ou de outras figuras e os rapazes tinham pistolas. Enchíamo-las de água e molhávamo-nos todos. Também havia o costume de ir por trás e encher a cara do outro de farinha. Isso eram mais os rapazes que nos faziam. Eu fugia deles quando pressentia que era isso que estavam a tramar: davam-me cabo da maquilhagem.

Tenho ideia que, por altura do Carnaval, levávamos para a escola as ditas bisnagas e os ditos estalinhos. Pacífico. O que não íamos era mascarados.

Já adolescente, nas inúmeras festas dançantes de fim de semana ou de aniversários ou do que fosse, se calhavam no carnaval, mostrávamos alguma superioridade em relação a isso das máscaras e das brincadeiras, coisa que já parecia coisa de crianças. Mas tenho ideia de ter usado mascarilhas ou de aproveitar para fazer maquilhagens mais exuberantes. Contudo, o que recordo mais dessa altura foi de um namoradinho meu, um amor dos grandes apesar dos nossos verdíssimos anos, ter ido passar uma noite à esquadra por reiteradamente se pôr, escondido num terraço, a atirar estalinhos e bichas de rabear a um polícia que estava, em baixo, a fazer guarda a qualquer coisa. Perante tal feito, fiquei a gostar ainda mais dele, my hero. Teria ele uns catorze anos nessa altura e não percebo como fizeram isso a uma criança - mas fizeram.

Mais tarde, já namorando, e depois, já casada, voltei a festejar o carnaval a sério. Um primo nosso tinha o costume de organizar 'assaltos'. Então íamos, de noite, completamente disfarçados para que ninguém nos reconhecesse. O meu marido não achava grande graça, para ele era sobretudo um frete. Mas, enfim, sujeitava-se e acho que acabava por se divertir. Eram sempre festanças até de madrugada. Aí havia grupos de padres, grupos de freiras, damas antigas completamente irreconhecíveis com os seus chevaliers, sei lá, mas tudo polvilhado com o seu quê de malícia, malandrice, provocação. Mas a diversão que eu vivia nessas noites malucas não se comparava ao prazer enorme que tinha quando era miúda.

Não sei se por isso, nunca achei graça a mascarar os meus filhos com fatos alugados ou feitos de propósito (na altura acho que ainda não os havia à venda, como agora). Mas, então, já tinha passado de moda a verdadeira folia carnavalesca, já estava tudo a começar a ser industrializado. Começaram também a aparecer aqueles desfiles copiados do Brasil, uns patéticos arremedos, em marcha lenta, uma coisa de tipo lá vem um, toda a gente nos passeios à espera que passe uma meia dúzia de pseudo-foliões. A única vez em que quase assisti a uma coisa destas foi em Sesimbra. Tínhamos lá ido, já não me lembro a que propósito, e as ruas estavam cortadas. Sem querer, acabámos por ver parte daquilo. Deu-me pena ver aquelas raparigas, brancas, descoradas, com tempo frio e chuvoso, a desfilar como se tivessem a alegria do sangue africano ou como se estivesse um calor baiano.


Este ano, não sei porquê, não vi gente mascarada nas ruas. Se calhar fui eu que não andei na rua à hora certa. Mas vi na televisão. Lá há um ou outro que parece que goza o carnaval a sério mas, de resto, é aquilo de os homens aproveitarem para se vestirem de mulheres e umas mulheres meio histéricas a foliar para o seu minuto de glória na televisão.


Acho que se perdeu o verdadeiro prazer da transgressão, o prazer de descobrir que nos podemos transformar, soltar os anjos loucos que existem dentro de nós e, depois, voltar a ser o que éramos, o prazer de andar a correr e a rir em voz alta, em grupo, pela rua, o prazer genuíno de comprovarmos que nós próprios somos capazes de desenhar a nossa própria alegria.

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As fotografias são da autoria de Rares Pulbere, um fotógrafo de casamentos que resolveu ir para a rua fotografar o Notting Hill Carnival.

Os vídeos não têm a ver com Carnaval mas podiam ter. Foram feitos para a Love por Sølve Sundsbø, um fantástico fotógrafo, um transgressor, que já cá esteve noutras vezes. O primeiro é recente, foi divulgado ontem. O segundo já tem dois anos.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta-feira.

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domingo, setembro 01, 2013

Proibir os piropos? Legislar sobre os piropos...?! E só sobre os piropos de homens a mulheres ou também há que definir quais os piropos que uma mulher pode dizer e que não ofendem a sensibilidade masculina? ---- Ou seja, mais uma brilhante iniciativa do Bloco de Esquerda (que depois de se ter unido ao PSD, ao CDS e ao PCP para derrubar Sócrates, sabendo que a seguir viria o nefasto Passos Coelho, de vez em quando volta a sair-se com parvoíces destas que até parecem de propósito para distrair a atenção do pagode das sacanices que o dito Passos Coelho não pára de aprontar). Pois eu, pela parte que me toca, antes que sejam proibidos, distribuo munições. Podem encontrar aqui vários, desde os piropos tradicionais, aos imaginativos, até a alguns da minha colecção pessoal. //// ----> Texto acrescentado com ALGUNS PIROPOS DIRIGIDOS À MINHA MÃE E À MINHA FILHA


Caso sejam como eu e gostem de ver fotografias de casamentos, então aconselho-vos a não deixarem de deslizar até mais abaixo, até ao meu post seguinte, onde vos mostro as primeiras fotografias disponíveis do casamento do filho de Carolina de Mónaco, o belo Andrea Casiraghi, com a sua namorada de longa data e mãe do seu filho Sacha, Tatiana Santo Domingo.

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Entrámos em Setembro, um mês suave, que abre caminho para as subtilezas do Outono, em que o tempo já não é de calores tórridos mas ainda não é de frios atrofiantes. Conservo-me, pois, ainda despida mas saio da água e recolho-me à penumbra, lá onde a sombra e a luz traçam caminhos na minha pele. As cores prenunciam os encarnados da vinha virgem quando as folhas se começam a incendiar porque é no fogo do carmim que eu me movo melhor. A fotografia é de um dos fotógrafos de eleição do Um Jeito Manso, o norueguês Solve Sundsbo.

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Introdução feita, passo, então, ao tema deste post. 

Quero dizer-vos o que acho da inusitada iniciativa do Bloco de Esquerda que resolveu embirrar com os piropos e que, ao que parece, quer até abrir um debate parlamentar. 






Vi há bocado na televisão uma daquelas mulheres com aspecto intelecto-alternativo, vestido preto escorrido, cabelo igualmente escorrido até à altura do queixo e franja pelo meio da testa, a dizer que não são admissíveis observações sobre o aspecto físico das pessoas. Não admite, por exemplo, que alguém, por um qualquer acaso, lhe diga que é bonita pois não pediu opinião sobre isso. Claro está que eu, se fosse homem e me cruzasse com ela na rua, depois de a ouvir dizer isto com aquela cara de caso, talvez não me conseguisse conter (não sei é se lhe dizia que ela é bonita).

Pois eu, sobre isso, só tenho a dizer que os bloquistas ou são doidos ou estão a alucinar ou não estão no seu estado normal ou qualquer coisa nessa base. E isto porque:

  • Numa altura destas, em que há tantas coisas graves a ocorrer ou em vias disso (desemprego, supressão de direitos e garantias, etc, e tudo condimentado através de uma manipulação descarada da opinião pública - perante a passividade absoluta dos jornalistas que papagueiam acefalamente tudo o que os spin doctors do governo vão debitando para as redacções), parece-me que só gente que ande a planar numa outra dimensão ou que esteja conluiado com o (des) governo de Passos Coelho é que pode vir lançar tamanho disparate para a discussão pública.

  • E também acho que só por mentes a tender para o totalitário é que pode passar a ideia de censurar a expressão de reacções espontâneas (geralmente até de agrado).


Felizmente não tenho a experiência de ouvir bocas desagradáveis, depreciativas ou excessivamente ordinárias. Mas tenho, sim, a experiência de ouvir observações engraçadas, algumas mais brejeiras, outras mais sofisticadas.




Penso que os homens têm cada vez menos o hábito de dizer piropos a quem passa na rua mas considero normal que olhem, que se virem, e que, quando estão em grupo, mais protegidos e mais desinibidos, deixem sair um ou outro piropo. Acho identicamente normal que as mulheres façam o mesmo (embora não tenham muito esse hábito - e estou a referir-me a 'mandarem umas bocas', não a olharem ou virarem-se que isso é uma coisa que pode acontecer quase involuntariamente quando passa alguém que tenha um toque de je ne sais quoi).

Mas se isso é na rua, já em pequeno grupo, em roda de amigos, tanto homens como mulheres podem e devem ser simpáticos. Chama-se a isso confraternizar. Claro que é difícil traçar a fronteira entre uma observação simpática e um piropo mas também não vejo necessidade de traçar essa fronteira.

Vou repetir-me, creio, mas conto-vos na mesma. Tenho um grande amigo, um brincalhão, que se eu lhe disser, quando o encontro: 'estás óptimo', ele, quase invariavelmente, me responderá: 'dizes isso porque não te tens deitado comigo'. E eu farto-me sempre de rir. E ele também se ri por me ver rir.

E a coisa é ainda mais divertida quando a coisa se passa com um amigo (homem, portanto) que lhe faça o mesmo cumprimento pois leva, quase se certeza, com a mesma resposta.

E tem algum mal isto? Qual de nós disse um piropo? E algum de nós disse o que não devia?

Ora...

Poderia pôr-me a puxar pela cabeça para exemplificar piropos ou 'bocas' que ouvi ao longo da minha vida mas não tenho grande paciência para elaborar pensamentos ou repescar coisas da memória. Mas, assim de repente, lembro-me, por exemplo, de uma vez, grávida até mais não poder, passar ali na Castilho e estar um grupo de homens perto do Castil a olharam para mim, sorridentes, e um deles me dizer 'puseste-te a brincar com o zezinho... olha no que deu'. Achei piada. Segui como se não tivesse ouvido mas certamente a esforçar-me para não me rir.




E lembro-me também de uma vez (talvez também já o tenha contado e, se assim for, as minhas desculpas pela repetição) eu estar adoentada e, ao assomar ao gabinete de um colega, lá estar também o presidente da empresa. Quando me viu, este perguntou-me como é que eu estava. Respondi: 'Engripada'. Ele virou-se, com ar surpreendido para o meu colega: 'O que é que ela disse? Engraçada...?!'. Corrigi-o: 'Engripada'. Ele então desatou-se a rir: 'Ah... Percebi que você tinha dito engraçada. Estranhei. Não é que não esteja, ou que não seja, mas não costuma dizê-lo'.

Uns dias depois, estava já eu completamente recuperada, entrei na sala de reuniões ligeiramente atrasada, já estavam todos sentados à volta da enorme mesa ovalada, o presidente na cabeceira. Sentei-me. E então o presidente, sorridente, ar malicioso, olhou para mim e depois virou-se para o tal meu colega em cujo gabinete tinha decorrido o equívoca acima relatado, e disse-lhe: 'Ela hoje está mais do que engripada. Diria mesmo que está com uma grande pneumonia. Que é que você acha...?'. O meu colega desatou-se a rir e eu também. Claro que os restantes ficaram a olhar uns para os outros sem perceber nada. 

Foi um piropo? Ah pois foi. So what? Deveria eu ter ficado arreliada? Ora...

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[Volto a este texto para acrescentar mais alguns piropos, alguns envolvendo a minha mãe.



  • Conta ela que uma vez ia a passar, louríssima, um cabelo naturalmente louro, quase platinado, quando ouviu uma voz apreciadora: 'Está ruça mas ainda está boa...'. Quando conta isso, ela ainda se ri.


  • Recebeu também uma vez um piropo em forma de poema da parte do Sebastião da Gama, professor numa altura em que ela era aluna, que lhe entregou um papelinho que dizia:

O cabelo é de ouro
para que vejam bem
que o coração
é de ouro também

  • E lembro-de uma vez, estando eu a entrar na adolescência e ainda não acostumada a estas coisas, e indo eu e a minha mãe a passear na Baixa, uns sujeitos passarem por nós e olharem com ar interessado, e um deles dizer: 'Abençoada mãe que tal filha deitou a o mundo'. Lembro-me da minha surpresa e do ar de certa forma orgulhoso da minha mãe, e de como nós duas nos rimos.


  • Voltei a ouvir esse piropo várias outras vezes, nas suas diversas variantes mas, voltei, sobretudo a sentir o agrado inicial quando, indo eu com a minha filha, ouvi o piropo mas agora dirigido a ela.]


¨¨¨¨

Que mal fazem os piropos? Nenhum. Quando são simpáticos até fazem bem ao ego. 

Mas se, em vez de serem assim, forem ordinarices, que também já as ouvi (fazia-te, acontecia-te e sei lá que mais)? Pois, aí pode ser desconfortável, reconheço. 




Mas, se houvesse uma lei que proibisse as bocas foleiras, o que se deveria fazer? Desatar a correr até encontrar um polícia e convencê-lo a ir prender o infractor? Que parvoíce, senhores.

Eu o que recomendo é o seguinte e parece-me suficiente:
  • ou se faz o mais comum: ignorar, seguir como se não se tivesse ouvido,
  • ou, avaliando-se que não há riscos -, nomeadamente se se for acompanhada e se se perceber que do outro lado está um gargantas e pouco mais - também se pode parar, olhar o valentão de frente e dizer-lhe: 'Tem a certeza? Duvido. Ora veja-se ao espelho'. E depois seguir em frente. Garanto que o valentão vai ter vontade de se enfiar pelo chão abaixo.


Por estas e por outras é que o Passos Coelho, por mais porcaria que faça, ainda lá está - e ainda há quem não tenha percebido a criatura funesta que ele é. Com uma esquerda onde há partidos destes, que em vez de se concentrarem no que interessa, se entretêm a inventar baboseiras e manobras de distracção, de que é que se está à espera?

Não digo que o BE seja sempre o partido dos disparates pois o Miguel Portas era um humanista, aberto, culto, civilizado, sensato, e Francisco Louça era um brilhante parlamentar que fez grandes intervenções, Ana Drago também progrediu a olhos vistos (e agora que estava madura, sai - o que é uma pena), João Semedo é um homem sensato que se ouve com interesse. Mas, de uma forma geral, ainda andam a patinar sem perceberem qual o seu espaço de actuação e quais os objectivos da sua intervenção e, talvez por via dessa indefinição, há espaço para o surgimento de aberrações como esta de aqui falo. 

Embirrar com os piropos? ... A que propósito isto agora? Ora esta.




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Permitam que vos relembre: se são cuscos como eu e gostam de ver fotografias de casamentos, no post abaixo podem ver as primeiras do casamento do filho mais velho de Carolina de Mónaco, Andrea. Mostro também uma fotografia da despedida de solteira da mulher dele, Tatiana Santo Domingo.

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E nada mais por hoje. 

Resta-me desejar-vos que entrem em Setembro com o pé direito, que este domingo seja muito bom.

E espero que se virem alguém giro não deixem de demonstrar o que acham. 
Um piropo à maneira, uma flor, um sorriso, um poema cantado ou decantado, um piscar de olho, um assobio (you know how to whistle, don't you?, volto a perguntar): tudo coisas que se recomendam.

domingo, fevereiro 03, 2013

As jovens mulheres de Downton Abbey (que é como quem diz 'The girls of Downton Abbey") por Sølve Sundsbø e Gone por Melody Gardot com a casa de David Mourão-Ferreira






Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.


  Michelle Dockery   ...  Lady Mary Crawley


Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.



           Jessica Brown Findlay   ...  Lady Sybil Crawley 



Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão. . .


Laura Carmichael  ...   Lady Edith Crawley 



Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.


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As imagens acima são fotografias de Sølve Sundsbø, um fotógrafo norueguês que vive em Londres e que já aqui apareceu no Um Jeito Manso algumas vezes.

Para quem não está a reconhecer as três manas, aqui as deixo numa fotografia de época cujo autor não identifiquei.



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Uma vez mais lamento não ter tempo para responder aos comentários. Tive esperança de o conseguir mas é-me totalmente impossível.

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Tenham, meus Caros leitores, um belo domingo!

sábado, setembro 01, 2012

I love Chanel, A dreamy touch e The ever changing face of beauty - a arte de Solve Sundsbo (ou, ainda: La beauté sera convulsive ou ne sera pas)




Mais uma maravilha com a marca Chanel (J'aime Chanel, j'aime - e isto sou eu a dizer) e desta vez com a direcção de Solve Sundsbo, brilhante como sempre. Ou não fosse verdade que les beaux esprits se rencontrent.


E, agora, para a Vogue Italiana, de novo a sua marca.




E, finalmente, como se pode ler numa das apresentações: um filme caleidoscópico sobre transformação, fascínio e allure.





Transcrevo da apresentação deste trabalho tal como consta do Youtube, carregado por PsychoPHParis: 

'La beauté sera convulsive ou ne sera pas'. Nadja/André Breton

Exquisite corpse, also known as exquisite cadaver (from the original French term cadavre exquis) or rotating corpse, is a method by which a collection of words or images is collectively assembled.

It is this methodology which has been the starting point for a multi- screen film installation, conceived by Jerry Stafford and directed by reknown photographer and director Sølve Sundsbø. The film, commissioned by W Magazine and P&G Prestige, and produced by Psycho explores the idea of BEAUTY as a constantly shifting, constantly changing force. An idea of transformation and metamorphosis within a single body.


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E tenham, meus Caros, um bom Setembro, a começar já por este fim de semana!

terça-feira, agosto 14, 2012

As flores segundo Michel Houellebecq, Georgia O'Keeffe, Solve Sundsbo, Robert Mapplethorpe, Robert Buelteman, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade e Chavela Vargas


Para ouvir enquanto se lê - e para se ver a seguir (ou vice-versa)


Chavela Chaves - Flor de Azálea 

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Flor Azul - Pintura de Georgia O'Keeffe


As flores não passam de órgãos sexuais, de vaginas multicoloridas que adornam a superfície do mundo, entregues à lubricidade do mundo.



Fotografia de autor desconhecido


Os insectos e os homens, e também outros animais, parecem prosseguir objectivos, as suas deslocações são rápidas e orientadas, ao passo que as flores permanecem na luz, deslumbrantes e fixas.



Fotografia de Sølve Sundsbø


A beleza das flores é triste porque as flores são frágeis, e destinadas à morte, como tudo à face da terra, é claro, mas elas muitos particularmente.



Fotografia de Robert Mapplethorpe


A vontade de viver dos animais manifesta-se em transformações rápidas - uma humidificação do orifício, uma rigidez da haste, e mais tarde a emissão do líquido seminal.



Fotografia de Robert Mapplethorpe


A vontade de viver das flores manifesta-se na constituição de manchas de cor deslumbrantes, que cortam a banalidade esverdeada da paisagem natural.



Fotografia de Robert Buelteman


Sophia de Mello Breyner
Como uma flor vermelha




Fotografia de Sølve Sundsbø


                                           
                                                                   Tenho o nome de uma flor
                                                                   quando me chamas.
                                                                   Quando me tocas,
                                                                   nem eu sei
                                                                   se sou água, rapariga,
                                                                   ou algum pomar que atravessei






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Todo o texto escrito, em prosa, é da autoria de Michel Houellebecq e faz parte do livro 'O mapa e o território' traduzido por Pedro Tamen. O poema é de Eugénio de Andrade.

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Se ainda vos apetecer, muito gostaria de vos ter lá pelo meu Ginjal e Lisboa. A música é de Grieg numa inesperada interpretação e as minhas palavras voam em volta de um belo poema de José Bento.

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E já é terça feira. 
O que vos desejo é que seja um dia muito bom. E procurem a beleza.