Não passava uma quarta-feira que eu não me encantasse com o traço literário, com a coragem e irreverência, com a lucidez de Baptista Bastos no Diário de Notícias.
Baptista Bastos é um homem de coluna direita, mente livre, voz aberta, mas é também aquilo que numa empresa se designa por um bom activo. Um activo numa empresa é algo que faz parte dos seus bens, do seu património, que tem valor. E, se for um bom activo, não apenas tem o seu valor intrínseco como gera mais valor.
Um jornalista atrás de quem os leitores vão, é um bom activo.
Eu vou ao Diário de Notícias ler as opiniões de Ferreira Fernandes (todos os dias) e de Viriato Soromenho Marques, de Adriano Moreira, de Mário Soares, ..., e de Baptista Bastos.
Se estes jornalistas mudarem de poiso eu vou atrás deles e, se forem todos embora, eu deixo de ir ver o Diário de Notícias.
É idêntico ao que já aqui tenho referido em relação ao Expresso escrito: vou à procura dos textos de Pedro Mexia, de Ana Cristina Leonardo, de Jorge Calado, de Pedro Santos Guerreiro, de Nicolau Santos. E não vou ao Expresso Diário porque me incomoda que lá tenham metido o Gomes Ferreira e outros do mesmo calibre. Um jornal não é sobretudo design, publicidade, cadernos promocionais: não, um jornal é sobretudo o local onde se encontram as palavras dos que as amam e com elas sabem contar a realidade ou os sonhos.
O DN deitou fora o Baptista Bastos não percebendo que está a deitar fora o bebé com a água do banho. Baptista Bastos é dos poucos e grandes jornalistas, é daqueles que deveria ficar num jornal até ao fim dos seus dias para que os outros aprendessem com ele. Deveria ensinar aos mais novos a qualidade da escrita, a isenção, a frontalidade, a probidade, a honradez.
No entanto, algum senhorito, certamente de vistas curtas e fraco olho para o negócio, pô-lo fora do DN. Esta quarta-feira Baptista Bastos anunciou a despedida e escreveu a sua última crónica.
Li-a com emoção.
Acaba assim:
(...) tive o suporte de milhares de leitores. O número foi crescendo na medida em que eles percebiam que o autor não envilecera com a idade nem amolecera as indignações com o peso e as ameaças da época sombria. Na edição digital do DN, as minhas crónicas chegaram a obter 15 mil visualizações, dezenas de impressões e de envios. Admiti, tola soberba!, que havia quem encontrasse nas palavras semanais uma ração de esperança, um apelo à não desistência e um aceno de confiança na força interior de cada um. Apenas relato, não lamurio. Mas não posso calar o que me parece um acto absurdo, somente justificado pelas ascensões de novos poderes. Porém, esses novos poderes são, eles próprios, transitórios pela natureza das suas mediocridades e pelo oportunismo das suas evidências.
As palavras, meus dilectos, nunca são uma memória a fundo perdido. A pátria está um pouco exausta de tanta vilania, mas não soçobra porque há quem não queira. Se me aceitarem, estou entre esses. Não quero nem posso pôr um derradeiro ponto final no texto sem o dedicar a todos os que fizeram do Diário de Notícias o jornal que tem sido. E aos leitores que o ajudaram a ser.
Lamento muito a decisão do DN porque não me conformo com a ideia de deixar de, semanalmente, poder ler as crónicas de Baptista Bastos e porque me custa muito que alguém, certamente muito estúpido, tenha feito uma coisa destas a uma pessoa de bem, a uma pessoa que não merecia passar por isto.
E daqui lanço um apelo: que algum jornal o contrate rapidamente. Olhem, senhores do Expresso, corram com esse tal Duarte Marques cuja escrita é uma nódoa que faz doer a alma dos leitores, e ponha, em seu lugar o Baptista Bastos. E, aos poucos, vão limpando a tralha populista e desqualificada que lá têm e vão-na substituindo por jornalistas a sério, por gente que sabe pensar e sabe transformar os pensamentos em palavras limpas.
É certo que isto não é específico do DN: os meios de comunicação social têm-se vindo a abastardar, vão-se subjugando a toda a espécie de vãos interesses. Mas esse é um caminho perverso, um caminho que conduz ao vazio, ao fim do jornalismo.
Se os jornais se quiserem manter e desenvolver, deverão perceber que só a qualidade garante a sua sustentabilidade. Por isso, acordai!
Acordai! - por Teresa Salgueiro e Lusitânia Ensemble
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