Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, outubro 09, 2014

Baptista Bastos 'foi posto fora do Diário Notícias, mas não das palavras. Vai com elas, velhas amantes, para aonde haja um jornal que as queira e admita a indignação e a cólera como elementos de afecto, e sinais de esperança, de coragem e de tenacidade'. Assim nos anunciou o bravo e valoroso jornalista. E eu se fosse dona de um jornal contratava-o já hoje.


Não passava uma quarta-feira que eu não me encantasse com o traço literário, com a coragem e irreverência, com a lucidez de Baptista Bastos no Diário de Notícias.


Baptista Bastos é um homem de coluna direita, mente livre, voz aberta, mas é também aquilo que numa empresa se designa por um bom activo. Um activo numa empresa é algo que faz parte dos seus bens, do seu património, que tem valor. E, se for um bom activo, não apenas tem o seu valor intrínseco como gera mais valor.

Um jornalista atrás de quem os leitores vão, é um bom activo.

Eu vou ao Diário de Notícias ler as opiniões de Ferreira Fernandes (todos os dias) e de Viriato Soromenho Marques, de Adriano Moreira, de Mário Soares, ..., e de Baptista Bastos.


Se estes jornalistas mudarem de poiso eu vou atrás deles e, se forem todos embora, eu deixo de ir ver o Diário de Notícias.

É idêntico ao que já aqui tenho referido em relação ao Expresso escrito: vou à procura dos textos de Pedro Mexia, de Ana Cristina Leonardo, de Jorge Calado, de Pedro Santos Guerreiro, de Nicolau Santos. E não vou ao Expresso Diário porque me incomoda que lá tenham metido o Gomes Ferreira e outros do mesmo calibre. Um jornal não é sobretudo design, publicidade, cadernos promocionais: não, um jornal é sobretudo o local onde se encontram as palavras dos que as amam e com elas sabem contar a realidade ou os sonhos.


O DN deitou fora o Baptista Bastos não percebendo que está a deitar fora o bebé com a água do banho. Baptista Bastos é dos poucos e grandes jornalistas, é daqueles que deveria ficar num jornal até ao fim dos seus dias para que os outros aprendessem com ele. Deveria ensinar aos mais novos a qualidade da escrita, a isenção, a frontalidade, a probidade, a honradez.


No entanto, algum senhorito, certamente de vistas curtas e fraco olho para o negócio, pô-lo fora do DN. Esta quarta-feira Baptista Bastos anunciou a despedida e escreveu a sua última crónica.

Li-a com emoção.

Acaba assim:

(...) tive o suporte de milhares de leitores. O número foi crescendo na medida em que eles percebiam que o autor não envilecera com a idade nem amolecera as indignações com o peso e as ameaças da época sombria. Na edição digital do DN, as minhas crónicas chegaram a obter 15 mil visualizações, dezenas de impressões e de envios. Admiti, tola soberba!, que havia quem encontrasse nas palavras semanais uma ração de esperança, um apelo à não desistência e um aceno de confiança na força interior de cada um. Apenas relato, não lamurio. Mas não posso calar o que me parece um acto absurdo, somente justificado pelas ascensões de novos poderes. Porém, esses novos poderes são, eles próprios, transitórios pela natureza das suas mediocridades e pelo oportunismo das suas evidências.
As palavras, meus dilectos, nunca são uma memória a fundo perdido. A pátria está um pouco exausta de tanta vilania, mas não soçobra porque há quem não queira. Se me aceitarem, estou entre esses. Não quero nem posso pôr um derradeiro ponto final no texto sem o dedicar a todos os que fizeram do Diário de Notícias o jornal que tem sido. E aos leitores que o ajudaram a ser.

Lamento muito a decisão do DN porque não me conformo com a ideia de deixar de, semanalmente, poder ler as crónicas de Baptista Bastos e porque me custa muito que alguém, certamente muito estúpido, tenha feito uma coisa destas a uma pessoa de bem, a uma pessoa que não merecia passar por isto.

E daqui lanço um apelo: que algum jornal o contrate rapidamente. Olhem, senhores do Expresso, corram com esse tal Duarte Marques cuja escrita é uma nódoa que faz doer a alma dos leitores, e ponha, em seu lugar o Baptista Bastos. E, aos poucos, vão limpando a tralha populista e desqualificada que lá têm e vão-na substituindo por jornalistas a sério, por gente que sabe pensar e sabe transformar os pensamentos em palavras limpas.

É certo que isto não é específico do DN: os meios de comunicação social têm-se vindo a abastardar, vão-se subjugando a toda a espécie de vãos interesses. Mas esse é um caminho perverso, um caminho que conduz ao vazio, ao fim do jornalismo.

Se os jornais se quiserem manter e desenvolver, deverão perceber que só a qualidade garante a sua sustentabilidade. Por isso, acordai!




Acordai! - por Teresa Salgueiro e Lusitânia Ensemble


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quarta-feira, agosto 27, 2014

Noites Quentes - 'A arte é uma mentira que nos faz ver a verdade'


Dia de praia, noite quente e eu aqui com um problema. A revolver os livros em cima da mesa para escolher mais algumas leituras, eis que o provável aconteceu: uma pilha desmoronou-se, contagiou outra, na queda roçaram na pilha que estava em cima duma cadeira e agora tenho o chão, debaixo dos pés, pejado de livros. Claro que poderia restabelecer a ordem mas eu, mesmo nas pilhas provisórias, gosto de alguma lógica e não é à uma da manhã que me vou pôr com isso. Caraças. 

Ainda continuo entrincheirada porque ainda subsistem de pé em cima da mesa oito pilhas e meia. O que vale é que o meu marido acabou de sair da sala, senão bem o podia ouvir. Bolas para isto.

Banksy


E está calor e eu tenho preguiça. Deve ser preguiça isto, deve ser. Chego aqui, vou à procura de algum tema da actualidade que desperte a minha atenção e não encontro. Um tédio.

A política nacional e os seus agentes são maioritariamente medíocres, excrescências espúrias de uma sociedade que rejeita a diferença e a qualidade. Percorro os jornais e o que vejo é uma miséria.

Não são só os políticos. Os jornalistas e comentadores, salvo raras excepções, são medíocres, pouco inovadores, pouco rigorosos, em grande parte contribuem para o embrutecimento colectivo. Insuportáveis.

Gente pequenina. Gente de palha.


Rothko
Li há pouco referência à crónica de João Miguel Tavares no Público. Fui ver. 
Não ia a esperar nada de bom, dali parece que só vem cocó na fralda, conversetas para entreter adultos retardados. 
E não me enganei: atira-se a António Costa por nada, apenas porque gosta de dar que falar. 
Não podendo competir com a Fany ou com o Tony Carreira que à mínima saltam para a capa das revistas (e não o faz porque esse não é o seu ramo de negócios, não que não seja essa a sua vocação), arma zaragata escrita com o que lhe parece que está a dar. 
É a irrelevância em forma de comentador. É ele, o Henrique Raposo e tantos outros que por aí andam a poluir a opinião pública.



Há pouco, antes do desmoronamento, na minha demanda por leituras que me motivem, fui folheando um conjunto de revistas literárias e livros de autores portugueses que ainda não li e tudo me parecia mais do mesmo.

Tenho a televisão ligada e também tenho dificuldade em escolher, só treta, banalidade, repetição, mediania.

Momentos de fractura - em que a luz entra límpida, em que a arte assoma despudorada, em que a música é única, melhor que o silêncio ou os sons inocentes da natureza, em que a opinião é despretensiosa e visionária, em que as palavras são genuínas, únicas - parecem raros.


Richard Krush e Sylvie Guillem


As pessoas parecem ter receio de se destacar, temer a crítica das cassandras ou ficar isoladas perante um coro de agoniados e, então, não se arriscam, limitam-se a repetir o que os outros disseram ou fizeram, ou a fazer bonitinho, ou pretensamente alternativo. Uma seca.

Mas talvez seja este calor que me está a cercear a tolerância. Vou beber um sumo gelado e, depois, em vez de estar aqui a destilar impaciência, vou, antes, partir em busca de qualquer coisa que me estremeça, que me leve.

E, antes, vou voltar atrás no que escrevi e vou incluir imagens, ar puro, rasgos. Podem as imagens não ter nada a ver mas ajudar-me-ão a respirar melhor.


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Banksy's "Artist in Residence" Video para o 18th Annual Webby Awards





To accept his Webby for Person of the Year, Banksy made this video about his Residency in New York City.


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Morton Feldman : The Rothko Chapel




La fin de "Rothko Chapel" pour alto, choeur, célesta et percussions, avec sa mélodie d'inspiration hébraïque, composée par Morton Feldman à l'âge de 15 ans.



Sons brancos 
Como que nascidos
De uma fonte exausta.
Coerência baça
Construção exacta
De um quase nada.
Estranha cor
Que risca o silêncio
Antes de se esfumar
Num sensível
E belo
Arrastar do tempo.


(Joaquim Castilho, num comentário aqui abaixo) 

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Suheir Hammad's Gaza Suite | 4: Jabalya




The fourth poem in Suheir Hammad's Gaza series


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Se eu fosse eu - Clarice Lispector por Aracy Balabanian




"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. 


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Agostinho da Silva - Salazar, Capitalismo e CEE




"Conversas Vadias" - Entrevista com Baptista Bastos


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PICO

(Performance Indeterminate Cage Opera)




If you took the musical revolution of John Cage, the radical thinking of Marcel Duchamp, and the media anarchy of Nam June Paik, and put them in a blender... the result would be PICO (Performance Indeterminate Cage Opera).



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Já me sinto um bocado melhor: um ar fresco e limpo já passou por aqui.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira, e desculpem lá esta impaciência.
Deve ser porque o calor da noite não abrandava.

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