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sábado, novembro 23, 2013

"Os escritores (também) têm coisas a dizer", e tantas que lhe disseram, a ele, o homem dos sete instrumentos e da Tinta da China, Carlos Vaz Marques. Hélia Correia fala do que é um grande texto e Agustina Bessa-Luís fala de pessoas frívolas: duas mulheres escritoras que concederam grandes entrevistas a CVM. Tang Chew Liang ilustra este post e Benjamin Britten acompanha.







Não há nisso uma certa queda para a misantropia?
Não. Acho que não sou nada misantropa. Amo bastante a raça humana. Mas é um amor mais abstracto do que concreto.
Amo mais a raça humana abstractamente do que depois as pessoas no seu corpo e com o seu volume, com o espaço que ocupam.

Um grande texto pode dizer as barbaridades que entende?
Pode. Em termos ideológicos, pode. E tem dito. Olhe, o Celine.

Hélia Correia
E o que é um grande texto?

Um grande texto, costumo dizer, é o que tem uma escrita holográfica. 

É o que, em vez de fazer a fotografia do real - que não me interessa -, consegue dar profundidades que eu não alcanço de outra maneira. Que só alcanço por aquela combinação de palavras que aquele escritor conseguiu. 

Está lá outro universo dentro. 

E porque, também costumo dizer, eu não quero que me contem histórias, eu conto-as a mim mesmo. Toda a minha vida é feita de histórias. 


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A Agustina é alguém que tem vindo a fazer uma espécie de levantamento dos estratos geológicos que são atitudes culturais das últimas décadas. Como é recolhe os sinais da mudança social de hábitos e de comportamentos?
No contacto humano. O ser humano é a minha grande escola, é a minha grande fonte de informação. É o meu arquivo, inclusivamente. Eu, por exemplo, aos cinco anos não gostava dos adultos porque os considerava falsos, mentirosos e hipócratas.

E ainda pensa isso?
Hoje penso, mas de outra maneira.  Porque não são só isso. Eles são isso como defesa, como simplificação. Hoje, por exemplo, dou muita importância às pessoas que são frívolas.

Porquê, o que é que a frivolidade nos dá?
A frivolidade é também uma forma de hipocrisia porque as pessoas não são aquilo. A pessoa, quanto mais frívola nos parece, mais esconde a sua natureza profunda.
Agustina Bessa-Luís

E porque é que dá essa importância especial aos frívolos?
Porque têm mais a noção da sua fraqueza e, portanto, têm de se revestir de qualquer coisa que se imponha - inclusivamente, de uma maneira chocante - mas que é, de certa forma, uma carapaça que os defende.


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Este livro, 'Os escritores (também) têm coisas a dizer", contém ainda entrevistas de Manuel António Pina, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, Mia Couto, Antonio Tabucchi, Eduardo Lourenço e António Lobo Antunes.


Da mesma colecção comprei também agora 'Como Ler um Escritor' de John Freeman e do qual um dia destes darei notícias.

*

A música lá em cima, interpretada pelo The Dragon School Choir acompanhado ao piano por Vicky Savage é de Benjamin Britten ( Lowestoft, 22 de Novembro de 1913 — 4 de Dezembro de 1976, OM, Barão Britten de Aldeburgh, compositor, maestro, violetista e pianista britânico), são excertos de Friday Afternoons:


3. Cuckoo! (Words by Jane Taylor 1783-1824)
10. Jazz-man (Words by Eleanor Farjeon 1881-1965)
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As imagens, Fashion in Leaves, moda com flores ou folhas, são da autoria de Tang Chew Liang de Kuala Lumpur.

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Peço-vos ainda o favor de descerem um pouco mais até aos excertos da frontal entrevista de Sobrinho Simões ao Público. São momentos assim que marcam os pontos de viragem.

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Resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, um belíssimo fim de semana.

segunda-feira, junho 03, 2013

Reportagem fotográfica na Feira do Livro em Lisboa: jacarandás com escritores, em dias de muito calor


Desde o início da minha adolescência que frequento a feira do Livro. Comecei por ir com os meus pais. Andava de pavilhão em pavilhão, eles maçados e eu deliciada. assim me recordo: o meu pai impaciente, carregado com os livros que eu ia escolhendo, a minha mãe compreensiva e eu perdida, empolgada no meu mundo. Depois já ia sozinha, e nada se comparava a isso, horas para baixo e para cima, braços carregados de sacos. No primeiro dia, ia de barraquinha em barraquinha, pedindo os catálogos que depois estudava em casa e, quando voltava, para além dos livros do dia e de coisas inesperadas, ia aviando a lista que tinha feito em casa.

Depois passei a ir com um namorado que também amava as palavras. Mas ele, ao visitar a feira, tinha a sua própria agenda e isso atrapalhava-me os movimentos pois eu queria parar nuns e ele demorava muito noutros que não me diziam nada, coisas ligadas a estudos linguísticos, semiótica, e outras coisas do género. Eu queria seguir e ele de roda dos livros onde se explicava como se fazia a autópsia à língua portuguesa. Ou cirurgia, mais do que autópsia. Livros de anatomia e cirurgia da língua, e eu acho que isso destrói o amor na língua. Alguém, para gostar de uma outra pessoa, se põe a ver as suas análises médicas, radiografias, ecografias, alguém precisa de dissecar o outro para o compreender e amar melhor? Eu acho que não. Em contrapartida, se eu parava nos compêndios de Berkeley ou na Teoria da Relatividade ou na Mecânica Quântica ou na Origem das Espécies, matérias que, nessa altura (e ainda hoje) me mobilizavam grandemente, ele queria seguir. Um stress. Não era fácil de compatibilizar.

Tempos depois, a companhia passou a ser outra: a mesma de agora, a mesma de todos estes anos. Mais perspicaz que eu para ver coisas em que não reparo mas com vontade de despachar a feira em três tempos. De longe deita o olho, vê se interessa ou não, e segue, sem paciência para se debruçar à procura de um tesouro escondido. Fica de longe, de olho em mim, a ver se não me perco dele.

Pelo meio, fui também com os nossos filhos. Cheios de calor a quererem água e gelados, interessados em alguns  pavilhões mas o resto do tempo impacientes, queixando-se das secas. Ainda hoje referem os traumas que apanharam nessas alturas. Mas hoje são leitores assíduos, exigentes, e talvez devam um pouco disso ao amor aos livros com que sempre conviveram, desde que nasceram.

Desde que há a Fnac com 10% de desconto e promoções e desde que à hora de almoço vou quase todos os dias ver o que há de novo, a Feira perdeu um pouco daquela novidade. Mas, ainda assim, parece que todos os anos tenho que me manter fiel a este ritual.

No sábado fui de raspão ao fim da tarde. Vinha da Gulbenkian, das brincadeiras do Dia da Criança, já estava cansada. Dei uma volta, espreitei uns livros, vi alguns escritores mas de longe. 

Este domingo resolvi ir lá de tarde para ver se comprava alguns livros.

Almoçámos um brunch (passe a redundância) num restaurante muito agradável, boa comida, variada, à discrição. Não gosto muito de fazer publicidade a restaurantes mas de vez em quando abro uma excepção. Este merece destaque: a Rota das Sedas, na Rua da Escola Politécnica, em frente da Procuradoria-Geral. Ficámos no terraço.



Restaurante Rota das Sedas


Tirei a fotografia numa altura em que as pessoas de uma mesa se tinham levantado para ir buscar comida e apenas mais duas pessoas ao fundo e mais duas junto a nós lá estavam. A seguir, quando estávamos já de saída, a caminho das três horas, chegaram mais pessoas. Se calhar essa é a hora de maior afluência para os brunches. Lá dentro há umas salinhas pequenas, também simpáticas, mas o terraço é melhor. Não é barato mas o sítio é tão bonito e a comida tão agradável que, enfim, fecha-se os olhos, um dia não são dias, bla,bla, bla (21 euros por pessoa, mais as bebidas que são à parte).

Para quem possa, aqui deixo a recomendação.

Depois fomos para a Feira. Um calor abrasador. Embora goste de calor, custa-me andar na rua, ao sol, com temperaturas tão elevadas. Fico impaciente, a minha disponibilidade esvai-se.

Confesso que a configuração actual da Feira me é um pouco estranha. Há muitas esplanadas - o que até pode ser bom para que a mim, talvez por conservadorismo, me parece um pouco demais - e tudo aquilo me parece mais stands comerciais do que barraquinhas de livros. Muitos cartazes, muita cor, muito altifalante.

E depois há os autores. Sempre houve sessões de autógrafos e eu sempre as evitei. Não sei porquê. 

Tenho para mim que o que me importa é o que escrevem, não quem são, não a forma como assinam o nome. No entanto, uma ou outra vez, em todos estes anos, cedi à normalidade e fui pedir um autógrafo. Pedi um à Alice Vieira antes da minha filha nascer e pedi que a dedicatória lhe fosse dirigida. E talvez mais um ou outro. De resto, tenho um pudor, não sei explicar, acho que os escritores não deviam ser obrigados a sujeitarem-se àquela provação. Acho que deve ser horrível estarem ali sentados à espera que alguém os vá procurar. De vez em quando vejo uma mesa com um escritor sozinho e sem que ninguém lá pare. Acho que deve ser horrível, horrível. Passo e nem olho, finjo que nem reparo para que não se sinta que estou a testemunhar o abandono a que está a ser votado.

De alguns escritores gosto muito e gostaria de lhes dizer isso, que gosto deles, mas não quero fazer figuras ridículas, chegar ali e dizer banalidades, ah e tal, aprecio imenso a sua obra, imagino a complacência do escritor, ah muito obrigado, como se chama para eu escrever na dedicatória? Não. Não faz o meu género. 

Mas, enfim, gosto de os ver, de saber como são, e àqueles de que gosto e que não têm muita gente de roda, gostaria de lhes agradecer, de perguntar se querem companhia, de ficar ali sentada a conversar para que não se sintam mal amados, de perguntar se querem que lhes vá buscar uma água ou um gelado. Mas receio que me olhassem como se eu fosse maluca, e, até assustados, me dissessem que não, que me despachassem - não corro o risco de fazer essas figuras ridículas (nem o meu marido me deixaria...). Por isso, limito-me a fotografá-los discretamente.

Naturalmente comprei alguns livros mas não muitos, não tantos como há anos atrás. Tinha curiosidade de ver a Patrícia Reis, li o que ela escreveu ontem (já retirou o post) e estava curiosa de ver como é que ela lá estaria e talvez vencesse a minha resistência e fosse pedir-lhe um autógrafo. Mas ela só chegava às 5 e eu já não aguentava mais o calor. 

De resto, e desejando que os visados não levem a mal a inclusão de fotografias suas aqui, deixo a fotografia de alguns escritores que fotografei. Caso não o permitam, bastará que mo digam que eu as retirarei de imediato.

Começo com os jacarandás em flor que circundam a zona.



Jacarandás em flor no início da à Av. Joaquim Augusto Aguiar, ao Marquês


A seguir mostro a vista geral de Lisboa, do Tejo e da Margem Sul avistados da Feira, para os que não tem possibilidade de a visitar (e não posso esquecer que parte dos meus Leitores não é de Lisboa e, inclusivamente, um número significativo é do Brasil)



A Feira no Parque Eduardo VII, a estátua do Marquês de Pombal de frente para o Tejo, e Lisboa descendo até à beira do rio, a Serra de Palmela ou da Arrábida (ou as duas - não sei) do lado de lá


A relva é aproveitada para banhos de sol e que sol, que calor...



Relvado central do Parque


Estava muita gente quer no sábado quer no domingo. Não me pareceu que as compras fossem extraordinárias, mas talvez fosse impressão minha. Para o meu gosto a feira tem um pouco de animação a mais e isso e o calor desestabilizaram-me um pouco, pelo que talvez tenha ficado com uma impressão imprecisa. Pareceu-me que as pessoas andavam a passear mais do que a comprar.



As zonas de sombra são um alívio nestes dias de calor mas, como se vê, há muita gente na Feira


Não quero deixar de referir que, para além das Editoras mais conhecidas, há outras que desconheço e há outros pavilhões que não têm muito a ver com editoras ou então fui eu que não percebi. Por exemplo, neste aqui abaixo não consegui perceber bem o que se passava. Não sei se são góticos, se era algum escritor que atraía pessoas com esta forma de viver, não sei. Associei ao que J. Rentes de Carvalho escreveu sobre um par de góticos que passaram por ele.



Tenda onde se passava qualquer coisa - mas não percebi o quê,
só sei que estavam quase todos vestidos de uma forma especial


E, por falar em J. Rentes de Carvalho, lá estava ele. Hesitei. Ainda peguei no último livro, que ainda não tenho. Mas pareceu-me que ele estava cansado ou com calor ou saturado, não fui capaz de ir importuná-lo.



J. Rentes de Carvalho


Vi também um filósofo de quem recentemente li um livro bastante interessante, 'Portugal, hoje - o medo de existir'. Devia ter sido capaz de sintetizar em duas ou três frases alguma coisa de inteligente para ele perceber que eu tinha percebido alguma coisa do que li. Mas não me ocorreu nada e também não quis fazer uma figurinha triste como se fosse uma admiradora ocasional. Os escritores merecem-me um respeito que não me parece compatível com chegar ali ao pé deles a pedir um autógrafo como as miúdas que querem um autógrafo de um vip da televisão ou de um futebolista.



José Gil


Junto a ele estava uma das escritoras de quem muito gosto, uma mulher que sai das grutas para brincar com bonecas nos sótãos, ou que brinca à porta de casa com gatos ou que desce ao interior dos bosques para buscar palavras, ou que voa.

Falava com alguém e voava nos gestos, no olhar. Como chegar-me ali, interrompê-la, dizer uma banalidade qualquer? Impossível.



Hélia Correia.
Tirei mais duas fotografias em que toda ela está focada
mas prefiro esta pois aqui ela sorri como uma menina e as mãos voam como pássaros


E, por falar em poesia, na zona da Leya que é uma feira dentro da feira, eis que vejo, discreta, Maria do Rosário Pedreira. Estava ao lado de outras pessoas, talvez escritores, não os conheci. Não quis maçá-la. Mas uma pessoa abeirou-se dela, com carinho, e vi como ela sorriu, um sorriso muito bonito.



Maria do Rosário Pedreira, editora, poetisa


E, por falar em pessoas simpáticas, no sábado vi alguém a quem tinha vontade de me apresentar, de me explicar. Mas no sábado estava cansada, com vontade de ir para casa, sem disponibilidade para conversas. Fotografei-a e este domingo estava com esperança de a ver lá de novo, para, então, me aproximar. Mas já não a vi.



Helena Sacadura Cabral, a Bárbara Helena,
 a quem os jacarandás ofereceram as suas flores para que ficasse assim,
florida de lilás. E jovial e sorridente, como sempre


E já aqui falei desta outra, uma Senhora que escreveu muito para os meus filhos, em especial para a minha filha que a adorava e que eu admiro muito como Poetisa.



Alice Vieira.
A fotografia ficou desfocada pois estavam pessoas a passar à minha frente
 mas quero tê-la aqui pela ternura da sua imagem comendo um gelado, simpática, disponível


Não quero deixar de aqui mostrar um escritor que admiro e com quem me 'encontro' algumas vezes a comentar o Chapéu e Bengala.



Onésimo Teotónio Almeida


Depois havia as vedetas, as que faziam com que os leitores formassem filas. Neste caso aqui abaixo, de uma disponibilidade enorme, sempre pronto para estas sessões, não me teria custado muito... se eu fosse de me pôr em fila, numa tarde de calor abrasador. Não sou.



Luis Sepúlveda


E a vedeta maior, uma fila enorme: o escritor tatuado, da moda, dos clichés. Li os primeiros livros e gostei, li um livro de poesia e gostei mas, a partir daí, acho que se banalizou, que escreve por escrever, que escreve sem que as palavras lhe venham das entranhas, que escreve a metro, não sei bem dizer, parece que as palavras perderam a alma. Ou então sou eu que cada vez sou menos condescendente. Não sei. Talvez seja do excesso de mediatização. Tenho ideia que as luzes da ribalta desvendam as zonas de sombra necessárias aos escritores e, ao desvendá-las, secam-nas. Mas isto sou eu a dizer - e que sei eu disto?



José Luís Peixoto, o escritor que encanta sobretudo 'plateias' femininas


No sábado, já tinha visto uma outra vedeta mas não exactamente da literatura. De qualquer forma, como vedeta, tem virtudes inquestionáveis: é inteligente, é divertido, tem uma presença forte na televisão. Costumo ler às vezes as suas crónicas e ouvi-lo no Governo Sombra. Escreve bem e é acutilante, aquele humor inteligente que dá gosto. 



Ricardo Araújo Pereira, não sei que livros publicou, talvez os livros das crónicas da Visão - mas não sei.
O que sei é que, para além do mais, é um homem bonito


Junto a ele, na Tinta da China, Carlos Vaz Marques, editor e Primeiro-Ministro do Governo Sombra, observava o desempenho do seu irreverente ministro.



Carlos Vaz Marques - o talentoso, trabalhador, grande amante das palavras


E fico-me por aqui que a reportagem vai longa e a noite avançada.

Mas depois de ler o que a Patrícia Reis escreveu sobre aquilo por que um escritor passa nestes dias de Feira, fiquei na dúvida se esta minha atitude de passar, de não querer maçá-los, o meu receio de fazer figurinhas deprimentes, será a melhor atitude. Acho que vou reconsiderar. 

***

Caso sejam uns resistentes e ainda não estejam fartinhos de ler o que escrevo, muito gostaria ainda de vos ter lá pelo meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras vão até a um jardim muito especial e vão guiadas pela poesia de Armando Silva Carvalho, num livro que comprei, justamente, na Feira. A música é especial. Foi um desafio que um Leitor, a quem muito agradeço, me lançou. Levei algum tempo a ganhar coragem: trata-se da música do compositor Luciano Berio. Não é a minha praia como se costuma dizer mas, ainda assim, abre portas pelas quais não costumo passar.

***

E, por hoje, já é até demais, não é...? Por isso, calo-me já mas não sem antes vos desejar uma bela semana a começar já por esta segunda feira.

quarta-feira, maio 29, 2013

A Granta nº 1 que me fez despir para a fotografia ficar a condizer, o Servidões de Herberto Helder de que não digo nada para não estragar, o Viagens e outras Viagens de Antonio Tabucchi e os meus sapatos encarnados. E ainda uma árvore ao lado da qual uma mulher fecha os olhos e sonha antes de ir dormir. Livros, poesia, palavras, tudo ao pé das coisas cá de casa - e os puristas da coisa que me perdoem por estas misturadas.


No post a seguir a este, escrevo uma Carta Aberta ao Henrique Monteiro (do Expresso) ou a todos os que fazem opinião sem terem muito apegamento a números, deixando-se enrolar com excessiva facilidade.

Mas isso é mais abaixo. Aqui, agora, a conversa é outra. 

*

Se eu fosse escritora tenho quase a certeza que seria como o Herberto Helder. Não na qualidade, claro – tomara eu…. - mas no facto de ser bicho do mato, de não andar a fazer sessões de lançamento, a dar entrevistas e essas coisas que imagino que sejam chatas, enervantes e, até, a tender para o deprimente. Ter que ser bem educada e responder àquelas perguntinhas tantas vezes ridículas, ou repetitivas, ou pessoais, ou a pedirem explicações para o que se escreveu… deve ser uma chatice, mas uma senhora chatice, imagino eu. 

Não me considero nem de longe nem de perto uma escritora mas, ainda assim, escrevo para aqui umas coisas. Mas comigo passa-se uma coisa: como não premedito o que escrevo, nem retoco, nem volto a ler, se me perguntassem pormenores sobre histórias escritas há algum tempo, já teria dificuldade em responder, é coisa que passou à história, aconteceu no momento em que escrevi, nada mais. Que maçada se me viessem pedir explicações para o que escrevi há meses...

E andar em feiras, a conversar com outros escritores, jornalistas, e todos a fazerem citações ou a falarem de personagens ou autores ou livros fantásticos e eu bloqueada, sem me lembrar de nada… É que até parece que é de propósito: no meio de gente que gosta de se armar ao pingarelho, parece que ainda fico mais burra, deve ser porque não tenho paciência, só me sinto bem ao pé de gente simples, não tenho mesmo pachorra nenhuma para aturar pessoas que se armam em esquisitas, afectadas, enjoadas, ou cheias de triquitriqui, ou sabichonas, ou então dá-me vontade de ser inconveniente ou de me armar em burra para as ver armadas em espertas e eu a gozar com a burrice delas. Enfim. A coisa não resulta. Já sei. Por isso, para me poupar, prefiro evitar.

Se publicasse algum livro (e quem sabe um dia, quando me reformar, desinibida e inconsciente, não desato a escrever?) com certeza que seria como o Herberto Helder ou como o Dalton Trevisan: toda a gente a ver se arranja alguma fotografia mais actual, toda a gente curiosa de saber como são eles na actualidade, desejando uma entrevistinha, e eles nada, moita, na sua vidinha saudável, longe da barafunda e do ruído.

Aquele número de andar a dar entrevistas por tudo o que é sítio, sessões de lançamento, palavrinhas de circunstância, ná… E aquela coisa de fazerem imagens dos escritores em cartão, em tamanho natural? Horrível. Uma pessoa vai a entrar numa livraria e apanha com o Miguel Sousa Tavares, ainda hoje entrei na Bertrand e senti-me observada, era ele, fui ao supermercado e lá estava ele, uma multiplicação de seres de cartão que nos cerca, um susto, parece que estão ali especados a olhar para a gente. Não sei se é por isso, se é por ser tão badalado, se é por abrir os livros, folhear e aquilo não me dizer nada, ainda não li um único livro dele. Não consigo, é mais forte que eu. 

Corrijo: já li o Não te deixarei morrer, David Crockett e até não desgostei. Tirando isso, nunca fui capaz. Acho sempre que há melhor alternativa.

Adiante.

Ontem lá comprei alguns livros imprescindíveis, daqueles que tomara eu que fosse possível que me entrassem na veia, talvez diluídos em soro para correrem melhor.

Podia mostrar-vos os ditos de uma forma mais normal mas, como sabem, prefiro dar um toque mais pessoal às fotografias de livros. É o meu lado artístico: gosto de fazer instalações.

Assim, seguindo a sugestão da Leitora Antonieta, trouxe o Viagens e outras Viagens do Antonio Tabucchi, e claro, viagens requerem que se ande e, para se andar, é melhor que se ande calçado.

Quando eu era pequena, pequenina mesmo, quis ter uns sapatos encarnados. A minha mãe fez-me a vontade e tenho algumas fotografias com esses sapatinhos. Lembro-me muito bem deles. Achava-os uma coisa do outro mundo. As minhas amigas todas com sapatos castanhos, pretos ou azuis escuros e eu de sapatos encarnados. 

Mas a pancada por sapatos encarnados não esmoreceu. Sempre os fui tendo ao longo da minha vida. Frequentemente eram de salto bem alto e uma parte deles de camurça. Mas também os tive de pele simples, outros de verniz, uma indecência. Lindos.

Agora, desde que há uns meses fui operada, ando um pouco afastada de saltos de agulha. Sinto-me mais confortável com sapatos de cunha ou de salto não muito alto e afiado. Provavelmente é psicológico. Um dia destes, volto aos meus sapatinhos elegantes que estão ali tão abandonados. 

Adiante.


Antonio Tabucchi, Viagens e outras Viagens - e os meus red shoes


Cá está o Tabucchi ao pé dos meus actuais - e confortáveis! - sapatos encarnados.

Transcrevo a parte final da crónica dedicada ao Palácio Fronteira porque, justamente, no dia da sua morte, falei aqui do dia em que estive lá com ele, numa suave tarde de sol dourado. Lançava-se, então, o livro da sua autoria com ilustrações da Paula Rego, que tinha também feito a pintura de um painel de azulejos para o banco chamado Fogo. Tenho esse livro autografado por ambos, como poderão ver nesse meu outro texto.

Mas passo a palavra a Tabucchi:

O Palácio Fronteira é a casa do actual marquês de Mascarenhas, mas é também um museu aberto ao público. Aconselho uma visita com bom tempo, porque o jardim à italiana, elegantíssimo, merece um passeio. Para além disso, os azulejos dos bancos não são inferiores aos da fachada. Aliás, há um que pede uma paragem especial: como os azulejos se tinham deteriorado irremediavelmente, voltou a desenhá-los uma grande pintora contemporânea, Paula Rego, uma artista cuja força visionária não é inferior à dos antigos mestres. O seu banco, que se chama Fogo, tem figuras que 'ardem' e é impossível sentar-se nele.



A Granta Portugal, I, 'Eu' - e a minha blusinha primaveril com um colarzinho a condizer


Aquela roupa da cama em desalinho da capa deu-me vontade de despir o que trazia vestido e pousá-la ali, junto à minha blusa de tecido suave e florido. Tenho este lado meio fútil, meio vaporoso, que querem...?

Adiante e vamos à Granta.

Laura acordava sempre em sobressalto. Verificava o corpo como alguém que confere os bens depois de um terramoto. Nunca se arrependeu da decisão. Mas começa a sentir-se fatigada e não consegue perceber se a causa está na idade que uma parte dela tem ou naquela aturada vigilância para manter os bocados no lugar.

(Parte final do texto Intervencionados de Hélia Correia, um dos vários textos desta revista que é um luxo, um luxo. Custa 18€ mas vale bem o que custa. Uma vez mais, está de parabéns o Carlos Vaz Marques que a dirige. Apenas a folheei, espreitei, li bocados, mas nisto a minha intuição não se engana - e, convém não esquecer, a intuição não é uma coisa extra-sensorial, a intuição não é senão um short cut da inteligência - e, sobretudo, Granta é Granta, há que não esquecer os pergaminhos da marca)



Servidões de Herberto Helder,
sobre mesa com tampo de pequenos azulejos das Louças de Sant'Ana,
 mesa esta que era também da Tia Nena (mas oferecida ainda em vida dela),
e junto a uma pequena cadeira pintada adquirida em Porto Côvo


Tenho agora aqui na minha mão o mais recente livro de Herberto Helder ainda a cheirar a tinta (a sério!), com uma bela capa, uma xilogravura de Ilda David. 

Abro-o e leio:

André Breton - Des têtes! Mais tout le monde sait ce que c'est qu'une tête.
Alberto Giacometti - Moi, je ne sais pas.


(Penso: ora bem, cá está, mais um maluco, não há dúvida que este é mesmo cá dos meus e, pelos vistos, continua em grande forma.)

Depois um texto. Mergulhamos no mundo do poeta, naquele mundo que é só dele. Não devíamos, talvez, aqui estar. Dói de emoção. Acaba assim esse texto introdutório:

Compreendi então: cumprira-se aquilo que eu sempre desejara - uma vida subtil, unida e invisível que o fogo celular das imagens devorava. Era uma vida que absorvera o mundo e o abandonara depois, abandonara a sua realidade fragmentária. Era compacta e limpa. Gramatical.

Depois, noutra página, isto:

dos trabalhos do mundo corrompida
que servidões carrega a minha vida

E a seguir:

                                                                                  saio hoje ao mundo,
                                                                                  cordão de sangue à volta do pescoço,
                                                                                  e tão sôfrego e delicado e furioso,
                                                                                  de um lado para o outro para sempre num sufôco,
                                                                                  iminente para sempre

                                                                                                                                   23.XI.2010: 80 anos


Gostava de continuar mas, claro, tenho que parar. Mas é um livro maravilhoso. As nossas mãos quase têm vontade de desaparecer para não tocar naquelas palavras ainda quentes, a cheirar a sangue fresco, doce.

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A leitora Antonieta disse-me:
há-de ver o marcador do livro do Nuno  Lobo Antunes, tem tudo a ver consigo.

Tinha o livro, fui ver. Cá está  o marcador aqui mesmo ao meu lado.
Tem razão. Tudo a ver comigo.
Uma árvore imensa. E até a terra parece pedregosa como a minha terra in heaven
Muito bonito.
Numa outra encarnação fui uma árvore. Noutra uma gaivota. Noutra uma etrusca.

(Obrigada, Antonieta)


E aquela ali, de olhos fechados, encostada à árvore, podia ser eu... a precisar de ir dormir. Tão tarde que é. Ou melhor: tão cedo...


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Relembro que a seguir há a Carta Aberta ao Henrique Granadeiro.

E aproveito ainda para vos convidar a irem visitar o meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje, enlevada pelas palavras de Herberto Helder, falo de um certo Poeta Invisível. A música que acompanha é a de Cesária Verde, uma música muito bonita.

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Resta-me despedir-me por hoje desejando-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira. 
Desejo que sejam felizes e que a poesia voe perto de vós. 
Se possível que pouse nas vossas mãos.