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quarta-feira, setembro 16, 2020

Emocionar uma mulher





Como referi há pouco, ao responder à magna questão sobre vinco, sim ou não, nos punhos das camisas dos homens, outras palavras escritas nos motores de busca que remeteram para esta vossa humilde casa, despertaram a minha atenção: emocionar uma mulher.

Para começar, uma dúvida: quem escreve isto, quer satisfazer que tipo de curiosidade?
  • Quer encontrar poemas que emocionem uma mulher? 
  • Músicas emocionantes? 
  • Quer saber truques para, através da emoção, mais facilmente conquistar uma mulher? 
Ah, como eu gostava que quem aqui chegou pela via da emoção feminina viesse explicar-me o que pretendia. Como me ajudaria a tentar uma resposta condigna.

No entanto, não sabendo nada de nada, vou arriscar e dizer algumas coisas que emocionam uma mulher. Para não cair na abstração, terei que pensar em mim, claro. De todas as mulheres, supostamente sou a mulher que melhor conheço. Digo supostamente... porque não estou certa disso. Mas, enfim, arrisco de novo. Não será fácil mas vou apelar a todos os anjos e pensar no que me emociona.


Emociono-me quando vejo uma flor escandalosa, as pétalas como petulâncias desfolhadas em amarelo, cheias de sol, uma loucura de perfeição e luz

Emociono-me quando me sento ao sol, sob as buganvílias em flor, e vejo as finas hastes do chorão tombando, verdes, todas leveza, e ouço o canto dos pássaros e sinto o ar morno, dourado, sereno, a eternidade pousada ao de leve na minha pele

Emociono-me quando ouço algumas músicas que me fazem fechar os olhos e lembrar momentos raros, a paz envolvendo-me, a memória e os sonhos confluindo para receber a dádiva dos acordes que fazem vibrar todas as minhas cordas


Emociono-me quando ouço dizer um poema, a voz de quem diz entregue à toada, o fio de voz entregue à beleza das palavras, arrepio-me, entrego-me também ao prazer do mistério que a poesia sempre encerra

Emociono-me perante a força do mar, a quietude do rio, o verde do bosque, o inocente florido dos jardins, o desprendido e alegre cantar dos pássaros, a força telúrica das montanhas, o calor húmido da terra

Emociono-me com as crianças, com as brincadeiras inocentes e desbragadas das crianças, com a sua jovialidade, com a sua vida cheia de futuro, com a sua felicidade contagiante e, em especial, emociono-me, uma emoção reconhecida, agradecida, com a companhia e com a alegria das minhas queridas, queridas crianças

Emociono-me com a generosidade, com a bondade, com a simplicidade dos pequenos gestos, com a cumplicidade genuína que unem pessoas que se estimam

Emociono-me com os sorrisos que vêm do coração, com os sorrisos velados, com os sorrisos que me acariciam, com os sorrisos que me beijam, com os sorrisos que não vejo mas adivinho

Emociono-me quando alguém sabe adivinhar a ideia que derruba as minhas barreiras, que cria laços, que aproxima contrários, que inexplica o indecifrável, que abre portas e janelas e me mostra o outro lado do mundo

Emociono-me quando vejo dançar, o corpo feito ave, os braços feitos asas, o espaço feito música, o céu a envolver os movimentos soltos, livres, alados 

Emociono-me perante a pintura inexplicável, o sangue feito cor, a alma feita negrume ou alvorada limpa, virgem, o abraço feito azul, mil tons de azul, os beijos feitos de luz, os sentimentos tingidos, tecendo uma trama infinita, indefinida, imaterial e bela.

Emociono-me quando penso nos que amo, quando estou com os que amo. 

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E, se estivesse aqui até chegarem, murmurando, os lobos, aqueles lobos que descem da noite e caminham em silêncio junto a estas paredes, olhos brancos e bafo ardente, acrescentaria mais uns quantos pontos ao que me emociona. E se estivesse ainda um pouco mais, até à hora em que os pássaros acordam e o dia desperta, mais ainda haveria de acrescentar.

Mas fico-me por aqui. Não quero que os lobos ou os pássaros da manhã se surpreendam com a minha presença. A noite a e madrugada são-lhes devidos.

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Pinturas obviamente de Van Gogh 
com Jane Siberry & KD Lang a ajudarem-me no apelo aos anjos: Calling all angels

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E um dia feliz e com boas emoções, sejam elas pr'ó menino ou pr'á menina

terça-feira, fevereiro 20, 2018

Logo hoje havia de acontecer isto. Caneco!



Por razões que não vêm ao caso, estou num local onde não consigo escrever livremente e em condições. Praticamente nem luz nem rede tenho. E juro que estou a falar a sério. Caraças, estou mesmo. Os deuses resolveram conspirar contra mim. Só pode. Ou não. Às tantas é uma medida prudencial. Na volta é isso... Sabendo-me danadinha por uma boa brincadeirinha, devem ter resolvido impedir-me de me manifestar até ter tempo de contar até dez triliões. E eu já estou a fazer de conta que conto: um, dois, três, quatro, cinco... mil, mil e um... dez mil, dez mil e um, dez mil e vinte... (estou a saltar umas casas a ver se chego lá mais depressa). 

Não dá. Logo hoje.

Cá para mim isto que me aconteceu é aquilo de deus pôr a mão por baixo dos marroezinhos e dos burrinhos. Os santinhos zeladores devem ter achado que eu estava naqueles meus dias de me atirar à jugular dos incautos que se me atravessassem pela frente (sem ser por mal, claro, just for the fun of it) e, não fosse fazer para aí alguma vítima, arranjaram maneira de me pôr encostada às boxes, apeada, sem meios.

Entretanto, vou fazer de conta que já vou no milhão e um, milhão e trinta e cinco, dois biliões e quarenta e nove... para ver se os deuses que estão ali na moita a conspirar acham que já estou suficientemente zen para não sair por aí a dar cabo de algum indefeso burrinho. 

Ah, espera lá, aquilo do ditado não é com burrinhos, é mesmo é com deus pôr a mão por baixo das crianças ou dos borrachos. Lá está. Deus deve estar com medo do que eu possa fazer a algum rapazola que por aí ande tentando armar desacato. Engano. Engano dos deuses. Qual mal... eu? Eu não. Eu sou pacífica, light, very light, e estou sempre cá na minha, uma miradinha ao espelho de vez em quando a ver se a maquilhagem está no ponto, uma receita de culinária de quando em vez, umas larachazitas inócuas a propósito de uns eruditozitos que por aí andam pavoneando o rabiosque, uma desanda aqui e ali num Láparo, num Valtinho, num ou outro cagãozito de meia tigela. De resto, qual quê? Zen, tranquilinha, toda dada a cortar mato e a podar árvores, musiquinhas celestes, coisinhas assim.

Vá lá, Santa Susana, Santa Cecília, Santa Copélia, Santa Doménica... liberem-me, deixem-me escrever. Preciso de luz, preciso de rede em condições. É que, aqui, nem velas tenho para chamar todos os anjinhos a ver se me deixam ter condições para brincar como me apetece. Caneco. Até parece que vim parar a um eremitágio. Não dá para acreditar. Só visto. É o que dá eu ser uma pecadora. 

Mas pronto. Vá, confesso. Confesso tudo. E estou arrependida. E prometo passar a trabalhar, a estudar, a só voltar aqui quando for para mostrar muito estudo, muito trabalho, muita citação, muita cultura da pesada. E a bater a bolinha baixo. E a nunca mais me meter com os delicocoisos de pacotilha. Vá, confesso, prometo. Vá...

Dois biliões trezentos e cinquenta e sete mil e um, dois biliões trezentos e cinquenta e sete mil e catorze...


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NB 1: Se eu tivesse um fio de luz que não apenas o que provém do ecrã desta coisa, uma rede que não fosse mais do que a pedal e tivesse condições para escrever com um mínimo de condições, explicava a que propósito vem isto já que a maioria dos meus Leitores não deve ser como eu que perco tempo a ler toda a espécie de  infantilidades. Assim, limitada como estou, poupo a pouca energia desta gaita apenas para me lamentar de não ter condições para o fazer em grande estilo. Se é que o grande estilo neste caso não seria mal empregado... Mas, enfim, noblesse oblige. É que, de vez em quando, parecendo que não, a nossa alma caridosa sente-se confortada por atirar uma ou outra perolazita.

NB 2: Claro que isto não é nenhuma resposta. Caso alguém ache que o carapuço lhe serve e se apresente com ele enfiado, só faz é bem pois ficará, certamente, mais composto.

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Aquela lá em cima, no meio de espelhos -- que se vê a milhas que é uma exibicionista e uma narcisista com um insuportável ar de chata -- não sou eu, é a Kate Moss. Lamento. 

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segunda-feira, novembro 21, 2016

Trump no Ginjal



Entre o campo e o rio se fez este meu fim de semana. Debaixo de chuva e vento quis ir ouvir o ranger das amarras e rever a bela cidade branca, agora envolta em névoa e dissipação.


Ninguém por estas bandas. Nem pescadores, nem turistas nem namorados. Lisboa, ao longe, não passa de uma mancha suave que se eleva das águas que se adivinham frias. 

Acredito que ali estejam casas com pessoas lá dentro mas a vida que por lá haja não se sente quando avistada desta margem. 

Também não há veleiros nem gaivotas. Recolheram as velas e as asas e procuraram abrigo. Chove muito.


Espreito estas casas. Nem um som. Há muito que os seus habitantes procuraram outras paragens mas, por vezes, alguém ainda se abriga ou marca encontro por aqui. Hoje nada. Nem gatos. Só nós dois.

O meu marido teme o estado precário de algumas paredes debaixo da força do vento. Aviso de derrocada, lê-se em algumas. Sei bem disso. Nalguns bocados de caminho, no chão há restos de vidros, restos de telhas velhas. Não há muito ruíu uma parede soterrando um rapaz que por lá se tinha encostado. Outras vezes é o chão que se abre, puxado pela força das águas.


Tinha estado a ler que o novo presidente americano, esquecendo-se da sua nova condição, continua a reunir-se com empresários do ramo imobiliário, indianos desta vez, e ufano, enaltece o florescimento dos seus negócios. Os seus conterrâneos civilizados olham com apreensão a falta de sentido de estado desta caricatura que os não civilizados elegeram.

Tinha lido também que reúne no alto da sua torre dourada à qual se acede por um elevador coberto de ouro e cravejado a diamantes. Pelo que vejo, parecem imagens de cenário de filme cómico. E, no entanto, milhões de eleitores acharam que era nele que deveriam votar e a ele entregar o destino do país.

E eu, chegada aqui, à beira do rio, caminhando à chuva, rente a este casario decadente, penso na felicidade que é viver num país normal, onde ainda não fomos tocados pela miséria de sermos governados por gente que acha que o país é pasto fácil para a sua ganância e cupidez, por gente ignorante e perigosa para quem a realização pessoal passa por atingir objectivos banhados a ouro, onde os cifrões ocupam o lugar dos sonhos.


Por aqui há varandas sem protecção quase suspensas por frágeis suportes, há casas sem tectos, janelas sem vidros, por dentro pode ver-se a ruína total, travejamentos caídos, madeiras roídas e tombadas, arbustos rompendo por entre destroços, trapos, redes velhas, restos nem se sabe de quê.

Mas sei que, por muito hiperactivo e imprevisível que seja o nosso presidente, não anda a pôr o nosso país em risco, não anda a negociar com Putin acordos com contornos suspeitos, não anda a trocar a liberdade ou, mesmo, a vida de gente (de Snowden, por exemplo?) por favores aqui e ali. 

Aqui, neste lugar onde há avisos de derrocada, debaixo de chuva intensa e de uma ventania inclemente, sinto-me mais segura do que se estivesse num luxuoso apartamento na Fifth Avenue.


Não sei que mundo é este que, desde há uns anos, parece querer pôr-se a andar às arrecuas. Não sei mesmo. Sabemos de oceanos gelados no interior de distantes planetas ou aprendemos a descodificar o cognetoma que nos define mas não sabemos como manter-nos no trilho certo que nos permitiria viver em paz, tranquilos, sabedores, solidários e felizes.

O que me apazigua é pensar que a história do mundo é tão imensa que estes arremedos de retrocesso talvez não passem de pequenos sobressaltos que ela, a História, que tem a sabedoria das coisas antigas, se encarregará de alisar.

Dos deuses e dos inspiradores mitos de outros tempos aos improváveis ídolos de hoje, parece que que o mundo caminha impiedosamente para o fim. A decadência parece inexorável, tal a absoluta fragilidade e imperfeição dos novos senhores do mundo.


Mas talvez não. Talvez o mundo caminhe no sentido certo e nós é que estejamos desatentos, talvez se esteja a escrever certo mas por linhas erradas. Não sei.

O que sei é que, pelo sim, pelo não, o melhor é fazermos coro com Jane Siberry e apelarmos também a todos os santos:

Santa Maria, Santa Teresa, Santa Anna, Santa Susannah
Santa Cecilia, Santa Copelia, Santa Domenica, Mary Angelica
Frater Achad, Frater Pietro, Julianus, Petronilla
Santa, Santos, Miroslaw, Vladimir
and all the rest
....

we're cryin' we're callin'
cause we're not sure how this goes

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E agora, caso vos apeteça procurar um outro abrigo, queiram descer para se acolherem in heaven.

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sexta-feira, março 30, 2012

Vítor Gaspar e o Orçamento Rectificativo; o Banco de Portugal e o agravamento da recessão; o autismo deste Governo face à evidência dos factos. É hora, meus amigos de Calling all Angels. E, para não falar mais disto, que me enerva, vou falar-vos de Eva, da sua entrevista e da respectiva sessão fotográfica.

Música, por favor
Jane Siberry - Calling all Angels


Os sinos tocam a rebate.

Notícia de quinta feira: a economia cai ainda mais aceleradamente do que o próprio Banco de Portugal tinha previsto. É a recessão a cavar uma cova mais funda. O BdP, a insuspeita entidade governada pelo insuspeito Carlos Costa,  revê em baixa as previsões. Claro. Quando se trabalha tão afanosamente no sentido da destruição do tecido económico e quando se retira tanto dinheiro da economia, o que se esperaria? Claro que  o consumo cai abruptamente e todo o edifício vai ruindo.

E a receita fiscal diminuiu. Apesar do pesado agravamento da carga fiscal, apesar de todos nós recebermos muito menos, a colecta é inferior. Claro. De que é que estavam à espera...?

Com tantas empresas a colapsarem ou a patinarem, é natural que os resultados (leia-se: ‘lucros’) caiam a pique (e o IRC, acompanha a queda, é claro). Com tanta gente desempregada ou a ganhar menos, é natural que o IRS também caia. Com tantas dificuldades, é natural que o consuma caia e, portanto, menos IVA. Era difícil prever isto? Eu acho que não. Eu acho que isto era mais do que óbvio, um óbvio do mais cristalino que há.

Quando a economia é atacada, todos os impostos que dela dependem, caem também. Aumentá-los numa altura de definhamento económico é pura parvoíce. O efeito é sempre contraproducente pois, ao agravar a carga fiscal, depaupera-se ainda mais a economia. Medidas destas aceleram os movimentos recessivos. Medidas destas nestas alturas põem a história a andar para trás, anulam o desenvolvimento atingido, dão cabo da vida de uma geração. São inaceitáveis.


Claro que há quem se fie na virgem e mesmo com a fera enraivecida a correr na sua direcção, se deixe estar quieto à espera que a virgem salte da azinheira para vir em seu socorro. Não haverá muita gente assim mas ainda há alguns.

Ou é isso ou, então, não é por parvoíce, mas sim, acções estudadas para que isto fique tão de pantanas que, quem queira, possa vir comprar tudo a preço da uva mijona. O tecido empresarial todo nas mãos de estrangeiros (e mais: de estados estrangeiros!)

É verdade que a dívida baixa, isso é verdade. E assistimos aos nossos fantásticos governantes a gabarem-se disso. Mas, de facto, é mesmo aquela coisa de deixar de gastar dinheiro a comprar ração para o cavalo – poupa-se é certo. A chatice é que o cavalo, ao fim de algum tempo, morre. Será isso pormenor?

Perante este lindo cenário, as consequências são as óbvias: os juros voltam a subir, o risco do País enfrentar a bancarrota volta a subir. E o BdP prevê que este ano o País vai perder mais cerca de 170.000 postos de trabalho.

Se me perguntarem se eu acho que Passos Coelho, Miguel Relvas e respectiva entourage já perceberam que estão a fazer asneira da grossa, posso confessar-vos que não estou certa disso. Acho, isso sim, que tudo isto é muita areia para a camioneta deles.

O mais que Passos Coelho consegue, seguindo certamente um conselho do gabinete de Imagem (onde lhe devem ter dito para se mostrar solidário com os sacrifícios dos pobrezinhos), é dizer o que disse no Congresso do PSD e passo a citar: ‘Como se costuma a dizer, isto está a sair-nos do lombo’. Gente erudita exprime-se assim.

Quanto a Miguel Relvas, não nos esqueçamos que se licenciou apenas há 4 anos e em Ciências Políticas e Relações Internacionais, coisa em que o dizem influente e exímio, mas, note-se, isso é matéria que se encontra a anos luz de números, de ciência exacta, de gestão económica. O negócio dele é outro. 

Isto, meus Caros, é muito preocupante. As pessoas estão a ficar sem dinheiro, há gente demais a ficar sem emprego, há empresas demais no limiar da sobrevivência, a economia afunda-se a uma velocidade crescente – e, no Governo, não há capacidade ou vontade de inverter caminho.

E cá estamos, ainda em Março, e já com um Orçamento Rectificativo que não apenas vem repor a nabice de se terem esquecido de orçamentar as despesas originadas pela absorção do fundo de pensões dos bancos, como também de se terem enganado a prever as receitas, e, também, de se terem enganado a prever as despesas. Enganaram-se redondamente. Nabice, nabice pura, incompetência primária. 

Riem-se de quê? Riem um do outro? - só se for isso...

Vítor Gaspar não sabe o que é gerir uma pasta de finanças (dizem que é jeitoso como estudioso nos bancos centrais mas isso não sei; o que sei é o que vejo e o que vejo é que, a fazer o que está a fazer agora, vem dando sucessivas mostras de que se engana vezes demais). Perigoso isto.

Mario Draghi, no BCE, nos últimos meses, fez aquilo que tinha que ser feito: injectou liquidez na economia europeia, emprestando dinheiro barato aos bancos. Fez isto para ver se consegue reanimar minimamente a economia. Contudo, cá, essas medidas não produzem efeito porque o País está ser governado por pessoas que não percebem estas questões elementares, que não conseguem estabelecer qualquer nexo causal, que continuam apostadas no estrangulamento económico.

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Se a prece de Calling all Angels, linda, já acabou, é agora vez de pormos esta a tocar
Maria Bethania - Teresinha, composição de Chico Buarque


Sinceramente, isto deixa-me apreensiva e desgostada e tira-me a vontade de brincar, de ficcionar.

Assim, nem tenho grande ânimo para vos contar o que se passou hoje com Eva. Dir-vos-ei apenas meia dúzia de coisas:

1.   Teve lugar uma entrevista para um jornal de referência sobre a operação da véspera (a aquisição de uma grande empresa). Por ser uma mulher interessante e dada a comportamentos assim 'a modos que' out of the box, desafiaram-na para uma sessão fotográfica um pouco diferente. Concordou. A coisa teve lugar no seu gabinete. Depois de uma noite bem dormida, Eva estava pronta para a guerra. O fotógrafo tinha-lhe dito que gostava de explorar o seu lado sexy até para evidenciar que uma mulher pode ser atraente, preservar esse lado feminino e sedutor e ser capaz de compatibilizar isso com a assertividade na condução nos negócios. Coisas assim despertam a curiosidade de Eva, desafiam-na, divertem-na. Em casa pensou nas roupas que haveria de vestir. Pensou num vestidinho simples, coisa singela - e pérolas. Bastam pérolas para criar todo um ambiente. Depois pensou que precisaria de música para se desinibir e logo lhe veio à ideia a Teresinha, a história da sua vida cantada pela Diva. Assim foi. Esteve com tanto à vontade que o fotógrafo, o jornalista e sua secretária estavam surpreendidos. 



     Numa das fotografias fez questão de estar sentada à secretária de modo a que se vissem alguns dos objectos que lá tem, especialmente uma certa moldura. Insistiu com o jornalista que gostaria que se visse essa fotografia pois, explicou, é um instantâneo de um momento de especial romantismo. O jornalista e o fotógrafo ficaram um pouco atrapalhados mas disseram que sim e nada perguntaram, até porque a fotografia é explícita.

2.    Na entrevista zurziu forte e feio neste governo. E defendeu o empreendedorismo, a boa gestão, uma estratégia de desenvolvimento, de conhecimento, de reforço de competências desde os bancos da escola, de reforço da formação profissional no seio das empresas. Explicou, e exemplificou para que ficasse bem claro, que o problema da competitividade do País não está, nem nunca esteve, na legislação laboral. Explicou que a motivação dos trabalhadores é fundamental, que a boa organização  dentro das empresas é fundamental, que uma liderança forte é fundamental, que trabalhar-se seguindo uma estratégia ambiciosa é fundamental.

3.     Perguntaram-lhe se são verdadeiros os rumores que correm de que está ligada à maçonaria. Eva disse que só respondia a questões que tivessem que ver com as empresas, com o contexto em que as empresas operam e com questões de ordem geral relacionadas com o país em que vive.

4.       Perguntaram-lhe se é verdade que apoia pessoalmente algumas causas humanitárias. Confirmou mas disse que não as publicita, que apenas divulga as causas que as suas empresas apoiam e que apenas o faz como incentivo a que muitas mais façam o mesmo e contou que são várias e contou como os trabalhadores das empresas estão envolvidos e solidários nas acções que levam a cabo. O empreendedorismo social e o voluntariado são causas que apoia com apaixonada convicção. 


No final da entrevista, Eva estava um pouco cansada. Tomara que as fotografias não ficassem disparatas e deslocadas no artigo. Tomara que as mensagens que quis passar não ficassem submersas no meio de observações relativas ao vestido, ao costureiro ou a imbecilidades do género.

Depois de todos terem saído, mudou de roupa e ligou a cada um dos filhos. Estavam bem e o coração de Eva fica instantaneamente doce, Eva sossega depois de falar com eles. 


Depois fez outra chamada. 'Correu bem' respondeu logo pois, do lado de lá, alguém lhe deve ter feito a pergunta. Alguém que queria saber pormenores. Eva contou o que tinha feito relativamente à fotografia na moldura. Riram. Ela imaginava a reacção dos parvalhões que a tinham mandado seguir ao verem a fotografia clandestina ali exibida perante o mundo. Mas Eva estava exausta, mesmo a precisar de descansar. Pediu-lhe então, com voz doce: 'Sabes? Está na minha horinha zen. Podes tratar de mim...?' e sorria carente, a precisar de mino. Do lado de lá alguém devia perguntar qual o tratamento pretendido. Eva ria-se: 'Então, tu sabes... Quando estou assim, uma litania'.


Eva, então, pousou o telefone, deixou-o em alta voz em cima da secretária e, enlevada, enternecida, absorta, ouviu a tão amada voz:


                                  O teu rosto inclinado pelo vento;
                                  a feroz brancura dos teus dentes;
                                  as mãos, de certo modo, irresponsáveis,
                                  e contudo sombrias, e contudo transparentes;


                                  o triunfo cruel das tuas pernas,
                                  colunas em repouso se anoitece;
                                  o peito raso, claro, feito de água;
                                  a boca sossegada onde apetece


                                  navegar ou cantar, ou simplesmente ser
                                  a cor de um fruto, o peso de uma flor;
                                  as palavras mordendo a solidão,
                                  atravessadas de alegria e de terror;


                                  são a grande razão, a única razão.


Eva, fecha então os olhos, apaziguada, cansada da guerra. A poesia produz nela este efeito. 


Sobretudo a poesia dita por Miguel fá-la sempre sentir uma mulher muito amada e isso, mais que qualquer outra coisa, é o que lhe importa. 'Todas as glórias do mundo não valem uma noite de amor', referiu uma vez Eugénio de Andrade. Eva concorda, é coisa que nunca esquece, é quase o lema da sua vida.


Damien Rice - The Blower's Daughter
da banda sonora de Closer

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A poesia é Litania de Eugénio de Andrade.

Se quiserem respirar luminosas partículas, convido-vos a clicarem aqui para irem até às minhas palavras que voam em volta de uma fotografia que fiz há bocado e de uma certa Pele de Carmim de Ana Marques Gastão. Mendelssohn hoje é magnífico. É no meu blogue Ginjal, claro.

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E tenham, Caríssimos, uma belíssima sexta feira!

sexta-feira, outubro 22, 2010

Calling all angels pela extraordinária Jane Siberry (live at Veranda) - e os meus anjinhos comparecem sempre: aqui estão eles a animar-me em tempos de tristeza

Em tempos como estes que vivemos, apenas as descobertas centíficas de que vamos tendo conhecimento, parecem conter alguma mensagem de esperança (descobertos marcadores para tumores cancerosos, descobertos genes que podem causar depressões severas,...).

De resto pouca coisa há que nos anime.

Isaltino é arguido por suspeita de corrupção enquanto era ministro. So what? Qual a surpresa?

O Luís Filipe Menezes compara o José Sócrates ao Carlos Queiróz? Olha quem...

Lula da Silva diz que a agressão ao José Serra foi encenação. Mas dá para acreditar nele?

Fidel Castro alerta para riscos de guerra nuclear. What's new in that? Nor the idea, nor himself.

Catroga lidera o grupo do PSD que vai negociar o orçamento. Mas não era para ser outro? Ou é o braço do Cavaco a estender-se?

O Facebook lança ferramenta para apagar fotos de ex-namorados? Uau...! Que importante que isso é.

Tudo fait-divers.

Vou animar-me com o quê, no meio deste triste panorama?...Não há outro remédio senão voltar a chamar pelos meus anjinhos, call all angels.

E façam-me o favor: vão aqui abaixo e ouçam a interpretação desta outra extraordinária e alternativa figura, a verdadeira ganda maluca, Jane Siberry, numa interpretação fantástica de Call All Angels. Adoro. É uma companhia regular enquanto conduzo.

(Outros dos meus vários anjinhos, aqui cantando Calling all angels: Sta Maria, Sta Teresa, Sta Ana, Sta Susana, Sta Domenica, Sta...)

E esta é ela, a Jane Siberry