Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, julho 14, 2020

Objectos sexuais para todos os gostos.
Post com bolona encarnadona


Espero bem que, a esta altura do campeonato, já não exista vivalma que não saiba que este não é lugar que se recomende. E, se há dias em que ainda tento disfarçar, outros há em que simplesmente deixo correr. E hoje é um desses dias. Quem tiver juízo, estrelinhas de bom comportamento na caderneta, comenda ou título académico emoldurado, anel de curso com a pedra a condizer e outras boas qualidades, deve retirar-se o quanto antes. É que, vou já avisando, hoje baixou em mim o espírito do serviço público, educação gratuita para toda a gente. E, junto, desceu também o espírito da suprema curiosidade. O que há por aí? Para que serve? Como se usa? Porque, sabeis bem, quanto mais avanço na idade mais inguinorante me vou fazendo. Parece que o mundo roda numa direcção e eu, ao lado, rodo noutra. Mas, volta e meia, cá para mim quando os eixos se alinham, ocorre-me que, se não me instruo, chegará o dia em que me sentirei totalmente estrangeira. Temo não saber falar a mesma língua, não ter as skills, quiçá as soft skills, para me enturmar. E, então, faço por me educar. E, como gosto de partilhar tudo o que sei, aqui estou.

E, quando me refiro às soft skills,  não me refiro a saber fazer aquele indispensável small talk que, esse, eu, em querendo, já domino na perfeição. O tempo, se fizemos ou não boa viagem, se já ali tínhamos estado, se conhecemos o conferencista. Banalidades dessas tiro de letra. Não. Refiro-me a temáticas mais especializadas. Por exemplo, sobre futebol não arrisco uma dica. Fico caladinha ou, se quero dar ar da minha graça, ainda arrisco: 'Eu sobre isso só tenho a dizer que acho uma obscenidade o que essa gente ganha'. Geralmente faz-se algum silêncio porque não vem nada a propósito. Acrescento, então: 'Será que o fisco lhes segue os movimentos bancários, as compras, o património?' Talvez porque algum dos presentes, nessa matéria, poderá ter algum little rabito levemente preso, fazem que sim-sim com a cabeça, na base do: 'Faz-se de conta que tá bem mas bora lá mas é desviar-lhe a atenção' e continuam na deles. E eu, esgotadas as minhas fracas munições de diversão, volto a ficar calada. Mas também pode um deles, o espertalhaço de serviço, desatar a falar dos milhares de livros que tem, quer em papel, quer no iCoiso, e querer fazer de conta que já leu tudo e que sabe tudo. Só que, a cada coisa que refere, eu faço uma cara sorridente e digo que nunca ouvi falar. Como sou tida por também ter bué, fica estranho para toda a gente: qual dos dois não diz a verdade? ou qual dos dois só lê porcaria? E eu curto essa dúvida, alimento até. 

Mas há ainda outro small talk que tem a ver com as viagens. Tudo o que é cão e gato conhece todo o mundo. 
Dantes diziam à boca cheia que tinham posto o pé em cada rincão do planeta a convite de tudo o que era grande fornecedor. Sentiam-se importantes por terem sido convidados para andarem de rabo alçado a conhecerem países e bons hotéis. Toda a gente queria ver referências no estrangeiro ou queria ver laboratório de pesquisa, ou feira ou treta. Tudo de cu tremido a fazer papel de grã-fino papa milhas. Agora, tá bem abelha, já não se fala nessas borlas. Agora que as empresas desataram a fazer manuais de ética e o escambau toda a gente meteu a viola no saco e fala de outras coisas, coisas mais na base na cultura, teatro em Londres, Museu em Florença. Aí gosto de destemperar: 'Ah, boa. E, olhem, os passadiços do Paiva?'. Zero. Ninguém conhece. 'E Vila do Conde? Tão linda..'. Bola. Não sabem bem onde é que pára a Princesa mas também não querem dar parte de fracos. E vou perguntando por outros lugares abençoados. Nada. E concluo com ar saudoso-bucólico: 'Tão lindo o nosso país... não acham?'. Sorrisinho amarelo. Não diziam mas pensavam: 'Praiazinha fluvial, serrazinha de meia-altura...? Esta tem a mania que é eco-outsider e gosta de se armar em pobrezinha... coisa mais patética, na volta é daquela mania de dizer que o coração lhe bate à  esquerda'. Isto, claro, antes do corona. Aposto que, agora, se voltar a haver cenas destas, presencialmente falando, a converseta já vai ser outra. Resta saber é quando é que isso vai ser. 
Mas hoje o meu amigo algoritmo resolveu presentear-me com dois vídeos que despertaram aquele meu lado erótico-soft que, segundo o APS, apimenta os meus dias. E gostosamente o faz, tem razão. 

E eu, que gosto de ser desafiada, que gosto de me instruir e, sobretudo, que gosto de me divertir, não me fiz rogada. Confesso que não fiquei entusiasmada em, a seguir, ir em busca de aulas práticas mas que a teoria adquirida pode vir a ser-me útil como ice breaker ou para compor algum small talk mais árido, ah, lá isso parece-me que vai. Por exemplo: 'E, mudando para um assunto mais interessante, qual dos colegas e amigos já usou bolas chinesas?. Já estou a vê-los ruborizados: 'Ups... falou em bolas chinesas...? Mas usá-las...? Como...? O que quer dizer... desculpe...?' E eu. maliciosa: 'Mas quê...? Pensavam que era coisa só para mulheres... Olhem que não, olhem que não...' e faria de conta que estava a disfarçar e que não tinha olhado para um deles... e logo para o suposto macho alfa do grupo. Depois diria baixinho, para o lado: 'Mi engana qui eu gosto...'

Bem. Agora muito a sério. Num registo confessional posso ainda acrescentar que, de alguns apetrechos, até fiquei com medo (por exemplo, se me aparecia um parceiro armado em cão ou a enfiar uma espécie de lâminas pelo énis acima, acho que desatava a fugir a sete pés). E reparem como consigo fazer um post destes sem uma palavrinha sexual que seja; até porque, que eu saiba, énis sem p não encaixa na categoria dos objectos sexuais. Mas achei graça ao rabo de raposa. Ah, sim, lindo, macio... Acho que me ficaria bem. Teria era que arranjar outra forma de encaixe. Mas não digo mais senão ainda dizem que, para além de não sei o quê ainda sou uma spoiler do caraças.

E, finalmente, aqui vai disto: objectos sexuais para todos os gostos. É escolher, minha gente.




E saúde, sorte na escolha, e um bom dia com alegria.

segunda-feira, julho 13, 2020

Da paixão ao êxtase: três mulheres pianistas.
E uma forte determinação neste dia em que começa o resto da minha vida.



Já contei, não contei? Uma vez escrevi um livro. Duzentas e tal páginas, se bem me lembro. Depois estragou-se o computador. Mas não fez mal, aquilo estava numa disquette. Depois mudou-se o programa em que aquilo tinha sido escrito. Depois perdi a disquette. E, portanto, perdi o livro. Tenho uma certa curiosidade. Pena, não. O que lá vai, lá vai. Não quero manter vivo o passado. Mas tenho curiosidade: como é que eu escrevia, quando escrevia? Melhor: quando me entretinha a escrevinhar. 

Agora de uma coisa eu me lembro: ele era um pianista. Ela... ela já não me lembro. Se calhar era eu. Ou a fingir que era eu. Já não faço ideia. 

A ideia de um pianista intriga-me, fascina-me. Há a inspiração, a procura pelo virtuosismo, pela compreensão e interpretação da obra, a persistência, a solidão, o prazer da leveza conquistada. Tenho ideia que muito do livro assentava nisso. Lembro-me de estar a escrever noite adentro e quase sentir a dança dos dedos do pianista sobre as teclas. Lembro-me do local em que ele ensaiava. Parecia que o via e que via o pianista lá dentro. O prazer que eu sentia ao escrever, disso lembro-me.


No meu imaginário, os pianistas são homens. Não me importava de escrever outra história em que entrasse um pianista. Não sei porquê não sinto vontade de me aventurar pela personalidade de uma pianista mulher. 

E, no entanto, na actualidade, há mulheres que se destacam: são vulcões, são máquinas, são bombas, são aviões. Vê-se-lhes paixão e entrega quando se sentam ao piano. Não sou entendida pelo que não me afoito a dizer se são boas pianistas, se são exibicionistas, se são pianistas-populistas, se são simplesmente fantásticas. Nestas coisas mais complexas o máximo que consigo é dizer se gosto ou se não gosto. Diz o vídeo que aqui partilho que estas aqui abaixo são hot e, vendo as imagens, talvez seja verdade, talvez sejam mesmo as mais hot da actualidade. O corpo delas, a vibração que as percorre, as expressões faciais - tudo é extraordinário

[Será que, vendo bem as coisas, uma mulher assim daria uma boa personagem de um livro?]


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Ah, o meu dia? Bom. Passeio junto à praia, o mar bonito, lanche em família baseado em pastéis de nata e gelados, a alegria da boa companhia e dos verdadeiros afectos, telefonemas de amigos de longa data, conversas postas em dia, depois passeio no campo, com vagar e prazer, fotografias, estas que aqui têm, seguido de descanso ao ar livre antes da noite cair, quando as cigarras se aquietaram. Foi, pois, um dia sereno que nada conseguiu poluir. 
Quando se tem a consciência em paz, quando se tem a convicção de que se faz é o que pensamos ser certo, quando o nosso coração e a nossa cabeça andam de mãos dadas, mesmo que enfrentemos incompreensões e cegueiras nada abalará a nossa convicção e tranquilidade. 

Não sou dada a balanços, mas sou dada a determinações. De vez em quando há uma força que vem não sei de onde que me leva a tomar decisões que me levam, inabalavelmente, para outros caminhos ou a tomar irrevogavelmente certas decisões. Já lá vai o tempo em que, por tibieza ou por acreditar que há coisas que se compõem com o tempo, eu aceitava conviver com situações que não me agradavam. Fazia fretes, fazia de conta que estava tudo bem, temia ferir susceptibilidades, temia enfrentar situações desconfortáveis, consumia-me por dentro. Agora já não. A vida é curta e nós vamos vendo como ela se vai encurtando. Não podemos desperdiçá-la com o que não interessa.


Talvez esteja a atingir aquele fantástico patamar em que impera a mais absoluta franqueza. Com a sabedoria que têm, com a impaciência de quem sabe que a vida não vai durar para sempre, os velhos dizem o que pensam. Sempre admirei isso. Na volta é lá que estou quase a chegar. E, no dia de hoje e para os que se seguirão, foi esse o propósito que me animou. Lutar pelo que penso ser o melhor para mim e, sobretudo, sobretudo, para os que amo. E seguir. Por um caminho que, a cada dia, se vai encurtando, vou em frente. Chegará o dia em que talvez faça, então, o balanço final mas, se me der para isso, espero que a conclusão seja qualquer coisa como isto: 
A companhia está boa, 'tá-se bem mas está na hora de ir pregar para outra freguesia. Fui.
Tirando isso, o que tenho a dizer é que -- alegria!, alegria! -- tenho um livro novo e estou cheia de vontade de o desbravar. E o tempo vai quente, so, so hot, apetece a gente mergulhar na noite, ir em busca da frescura que vem da terra, procurar o abrigo das grutas e a companhia dos bichos, dos bichos que adivinho serem brothers in nature. 

Tá-se, minha gente. Tá-se.


Uma boa semana. Sejam felizes.

domingo, julho 12, 2020

Os melhores. Os perfeitos. Os irrelevantes.





Não sou dada a escalas ou a pódios. Não digo isto para me enaltecer mas para reconhecer uma limitação.
Quais os melhores momentos da minha vida? Quais os melhores livros? Os melhores filmes? As melhores cenas? As pessoas mais excepcionais? As mais estúpidas? 
Não sei responder. Posso, quase ao calhas, por ordem aleatória, dizer alguns ou algumas de cada 'categoria' mas não seria capaz de os elencar por uma determinada ordem ou de escolher o melhor ou o pior.

Por exemplo, se começo a pensar em pessoas estúpidas, ocorrem-me logo umas quantas mas se escolho duas ou três, logo me ocorrem outras tantas. E, se tento destacar uma, logo me ocorre que nem é apenas ser estúpida, é que soma à estupidez outras características igualmente pouco abonatórias. E depois fico sem saber se não é dar importância demais a um qualquer zé-cueca pô-lo um lugar de destaque mesmo que seja o destaque do zé-cueca mais zé-cueca. Depois penso que, mesmo que o destaque seja um destaque negativo, em casos assim o zé-cueca mais zé-cueca deveria era ser votado à mais completa irrelevância e não a um lugar num pódio. E, assim, enleada nessas dúvidas metodológicas, acabo por perder o élan.


Igualmente, se penso nos grandes filmes, logo me ocorrem uma meia dúzia. E, se tento pensar melhor, logo me aparecem mais dois ou três. Tantos. Tento reformular e, às tantas, já estou é a pensar que deveria dividir a categoria em sub-categorias. Aperfeiçoar a escala, especializá-la. E isto para tudo. 

Desisto, portanto. É escusado. Daqui nunca há-de sair uma lista de preferências ou rejeições devidamente hierarquizada. Sou manifestamente incapaz.

Mas gosto de ver as listas alheias. Penso sempre que é gente organizada, boa de ideias, com a informação devidamente arquivada e catalogada na cabeça. Já me ocorreu que um dia que me dê para isso ainda me hei-de pôr a organizar um ficheiro com coisas assim. Talvez um excel. Cada folha, sua categoria. Livros. Talvez dividido em prosa e poesia. Não, mais subdividido. Assim, de vez em quando, ia rever, ajuizar sobre se a lista ainda se mantinha actualizada, ia juntar ou retirar alguns items. Mas, se penso isto, penso também logo que só se chegar a um ponto em que não tenha nada de melhor para fazer. 


Hoje uma pessoa contou-me uma coisa que me fez um bocado de impressão: uma pessoa que estava ali, perto de nós, tinha, durante anos, feito uma colecção. Acabou por ser uma colecção fabulosa. Completa, exaustiva, sem falhas. Agora já não sabe onde colocá-la tal a dimensão que atingiu. Sempre pensou que um dia a doaria à prestigiada instituição à qual tinha pertencido. E agora chegou à triste conclusão que a instituição não está interessada nem, sequer, tem espaço. E ele, que procurou incansavelmente construir uma colecção perfeita, que investiu tempo, dinheiro e trabalho nisso, agora percebe que foi tudo em vão. Ao ouvir isto, senti aquilo a que talvez se possa chamar tristeza alheia.

Todo o esforço com que nos entregamos a coisas que achamos importantes pode ser inútil. Claro que isto decorre também de, tantas vezes, nos esquecermos de que somos efémeros. Ou então nem é bem isso, pode ser o oposto, se calhar, sabendo que somos efémeros, queremos perpetuar a nossa passagem por esta vida, deixando alguma coisa para quem cá ficar. Mas os outros vão estar-se nas tintas. E, às tantas, o que era tão importante e uma extensão de nós, vira tralha, mono, coisa a que ninguém sabe o que fazer, lixo que nem se sabe onde pôr.

Passou-se ainda outra coisa que me deixou a pensar. Mostraram-nos, com orgulho, uma coisa tão perfeita, tão complexa, tão à prova de tudo que o meu filho, já só entre nós, comentou: é uma coisa tão perfeita que pode transformar-se num grande problema. E eu concordei. E fiquei a pensar: porque é que as pessoas se dedicam assim em busca da perfeição? Será que acreditam que a perfeição absoluta existe? Que é melhor uma coisa imaculadamente perfeita do que uma coisa banalmente imperfeita? Não creio.

A vida está cheia de nós, de alçapões, de labirintos. Ultrapassá-los já será bom. Saber encontrar a beleza que há nos intervalos ainda melhor será. Mais do que isso já será querer demais.


E a todos desejo um belo dia de domingo

sábado, julho 11, 2020

As viagens de antes. Os segredos dos outros. A noite abençoada.


Estive a trabalhar presencialmente. Já tinha passado antes pelo escritório mas sempre de raspão, para ir buscar ou fazer qualquer coisa pontual. Mas esta sexta-feira foi mesmo um regresso ao passado, ao trabalho na minha secretária, no meu gabinete.

Não me apetece falar disso pois foi uma experiência que me perturbou e que me deixou atolada em mixed feelings. Tempos complexos. Um destes dias logo falo disso, quando tiver as ideias mais estabilizadas.

Há temas que devem ser pensados de forma aberta e transversal pois o mundo está a mudar. Pode a Terra não estar a ficar cúbica, pode o movimento de rotação não ter desatado a fazer-se aos tropeços e arrecuas, pode a blogger sentenciosa e descrente que por aí anda a desfiar azedumes e arremedos não estar a virar uma simpatia, pode o comentador atravessado e maldisposto que por aí paira não estar a tornar-se um fofo, pode o João Miguel Tavares não estar a ficar inteligente ou o super-judge Alex não estar a deixar de ser invejoso... mas que muita outra coisa está a acontecer, a mudar, lá isso está. Queiram ou não os céticos, os eternamente ressabiados, queiram ou não as madamas que andam o dia todo com um tremoço entalado no rabo ou os cavalheiros demasiado intelectuais que andam o dia todo com uma vírgula cabeluda presa entre os dentes, a verdade é que, não obstante, muita coisa vai mudar.

E mudará mais do que agora se antevê -- e isto vos diz esta aqui que, apesar de míope, gosta de fechar os olhos e imaginar o que veria ao longe se, no mínimo, usasse óculos. Dizem os entendidos que a fractura vai ser funda: uma recessão braba, um desemprego de fazer ganir de medo as pedras da calçada. A menos que os milhões chovam do céu, que o investimento público permita aguentar o embate. Tudo o que se faça será pouco. Mas será ainda mais poucochinho se for despejado em cima do mundo velho e não como ajuda a alicerçar um mundo novo.

Temos que nos unir e querer o melhor para todos -- essa é que é essa.

Não é tempo de linguarudas, de imberbes, de maledicentes, de totós, de comentadeiras e prostitutas, de avençados e cornudos, de rabejadores, de troca-tintas, de académicos frustrados, de ladies atrás de likes: é tempo, isso sim, de gente de bem, de homens feitos (homens e mulheres, bem entendido), de gente de trabalho, de gente com cabeça, de gente com os pés na terra, de gente com coração e que saiba manter as mãos estendidas para ajudar quem de ajuda precisa.

Essencial é conseguir-se enfrentar a fractura que está a acontecer sob os nossos pés sem sermos sugados por ela. E, a seguir, avançar na direcção de um mundo melhor. E, se haverá muita carneirada a ir atrás da má língua ou do saudosismo, então que haja bons líderes para os levar por bons caminhos. 

Mas, enfim, estamos a virar a página da sexta-feira, já estamos a entrar no sábado, e eu estou com vontade de me ir entregar aos prazeres do rival do blog. Por isso, calo-me já e partilho convosco um vídeo do The Economist em que se fala de uma das mudanças mais profundas e fracturantes, com consequências extensas nos tempos que aí vêm. Viajar. Ir de um lado para o outro. Conhecer o outro lado do mundo. Ir tomar banho a uma praia a milhas de casa. Ir ter uma reunião de duas horas a outro país e, com isso, perder o dia todo e gastar milhares de euros (já para não falar na pegada de carbono). Coisas assim.
Conheço uma pessoa que ia jantar a Paris quando fazia anos. Outra que ia aos saldos a Londres. Eu própria ia comprar lingerie a Madrid. Não sei se eram luxos ou hábitos de quem se podia dar ao luxo de tê-los. E todos, uns mais que outros, poderíamos tê-los. É que, por exemplo, conheço um outro que, não tendo um ordenado por aí além, tinha o filho no colégio mais caro de Lisboa, punha-o num explicador que lhe custava os olhos da cara, comprava os óculos na melhor fábrica de lentes, perseguia o que achava que era 'o melhor' e que, depois, com ar revoltado, se queixava que, para ir passar duas semanas a Istambul, tinha que recorrer ao crédito e, portanto, perseguia o chefe com a 'necessidade' de ser aumentado. 
Outros tempos.


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Ao fim do dia tive uma reunião, mas uma daquelas remotas, uma team meeting já a partir de casa.

Por razões que por vezes não se explicam, às tantas, um disse-me que queria contar-me uma coisa e que eu não o interpretasse mal. E depois outro avançou pelo mesmo registo. Cada um em sua casa, mantivemos uma daquelas conversas francas de que antes se pensava serem apenas possíveis se olhos nos olhos, cara a cara, em pessoa. E, no entanto, apesar dos quilómetros que nos separavam, estivemos a conversar olhos nos olhos, cara a cara.
Sou muito franca, não fujo a questões directas ou difíceis. Nem tenho qualquer problema em expor abertamente as minhas dúvidas ou dificuldades. Penso que o facto de ser assim deixa as pessoas à vontade. A conversa flui com naturalidade, num registo de empatia e confiança. 
Saí da conversa com aquela sensação de que todas as pessoas, se motivadas, querem fazer coisas, querem dar mais do que normalmente são chamadas a dar. E senti aquela ponta de frustração que, volta e meia, sinto por não ter a margem de manobra suficiente para dar asas a todas as pessoas a quem sinto a vontade de voar.

E, porque estou muito habituada a ouvir segredos, gostei de ver o vídeo que o algoritmo do youtube me propôs (tenho que arranjar um nick name para o meu amigo algoritmo; quiçá gô-gô).

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Volto a informar: pode acontecer que fotografias nada tenham a ver com o texto e que, em cima disso, não pretendam nada a não ser aqui aparecer. Se distrairem os meninos que se distraem com facilidade não tenho nada a ver com isso pelo que agradeço que não venham chatear-me com isso. A primeira e terceira são da autoria de Ellen von Unwerth. A segunda é de © o_nozdracheva

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Quero ainda dizer outra coisa. Como muito bem sabe quem por aqui me acompanha, gosto da noite. É de noite que sou mais eu, que estou mais acordada, os sentidos mais disponíveis, as emoções mais intensas, maior a vontade de mergulhar no negrume e na frescura sublime que se eleva da terra para abençoar os corpos despertos. E tenho muita pena que seja tão curta e que o dia se faça anunciar tão cedo. Como tenho que tentar aparentar alguma normalidade e viver em sincronia com os que vivem de dia, falta-me o tempo para usufruir em tranquilidade a beleza da noite. Por isso, deixem que partilhe convosco, em especial com os noctívagos que por aí estejam: Laissez durer la nuit

Laissez durer la nuit, impatiente Aurore.
Elle m’aide à cacher mes secrètes douleurs, 
Et je n’ai pas encore assez versé de pleurs; 

Pour ma douleur, hélas! est-il des nuits trop sombres?
Depuis que mon Berger quitta ce beau séjour, 
Ah! je ne puis souffrir le vif éclat du jour;

Laissez-moi donc pleurer à la faveur des ombres
Autant que voudra mon amour.


E a todos desejo um bom sábado.

sexta-feira, julho 10, 2020

O tamanho importa? E a cor?
[E, já agora, um x em vez de um ch importam?]


Bem. Tenho estado para aqui a tratar de outras cenas, a fazer medições, comparações. De fita métrica em punho, meço, anoto, faço cálculos a ver se cabe, penso onde arranjarei mais pequeno, equaciono alternativas. 

E, de repente, dou por mim a pensar que há casos em que o tamanho importa -- e este, sem dúvida, é um deles. Não deve ficar muito de fora, estorva, mas também não pode ficar a boiar, fica até caricato. Também estou na dúvida: negro? branco? Já preferi o escuro. Anos a preferir o escuro. Grande e escuro. Agora virei. Estou mais inclinada para branco, mais pequeno. 

Mas faço o quê? Deito fora? Custa-me. Afeiçoo-me.

Como estou cansada, francamente a precisar de parar de pensar, fui em busca de ideias. Quais as tendências? E não é que eu seja maria vai com as outras mas, quando uma pessoa chega ao fim do dia cheia de dilemas e incapaz de se debruçar sobre eles, é mais fácil ver em que param as modas.

Contudo, não afunilei a pesquisa como devia e o meu amigo algoritmo, mais próximo de mim e mais conhecedor da minha essência que o meu amigo bicha que também me topa em alguns dos meus encobrimentos, nem parou para pensar: pensou que era mais uma das minhas. E, vai daí, sugeriu-me o vídeo abaixo. E eu, por boa educação, para não melindrar, deixei-me ficar a ver. Se quererm que eu também não me melindre, façam, se faz favor, a gentileza de também ver. E, no final, formem a vossa própria opinião.


Mas não, desta vez o algoritmo enganou-se. Não era nisso que eu estava a pensar. Provavelmente ainda estava para aqui a pensar se poderia relevar o x num comentário e induzi o algoritmo em erro. What's in a name? É certo que o x puxa para o lado malandro, para o sexo puro e duro (again: no pun intended)  mas, carago, não era em nada disso que eu estava a pensar.

Voltei-me para a barra de pesquisas mas, lá está, a fama precede-me -- e, desta vez, com uma piadinha implícita: os segredos sexuais dos séniores. Eu, que tenho a idade mental de uma adolescente e a inocência de uma criança, a aprender os segredos de senhores e senhoras todos empolgados com a sua actividade sexual.... Dá-lhe.



E, não contente com a gracinha, afinfou-me com uma cena de amor entre duas catatuas. Fiquei curiosa. Vi até ao fim a ver se o mistério se desvendava. Mas juro que não percebi. Nestas matérias, sou inguinorante em toda a linha. Quando eu era pequena e via o galo a saltar para cima da galinha e a dar-lhe bicadas no pescoço também não percebia: como é que dali vinha que a galinha ficava choca? Nunca descobri e, com o apelo que sinto pela santidade, foi tema que nunca despertou a minha atenção. 

Pois agora que o algoritmo achou que seria tema do meu interesse e que também não dei por nenhuma incursão (incursão no sentido que Clinton lhe dá) acho que vou ter que aprofundar o assunto.


De qualquer maneira, hoje o tema não tinha a ver com sexo, tinha a ver com decoração: para arrumar os livros, continuo com os meus móveis grandalhões de madeira escura? Ou ponho o coração ao largo e opto pelos branquinhos, lisos, baixos, simples, do ikea?

Ora aqui está o meu complexo dilema. 

(Frescuras de uma dondoca encalorada, bem sei).

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E advirtam-se, ok? 
E, já agora, divirtam-se tamém. E, já agora, também

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quinta-feira, julho 09, 2020

Um post cheio de inuendos desprovidos de mensagem que se veja


© Fede Delibes


Às vezes escrevo para dizer o que digo. Mete-se-me uma na cabeça e, pimba catrapimba, lá vai disto.Talvez nesses casos, e só nesses, se possa dizer que os meus posts têm uma mensagem. Ou que, redundantemente falando, os meus posts são mensagens. Mas, noutras vezes, os meus posts são meras palavras tresmalhadas que se acolhem, por si, à minha beira e se amancebam em total fluidez (no pun intended) por forma a parecerem um todo minimamente coerente. Bem, não totalmente coerente. Evito isso. O excesso de coerência, especialmente em textos à toa, parece-me coisa kitsch. Por isso, talvez apenas fractalmente coerentes: a little bit coerentes com derivações a little bit coerentes até chegar à sílaba. Também levemente coerente, claro está. Ou fractalmente. Ou, talvez, impressionisticamente coerente. Ou whatever, que a mim tanto se me dá. Não desfazendo, não sou dada nem a taxonomias nem a filosofias.

Modelo Chanel

E ponho imagens nos posts não para isto ou para aquilo ou, sequer, para erotizar ou pseudo-erotizar a conversa mas porque sou dos sentidos e gosto de ouvir, ver, tocar, sentir, provar. Se pudesse perfumar os textos melhor ainda. Bergamota, pinheiro, rosa, turquesa selvagem, aragem de fim da tarde -- um bouquet assim. Se, então, lhes pudesse dar um sabor, ah que bom seria. E seria um sabor a figo doce e carnudo ou a ameixa polposa, sumarenta e doce, ou a canela e mel. E se as imagens distraem alguns leitores só posso ficar contente: ficaria arreliada é se o texto fosse uma seca não permitindo nem uma distração, nem um ponto de fuga. Podem elas não ter a ver com o texto (se é que não têm mesmo) mas sobre isso eu nada posso fazer. Pôr aqui texto seco sem imagem ou música seria como sair à rua sem brinquinho, sem perfuminho. Gosto de caprichar. Não é para ninguém, é mesmo só porque sim. Se estou em casa, sem visita, sem reunião, ando por aqui que nem a boa selvagem que, de facto, de facto, sou. Descalça, sem fantasia, sem vaidade. Com calor, até nua ando. Pelo meio da rua e tudo. Passarinho, por aqui, está por tudo: não só não faz fofoca como não torce o nariz a descaramento. 

© Fotografía: Elena Olay

E se estou com estes inuendos todos não é por ser dada a metáforas ou a blablablas; é apenas porque estou numa de disclaimers. Não gosto de vender gato por lebre. Se alguém mais distraído pensa que por aqui é tudo muito by the book, mensagem estruturada, obedecendo a uma lógica cartesiana e que hei-de, ainda, servir as palavras com despojamento, pois não. De asceta tenho pouco, de bem comportada ainda menos. 

E, agora, adiante.

Tirando esta introdução, o que posso dizer é que se concretizou no outro dia mais uma mudança na minha vidinha. Mas são tantas mudanças e todas tão em sobreposição que parece que, cada uma, por si, de pouco vale. E esta é de ordem material, não me diz muito. Mas é coisa boa e de coisas boas a gente não deve desdenhar.

Acresce que, nestes dias de calor em que as cigarras parecem ter enlouquecido e os pássaros disputam todas as ondas sonoras -- uma cantoria pegada, cantoria à desgarrada de manhã à noite -- a casa tem estado cheia. Os meninos brincam e riem e chamam por mim e, frequentemente, chegam-se à minha beira e sentam-se ao meu colo. Coisa mais boa. Mais bôinha, mesmo. Meninos queridos.  Ou uns ou outros ou todos juntos -- têm sido tempos não de distaciamento mas de boa e terna proximidade. De vez em quando, lembro-me do corona. Nessas alturas, mergulho os meus lábios nos seus cabelos, beijo-os na nuca, na parte de trás do pescoço, tentando assim que a minha respiração não se misture com a deles. Mas penso que aqui é tudo aberto, total largueza, ar circulando em liberdade, não há-de haver problema. Problema devem ser os espaços confinados, o ar recirculado, o ar condicionado em circuito fechado. Aqui, pelo contrário, o ar é sempre novo, limpo, tudo é arejado, oxigenado, clorofilado, saudável. E somos todos cuidadosos no contacto com o exterior. A covid não pode anular o afecto, não pode destruir a proximidade de quem se quer bem. 

Claro que exfiltrando do dia, para aqui colocar, apenas o lado lúdico ou afectivo, poderá ficar-se com a ideia que isto, por aqui, é tudo devoção, zero obrigação. Mas não. Com excepção dos meninos que já estão de férias, todos estamos a trabalhar e, para alguns, de sol a sol. Cruzam-se realidades distintas, preocupações disjuntas, palavras que não convergem. Os meninos vão absorvendo tudo. Vais usar o quê? O Teams? O Zoom? O Webex?  e logo manejam a coisa, Qual o teu ID, para te juntares? Sem mistério. Pronto, já estás.


E, passado um bocado, enquanto eu estava na dita reunião, devidamente aperaltada (noblesse et coquetterie obligent), ela, a minha menina mais doce e mais linda, ali ao meu lado, fora do ângulo de visão, a espreitar, a ouvir. Passado um bocado, às tantas, perguntou-me em voz baixinha: 'Isto não é um bocadinho seca para ti...?'. Estava sem som, claro, pelo que pude confirmar: 'Sim, um bocadinho'. Ela fez um sorriso de apoio solidário, como que a querer consolar-me. Passado um bocado, de forma disfarçada, as mãos à frente da boca para que do outro lado ninguém percebesse, perguntei-lhe: 'Quando fores grande, querias ter um trabalho como o meu?'. Ela hesitou e depois fez um trejeito levemente entediado, associado a um leve encolher de ombros que indiciava sérias dúvidas: 'Não sei...' Percebo-a.  Agora é que estava na altura de eu ir fazer um teste vocacional. O que é que daria...? Juro: gostava de saber. Que profissão escolheria eu para mim se fosse agora começar uma vida profissional? 

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E quem não tem destas frescuras são os intervenientes deste vídeo maravilhoso. Há alturas em que penso que este mundo tem bocadinhos que parecem ainda valer a pena.


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E, por hoje, não passa disto. É o que é. E quem dá o que tem a mais não é obrigado, certo? 

Um dia bom, tranquilo, feliz.

quarta-feira, julho 08, 2020

A inocência, os mamilos, a secreta razão





O tema de hoje, embora desprovido de propósito ou coerência, vai ser vasto e é múltiplo. Felizmente não são horas para homilias. É tempo é de silêncio. Portanto, se estiverem de acordo, em silêncio aguarde-se que a Empty Note acabe. Só então se deverá despir a blusa, quiçá tudo o resto e, cautelosamente, avançar para o que se segue.


Como se define inocência? Seduzir apenas for the fun of it? Brincar ao 'agarra lá a ver se eu deixo'? Ou, antes, o não ter noção dos danos que se podem causar com um ingénuo menear de ancas, um olhar sem querer, um sorriso de nada, uma palavra deixada cair ao de leve?

Não sei. Só sei que é bom ser inocente. Não ser por mal, não poder adivinhar as consequências, não ter nada a ver com isso, não ter maldade. É bom a gente não ser responsável pela perdição em que alguns descuidados caem. Um inocente tem sempre uma alma com não mais de quatro anos. Acima dos quatro anos já começa a haver malícia, consciência das coisas.

Não há, portanto, nada de mais perigoso do que uma mulher cuja alma não tem mais que quatro anos.

Nos homens não é bem assim. São inocentes toda a vida. São inocentes mesmo quando julgam que não são. Pensam que têm artes e malícias mas não, têm é muitas inocências. Têm é piada. O que, convenhamos, já não é mau.



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E depois há aqueles temas que se prestam ao diz-que-diz-que com subentendidos na voz, com curiosidades secretas, suposições inverbalizadas. Há gente que gosta de dizer coisas e que, nestas circunstâncias, fala em 'mitos urbanos'. A mim irritam-me os 'mitos urbanos'. Eu que tenho séculos de existência prefiro a palavra tabu. Tabu é conceito escorreito, palavra simples e foneticamente muito primária como, cá para mim, convém a tema assim.

Falo de um daqueles temas que é como se contivesse pecado. What's in a name? Diz-se 'mamilo' e logo há quem fique à espreita: rosado, pequenino, um inocente convite? escuro, impúdico? grande, indecoroso? pequenino, coisa de eterna lolita? E o que pode fazer com ele? Contemplar? Imaginar? Desejar? Não descansar enquanto não o tocar? Com a mão? Com a língua? Venha o primeiro descarado e atire um palpite.

Mas que digo eu? Em que mamilos estou eu a pensar? Nos meus? Nos de qualquer outra mulher? Ou nos mamilos dos homens, mamilos inocentes, disponíveis, oferecidos, sem mistério? Que promessas encerra o mamilo de um homem? Penso que nenhuma. Mamilo de homem é raspadinha já raspada, a gente olha e já viu tudo. E, mesmo sem ver, a gente já viu. Agora o das mulheres...

E, mesmo os das mulheres que foram operadas, podem desaparecer que não desaparece a sua memória e, se forem reconstruídos, renascerão ainda mais arrojados, mais belos, mais prometedores.

Mas atenção, mamilo é tema e petit morceau para gente fina, para connaisseur. Não pense que é o primeiro lambão que já pode sair por aí a fingir que sabe do que fala. Não, lambão não sonha sequer o que é, nunca chegou nem perto de jóia tão cheia de requinte.


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E depois há o resto: a graça, o impulso, o que nos leva lá, o que nos chama, o que existe sem a gente saber porquê. Dir-se-á que é a beleza. Qual quê? A pluma, a cor, o canto, a dança, o odor da hormona? Também. Mas, apesar disso, não sei, não. Penso que é outra coisa. Coisa invisível. É tão forte que atravessa mundos, é tão forte que ainda não há, nem nunca haverá, expressões que o exprimam através da matemática. É que o que não se pode transformar em equação não existe. E isto de que falo não existe. Está para além disso.

Não tem a ver com a perfeição, com a ausência de ruga, com a pele lisa, com a carnadura no lugar, com a glúteo a espreitar, com o mamilo a arrebitar, com o olhar a desafiar, com a palavra a convidar. Não tem a ver. Encerra saudade, encerra vontade de abraçar, encerra vontade de imaginar infinitudes, encerra vontade de descobrir descrição ou razão. Mas não é só isso. Talvez também empatias inexplicáveis, atracções irresistíveis, jogo de espelhos, mãos que se estendem mas só em pensamento. Vontade de comer. De devorar.

E que se disfarçam de brincadeiras, de desencontros. Inocentes. Imateriais. Inexistentes.

(E solte-se aqui, se faz favor, um conveniente risinho malandro)


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E mais nada. Ainda hei-de falar de uma árvore magnífica que o homem da biblioteca secreta plantou. Mas isso só mais tarde, agora ainda não. Até porque ainda não descobri o nome dela.

As fotografias são, de novo, de Eylül Aslan e provavelmente estão aqui por conta delas, não por mim, não pelo texto. Ou, então, a mom seul désir.

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E eu gostava de saber que está tudo bem convosco.
E desejo-vos saúde, boa disposição.

terça-feira, julho 07, 2020

Uma certa biblioteca secreta





Nesta fase da minha vida em que tudo muda, é como se estivesse a começar de novo. Ou seja, estou como peixe na água. Gosto de recomeços. Quando estou nesta, pouco ou nada me prende ao que era. Pelo contrário, quanto mais depressa despir toda a pele que ainda me prende à minha vida anterior melhor.

Hoje ao fim do dia, tive que ir a um sítio para escolher uma coisa. Mas, mal lá chegada, quando me preparava para ir tratar do que lá me tinha levado, uma pessoa chamou-me para me mostrar uma coisa. Fui. Pensava que era coisa rápida. Afinal foi demorado. Ia mostrar-me umas coisas simples. Afinal, de uma coisa, veio outra e, de outra, veio outra. Sempre mais coisas para me serem mostradas. E, às tantas, chegámos a uma sala e ali havia muita coisa para ver. E, estava eu a ver uma estante, diz-me: não está ver o que é esta estante? E eu: não. Então, a estante rodou e descobriu-se uma porta. Fui atrás. Máquinas. Não percebi que máquinas eram aquelas. De outro lado, caixas, arcas, coisas indistintas. Então, quando pensava que não havia nada mais a ver, dizem-me: e aqui atrás há isto. Espreitei.

Não queria acreditar: uma sala cheia de estantes e livros, livros, revistas. Explicou-me: uma biblioteca privada. Mas privada em todos os sentidos da palavra. Secreta, oculta, quase como se não existisse. Olhei em volta, perplexa. Estantes a toda a volta e, se não estou em erro, também ao meio, Se eu pudesse ter uma biblioteca assim, a library of my own, secreta, vasta, sigilosa, um espaço quase infinito... Fiquei sem dizer nada. Nunca poderia ter imaginado tal.
Quando saí daquele labirinto, já as pessoas com quem tinha ido encontrar-me se tinham ido embora, certamente cansadas de esperar por mim. O tempo tinha passado sem que eu tivesse dado por ele e sem que eu tivesse conseguido interromper quem tinha estado a conduzir-me naquela inesperada visita guiada.


O tempo não anda a ser-me suficiente para me entregar à absoluta descoberta de uma vida nova que se desdobra a toda a hora à minha frente até porque tenho que conciliá-la com o lado prático da minha actividade quotidiana mas, apesar disso, o que posso dizer é que, para mim, o mais estimulante são estes momentos em que passam por mim estas vibrações prenhas de expectativa e descoberta.

Há algum tempo, naquele longínquo tempo pré-covid, estava eu a almoçar, acompanhada, quando ouvi uma voz conhecida a exclamar: 'Olha quem ela é,,,!'. E já lá vinha ela de braços abertos e eu levantei-me e abraçámo-nos e demos o beijinho que, em tempos, as pessoas trocavam quando se encontravam. E logo ali, de pé, pusemos a conversa em dia. Quis que ela se sentasse e almoçasse connosco mas não, estava atrasada, ia ter com outra pessoa, já estava nas horas. Perguntei-lhe como estava a dar-se nessa sua nova vida. Sorrindo, transbordante de entusiasmo, disse: 'Bem! Óptima! Se eu soubesse que ia ser assim, há que tempos que tinha mudado'. Adorei ouvir, era bem ela, sempre pronta para ser a eterna adolescente que conheço há anos. Provavelmente sou também um pouco assim. Não fazer as coisas pela metade, não negar a experiência que se faz convidada, ousar, ir em frente.

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Uma vez mais, fotografias que nada têm a ver com o texto (ou será que têm?) da autoria de Eylül Aslan e que, cá para mim, se forem como eu, curvam-se perante Ennio Morricone que, pela milionésima vez, aqui nos traz o Oboé de Gabriel. 
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Talvez um dia destes regresse ao mundo dito real e fale da notícia do dia: o que o super-judge Alex -- o implacável justiceiro que parece odiar visceralmente quem tem dinheiro ou poder -- fez agora ao Mexia (o da EDP) e ao Manso Neto. Todo um filme. Uma opera bufa. Uma soap. Mas terá que ser num dia de muito estômago. 

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E boa sorte e muita saúde e alegria para si que aí está desse lado.

segunda-feira, julho 06, 2020

Quando temos um martelo na mão, tudo nos parece um prego.
É isso e a Bíblia ser maioritariamente um desfiar de fake news.
E outras coisas que Harari dixit





A democracia baseia-se na ideia de que o eleitor é que sabe, o capitalismo de mercado livre acredita que o cliente tem sempre razão, e o sistema educativo liberal ensina os alunos a pensarem pela própria cabeça. No entanto é um erro depositar tanta confiança no indivíduo racional, 

Os economistas comportamentais e os psicólogos evolucionários têm provado que a maioria das decisões humanas se baseia em reacções emocionais e e atalhos heurísticos em vez de análises racionais, e que, embora as nossas emoções e heurísticas tenham sido adequadas à vida na idade da Pedra, infelizmente são desadequadas à Idade do Chip. 

Não só a racionalidade como a individualidade são um mito. Os seres humanos raramente pensam pela própria cabeça. Pensamos em grupo. 

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O poder em grande quantidade distorce a verdade inevitavelmente, O poder prende-se com a mudança da realidade, não com vê-la como ela é. Quando temos um martelo na mão, tudo nos parece um prego; e quando temos uma grande quantidade de poder nas mãos, tudo parece um convite para nos imiscuirmos. Mesmo que consigamos conter este impulso, as pessoas à nossa volta nunca deixarão que nos esqueçamos do gigantesco martelo na nossa mão. Todas as pessoas que falarem connosco terão intenções conscientes ou inconscientes, pelo que nunca nos podemos fiar inteiramente no que dizem. Nenhum sultão pode confiar que a sua corte e os seus súbditos lhe dirão a verdade. 

Assim, o poder em grande quantidade funciona como um buraco negro que distorce todo o espaço à sua volta. Quanto mais próximos estamos dele, mais distorcido tudo se torna, todas as palavras ficam mais pesadas ao entrar na sua órbita. Se temos muito poder, todas as pessoas que vemos tentam lisonjear-nos, agradar-nos ou pedir-nos algo. Elas sabem que não podemos dispensar-lhes mais de um minuto ou dois, e têm receio de dizer algo de inadaptado ou confuso; acabam, portanto, por proferir frases vazias ou os maiores lugares-comuns.

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Assim, se o leitor culpa o Facebook, Trump ou Putin por terem aberto alas à nova e assustadora era do pós-verdade, recorde a si mesmo que há muitos séculos os cristãos fecharam-se a si próprios numa bolha mitológica de autofortalecimento, sem nunca se atreverem a questionar a veracidade factual da Bíblia, ao passo que milhões de muçulmanos depositaram a sua fé inquestionável no Alcorão. Durante milénios, muito do que era visto como 'notícia' ou 'facto' nas redes sociais humanas eram histórias sobre milagres, anjos, demónios e bruxas, com jornalistas destemidos a darem notícias directamente das profundezas mais recônditas do submundo. Não há quaisquer provas científicas de que Eva tenha sido tentada pela serpente, que as almas de todos os infiéis ardam no inferno após a morte, ou que o criador do universo não goste que um brahmin se case com uma intocável  -- no entanto, milhões de pessoas têm acreditado nestas histórias ao longo de milhares de anos. Certas fake news duram para sempre. 



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Obviamente as fotografias não têm -- nem tinham que ter -- nada a ver com o texto. São da autoria de Eylül Aslan e, se as suas fotografias não têm a ver com o texto, de uma coisa podem Vossas Senhorias estar certas: é de que elas têm muito a ver comigo.

James Blunt que aqui vem interpretar Halfway também não deveria ser para aqui tido nem achado. Veio porque quis e porque a dança daqueles ali me enternece; e tenho para mim que isso é razão mais do que suficiente para ele ser aqui bem recebido.

Os textos são excertos de '21 Lições para o Século XXI' de Yuval Noah Harari e escolhi estes como poderia ter escolhido muitos outros. Talvez ainda, um dia destes, venha a escolher. Vou intercalando isto com cenas do Livro do Desassossego, coisa que também não tem grande explicação. Só uma que não é para aqui chamada.

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Votos de uma boa semana a começar já por esta segunda-feira. 
Saúde, energia, alegria e mais coisas boas.

domingo, julho 05, 2020

Sim, já tive fantasmas





Houve uma altura, quando eu era pequena, em que tinha medo de fantasmas. Consigo, claramente, situar a origem desse medo. Nasceu de histórias que uma colega nos contava. Andaria eu na antiga 4ª classe, fui apanhar uma colega bem mais velha, muito repetente, com irmãos mais velhos, muitas vivências. Trazia-nos conhecimentos que, sem questionar, tomávamos por bons. A esta distância penso que teria dado uma boa ficcionista. Mas esses seus dotes eram ocultos, só os revelava quando nos juntávamos em sua volta, ávidas de novidades invulgares. Talvez por acharmos que algo ali era ilícito ou ameaçador, não falávamos disso a quem quer que fosse. De resto, ela não ligava à escola, só lá andava por obrigação. Não se esforçava, não queria saber de não ter aproveitamento. Tinha jeito para cozinhar, ficou cozinheira. Acabou por se casar com um empregado de mesa e, mais tarde, conheci-a como a chef da cozinha do seu próprio restaurante, no qual o marido era o chefe de sala. Estava realizada e feliz.

Mas, nesses longínquos dias em que nos assustava, ela era, sobretudo, uma contadora de histórias. Com ar de quem dizia a mais pura das verdades, ela contava sobre um sítio em que se soltavam gemidos de dentro das paredes, em que a meio da noite se ouviam gritos que ela escutava, transida de medo, e onde, quando de manhã se levantava, via facas espetadas na parede de onde escorria um espesso fio de sangue. Eu ouvia aquilo cheia de medo. E duvidava: 'Não acredito, não pode ser'. Mas ela jurava por tudo o que tinha de mais sagrado que era verdade, dizia que, se eu não acreditava, então que pedisse aos meus pais para lá ir passar a noite. Eu estremecia. Ela continuava: 'De noite, a meio da noite, sinto uma mão fria passar-me pela cara, depois um gato a miar e a fugir, apavorado'. Nós ficávamos em silêncio. Ela acrescentava: 'O mais estranho é que não há gato nenhum lá em casa'. Nós não dizíamos nada, estarrecidas.

Quando entrei para o liceu, ficava muitas vezes parte do dia sozinha em casa. Se calhava ter aulas só de manhã e isso coincidir com um ano em que a minha mãe dava aulas à tarde, ficava em casa sozinha. Lia, lia, lia. Penso que já o contei. Por um lado, era muito bom, fazia o que queria. O pior era o resto. Por essa altura, caíu-me nas mãos o livro de contos de Edgar Allan Poe. Devorava-o, cada vez mais gelada. Acabava o conto e temia sair do quarto não fosse ouvir um gemido a sair da parede ou dar com um gato inexistente estrangulado. Ficava, então, imóvel, a tentar ouvir algum som suspeito, tolhida de medo, ansiando que fosse hora dos meus pais chegarem a casa. Claro que não lhes contava nada. Por um lado, suspeitava que estava a ser tola, que os receios eram infundados. Por outro, não queria que soubessem que, em vez de estudar, passava o tempo a ler tudo o que apanhava, mesmo intuindo que não eram coisas 'para a minha idade'. Por isso, foi à socapa que, durante uns bons anos, sofri em silêncio o medo de fantasmas. Agora que escrevo penso: não, não era de fantasmas, era de almas de outro mundo. Era assim que essa minha colega falava: almas do outro mundo. 

Felizmente não era todos os dias que essa ideia me assaltava. Se os livros que me vinham parar às mãos eram sobre outras coisas, era para aí que eu viajava e as almas do outro mundo deixavam de me aterrorizar.

Só mais recentemente é que voltei a pensar nisso e conto porquê.

O chão da minha casa é de madeira. Quando tínhamos a nossa cãzinha, ela dormia na sua caminha num recanto da cozinha. Contudo, a meio da noite levantava-se e vinha deitar-se no nosso quarto. No verão, ia para debaixo da nossa cama. No inverno, para cima -- sobre o edredon, ficava entre mim e o meu marido. Quando ia para baixo da cama, o movimento que fazia para se agachar e para se ajeitar fazia um barulho muito peculiar, as unhas roçando na madeira do chão. Pois bem, dias depois de ter morrido, acordámos sobressaltados com esse barulho. Acendemos a luz assustados. Espreitámos. Obviamente nada. Apagámos a luz e, pouco depois, o mesmo arranhar de unhas. Ficámos meio atordoados, eu francamente assustada. Até que percebemos que devia ter sido um pássaro que deveria ter ficado preso na chaminé do prédio ou não sei onde. Durante vários dias, à noite, acordávamos com este som misterioso que parecia mesmo o da nossa amiguinha que se tinha ido. Sem falar nisso, pensava que era a alma da minha querida Nhu-Nhu. Até que o som desapareceu. Em vinte e dois anos que levamos a morar nesta casa, foi a única vez que tal aconteceu e logo, por uma estranha coincidência, nos dias que se seguiram à morte daquela que ainda hoje recordamos com saudade.

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As fotografias são da autoria de Lachlan Bailey e acompanham David Gilmour e Romany Gilmour em Yes, I Have Ghosts


E é bem dentro deste mundo que vos desejo um belo dia de domingo

sábado, julho 04, 2020

Todos os seres humanos


Conta a minha mãe que se ia esvaindo em sofrimento e cansaço durante o tempo em que esteve cheia de dores e eu sem sair. Quando saí, não sabia de que cor era a minha pele nem de que cor era a pele da minha mãe ou a do meu pai. 

Foi já bem mais tarde que me apercebi que o cabelo da minha mãe era mais louro do que o das restantes mães ou vizinhas e conhecidas. Muito louro, levemente ondulado. Os seus olhos eram também mais azuis do que todos os outros que eu até então tinha visto. Em contrapartida, o cabelo do meu pai era muito preto, muito liso, e os seus olhos igualmente escuros.

A minha mãe tinha herdado os seus traços do pai que era muito alto, muito louro, com olhos muito azuis. O meu tio, irmão dela, herdou os traços da mãe, tinha cabelos escuros e olhos castanhos com alguns laivos de esverdeado. Do lado do meu pai,  também ele saíu à sua mãe enquanto o irmão saíu ao pai, parece que herdou os injustificáveis traços um pouco orientais do meu avô.

E eu acabei por ser uma mistura dos meus pais e a minha prima mais velha a mistura dos seus pais. Olhando para ambas, ninguém diria que temos alguma coisa em comum. Contudo, curiosamente a filha dela é parecida comigo, não apenas fisicamente como, ao que parece, na maneira de ser. 

Do lado dos meus primos do lado da minha mãe, fisicamente pouco temos em comum. O meu primo tem o dobro da minha altura e metade da minha largura. A minha prima talvez tenha uma maneira de ser parecida com a minha mas fisicamente não tem nada a ver. Sempre a achei interessante, desde pequena que sempre a achei diferente. Fisicamente e no sorriso, comparo-a à Julia Roberts. Contudo, ninguém percebe essa minha comparação. 

Calhou cada um de nós ser assim, sair assim. Não fomos tidos nem achados para sermos como somos nem para termos nascido onde nascemos. Se os nossos antecedentes fossem negros, tivessem traços índios ou quaisquer outros, também nós teríamos saído diferentes. E, provavelmente, teríamos tido oportunidades diferentes. E, se em vez de termos nascido numa cidade tranquila, em ambiente de paz, tivessemos nascido num local em guerra, pobre, inseguro, certamente toda a nossa vida teria sido bem diferente.

E, no entanto, também não teríamos sido tidos nem achados para tal.

Porque tudo isto é tão óbvio, tão la paliciano, custa a perceber como é possível haver gente tão burra que se ache no direito de tratar de maneira diferente os outros consoante a cor da sua pele, a sua raça, a sua condição.

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All Human Beings


Vídeo de Yulia Mahr

Declaration Readings: Eleanor Roosevelt, Kiki Layne, Hiba Sellaoui
"The opening words of the declaration, drafted in 1948, are “All human beings are are born free and equal in dignity and rights.” These inspiring words are a guiding principle for the whole declaration but, looking around at the world we have made in the decades since they were written, it is clear that we have forgotten them. The recent brutal events in the US, leading to the tragic deaths of George Floyd and Breonna Taylor, as well as countless other abuses around the world, are proof of that.  At such times it is easy to feel hopeless but, just as the problems of our world are of our own making, so the solutions can be. While the past is fixed, the future is yet unwritten, and the declaration sets out an uplifting vision of a better and fairer world that is within our reach if we choose it. VOICES is a musical space to reconnect with these inspiring principles and Yulia’s striking film depicts this inspiration in a beautiful way, while offering a glimpse into her full length film of our project to come”
Music video by Max Richter performing Richter: All Human Beings. © 2020 

sexta-feira, julho 03, 2020

De que falar quando não tenho do que falar?
Da nacionalização da TAP e da Efacec?
Não sei, não... Acho que vou antes arrimar-me ao 'My friend' de Khalil Gibran.





Não sei se é só comigo mas tenho a sensação que esta situação da pandemia e do confina-desconfina nos atira mais facilmente para o vazio. É certo que, por uma qualquer conjugação astral, entre o que me caíu em cima e o que eu procurei, muito do que era a minha vida mudou. A todos os níveis, mudou. Mesmo nas pequenas coisas: não sei porquê mas parece que tudo o que pode mudar, muda.
Chego a um ponto em que parece que deveria parar durante uma semana, sem obrigações, nem afazeres. Nada. Só eu sem nada que fazer. Parece que preciso de me reorientar. Nunca fui boa na geografia nem na orientação geográfica. Nunca faço ideia do lado para onde virar, não faço ideia onde estou, perco-me em lugares impensáveis. No outro dia estava num sítio e perguntei para que lado era o mar. Disseram-me, como se fosse a coisa mais óbvia. Era onde eu juraria que nem pensar. Ainda agora, ao escrever isto, não consigo perceber. Também nunca me entendi com bússolas. Uma vez ofereceram-me uma. Não atinei. Acho que o meu campo magnético interfere com o da bússola, e isto já para não falar com o da própria terra. Desatino com o norte. Imagina agora numa fase destas. Parece que nem sei bem onde está a minha linha de água, a minha linha de terra, o meu norte. Provavelmente será porque me faz falta rumar a sul, procurar o sal, o azul. Ou porque o meu eixo de rotação se desgovernou, tal a quantidade e simultaniedade de mudanças que se têm operado.
E o que acontece é que, depois do dia e depois de me entreter, à noite, a pesquisar coisas relacionadas com aquilo que agora mais me polariza as ideias, chego aqui e parece que o que me apetece é começar a planear uma escapada, uma bela de uma escapulida, zarpar, ir para longe, de férias, alhear-me de tudo, recentrar-me. Como isso também não, sobrevém o vazio. E eu não gosto do vazio, temo o vazio, temo e odeio o tédio que tudo faz para ocupar o lugar do vazio.

Provavelmente haverá quem, ao ler isto, pense que estou a precisar é de terapia quântica, reiki, alinhar os chacras. Mas eu não sou disso. Zero. Levar massagens gosto, é bom. Mais do que isso soa-me a treta. Conheço (conheço... que é como quem diz) e gosto de física quântica. Como é que daí se desanda para terapia quântica é daqueles mistérios que não quero nem desvendar mas que intuo que seja para aí a enésima derivada da coisa, mas uma derivada que derivou para outro campo qualquer, tresmalhada, sem saber de que terra é.

Mas adiante que não quero ferir susceptibilidades. Na volta falta-me aquela dose de sensibilidade que torna as pessoas crentes. Assim, pelo contrário, sou esta increia que tão bem julgais conhecer.

Abri os onlines e vi que a TAP vai ser nacionalizada mas numa de rapidinha, para logo ser reprivatizada. Mixed feelings, uma vez mais. É uma daquelas too big para falir. Mas vamos voltar a precisar de voar tanto como voávamos? Vamos injectar dinheiro para a empresa ser saudável... mas para quê? Para sobreviver num mundo igual ao que era antes? Mas vamos voltar a ter um mundo igual? Não sei. Mas mais não digo porque, na realidade, não sei. Sobre a Efacec, acho bem. Uma empresa de engenharia, com produção de equipamentos relevantes, das poucas que o país tem, deve ser preservada. O capital humano e o capital de conhecimento são activos que qualquer país deve preservar. Claro que é uma empresa cheia de vícios, bairrismos e triquitriqui, uma empresa que tem queimado quem dela se aproxima. Mas, com pulso forte, mão férrea e cabeça fresca, há muito a fazer ali. Sobretudo, que se evite que vá parar à mão de chineses ou afins.

Mas também não tenho cabeça para, a esta hora, me pôr para aqui a ensaiar altas cavalarias e falar das coisas boas para o país. 

Sigo, pois, para o youtube que, nem mais, me apresentou um vídeo com um senhor de aspecto curioso. Quando o ia mandar bugiar, reparei que lia palavras de Khalil Gibran e, aí, tive curiosidade.
Lembrei-me de há uns anos. Quantos? Talvez quatro. Também era verão. Eu estava a acabar de conhecer uma pessoa e havia uma notória empatia entre nós. Quem antes me tinha falado dele tinha-me dito: 'Vai gostar dele. É um tipo culto, interessante. E bem apessoado'. Alguns dias depois de o ter conhecido, o tal veio conferir: 'Afinal, o que lhe parece? O que acha dele?'. Reconheci: 'Simpático. Invulgar.' E observei: 'Mas, olhe, há ali qualquer coisa...'. Ele, intrigado: 'Acha? Mas o quê?'. Não soube responder. Ainda hoje, que o conheço tão melhor, não sei dizer. Há ali uma qualquer coisa que não encaixa. É como a gente entrar numa sala bonita, tudo correcto, tudo em bom, boas mobílias, bons quadros, bons livros. E, de repente, a gente perceber que no sofá em que ele se senta há um naperon de renda no lugar da cabeça. Não bate certo, não é? Mas nesse dia, deve estar a fazer os tais quatro anos, estávamos sentados ao lado um do outro a assistir a uma apresentação e, não faço ideia a que propósito, ele falou-me, em voz baixa, de Khalil Gibran. Não conhecia e, como ele estava a falar quase em segredo, não percebi o nome. Pedi para ele escrever. Procurou um papel e escreveu. No dia seguinte tinha o cd para me emprestar. Durante uns dias andei a ouvi-lo no carro. Uma coisa quase hipnotisadora. Quando o devolvi quis que eu ficasse com ele. Mas não fiquei. Era um objecto certamente especial. Também não sei explicar porquê.

Ou seja, no estado de quase torpor em que escrevo, estive a ouvir o senhor do vídeo. E gostei da voz tal como gosto do que ele diz. Não sei porquê nem saberia resumir o que ouvi. Sei apenas que aquela toada me agrada. Poderia ele estar a falar grego que, provavelmente, gostaria na mesma. Sou pessoa cheia de inexplicações.


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Pinturas de John LaFarge na companhia de Michelle Gurevich que interpreta Show Me The Face (e cujo vídeo é coisa a não deixar de ver)

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A si que aí está desse lado desejo uma boa sexta-feira