Estava ainda na cama e já o telefone tocava, que não tardaria estariam a chegar. De imediato liguei ao meu marido a avisar que estavam quase a chegar as coisas (para a remodelação da casa de banho). Há sempre este lado logístico, de garantir que o cão fica isolado. Fui fechar um dos portões e passado um pouco já ele tinha chegado a casa, já andava a pôr a fera do lado de lá. E imediatamente chegou a camioneta e logo começaram a descarregar. O rapaz que carregou o material mais pesado e que trouxe o móvel mais alto e o móvel com o lavatório para dentro de casa era quase um miúdo, novinho, magrito. Negro, de gorro, com um casaco desportivo. A força dele impressionou-me. O colega estava na camioneta a passar-lhe as peças que ele carregava. Mas o motivo que aqui me faz falar dele é outro: o cheiro. Horrível. Um suor antigo, impregnado, um misto de cebola e de putrefacção. Quando saiu tivemos que ter portas e janelas a arejar, e custou a sair.
Pensei que alguém deveria avisar o apaz de que não pode andar assim em casa das pessoas. Mas depois ocorreu-me que provavelmente vive num daqueles dormitórios em que se acumulam, com uma casa de banho para muitos, se calhar com banhos condicionados e, até, sem banhos.
Um rapaz destes não ganha mais que o salário mínimo. E, com o salário mínimo, na melhor das hipóteses partilha-se um quarto ou vive-se num bairro clandestino.
Por vezes quando caminhamos, passamos por uma rua em que passa um autocarro. Ao fim da tarde juntam-se, na paragem, alguns jovens que vêm de fora daquela zona residencial, de um sítio em que há alguma construção nova. Todos os rapazes são negros. E cheiram sempre muito bem, a banho acabado de tomar, a desodorizante acabado de pôr, a perfume. Aquelas obras pertencem a uma zona de construção de qualidade, em que há certamente balneários para os trabalhadores.
Mas, no sector das cargas e distribuição, não deve haver balneários. Aquele rapazito não deve tomar banho há algum tempo nem deve conseguir lavar a roupa em condições.
Ao ver os manifestantes no Porto, constato que é outro patamar: são jovens estudantes, talvez bolseiros, nitidamente classe média ou mesmo abastada. Não conseguem arrendar ou comprar uma casa no Porto. Compreendo as suas razões. Os centros das cidades não deveriam ter sido reconvertidos em Alojamento Local. Uma rapariga que trabalhava comigo, em Lisboa, e que era do Porto, tinha a casa, no sentro do Porto, em AL e dizia-me que ganhava tanto ou mais com aquilo do que com o seu ordenado na empresa, e na empesa ganhava bem. Compreende-se que os donos das casas as ponham em alojamento local, se é um rendimento interessante,
Mas, como em tudo, há sempre o outro lado da questão.
Antes de me casar, eu e o meu marido andámos à procura de casa. Obviamente não tínhamos dinheiro que chegasse para uma casa no centro da cidade, e aceitámos isso com naturalidade. Ainda me lembro de andarmos a ver casas em subúrbios onde nunca antes tínhamos posto os pés, lugares que nos pareciam lúgubres, e aceitávamos isso sem drama, para nós era óbvio que com os nossos parcos rendimentos e sem património, não poderíamos almejar ao mesmo que quem já estava mais instalado na vida, mais folgado de dinheiro. Nem nos ocorria pedir ajuda aos nossos pais. Era uma decisão nossa, casar e arranjar casa, pelo que nos parecia natural resolvermos tudo pelos nosso próprios meios. Como nem mesmo assim conseguíamos, resolvemos que ficaríamos a viver no quarto em que eu vivia, um quarto de estudante, numa casa habitada por uma senhora de alguma idade que ficou toda contente com essa perspectiva. E tomámos essa decisão sem qualquer fatalismo, auto-piedade, ou revolta. Pelo contrário, com muita naturalidade. Aconteceu, porém, que dias antes de casarmos, soubémos de um apartamento T1, numa cidade em que nem eu nem ele alguma vez tínhamos posto os pés e que sempre tínhamos associado a uma cidade-dormitório. A renda era baixa, conseguíamos pagar. Ficámos felizes da vida. Foi a nossa primeira casa.
Agora, parece que todos os jovens em início de carreira se acham com direito a arranjar casa no centro das cidades. Parece que não há aquela noção que eu e o meu marido tínhamos de que começávamos por baixo, com o que nos era possível, e que logo iríamos progredindo.
Mas ocorreu-me uma outra coisa. Quem está a protestar, seja no Porto, seja em Madrid, seja onde for que se protesta, são jovens que nada têm a ver com os que, de certeza, de certeza muito absoluta, têm verdadeiras carências a nível habitacional e que, porque têm que trabalhar de sol a sol, nem conseguem manifestar-se.
O rapazito magro que hoje deixou a minha casa a feder de certeza que não acampa no centro de uma cidade nem se manifesta. São os pobres, muito pobres, que não têm voz e que mais precisam de uma casa digna.
Toda esta conversa, todas estas manifestações, todos estes debates, todas estas medidas não resolvem o verdadeiro, o gravíssimo problema da habitação. E o problema é tão simples quanto isto: não há casas que cheguem. Em especial não há casas para os mais pobres, em particular para os imigrantes. Claro que também não há casas para os jovens estudantes ou em início de carreira, e isso também tem que ser resolvido. Nada disto se resolve a não ser com mais casas. Muitas casas.
E tem que haver habitação social, pública, rápida, económica, se calhar de uma gama mais baixa, e não é por discriminação mas sim pelo valor do investimento, porque são muitas casas e porque essas têm que aparecer rapidamente, tem que se construção económica, provavelmente em terrenos cedidos pelos municípios (como o Isaltino passa a vida a falar). E depois têm que aparecer outros bairros, também muitos prédios, esses do género dos de Espanha, com jardins, com parques infantis, construção também rápida mas a cargo de PPP, parcerias público-privadas, terrenos públicos, construção privada.
Enquanto o Governo e os municípios não perceberem que é nisto que têm que se concentrar, o problema vai persistir, vai engrossar, vai extremar-se
A esquerda, mais uma vez anda a reboque da burrice, a fazer dos senhorios os bodes expiatórios, quando nada disto tem a ver com senhorios. Se os senhorios põem as casas a arrendar por 2.500 ou 3.000 euros e aparecem inquilinos, tudo bem, é porque há mercado para isso. E se os inquilinos não pagam, pois que seja fácil pô-los a andar e que seja dada a vez a quem paga. Mas isto é fait divers. Nada disto tem a ver com a crise da habitação, com a tremenda escassez de casas, são centenas de milhares de casas que estão em falta, só na Grande Lisboa cerca de 300.000.
E que não se centre a discussão nos filhos-família que não conseguem comprar ou arrendar um apartamento no centro da cidade, olhe-se também para os esquecidos, para aqueles que não se manifestam, para as milhares de pessoas que constroem as nossas casas, que distribuem as nossas encomendas, que limpam as ruas, os hospitais, as que tratam de doentes e idosos -- toda essa gente indispensável ao funcionamento do país e que, coitados, mil vezes coitados, não conseguem ter as mínimas condições de vida digna.
O problema da habitação é um problema gravíssimo. E ainda não vi uma única proposta de solução.
De vez em quando ouço o Moedas ou o Pedro Duarte ou um qualquer outro munícipe apresentar como um feito que foram atribuídas mais uma meia dúzia de casas. Só me apetece lá esta e ter uma vuvuzela para fazer barulho e protestar: não é de meia dúzia de casas que deveriam estar a falar, caraças, isso é apenas ridículo, a escala tem que ser outra -- eram milhares de casas, fiadas e fiadas de prédios, que deveriam estar a ser construídas e atribuídas.
Li que o António Costa está a querer trazer o tema da habitação para o centro da preocupação europeia e acho muito bem. Que imprimam dinheiro, que lancem obrigações, que inventem fundos, qualquer coisa, mas que se mobilizem os primeiros ministros para anunciarem para o curto prazo projectos a sério de construção de habitação a custos acessíveis e com licenciamentos ágeis e processos construtivos rápidos.
Mais do que a porcaria do IRS jovem que não serve para nada a não ser para dar uma valente talhada nas contas públicas ou do que a isenção do IMT para os jovens que só tem servido para aumentar a especulação, o que fará com que os jovens se fixem e formem família e procriem (sejam eles jovens estudantes ou jovens em início de carreira, sejam jovens imigrantes brutalmente carenciados) é que tenham casa, que sintam que podem ter uma vida digna. Mas, a nível dos muito pobres, não são só os jovens que têm falta de casa. No outro dia, numa reportagem, uma senhora, também imigrante, dizia que trabalhava num supermercado. Mulher de meia idade. A viver numa casa clandestina, num bairro clandestino. Nem morada conseguem ter. Isto é de uma indignidade brutal. E não vejo ninguém a lutar por estas pessoas. Onde andam as esquerdas que parece que se esquecem dos mais pobres? E onde anda a beatagem? Em vez de andarem a bater perna a caminho de Fátima ou lá de velinha a cantarem, não poderiam mobilizar-se em favor destas pessoas, nem que fosse apenas para pedir soluções para que possam ter uma vidgna digna?
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Desejo-vos uma sexta-feira feliz







