1. Estávamos a passear, abrandámos o passo no passeio em frente a uma moradia pois o nosso cão estava por ali a cheirar. Sem querer presenciámos o que se segue.
Parou um carro e dele saiu um homem muito jovem, direi que talvez ainda na casa dos trintas e tais, magro, elegante. Vinha a conduzir, e, do lado do pendura, saiu um rapaz quase igual a ele, igualmente alto, magro e elegante, mas, pela voz, percebia-se que mal teria mudado de voz, talvez uns quinze ou dezasseis anos. O que percebemos ser o pai dizia-lhe: 'se calhar, ali, ao meio dia, não é ele que dá a missa'. O rapaz, numa voz que parecia desiludida, disse: 'Tinham-me dito que ao domingo era ele que dava a missa. Afinal...'. O pai tentava consolá-lo: 'Se calhar hoje não conseguiu, mas informa-te, pode dar a outra hora'. E, depois de nos cumprimentarem, entraram em casa.
Fiquei muito admirada. A ideia de que ainda há pessoas que vão à missa tinha desaparecido da minha cabeça.
2. No passeio do fim da tarde, voltámos a passar pela moradia que tem o jardim mais amorosamente tratado aqui do burgo. O senhor é de alguma idade e no tempo quente usa uns calções que deixam ver as pernas magrinhas. Está sempre a tratar do jardim. Há arranjos de vasos, com flores a condizer e ordenadas por tipo e tamanho, há canteiros com florzinhas pequenas a bordejar, as árvores e arbustos estão milimetricamente harmonizados, há cestas de cerâmica estudamente tombadas com seixos e suculentas. E está tudo sempre muito varrido, não há uma erva ou uma folha a perturbar aquela perfeição. Anda tantas vezes baixo, debruçado, a aparar tudo, a limpar tudo, que não sei como não lhe doem as costas. Cumprimentámo-nos. Quando já íamos mais à frente, eu disse ao meu marido: 'devias pôr os olhos neste senhor'. Ele respondeu: 'que remédio tem; se não tem tudo assim, a mulher dá cabo dele. Já a viste?'. Não reparei, só a vi uma ou duas vezes de longe. O meu marido disse: 'Tem uma cara, mete meto, deve dar-lhe cabo do juízo. Ou, se calhar, ele está o dia todo no jardim para não ter que estar em casa, ao pé dela.'. Acredito que não seja nada disso, que seja, isso sim, o grande amor que o senhor tem pelo seu jardim. Para não assumir que há quem faça por devoção o que ele faz sem assumir que gosta, quase como se fosse um frete que tem que despachar à pressão, o meu marido inventa histórias. Acho eu.
3. Também passou por nós um conhecido actor. De vez em quando cruzamo-nos com ele, nós a pé, ele de bicicleta. Não é mais gordo nem mais magro nem mais alto nem mais baixo do que se vê na televisão, e isso, em si, é digno de registo. Habitualmente são metade do que parecem na televisão.
4. Passaram por nós duas miúdas quase iguais, jeans e blusinha preta, cabelos lisos compridos. Miúdas talvez duns catorze ou quinze ou dezasseis, não sei bem, nestas idades não dá bem para perceber. Estavam perfumadas, um perfume bom, deixaram um agradável rasto perfumado. Iam a conversar, entretidas, sorridentes. Mais à frente, quando ia atravessar a rua e olhei para ver se não vinha nenhum carro, vi uma coisa que me intrigou. Por aqui, geralmente, as casas nem têm vedações altas; como tenho referido, é frequente ver-se tudo para dentro das casas. Mas uma casa ali, em particular, depois de ter estado em obras há algum tempo, foi transformada quase num bunker, não se vê nada, muro alto, com vedação alta, tudo fechado. Não faço ideia de quem lá vive. Antes das obras a casa era gigante, pelo que ainda deve ser. Mas não faço ideia de nada relacionado com aquela casa (nem tenho que fazer, bem entendido). E, então, para meu espanto, vi que uma das miúdas estava a trepar o muro. Não sei como conseguiu mas, passado um instante, estava ela já lá em cima, agarrada para não cair, e, a muito custo, a alçar a perna e a passar para o lado de lá. A outra, quando viu que eu estava a ver, pôs-se de costas para mim, como se não quisesse que eu lhe visse a cara.
O meu marido disse: 'deixa, com certeza que não vão assaltar a casa'. Também acho que não. No entanto a verdade é que, de vez em quando, nos deparamos com cenas que parece não fazerem grande sentido.
5. Agora que tenho um forno novo, resolvi também ultrapassar um muro, não de alvenaria mas psicológico. Resolvi fazer um bolo.
O forno tem posições específicas para tudo e mais alguma coisa, incluindo para bolos, e parecia-me um desperdício não experimentar. Além disso, de vez em quando apetece-nos alguma coisa doce e nunca temos cá guloseimas. Mas, como se sabe, detesto fazer doces. Para ficarem bem, acho que tem que se seguir a receita e, vá lá sabe porquê, seguir uma receita é provação que não consigo superar. Mal dou por mim já estou a fazer variações, a pôr coisas a olho, a juntar isto ou aquilo. É simplesmente mais forte que eu. Depois há outra coisa: os doces de que gosto geralmente não são consensuais, e eu estar a fazer uma coisa a contragosto para depois ainda torcerem o nariz, olha, adeus minhas encomendas, não faço.
Mas, com esta coisa de testar a função boleira do forno, lá foi. Peguei numa receita mas, sem querer, juro que é sem querer, distraí-me, e o que estava a ser feito já pouco tinha a ver com o que era suposto. Juntei bananas esmagadas, leite de coco, iogurte grego, um pouco de farinha, uma coisa de nada de mel, canela, ovos, raspa de lima, sumo de lima, um pouco de azeite, e, ao enformar, coloquei no fundo rodelas de banana e nozes.
Por acaso ficou bonito e até gosto e o meu marido, por acaso, também gostou. Como é pouco doce mas bem apaladado, custa a parar de comer. Contudo, uma vez que não quero perder completamente a linha, disciplino-me mas, agora só de estar a pensar nele, já me está a apetecer ir ali comer uma fatia. Mas não vou. Uma fatia de cinquenta gramas traduzir-se-ia em quilo e meio a mais na balança. Dá-se este fenómeno comigo.
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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira







