segunda-feira, outubro 19, 2026

Breves, avulsas... e pouco doces

 

1. Estávamos a passear, abrandámos o passo no passeio em frente a uma moradia pois o nosso cão estava por ali a cheirar. Sem querer presenciámos o que se segue.

Parou um carro e dele saiu um homem muito jovem, direi que talvez ainda na casa dos trintas e tais, magro, elegante. Vinha a conduzir, e, do lado do pendura, saiu um rapaz quase igual a ele, igualmente alto, magro e elegante, mas, pela voz, percebia-se que mal teria mudado de voz, talvez uns quinze ou dezasseis anos. O que percebemos ser o pai dizia-lhe: 'se calhar, ali, ao meio dia, não é ele que dá a missa'. O rapaz, numa voz que parecia desiludida, disse: 'Tinham-me dito que ao domingo era ele que dava a missa. Afinal...'. O pai tentava consolá-lo: 'Se calhar hoje não conseguiu, mas informa-te, pode dar a outra hora'. E, depois de nos cumprimentarem, entraram em casa.

Fiquei muito admirada. A ideia de que ainda há pessoas que vão à missa tinha desaparecido da minha cabeça.

2. No passeio do fim da tarde, voltámos a passar pela moradia que tem o jardim mais amorosamente tratado aqui do burgo. O senhor é de alguma idade e no tempo quente usa uns calções que deixam ver as pernas magrinhas. Está sempre a tratar do jardim. Há arranjos de vasos, com flores a condizer e ordenadas por tipo e tamanho, há canteiros com florzinhas pequenas a bordejar, as árvores e arbustos estão milimetricamente harmonizados, há cestas de cerâmica estudamente tombadas com seixos e suculentas. E está tudo sempre muito varrido, não há uma erva ou uma folha a perturbar aquela perfeição. Anda tantas vezes baixo, debruçado, a aparar tudo, a limpar tudo, que não sei como não lhe doem as costas. Cumprimentámo-nos. Quando já íamos mais à frente, eu disse ao meu marido: 'devias pôr os olhos neste senhor'. Ele respondeu: 'que remédio tem; se não tem tudo assim, a mulher dá cabo dele. Já a viste?'. Não reparei, só a vi uma ou duas vezes de longe. O meu marido disse: 'Tem uma cara, mete meto, deve dar-lhe cabo do juízo. Ou, se calhar, ele está o dia todo no jardim para não ter que estar em casa, ao pé dela.'. Acredito que não seja nada disso, que seja, isso sim, o grande amor que o senhor tem pelo seu jardim. Para não assumir que há quem faça por devoção o que ele faz sem assumir que gosta, quase como se fosse um frete que tem que despachar à pressão, o meu marido inventa histórias. Acho eu.

3. Também passou por nós um conhecido actor. De vez em quando cruzamo-nos com ele, nós a pé, ele de bicicleta. Não é mais gordo nem mais magro nem mais alto nem mais baixo do que se vê na televisão, e isso, em si, é digno de registo. Habitualmente são metade do que parecem na televisão.

4. Passaram por nós duas miúdas quase iguais, jeans e blusinha preta, cabelos lisos compridos. Miúdas talvez duns catorze ou quinze ou dezasseis, não sei bem, nestas idades não dá bem para perceber. Estavam perfumadas, um perfume bom, deixaram um agradável rasto perfumado. Iam a conversar, entretidas, sorridentes. Mais à frente, quando ia atravessar a rua e olhei para ver se não vinha nenhum carro, vi uma coisa que me intrigou. Por aqui, geralmente, as casas nem têm vedações altas; como tenho referido, é frequente ver-se tudo para dentro das casas. Mas uma casa ali, em particular, depois de ter estado em obras há algum tempo,  foi transformada quase num bunker, não se vê nada, muro alto, com vedação alta, tudo fechado. Não faço ideia de quem lá vive. Antes das obras a casa era gigante, pelo que ainda deve ser. Mas não faço ideia de nada relacionado com aquela casa (nem tenho que fazer, bem entendido). E, então, para meu espanto, vi que uma das miúdas estava a trepar o muro. Não sei como conseguiu mas, passado um instante, estava ela já lá em cima, agarrada para não cair, e, a muito custo, a alçar a perna e a passar para o lado de lá. A outra, quando viu que eu estava a ver, pôs-se de costas para mim, como se não quisesse que eu lhe visse a cara.

O meu marido disse: 'deixa, com certeza que não vão assaltar a casa'. Também acho que não. No entanto a verdade é que, de vez em quando, nos deparamos com cenas que parece não fazerem grande sentido.

5. Agora que tenho um forno novo, resolvi também ultrapassar um muro, não de alvenaria mas psicológico. Resolvi fazer um bolo. 

O forno tem posições específicas para tudo e mais alguma coisa, incluindo para bolos, e parecia-me um desperdício não experimentar. Além disso, de vez em quando apetece-nos alguma coisa doce e nunca temos cá guloseimas. Mas, como se sabe, detesto fazer doces. Para ficarem bem, acho que tem que se seguir a receita e, vá lá sabe porquê, seguir uma receita é provação que não consigo superar. Mal dou por mim já estou a fazer variações, a pôr coisas a olho, a juntar isto ou aquilo. É simplesmente mais forte que eu. Depois há outra coisa: os doces de que gosto geralmente não são consensuais, e eu estar a fazer uma coisa a contragosto para depois ainda torcerem o nariz, olha, adeus minhas encomendas, não faço.

Mas, com esta coisa de testar a função boleira do forno, lá foi. Peguei numa receita mas, sem querer, juro que é sem querer, distraí-me, e o que estava a ser feito já pouco tinha a ver com o que era suposto. Juntei bananas esmagadas, leite de coco, iogurte grego, um pouco de farinha, uma coisa de nada de mel, canela, ovos, raspa de lima, sumo de lima, um pouco de azeite, e, ao enformar, coloquei no fundo rodelas de banana e nozes. 

Por acaso ficou bonito e até gosto e o meu marido, por acaso, também gostou. Como é pouco doce mas bem apaladado, custa a parar de comer. Contudo, uma vez que não quero perder completamente a linha, disciplino-me mas, agora só de estar a pensar nele, já me está a apetecer ir ali comer uma fatia. Mas não vou. Uma fatia de cinquenta gramas traduzir-se-ia em quilo e meio a mais na balança. Dá-se este fenómeno comigo.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

domingo, outubro 18, 2026

Muita parra e pouca uva

 

É o caso. Vejo as manifestações em que supostamente se protesta contra a carestia das casas à venda e contra a dificuldade em arrendar casa -- e apesar de concordar que a vida está para além de cara e que as casas estão a ser vendidas a preços exorbitantes (pelo menos nos maiores centros urbanos) e parte significativa das casas antes colocadas em arrendamento habitacional se terem virado para alojamento local, reduzindo, portanto, as outras -- e o que vejo ali é um total desfocamento em relação às causas dos problemas.

Ou seja, o que vejo é muita parra e pouca uva. Se espremermos tudo o que ali se diz e faz, o que sobra é uma mão cheia de nada. Poderia surgir um caderno reivindicativo com cabeça, tronco e membros, com pernas para andar. Mas não, nada.

Aprendi, nos meus estudos, que primeiro há que perceber qual o problema, formulá-lo correctamente, e, só depois, se pode encontrar a solução. Por exemplo, se uma pessoa estiver sem conseguir andar, sem se conseguir pôr de pé, sem conseguir mexer as pernas, é absurdo andar aos gritos a reivindicar que lhe cortem o cabelo. Pode até acontecer que esteja com o cabelo comprido e que gostasse de andar de cabelo curto, mas, na verdade, isso não vai resolver o problema de não conseguir andar. Diria eu que primeiro haveria que examiná-la para perceber a origem do problema: uma hérnia? osteoartrite? outra coisa? Só depois de feito o diagnóstico, seria possível encontrar uma solução: cirurgia? fisioterapia? outra coisa? E, sabendo-se a raiz do problema e qual a solução para ele, se reivindicaria então meios para que a solução fosse possível.

Ora o que eu vejo e ouço nas manifestações e nos partidos que as apoiam é gritaria, cantoria, mas, de concreto, nada que se aproveite. Falar na lei do arrendamento, querer que se reduzam as garantias aos senhorios é apenas muito estúpido. Veja-se o que está a acontecer em Espanha na sequência das manifestações e na perspectiva de mexida na legislação: uma parte importante dos proprietários está a retirar casas do arrendamento, com receio do que possa acontecer. Numa altura em que é preciso que o máximo de casas sejam postas a arrendar, a instabilidade e a perspectiva de que sejam dificultados os meios em caso de incumprimento, fazem com que os donos da casa receiem sujeitarem-se a problemas. Preferem vender as casas ou esperar que tudo acalme. Do que li, numa análise feita junto de cerca de 600 agências imobiliárias em Espanha, nas últimas semanas, as percentagens de retração no mercado de arrendamento são significativas, variáveis entre cerca de 20% até 50%. Portanto, só por estupidez ou burrice encartada se pensa que a solução para o problema da habitação passa por reduzir as garantias de estabilidade e de segurança junto  dos senhorios. Na verdade, produz o efeito contrário.

Por cá, na manifestação, creio que era em Lisboa, ouvi uma senhora a dizer que não tem trabalho nem família, e que a senhoria quer que ela saia. E dizia isto como se fosse suposto que a senhoria a albergasse sem receber dinheiro, isto com a senhoria a ter que continuar a pagar IMI, seguro, manutenção da casa, se calhar condomínio. E eu pensei: mas o que pode fazer um senhorio numa situação destas senão pedir ao inquilino que saia? Um senhorio é um cidadão com tantos deveres quanto todos os outros, não lhe compete substituir-se à acção social e ficar a perder dinheiro para resolver casos sociais. Um caso destes é um caso social e, como tal, deve ser tratado. E a casa deve ficar disponível para quem anda à procura de casa e consegue pagar a renda. A menos que a segurança social pague a renda.

Uma outra, na manifestação, dizia que se tinha separado e tinha um pequeno negócio e não consegue arranjar casa. Claro. Posso estar a subestimar o negócio, mas, do que vi e ouvi, admito que provavelmente tem um daqueles 'negócios' de venda de 'cenas', se calhar via facebook, tudo à margem de qualquer registo. Que banco empresta dinheiro a alguém sem rendimentos declarados? Ou que senhorio mete lá em casa alguém que não tem como provar que pode pagar a renda? 

Cada caso é um caso mas os casos devem ser tipificados e deve ser possível, para cada caso, dizer qual o enquadramento: se o problema é do tipo A, a pessoa deve dirigir-se ao sítio X, onde tratarão de lhe arranjar alojamento até que consiga arranjar rendimentos para poder viver sem apoios. Se o problema é do tipo B, deve legalizar o negócio, organizar-se, provar os rendimentos e fazer-se à vida.

Quanto à juventude que vi a saltar, a cantar, a dançar, a tocar tambor, e que não consegue comprar casa ou arrendar apartamentos no centro da cidade (e até vi uma miúda de 15 anos e outro de 18, acampados, na maior alegria, a garantir que iam passar ali a noite), o que tenho a dizer é que devem procurar casa nos subúrbios ou dividir casa com amigos -- até que o Governo volte a ter programas de habitação jovem. Quando eu era jovem havia ali nas Forças Armadas, à esquerda de quem subia, uns prédios enormes da EPUL, rendas baratas, a que os jovens poderiam concorrer. Sei que a EPUL já não existe e se calhar está na altura de avançar urgentemente com uma coisa similar: construção em força de apartamentos para jovens. E creio que a EPUL era só para Lisboa. Mas devia haver disto em todos os centros urbanos em que há carência de habitação.

E, volto a dizer o que disse há dois dias: quem está ali manifestar-se não são os mais carenciados, os muito pobres. Mas não podemos esquecer-nos deles, dos que não têm voz. Para esses é urgente, urgente, avançar com casas com fartura, milhares. Habitação social em força.

Quando sabemos que existem centenas de edifícios devolutos do Estado (da Administração Central, dos Municípios, da Segurança Social, das Forças Armadas), de que estão todos à espera para avançar com reabilitação disso para disponibilizar casas e casas e casas a quem precisa, a preços baixos?

E de que é que os partidos estão à espera para reivindicar isso?

E de que é que os babacas do Governo, uns verdadeiros envaginados, igualmente muita parra e pouca uva, estão à espera para vir sossegar as pessoas e anunciar um plano realista, ambicioso, urgente, de disponibilização de milhares de casas de diferentes tipos: habitação social para os muito carenciados e habitação acessível para jovens ou mediamente carenciados (ie, não em situação de grande pobreza)?

Faltam recursos? Certo. Faltam sempre. Mas, quando são precisos, também aparecem sempre. Sejam criativos, façam parcerias com quem tem dinheiro, sejam investidores privados sejam instituições de solidariedade social (já agora: alô, alô Igreja Católica! Onde andam vocês quando são precisos?), mobilizem-se recursos europeus, mexam-se, puxem pela cabeça, dêem corda aos sapatos.

Não há pachorra para tanto imobilismo por parte dos que podem e devem fazer alguma coisa e tanta estupidez por parte dos que fazem barulho mas não são capazes de parir uma única ideia inteligente.

Acampar, tocar tambor, dançar e cantar, apelar à violência, incendiar caixotes do lixo ou fazer discursos incendiários, isso, na prática não faz mover o assunto nem um milímetro na direcção da resolução do complexo problema da falta de habitação em Portugal. E o governo ficar de cabeça enfiada na areia muito menos.

sábado, outubro 17, 2026

Uma casa de gente doida

 

Enquanto escrevo estou a ver na Sic Notícias um documentário sobre Melania. Uma história que, a dada altura, a partir do momento em que conhece Trump, se torna numa história de interesses. 

Ao que consta, na prática, fazem vidas separadas e, também ao que consta, ela não o suporta. E ele tem medo dela. 

Mas o casamento, de fachada ou não, entre Trump e Melania, é apenas um pormenor na vida de doidos desta dupla. Nem sei se faz sentido falar em dupla. Há quem diga que, na prática, ela é empregada dele, paga para aparecer quando é conveniente. Mas há também quem diga que ela sabe muito, sabe demais, e que, além disso, aprendeu a monetizar-se, a ganhar dinheiro à custa do seu papel como mulher de Trump. E, estando a conseguir ganhar milhões, começa a sentir-se independente, com uma agenda cada vez mais imprevista, o que deixa os engraxadores que rodeiam Trump cada vez mais inquetos, em especial de cada vez que sabem que ela se prepara para mais uma das suas iniciativas, iniciativas essas sempre vazias de conteúdo, embora algumas inquietantes.

Tudo disparatado. Tudo o que rodeia Trump é absurdo. Toda aquela gente que aparece atrás dele na Sala Oval, enquanto ele dorme, faz-me lembrar aquela corte de figuras obscenas, grotescas, dos circos de Fellini. Dir-se-ia que nada daquilo é real. Não se percebe o que estão ali a fazer, parecem escolhidos a dedo, uns figurantes mal encarados.

E isso é apenas o apontamento pitoresco da coisa. De resto, tudo é muito pior. Todos os disparates que Trump diz e faz, a confusão em que lançou o mundo, a brutalidade das suas decisões, a crueldade que tem demonstrado, a ganância, a falta de vergonha, tudo isso ficará para a história como um dos períodos negros da história, não apenas dos Estados Unidos mas do mundo. 

Há muito que se fala em demência. Em cima de um narcisismo maligno, uma demência que já não se consegue disfarçar. E, no entanto, ele aí anda. Sem vergar. Todos os dias estraga um bocado mais a vida de toda a gente, coloca em risco a vida de mais gente. No meio de vídeos tresloucados que publica na sua rede social a meio da noite, no meio de bocas parvas e alarves nos comícios ou nas conferências de imprensa, no meio de decisões esparvoadas, absurdas, controversas e perigosas, ele aí anda. Alimenta-se à base de hamburgueres e engole aspirinas à mão cheia, e aí anda.

As suas decisões contra a Ucrânia e a favor da Rússia, ou nem se sabe o quê no Irão, e de Israel já nem se fala, tudo uma história de terror em que nada faz sentido, desta vez foram intercaladas com a improvisada escolha da nova porta-voz, mais uma loura conhecida por aparecer de vez em quando na Fox, e que, sem saber o que estava a fazer, apareceu à frente das câmaras e dos jornalistas. Nervosa, titubeante, parecendo mal saber ler e, muito menos, o que se passa à sua volta,  e fazendo-se passar por advogada sem o ser, nunca esperaria ser despedida ao fim de 5 dias. Mas foi o que aconteceu. O que em qualquer parte do mundo seria uma bronca, ali é apenas mais uma parvoíce, mais uma de um infinito rol de parvoíces.

Vale a pena ouvir Michael Wolff e Joanna Coles. O que eles se divertem com a cambada de doidos que para ali andam a fazer disparates na Casa Branca, disparates atrás de disparates. Como sempre aqui tenho dito, se conseguirmos abstrair-nos de todo o mal que aquele estupor causa a meio mundo, há que reconhecer a comicidade de toda a sua vida. Um palhaço. A Casa Branca, em tempos uma casa respeitável, está agora transformada numa casa de doidos.

Trump surpreende com o despedimento bombástico da secretária de imprensa Katie Zacharia

Donald Trump demitiu dramaticamente a sua nova secretária de imprensa, Katie Zacharia, após apenas cinco dias no cargo, na sexta-feira — e afirmou ter-lhe dito para "reconsiderar" a sua função. Michael Wolff conversa com Joanna Coles sobre o sucedido. 


Desejo-vos um bom sábado

sexta-feira, outubro 16, 2026

Sobre o rapazinho malcheiroso que veio entregar coisas a minha casa

 

Estava ainda na cama e já o telefone tocava, que não tardaria estariam a chegar. De imediato liguei ao meu marido a avisar que estavam quase a chegar as coisas (para a remodelação da casa de banho). Há sempre este lado logístico, de garantir que o cão fica isolado. Fui fechar um dos portões e passado um pouco já ele tinha chegado a casa, já andava a pôr a fera do lado de lá. E imediatamente chegou a camioneta e logo começaram a descarregar. O rapaz que carregou o material mais pesado e que trouxe o móvel mais alto e o móvel com o lavatório para dentro de casa era quase um miúdo, novinho, magrito. Negro, de gorro, com um casaco desportivo. A força dele impressionou-me. O colega estava na camioneta a passar-lhe as peças que ele carregava. Mas o motivo que aqui me faz falar dele é outro: o cheiro. Horrível. Um suor antigo, impregnado, um misto de cebola e de putrefacção. Quando saiu tivemos que ter portas e janelas a arejar, e custou a sair. 

Pensei que alguém deveria avisar o apaz de que não pode andar assim em casa das pessoas. Mas depois ocorreu-me que provavelmente vive num daqueles dormitórios em que se acumulam, com uma casa de banho para muitos, se calhar com banhos condicionados e, até, sem banhos.

Um rapaz destes não ganha mais que o salário mínimo. E, com o salário mínimo, na melhor das hipóteses partilha-se um quarto ou vive-se num bairro clandestino.

Por vezes quando caminhamos, passamos por uma rua em que passa um autocarro. Ao fim da tarde juntam-se, na paragem, alguns jovens que vêm de fora daquela zona residencial, de um sítio em que há alguma construção nova. Todos os rapazes são negros. E cheiram sempre muito bem, a banho acabado de tomar, a desodorizante acabado de pôr, a perfume. Aquelas obras pertencem a uma zona de construção de qualidade, em que há certamente balneários para os trabalhadores.

Mas, no sector das cargas e distribuição, não deve haver balneários. Aquele rapazito não deve tomar banho há algum tempo nem deve conseguir lavar a roupa em condições. 

Ao ver os manifestantes no Porto, constato que é outro patamar: são jovens estudantes, talvez bolseiros, nitidamente classe média ou mesmo abastada. Não conseguem arrendar ou comprar uma casa no Porto. Compreendo as suas razões. Os centros das cidades não deveriam ter sido reconvertidos em Alojamento Local. Uma rapariga que trabalhava comigo, em Lisboa, e que era do Porto, tinha a casa, no sentro do Porto, em AL e dizia-me que ganhava tanto ou mais com aquilo do que com o seu ordenado na empresa, e na empesa ganhava bem. Compreende-se que os donos das casas as ponham em alojamento local, se é um rendimento interessante,

Mas, como em tudo, há sempre o outro lado da questão. 

Antes de me casar, eu e o meu marido andámos à procura de casa. Obviamente não tínhamos dinheiro que chegasse para uma casa no centro da cidade, e aceitámos isso com naturalidade. Ainda me lembro de andarmos a ver casas em subúrbios onde nunca antes tínhamos posto os pés, lugares que nos pareciam lúgubres, e aceitávamos isso sem drama, para nós era óbvio que com os nossos parcos rendimentos e sem património, não poderíamos almejar ao mesmo que quem já estava mais instalado na vida, mais folgado de dinheiro. Nem nos ocorria pedir ajuda aos nossos pais. Era uma decisão nossa, casar e arranjar casa, pelo que nos parecia natural resolvermos tudo pelos nosso próprios meios. Como nem mesmo assim conseguíamos, resolvemos que ficaríamos a viver no quarto em que eu vivia, um quarto de estudante, numa casa habitada por uma senhora de alguma idade que ficou toda contente com essa perspectiva. E tomámos essa decisão sem qualquer fatalismo, auto-piedade, ou revolta. Pelo contrário, com muita naturalidade. Aconteceu, porém, que dias antes de casarmos, soubémos de um apartamento T1, numa cidade em que nem eu nem ele alguma vez tínhamos posto os pés e que sempre tínhamos associado a uma cidade-dormitório. A renda era baixa, conseguíamos pagar. Ficámos felizes da vida. Foi a nossa primeira casa.

Agora, parece que todos os jovens em início de carreira se acham com direito a arranjar casa no centro das cidades. Parece que não há aquela noção que eu e o meu marido tínhamos de que começávamos por baixo, com o que nos era possível, e que logo iríamos progredindo.

Mas ocorreu-me uma outra coisa. Quem está a protestar, seja no Porto, seja em Madrid, seja onde for que se protesta, são jovens que nada têm a ver com os que, de certeza, de certeza muito absoluta, têm verdadeiras carências a nível habitacional e que, porque têm que trabalhar de sol a sol, nem conseguem manifestar-se.

O rapazito magro que hoje deixou a minha casa a feder de certeza que não acampa no centro de uma cidade nem se manifesta. São os pobres, muito pobres, que não têm voz e que mais precisam de uma casa digna.

Toda esta conversa, todas estas manifestações, todos estes debates, todas estas medidas não resolvem o verdadeiro, o gravíssimo problema da habitação. E o problema é tão simples quanto isto: não há casas que cheguem. Em especial não há casas para os mais pobres, em particular para os imigrantes. Claro que também não há casas para os jovens estudantes ou em início de carreira, e isso também tem que ser resolvido. Nada disto se resolve a não ser com mais casas. Muitas casas.

E tem que haver habitação social, pública, rápida, económica, se calhar de uma gama mais baixa, e não é por discriminação mas sim pelo valor do investimento, porque são muitas casas e porque essas têm que aparecer rapidamente, tem que se construção económica, provavelmente em terrenos cedidos pelos municípios (como o Isaltino passa a vida a falar). E depois têm que aparecer outros bairros, também muitos prédios, esses do género dos de Espanha, com jardins, com parques infantis, construção também rápida mas a cargo de PPP, parcerias público-privadas, terrenos públicos, construção privada. 

Enquanto o Governo e os municípios não perceberem que é nisto que têm que se concentrar, o problema vai persistir, vai engrossar, vai extremar-se

A esquerda, mais uma vez anda a reboque da burrice, a fazer dos senhorios os bodes expiatórios, quando nada disto tem a ver com senhorios. Se os senhorios põem as casas a arrendar por 2.500 ou 3.000 euros e aparecem inquilinos, tudo bem, é porque há mercado para isso. E se os inquilinos não pagam, pois que seja fácil pô-los a andar e que seja dada a vez a quem paga. Mas isto é fait divers. Nada disto tem a ver com a crise da habitação, com a tremenda escassez de casas, são centenas de milhares de casas que estão em falta, só na Grande Lisboa cerca de 300.000. 

E que não se centre a discussão nos filhos-família que não conseguem comprar ou arrendar um apartamento no centro da cidade, olhe-se também para os esquecidos, para aqueles que não se manifestam, para as milhares de pessoas que constroem as nossas casas, que distribuem as nossas encomendas, que limpam as ruas, os hospitais, as que tratam de doentes e idosos -- toda essa gente indispensável ao funcionamento do país e que, coitados, mil vezes coitados, não conseguem ter as mínimas condições de vida digna.

O problema da habitação é um problema gravíssimo. E ainda não vi uma única proposta de solução.

De vez em quando ouço o Moedas ou o Pedro Duarte ou um qualquer outro munícipe apresentar como um feito que foram atribuídas mais uma meia dúzia de casas. Só me apetece lá esta e ter uma vuvuzela para fazer barulho e protestar: não é de meia dúzia de casas que deveriam estar a falar, caraças, isso é apenas ridículo, a escala tem que ser outra --  eram milhares de casas, fiadas e fiadas de prédios, que deveriam estar a ser construídas e atribuídas. 

Li que o António Costa está a querer trazer o tema da habitação para o centro da preocupação europeia e acho muito bem. Que imprimam dinheiro, que lancem obrigações, que inventem fundos, qualquer coisa, mas que se mobilizem os primeiros ministros para anunciarem para o curto prazo projectos a sério de construção de habitação a custos acessíveis e com licenciamentos ágeis e processos construtivos rápidos.

Mais do que a porcaria do IRS jovem que não serve para nada a não ser para dar uma valente talhada nas contas públicas ou do que a isenção do IMT para os jovens que só tem servido para aumentar a especulação, o que fará com que os jovens se fixem e formem família e procriem (sejam eles jovens estudantes ou jovens em início de carreira, sejam jovens imigrantes brutalmente carenciados) é que tenham casa, que sintam que podem ter uma vida digna. Mas, a nível dos muito pobres, não são só os jovens que têm falta de casa. No outro dia, numa reportagem, uma senhora, também imigrante, dizia que trabalhava num supermercado. Mulher de meia idade. A viver numa casa clandestina, num bairro clandestino. Nem morada conseguem ter. Isto é de uma indignidade brutal. E não vejo ninguém a lutar por estas pessoas. Onde andam as esquerdas que parece que se esquecem dos mais pobres? E onde anda a beatagem? Em vez de andarem a bater perna a caminho de Fátima ou lá de velinha a cantarem, não poderiam mobilizar-se em favor destas pessoas, nem que fosse apenas para pedir soluções para que possam ter uma vidgna digna?

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Desejo-vos uma sexta-feira feliz

quinta-feira, outubro 15, 2026

Dormir ou não dormir, eis a questão

 

Já contei, desculpem por me repetir: quando andava na escola infantil, todos os dias, depois de almoço, a sala era posta às escuras, os colchões eram estendidos, se estava frio os cobertores eram distribuídos, e todo o mundo ia dormir a sesta. Todos menos eu. Não consegui dormir uma única vez.

À noite, desde sempre, queria ir tarde para a cama. Quando comecei a tomar o gosto da leitura mais a sério, lia até de madrugada. Estou a falar talvez a partir dos treze anos. A mobília do meu quarto tinha sido desenhada, imagino que pelo meu pai, talvez a partir de alguma fotografia que tenha visto em alguma revista estrangeira, não sei. Era uma mobília incrivelmente moderna para aqueles tempos, podia muito bem ser uma mobília actual. A cama ficava entre os móveis, que eram lineares, baixos -- ficava aconchegada, digamos assim. O que poderia servir de mesa de cabeceira era a bancada-toucador adjacente, onde estava um candeeiro articulado, também bem moderno para aqueles tempos. Isso permitia-me estar a ler com o candeeiro a apontar exclusivamente para a cama. Por vezes, se eu ouvia algum dos meus pais levantar-se durante a noite, apagava a luz à pressa. Outras vezes parecia-me que estavam só a mexer-se, não a levantar-se. Mas era a minha mãe que me enganava, para me apanhar. Ia pé ante pé até ao meu quarto e passava-me altas desandas por ser aquela hora e eu ainda a ler. Imagino que isso acontecia quando tinha aulas à tarde pois, se tivesse que me levantar às sete e tal, duvido que conseguisse estar até às três a ler. Mas ainda me lembro dessas noitadas dedicadas a uma literatura que absorvia como uma esponja, deslumbada, certamente sem capacidade para assimilar tudo o que devorava.

Mas estes meus hábitos noctívagos acompanharam-me toda a vida. Ou ficava a fazer tricot ou crochet ou a bordar ou a fazer tapetes de arraiolos ou a pintar ou, depois, agora, por exemplo hoje, a escrever no blog. O que calhasse. Não sei como me aguentava tendo que me levantar tão cedo e tendo dias tão exigentes. Tentava dormir pelo menos seis horas mas muitas vezes ficava-me pelas cinco. Muito mau.

Quando tinha reuniões fora de Lisboa e tinha que sair de casa às seis ou antes disso, com receio de não acordar, por vezes quase não dormia e aí sofria horrores para me manter acordada na viagem. E sentia-me toldada todo o dia. Dias complicados. Chegava a casa, à noite, espapaçada.

O que me valia é que, tirando esses dias fora, nos dias normais, mal caía na cama adormecia profundamente e era até de manhã. E, ao fim de semana, desforrava-me e parece que me recarregava.

Hoje reconheço o péssimo que esses meus hábitos noctívagos eram. Hoje, que posso acordar à vontade, reconheço quão melhor fico quando durmo bem. Mesmo se, ao deitar-me, acontece sentir alguma dorzeca algures, se durmo bem, na manhã seguinte estou (geralmente) boa. Em contrapartida, se tenho uma noite de insónia, o que agora desgraçadamente me acontece de quando em vez, fico incomodada todo o santo dia.

Mas tenho que abrir uma ressalva: não é verdade que possa sempre acordar à vontade. Por exemplo, nas casas em frente ou ao lado contratam jardineiros. Ao passo que nós temos aparelhos elétricos que não fazem barulho, esses jardineiros usam corta relvas, aspiradores e corta-sebes a gasolina que fazem um barulho ensurdecedor, horrível, que me acordam. Como dormimos de janela aberta, o barulho entra todo. Outras vezes é o telefone que toca quando ainda estou a dormir. Ou, se pára algum carro à minha porta, o meu cão faz um cagarim tal que me acorda a mim e desestabiliza os cães de toda a vizinhança. Acontece também o meu marido aparecer a dizer: 'se queres ir ao ginásio e depois ainda vir fazer almoço, diria que é melhor levantares-te...'. Portanto, na realidade, são frequentes as manhãs em que sou acordada antes de tempo. Mas, enfim, nada que se pareça com as noitadas de antes.

Esse é um dos aspectos em que o meu desregramento não me deve ter feito nada bem. Outra coisa de que me arrependo é de, antes, não fazer exercício. Não tinha tempo. De facto, não tinha tempo. Mas, se tivesse pensado realmente na minha saúde, teria arranjado tempo. Não era capaz de estar indisponível. O meu tempo era todo tão preenchido que não via maneira de dizer, 'meus caros, santa paciência, mas não contem comigo entre as tantas e as tantas porque vou para o ginásio'. Claro que poderia ir à hora de almoço, mas sempre gostei de ter tempo para almoçar e fazer compras, porque, obviamente tinha que fazer compras. E, ao fim do dia, saía sempre tão tarde que já só me apetecia era ir para casa.

Em síntese, não fazer exercício e dormir pouco foi um disparate de todo o tamanho. Junta-se a isso os tempos em que fumava. Outro disparate. Não sei como não travei antes. Pensava sempre que um dia deixaria de fumar, mas esse dia levou uns bons anos a chegar. Disso arrependo-me bastante. Talvez seja das poucas coisas de que me arrependo sem reservas, daquelas coisas que, se fosse hoje, jamais teria acontecido. Mas não se pode voltar atrás no tempo. Por isso, o que há a corrigir não é amanhã, é hoje, é já.

Quanto ao sono, partilho um vídeo bem elucidativo, não com base em dicas ou bocas mas com base em ciência.

Preciso de Dormir. 7 Estratégias para uma Rotina de Sono

'Manual de Instruções para Humanos' -- Observador

Vamos para a cama tarde e pomos quase tudo à frente do tempo de sono. Ou temos filhos pequenos e nunca mais dormimos igual. O que explica isto? E porque é que uma sesta ou um comprimido não ajudam?

Mental é uma parceria do Observador com o Hospital da Luz. Tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos.


Desejo-vos bons sonos. E bons sonhos.

E dias felizes

quarta-feira, outubro 14, 2026

Nem breve nem irrelevante -- um aviso para levar muito a sério

 

Sobre aquela coisa de que a IA pode dar cabo da humanidade e tal e coisa e haver muita gente que acha que isto pode ser tudo um alarmismo sem razão de ser e etc e tal, sempre tenho dito, e digo-o há anos e anos, que não se deve brincar com coisas sérias. Ferramentas poderosas nas mãos sabe-se lá de quem, é coisa com elevada probabilidade de vir a dar para o torto.

O mundo já anda perigoso mesmo sem inteligências ao ataque, fará quando as ditas, encarnando 'agentes', resolverem fazer das suas.

Quem por aqui me acompanha saberá que digo muitas vezes que não quero dar exemplos do que pode acontecer pois não quero que alguém um dia possa dizer que estou para aqui a dar ideias. É absurdo, bem sei, porque ideias é o que não falta a quem quer fazer mal e a última coisa que lhes há de ocorrer é prestarem atenção ao que aqui digo. Mas, ainda assim, prefiro conter-me.

Aconteceu, umas quantas vezes, no grupo onde trabalhei, recebermos a visita de pessoas dos Serviços de Inteligência para nos alertarem para alguns riscos. Inspirei-me na 'agente secreta', simpaticíssima e elegantérima, que dava voz às recomendações, em algumas novelas que escrevi. E não foi apenas nela: foi também em casos reais de que ela falou, sem revelar nomes, nem de empresas nem de intervenientes.

Aliás, alguns dos casos que foram usados para exemplificar os riscos e o modo de actuação de agentes (na altura, humanos) quer para espiar quer para sabotar, eram, sem tirrar nem pôr, casos que tinham acontecido com alguns artistas lá do Grupo. Ela, diplomaticamente, falou como se fossem outras empresas, outras pessoas, mas eu, que já conhecia algumas peripécias, bem vi alguns, aflitos, a trocarem olhares estupefactos e, até, apavorados, entre eles.

E se os riscos já eram (e são) tremendos com agentes humanos, imagine-se com agentes artificiais, ultra inteligentes, ultra rápidos, invisíveis, ubíquos. 

Vou dar apenas um pequeno, ínfimo, ínfimo, exemplo. Uma vez estava numa conferência em que um dos intervenientes era um hacker reconvertido para o bem, isto é, que trabalhava para uma grande consultora como expert em segurança. Ao vivo, no palco, com um computador, depois de relatar que na véspera tinha estado a 'varrer' algumas das grandes empresas do país e que tinha descoberto inúmeras 'portas' abertas ou facílimas de abrir, resolveu demonstrar como é de caras 'entrar' numa empresa. E ali mesmo mostrou como se tinha apoderado do sistema de câmaras de vigilância e não apenas se via o que se passava lá dentro como ele as orientava, aumentava a sensibilidade para melhor captar imagens, etc. Escusado será dizer que todos os presentes ficaram altamente intranquilos.

Explicou, nessa altura, como explicam todos os especialistas em segurança, que muitas vezes nem são os sistema informáticos principais, a cargo de técnicos com conhecimentos em segurança, que são os mais vulneráveis, mas, sim, os sistemas que fogem muitas vezes ao controlo dos informáticos e que ficam sob gestão dos emgenheiros de processo ou de manutenção. Nas empresas (ou nas organizações em geral) as pessoas ainda pensam que os riscos só estão nos computadores, nem lhes ocorre que o risco está em tudo o que esteja ligado na rede. E, não nos esqueçamos, não há hoje equipamento, seja qual for, que não esteja ligado em rede, não apenas para ser monitorizado como para ser intervencionado remotamente, a nível de manutenção. Não há fábrica, empresa, autoestrada, hospital, ou cadeia de hipermercados, por exemplo, em que isso não aconteça. 

Um hacker (humano ou agente de IA), ao varrer a rede, detecta uma fragilidade de segurança (e muitas vezes muitas dessas 'coisas' nem têm segurança -- afinal são equipamentos, quem é que os quer piratear...?), entra, e, a partir daí faz o que quer.

Imagem gerada pelo Chat GPT
(tem algumas redundâncias mas, a esta hora, vou deixar estar)

Não é ficção. Quem está mais afastado destas realidades acredite. Não estou a exagerar ou a dramatizar. Poderia dar exemplos de situações gravíssimas que já aconteceram, gravíssimas mesmo. Claro que geralmente a empresa/instituição a quem isto acontece cala-se bem caladinha para evitar danos reputacionais, para evitar alarme social, para não dar ideias, etc, e, por isso, a opinião pública nem faz ideia do que se passou.

Desta vez, contudo, a coisa foi impossível de esconder. Hackers entraram nos hipermercados e puseram os frigoríficos a aquecer. Centenas. Espalhados por várias cidades. Creio que por vários países mas com predominância em França.

Ao saber disto, senti um arrepio. É de coisas assim que eu tenho medo. E tenho medo porque sei que isto é fácil de fazer. Sei. Sei que se alguém quiser fazer mal, muito mal, consegue fazer.

Este caso não demonstra apenas que é possível estragar muitas toneladas de alimentos em todo o lado, ao mesmo tempo, e, ainda por cima, provocar incêndios -- demonstra que sabem fazer, que conseguem fazer, que o farão se quiserem.

Volto a dizer: não quero que alguém diga que estou a dar ideias. Mas a quem tenha um mínimo de capacidade de abstração não será difícil perceber que isto vale para sistemas de refrigeração de supermercados mas também para hospitais ou fábricas (incluindo as que produzem produtos essenciais ou produtos perigosos -- e aqui o risco é de natureza distinta), para sistemas de controlo de águas e eletricidade e comunicações e autoestradas e pontes e comboios e aviões, para máquinas ATM, e por aí adiante. 

No grupo em que eu trabalhava os avisos foram levados muito a sério. Eu mesma promovi várias reuniões, a vários níveis, para alertar para os diferentes tipos de risco. E muitas medidas foram implementadas, muitas delas sob grande oposição dos que se sentiram coarctados na sua liberdade de implementar sistemas de toda a espécie, inovadores ou não inovadores, projectos de toda a espécie, tudo ligado na rede, muitos deles sem obedecerem a protocolos apertados de segurança. Mas eu trabalhava num grande grupo em que havia muito dinheiro para investir em segurança. Muitas empresas, ou organismos, não apenas não estão sensibilizados para a imensidão dos riscos como nem têm dinheiro para gastar nisso. 

Portanto, com tudo ligado a tudo (quandos equipamentos das nossas casas não estão ligados à nossa rede doméstica para podermos controlar remotamente? Pois...) e com tanta gente que gosta de fazer mal, seja através de guerras híbridas, seja por banditismo, seja por que motivo for, não sei bem se o mundo está preparado para o que se avizinha. E uma coisa é ter um hacker, ou uma equipa de hackers, gente de carne e osso, a trabalharem por si mesmos, ou a mando de alguma outra empresa (espionagem industrial) ou a mando de algum estado (espionagem, sabotagem ou terrorismo), e outra, muito diferente, milhões de vezes mais perigosa, é ter um batalhão de agentes de IA, super inteligentes, capazes de tudo em pouco tempo, a entrar onde quiserem, provocando os danos que quiserem, e, com a sofisticação crescente que têm demonstrado, sem deixarem rasto.

Nada disto pode ser levado com ligeireza. Não é tema que ocupe comentadores ou desperte interesse nos políticos, mas, caraças, read my lips, é um tema nevrálgico e premente. Não lhe dedicar atenção e esforço pode, um dia, vir a deixar o mundo à beira do abismo.

terça-feira, outubro 13, 2026

Breves e, certamente, indignas de registo

 

1. Estávamos aqui na sala, descansados, a ver um daqueles episódios da série de design de espaços quando ouvimos um barulho considerável aqui em casa. Olhámos um para o outro, tentando perceber se o outro tinha percebido o que era. Não identificámos o que poderia ter sido pelo que empreendemos uma busca. Varremos a casa de uma ponta a outra. Nada. Não conseguimos descobrir o que possa ter sido, não vimos nada caído. Alguma coisa foi, e foi coisa ruidosa.

Desistimos. Como o cão está tranquilo, admitimos que não será nada de extravagante. Amanhã (isto é, daqui por umas horas) logo haveremos de descobrir.

2. Continua a materializar-se tudo o que estava pendente há séculos. Hoje vieram instalar uma porta que tivemos dificuldade em encontrar quem a fizesse, uma porta à medida. Tempos e tempos de espera. Não há planeamento, não há prazos, não há nada. É na base de 'quando tivermos um bocadinho tratamos disso'. De manhã liguei para o dono da pequena empresa, preparada para protestar. Disse-me: vou hoje à tarde. E assim foi, desta vez cumpriu. Não veio ele mas mandou dois funcionários. Passado um bocado, ouvi: 'Olhe, faz favor!'. Fui ver. Estavam os dois especados: 'Quem é que encomendou esta porta?'. Não percebi bem o alcance da pergunta mas adiantei: 'Quem encomendou fomos nós mas foi o vosso patrão que cá veio ver e que tirou as medidas e fez o desenho.'. Aí eles arrepiaram caminho: 'É que a porta veio ao contrário, a abrir para o outro lado'. Foi a minha vez de ficar especada, sem perceber bem, sem conseguir avaliar se isso teria contraindicações. Chamei o meu marido que, segundos antes, me tinha chamado a mim para me comunicar que a máquina da roupa estava a deitar água por fora.

Foi ver e concluiu o mesmo que eu, que se estava assim e se, pelos vistos, não tinha contraindicações, pois o que se haveria de fazer...? Mas tinha, teria que se colocar um pouco mais para trás do que era suposto. Um deles disse, fica aqui com isto à vista mas é só pintar. E, claro, o 'só pintar' não é com eles, eles é só portas. 

Ocorreu-me que, se isto fosse em contexto profissional, a porta iria para trás por inconformidade. Assim, na penúria de oferta de qualidade, o que se há de fazer? O meu marido olhou para mim e encolheu os ombros. A falta de profissionalismo e rigor destas coisas é de uma pessoa se passar. Mas a falta de alternativas é total. Portanto, ficou e acabou-se, não se pensa mais nisso.

3. Entretanto, a máquina da roupa estava parada, isto é, sem funcionar, mas cheia de roupa e de água. Tinha feito uma máquina com a toalha gigante usada no domingo e mais umas toalhas e coisas claras que se aguentam com uma lavagem a preceito. Não despejava a água, não centrifugava, nada. Várias tentativas. Nada. Portanto, o meu marido pôs um tabuleiro fundo no chão, encostado à portinhola, e abriu a máquina. O tabuleiro ficou cheio de água mas o chão também. Tirámos a roupa a escorrer, mais do que ensopada, e pusemos tudo na corda. Depois, à mangueirada, enxaguámos. Depois, os dois, um a pegar numa ponta e outro na outra, torcemos cada peça. Ginástica a valer. Depois estendemos. À noite estava ainda tudo molhado a valer. Recolhemos para não ficar ainda pior com a humidade da noite. 

4. O cão agora, neste momento, está maluco, ladra, ladra. E os cães do lado também. Fui ver à janela e não vi nada. Presumo que seja o gato branco que por aí ande, outra vez, a provocar os cães. Aquele gato é estranhíssimo.

5. O Neves continua a fazer das dele. Agora correu com o Secretário-Geral do MAI que não está a ser de modas, acusa o Neves de informalidades, de o querer obrigar a cometer ilegalidades e acusa-o ainda de bullying contra ele próprio por não estar para aparar essas cenas. Se tivesse paciência para o Neves, ia ler umas coisas para descortinar ao certo o que se passa. Mas não tenho. Santa paciência. É tudo mais do mesmo. O Neves é assim que funciona. Tenho lido que os autistas são óptimos a descobrir padrões. Na volta sou do espectro pois acho que também detecto padrões à légua. Vejo o Neves e imediatamente o associo a outros do género que conheci, alguns dos quais de perto, um deles infelizmente perto de mais. Chamemos-lhe Sá Vidal, Engenheiro Sá Vidal. E digo infelizmente porque já não aguentava tanto esquema, tanta malabarice, tanta chico-espertice, tanto atropelo à ética, aos procedimentos, às regras da casa. E o pior é que era apreciado por meio mundo. Ia a todas. Volta e meia apareciam-me histórias, aparentemente desconexas, mas que o tinham como protagonista. Estou a lembrar-me de uma de quem um dia vieram dizer-me que tinha pedido uma reunião aos RH para dizer que achava que estava mal aproveitada, queria ser promovida, ganhar mais, que tinha potencial para ser directora, e que isto aquilo e o outro. Nos RH estavam parvos com aquilo. Tinha sido recepcionista e dali tinha transitado para a área de economato, como administrativa. Anunciou ainda que ia tirar o curso de gestão à noite, queria que lhe dessem o estatuto de trabalhadora estudante. No decurso da conversa descaiu-se que tinha ido almoçar com o Sá e que o Sá a tinha estado a incentivar. Os dos RH ainda mais pasmados ficaram. Ela tratava o Engenheiro Sá Vidal por Sá, na maior informalidade. E o Sá, numa de simpatia e charme com ela, a incentivá-la a apresentar-se como candidata a directora gestora. Fantástico. Numa outra vez, contaram-me que uma das recepcionistas, uma que mais parecia uma influencer, uma temporária que lá estava a substituir uma outra que tinha tido uma criança, tinha relatado que, estando com o frigorífico avariado, o Sá tinha ido a casa dela ver se conseguia arranjar ou perceber de que se tratava. Toda a gente estava de queixá caído. Não apenas ela morava no cu de judas como também o tratava por Sá. E ele tinha ido a casa dela arranjar o frigorífico? Parecia piada. Um director com montanhas de coisas para tratar, que nunca tinha tempo para 'papéis' (leia-se: ler relatórios, despachar expediente, etc), e andava a ir a casa da recepcionista para arranjar o frigorífico? Eu ficava passada com isto. Claro que toda a gente gostava dele, ultra disponível para tudo. Na prática não resolvia nada. Como o Neves a fazer excelente gestão a levar o atrelado cheio de produtos perigosos para um armazém normal em vez de os destruir como a juíza tinha ordenado, e, na prática, sem resolver coisa nenhuma e, na prática, pondo em risca a segurança de meio mundo (se houvesse um acidente na autoestrada ou um incêndio no armazém, alguém imagina o risco que aquilo seria?). Enfim. Uma anedota.

6. Outro que continua a fazer das dele é o Passos, Passos Coelho, em tempos aqui designado por Láparo. Mais parecendo um caniche a morder as canelas ao Montenegro, o Coelho de vez em quando sai da toca para chatear o sucessor espinhense. O tipo remediado de Massamá embirra à brava com o novo-rico da Spinumviva, é o que é. E não as poupa. Que é como o Costa, diz o Láparo, querendo com isso dizer, lá na dele, que o Montenegro não faz reformas, não faz nada que se veja, que, no fundo, não passa de um envaginado: em vez de se juntar à malta do povo profundo, taberneiros, ladrões de malas, pedófilos, invasoras de rádios e outros que tais, quiçá também com os betos da IL, o Montenegro por aí anda à deriva, de braço dado com uma cambada de ministrecos que não fazem ponta de coisa nenhuma. E vai mais longe, o Láparo: ameaça que se o Montenegro não provar que fez alguma coisa, salta mesmo a terreiro e vai ele tomar conta do saco de gatos que é o PSD. Imagino que a esta hora os gémeos separados à nascença, Montenegro e Hugo Soares, dois moços conhecidos pela sua visão estratégica, já estarão a preparar uma arruaça para pôr o Láparo mais o Relvas e mais o Morgado na linha. Gente fina é outra coisa.

Quem deve estar que nem um feijãozinho lhe cabe deve ser o Ventura, ao ver-se alçado a parceiro de confiança pelo seu mestre, actualmente em versão skinhead. 

Enfim. É o que é. Ou melhor, é o que temos. Ó Portugal, se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato!

7. Finalmente, para destoar, uma digna de registo. 

Susana Menezes diz 'Portugal' de Alexandre O'Neill


Desejo-vos um bom dia

segunda-feira, outubro 12, 2026

Tente amar as próprias perguntas
-- que é como quem diz, aceite
a liberdade de não ter todas as respostas

 

Não costuma acontecer-me desta forma. Se é normal identificar-me com algumas coisas de outra pessoa, já não é tão frequente eu estar a ouvir uma pessoa, durante uns dez minutos ou mais, e pensar que eu poderia dizer tudo o que essa pessoa esteve a dizer.

Nos cuidados que tenho com os meus filhos ou netos, no saber que não é preciso eu recomendar ou avisar, porque eles sabem, mas que é tão difícil ficar calada porque tenho sempre a impressão -- mais até que a impressão, o dever, e até mais que o dever: a obrigação -- de que devo alertar para os riscos ou aconselhar (seja a propósito do que for). Ou saber que não devo dizer a um amigo que não faça isto ou aquilo porque não vai resultar quando sei que não vai resultar. Mas também eu estou a aprender a não dizer nada porque afinal sei lá se vai ou não. Ou, mesmo que acredite que, mais do que certamente, não vai resultar, se calhar, enquanto a pessoa vive na ilusão, sente uma felicidade que não sentiria de outra maneira. Mesmo que seja fátua ou insensata ou efémera. Sabemos lá. 

Mas isto é uma aprendizagem. Penso por vezes em não dizer nada, mas também penso que quem me garante que, a posteriori, não lamentam que eu não tenha alertado, que talvez isso pudesse ter ajudado a não se meterem em situações chatas.

Dúvidas. É o que tenho cada vez mais. E aceito essas dúvidas. Tento aprender a viver com as dúvidas.

No trabalho eu alertava sempre para trajectórias que sabia, à partida, que iam correr mal. Isso trazia-me dissabores, mas eu não conseguia deixar de alertar. Por exemplo: 'Como...? Vem o Presidente da República inaugurar uma coisa que vai ser um fiasco? Como? Não pode ser, estão a envolver o homem numa coisa que é uma treta...' e ficavam furiosos comigo, a comunicação social toda convocada, equipas internas de filmagens, festa e beberete, notícias, entrevistas. E eu, doente com aquilo, 'esta coisa está longe de estar operacional, e, pior, nunca na vida vai ficar operacional, é um flop gigantesco'. E toda a gente incomodada comigo, a festa armada e eu a querer impedir a festa, a achar que só poderia ser uma farsa, não era possível que só eu estivesse a ver que ia ser um fiasco. E a festa fazia-se, convidados, comitivas e mais comitivas. Ao fim de alguns anos, tudo para o galheiro. Milhões para o buraco. Custos afundados, dizia-se. Claro, estava na cara, só não viu quem não queria ver. Mas durante muito tempo eu era a mulher do médico que via quando todos os outros estavam cegos. Mas hoje interrogo-me: eu era a única inteligente ou, pelo contrário, era a mais burra, a que não conseguia estar calada, a que arranjava inimigos, a que criava situações constrangedoras, a que não era capaz de se alinhar numa fantasia?

Se fosse hoje se calhar limitar-me-ia a dizer: 'não acredito que isso tenha pernas para andar mas, se é vossa decisão seguir em frente, quem sou eu para o questionar?'. E não diria mais nada. Mas faria como fiz naquela altura: 'como podem imaginar, por coerência, à inauguração, à festa, à recepção, isso eu não vou.'

Mas estou a derivar.

Dizia eu que, tal como a Jeanne do vídeo diz, as perguntas são muitas, as respostas são poucas. Mas está bem assim. A consciência da ignorância é uma coisa boa, tranquilizadora. Sabemos que pouco sabemos. Tenho vontade de aprender mas sei que jamais saberei a mais ínfima parte do que há para saber. E aceito-o, na boa. 

O vídeo é, como são sempre os vídeos desta série, muito envolventes, muito bem feitos, muito serenos. Espero que gostem.

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Só um aparte, antes de partilhar o vídeo: o domingo foi muito feliz, com a família toda reunida. Desta vez os astros alinharam-se e conseguiram estar todos disponíveis para almoçar e ficar para a tarde. Até o menino (o menino grande, diga-se, alto que só visto) que teve jogo no domingo, ficou despachado a horas de almoçar com a família. Claro que estava cansado, com sono, o que é natural pois madrugou. 

E estreei o forno e correu bem. No fim, levaram o que sobrou, até a sopa. E fico feliz com isso, como é natural. 

Os meus meninos queridos (meninos lato sensu, bem entendido), os crescidos e os crescidos (porque estão todos cada vez mais crescidos, um deles já verdadeiramente um homem, meu rico menino) quando estão juntos a conversa flui, flui, flui, sempre toda a gente a conversar em volta da mesa, é uma alegria sem tamanho, boa e linda que só vista.

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E agora é que é o vídeo, que dá para pôr com as legentas nativamente em português (ou seja, não são legendas automáticas, daquelas manhosas).

The Freedom of Not Having All the Answers

Passamos tanto tempo a tentar desvendar a vida. Procurando respostas, imaginando o que pode acontecer. Mas, quando pensamos que finalmente já percebemos tudo, a vida surpreende-nos com algo inesperado.

Esta necessidade constante de saber pode ser cansativa. Ficamos acordados a repassar possibilidades, procurando uma resposta que esperamos que nos traga finalmente paz de espírito. E, por vezes, estamos tão ocupados a tentar prever o que vem a seguir que perdemos o que está a acontecer agora.

Há um certo alívio em dizer: "Não sei". Podemos parar, respirar fundo e deixar algumas perguntas sem resposta durante algum tempo. Podemos ter curiosidade sobre o que vai acontecer a seguir, sem ter de ter todas as respostas. Não precisamos de todas as respostas para começar a viver de forma mais plena, exatamente onde estamos.

Com Jeanne. Filmado em Noordhoek, África do Sul. 


Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

domingo, outubro 11, 2026

Um sábado bem ocupado

 

Quando comecei a trabalhar no mundo empresarial, vinda do meio escolar, entrei num mundo que me parecia quase infinito: muitas pessoas, muitos edifícios, muitas actividades. Estava sempre a descobrir coisas. E mesmo o que era banal para quem já lá trabalhava há muito tempo para mim era uma coisa que me enchia de interesse. 

Por exemplo, soube que havia um encadernador. Para mim foi um espanto tão grande como se tivesse sabido que havia petróleo no pátio de um dos edifícios. Por isso, não descansei enquanto não fui lá ver. E foi um fascínio. Por acaso, tinha reuniões de trabalho frequentes nesse edifício. E aí era um espanto mas em sentido oposto: deparei-me com uma estrutura pesada, muito hierarquizada, ineficiente até dizer chega. Tinha vinte e poucos anos e muita energia, muita criatividade. Deparava-me com um assunto para resolver e, na minha cabeça, em meia dúzia de dias, resolvia aquilo. Mas, em vez disso, tinha que ter reuniões extensas, das quais se faziam actas que eram enviadas para circularem por todos, só depois alguém começava a esquematizar o que se pretendia, faziam dossiers, depois reuniões para passar para a fase seguinte, e mais actas, e mais dossiers. Anos mais tarde, numa profunda reestruturação, viria a estar incumbida de acabar com aquilo tudo. As pessoas, em si, nem teriam culpa por aquele marcar passo, era mesmo assim. Portugal, ou pelo menos parte dele, parece que, se o deixam, sente-se bem em enquistar-se.

Mas, portanto, vinha passada daquelas reuniões, porque sempre odiei desperdiçar tempo a fazer coisas inúteis, e ia visitar o meu amigo encadernador. As guilhotinas, as prensas, as peles, os dourados, tudo aquilo me encantava. Uma vez até aqui, num daqueles folhetins que gostava de escrever, inventei um personagem inspirado nele. 

Ele gostava que eu lá estivesse, mostrava-me a sua arte. Lembrei-me, então, de uma coisa. Uma das outras coisas extraordinárias que também havia era uma biblioteca infinita, uma coisa que não se imagina. Sei que, entreatanto, foi tudo doado. Encontrei lá livros que nunca poderia imaginar. Acabada de sair da faculdade, tive um segundo período de grande aprendizagem. O mundo abriu-se-me através daquela extraordinária biblioteca. Os livros franceses eram especialmente do meu agrado. Pensei, então, que poderia pedir para fotocopiar alguns desses livros e, depois, encadernar. Devo ter pedido uns seis ou sete livros. A capa em pele verde, letras em dourado. Lindos. 

Quando saí de lá, perguntei se os poderia levar comigo. O meu chefe da altura achou muita piada à minha pergunta, disse que claro que sim, quem é que ali ia precisar daqueles livros tão técnicos, em língua francesa ou inglesa, dizia que era mais que chinês, além disso eram fotocópias. Não ligavam patavina à capa. E, para mim, o mais especial de tudo era a capa.

Lembrei-me disto ao ver um dos pequenos apontamentos do canal Conta Lá: um senhor que, em Lisboa, ainda trabalha em encadernação. Trabalhar em livros, dar-lhes uma vida digna através de uma encadernação cuidada, requintada, deve ser uma maravilha.

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Aqui há algum tempo ouvi que este canal Conta lá estava em apuros. Tomara que tenham resolvido os constrangimentos financeiros pois é muito interessante. Por aqui consegue conhecer-se o país, conhecer mesmo, conhecer as pessoas, a vida normal. Não se fala de crimes, de desgraças, de misérias, de assaltos, de vinganças, de traições. Não. Uns falam de como restauraram uma casa de família, outro fala do vinho e do azeite que produz, uma senhora fala de como, apesar de lhe faltarem muitas peças, consegue manter-se activa e feliz na sua comunidade, outro fala de como ainda produz o chamado tijolo burro, a seguir falam do que é o jogo do pau, e, a seguir, uma jovem mulher orgulhosa de trabalhar na higene urbana de Lisboa, a conduzir um carro do lixo. Tudo muito interessante. E mesmo a forma como filmam é uma forma próxima, parece que as pessoas estão a conversar connosco, no seu ambiente. Muito bom. Por aqui, está no canal 123.

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Quanto ao móvel da cozinha, já está. Deu luta. O meu marido, de óculos, que lhe ficam muito bem, ali esteve a montar aquele puzzle complicado. Como é meticuloso, lá foi avançando. Só numa das partes é que a coisa esteve mal parada, não encaixava nem por mais uma. Por fim, já estava à martelada com aquilo ou, como a martelada não resolveu, com a chave de fendas e com martelo, já desbastava a ranhura, para a tornar mais funda e ver se a tábua entrava. Afinal verificou-se aquilo de que o material tem sempre razão: era um parafuso que não estava bem apertado e oferecia resistência ao encaixe de uma das partes. 

Nunca vi um tal processo: se tivessem mandado três tábuas grandes, duas laterais e uma para as ccostas, e mais as prateleiras e as portas, teria sido incrivelmente mais fácil. Agora mandarem dezenas de tábuas a tabuinhas e mil parafusos de diferentes espécies e porcas e pernes ou lá como se chama aquilo, parece um teste à paciência. Eu jamais teria dado conta de tal berbicacho.

Mas ele deu e reconheço que a cozinha fica melhor assim. 

Não gosto é dos puxadores, são pretos, não têm a ver com os outros. Temos que ver se arranjamos uns com a mesma furação mas mais compatíveis com os dos demais móveis da cozinha. 

Agora temos que ver onde colocar o suporte das pegas e o das chaves pois estavam por cima do mal-amado móvel baixo que lá estava. A parede agora está tapada com o móvel, que tem 1,90 de altura. Mas há tempo.

Eu, entretanto, andei a lavar cortinados, tapetes, pegas e o que mais me apeteceu deitar a mão. O tempo está bom para secar roupa ao ar livre, há que aproveitar para as limpezas pós-verão. Quando começar o tempo de chuva já não dá tanto jeito fazer estas barrelas.

E, claro, ida ao supermercado para compras semanais e fim-de-semanais, quatro sacos gigantes a deitar por fora, com ida e volta de uber. E refiro isto porque para nós é um salto quântico nos nossos hábitos, desde sempre habituados a andar de carro conduzido por nós. Aquele receio e transtorno que sentíamos afinal eram desnecessários. Claro que subsiste o tema do cão que, obviamente, não pode vir connosco. Ao supermercado não é assunto que se ponha mas, se quisermos ir a algum lado com ele, de uber não poderá ser. Não é de fiar com estranhos, nunca se sabe como se portaria, e não dá para arriscar. Claro que, em caso de necessidade extrema, lhe poríamos o açaime e o meu marido ia a agarrá-lo, no banco de trás, a fazer-lhe uma gravata o tempo todo. Mas, deixando-o em casa, para nós dois o uber é uma boa solução, lá isso é. Bem que os meus filhso nos chateavam por não usarmos. Tinham mais do que razão.

E este domingo já vou experimentar o meu forno novo. Estou desejando de ver se me ajeito com ele. Um forno bom é meio caminho andado para a gente se sentir bem na cozinha.

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Desejo-vos um bom dia de domingo

sábado, outubro 10, 2026

Dia de rebuliço com uma senhora surpresa à mistura

 

Há dias em que tudo converge. Encomendamos aqui, encomendamos ali, combinamos com uns, combinamos com outros, e, não sei como, de repente, parece que tudo se alinha para que apareça tudo no mesmo dia. Esta sexta-feira foi um desses dias. Não sei se já contei que finalmente acedi a trocar de forno. Toda a gente me chateava com isso. Mas eu entendia-me (mais ou menos) com ele e parecia-me um gasto desnecessário. Mas é verdade que algumas coisas já não estavam lá muito bem. Portanto, lá foi, encomendámo-lo. 

Quando estávamos a proceder à encomenda, o senhor perguntou: com entrega e instalação?

Pareceu-me óbvio que sim pelo que estranhei a pergunta e contra-perguntei: mas poderia ser sem instalação?

O senhor riu-se e disse: tenho clientes que dizem que pagaram quase cinquenta euros para depois a pessoa chegar lá, ligar três fios e, em cinco minutos, estar tudo feito.

O meu marido ouviu a conversa e perguntou: mas é só isso?

O senhor puxou o forno para fora e mostrou-lhe o cabo com os ditos três fios, pelo que o meu marido decidiu: nesse caso, é só o transporte.

Encomendou uns conectores wago. Como continuamos sem carro (está na oficina do representante, que tem uma fila de espera de cerca de dois meses), conectores encomendados online.

O forno era para chegar na quarta-feira e os conectores só na sexta. Afinal, a entrega do forno atrasou-se e só chegou esta sexta-feira. Estava o homem do forno a carregar com ele e estava o dos conectores a tocar à campainha.

Portanto, o forno ficou no meio da cozinha, envolto em esferovite e plástico. O forno antigo que o meu marido desinstalou foi levado. Quando o meu marido foi pôr o forno no buraco, parecia que não cabia. Fiz um esforço para me manter zen, até porque na loja tinham-nos dito que não aceitavam trocas de fornos. Medimos e parecia que caberia por um ou dois milímetros, quer em largura, quer em profundidade. Mas, ali, no momento da verdade, parece que não entrava. 

Contudo, o meu marido deu-lhe um jeito e um empurrão valente, aquilo fez um click e entrou, encaixando que nem uma luva. Depois puxou-o outra vez e fez a ligação. Ao princípio não percebeu como funcionavam os ditos conectores wago, que são diferentes dos que ele costuma usar, mas o chatgpt explicou e a coisa deu-se. Finalmente, com a parte elétrica reslvida, lá o encaixou definitivamente. Impec. À medida, perfeito.

Entretanto, na cozinha, temos na parede entre a porta e a entrada para a despensa, um móvel baixo, de prateleiras, mesmo à conta. É ali que temos as taças da fruta, uma caixa com os biscoitos e alguns produtos do cão, onde estão as embalagens de águas das pedras ou de cervejas. Praticamente não se vê. Ora o meu marido sempre embirrou com o pobre do móvel, diz que a porta da cozinha não abre completamente porque bate no móvel, que não conseguimos entrar bem na despensa por causa do móvel. Sempre a chatear por causa do móvel, que, coitado, é tão útil e tão invisível. Como se não bastasse, como anda numa de reorganizar tudo na cozinha, começou a ver soluções alternativas. No outro dia, convenceu-me a ver os móveis que tinha pré seleccionado. Às tantas pensei que, de facto, se o móvel fosse mais estreito e menos comprido, sobretudo a entrada para a despensa seria mais fácil. E se fosse mais alto, talvez ganhasse um espaço extra, a uma boa altura, para aquelas coisas que agora estão nos armários da cozinha, lá mais em cima, inacessíveis. Portanto, lá me dei por vencida. Encomendámos.

Chegava na segunda-feira. Pois bem, no meio da confusão, tocam outra vez à campainha. Um homem tira de um camião duas caixas pesadíssimas. O meu marido ficou espantado: o que é isso, agora? 

Eu também não sabia mas depreendi que só poderia ser o móvel que se tinha antecipado. Só que o meu marido convenceu-se que o móvel viria montado. Ao ver aquilo, teve o primeiro dissabor. Quando abriu as caixas e viu carradas de peças de madeira, montes, e uma caixa com carradas de parafusos e de porcas e um desenho com o que há para montar, ficou passado.




Felizmente foi ele que o escolheu... Imagine-se o que seria se fosse eu a impingir-lhe um móvel que ele não quisesse e lhe aparecesse uma coisa assim...

Já começou a montar mas depois desistiu, parou, já lhe doíam as costas.

No meio de tudo quem também apareceu hoje foram os homens dos estores. Desde Julho que ando a querer que venham, depois, no início de setembro veio um e desistiu e, finalmente, cá apareceram dois. Substituiram os motores de dois e alinharam quatro outros. 

Escuso de dizer que o cão-de-guarda estava na rua, vedado, capaz de estraçalhar quem lhe aparecesse pela frente, tamanha a barafunda de entra e sai, e em especial ao ver os das janelas a aparecerem à vez em cada janela. Devia pensar que eram lobos a andar por dentro do redil, as ovelhas em perigo, e ele sem poder fazer nada. Ladrava e saltava como um possesso.

Portanto, amanhã temos a continuação da odisseia do móvel. A ver se o meu marido dá conta daquele quebra cabeças. E temos as compras. Já nos habituámos ao uber. Prático. Chamamos o carro, vamos. Acabamos as compras, chamamos, esperamos com as compras no carrinho. Chega o carro, do carrinho do supermercado as compras vão para o porta-bagagens e regressamos. Li há tempos que, no futuro, não fará sentido ter carro a não ser como gadget pois andar de carro será recorrer a um serviço. Talvez. Parece que sem condutor. E isso já me parece mais estranho.

Entretanto, nesta semana que vem chegam os materiais para a renovação da casa de banho. O homem que vem montar agora fala que só lá mais para o início de novembro. Já estou por tudo. Desde que venha. Antes, supostamente, ainda virá para limpar o telhado, ver aquilo das telhas partidas, pintar o quebra-fogos (ou lá como se chama o rebordo do telhado). Já era para ter vindo mas todas as semanas desliza mais uma. 

Enfim. É o que é. Já lá vão os tempos em que eu planeava tudo ao milímetro e fazia questão de cumprir sem um atraso. Agora já me deixei disso. Estou dependente de aparecerem quando podem. Seja lá quando for.

Mas há coisas piores. Não me queixo. Na verdade, de certa forma até me divirto.

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Nota:

À hora a que estou a escrever isto, a coluna lateral direita com os blogs que gosto de espreitar está outra vez toda despassarada. Presumo que os fulanos do blogger lhe andem a mexer e, pelo que vejo, sem atinarem pois está tudo desconchavado. Pode ser que de manhã já tenham resolvido os erros. Portanto, como dá para perceber, é coisa alheia à minha vontade e à minha capacidade para resolver. Tenhamos esperança de que tudo se componha.

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Desejo-vos um sábado feliz

sexta-feira, outubro 09, 2026

Tim Walker no sofá

 

Gostava de encher o post de fotografias de Tim Walker. Sou fã, fã, muito fã dele, acho-o um dos melhores. Mas não me arrisco, não quero atrair urubus que andam em volta de quem usa fotografias sem pagar direitos de autor. Eu compreendo que o trabalho dos fotógrafos tem que ser remunerado. Nem é apenas compreender: é aceitar na íntegra. Mas isto aqui não é comercial. Quando aqui coloco imagens de algum artista, seja de que tipo for, é para o divulgar, não para me aproveitar do seu trabalho, muito menos para monetizar o que escrevo à custa de trabalho alheio. Aliás nem disso, nem de coisa nenhuma. Tudo o que faço, quer aqui quer seja, onde for é pro bono. Obviamente. Mas há plataformas que funcionam por arrasto e, por isso, tomo cautelas. Rastreiam imagens que não tenham pago o fee da ordem e saltam em cima, de mão estendida. E são plataformas que o que arrecadam nem é para os fotógrafos ou artistas em geral, é nem se percebe bem para quê, parece esquema, talvez até seja pois se há caso em que se aplica aquilo de que se parece que é esquema, cheira mesmo a esquema, então, o mais provável é que seja esquema.

Mas podem googlar: Tim Waljer. Verão como os trabalhos dele são especiais: oníricos, maravilhosos, cheios de cor, de fantasia, de magia, de elementos etéreos. Não se confundem com nada. São arte.

É curioso ele dizer que sempre receou ser um impostor. E parece ficar surpreendido por ser tão requisitado, tão elogiado. As pessoas diferentes às vezes t~em alguma dificuldade em aceitar que t~em valor.

Não é qualquer um que é fotógrafo. Há que saber conhecer o outro, observá-lo. Não interessa propriamente apanhar o melhor ângulo, isso é pouco relevante, é passageiro. O interessante é captar a essência da pessoa, a forma como se comporta quando está distraída, ou a forma como a luz a envolve quando ela não se dá conta disso, ou como as sombras se recortam no seu semblante.

Mas Tim Walker, em mais uma das conversas íntimas com Bella Freud, não fala apenas de fotografia. Com total naturalidade, conversa sobre as diferentes etapas da sua vida assumida de homossexual, dos meandros dos encontros, da vulnerabilidade que aí se encontra e se partilha, da conexão que se pode sentir num encontro sexual com um desconhecido. Que, segundo ele, pode ser tão poderosa como a conexão que se pode sentir quando se fala com alguém, que se encontra por acaso, que tem um cão e se põe à conversa connosco, quando estamos a passear o nosso cão. É tão amiga e despreconceituosa (e poshy) a forma como Bella fala de todos os assuntos, que os dois estão totalmente à vontade em territórios que poderiam ser algo melindrosos. Não há pudores, não há tabus. Ela fala abertamente de tudo. E Tim Walker conversa também de tudo. É carinhosa a forma como ela refere que transpira amor a relação entre Tim Walker e o seu actual companheirro, Chris. E ele confirma, diz-se feliz e afortunado por tê-lo na sua vida.

Mas o melhor é calar-me, que não sou para aqui chamada, a conversa é entre eles os dois. 

Tim Walker fala sobre Kristen McMenamy, sexo e selfies nuas | Fashion Neurosis

Tim Walker é um fotógrafo inglês. Começou a fotografar ainda jovem e, depois de terminar os estudos, trabalhou no arquivo de Cecil Beaton na Biblioteca Condé Nast antes de estudar fotografia na Exeter College of Art.

Após a universidade, mudou-se para Nova Iorque para trabalhar como assistente de Richard Avedon, antes de regressar a Inglaterra, onde fotografou o seu primeiro editorial de moda para a Vogue com apenas 25 anos. Tornou-se conhecido pelas suas composições elaboradas e ensaios fotográficos ambiciosos e narrativos em locais de todo o mundo, trabalhando com adereços e cenários extraordinários, frequentemente em colaboração com a cenógrafa Shona Heath.

Walker realizou seis curtas-metragens, entre as quais "The Lost Explorer" (2010), e criou capas de álbuns para artistas como Harry Styles e Kate Bush.

Já realizou exposições individuais em importantes instituições, como o Design Museum, a Somerset House, o Victoria and Albert Museum e o J. Paul Getty Museum. As fotografias de Walker fazem parte de coleções privadas e de instituições públicas, incluindo o V&A e a National Portrait Gallery de Londres.

A sua mais recente exposição, Tim Walker’s Fairyland, inaugura esta semana na National Portrait Gallery, em Londres.

Neste episódio de Fashion Neurosis, Bella Freud e Tim Walker conversam sobre como superar um coração partido através do sexo, a experiência de ser despedido por Richard Avedon e o que é a Beleza Extrema.


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Desejo-vos suma happy friday

quinta-feira, outubro 08, 2026

Uma casa com arte, design e muita luz

 

Deveria acrescentar ao título: e com muito bom gosto. E ainda: fácil de limpar.

Para uma casa assim, com este espaço, esta disposição, com esta mobília, peças de arte e peças decorativas, com este jardim e com esta vista, eu poderia mudar-me com a certeza de que me sentiria muuuuito bem.

O design seduz-me. Gosto imenso de peças que são isto mas também podem ser aquilo. Por exemplo, um caso simples: uma mesa de jogo. Pode ser uma simples mesa de apoio, mas, se rodar e abrir o tampo, vira mesa de jogo. Tenho uma, gosto imenso. Nunca a uso como mesa de jogo, mas gosto de saber que a posso transformar. A Julianne Moore tem um banco que vira cadeira, acho uma graça. 

E gosto também muito das prateleiras que usa como estantes: são elegantes, embora robustas, e acompanham o evoluir da parede. 

E as pinturas e as demais peças, tudo despojado e bonito.

Já o confessei aqui algumas vezes: gosto muito da minha casa, muito mesmo, tudo parece à medida do meu gosto. Mas, se fosse hoje mobilá-la de raiz, teria menos móveis e, sobretudo, quase não teria móveis de madeira escura. 

Contudo, para ter menos móveis, teria que ter menos coisas para lá guardar. Por exemplo, aqui em casa seria impensável ter umas prateleiras pequenas com a louça. Primeiro porque duvido que ninguém desse um encontrão e atirasse com os pratos e as tigelas ao chão, segundo, porque apenas caberia lá uma ínfima-ínfima parte da louça que tenho. Hoje posso questionar: para que tenho eu tanto prato, tanto prato, senhores, tanta terrina, tanto copo, copos, então, mais do que um enxame? São os que eram meus, que já eram demais, e são muitos que eram dos meus pais e que não consegui que os meus filhos os levassem. Copos que não acabam. E o pior é que grande parte deles não são de tipo de trazer a uso, são copos delicados e frágeis de mais, uns com pé ultra-fino, outros com desenhos, outros de cristal. Lindos, reconheço, mas uma carga de trabalhos pelo espaço que ocupam e pelo cuidado que há que ter no seu manuseio.

Uma casa, clean, como a da Julianne Moore é uma casa que só é possível se ela tiver não mais que o mínimo indispensável. Por exemplo, na onda arrumadista do meu marido, uma coisa com que embirrou foi ter duas gavetas cheias de panos da louça e das mãos. E são gavetas grandes. Para não o ouvir mais com isso, condescendi em tirar os panos de uma das gavetas e arrumá-los num cesto, cesto esse que coloquei numa daquelas prateleiras junto ao tecto que os meus armários da cozinha têm, em que mesmo com o meu escadote, mal lá chego. Quando estava a arrumar os panos no cesto já estava a passar-me. Tanto pano, não acabavam. Enchi um cesto grande com panos, e, para caberem, tive que fazer rolinhos e arrumá-los ao alto, a la Marie Kondo. O meu marido, passa-se, pergunta quando é que vamos precisar de usar todos aqueles panos, por ele ia tudo fora. Mas foram-me oferecidos pela minha mãe, pelas minhas avós. Custa-me. Se a Julianne Moore visse o espaço que ocupo cá em casa com coisas desnecessárias certamente não ia acreditar.

E nem vou falar das cómodas com gavetões a rebentar pelas costuras com toalhas de mesa cheias de bordados e de rendas que nunca uso. Nem faço ideia de quantas. Tenho pena de não as mostrar, são lindas. Mas, depois, se ficam com nódoas que não saem? Ia pô-las a lavar a altas temperaturas? Poderiam estragar-se. E a trabalheira a passar a ferro. Não arrisco nem estou para me meter em trabalhos. Só uso toalhas que não precisam de se passar a ferro. Aliás, já é raro passar alguma coisa a ferro. Mas vou desfazer-me das verdadeiras obras de arte que são aquelas toalhas? Horas de laborioso e amoroso trabalho da minha mãe e da minha avó? Não vou.

Mas, ao mesmo tempo, penso: pessoas que têm casas como a Julianne Moore fazem como? Não compram quase nada? Passam a vida a deitar coisas fora? Não sei. Gostava de saber, tenho essa curiosidade.

Seja como for, se há coisa que gosto de ver são casas, em especial casas luminosas, desatranvancadas, elegantes, fáceis de manter. Desta gostei bastante. Um chão daqueles limpa-se que é um mimo. E até limpar o pó, que é coisa que destesto fazer, há de ser um tirinho. E a casa de banho, que bonita, também sem tralha de qualquer espécie, branquinha, luminosa, facílima de limpar.

E o jardim no telhado, tão verdinho, tudo tão bonito... e com a vantagem de estar perto do céu, longe da barafunda de Nova Iorque.

Mas vejam e digam se não tenho razão. Não gostavam de viver numa casa assim?

Na casa de Julianne Moore, uma casa num rooftop em Nova Iorque | Open Door | Architectural Digest

Julianne Moore recebe a AD na sua casa em Nova Iorque, projetada pelo arquiteto Oliver Freundlich. A atriz vencedora de um Óscar encheu o seu apartamento na cobertura, construído na década de 1920, com arte, mobiliário vintage e peças de design colecionáveis, incluindo obras de George Nakashima e Isamu Noguchi. A partir do seu belo terraço no último piso, lareira em funcionamento e casa de banho em mármore, a casa de Julianne é um oásis de tranquilidade no meio da metrópole. 


E ela é uma simpatia, não é? E claro que está descalça. como se pode andar em casa a não ser descalça?

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Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, outubro 07, 2026

A diva Cris, aka CR7, pariu um comunicado tentando apunhalar Jorge Jesus -- comunicado esse que, se as televisões se apiedassem do seu autor, o atiravam para o lixo, sem possibilidade de reciclagem

 

Continuo agarrada a requisitos, compilação de documentos, digitalização de documentos, fusão de documentos para irem todos no mesmo arquivo, redução da dimensão dos sub-ficheiros, e o diabo a quatro. Claro que, no meio disto, abro alas para ver, com carinho, a escritura em que os meus pais participaram, a sua assinatura que se manteve inalterável até ao fim, a descrição da casa em que cresceu, as plantas da casa em que reconheço a letra do meu pai, a memória descritiva em que reconheço o seu rigor. Tanto que se entregaram. O meu pai e o irmão acompanharam a construção, todos os dias iam ver o andamento da obra. Sei porque ele e a minha mãe me contavam. O meu pai disse que a casa era robusta, com o dobro do ferro do exigido, que podia vir a todos os tremores de terra que não caía. E, de facto, que me lembre, nunca houve problemas com aquela casa, construção à prova de bala. Como eles poderiam imaginar que esta papelada eles sobreviveriam e que, tantos anos depois, eu já com netos, ainda andaria às voltas com um empecilho burocrático, um pinchavelho que não seria problema em lado nenhum senão num país assente numa máquina burocrática operada por calhaus?

E posso ser injusto para as pessoas capazes, competentes e esforçadas que lá há. A eles peço perdão pela aparente generalização. Não generalizo. Mas quando é vítima de uma máquina, uma pessoa perde a paciência. É que, apesar de haver pessoas competentes e razoáveis, o pior são os outros, os que bloqueiam tudo, insensíveis a qualquer argumento por mais lógico, racional e legal que seja.

De uma coisa todos podem estar certos: jamais darei dinheiro a quem quer que seja para resolver ou agilizar ou o que for. Jamais. Posso esgotar-me até ao tutano mas isto tem que se resolver, e resolver pelos meios legais, normais, sem favores, sem dinheiros por baixo da mesa.

Mas, enfim, eu estava embrenhado nesta papelada que tenho que andar para aqui a desencantar quando ouço meu marido a protestar. Fui ver. Tinha ligado a televisão e estava um batalhão de gente a comentar o comunicado emitido por Cristiano Ronaldo. Fiquei a ver durante um bocado. Incomodada. Depois afastei-me. Tudo aquilo me parece inenarrável, pindérico, medíocre.

Como é que é possível que um jogador de futebol aprove comunicados que completou o treinador ia ler a pedir-lhe desculpas e o louvá-lo como se ele fosse uma diva? Como é possível que essa senhora diva faça uma tamanha birra porque o treinador obviamente não se prestou ao papelinho miserável que o dito Cris queria? Como é possível que, depois de ter feito o que fez, ainda tenha o topete de vir dizer que está disponível para jogar? Não percebe que, se o fulano da Federação, que não sei se é um fulano com coluna vertebral ou uma corcunda moral, você tiver no sítio lhe dirá, liminarmente, que vá dar banho ao cão? Já chega. 

Aquela conversa de que ele é um símbolo e rebéubéu, pardais ao ninho, poderia fazer sentido se ele, para além de marcar golos, informar manter-se digno, relatórios sair a tempo, informar que um capitão não faz birras, não põe o ego acima de tudo, não abandona treinos ou promessas ou compromissos. E se souber que um jogador de futebol aceita o que o treinador decide, não negociar x minutos ou neste ou naquele jogo. Quando um fulano, por muitos golos que tenha marcado, não sabe portar-se de acordo com o seu papel ou não reconhecer que o treinador, tal como um maestro, é soberano nas suas escolhas, então, santa paciência, a sua adição e maisce fortemente e, em vez de despertar afecto, desperta é prazer. 

Munch revisitado - elaborado pelo ChatGPT

E andar a fazer saber que vai comprar ainda mais presença na comunicação social mais parece manobra de intimidação junto de jornalistas e comentaristas. Ou andar a fazer-se de humildade para com isso conseguir ganhar vários meses, que faz de conta que são castigo, quando está na cara que é o tempo de que acha que precisa para manobrar e conseguir correr com o Jorge Jesus , é coisa que só engana os pategos. Muito mau o comunicado. Mais do que patético, a mim parece-me uma coisa quase miserável.

Como é sabido, de futebol não há peso uma. Tenho alguma simpatia por Jorge Jesus porque me parece uma pessoa autêntica, que vive para o futebol, mas ele só conhece as tiradas que se transformam em memes. Mas está a ter bons resultados na Seleção e isso é importante. Aliás, é o que é importante. O resto são fitas de pessoas que não se enxergam.

Um comunicado como o que a princesa CR7 emitiu, em que se vitimiza, em que se louva a si próprio e em que lança acusações, suspeições, e faz de tudo para manchar a imagem de Jorge Jesus, parece-me coisa abaixo do admissível. 

Se não fosse uma coisa tão mediática, o que merecia era silêncio, que as televisões dissessem: 'por compaixão pela imagem de Cristiano Ronaldo, vamos poupá-lo à vergonha de emitir o seu comunicado'. E a Federação, se quisesse ser simpática, bem que poderia informar o País que já falou com o vidrinho e que acordou com ele pagar-lhe uma série de sessões de terapia.

O meu marido diz que estes meandros do futebol são complexos, que nada é exactamente o que parece, que, por exemplo, acha muito que numa conversa entre Jorge Jesus, na qualidade de treinador da Selecção de Portugal, e Ronaldo, na qualidade o jogador da Selecção de Portugal, tinha estado presente o director desportivo do Al-Nassr. Pois, também não me faz sentido, mas admito que possa haver uma explicação, e que essa explicação possa não ser tão absurda quanto tudo isto parece ser.

Só me ocorre que isto se poderá é fazer uma ópera-bufa, uma paródia, um mega cagaçal para a gente do coco a rir -- com as manas Aveiro, cada uma mais caricata e dada ao furdunço que a outra, e mais a esposa dos diamantes, carteiras de milhares e com o seu fornido e mui contratado arrière, e mais a simpática mamãe a fazer anúncios ao pingo-doce, e mais toda a comitiva de mãos, primos, cunhados e padrasto, todos alto style, e o próprio, agora ruivo, baita cachucho na orelha, todo estiloso mas um estiloso às avessas, um desses estilos que condiz com lamber o rabo ao Trump ou prestar-se a limpar a imagem de um regime que não se recomenda -- e tudo condimentado com birras, com amuos, com choros, com ameaças, com recados mandados por este e por aquele, isto já para não falar na fase de andar a fazer filhos por encomenda. Consigo imaginar até uma série, vários episódios, tudo para a galhofa. Até o Montenegro, alto admirador do estilo, recomendando aos portugueses que seguem o super guru CR7, lá poderia fazer uma perninha de quando em vez. 

Enfim. Só visto. 

Agora a sério: não há neste país quem colocou a diva Cris na ordem? 

Caraças, já não há saco para tanto chilique. Até me apatece dizer: e que tal se falasse de futebol? Mas, note-se, do esporte futebol (e não do negócio e dos estranhos meandros do futebol)