terça-feira, junho 22, 2021

Guia ilustrado para um sexo versátil e adequado às circunstâncias

-- Serviço público de qualidade é isto --
A bem do espevitanço da demografia

[Post com bolinha encarnada]

 

Na RTP temos algumas figuras que são não apenas o anti serviço público em forma de gente como verdadeiros tira-picas. Sandra Felgueiras ou José Rodrigues dos Santos são exemplo disso. Nunca se aprende nada com eles. Pelo contrário, a gente tem vontade de fugir a sete pés quando eles aparecem.

É certo que temos a 2 com programas bons e gente decente. Ainda assim, tudo geralmente dentro do registo do politicamente correcto. 


Não é essa a linha de rumo da NRK, televisão pública norueguesa. Para melhorar a vida sexual dos noruegueses, o seu site tem um conjunto de fotografias em que se mostra como se pode passar ao acto de formas não apenas criativas como adequadas a cada circunstância: homem-mulher, homem-homem, mulher-mulher, caso se esteja em boa forma, caso se tenha uma dor nas costas, caso haja uma gravidez de permeio, caso seja na base do oral ou do vulgar truca-truca ou, ainda, caso se esteja na disposição de novidade.

Para se perceber de que se trata, recorro, de novo, ao tradutor automático do Google para fazer de conta que aqui tenho em português um artigo do Guardian. Clamping koala: how a new sex guide prompted complaints – and delight. Lamentavelmente, acho que desta vez a obra não sai muito asseada mas o adiantado da hora não me permite aplicar-me. Portanto, com vossa licença, cá vai disto:

Nome: Aperto de Coala

Idade: Recém-cunhado.

Aparência: Sentado de frente para o parceiro, pernas cruzadas no tornozelo, com a opção de inclinar-se para trás.

O que é, algum tipo de coisa de ioga? Parece um pouco assim, sim.

Então é um exercício? Não exatamente, embora você provavelmente acabe queimando algumas calorias.

Então o que é? É uma posição sexual.

Absurdo. Eu conheço todas as três posições sexuais, e essa não é uma delas. Na verdade, é um dos 60 listados em um guia completo produzido pela emissora de TV pública norueguesa NRK.

Sessenta? Isso inclui missionário? Sim, o misjonaer está lá, junto com o espaguete, o bicho-da-seda, a roda da fortuna e o flamingo.

O flamingo? Em pé sobre uma perna.

Quem fica em uma perna só? E qual perna? Não se preocupe - tudo é ilustrado com fotografias explicativas em preto e branco, para o benefício de todos os noruegueses.

Por que tantos? Eles incluem posições para casais do mesmo sexo, mulheres grávidas e pessoas com dores nas costas e joelhos ruins. Se a posição não tivesse um nome norueguês, eles inventaram um - daí klemmende koala, o coala que aperta ou aperta.

O que levou a emissora a produzir tal guia em primeiro lugar? Dever público. “A NRK quer que leve a um maior conhecimento, maior abertura e segurança, inspiração e novas conversas sobre sexo”, disse o editor do guia, Reidar Kristiannsen, “o que significa que ainda mais pessoas têm uma vida sexual de que gostam”.

Aposto que houve muitas reclamações. Sim, cerca de 97.

Isso é tudo? Quantas pessoas viram isso? Mais de 850.000 desde o lançamento em 11 de junho.

E onde eles estão vendo isso, exatamente? Está no site da NRK. As fotos são todas de casais reais, e ninguém está realmente fazendo sexo com eles - eles estão apenas posando.

Ainda não consigo acreditar que o dinheiro dos contribuintes foi gasto nisso. É o dinheiro dos contribuintes noruegueses.

Mesmo assim, espero que venha com um aviso adequado. Sim: “Lembre-se de que você não precisa tentar todas as posições.”

Bem, isso é um alívio abençoado. Mas você nunca sabe, você pode encontrar algo novo e desafiador que gostaria de experimentar.

Você está oferecendo? Eu voltarei para você.

Diga: "Não importa o que você faça, contanto que você goste e tenha um nome engraçado."

Não diga: “Chamamos isso de girafa em um teleférico. Espero que você tenha uma lente grande angular. ”

A página da televisão norueguesa onde se pode ver qual a posição a experimentar é esta e, como disse, é para o menino e para a menina e há para todos os gostos:

Sexguiden

Her finner du sexstillinger for ulike behov, samt gode tips og råd. Bruk guiden til inspirasjon, og husk at du trenger ikke prøve alt.

Les mer om hva NRKs sexguide er her. 

E a minha recomendação é só uma: se estiver mal das cruzes, com alguma tendinite ou se padecer de osteoporose não arrisque algumas posições. Para outras, diria eu, será melhor estar sobre um colchão que amorteça possíveis aterragens involuntárias. Quanto ao resto, conhecendo o ou a parceira (e, sobretudo em  alguns casos, estando confiante dos seus hábitos de boa higiene), é de avançar (ou recuar, consoante os gostos) -- sem medo.

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Queiram ainda conferir se algum dos seres abaixo é a irmã gémea que de vós foi separada à nascença

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E tenham um dia muito feliz

Upa lá-lá

Esta é a irmã gémea de alguém que está aí desse lado

 

Há pessoas geneticamente mal dispostas. Gostam de dizer mal, gostam de chatear, só saem da sua zona de conforto para denegrir, insinuar ou, simplesmente, rosnar ou ranger os dentes.

De vez em quando recebo comentários desagradáveis que não acrescentam nada, apenas tentam chatear. Se digo que pus flores numa jarra, logo me aparecem aqui a depreciar ou a dizer que quero exibir a jarra, se digo qualquer coisa da treta logo aparecem a dizer que digo isso porque sou velha. Coisas assim. Mas o pior são os que aparecem a insultar outros comentadores, insinuando as coisas mais absurdas e humilhantes que se possa imaginar. Claro que comentários desses vão direitinhos para o lixo. Tal como na minha casa não abro a porta a gente parva ou tóxica, também aqui só publico comentários que façam minimamente sentido e não sejam ofensivos para quem me lê.

Mas fico a pensar: como serão essas pessoas? Ensimesmadas? Mentalmente perturbadas? Frustradas? E, só de pensar nisso, já me dá pena e já sinto vontade de estender a mão a quem se percebe ser gente mal amada, almas perdidas. 

Hoje vi este ser aqui abaixo e fiquei a achar que, com certeza, é o retrato fiel de alguma das pessoas maldosas que, volta e meia, aqui aparece a destilar fel. Há qualquer coisa de triste, de tédio, de mau humor numa criatura assim. 

Por isso, na volta, da próxima vez, em vez de deitar para o lixo as palavras venenosas que aqui deixam, vou mostrar a minha compreensão para que, numa próxima ocasião, venham antes desabafar, contar os seus traumas, as suas frustrações. Prometo uma escuta activa e toda a minha compreensão.

Nota: este cão é um daqueles a quem os donos colocam perucas, fotografam e partilham. Há mais do género mas iguais a si, Leitor/a que padece de má disposição crónica e que gosta de chatear os outros, não vi mais nenhum.

Por exemplo, este aqui abaixo é seguramente de outro género, uma lady que se quer mais sofisticada, respirando style.


Há nela qualquer coisa de Raquel Strada.

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Mas, pronto, nem todos terão gémeos separados à nascença. Haverá os únicos. One of a kind.


Contudo, se aí desse lado, alguém se achar igual a este, esteja à vontade, diga-o, mostre-se. Estamos cá para aproximar gémeos que se perderam uns dos outros.

😜

segunda-feira, junho 21, 2021

O power das mulheres quando não têm vergonha do seu corpo

-- Thot Shit --

 

Depois do desfile de chapéus que mostro abaixo, uma festa de mulheres, apetece-me ter aqui uma outra festa: uma em que as mulheres mostram, sem rebuço, o seu tremendo poder. Quando as mulheres põem de parte as suas vergonhas, os seus receios pela censura alheia e seus os medos ancestrais e percebem a força que têm e a poderosa arma que é o seu corpo, não há quem as detenha. Aleluia!

Megan Thee Stallion é um mulherão com apenas 26 anos. E é um mulherão não apenas por ser grande mas porque é destemida, guerreira e porque avança sem medo onde outras apenas fingem que o não têm mas não conseguem senão fingir bravatas que logo se vêm que são artificiais. Poder-se-á dizer que é showbiz. E é. E é do bom. Mas é muito mais que isso: é descaramento, é desafio, é desmando e força. 

O conservadorismo arvorado em puritano cai pela base, exposto ao ridículo, no meio de mulheres que exibem, gloriosas, as suas curvas e o seu corpo que usam como muito bem lhes apetece, um corpo que não é instrumento passivo do gozo alheio mas, pelo contrário, bandeira de libertação e afirmação de uma vontade forte e festiva.

Uma alegria de ver, um gozo. Um tremendo gozo. Oh yé.

Megan Thee Stallion - Thot Shit


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E queiram continuar a descer para assistirem ao desfile dos chapéus há muitos
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Uma semana feliz
Saúde. Esperança. Alegria

Chapéus há muitos...!
(E não é preciso ser palerma para gostar deles)

 



Com esta coisa da covid lembrava-me lá eu de uma coisa tão distante e tão excêntrica como o desfile de chapéus em Ascot...? Não quero saber de cavalos ou de corridas... mas de chapéus... como não gostar da criatividade, irreverência e graça daqueles chapéus? Para mim -- que nunca lá fui e que não garanto que não seja palerma -- Ascot não é a Golegã da realeza nem o Le Mans da cavalagem: para mim, Ascot e á feira dos chapéus. 

Mas eis que, no outro dia, à noite, a minha filha me envia uma série de fotografias de beldades exibindo gloriosos chapéus. Pois, lá está. Junho é tempo de elegâncias e não há corona que anule a vontade das beldades trazerem as suas obras de arte à cabeça.

Lamentava-se a minha filha que nem tão cedo deveremos ter casamentos que peçam chapéus. Fazia contas ao seu filho, o mais velho, imaginando que será o primeiro a proporcionar-nos uma festa à maneira. Dizia ela que ele lhe sai, gostando de ambientes a preceito pelo que imagina que nesse dia vamos todas poder apresentar-nos de chapéu. Espero bem que sim. Mas ainda deve faltar algum tempo...

Pensei, então,  que qualquer dia, a propósito aí de um qualquer nosso acontecimento, podemos convencionar que todas as mulheres se apresentarão aqui de chapéus. Temos é que esperar que esta chaga da pandemia nos dê tréguas. Mas, isto abrindo, vamos pensar nisso. 

Até lá, meninas da família, para vossa inspiração, aqui estão alguns dos belos exemplares avistados este ano em Ascot. Há para todos os gostos, idades e estados de espírito. 


Ascot 2021

















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E até já.

domingo, junho 20, 2021

Os Sto Antónios cá de casa

 




Não sou conhecedora da história da sua vida mas tenho ideia que era um homem bondoso e muito culto, com inteligência e dotes de oratória. Mas acho que não é apenas por isso. Admito que seja por um qualquer outro motivo que não alcanço que simpatizo tanto com o Santo António. Fui agora ver em que altura viveu e fiquei surpreendida. Crê-se ter nascido em Lisboa em 1195 e morreu em Pádua em 1231. É, pois, dos antigos. E, no entanto, vejo-o como um moderno.

É ele o Santo Padroeira da Lisboa popular. Haverá quem invoque São Vicente e lá terá as suas legítimas razões mas contra factos não há argumentos. Quem vive no coração dos lisboetas é Santo António e contra isso batatas: não há historiadores ou escoltas de corvos que consigam dar a volta ao afecto alfacinha.

Tenho em casa algumas figuras religiosas. Tenho, por exemplo, vários pequenos presépios. Assim, de repente, sem ir conferir, acho que tenho também duas Nossas Senhoras e tenho dois crucifixos. E tenho uns Santo Antónios. Gosto deles. Aliás, posso dizer que tenho um carinho especial por eles. Mas há uma coisa: por algum motivo que também desconheço, gosto de os ter representados de uma forma pouco canónica. Gosto de versões que transmitam a inocência ou a graça da expressão popular.

Como ontem, em resposta ao Francisco, falei nele como sendo um Santo muito cá de casa, ele teve a gentileza de me enviar fotografias dos Santo Antónios de sua casa. São muito bonitos. O maior, então, é uma maravilha. 

Obrigada, Francisco.


Também tinha dito que fotografava os meus para aqui vos mostrar. Mas, Francisco, vou já avisando: os seus representam o homem da Igreja. Vê-se que cada um dos seus Sto Antónios é bem comportado, piedoso. 

Os meus mostram o homem das ruas, o homem que o povo sente como um dos seus. Pelo menos, assim eu o vejo.

Os Sto Antónios cá de casa são arte popular. Enternecem-me. Um é até feito em crochet mas eu olho para ele e vejo ali a graça da figura cuja devoção tem atravessado gerações. Quando vou a algum lugar onde veja figurinhas artesanais, espreito sempre a ver se descubro algum. Não me perguntem porquê mas tenho esta crença de que uma casa feliz e acolhedora deve ter em si fontes de luz, compaixão, tranquilidade, bondade.

Bem merecestes ter com amor
Em vossos braços o Salvador
Salve, grande Antônio, santo universal
Que amparais aflitos contra todo mal

Desprezando as honras pela sã pobreza
A Jesus vos destes com ardor e firmeza
Bem merecestes ter com amor
Em vossos braços o Salvador




Desejo-vos um feliz dia de domingo

sábado, junho 19, 2021

Rituais de acasalamento e etc.

 



Hoje ao fim da tarde, saí para o jardim enquanto falava com a minha mãe. Depois do dia todo cinzento e molhado, àquela hora o céu deu tréguas. Estava frio e uma aragem intensa, quase vento, mas, ainda assim, não chovia.

Peguei na máquina para fotografar as minhas florzinhas. Gosto tanto delas. Parecem-me milagres, tanta a beleza e perfeição.

À medida que vou tendo mais vasinhos, vou tendo, de facto, mais trabalho a regá-los. A minha mãe bem me avisa: os teus excessos... agora não vais descansar enquanto não encheres os terraços de flores.... Mas acho tão bonito. De manhã, enquanto como a fruta do pequeno-almoço, abro a porta da cozinha e vou vê-las. Outras vezes, passo por elas e ponho o indicador de lado encostado à terra a ver se precisam de ser regadas. 

Até me lembrei de quando os meus filhos eram pequenos. Mesmo sem eles darem por isso, roçava o indicador de lado no pescoço, atrás, sob a nuca. Queria saber se estavam em boa temperatura, nem com frio, nem com calor. Fazia isso em bebés e continuava até já saberem bem dar conta de si.

Estava nisto, flanando por ali, sossegadamente, os passarinhos sempre a cantarolarem, um pipilar constante e feliz, quando ao meu lado, numa trepadeira, uma festa. Pus-me a ver. Dois passarinhos saltitavam, cantavam, um de roda do outro, perseguindo-se mutuamente, brincando, subindo, descendo, debicando-se. Eu mesmo ao pé e eles como se não estivessem nem aí para mim. 

Então pensei que deveria estar a assistir a um ritual de acasalamento. Olhei-os com atenção: não consegui detectar rubor ou sorrisos mas a proximidade que procuravam e o júbilo que demonstravam não me deixou grande margem para dúvidas. Estavam de namoro pegado, provocando-se, desafiando-se. Não sei se chegaram a vias de facto pois a coisa, entre pássaros, é tão instantânea que não é a olho nu que uma amadora como eu o sabe perceber.

Quem sabe um dia ainda não consigo evoluir para esse estado de elevação supremo que é ser observadora de pássaros. Ainda no outro dia um colega me dizia que se levanta habitualmente muito cedo, tenho ideia que falou em seis da manhã, pois antes de ir trabalhar vai dar um passeio pelo campo para observar pássaros. Acho que um dia que começa assim só pode ser um dia bom.

Se não me esquecer, talvez que um bom presente para os meus anos sejam uns pequenos binóculos para, quando ando no jardim, poder ver melhor os meus felizes companheiros.

Entretanto, para fazer pendant com a temática supra, junto uns vídeos onde se mostra como se namora no reino animal. Para que não sobrem dúvidas, são as fêmeas que escolhem o parceiro e que decidem quando é que é. E aos machos não resta alternativa senão enfeitarem-se e fazerem de tudo para darem nas vistas a ver se as fêmeas lhes acham graça. E, claro, têm que disputar território e neutralizar adversários. Tudo, enquanto as fêmeas, serenamente observam e, discretamente, fazem os seus juízos de valor. 

Fantástica também a cena da loba a sentir-se atraída pelo lobo solitário e, safada, quando apanha os outros distraídos, a pular a cerca, desviando-se do seu círculo de proximidade para uma escapadinha com o sedutor que, na noite, uiva de desejo por ela.


E é isto. Florzinhas, passarinhos. Uma primavera que se me tem apresentado cheia de inesperados, alguns não muito bons, alguns deveras assustadores, e alguma chuva e algum frio. Mas também cor, luz, beleza, serenidade, esperança, paz de espírito. E a vida continua. Não tarda estamos no verão e no verão, segundo se diz, outros galos cantarão. E, se não se diz, não faz mal, faz de conta que sim.

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sexta-feira, junho 18, 2021

Noah

 



O dia esteve quase invernoso: húmido, fresco, cinzento. A meio do dia constatei que não estava tão bem quanto desejava, e isso deixou-me um bocado desiludida. E uso a palavra desiludida em consciência: se calhar estava mesmo a querer iludir-me. Nada de transcendente mas, ainda assim, fiquei aborrecida. Sou tão optimista que desvalorizo até o que possivelmente tem mesmo que ser valorizado. 

Portanto, com o dia soturno, com a minha disposição também cinzenta, para piorar só mesmo o suspense em torno de Noah. Sentia-me um pouco ansiosa com aquilo do menino. 

Tenho total pavor do desaparecimento de uma criança. Desde que tive os meus filhos, na praia nunca conseguia estar um segundo descansada: sempre a olhar para um e para outro, com medo de perder algum de vista. Nas feiras ou em lugares com mais gente, sempre a querer que me dessem a mão, sempre com eles no meu radar. O que me tranquilizava era que o meu marido era igual, sempre absolutamente focado neles.

Com os meus netos, a preocupação é a quintuplicar. São muitos, mexem-se muito, difícil andar sempre a verificar: um, ouro, outro, outro, outra. E voltar ao princípio: um, outro, outro, outro, outra. 

Uma vez, apanhei um susto de morte. Digo bem: de morte. Era como se me sentisse a morrer por dentro. A minha filha tinha ido dar uma volta na Feira do Livro e eu e o meu marido ficámos com os dois meninos no pequeno parque infantil que está ali ao lado. O parque estava pejado de crianças e respectivos adultos acompanhantes. Cada um dos meus corria para seu lugar: um para o escorrega, outro para o balouço, depois um subia ao parque dos piratas, depois outro também. Eu e o meu marido aflitos para não os perdermos de vista. Depois ficaram os dois no barco dos piratas. Mas aquilo é grande e tem vários acessos, e, lá em cima, tem a casinha, tem o varandim, e tem não sei o quê. Como eles eram pequeninos, estando lá em cima, a gente não os via. E se um descia pela escada, outro pelo escorrega, cada um por seu lado, ficava impossível segui-los. Dezenas de crianças, dezenas de adultos, uma confusão. Eu deveras assustada, com medo de não conseguir estar sempre a saber onde estavam. Às tantas, o meu marido disse: fixa-te num que eu fixo-me no outro. Só que, de repente, um estava cá em baixo e o outro não aparecia. Perguntámos ao mais crescidinho, que deveria ter uns cinco anos, o que era feito do irmão. Disse que não sabia e foi a correr para outra atracção. E aí foi o pânico. Eu e o meu marido, aflitos, a chamar pelo mais pequeno, às voltas, sempre a querer não perder de vista o mais crescido que não parava sossegado. Eu, juro, só me mantive de pé e a chamar pelo pequenino porque a vontade de o encontrar superava o que o meu corpo queria, que era que eu caísse ali, desmaiada. Não há explicação para o pavor ao pensar que ele tinha fugido, se tinha perdido, que alguém o tinha levado, que ia aparecer ao pé da minha filha com uma criança em falta. Não há mesmo explicação.

O que nós gritámos por ele, as voltas que ali demos, jamais me esquecerei. E, de repente, já não sei qual de nós, olhámos para trás de nós: estava ele, num cavalinho, impávido a sereno. O cavalinho era mais recuado, não sei, não sei como não o vimos.

Não há descrição para o alívio: renasci. Perguntámos-lhe: mas não ouviste chamar por ti? Era pequenino, teria uns três anos, estava na boa, feliz da vida. Não ligou patavina.

Quando contámos, a minha filha ainda se riu: o miúdo mesmo ao pé de nós, provavelmente, sem perceber que desatino era aquele em que os avós estavam e nós, feitos totós, num desespero como se o miúdo não estivesse mesmo ali atrás.

Mais recentemente, apanhei um susto idêntico. O meu filho estava cá em casa. Os adultos conversavam e os miúdos brincavam. Corriam, brincavam às escondidas -- andavam à vontade. Até que os mais crescidos resolveram ir-se embora e tocaram a reunir. E, ao irem, reparámos que o portão que dá para a rua estava aberto. O comando é muito sensível e, sem darmos por isso, o portão abriu-se. Há quanto tempo o portão estava aberto não sabíamos. E aí demos por falta do mais novo. 

Aflição, claro. Pânico, pânico. Todos a chamar por ele, dentro e fora de casa, todos a corremos por todo o lado, o meu filho já na estrada a gritar por ele, os irmãos, em especial o menino, a chorar, aflito, eu outra vez mais morta que viva, sem saber onde mais procurar. Na rua sem sinal dele, o meu filho já para a frente e para trás, já bem assustado.

E, de repente, uns sapatinhos a saírem de debaixo de um arbusto, ali mesmo ao pé de nós. A minha nora é que viu. 

Tinha-se escondido de tal maneira, o maroto, que não o víamos. Só daquele ângulo se viam os pezinhos. E de lá saiu, sorriso maroto, sacaninha. Nós em pânico e ele, feliz da vida, por estar a pregar-nos tamanha partida. No fundo, para ele, nada de mais. Costumam jogar às escondidas em que é suposto, justamente, esconderem-se bem e não se auto-denunciarem. 

Passado não sei quanto tempo ainda eu me sentia a tremer por dentro. Agora ando sempre com medo que o portão se abra. Aliás, passámos a ter mil cuidados com a porcaria do comando. Quando eles cá estão, é o meu marido que o usa e resguarda logo de seguida para evitar que algum toque ou queda ao chão leve a que o portão se abra sem que nós demos por isso. 

Ou seja, por todos os motivos e mais uma data deles, a perspectiva do desaparecimento de uma criança é daqueles terrores em que não quero nem pensar.

Por isso, de cada vez que sei que uma criança desapareceu, por muito remoto que seja o acontecimento e por muito alheio que o assunto me seja, sinto logo aquela angústia que imagino que a família sinta. Angústia, pavor, impotência.

Mas, depois, ao procurar se já havia notícia, vi a fotografia de Noah e pensei: está vivo. Pensei também que pensamentos assim são gratuitos, infundados. Mas, no meu íntimo, pensava que, apesar de não ter explicação para tão clara convicção, sentia que aquela criança estava viva e que seria, toda a sua vida, um bacano, alguém cheio de peripécias e histórias para contar. Vivo, pensava, está vivo.

Desconheço as circunstâncias do seu desaparecimento e do seu aparecimento. Mas fiquei muito contente quando, estando ao telefone com a minha filha, ela me disse que estava a ver, não sei onde, que o menino tinha aparecido. Senti aquele alívio solidário, como se fosse também eu a recuperar a tranquilidade de saber que a criança está de volta, viva e de boa saúde.

Claro que agora haverá que perceber o que aconteceu e se está bem. A vida no campo, em especial entre pessoas que vivem em comunhão com a natureza, não segue a mesma lógica de quem vive em meios em que os receios são constantes. Mas, enfim, o que houver a ser apurado, certamente sê-lo-á. Para já, o que importa é que Noah está vivo e junto aos seus. E essa é uma alegria que tem que ser festejada.

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Pinturas de Luis Rodriguez Noa ao som de Alice por Bernardo Sassetti

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Desejo-vos um dia feliz.

Saúde. Ânimo. 

E ao valente Noah desejo uma vida longa e feliz

quinta-feira, junho 17, 2021

É a 4ª onda? É a variante Delta?

 

Seja a quarta, a delta ou o que for, de nada nos servirá essa informação se daí não conseguirmos extrair conclusões úteis.


Informação extraida hoje, dia 16.06.2021, do site da DGS

Os números voltam a subir e eu volto a pensar que a comunicação continua a falhar. A informação de pouco serve se for um mero despejar de números. Para ser útil, temos que interpretar os números e não apenas servi-los, a cru. Por exemplo:

  • Os novos casos, como se distribuem por escalões etários? Não quero saber valores acumulados, quero saber os do dia a dia para perceber a evolução.
  • Dos novos casos, quantos tinham ou não tinham a vacina tomada? Uma ou duas doses?
  • Dos novos casos, quantos usavam a máscara no provável local onde foram contagiados?
  • Qual o contexto em que ocorreu o contágio? Casa? Escola? Restaurante? Local de Trabalho? Transporte Público? Espaço fechado?

Só com informação deste tipo, exacta, concreta, se poderão tirar ilações que permitam tomar medidas para contrariar a tendência.

Se, por exemplo, não ocorrerem contágios em espaços abertos (praia, parque, etc) não haverá grande sentido em forçar medidas que serão forçosamente sentidas como artificiais e desnecessárias.

Em contrapartida, se a maioria dos contágios ocorrer em meios de transporte, então haverá que reforçar a ventilação e meios de higienização. Ou se ocorrer em contexto familiar, onde não se usa máscara e onde confluem pessoas que vêm dos locais de trabalho ou das escolas, então haverá que reforçar cuidados a montante. Ou se ocorrem em contexto profissional, por exemplo em escritórios sem ventilação natural, então haverá que repensar se é mesmo de levantar a obrigatoriedade de teletrabalho obrigatório.

Estou a dar exemplos apenas para concretizar a ideia de que informação deve ser completa, estruturada e clara. De outra forma, as medidas são mais gerais do que precisariam de ser e, em concreto, pouco se sabe sobre como nos precavermos.

E, quando falo em tomar medidas, não falo apenas em entidades 'superiores' que decidam em nome de todos: falo também em cada um de nós que, sabendo onde e como estão a ocorrer os contágios, poderemos adaptar as nossas atitudes para reduzir o risco.

E muito gostaria que a DGS percebesse isso e nos facultasse a informação de que todos estamos necessitados. Sinceramente, acho que já vai sendo tempo de irmos voltando a uma vida tão 'normal' quanto possível mas isso só poderá acontecer quando estivermos mais e melhor esclarecidos.


E é isto: o coroninha a fazer do mundo um seu joguete

quarta-feira, junho 16, 2021

Mea culpa...?

 


Hoje foi um dia quase normal, com reuniões e tudo. Contudo, bem mais moderado do que era antes. E teve trabalho de mails, de despachos, de apresentações, telefonemas. Mas tudo melhor doseado.

Junto à hora de almoço, o meu marido pegou numa cadeira e num pequeno sacho e eu peguei numa taça e fomos apanhar nêsperas. O meu marido subiu da cadeira para o muro e, lá em cima, com o sacho fazia vergar as pernadas da nespereira. E ou ele ou eu apanhávamos as nêsperas. Estão gordas e doces e temos ali uma bela quantidadezinha. Adoro nêsperas. 

Ao vê-lo empoleirado, pensei que, se os netos o vissem, talvez tivessem orgulho nele tal como eu sentia ao ver o meu avô andar em cima da nespereira para me dar as nêsperas a mim.

Ao fim da tarde, fui varrer uma parte do quintal. 

Quando fui despejar o balde das rodas ao monte da compostagem, passei pela horta e apanhei (e comi) framboesas. Depois fiquei a recear que não fossem framboesas mas outro fruto não comestível. Mas já tinha comido. Agora, já passaram umas boas horas e ainda estou viva. Portanto, eram inocentes framboesas. 

Claro que não falei na minha dúvida ao meu marido para que não ficasse a achar que não pode confiar em mim.

Ontem aconteceu uma coisa que só serviu para lhe dar razão.  Conto-vos.

Geralmente não tomo medicamentos. Há uns anos, receitaram-me glucosamina e disseram que era melhor tomar todos os dias. A minha prima médica já antes me tinha dito que com os antecedentes da nossa avó, que padecia de dores nas articulações, mais valia prevenirmo-nos e tomarmos glucosamina. Mas esqueço-me e passam-se temporadas sem tomar nada. Contudo, ultimamente andava a tentar não me esquecer pondo o frasco em cima da mesa onde tomamos as refeições. Se o tirava de lá, certo e sabido que, até me lembrar, passavam semanas ou meses de esquecimento.

Contudo, face ao que recentemente me aconteceu, até se perceber de que exactamente se trata, prescreveram-me um comprimido todos os dias de manhã. Foi para cima da mesa para não correr o risco de me esquecer. 

Acresce que tive que fazer, entre outros, um exame que requer a tomada de contraste por via endovenosa. Como o contraste é à base de um produto que existe num alimento a que sou alérgica, foi-me prescrita a toma prudencial de um corticoide de manhã e um anti-histamínico à noite com quatro dias de antecedência. E que, no dia do exame, não apenas tomasse de manhã o corticoide como, ao almoço, o anti-histamínico. 

E aí veio o receio de me esquecer: se da glucosamina era o que se sabia, faria agora como mais três. Então, para ter a coisa bem controlada, passei a fazer assim: à noite punha os quatro medicamentos directamente na mesa. E, à medida que tomasse cada um, punha a embalagem dentro de uma bandeja. Portanto, não tinha que enganar: fora da bandeja, significaria medicamento não tomado.

Pois bem. De manhã, ontem, dia do exame, corticoide tomado, caixa para a bandeja. Quando, à hora de almoço, fui tomar o anti-histamínico, vi que já havia cinco comprimidos tomados. Fiquei baralhada. O que ia tomar era o quinto. Como... já cinco tomados?

Será que o tinha tomado de manhã, distraída, e sem colocar a caixa na bandeja? Ou num outro dia, em vez de um, tinha tomado dois?

Puxei pela cabeça. Nada. O que quer que fiz, fiz distraidamente, sem dar por ela.

Ou seja, no dia em que tinha mesmo que tomar os medicamentos para prevenir reacções alérgicas, não sabia se tinha tomado o comprimido. Fiquei sem saber o que fazer: ou arriscar-me a não tomar ou arriscar-me a tomar o dobro da dosagem...?

O meu marido passado comigo: como é possível? como é possível que não prestes atenção a estas coisas?

Mas, pronto, fazer o quê? Mea culpa, mea maxima culpa. Pelos vistos não tomei mesmo a devida atenção. E quando lá cheguei tive que fazer a figurinha triste de dizer que não sabia se tinha ou não tomado o anti-histamínico. Disseram-me para não tomar que eles iam estar atentos a alguma reacção e a postos para actuarem. E, no fim, tive que ficar à espera a ver se não aparecia a reacção.

Cá para mim, tomei foi no sábado dois em vez de um pois no sábado andei ainda mais espapaçada que nos outros dias. 

Portanto, reconheço: é um facto, sou capaz de dar conta de coisas complicadas, muitas ao mesmo tempo, maçadas de toda a espécie. Mas ponham-me coisas simples à frente que vou inevitavelmente baralhar-me. 

Por isso, o meu marido tem a ideia que, se não verificar minimamente o que faço, é mais do que certo que irei despistar-me. Mas como também não tenho pachorra para prestar contas e muito menos para ser controlada, quando troco mesmo as mãos, ele não tem como ajudar-me... e fica todo irritado.

Isto contado assim deve parecer coisa de marretas. E, na volta, é o que é. Mas a verdade é que é assim agora e desde sempre, desde o tempo em que éramos praticamente adolescentes: ele muito compenetrado das suas tarefas e  responsabilidades e eu desvalorizando o que considero minudências. No entanto, dou-lhe razão: o meu conceito de minudências é muito alargado pois, sem querer, encaixo nas minudências coisas como a toma de medicamentos críticos, em momentos críticos. 

Por isso, por eu ser como sou, se me acontece alguma, mesmo que coisas pelas quais não sou responsável, há sempre a tendência de acharem que, de alguma forma, a responsabilidade deve ter sido minha.

A minha mãe é a mesma coisa. Hoje dizia, quase como se implorasse: e, por favor, deixa de comer tantas nozes, tantos cajus..!. Já lhe disse que primeiro vamos ver o que se conclui dos exames mas que uma coisa é sabida. colesterol alto não tenho. As minhas análises, do que se viu e até ver, estão bem e que nada do que se passou tem a ver com frutos secos. Mas... e ela ouvir-me....? Diz que sou dada a excessos, recorda-me episódios que, em sua opinião, provam que sou desmedida e, sem que haja ainda conhecimento médico da situação, já quer, à viva força, que prometa que não vou voltar a comer tantos frutos secos. Por mais que lhe diga que não tem nada a ver, que os médicos não descartam que seja algum efeito da vacina, ela quer, porque quer, que eu espie pecados que não cometi. O meu marido tende a alinhar pela mesma bitola e, volta e meia, diz-me: a tua mãe é que te conhece bem. 

Ou seja, na cabeça deles de alguma coisa eu hei-de ser sempre culpada. O que me vale é que esse conceito do pecado e da culpa não faz lá muito o meu género.

Tirando isso, tivemos visitas ao fim da tarde: o meu filho e a sua trupe. Dantes, quando alguém chegava, beijávamo-nos. Agora não. Qualquer dia esquecemo-nos desses hábitos de afecto e proximidade. Tenho, em especial, muita vontade de abraçar, beijar e ter sentados ao meu colo os meus pequeninos. Um dia destes, estão do meu tamanho e ficará absurdo querer que se sentem ao meu colo. 

Meus meninos mais queridos. 

E é isto. Por hoje, nada mais a acrescentar. Daqui a nada estamos no verão mas, por cá, ao fim do dia outonou. E agora estou aqui e até tenho um poncho vestido. Certo que é de linha, aos buracos, mas aconchega-me. Está fresco.

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As pinturas sã da autoria de Manuel Mendive enquanto Rhiannon Giddens interpreta Round about the mountain

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E umas palavras para melhorar o dia

"Toda limitação é estimulante" 

| Guimarães Rosa e Maria Bethânia


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Desejo-vos um dia feliz
E obrigada pelas palavras amigas que recebi, quer aqui quer por mail.
Saúde.

terça-feira, junho 15, 2021

Estou parva com isto.
Pena não me ficar em caminho... senão estava lá caída...

[E, de passagem, o que me tem vindo a acontecer desde que tomei a vacina]

 

Gosto imenso que me mexam na cabeça: pentear, massajar, lavar -- qualquer coisa é boa.

Penso que já contei que a melhor experiência foi com um negão, gigante, salvo erro na 7th Avenue. A cadeira dava massagens no corpo, desde o início da coluna até ao finzinho, e as mãos dele, no couro cabeludo, eram de nos levar aos céus. Agarrava-me a cabeça com as suas mãos e era como se eu estivesse à sua mercê: da minha cabeça ele poderia fazer uma jarra, um prato, um vaso, o que ele quisesse. Parecia moldar o que tinha entre mãos. Quando ele perguntava se já sentia o cabelo limpo, tinha sempre vontade de dizer que qual quê, sujo até dizer chega, que continuasse, que continuasse.

Nesse, a especialidade era mesmo a lavagem. Dali não passava. Uma pena.

Houve também uma rapariga mas essa perto de casa: nela a especialidade era o corte. Era uma aventureira. Grande parte das clientes queriam penteados convencionais. Aí ela certinha, fazia brushing normal e, se lhe pedissem, até punha rolos. Quando chegava a minha vez, eu não queria nada, ela que fizesse o que quisesse. Desforrava-se: cortava como se não houvesse amanhã. 

Foi a altura em que eu usava o cabelo como o da Jean Seberg ou quase como punk, o cabelo tão curto que, forte e farto como é, espetava. E ela punha uma espuma que o retesava e o deixava ainda mais espetado. Ela andava à minha volta de tesoura e faca de aparar e eu nem aí para o resultado. Gostava de ver aquele exercício dela e gostava de sentir as mãos dela entre os meus cabelos, a espetarem-no. 

Houve uma altura em que evoluí para o bob. E aí era esticado, liso. Nessa altura eu usava uns óculos de tipo aviador mas em espelhado azul. Não sei porquê mas eu achava que aquele meu cabelo casava bem com aqueles óculos.

Com o tempo, naturalmente, fui-me tornando mais convencional. Há coisas que a idade não acomoda. Mas são ciclos. Acho que passada essa meia idade e entrando na madura idade, todas as extravagâncias voltam a ser possíveis.

No sábado a minha mãe tinha uns jeans justinhos, uma blusinha justa às risquinhas azuis escuras e brancas, inspiração naval, e uns ténis brancos. Estava lindamente. Há uns anos ela teria achado que não tinha idade para se vestir assim. Agora veste o que lhe apetece e tudo lhe fica bem.

Ao ver este miúdo de seis ou sete anos do vídeo abaixo fico fascinada. 

A destreza das suas mãos pequeninas, o olhar aguçado e atento enquanto se aventura no corte ou na ousadia do penteado, a criatividade e a falta de limites, maravilham-me. 

Fantástico também como as pessoas se entregam às suas mãos. Ele rapa, ele corta, ele apanha no alto da cabeça, ele pinta de encarnado ou de azul... e as pessoas aceitam. Acho isso o máximo. Fico parva com a sua habilidade e com o arrojo com que se atira para técnicas mais arriscadas.

Eu que, em pequena, ambicionava ser cabeleireira e que ainda gosto imenso de cortar e pentear, vejo estes vídeos com espanto e quase inveja (inveja da boa, bem entendido)

E a forma como ele massaja a cabeça, o pescoço, a testa...? Há uma miúda que adormece, uma ternura, e eu pensei logo que seria o que me aconteceria se me metesse nas suas ágeis e hábeis pequenas mãos. 

A intuição dele prova bem que, quando se nasce com uma vocação a sério, ela fala mais forte. Chama-se Jiang Hongqi e é, sem dúvida, um encantador de cabelos. 

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Alguns comentários que não publiquei adiantam-me possíveis maleitas e alguns mails mostram a preocupação de alguns de vós a propósito do meu estado (clínico). Não quero adiantar muito pois não gosto de falar antes de estar tudo ultrapassado. Contudo, para evitar especulações ou preocupações talvez exageradas, direi apenas que me sinto quase normal e que creio que o quase resulta essencialmente da medicação. Direi também que há semana e picos apanhei um grande susto (eu e toda a minha família), E apanhei-o por mera coincidência. Calhou, perfeitamente por acaso, fazer um exame de rotina (uma rotina que estava interrompida há quase uns dois anos ou mais -- nem sei) no dia em que apanhei a vacina. De manhã levei a vacina, de tarde fiz o exame. E esse exame detectou alterações significativas, potencialmente graves, em mim. Ao repetir de urgência esses exames, essas alterações tinham-se acentuado e já causado uma aparente sequela, quiçá uma sequela para o resto da vida. A partir daí tem sido uma sucessão de sustos, de mais exames, de toda a espécie de peripécias. 

Não sei se tem a ver com a vacina mas essa hipótese não foi descartada. Para já está a querer perceber-se o que aconteceu e se ainda há risco; e, face ao que se descobrir, o que fazer. 

Desculpar-me-ão mas não vou dizer qual a vacina para não causar receios que poderão ser infundados. 

Tudo nisto é novo e temos que ter calma, não fazer juízos precipitados. Para já quero é ter tudo clinicamente esclarecido pois não ganhei para o susto e quero, sobretudo, saber se posso voltar a ter uma vida normal e descontraída, se tenho que ser medicada forever and ever ou, mesmo, se terei que ser 'intervencionada'. A vacina pode ter sido apenas uma estranha coincidência. 

O resto se verá depois -- se houver alguma coisa para ver.

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Mas post que é post, aqui no Um Jeito Manso, tem que ter música... certo?

Então que se chegue a nós o Will Stratton com Tokens


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Divirtam-se, aproveitem a vida, está bem?
Haja saúde. Haja alegria.
E tenham um dia bom. Força.