sábado, junho 22, 2024

Demissexual...? Ele há com cada uma...

 

Eu acho que até sou uma mente aberta. Acho... Mas, às tantas, acho mal. Na volta, tenho o meu ladinho de conservadora... 

Por exemplo, já me parece que isto de haver tantas orientações sexuais já é fantasia... Qualquer coisinha agora dá origem a uma nova orientação. Por exemplo, se eu só me sentir atraída por homens que usam capachinho, quem me garante que um dia destes não chego à conclusão que me encaixo numa nova orientação sexual, a dos capachinhossexuais.

Eu pensava que era (relativamente) normal as pessoas só quererem ter relações sexuais quando se sente qualquer coisa, pode ser até coisinha, pela outra pessoa. Pensava eu. Afinal hoje fiquei a saber que isso são os demissexuais. Demi. A meio caminho da pessoa ser assexuada. Na volta, num extremo estão as pessoas-bonobo que saltam para cima de qualquer um que passe pela frente. Na outra ponta, os assexuados. E a meio, essa estranha casta das pessoas que só estão a fim de truca-truca quando sentem algum afecto pelo trucado. 

Acho tudo isto uma coisa do além.

Mas, enfim, vejam com os vossos olhos e ouçam com os vossos ouvidos. O Bial é um charme e uma graça (para além de um belo homem) e o casal entrevistado é uma animação.

Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso falam sobre Surubaum, sexo, carreira e família | Conversa com Bial

Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso são uns dos casais mais falados da internet. No papo com Pedro Bial, o casal fala sobre o Surubaum, o novo programa comandado pelos dois, sexo, família e carreira! 😍


sexta-feira, junho 21, 2024

Trabalhar muito

 

Já fez um ano que deixei de trabalhar. Gostava de ter conseguido reformar-me mais cedo mas um dos meus colegas mais próximos de quem eu era backup e vice-versa adoeceu com gravidade e quis que não se soubesse pois uma das empresas estava a atravessar um processo em que a sua doença poderia cair como uma bomba e criar uma desestabilização desnecessária. Por isso, trabalhei mais uns quantos meses para além do que tinha previsto. Foi um esforço enorme pois, por um lado, já me tinha preparado mentalmente para fazer o corte e, por outro, foi um período muito conturbado e atravessado por grandes preocupações, em que, ainda por cima, tinha que ocultar das pessoas com quem lidava diariamente toda a situação.

Muitos colegas achavam que eu ia estranhar muito a inactividade da reforma por comparação com a  minha sobreocupação permanente. Achavam que eu não conseguiria parar, que não saberia viver sem a adrenalina de resolver mil problemas por dia. Mas eu sempre soube que iria adaptar-me lindamente. Trabalhava muito não por vício ou por prazer mas porque parece que os problemas caiam em cima de mim. Trabalhava horas a mais e tinha férias a menos apenas porque não conseguia furtar-me ao que esperavam de mim e a que eu, por um sentido de responsabilidade que devo ter herdado dos meus pais, nunca tive habilidade para escapar.

Conheci muitas pessoas que diariamente estavam na empresa até às quinhentas ou que marcavam reuniões que começavam às cinco ou seis da tarde sabendo que iam prolongar-se até às tantas não se importando com o sacrifício que isso implicava para a vida familiar dos participantes e que, mesmo quando eram reuniões improdutivas, as prolongavam para além do aceitável. Em especial muitos homens pareciam querer chegar a casa fora de horas, provavelmente dizendo em casa que o trabalho a isso obrigava.  E, com isso, obrigavam as secretárias ou as pessoas que convocavam a também saírem tarde. Um egoísmo imperdoável. Quando os confrontava com isso ficavam indignados, por vezes pareciam até magoados como se eu fosse a última pessoa que poderia condená-los por fingirem que trabalhavam quando, notoriamente, eram uns escravos do dever. Treta. Faziam render. Se calhar já nem davam por isso ou já não sabiam fazer de outra maneira. 

Nunca fiz nada disso e se ficava a trabalhar até tarde era porque tinha mesmo muito que fazer ou porque havia empatas que eram um atraso de vida para todos, incluindo para mim.

Durante grande parte da minha vida acumulei funções, trabalhei simultaneamente em empresas diferentes (embora do mesmo grupo), aceitei liderar projectos complexos ao mesmo tempo que mantinha funções correntes. Gostava disso. Sempre gostei de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, de preferência de cariz distinto, com diferentes equipas, com 'chefes' distintos. Esse stress, que para a maior parte das pessoas seria insuportável, para mim era muito motivador. Desafiavam-me, pediam-me, e eu aceitava. Por isso é que tinha tanto trabalho.

Ou seja, poderia ter tido uma vida bem mais fácil. Como, ao mesmo tempo, sempre quis estar presente para a família, em particular quando os meus filhos eram pequenos, o meu dia a dia era uma luta. Mas realizava-me puxando a minha capacidade ao limite.

Mas sempre tive muito claro que seria assim, velocidade ao máximo até ao último dia mas, quando parasse, seria de vez e numa boa.

E assim foi. Não me arrependi nem por um minuto de ter deixado de trabalhar antes do que poderia (por exemplo, muitos colegas meus trabalham até aos setenta), não senti nem por um minuto saudades daquela tremenda azáfama. Não. Adoro a minha vida de reformada.

E, não sei como, parece que continuo sempre atarefada. Mas não tenho horários, não tenho a agenda preenchida de manhã à noite, faço o que quero quando quero. 

Não tenho conselhos a dar. Cada um que faça aquilo que lhe der mais prazer mas desde que com isso não esteja a estragar a vida dos outros. Ou seja, se uma pessoa gosta de sentir a adrenalina de ter muito que fazer pois que lhe dê bom uso. Mas se simplesmente gosta de chegar tarde a casa, arranjando pretextos para parecer que está muito atarefado, digo-lhe que acho que alguma coisa não está lá muito bem nessa cabeça. E, se não consegue  deixar de fazer coisa tão parva*, pelo menos então que o faça sem empatar a vida dos outros.

[Claro que estou a omitir deste raciocínio os que, para fazerem face às exigências da sua vida, têm que recorrer ao pluri-emprego ou têm que se sujeitar a fazer muitas horas extraordinárias. Aí é outra conversa, é uma questão de necessidade e não de gosto ou de patologia.]

E o que posso dizer é que, da minha parte, aqui chegada, depois de tantos anos de trabalho e pressão, sinto-me muito bem, tranquila, feliz da vida, tentando saborear bem cada momento, mesmo os de pura ociosidade.

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A quem apeteça uma reflexão sobre as razões para se trabalhar tanto, aqui fica um vídeo que pode dar uma ajudinha.

The Real Reason We Work So Hard

We work as we do because – of course – we need to; because nothing is cheap, because the bills are incessant; because of all the good and wise and sensible reasons that we’ve been highly aware of since mid adolescence at least. But that is too neat and we know it deep down; we know that there is also – alongside this – something more complicated that we use the idea of necessity to avoid. 


quinta-feira, junho 20, 2024

Azul que te quero azul

 

Há momentos feitos de sonho, há recordações douradas pelo sol. Há imagens que nos chegam em fragmentos, há o que não sabemos se são sonhos, desejos, doces memórias. Há sorrisos suspensos no tempo, há palavras que nos chegam como suaves melodias. Há danças que são inventadas, gestos que ficaram por cumprir, subtis movimentos desenhados com as cores dos mistérios escondidos na luz.

Não há melhor, mais suave, mais dócil manto para envolver os segredos mais preciosos do que o que é feito de silêncio e de azul, dos muitos tons de azul. 

The Rarest Pigment in the World | Colour the Spectrum of Science | BBC Science

Lapis blue rocks are equivalent to the price of gold and can mainly be in the mountains of Afghanistan. The unique combination of sulphur with other elements produces this deep rich blue we call ultramarine.


De leitura obrigatória

 

A merecer reflexão. Séria reflexão. 

De facto dá que pensar. Sendo como são, verdadeiras calhandreiras como o Der Terrorist muito bem define, que confiança podemos ter na sua discrição, no sentido de Estado, na reserva, no uso cauteloso, prudente, reservadíssimo, de toda o imenso manancial de informação a que têm acesso?

"Aguardente? Ouvi perfeitamente!"  -- a não perder e à atenção do Ministério da Justiça, do SIS, do Presidente da República. Não falo da PGR pois não vale a pena (ela mesmo o diz, não sabe de nada, não é responsável por nada, não há nada que lhe assista).

quarta-feira, junho 19, 2024

O Ministério Publico continua com o bullying
-- A palavra ao meu marido --

 

Desde há muito que digo -- e já várias vezes aqui o escrevi -- que quem causa mais problemas ao País, que gera uma enorme instabilidade e potencia o crescimento da extrema direita são o PR, o Ministério Público e os órgãos de comunicação social. Felizmente já ouço alguns comentadores a partilharem total ou parcialmente esta tese. 

Nos últimos tempos, mais uma vez, estamos perante uma situação absolutamente nojenta que resulta da disponibilização cirúrgica de informação sobre os processos aos órgãos de comunicação social que, sem qualquer pudor, noticiam o que interesses obscuros pretendem que se noticie nesta altura. 

Naturalmente que me refiro às buscas que foram efetuadas dois dias antes das eleições (azar não conseguiram os objetivos que pretendiam) e às notícias, que nada tendo a ver com António Costa, aparecem sempre anunciadas como se tivessem, envolvendo o seu nome, e isto quando se discutem os lugares da Europa. 

E que não venham alguns pretensos jornalistas e vários comentadores televisivos dizer que são apenas coincidências. Só quem não quer ver, e o pior cego é o que não quer ver, ou não tem dois dedos de testa é que pode acreditar que isto são acasos e coincidências. Não são. Acasos e coincidências são situações que ocorrem ocasionalmente e estas situações são uma prática corrente. 

A reportagem da TVI, que mostra a estante, a secretária, os envelopes ou o dinheiro encontrado na busca ao gabinete de Escária mete nojo e não acrescenta absolutamente nada. No dia a seguir vêm a CNN e o Expresso com mais "coincidências". Isto cheira pior que uma lixeira. Já basta de tanta impunidade. 

Já não é só a agenda política, muito evidente, e os exacerbados ódios de estimação do Ministério Público, nem o desavergonhado conluio com parte significativa da comunicação social: é também o atropelo dos mais elementares direitos dos cidadãos, é o desrespeito pelo mais elementar comportamento cívico, é um atentado ao direito de qualquer cidadão ao respeito e ao seu bom nome, é o abuso reiterado do poder para achincalhar as vítimas na praça pública.

Como é possível que estes tipos continuem, em total impunidade, a fazer o que querem sem terem que prestar contas ou justificar-se? Não são escrutinados? Não são chamados à razão? Não são punidos quando violam a lei?

Já basta! 

O Prof. Marcelo que, provavelmente assolado pelo complexo de culpa e para tentar ver-se livre do António Costa, tanto tem, aparentemente, pugnado para que ele tenha um lugar na Europa, não acha "maquiavélico" o que está a acontecer? 

E mais uma vez não diz nada sobre o que de facto é importante? 

Depois de tantas asneiras, Sr. Presidente, faça alguma coisa de que se possa orgulhar e que os portugueses aplaudam. Acabe com este regabofe. 

terça-feira, junho 18, 2024

Covid a flutuar aí pelos ares, borboletas amarelas, fadinhas douradas

 



Na minha família, nos últimos dias, duas pessoas com covid. Há umas duas ou três semanas, outras duas. Li agora que, na realidade, a bicheza anda outra vez em força, por aí, e provavelmente em maior quantidade do que se pensa. É que, não havendo a obrigação de comunicar, pelo menos do que sei, a maior parte das pessoas não comunica a ninguém. Anti-piréticos ou analgésicos, anti-histamínicos, muitos líquidos e descanso. E, assim, grande parte da malta vai-se orientando sem precisar de ir ao médico. Portanto, os números de que se fala devem ser apenas os dos casos mais graves. Só espero não apanhar pois se me dá outra vez para o sono, não estando eu ainda restabelecida do anterior, não sei como vai ser. 

Quando digo que ainda não me restabeleci é porque, na altura em que tive covid, dormia horas a fio e, um ou dois ou três meses depois, ainda tinha um sono incomum. E agora, um ano depois, tenho ainda mais sono do que me parece normal. Se, depois de almoço ou depois de jantar, me sentar comodamente, sem estar a fazer alguma coisa, é certo e sabido que, daí a pouco, estou a dormir. Mas isto acontece comigo e acontece com o meu marido. Por exemplo, ainda hoje, estava à minha espera para irmos fazer uma caminhada antes de almoço. Sentou-se e, como me atrasei, passado um bocado estava a dormir.

Não sei se é por isso mas também parece que estou mais preguiçosa. 

Nos últimos dias, trabalhei bastante. Andei a varrer, a toda a volta da casa, os caminhos que circundam a casa. Numas zonas, há folhinhas secas de azinheira e bolotas que não acabam; noutras, há caruma, há pinhas secas e roídas; e, por todo o lado, há outras folhas. E há outra coisa que complica imenso a varredura: a folhagem agrega poeiras e terras e, às tantas, já começam a despontar aí ervas ou, mesmo, pequenos pés de azinheiras.

Portanto, arranquei ervas e pontas de coisas que nascem por todo o lado, e varri e varri e carreguei não sei quantos contentores, pesados. Claro que, em primeiro lugar, temo sempre que o esforço continuado perturbe as minhas articulações dos joelhos. Por isso, tentei ser comedida no seu transporte e, sobretudo, airosa no acto de pegar neles, pesadões, e os despejar em zonas em que mais matéria orgânica dará jeito.

E, se por aí, até ver (e deixa cá bater três vezes na madeira), ainda me parece que estou bem, a verdade é que desde ontem ao fim do dia e até hoje, só tenho vontade de dormir. Esforcei-me por não adormecer de tarde não fosse de noite ter alguma insónia. Mas, caraças, que soneira.

Por isso, não vou comentar o espectáculo que são as comissões parlamentares com as pessoas a serem espremidas em directo, com as televisões em cima, nem vou comentar as expulsões da Sónia Tavares e da Bárbara Guimarães por terem sido apanhadas a comer num local destinado a quem pagou bilhete (ou o recebeu de presente) para isso e não a pessoas que ali estão a trabalhar. E não o faço não apenas porque tenho mais que fazer mas porque estou cheia, cheia de sono.

Há bocado, depois de ter acabado o jogo de futebol, o meu marido resolveu ir dar uma volta com o dog mas eu não fui, já tinha dado para esse peditório. O dog também não queria ir, achava que já estava mas é na hora de se encostar para descansar. Regressaram algum tempo depois e o pobrezinho vinha feito um pinto (e refiro-me ao dog pois não trato o meu marido por pobrezinho). Há um lado bom nisto: a terra fica regada. Por isso, apesar de ficar um bocado desconfortável com este tempo, não consigo insurgir-me. O que me vale é que lavei a roupa hoje de manhã. Estava vento, secou bem. 

E agora, antes de desligar o computador, só me lembro de vos dizer que nestes dias em que andei a varrer e a deixar que a minha pele assimilasse vitamina D ao máximo, fui acompanhada por uma maravilhosa borboleta amarela. Não sei se alguma vez tinha visto uma borboleta tão linda. Vários tons de amarelo, quase reluzente. Como andava mais do que à paisana, desprovida de quaisquer equipamentos que não a vassoura, uma pá metálica e um contentor, não tive como registar tamanha beleza. A fotografia lá em cima foi obtida na internet e não tem nada a ver com a formosura da que esvoaçava à minha volta. Não sei, de resto, se era sempre a mesma ou se, tal como há esquilos, agora também há borboletas que, se calhar, são fadinhas douradas.

Ah, é verdade, já me esquecia de dizer que, para além da vida ser uma coisa fantástica, há ainda outra: é que a linha mais curta entre dois pontos é uma linha entre nós (isto é, eu e vocês aí desse lado).

The shortest distance between two points
Is a line from me to you
The shortest distance between two points
Is a line from me to you, me to you, you, you, you, you

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Dias felizes para si que está aí desse lado

segunda-feira, junho 17, 2024

Fazer o quê para viver uma vida longa e feliz?

 

Ela tem 103 anos. Ri enquanto fala. Arranjada, com um penteado fantástico (deve ficar incrível quando tem o cabelo solto), com um belo colar, brincos, anéis, com uma blusa de uma cor vibrante, vê-se que tem prazer em viver. Física e intelectualmente activa, esta bela mulher diz o que, em sua opinião, é preciso para se ter uma vida longa e feliz. 

Talvez não haja, no que ela diz, novidades espectaculares. Não há. Mas há a confirmação de que o é necessário é simples. Algumas pessoas é que parece que não conseguem deixar de complicar. Estragam tudo.

Não ficar agarrado ao que não interessa, avançar no dia a dia sempre com um propósito, sentir amor, encontrar coisas ou pessoas de que se gosta, rir, rir, rir, ouvir os outros, prestar-lhes atenção, olhar para frente em vez de estar a arranjar, lá atrás, pretextos para não avançar -- são alguns dos 'segredos'. Mas não são segredos, são coisas que toda a gente sabe.

Não tenho 103 anos mas já tenho os suficientes para saber que ela tem toda a razão. Muitas vezes aqui recebi comentários de quem se queixa de que parece que só vejo o lado bom da vida. É verdade. Por natureza sou dada a não ligar a quem ou ao que não me agrada, sou dada a encantar-me com pequenas coisas, arranjo sempre o que fazer, levanto-me sempre a pensar que tenho isto e aquilo e aqueloutro para fazer, interesso-me por tudo, presto atenção, ouço, leio, debato, contraponho. E rio-me muito, adoro divertir-me. Claro que tenho problemas como toda a gente mas, se forem daqueles que não interessam para nada, nem me dou ao trabalho de lhes prestar atenção. Tenho passado por fases complicadas e já me fui um bocado abaixo. Mas a vida continua. Agarro-me ao que de bom a vida tem para nos proporcionar.

Leveza, alegria. Nada disto é contraditório com a rebeldia ou com o gosto em bater o pé ao que está errado ou em lutar pelas nossas razões. Mas que o façamos com alegria.

E bola para a frente porque para a frente é que é caminho.

103 Year Old Shares Her Secrets for a Great Life


Desejo-vos uma bela semana

E haja saúde. 

E alegria.

domingo, junho 16, 2024

Filho de Betty Grafstein ainda não pagou conta hospitalar de cerca de 50 mil euros e está a tentar negociar a dívida
Diz o bem informado Correio da Manhã. E a turma da Noite das Estrelas comenta

 

Ao pesquisar uma coisa no google no meu telemóvel, aparecem-me notícias. Desta vez, a primeira, nem que de propósito, era que a Teresa Guilherme estava muito admirada por Lady Betty ter deixado uma dívida de 60.000€ na CUF

Nem de propósito. Quando entrou, certamente, Lady Betty, ou alguém por ela, teve que pagar uma caução. Provavelmente qualquer coisa na ordem dos 2.500€. Portanto, dos 50.000€, na volta, a CUF apenas viu esses 2.500. Isto, a propósito do Caro Comentador Ccastanho ter dito, e eu percebi que estava escandalizado com isso, que, quando foi internado, solvo erro para uma cirurgia, teve logo que pagar uma caução. Pois.

Agora, segundo li, o filho da Senhora Dona Lady está a tentar negociar... Não sei o que é que há para negociar numa conta de hospital. Na volta quer pagar a prestações ou está a pedir desconto. E este é um dos problemas com que os hospitais (tais como muitas outras empresas) se debatem: os calotes.

Abri o vídeo que me aparecia mas, salvo erro, só consegui ouvir até um comentador, de nome Rui Figueiredo, falar pois não consegui ouvir mais. Tirando a Teresa Guilherme que conheço e a apresentadora Maya, não sei que dois são aqueles que ali estão. Qualquer gato-sapato é chamado à televisão para opinar. Assim se (de)forma a opinião pública. Mas, então, dizia o rapaz que não compreendia porque é que a CUF não tinha cobrado logo à saída ou a tinha deixado sair sem pagar. Falava como se quem fosse de censurar não fosse quem se prepara para deixar uma dívida mas, sim, quem vai ficar a arder.

Ora bem.

Em termos práticos. Verbas desta ordem (esteve internada mais de um mês, deve ter feito inúmeros exames, deve ter feito fisioterapia, foi acompanhada até aos Estados Unidos por um médico e por um enfermeiro, etc,, pelo que os gastos devem mesmo ter sido exorbitantes) frequentemente não se conseguem pagar via multibanco. Pode também acontecer que não se tenha toda essa verba à ordem e tenham que mobilizar depósitos a prazo ou outras aplicações. Claro que quem tem um familiar internado num hospital privado deve tratar de tudo isso antes que a pessoa tenha alta. Mas sabemos que este caso é atípico. De qualquer forma, com gente séria, é normal que mandem a factura para casa e que as pessoas as paguem. Mas há gente que não é séria.

Mas, voltando ao espanto, de terem deixado a senhora sair sem ela pagar... O que sugeriria o dito Rui Figueiredo? Que a CUF não lhe desse alta? Que a forçassem, se fosse preciso sob ameaça, a dar o código do multibanco... ? Que a forçassem a ficar internada? A fazer mais despesa...? 

Claro que não. Quando a pessoa tem alta tem que se deixar sair até porque as camas fazem falta para outros doentes e, de resto, nestes casos, ficar mais tempo é incrementar a dívida.

Acho que desliguei quando ouvi alguém a interrogar-se porque é que a senhora não tinha um seguro. Mais uma vez, uns pseudo-comentadores demonstrando que não têm vida, mundo, conhecimentos do que quer que seja. Não sei se a Dona Betty tinha seguro, se não tinha. Mas um seguro de saúde tem um tecto para cada tipo de despesa. Para algumas, nem sequer há cobertura. Se ela tivesse seguro, poderia, por exemplo, não cobrir internamento. Ou poderia ter e o limite já ter sido excedido com internamentos anteriores. Ou poderia excluir internamentos por certas condições como, por exemplo, por violência doméstica. Além disso, os seguros são caríssimos para pessoas de idade e algumas seguradoras nem têm sequer seguros para pessoas com mas de 60 anos. Podem ter planos de saúde, que dão descontos em algumas coisas mas não cobrem internamentos.

Ou seja, sabendo que uma pessoa de idade tem algumas probabilidades de ter internamentos e cirurgias o que pode vir a traduzir-se em muita despesa, as seguradoras, que também são empresas que não querem ir à falência, também se cortam.

Ou seja, só o SNS não se previne contra calotes, contra despesas desmedidas. Na prática, é sempre a abrir. De cada vez que há pessoas a fazer cirurgias caras, a fazer tratamentos muito caros, a ter que estar internadas nos cuidados intensivos durante muito tempo, etc, etc, aparece sempre dinheiro para fazer face a qualquer despesa, aparece sempre dinheiro para aumentar médicos, para pagar horas extraordinárias, para pagar fortunas pelos contratos de manutenção dos equipamentos médicos em especial os mais caros como os de imagiologia, para pagar medicamentos, alguns dos quais caríssimos. Mas, ao contrário do que muitos pensam, o dinheiro não sai de um saco sem fundo.  Os montantes de que o SNS dispõe para fazer face a todos os imponderáveis não são ilimitados. Parecem... mas não são. 

Não será por acaso que uma das maiores fatias dos impostos cobrados vai para a Saúde: 22% 


Com uma população envelhecida e felizmente a viver muitos anos (mas com pluri-patologias e a requerer frequentes cuidados médicos), se a área da Saúde não for criteriosamente gerida não apenas vai ter falhas permanentes e cada vez potencialmente mais graves como vai ser um incrível sorvedouro de dinheiro.

[A componente da Protecção Social também é preocupantemente alta. Aqui a demografia é também um desastre: com uma natalidade continuadamente muito baixa, com muita gente nova a emigrar e com uma população muito envelhecida, é imprescindível que haja mais gente a fazer descontos (TSU), mais imigrantes a trabalhar e a fazer descontos em Portugal, é preciso que a economia se aguente e dinamize para haver poucos subsídios de desemprego, é preciso que se auditem bem as actividades que não descontam para a Segurança Social (ou que descontam pelos mínimos dos mínimos) e que se traduzirão em pensões e subsídios para os quais não existiu a contrapartida dos descontos]

Enfim. Um tema inesgotável.

Mas é fim de semana e não vos maço mais. Conto apenas mais duas coisas:

1 - A andar por aqui, sempre encantada (embora levemente apreensiva pois a natureza, quando pujante, tem uma força difícil de controlar), encontrei uma flor inacreditável. 


Nunca tal tinha visto. Já coloquei o pé que veem numa jarra aqui na sala. Recorri à app que permite a identificação de espécies e aqui está: lomelosia stellata

A perfeição, a delicadeza, a beleza desta flor parece-me uma coisa do outro mundo

2 - E andava nisto quando vejo, a meu lado, um esquilo a descer do pinheiro ao lado do qual eu ia, depois a andar à minha frente e, logo, a subir o tronco de um cedro mais à frente. A meio do tronco parou, ao alto, e ficou a olhar para mim. Com a atrapalhação, levei tempo demais a desbloquear o ecrã do telemóvel e a encontrar o botão da  câmara. Quando estava a postos para disparar já ele tinha subido. Estava lá em cima a olhar para mim. Fofo. Ainda o chamei, bsch-bsch-bsch, como se fosse um gatinho. Mas não o convenci. Não desceu.


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Enquanto escrevo, vejo Marcelo na Suiça e, como sempre, está a dizer coisas. Atrás dele, um a imitar o emplastro. Não sei se viram. Se viram, digam-me se não parecia mesmo.

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Desejo-vos um belo dia de domingo
 

sábado, junho 15, 2024

Urgências noturnas de obstetrícia todas encerradas na Margem Sul de Lisboa na próxima semana
Este, pelos vistos, é o lindo serviço que a AD andava a apregoar para resolver os problemas da Saúde em Portugal
Este é o lindo serviço que a Ministra Ana Paula, mais uma das arruaceiras contratações de que Montenegro se rodeou, tinha para resolver os problemas da Saúde em Portugal?
E, na Educação, vamos ver como corre a grande solução de recontratar professores reformados que já não podem ver alunos nem pintados ou reter outros até estarem a cair da tripeça...
Só anedotas.

 

Transcrevo do Público: 

Na margem sul do Tejo, só há uma urgência de obstetrícia aberta até 5ª feira e nenhuma durante a noite

A maior parte das grávidas e algumas das crianças da margem Sul do Tejo terão que atravessar a ponte e deslocar-se aos hospitais de Lisboa e arredores para serem atendidas em serviços de urgência de ginecologia/obstetrícia e de pediatria, entre esta sexta-feira e a próxima quinta-feira, porque as unidades de saúde da região estão quase todas com as urgências destas duas especialidades fechadas ao exterior ou abertas apenas durante algumas horas por falta de médicos em número suficiente para assegurarem as escalas. No caso das urgências de ginecologia/obstetrícia, nenhuma das três da margem Sul vai estar aberta durante a noite. (...)

A senhora começou por hostilizar o Director do SNS, Fernando Araújo, pessoa cuja competência era geralmente reconhecida, até levá-lo à demissão. 

Contudo, pasme-se, não sei quanto tempo depois, aparentemente ainda não conseguiu substitui-lo pois, ao consultar o portal do SNS, ainda aparece Fernando Araújo. Para uma área tão crítica, pelos vistos a dita senhora ainda não conseguiu arranjar ninguém.  

Ana Paula Martins, farmacêutica, é incansável a mandar bocas para tudo o que é canto e esquina e a eficientíssima a desestabilizar as áreas que tutela. 

Não sei se percebe alguma coisa de medicina ou de administração hospital mas receio bem que não. Como também parece carecer de bom senso e de civismo, penso que é de se temer o pior.

E nem me apetece falar na estupidez de andar a apregoar mais de 9.000 cirurgias oncológicas atrasadas quando afinal pouco passam das 2.000. Era bom que fossem zero mas são números que nada têm a ver com o exagero da falsidade da ministra. Ou é uma embusteira, e é grave, tanto mais que é um embuste relacionado com uma realidade dolorosa, ou anda mal informada, o que não é menos grave.

Agora, a última é que agora levou à demissão da Comissão Directiva do Hospital de Viseu depois de mais umas das suas tiradas ofensivas e mal educadas. 

Parece ser típico do seu comportamento: quando confrontada com os problemas, sacode a água do capote e, à bruta, atira para cima dos administradores hospitalares. 

Tem em comum com a colega do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, a igualmente inqualificável Maria do Rosário Palma Ramalho, o serem mal educadas, trauliteiras. Quando se sentem apertadas, não olham a meios, revelando uma constrangedora deselegância.

Resolverem problemas não é com elas. Pelo contrário parece que os agudizam. Entram com espalhafato, fazem e acontecem. Mas, vamos ver o que fizeram, e não há uma que se aproveite. 

É isto o Governo do Montenegro, outro chico-esperto que desafia a paciência e o sentido democrático da Oposição (perante o olhar apatetado de um Marcelo, de boca aberta, que agora quer à viva força que a malta toda apare todos os golpes da Pestenegra).

Aliás, Montenegro mostrou logo ao que vinha com aquele perfeito nonsense, coisa à Monty Python, da primeira medida tomada, coisa que viria a revelar-se divertidamente simbólica: retirarem o logotipo do Governo (herdado, pois, do Governo de António Costa), um logo moderno, estilizado, que tem ganhos prémios de design. Só o facto de darem prioridade a esta mudança já é de gargalhada. Mas mais de gargalhada é o que se tem seguido, Logótipo do Governo sofreu várias trocas em poucas horas no portal do Executivo

Só chico-espertices, más criações, parvoíces, coisas sem ponta por onde se lhes pegue. Cá para mim, o destino deste Governo está traçado. 

sexta-feira, junho 14, 2024

Ainda o tema da Saúde
(enquanto a Ministra Ana Paula se entretém a pegar fogo a tudo o que tem à sua guarda)

 

Ainda sobre o Hospital de Braga. Se agora está a enviar doentes para S. João, não sei. Desde há uns anos que já não há PPP, ou seja, o hospital de Braga está, tal como os outros, a ser gerido pelo SNS. 

Enquanto foi gerido por uma PPP (concretamente, no caso, pela José de Mello Saúde) recebeu vários prémios pela excelência dos seus serviços, os inquéritos de satisfação feitos junto dos utentes revelavam uma satisfação considerável.

Contudo, por o SNS não querer pagar o que era suposto, a José de Mello Saúde perdia dinheiro com a gestão deste hospital. Não é, pois, verdade, tal como erradamente se diz em comentário ao post abaixo, que o Estado gastasse dinheiro e os 'Privados' ficassem com os lucros.

Ou seja, há por aí muita ideia errada, provavelmente alimentada por infundados preconceitos.

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Num hospital, em especial nos de média/grande dimensão, as Comissões Executivas (sejam quais forem os nomes que se deem aos órgãos de gestão), têm que dar resposta às seguintes vertentes: 

  • Compras (de consumíveis, de serviços, etc), 
  • Recursos Humanos (controlar presenças/assiduidades, escalas, trabalho extraordinário, pagar salários, contratar ou demitir trabalhadores, tratar da formação, comunicação interna, etc), 
  • Financeira (contabilidade, tesouraria, controlo de Orçamentos, etc), 
  • Sistemas de Informação (sistemas, equipamentos, segurança informática, etc), 
  • Serviços Gerais/Infraestruturas (gestão do edifício, limpezas, segurança do edifício, frota, arquivos, correspondência, etc), 
  • Operação/Direcção Clínica (óbvio), 
  • Jurídica (contratos, litígios, protecção de dados, etc). 
  • A coordenar estas vertentes, está o CEO (ou Presidente, ou Director-Geral -- chame-se o que se quiser)

De todas as valências, apenas a de Operação/Direcção Clínica requer conhecimentos na área da Saúde. Todas as demais requerem pessoas com conhecimentos específicos da área (economistas/gestores, advogados, engenheiros, informáticos, etc). 

Achar que a equipa de gestão de um hospital deve ser constituída por médicos é querer que a sua gestão seja um desastre. Pelo menos, não conheço nenhum que pudesse ser director financeiro, director de informática, director jurídico, director de infraestruturas. E mesmo um CEO que tem que lidar com todas estar vertentes, se não tiver umas luzes de gestão, jurídicas, etc, vai ver-se à nora para gerir a equipa de gestão.

Um Centro de Saúde é uma realidade mais singela a nível de gestão, aliás, não tem nada a ver, mas, mesmo assim, diria que deveria ter à frente um Gestor e não um médico, deixando a vertente Clínica para os médicos e enfermeiros, que trabalho não lhes falta, e libertando-os de tarefas que têm a ver com gestão de contratos de limpezas, de contratos de manutenção de elevadores, de controle de assiduidade, etc. 

Contudo, aquilo a que me referia no meu post de há dias é que é urgente que se faça uma análise a nível regional e nacional, uma análise macro, para analisar a procura (por exemplo, o brutal aumento de pessoas em algumas zonas que obriga forçosamente a que sejam necessários novas unidades e mais pessoal clínico) e que se tente encontrar a oferta optimizada, por especialidade e por local (e por altura do ano). Penso que o Ministério da Saúde (seja de que partido for) deveria formar um grupo de trabalho para fazer um trabalho nos moldes que sugeri. Neste grupo devem estar sobretudo matemáticos, mas também gente da gestão/economia, e, claro, também médicos e enfermeiros. 

Ou seja, não estava a falar a nível 'micro', isto é, hospital a hospital (no SNS). No entanto, nos grandes hospitais públicos penso que a gestão deve ser profissional nos termos que acima referi (se calhar já é -- mas não faço ideia). Nos hospitais privados, é assim, isso sei.

Um esclarecimento ainda sobre a cobrança que os hospitais privados fazem aquando da admissão para internamentos e cirurgias. Trata-se de uma caução. 

No SNS, gaste-se o que gastar, é o Estado que paga. Sejam gastos insignificantes ou da ordem dos milhares ou milhões de euros, o dinheiro sai dos cofres do Estado e é gerido via Orçamento de Estado. Se for preciso gastar mais, haja impostos que os cubram. É assim e ainda bem. Mas tratando-se de dinheiros públicos, diria eu que deveriam ser geridos com mão de ferro para evitar desperdícios, abusos (nomeadamente que pessoas se naturalizem de propósito para vir receber tratamentos milionários que no país deles não conseguem), etc.

Nos hospitais privados não há quem lá meta dinheiro de impostos. O dinheiro para pagar edifícios e equipamentos e respectiva manutenção, para pagar a médicos, enfermeiros, auxiliares, água, luz, comunicações, medicamentos, tratamentos, etc, etc, ... e impostos, só vem de um sítio: do que as pessoas ou as seguradoras lhes pagam.

Acontece que os seguros são limitados e nem sempre cobrem tudo. E, quando não há seguros, ainda mais arriscado há. Um problema grave que os hospitais enfrentam são as dívidas dos clientes. Quando são internados, pagam uma caução. Tenho ideia que, quando a minha mãe foi internada pela última vez, a verba da caução foi 2.500 euros. Tinha um seguro mas o plafond foi ultrapassado ao fim de umas semanas. No acerto de contas, descontando o plafond do seguro que foi esgotado e os 2.500 pagos de caução, ainda houve uma verba considerável a pagar. Paguei, claro. Mas, do que é sabido, há quem se queixe que não tem como pagar e, portanto, deixe uma dívida. Ou seja, a caução é uma forma de minimizar o risco de ser dívida total. 

Quando ouço falar nos Privados, algumas pessoas falam como se fosse um bando de bandidos. No entanto são empresas que têm que pagar ordenados (nomeadamente a médicos, a enfermeiros, a auxiliares, a pessoal administrativo, a pessoa de limpeza e de segurança, rendas, empréstimos bancários, licenças software ou outras, enfim, pagar toda a espécie de despesas). Se um hospital privado não conseguir fazer face às suas despesas, não há quem lhe valha, não há orçamento rectificativo, não há nada. Portanto, responsavelmente, têm que ser bem geridos.

Os meus pais estiveram internados quer no SNS quer em hospitais privados. A nível de cirurgias e internamento, há algumas diferenças sobretudo a nível do apoio e da informação à família e a nível do conforto do doente. Mas, de qualquer forma, penso que o problema não está aí. O problema está em tudo o que está antes de se chegar à fase do internamento. A experiência que tenho nas Urgências é diametralmente oposta. No SNS passei horrores, horas e horas, noites inteiras sem saber o que se passava com eles, eles em macas nos corredores. Eu própria já passei uma noite e uma manhã num SO de um hospital público e foi uma experiência abaixo de terceiro-mundista, uma coisa indescritível, desumana. E a nível de ambulatório, é para esquecer (pelo menos nos grandes hospitais). E a nível de Centro de Saúde já ontem falei. Muito mau (pelo menos, nos caso que conheço).

Ou seja, há um problema dramático de gestão, de défice de oferta, de desorganização. Há regiões do país, talvez porque agora têm mais centenas de milhares de habitantes do que quando os hospitais existentes foram construídos, que não têm hospitais que cheguem.

Claro que não é suposto que haja hospitais ao pé de casa. Por isso, quando referi que num estudo há que definir objectivos, mencionei que uma dos parâmetros é a distância razoável a que deve situar-se um hospital. Falei em 50 km como distância máxima a título de exemplo mas é uma distância que me parece razoável. Mas se me disserem que pode ser outra distância, tudo bem, seja. 

Quando, há algum tempo, os médicos acharam que eu estava a sofrer um enfarte agudo de miocárdio e activaram o protocolo respectivo, me meteram numa ambulância e me enviaram para um hospital, vi-me numa ambulância a 'abrir', com sirene e luzes a piscar e, à chegada, a ser posta em cadeira de rodas e levada para uma sala de reanimação. Se estivesse mesmo em vias de 'patinar', penso que andar mais do que 50 km seria um risco. Mas estes parâmetros, que serão a chave para desenhar o mapa de hospitais e centros de saúde e para identificas as necessidades das respectivas equipas, são a chave para se obter uma solução equilibrada.

Num estudo destes, que acho que deve ser feito (aliás, que acho quase impossível que não seja feito), devem também ser equacionadas as acessibilidades e a adaptação das actuais infraestruturas às novas exigências. Por exemplo, ter um grande hospital como o S. José encavalitado naquelas ruazinhas ali por cima do Martim Moniz onde os carros quase não cabem e onde basta que alguém deixe um carro mal estacionado para o trânsito bloquear, parece-me um tremendo risco. Isto já para não falar em que, às tantas, nem a construção é resistente a sismos de grande magnitude. Mas, enfim, é um mero exemplo do muito que acho que há a equacionar.

O que acho dramático é ver a barracada permanente de ver tantas Urgências fechadas, de não se saber a quantas se anda, de ver pessoas, nas Urgências, à espera de ser atendidas ao longo de horas infindáveis, de não se conseguir uma consulta num Centro de Saúde, de tanta gente não ter médico de família... e não se pegar no touro pelos cornos, não pôr uma equipa de gente competente a equacionar estes problemas (que, relembro, são problemas típicos que se aprendem a resolver nos cursos de Matemática, nomeadamente no ramo das Aplicadas - Investigação Operacional e etc.).

E, sim, resolver estes problemas (de adaptar a oferta à procura e de optimizar a solução, garantindo o cumprimento de objectivos pré-definidos) tanto se faz na Saúde, nas Redes Logísticas (centros de Produção, Armazenagem e Expedição seja do que for, seja de medicamentos, seja de petróleo, de cimento, de adubo, de mantimentos, etc), nas Redes de Transportes Públicos (nomeadamente na definição de números de 'carreiras', nos locais das Paragens, na definição dos horários, na identificação da localização e número de Postos de Carregamentos Eléctricos, etc, etc. A Matemática, os algoritmos, os modelos, a estatística e as probabilidades têm isto de maravilhoso: aplicam-se a tudo nesta vida.

De qualquer forma, definir os locais ideais para ter unidades clínicas, a respectiva dimensão, as respectivas especialidades, etc, não requer conhecimentos clínicos. Os conhecimentos clínicos são, si, indispensáveis para traçar planos de saúde, para tratar e acompanhar doentes, para prevenir doenças, etc. A medicina é uma arte? Talvez, não digo que não... (embora nem todos os médicos sejam artistas... e embora haja outros que são uns verdadeiros artistas...). 

Mas a Inteligência Artificial já faz maravilhas e, em algumas áreas, já suplanta largamente a capacidade de análise humana. O diagnóstico precoce de algumas maleitas (por exemplo, neoplasias) através da imagiologia, por exemplo, parece estar a demonstrar que o facto de a brutal capacidade de computação permitir detectar desvios ao padrão com grande rapidez e precisão parece não ter paralelo com a 'visão humana'.

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Todos os vossos comentários são bem vindos e muito agradeço a vossa generosidade por partilharem as vossas opiniões. 

A todos os que não costumam ler os comentários, sugiro que visitem os do último post bem como os do post anterior pois tal como eu aprendo e fico pensar talvez também os considerem importantes.

E venham mais.

quinta-feira, junho 13, 2024

Então, Caros Comentadores, querem V. dizer que está tudo bem na Saúde em Portugal, nomeadamente no SNS?
Tempos de espera, como os de ontem em alguns locais, de 14 horas para pulseiras amarelas e 20 horas para pulseiras verdes, em V. opinião é do melhor que há?
Haver 25% pessoas, na zona de Lisboa e Vale do Tejo sem médico de família é coisa que não importa para nada?
Haver várias Urgências fechadas ao fim de semana, por vezes, também durante a semana não faz mal nenhum....?
Pergunto.



Não sei se ontem falei em chinês ou se é o facto de ter invocado a ajuda da matemática que assustou os meus Comentadores.

É que eu ontem referi quais as premissas que, em meu entender, devem ser fixadas como objectivo: tempos de espera razoáveis (e não o disparate e a desumanidade que é hoje), haver sempre um Centro de Saúde ou um Hospital num raio razoável (quando hoje ouço que, por estarem Urgências ou Especialidades fechadas, os doentes têm que ir à procura de atendimento a mais de 100 km... (ou seja, objectivos deste género que traduzam uma qualidade de serviço razoável, humana, aceitável)

Isto não é bom?

Ou os meus Caros Comentadores acham que as pessoas podem ser tratadas a pontapé para não arreliar os médicos que não querem que se equacione o problema no seu conjunto?

Quando falei em tempo médio por cada acto médico falei, repito, de uma média. Não faço ideia de quais são os valores médios. 20 minutos era um exemplo. Se for 30 minutos, é 30 minutos. Uma média é uma média e serve para estimar o número de doentes que podem ser atendidos por dia ou por turno. Claro que nuns casos, bastarão 10 ou 15 minutos, noutros casos será necessário 40 ou 50 minutos. Uma média é isso e serve apenas para não se navegar à vista. Não trabalhar com base em métricas é navegar à vista, é ter pessoas horas à espera ou ter vagas que não são aproveitadas.

Eu e o meu marido temos médico de família. Temos porque já o tínhamos. Contudo, mudámos de casa vai para 4 anos e não conseguimos mudar para um Centro de Saúde perto da nossa nova residência. E não conseguimos porque, por estas bandas, não há médicos de família disponíveis. Quando me dirigi a um Centro, com a documentação, riram-se da minha ingenuidade, perguntando-me se não sabia que tinha muitos milhares de pessoas à minha frente.

No Centro de Saúde que frequento, longe de casa, quando quero marcar uma consulta, só arranjo vaga para três ou quatro meses depois. Na última vez, a funcionária disse-me que tenho sorte pois há médicos que no mínimo têm seis meses de espera. Já por duas vezes, uma eu e outra o meu marido, precisámos de esclarecer uma situação com o médico de família, no caso do meu marido porque a medicação estava a dar para o torto e, no meu, porque estava com uma situação cuja medicação não estava a resultar. Das duas vezes tentámos falar com o médico, enviar mail, telefonar. Nada. Impossível. Incontactável em absoluto. A solução era ir muito cedo, não sei a que horas mas disseram-nos as funcionárias que às oito da manhã já está lá muita gente e nem todos conseguem vaga, para tentar uma consulta de urgência. Uma coisa terceiro-mundista que obriga as pessoas a faltarem ao trabalho, a não dormir, a ter que estar um dia inteiro para uma consulta de 10 minutos. Por isso, das duas vezes recorremos aos Privados.

É isto que os meus Caros Comentadores acham uma maravilha, não carecendo de estudo para determinar qual a solução optimizada que garanta objectivos de bom atendimento?

E a ineficácia...? Coisas simples que poderiam ser resolvidas com uma perna às costas por quem sabe gerir. Dou um exemplo muito recente passado comigo.

Eu e o meu marido tomámos a 1ª dose da vacina contra a pneumonia, salvo erro em Dezembro. Teríamos que levar uma 2ª dose em Junho e, preventivamente, marcámos logo a toma das duas doses. 

Esta vacina é paga pelos utentes, embora seja um medicamento comparticipado. Quando o médico de família prescreveu as vacinas, pensávamos que prescreveria logo as 2 doses. Mas não. Só prescreveu a 1ª dose.

Em Março quando fomos a uma consulta, pedimos que prescrevesse a 2ª dose. Ele assim o fez. A mim prescreveu em nome de outra pessoa mas, como só dei por isso em casa, marimbei-me. Estas vacinas têm que ser guardadas no frigorífico. Como não sabemos a validade delas, por precaução, fomos comprá-las de véspera. Contudo, quando fui aviar as receitas, eis que o farmacêutico me diz que a receita já não estava válida. Apesar de saber que a vacina era para Junho, o médico enganou-se e só pôs validade de 1 mês. A receita deixou de ser válida em Abril. Tentámos, então, falar para o Centro de Saúde para pedir que o médico alterasse a receita ou, na impossibilidade em tempo útil, para desmarcar a toma da vacina. Depois de se ter ligado várias vezes ao longo do dia, sem sucesso, só ao início da noite nos devolveram a chamada. Ficaram de falar com outro médico, pois o nosso não está lá (o que parece ser frequente), a senhora que nos ligou disse que ia tentar que outro médico passasse novas receitas. Mas isso levaria na melhor das hipóteses 3 dias úteis pelo que tivemos que remarcar a toma da vacina.

Numa clínica ou hospital privado, se queremos contactar com o médico, temos como. Além disso, de véspera recebemos sempre uma mensagem a lembrar a marcação do dia seguinte e, se formos, respondemos SIM, se não pudermos ir, respondemos que Não. E automaticamente o sistema de marcações é alterado e quem ligue a pedir uma marcação já poderá contar com a vaga surgida em caso de alguém responder Não. Tudo automatizado, tudo simples, imediato, tentando que não fiquem vagas por preencher.

No SNS quem faltar, se quiser avisar, acontece o que referi: um dia inteiro a fazer chamadas e depois a vaga ficando lá pendurada, por preencher. Por isso, com esta falta de optimização, só se arranjam consultas para muitos meses depois.

Mas a situação da falta de médicos e enfermeiros é grave não apenas no SNS. E isto é grave sobretudo para os doentes. Podem os grandes defensores de que quem deve resolver o problema da falta de recursos (físicos e humanos) na Saúde devem ser os médicos, de preferência os que detestam a matemática, achar que se os Privados estiverem também com falta de pessoal clínico, azar o deles.

Errado. Azar o nosso, os dos utentes.

Quando alguém precisa de ir a uma Urgência e não a encontra no SNS, deslocando-se a um hospital privado e dá de caras com a Urgência também fechada (e já está a acontecer), não é bom para ninguém, em especial para quem precisa de apoio clínico urgente.

Portanto, não seria mais humano, mais eficiente, mais razoável se uma pessoa fosse ao Portal da Saúde ou ligasse para o 112 ou para a Saúde 24 e, face à patologia, recebesse indicação do local onde deveria dirigir-se (garantindo tempos de espera baixos, local na proximidade e custo zero)?

Note-se que quando digo custo zero, refiro-me ao utente. Obviamente há sempre um custo para o Estado, seja a pessoa atendida no SNS ou num Privado.

E ontem também expliquei que, em modelos deste tipo, que optimizam os factores em jogo, se o custo num privado for mais elevado que no SNS, a pessoa só em último caso é dirigida para o Privado.

E depois há uma coisa extraordinária. Quem defende cegamente, como os meus Comentadores, o recursos exclusivo aos hospitais e Centros de Saúde públicos, faz ideia de quais os custos para o Estado? E acham que o dinheiro cai do céu? Não sabem que sai do bolso dos contribuintes (os que pagam impostos, pois, como sabemos o que não falta é quem não os pague ou pague menos do que devia)?

O facto de ainda não se ter percebido que os médicos devem tratar dos doentes, mas que quem deve gerir os sistemas de Saúde e os Hospitais devem ser pessoas com valências de gestão, tem conduzido aos problemas que parecem insanáveis na Saúde (como os que referi).

Devo ainda dizer que a fobia ao trabalho prestado por entidades privadas não tem razão de ser. Um dos hospitais que foi considerado um exemplo de excelência a nível de qualidade de serviço prestado foi o Hospital de Braga na altura em que era gerido por um grupo privado, numa das PPPs. Devo ainda dizer que as PPPs foram excelentes para os doentes, óptimas para o Estado e más para os Privados pois, estrangulados pelo Estado, perderam dinheiro e agora, naturalmente, recusam-se a voltar a gerir Hospitais Públicos.

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Se percebi mal o que disseram e quiserem concretizar, ou avançar com sugestões sobre como equacionar os problemas no seu conjunto, tentando identificar as melhores respostas a dar para que as pessoas não sejam tratadas de forma desumana e terceiro-mundista, agradeço.

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Do que escrevi e do que aqui, há anos, venho dizendo, acho que é muito claro que sou firmemente defensora do SNS. Por isso é que gostava de vê-lo robusto, eficiente, reconhecido.

Defendê-lo acefalamente ou só porque sim sem querer admitir falhas ou oportunidades de melhoria é condená-lo. Isso eu não quero fazer. Quero que melhore, que a ninguém passe pela cabeça destrui-lo.

quarta-feira, junho 12, 2024

Como resolver o problema da Saúde em Portugal -
uma humilde sugestão

 

Para resolver o tema da Saúde -- mas resolver de uma forma clara, adequada, robusta --, haverá que recorrer à modelação matemática, e, em particular a técnicas de programação linear. Poderá haver quem pense em heurísticas ou em filas de espera. Sim, de forma complementar. E, antes, também estudos probabilísticos e estatísticos,  seguidos de modelação que permita obter soluções, validá-las e, também, para fazer análises de sensibilidade.

Para já, de um estudo deste tipo, devem excluir-se a Madeira e os Açores pois cada arquipélago terá que ter uma solução específica. Portanto, a partir daqui refiro-me apenas a Portugal Continental

Antes, haverá que estabelecer:

- Os grandes objectivos do que se pretende. 

Exemplo:

Cada Centro de Saúde não deverá estar a mais de 15 km da residência das pessoas. Cada Hospital não deve estar a mais de 50 Km da residência das pessoas. Em cada local não deve haver filas de espera com duração superior a 2 horas para pulseira amarela, 3 horas para pulseira verde. Etc. São meros exemplos mas o que se decidir a este nível ditará a estratégia a seguir. Portanto, é o mais importante de tudo, é o primeiro passo. 

Seguidamente:

- Identificação de Funções. Médico por especialidade, enfermeiro por especialidade (se aplicável), pessoal administrativo, pessoal auxiliar, técnicos de manutenção, etc. Atribuir um custo por unidade de funcionamento a cada profissional.

- Identificação das Regiões com comportamentos especiais. Por exemplo, imagino que o Algarve tenha comportamento distinto do resto do País, por ter uma população que aumenta bastante no verão. Até poderia ter apenas duas regiões: o Algarve, R1,  e o resto do País, R2.

- Identificação dos Tipos de locais de atendimento. Por exemplo, considere-se Tipo 1, os Centros de Saúde, e o Tipo 2, Hospitais. Pode haver mais como, por exemplo, os Centros intermédios com funcionamento 24x24 e com meios complementares de diagnóstico simples, T3

- Identificação dos períodos típicos de afluência. Por exemplo, imagino que no período frio, das gripes, haja mais afluência, digamos que Período P1, no período de verão (em que tendencialmente há muito pessoal de férias e, em determinadas regiões, maior afluxo de doentes), P2.

- Identificação do quadro de pessoal mínimo para cada unidade de funcionamento e para cada tipo de local de atendimento. Por unidade de funcionamento entende-se o período mínimo, por exemplo, um turno de 8 horas. Ou seja, de cada vez que um Centro de Saúde, P1, tem uma unidade de funcionamento activa, quantos profissionais de cada especialidade têm que funcionar.

- Identificação de tempo médio de cada acto médico, por tipo. Exemplo: Cirurgia: 6 horas (o lógico seria que as cirurgias se subdividissem), Consulta normal: 20 minutos. Exames de Imagiiologia: 15 minutos. São exemplos.

- Levantamento da distância de cada pessoa de cada concelho a cada um dos locais de atendimento existentes bem como a locais de atendimento possíveis (exemplo: um novo Hospital na zona do Parque das Nações, um novo Hospital na zona de...., um novo Centro de Saúde na Zona de...)

- Identificação do Investimento associado a cada local. No caso dos locais existentes e funcionais, o investimento será zero, no caso dos inexistentes, estimar investimento. No caso dos locais que podem ser ampliados, haverá um custo que deve ser estimado.

Enfim... Provavelmente há vários mais factores determinantes. Aqui estou apenas a exemplificar.

Seguidamente, entrar-se-ia na fase de modelação. Com base na afluência típica por local e por período gerar números aleatórios que simulem a afluência ao longo do ano e a duração de estadia em cada local.

Seguidamente, tendo bem definida a função objectivo que (não me fuzilem) eu acho que deveria ser a obtenção da solução que minimizaria os custos globais (funcionamento + investimento), respeitando os níveis de serviço e o cumprimento das distâncias máximas, o sistema iria encontrar a solução que optimizaria o funcionamento global do Serviço Nacional de Saúde.

Reparem que eu não condicionei, até aqui, a solução ao número de profissionais existentes. Não o fiz deliberadamente pois, estando o modelo a funcionar numa base de recursos humanos ilimitados, ficar-se-ia a saber, para tudo funcionar às mil maravilhas, de quantos médicos, enfermeiros, auxiliares, etc, se precisaria para funcionar exemplarmente.

Depois compararia a solução óptima obtida com o que temos.

Por exemplo, suponhamos que me daria que necessitaria de ter 12 obstetras em Faro e que só lá 8. E que no país deveria haver 500 e só há 400. Estou a dizer números ao acaso.

Mas, se detectasse que haveria um enorme défice em determinadas especialidades, não apenas teria que injectar já estudantes nos cursos de Medicina dessa especialidade como se teria que ver se poderia 'importar' alguns. 

Mas aqui entram as análises de sensibilidade. Ou seja, tendo modelos aptos a simular a realidade, poder-se-ia avaliar em quanto se degradaria o serviço se, em vez de trabalhar com 12, só trabalhasse com 8, podendo avaliar também até quando se poderia ir com base em recurso a trabalho extraordinário.

Mas não haverá apenas casos de défice ou casos em que a gestão é quase impossível. Poderia, por exemplo, chegar à conclusão que aumentando o horário de funcionamento de algumas unidades em que há elasticidade de recursos equilibraria a qualidade do serviço sem danificar os custos.

Claro que se pode pensar num cenário em que a optimização é apenas estudada para as unidades públicas. Contudo, eu não ficaria por aí. Os modelos devem reproduzir a realidade e, neste âmbito, a matemática só faz sentido quando é a expressão do que existe. Ora o que existe são unidades geridas pelo SNS, mas também unidades geridas por privados ou por organismos de cariz social (falha-me agora a designação usual).

Portanto, admitindo que os Privados e os Sociais aceitariam ser integrados nesta análise e que aceitariam ser remunerados por actos médicos prestados ao abrigo do SNS, eu introduziria no modelo, alcavalando, paa eles, os custos com um determinado 'prémio'. Por exemplo, se um médico especialista no SNS custar 100, eu colocaria que fora do SNS custaria ao SNS 110 (por exemplo).

Como o sistema de optimização está à procura de obter o custo mínimo, só recorreria aos mais caros em caso de necessidade. Mas, desta forma, assegurar-se-ia que a qualidade do atendimento estaria garantida e a distância percorrida estaria sempre dentro de perímetro admissível de deslocação. E saberia sempre qual o custo que o SNS teria que suportar.

O não recorrer a Privados e Sociais não é impossível. Obriga é a um maior investimento na construção de mais unidades/hospitais e a contratar mais profissionais (que sabemos que não existem) ou a pagar mais horas extraordinárias ou obrigar a fazê-las para além dos limites legais. Ou seja, não parece ser a solução mais inteligente. Note-se que isto não tem nada de ideológico, é apenas racional.

Para os utentes seria indiferente pois não pagariam mais se fossem aos privados. 

Fazer um modelo assim que tem muitos e muitos milhares (milhões, na verdade) de variáveis e de condicionantes, que tem uma função objectivo complexa, que requer dados que nunca mais acabam, parece coisa do outro mundo. Mas não é. Já fiz coisas deste género em alturas em que os recursos informáticos não tinham comparação com os de hoje. Os potentíssimos meios informáticos de hoje tornam um estudo deste género relativamente simples (eu disse relativamente...)

O ideal é que, com um modelo deste implementado, cada pessoa, precisando de uma consulta, fosse a um portal e, identificando-se, dissesse que consulta queria, se é urgente ou não e, nesse caso, mais ou menos para quando, e o sistema lhe dissesse onde deveria dirigir-se e quando e a que horas. O resto seria contabilizado na rectaguarda, de forma automática. Claro que, para quem não se sente à vontade na modalidade self-service em portais, haveria um contact center que faria esse trabalho.

Em síntese, diria eu que, enquanto não se parar para se pensar desta forma, uma forma muito objectiva, muito integrada, sistematizada (matemática), dificilmente se saberá do que é que se está a falar. Cada um dá palpites para seu lado sem saber exactamente de que é que está a falar.

E, como ontem referi, equacionar, modelar, simular, estudar este assunto não é coisa para médicos: é para gestores, para matemáticos.

Espera-se dos médicos que cuidem dos doentes ou que ajudem a prevenir doenças. Mas o mega problema da gestão do sistema de saúde requer outras competências (nomeadamente competências de quem não sabe cuidar de doentes).

terça-feira, junho 11, 2024

Falemos, com alguma objectividade, de coisas concretas

 

A propósito da parvoeira e da chico-espertice do so-called choque fiscal da AD (na verdade, meros trocos em cima do que o PS tinha feito) e sobre a qual o PS está a fazer outra parvoíce ao não deixar o PSD fazer o que quer, e a propósito também da deriva absurda da AD ao pretender dar uma escandalosa borla fiscal a quem tenha até 35 anos (ganhem o que ganharem), fiz um pedido ao ChatGPT. 

Abaixo, transcrevo o que ele me devolveu. Não validei os números pelo que se alguém quiser fazer uma análise idêntica para fins concretos e de responsabilidade deverá conferi-los, recorrendo a fontes oficiais. 

O que aqui tenho está em inglês pois parece-me que, ao ter que consultar fontes oficiais (OCDE, UE, etc., como vi que 'ele' consultou) há menos risco de erros de o ChatGPT se baralhar por deficiente tradução/interpretação.

Quando os saloios da AD acham que vão atrair ou reter pessoas que estão a viver fora ou que, estando cá, equacionem emigrar, seria bom que, antes, fizessem uma análise global.

Por exemplo: 

  • Trabalhando cá, como é que o salário médio português compara com alguns dos principais países que acolhem a nossa emigração?
  • Como são os impostos cá e lá? É que uma família que se mude tem que pensar como fica quando tiver 36 anos.
  • Com que salário anual se atinge a taxa máxima de IRS?
  • Como é o PIB e o crescimento nesses países? (Isto é, são países ricos? Há crescimento económico?)
  • Qual o imposto sobre capitais (Juros de depósitos a prazo ou de títulos de dívida pública, etc) nesses países?
  • (Por mera curiosidade, como comparam os impostos sobre os resultados das empresas, vulgo IRC?)

Eis as respostas que o ChatGPT me forneceu (e que, repito, não me dei ao trabalho de validar)

Portugal

  • Average Annual Salary: €22,628
  • Income Tax Rates: 14.5% to 48%
    • Maximum Rate Applied At: €80,882
  • GDP per Capita: €22,440
  • Average Annual GDP Growth Rate: 2.2%
  • Capital Gains Tax: 28% for individuals, 25% for companies
  • Corporate Tax Rate (IRC): 21%

Analysis: Portugal has a lower average salary and a high top tax rate, impacting those with incomes above €80,882. Despite lower living costs, disposable income is limited, affecting the overall quality of life. 

Ah pois...

Vejamos, agora, os países para os quais os portugueses mais emigram ou emigraram.

Spain

  • Average Annual Salary: €28,375
  • Income Tax Rates: 19% to 47%
    • Maximum Rate Applied At: €300,000
  • GDP per Capita: €29,700
  • Average Annual GDP Growth Rate: 2.4%
  • Capital Gains Tax: 19% to 23%
  • Corporate Tax Rate: 25%

Analysis: Spain offers higher salaries with a top tax rate impacting those earning above €300,000. With moderate living costs and good public services, the balance between income and taxes is favorable, enhancing the quality of life.

France

  • Average Annual Salary: €39,300
  • Income Tax Rates: 0% to 45%
    • Maximum Rate Applied At: €160,336
  • GDP per Capita: €38,500
  • Average Annual GDP Growth Rate: 1.3%
  • Capital Gains Tax: 30%
  • Corporate Tax Rate: 25%

Analysis: France provides high salaries with the top tax rate starting at €160,336. Despite high living costs, comprehensive social services and public benefits contribute to a high quality of life.

Germany

  • Average Annual Salary: €49,200
  • Income Tax Rates: 0% to 45%
    • Maximum Rate Applied At: €274,613
  • GDP per Capita: €46,200
  • Average Annual GDP Growth Rate: 1.8%
  • Capital Gains Tax: 26.375%
  • Corporate Tax Rate: 15% + 5.5% solidarity surcharge

Analysis: Germany has the highest average salary among the listed countries, with the top tax rate affecting incomes above €274,613. High disposable incomes and efficient public services result in a high standard of living.

United Kingdom

  • Average Annual Salary: €37,600
  • Income Tax Rates: 20% to 45%
    • Maximum Rate Applied At: €174,500 (£150,000)
  • GDP per Capita: €44,300
  • Average Annual GDP Growth Rate: 1.4%
  • Capital Gains Tax: 10% or 20% (18% or 28% for property)
  • Corporate Tax Rate: 25%

Analysis: The UK offers high salaries with the top tax rate starting at €174,500. High living costs, particularly in London, are offset by good public services and infrastructure, maintaining a high quality of life.

Summary

  • Portugal and Spain: Moderate quality of life with progressive tax systems and lower income levels. Spain offers a better balance due to a higher threshold for the top tax rate.
  • France and Germany: High quality of life with robust social services. Germany's higher salary and tax threshold provide more disposable income.
  • UK: High quality of life with high incomes and living costs. The UK offers a balanced approach with higher tax thresholds and comprehensive services.
Penso que está claro, não está?

Portugal tem salários bem mais baixos do que os países que tradicionalmente mais portugueses atraem, é um país bem menos rico, carrega nos impostos sobre rendimentos das pessoas que é um disparate e um abuso.

Portanto, é nisto que os governantes (sejam eles quem forem) têm que se concentrar: estimular fortemente o crescimento económico, incentivar fortemente a subida de salários, reduzir a taxação de IRS da classe média, taxando mais apenas os verdadeiramente ricos (vide valores acima) com vista a libertar liquidez para as famílias.

Em contrapartida, (a serem verdadeiros os números acima), bem pode taxar mais as empresas, em especial as que têm lucros mais elevados pois, aparentemente, Portugal, entre estes países, é quem taxa menos.

Mas há outros índices a ter em atenção, nomeadamente o Índice de Felicidade. E mais uma vez transcrevo a resposta que obtive e, de novo, a serem verdadeiros os valores que o Chat me devolveu, dá que pensar:

Based on the latest World Happiness Report, here are the happiness index scores for Portugal, Spain, France, Germany, and the United Kingdom:
  • Portugal: 5.9
  • Spain: 6.5
  • France: 6.7
  • Germany: 6.9
  • United Kingdom: 6.8​ 

These scores provide a comparative measure of subjective well-being across these countries, reflecting factors such as GDP per capita, social support, healthy life expectancy, freedom to make life choices, generosity, and perceptions of corruption. 

De notar que o valor mais elevado é obtido pela Finlândia que tem 7,8

Ou seja, também aqui, Portugal está abaixo dos países que acolhem grande parte dos nossos emigrantes. E este indicador é daqueles que, por ter um âmbito muito abrangente, mais diz sobre a qualidade de vida num país.

Podia elencar outros indicadores que traduzem a qualidade de vida (quer a real quer a percepcionada) mas isto é um blog, não pretende, de forma alguma, dar-se ares de compêndio...

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Em gestão há uma metodologia que se designa por Balanced Scorecards. As empresas identificam objectivos que pretendem atingir (transpondo para a realidade nacional, suponhamos que, em Portugal, se pretendia ter um índice de felicidade de 7 no prazo de 3 anos, um salário médio equivalente a 80% da média dos salários médios dos países acima referidos no prazo também de 3 anos, uma taxa média de IRS para salários até 150.000€ anuais equivalente à média dos referidos países também no prazo de 3 anos, etc., etc, etc...). Então, para cada objectivo, traçar-se-iam iniciativas para lá chegar, e métodos para as monitorizar bem como indicadores para ir avaliando periodicamente a sua prossecução.

Claro que, ao detalhar iniciativas, iremos ter iniciativas múltiplas seja ao nível da formação académica e profissional, seja ao nível das medidas sociais para incentivar a renovação demográfica, medidas para proporcionar estímulos lúdicos que ajudem a percepcionar uma melhor qualidade de vida, etc.

Ou seja, de forma integrada, monitorizável e mensurável, seria possível pôr o país a caminhar rumo aos mesmos objectivos, de forma convergente, inteligente, inequívoca.

Deixaria de ser uma realidade ao gosto de cada comentador, cuja avaliação é na base das bocas. Pelo contrário, passaríamos a trabalhar num registo de seriedade intelectual, de objectividade.

E teríamos a certeza que o que estaríamos a fazer não seriam medidas avulsas, de utilidade duvidosa, injustas, absurdas.

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Sobre o (grave) problema do SNS e da Saúde em geral, a ver se falo no assunto amanhã ou, senão, um dia destes. Contudo, vou já adiantando que a resolução do (grave) problema em causa não é tema para médicos.

segunda-feira, junho 10, 2024

Europeias 2024 -- os quês e os porquês
Análise, partido a partido

 

PS - Com uma AD que deu origem ao actual governo -- um governo desgraçado, que tem revelado uma atitude videirinha, pacóvia, ignorante e chico-esperta --, seria expectável e razoável que o PS conseguisse uma distância mínima de 5% em relação à AD. Mas não conseguiu. 

E não venham dizer-me que o PS ainda está a arrumar a casa, a juntar os cacos (como ontem ouvi, na televisão, um débil mental a dizer). Qual desarrumação? Quais cacos? Acaso o PS estava desarrumado? Acaso alguém tinha partido a louça toda? Estão malucos ou quê? O PS estava a governar e bem, tinha a casa arrumada. Poderia estar ainda muito agarrado a velharias, gente ainda muito saudosa dos maravilhosos tempos que se seguiram à queda da ditadura, gente que continua a sonhar sobretudo nos amanhãs que cantam. Mas, tirando o aspecto da renovação que já era (e ainda é) indispensável, era um partido bem dirigido. António Costa era um líder inquestionável.

A razão residirá, isso sim, muito na forma como este PS de Pedro Nuno Santos se posiciona. Continua a querer ressuscitar a geringonça, continua a querer agradar ao eleitorado mais à esquerda, mesmo quando está mais do que claro que esse eleitorado já praticamente não existe. 

Além disso, Pedro Nuno Santos funciona na base do eucalipto: à sua volta, nada. E isso foi bem patente na forma como se apresentou agora a cantar vitória. Em vez de aparecer rodeado pela equipa dos deputados eleitos, não senhor, apareceu ele, ele e ele. E num lado a Marta Temido e no outro o Carlos César. Muito mau. Depois de ter corrido com uma mão cheia de deputados notabilíssimos, nem para com os agora eleitos teve o gesto de os levar para o palco.

Da mesma forma como na política nacional não se sabe rodear de figuras de enorme qualidade como Mariana Vieira da Silva ou Fernando Medina ou Duarte Cordeiro (e outros a quem António Costa soube valorizar). Parece apenas dar ouvidos aos geringônticos Alexandra Leitão (e, de certa fora, Mendonça Mendes).

Ao parecer querer livrar-se de todos os que eram figuras de destaque na governação de António Costa e ao parecer não saber compreender a nova realidade, o PS não sabe ir buscar um eleitorado novo nem sabe recuperar a classe média que se deslocou para a sua direita por não se rever neste PS que, com Pedro Nuno Santos, aparece aos olhos do eleitorado como anquilosado e encostado a uma esquerda moribunda.

Ouvi Pedro Nuno Santos anunciar que vão lançar uns novos Estados Gerais. Espero que daí nasçam novas ideias. Espero que percebam que não é com Carlos César e outras peças de museu ou com Alexandra Leitão e outros saudosos da Geringonça que vão conseguir contrariar a tendência descendente que se vem desenhando. De resto, também não sei se a noite eleitoral era o momento ideal para falar nisto. Sendo estas eleições europeias tão relevantes, Pedro Nuno Santos esqueceu-se disso e só falou de política nacional. Muito curto em termos de visão estratégica. O que ali vi foi sobretudo o PS a olhar para o seu umbigo, parece que incapaz de olhar para o que o rodeia e para o contexto europeu.

Espero que consigam mudar (para melhor) pois o País precisa de um bom partido social-democrata.

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AD - Beneficiam da inércia e da deficiente informação dos eleitores tal como beneficiam do colo que a comunicação social lhes dá. Com Portas e Marques Mendes a fazerem campanha activa em horário nobre, ao domingo, em canal aberto (com a conivência da Comissão das Eleições) e com uma profusão de comentadores a manipularem a opinião política, conseguiram aguentar-se. Com o que têm demonstrado desde que formaram Governo, com um eleitorado bem informado e com um PS mais assertivo e inteligente, a AD teria levado uma banhada. Não levou. Mas é o que temos. De qualquer forma, penso que é uma questão de tempo.

Montenegro, na noite eleitoral, também não se lembrou de que se estava a tratar de eleições europeias. Não deve sequer saber quais os problemas europeus. Tudo o que disse me soa a conversa videirinha, saloia, a falar muito e sem acrescentar nada.

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Chega - Felizmente sofreram um trambolhão. Gostava que lhes acontecesse qualquer coisa como a que aconteceu ao PRD, ou seja, que um dia destes o Chega acabasse. Mas não sei, não. André Ventura não acabará, arranjará maneira de andar por aí pois nitidamente tomou-lhe o gosto, é um populista que não vai ser capaz de parar. André Ventura é inteligente, é ubíquo, é uma máquina, e, como sabe lançar sound bites em permanência, a comunicação social não o larga e isso chama os eleitores. Mas, enfim, assim como assim, os eleitores souberam dar-lhe um chega para lá e isso talvez faça André Ventura refrear a sua energia destrutiva.

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Iniciativa Liberal - Subiram e subiram bem. A democracia liberal é um caminho aberto e o eleitorado jovem e com sangue na guelra  bem como uma classe média informada e exigente que se vê abandonada pelos partidos do dito centrão dar-lhe-ão ímpeto para subir ainda mais. A nível europeu, o espaço da democracia liberal será, creio que cada vez mais, o oxigénio de que a democracia precisa para impor, com alguma modernidade e juventude, os seus valores, fazendo uma barreira contra o populismo e contra a direita reaccionária que tanto nos ameaça.

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Bloco de Esquerda - Caiu e caiu bem. O Bloco é um partido que por vezes está bem mas, na maioria das vezes, está mal, sendo frequentemente populista, agarrando-se a causas marginais, assumindo atitudes justicialistas e arvorando-se em dono da verdade.

Na intervenção que tiveram a propósito dos resultados eleitorais, considero patética a sua  alucinação a cantar vitória, a rirem, às palmas, todas contentes como se não tivessem percebido que a sua representação se viu reduzida a metade. De loucos.

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CDU -- Caiu e caiu bem. Continuam agarrados a ortodoxias de antanho, defendem já não se sabe bem o quê, não percebem que já não representam quase ninguém, ignoram tudo o que de novo e relevante se passa à sua volta. A intervenção de João Oliveira e do Raimundo é alienação em estado puro. Marimbaram-se para a política europeia (realidade que, a bem da verdade se diga, lhes passa ao lado), marimbaram-se para os temas mais relevantes da actualidade e sorrindo de gosto, eufóricos, cantaram vitória e reincidiram na única e estafada lenga-lenga que conhecem. Já vão em 4% dos votos, só conseguiram um deputado, e ali estiveram, contentes como se tivessem ganho as eleições. Não sei se isto deve ser visto como uma perturbação do foro psicológico ou cognitivo mas alguma é.

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Livre -- Tenho pena que não Francisco Paupério não tenha sido eleito. O Livre é uma esquerda moderna, ambientalista, humanista, informada. Como tenho vindo a dizer, acho importante que haja uma esquerda inteligente, informada, aberta aos novos temas. Gostava que, em Portugal, o Livre crescesse pois a democracia precisa de partidos assim. E a Europa precisa também de vozes jovens, civilizadas, democráticas, abertas ao futuro.

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Abaixo, as Primeiras impressões

Europeias 2024 -- primeiras impressões

 

A nível nacional:

Continuo triste e apreensiva com as elevadas taxas de abstenção. Não me interessa que seja menos 1 ou 2% ou por aí face às últimas. Mais de 60% das pessoas não se darem ao trabalho de votar.

Continuo triste a apreensiva com a capacidade de análise e com a inércia na reacção dos votantes, ao verificar que, sendo patente a inequívoca falta de qualidade, a todos os níveis, da AD e a estupidez que foi pegarem num comentador arrogante e agressivo (o facto de ter 28 anos até é pormenor) para cabeça de lista, ainda há tanta gente a votar neles.

E, para já, neste momento, só isso é certo.

Face à votação em mobilidade, como o Pedro Magalhães explicou, as sondagens à boca das urnas que serviam para a abertura das notícias este ano não estão calibradas. Portanto, não se consegue garantir a sua fiabilidade dentro dos intervalos que, noutras condições, era seguros.

Portanto, com as devidas reservas:

  • A ser verdade que o PS não descola, fico apreensiva por os Socialistas ainda não terem percebido que os tempos são outros. Se já nem os anteriores votantes no BE e na CDU votam neles, a que propósito o PS continua enleado na doutrina gerincôntica? 
Além disso, verifica-se que a nível de votantes, a faixa maioritária é a das pessoas com mais de 55 anos. Ora isto não é bom. Se um partido não sabe perceber e responder aos anseios dos mais novos e dos intermédios, acaba como o PCP... (ie, à medida que os mais velhos forem desaparecendo, o partindo tende para a extinção. Claro que ainda está longe disso mas os sinais já aí estão)
  • Não me espanto com o que se anuncia como a subida da Iniciativa Liberal. A ver vamos.
  • Ficarei bastante contente se se verificar que o balão do Chega desinflou. Mas vou esperar pelos resultados.´
  • Não fico admirada ao verificar que a esquerda-esquerda continua a caminho da extinção. O PCP e o BE bem podem reflectir. 
  • Gostava que o Paupério fosse eleito. Nos tempos que correm, o Livre é a esquerda inteligente e era bom que continuasse a subir e a ser reconhecida.
A nível europeu:
  • Estou deveras apreensiva com o que aconteceu em França. Muito.
  • Aparentemente, é uma tendência geral na Europa, embora talvez não tão acentuada como em França. O que sempre temo, que a democracia "por delicadeza se deixe matar", pode acontecer se não formos capazes de pensar com uma cabeça nova, uma mente aberta.

NOTA: Interessante a análise que o Sérgio Sousa Pinto tem vindo a fazer na CNN.