Tenho a maior admiração pelas pessoas que têm a coragem de emigrar para tentarem a sua sorte num local distante em que, apesar de não conhecerem ninguém e, muitas vezes, nem falarem a língua, acreditam que vão conseguir ter uma vida melhor.
No início do século passado, o meu avô paterno, creio que ainda adolescente, vivendo com a mãe e com duas irmãs (o pai tinha fugido para outro continente, não sei se por dívidas de jogo, se por outro motivo), foi até França e lá viveu algum tempo. Quando eu era pequena, gostava imenso que ele me contasse sobre as aventuras em que se viu metido, e gostava de ouvi-lo a falar francês. Adorava sobretudo a palavra fourchette.
Uma irmã ou irmão da minha avó paterna tenho ideia de que também viveu em França pois uma prima do meu pai tinha um nome francês e creio ter ouvido dizer que tinha nascido em França.
E dois primos do meu pai, irmãos dessa prima de nome francês, quando jovens adultos, resolveram também sair de Portugal, do Algarve mais concretamente, um para França, outro para Austrália. E por lá ficaram, por lá formaram família, tendo filhos que adquiriram essas respectivas nacionalidades.
Na actualidade, há uns anos, a filha da senhora que ajudou a tratar do meu pai e que depois apoiava a minha mãe foi para a Alemanha, em busca de um futuro melhor. Sem saber falar alemão. Foi para os armazéns do Lidl. Já tinha duas filhas pequenas que inicialmente ficaram com a avó e que depois foram para lá. Integraram-se, adoram lá viver, dizem que o apoio à maternidade e à criação dos filhos é uma maravilha, dizem que nem pensar regressar, que lá as escolas e tudo para as crianças é completamente gratuito.
Não tenho ideia de que nem os meus familiares nem a filha e as netas da senhora alguma vez tivessem sido maltratadas nos países onde são imigrantes. Nem faria sentido. São pessoas que vão trabalhar, que ajudam na economia desses países.
Aqui há dias estava a ver uma reportagem que decorria em Ceuta e em que se perguntava àqueles pobres coitados de onde eram, como tinham chegado até ali. Uns vinham do Sudão, já tinham passado por não sei quantos países, já andavam naquela 'aventura' há anos. Uns diziam que vinham a fugir à guerra e à miséria. Outros eram jovens, diziam que não tinham emprego na terra deles. Um dizia que gostava de poder vir a ser professor de línguas.
Corajosos. Lutadores. Guerreiros.
Eu, se fosse empresária, arranjava maneira de contratar o maior número possível deles. Gente rija, valente, determinada, gente que dará certamente valor ao que tem, gente que fará de tudo para se progredir, para ter uma vida com futuro, gente que quererá ou trazer a família ou constituir a sua própria, gente que se integrará, gente que corre atrás dos seus sonhos, gente destemida. Sinto a maior admiração por estas pessoas.
Em contrapartida penso que aquelas mulherzinhas toscas, ignorantes mas armadas em sabichonas, umas broncas que deveriam ter vergonha de abrir a boca em público, e que para aí andam a formar movimentos de mulheres parvas e a palrar quer nas redes sociais quer também nas televisões que perderam a vergonha na cara, são umas imprestáveis. Não daria emprego a uma única delas. Fúteis, parvas.
E quem diz essas mulherzinhas diz esses políticos aldrabões, sarrafeiros encartados. Nenhum se aproveita. E se agora ganham dinheiro a espalhar aldrabices e veneno porque alguém, mais ignorante e parvo que eles, os elegeu ou porque as televisões andam de cabeça perdida a querer ganhar audiência com gente medíocre que 'dá canal', uma coisa me parece óbvia: é gente a quem nenhuma empresa ou organização normal, em que se queira gente capaz de trabalhar, dará emprego. São umas nulidades.
E, claro, por cada burro e alarve que se arma em tribuno e desata a espalhar aldrabices, há uma horda tão ou mais bronca que os apoia.
Se os países fossem governados por gente de bem, face ao drama que se vive em tantos países em que há guerra, há miséria e poucas perspectivas, o que me pareceria inteligente seria avaliar de que mão de obra há falta por sector e abrir a porta aos que desses países queiram vir.
E, neste caso em concreto de Ceuta, ao mesmo tempo deslocaria emissários para lá e faria um levantamento da sua formação, da sua experiência profissional, das suas aptidões, dos seus sonhos. E tentaria arranjar uma solução, um match, distribuí-los-ia pelos destinos em que serão úteis. A Europa está envelhecida, com falta de mão de obra e com falta de sangue novo. Estas pessoas poderiam ajudar a colmatar esse défice.
Claro que a integração tem que ser planeada e bem pensada. Mas aumentar a população com gente nova, que vai ter filhos, que vem trabalhar, é do que Portugal e outros países europeus estão a precisar. Claro que Portugal, que já tem um grave problema de falta de habitação social, tem que urgentemente lançar ambiciosos programas de construção de habitação social, barata. Peguem em quartéis abandonados, em prédios devolutos ou construam de raiz. Não haverá dinheiro melhor gasto do que o que for investido na integração digna de todas estas pessoas que mantêm a nossa sociedade a trabalhar e que não têm onde dormir, onde tomar banho, onde criar os filhos como deve ser.
E em cada cidade em que haja uma força significativa de mão de obra imigrante eu faria questão de ter arte pública em honra a eles: uma escultura, um mural, o que fosse. Estas pessoas que atravessam guerras, fronteiras, que vêm a nado sem mais nada a não ser a roupa que têm no corpo e um telemóvel embrulhado em plástico são uns heróis e como tal devem ser louvados. E teria todos os anos, um dia do imigrante, um dia de festa, de celebração da mestiçagem, um dia que fosse um abraço.
Não tenho medo dos imigrantes, dos pobres, dos que têm uma pele diferente da minha. Pelo contrário, sinto-me agradecida, sinto-me em dívida, admiro-os.
Pelo contrário, sinto um profundo desprezo pelos cobardes que não apenas não reconhecem o quanto devemos a estas pessoas como, ainda por cima, não reconhecem como elas são corajosas, como conseguem trabalhar no meio de nós vivendo no limiar do cansaço, no limiar da indignidade, sem condições de vida minimamente aceitáveis.
Tenho muita pena que este mundo, em vez de se tornar cada vez mais inclusivo, com mais demonstrações de compaixão e de generosidade, seja, pelo contrário, um mundo em que prevalece a cobardia, a ignorância, a estupidez.
Não se pense, contudo, que o modelo de integração que defendo é o que resulta de movimentos caóticos (e maldosamente orquestrados por gente sem escrúpulos), do tipo da 'invasão' que aconteceu em Ceuta. Claro que não. Tudo deve ser planeado, articulado.
Mas tendo acontecido a desgraça que aconteceu, com tantos deles vindo ao engano, acreditando que as portas estavam abertas, que agora não se demonizem, que se apoie aquela gente, que se tente arranjar uma solução. São pessoas como nós. Certamente muitos deles, pela sua extraordinária coragem e pela sua imensa capacidade de arriscar, arriscar a própria vida, para atingirem o sonho de um futuro melhor, são melhores do que muitos de nós, que estamos acomodados, sempre prontos para renegar os que vêm de fora, sempre prontos para ir na conversa dos ignorantes e dos estúpidos que apelam ao medo em vez de apelarem à compaixão.
Parte-se-me o coração ver como aquelas pessoas estão agora a viver, fico em lágrimas quando os vejo a falarem da fome que passam, do frio que sentem à noite, quando referem que as famílias nem sabem por onde eles andam -- e, apesar de tudo, como ainda continuam a querer viver na Europa.
E só penso: o que podemos fazer para os ajudar?




