domingo, outubro 04, 2026

De que é que ele tem mais medo? -- Que descubram que é estúpido

 

Po vezes quase descreio da bondade e da inteligência da humanidade -- humanidade lato sensu, leia-se. Ao mesmo tempo que escrevo, apetece-me ironizar, gozar comigo própria por parecer que estou a dramatizar.  E estou. Mas, ao mesmo tempo, forço-me a esfriar as ideias. Já aqui escrevi: se fizermos uma viagem literária às arrecuas (arrecuas temporais, entenda-se),  vamos ver que, em todas as eras e em todos os quadrantes, os escritores mais observadores ou mais dados à crónica social achavam que estava tudo mal, cada vez pior, que a classe dirigente era uma miséria, que a decadência moral estava a corrroer os alicerces do futuro. E, no entanto, o mundo foi andando, muitas vezes aos solavancos, aos pinotes, muitas vezes desviando-se dos caminhos morais, muitas vezes anulando o progresso que outros construindo. Mas foi andando. Não colapsou. 

No meio das descrenças e decepções, vamos, portanto, andando.

Pela parte que me toca, lembro-me de, colectivamente, termos atravessado períodos de incerteza, de crise, de desalento. Crises financeiras, guerras por motivos inventados, a pandemia -- por exemplo. No entanto, não tenho ideia de um período em que a descrepitude moral fosse tão gritante. Em muitos países elegem-se como representantes os mais ignorantes, os mais broncos, os mais mal-intencionados, os mais inescrupulosos.  Os países em que isso acontece são, assim, arrastados para situações inimagináveis, para guerras absurdas, para impensáveis derivas imperialistas, para cruéis atentados, para situações em que os mais pobres ficam mais pobres e os mais ricos se tormam destemidos e desencabrestados oligarcas.

Olho para o mundo e não reconheço lógica ou inteligência, vejo perigosos aventureirismos, vejo desatinos atrás de desatinos, riscos impensáveis nas mãos de irresponsáveis. Assusta-me o futuro.

Veja-se o que acontece em Espanha. Lá, como cá e por todo o mundo dito civilizado, não há casas para os mais pobres ou para quem está em início de vida. Grande parte das casas que estavam em arrendamento normal viraram-se para o alojamento local, em que o rendimento é muito maior e o risco muito menor. Por outro lado, face ao envelhecimento da população, grande parte da força de trabalho pior remunerado é levado a cabo por imigrantes que ganham pouco e não conseguem pagar uma casa cuja renda é superior ao que ganham. E o mal não está no valor das rendas pois parece que todas se arrendam. Ou seja, há procura para casas com rendas elevadas. Portanto, estar a olhar para isso é pura miopia. Esqueçam-se as casas que hoje estão no mercado. O problema não está aí, o problema está nas casas que não há. O problema está na escassez de casas, em número absoluto. Escassez. Fixemo-nos nisso e não no preço das rendas. E, claro, em particular escassez a rendas baixas -- habitação social pura e dura. Só por vistas curtas se pode pensar que o problema está nos senhorios ou nos despejos. Claro que se tem que dar garantias aos senhorios senão ou põem as casas em alojamento local ou vendem-nas ou fecham-nas. Portanto, deixem os senhorios em paz, tranquilizem-nos. O problema não está nos senhorios. O problema é que não há casas que cheguem, em particular casas que os mais pobres possam pagar. Os imigrantes amontam-se em quartos superlotados ou em bairros ilegais e os jovens não desandam da casa dos pais. Este é o problema. O problemão.

O Isaltino anda há que tempos a dizer isto mesmo: ponham-se casas no mercado, usem-se terrenos públicos para que neles se construam casas económicas (porque, terrenos privados, a preços de mercado, são caríssimos, e isso encarece logo o preço final das casas; deixem-se os terrenos privados para casas dirigidas à classe média ou média-alta). Vi que em Espanha, perto de Madrid, o município pegou em terrenos públicos, estabeleceu uma concessão de 75 anos a privados que lá construam casas económicas. E em cerca de 3 anos eles fizeram isso. Num condomínio com parque iinfantil, piscina, boas condições e a cerca de 30 minutos de Madrid, um T2 ou T3 arrenda-se à volta de 1300 euros. E note-se que o nível de vida em Espanha é superior a Portugal. Por isso, o que impede que os municípios em Portugal peguem também em terrenos devolutos (e, se necessário, alterem o Plano Director), e façam parcerias público-privadas para construirem e arrendarem prédios com fartura, bem pensados, bem integrados, bem urbanizados, com T0 e T1 a 500 euros, T2 a 700, T3 a 900? Por exemplo. Mas muitos prédios. Acabe-se com os bairros clandestinos e com a indignidade dos quartos com gente a monte. Caraças. Custa muito perceber isto?

Eu insurjo-me mas, pelos vistos, custa. Porque, em vez de se pensar na solução e de se pôr pés a caminho e mãos à obra, anda-se à volta, à volta, à volta, e discutir tudo menos o que é relevante. Fazer casas baratas, pegar em prédios públicos e reconvertê-los, pôr no mercado casas a pontapé a preços baratos, népias. Só conversa -- e acção zero, bola. Um atraso de vida que até dói.

Em Espanha, perante a crise e perante as manifestações, com as Portas do Sol transformadas num acampamento, quando Pedro Sánchez quis fazer qualquer coisa para atenuar um pouco o problema, o resto dos partidos boicotaram-no e a lei não passou. A direita e os populistas, uma vez mais, a ensarilharem tudo.

E, no entanto, as pessoas votam nesta gente que faz muito barulho, que atiçam multidões, mas que, na verdade, não têm nenhuma solução. Os deputados que fizeram isto, estão no Parlamento porque foram eleitos. Parte da população elege os mais trauliteiros, mais arruaceiros, mais incompetentes, mais estúpidos.

É como nos Estados Unidos, o exemplo mais acabado da suprema estupidez colectiva. Apesar de ser um cretino, um estupor, um corrupto, um desavergonhado, um anormal que já levou não sei quantas empresas à falência, já não sei quantas vezes condenado, com um passado infecto de atentados contra mulheres, um narcisista maligno que não respeita a democracia, um ignorante que nunca leu um livro na vida, Trump foi eleito pela segunda vez. E, apesar de todos os dislates, de todas asneiras que já fez -- e asneiras é palavra fofa para designar os atentados de toda a ordem que cometeu -- a verdade é que continua ainda a ter uma percentagem significativa de apoiantes. 

Ensarilhou o mundo: uns pagam com a vida, outros pagam com carteira cada vez mais vazia. E vamos ver como vão correr as eleições de Novembro. Tudo o que faz corre mal, o que não espanta porque só faz porcaria. Mas é inspirado nele, no seu descaramento, no seu populismo, nas suas mentiras, na sua forma prepotente e aldrabona, que muitos movimentos políticos, por todo o mundo, se inspiram. 

Quem conhece bem Trump é Michael Wolff. Gosto imenso das suas análises, quando conversa com Joanna Coles. Esta última conversa é muito elucidativa. Seria bom que se pensasse nele como pessoa, como o ignorante, o estúpido e cobardolas que é, e não como se fosse um político normal.

E, na volta, passa-se o mesmo com os estúpidos que por aí andam, a fazerem de tudo para que ninguém descubra que são umas nódoas, uns zeros. Esta conversa é tanto mais interessante quanto revela os mecanismos de defesa (que, muitas vezes, se transformam em mecanismos de ataque) a que provavelmente todos os estúpidos com poder sempre recorrem.

Estas são as 10 coisas que mais aterrorizam Donald Trump | Inside Trump's Head

Michael Wolff e Joanna Coles revelam os medos que, segundo eles, impulsionam Donald Trump — desde o medo de ser exposto como pouco inteligente e incapaz de absorver informação até ao pavor da rejeição, do ridículo, da solidão e de perder o protagonismo. Wolff relata os esforços extraordinários alegadamente feitos para manter o historial académico de Trump em segredo, explica porque é que uma conversa comum pode deixá-lo vulnerável e descreve um presidente que precisa de uma audiência, mas que se esquiva ao contacto humano genuíno. Ao analisar como estas inseguranças moldam os seus ataques, obsessões e recusa em aceitar a derrota, Wolff oferece uma previsão arrepiante de como Trump poderá preservar o seu poder depois de deixar o cargo — e porque é que a sua sede de atenção poderá nunca o deixar desaparecer.


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Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, outubro 03, 2026

A época dos tesourinhos deprimentes, como diria o RAP
- De novo, a palavra ao meu marido --

 

Esta coisa dos tesourinhos deprimentes pega-se e parece que ninguém quer ficar atrás no concurso para tesourinhos do ano. 

Haverá tesourinho mais deprimente do que o protagonizado pelo MP que passou meia dúzia de anos a investigar uma cunha que parece não ter prejudicado ninguém e apenas acelerou a marcação de uma consulta? E que, de acordo com os que leram o despacho de acusação, suportou a acusação em percepções e enquadrou-a numa moldura penal injustificável mas, como parece ser prática corrente, com pena superior? 

E, já agora, parece curioso que a casa civil da presidência não tenha participado na cunha. Ou será só percepção? 

Quanto tempo mais vamos ter que suportar estes tesourinhos do MP? 

Quem concorreu também para este prémio foi o Ronaldo (Cris para os amigos). E, claro, concorreu para ganhar. Depois de uma carreira brilhante, que se arrastou penosamente nos últimos anos na Seleção, em que protagonizou vários episódios indignos do capitão de uma seleção nacional, decidiu, no meio de uma competição, mandar vir o jacto e cavar para Madrid. 

Seria preciso tanto para concorrer, com hipóteses de ganhar, ao título de tesourinhos deprimentes do ano? 

E vai daí o Luís (Montenegro, claro) seguiu, como nos tinha incitado a fazer, os passos do Cris. Para se posicionar numa boa posição para ganhar o prémio, telefonou ao Jorge e ao Cris para mediar o desaguizado, o que é obviamente uma das tarefas prioritárias da esfera do PM. Quando as comadres se zangam, vem o Luís e intervém. Que lhes terá dito? Imagino que ao Cris tenha dito "Volta, estás perdoado, podes continuar a arrastar-te na seleção até ao Mundial, aqui quem manda sou eu!" 

Imagem gerada pelo ChatGPT

Ao Jorge terá, provavelmente, referido, com algum azedume " É pá, deixa de ser rufia! O gajo é como eu, quer mandar em tudo, qual é o problema? Mete a viola no saco ou voltas para a Arábia. Aqui quem manda sou eu!". 

Será um tesourinho super deprimente se, como dizem algumas notícias, o Proença promover uma reunião para o "Volta, estás perdoado!". 

Os portugueses não têm que continuar a ter uma Seleção atrofiada por causa dos milhões dos patrocínios. 

Qual será o próximo tesourinho?

sexta-feira, outubro 02, 2026

Administração Pública: em grande parte, uma máquina de arrasto chamada burocracia

 

Hoje não me apetece escrever, estou arreliada. É o tipo de coisa que me tira a boa disposição, me mói, quase me esvazia. Decorrente da morte dos meus pais tenho enfrentado a grande, a devoradora, a verdadeira máquina de arrasto que é a Administração Pública. É certo que isto se passa porque herdei. Certo. Mas isso não é mal nenhum, pois não? 

Tal como grande parte das famílias portuguesas, os meus pais tinham casa própria. Ora porque a casa, uma moradia bi-familiar, foi construída para o meu pai e para o meu tio, e respectivas mulheres, num terreno que os meus avós paternos ofereceram aos filhos, incialmente foi registada na Conservatória como prédio único, embora na Câmara, no projecto e confirmado na vistoria, constasse que se tratavam de dois fogos, em regime de propriedade horizontal. Pouco depois, os dois jovens casais, foram ao Notário e fizeram uma escritura de aquisição de coisa comum. Os meus pais compraram aos meus tios a casa em que viviam e os meus tios compraram aos meus pais a casa deles, cada uma das casas com o respectivo logradouro. Depois foram à Conservatória e o artigo inicial deixou de existir e deu origem a dois artigos: o da casa dos meus pais e o da casa dos meus tios. Artigos separados. Foram às Finanças e nas Finanças dividiram o artigo inicial em dois. Tudo certo, sem qualquer problema. 

Entretanto, há uns anos, por obra e graça, nas Finanças alteraram a matriz quer da casa dos meus pais quer da casa dos meus tios e passou a vigorar o artigo inicial da Conservatória, anterior à divisão. E, também por obra e graça, os meus pais e os meus tios voltaram a ser todos proprietários de tudo.

Quando isso aconteceu, o meu pai já estava acamado. A minha mãe é que tentou tratar de tudo: foi às Finanças pedir para corrigir. Disseram-lhe que não, que tinha que ir pôr a casa em propriedade horizontal na Câmara. Na Câmara disseram que na Câmara o que já figuravam eram dois fogos, com pavimentos separados e mais não sei o quê, que a casa tinha sido projectada e construída nessa base. Foi às Finanças que lhe recomendaram que fosse então à Conservatória. Na Conservatória disseram-lhe para dizer nas Finanças que se deixassem de coisas e corrigissem, que o erro era deles, que na Conservatória já não havia nada que se pudesse pôr em propriedade horizontal pois as casas já estavam em artigos distintos. Voltou às Finanças. Disseram que não podiam fazer nada. 

Os meus tios fizeram as mesmas démarches e igualmente sem sucesso.

A minha mãe contratou um advogado que, do que sei, andou a calcorrear as mesmas capelinhas. Sucesso: zero.

Entretanto morreu o meu pai, depois a minha mãe. 

Iniciei eu o calvário. Exactamente a mesma coisa, nada a fazer. 

Entretanto, não consigo dispor da casa pois está como se apenas fosse dona de metade. Mais recentemente faleceu a minha tia. Resta o meu tio mas que, tendo problemas diversos de saúde, não quero incomodar com coisas que o perturbariam e confundiriam.Portanto agora a casa que era dos meus pais agora tem como donos eu, 50%, o meu tio 25%, e a herança da minha tia os outros 25%. Ou seja, a confusão amplificou-se.

E não faço ideia de como resolver isto pois, aparentemente, quem poderia resolver, a Conservatória, recusa-se pois diz que o que está, está bem feito e que as Finanças estão equivocadas, e que lhes compete a eles colocar nas Finanças o que está na Conservatória. E o que sei é não saímos disto. Já fiz, junto das Finanças, não sei quantas exposições, requerimentos, reclamações, recursos, sei lá que mais. Nada. Sempre a mesma resposta: não podem fazer nada.

Quando for a vez da minha prima herdar na totalidade vamos continuar na mesma, ambas donas da nossa casa e da casa da outra, sem que ninguém consiga fazer nada para corrigir a situação.

Como se deve classificar isto? Kafkiano? O reino do absurdo? A prepotência cega de uma máquina destruidora?

E como isto tenho enfrentado toda a espécie de buracos burocráticos onde se cai sem saber como, e sem se saber como se sai de lá. Por exemplo, a minha mãe tinha irs a receber no ano em que morreu. Portanto, herdei esse crédito. Ninguém imagina o que penei para o receber. Tive que ir presencialmente à repartição à qual a minha mãe estava adstrita preencher não sei quantos papéis, tive que pagar imposto de selo, que afinal era zero, tive que passar por todos os passos, declaração disto e daquilo e do outro. Meses. Meses. Era pouco, e mil vezes me diziam 'esquece isso, andas a maçar-te dessa maneira por uma coisa de nada'. Mas, para mim, era uma questão de princípio. Porque havia de abdicar de uma coisa que era devida à minha mãe? 

Dir-me-ão: sorte a tua porque herdaste. Certo. Mas, primeiro, não herdei milhões, não herdei fortunas, não fiquei milionária, e, segundo, fosse o que fosse, o normal é que, depois de ter tratado da habilitação de herdeiros, do imposto de selo e de mais não sei o quê, não tivesse que passar por um calvário para conseguir dispor das coisas. E, passado não sei quanto tempo, continuo com isto da casa tão embrulhado como no princípio e sem conseguir ver a luz ao fundo do túnel.

Imagino o que passam famílias com mais herdeiros ou com mais bens herdados ou que herdam quotas de empresas. Imagino também a quantos funcionários estamos nós a pagar para nos andarem a complicar a vida. Imagino ainda o que é isto a uma escala nacional, esta máquina trituradora que nos faz consumir tempo, dinheiro, paciência, que aniquila a produtividade nacional pois são não sei quantos funcionários que não geram riqueza, só empatam, só complicam, só fazem a vida dos outros andar para trás. Infernal.

Não anda para aí um ministro qualquer que supostamente ia acabar com estas máquinas de causar encrencas? Tenho ideia que ouvi falar nisso mas a verdade é que, se anda, não sei por nada.

Enfim.

Mas percebem porque é que hoje não me apetece escrever...? É que estou verdadeiramente maçada com isto, o meu dia foi passado a tentar avançar nem que fosse um milímetro... e não consegui. 

Dou em doida com isto. Juro.

quinta-feira, outubro 01, 2026

Montenegro & Sarmento - é gastar à tripa forra!
--- A palavra ao meu marido ---

 

O Montenegro acompanhado pelo Sarmento juram (quem mais jura mais mente!) que não é possível ajudar o povinho porque o orçamento não aguenta, e não querem correr o risco de haver défice no fim do ano. 

O que é curioso é que não é possível ajudar o povinho mas é possível ajudar os que estão em melhores condições para enfrentar a crise (por exemplo, o IRS jovem beneficia mais quem tem melhores condições). O ponto é o seguinte: o Estado deixou de arrecadar cerca de 1,3 mil milhões de euros com as medidas ditas emblemáticas do governo, como o IRS jovem e as isenções e apoios para os jovens adquirirem casa. E quais foram os resultados destas medidas levianas do governo? 

Os resultados são uma lástima! 

  • Embora não existam dados definitivos, a opinião generalizada é que a emigração jovem até parece ter aumentado. 
  • Relativamente à habitação, confirmou-se o que se previa: as medidas do governo originaram o aumento dos preços das casas e um aumento sem precedentes da taxa de esforço para muitos daqueles que adquiriram casa, o que poderá ter consequências muito nefastas para esses jovens num futuro próximo. 
Resumindo: a emigração jovem não diminui, a crise da habitação piorou e os cofres do estado arrecadaram menos 1,3 mil milhões de euros que tanta falta fazem para apoiar quem mais precisa na crise atual.

Para além de deixar de arrecadar dinheiro, a política do governo promoveu aumentos na função pública, muitas vezes sem critério, como aconteceu com os professores, que oneram bastante a despesa pública. São custos fixos, que passaram a pesar nas contas do Estado e esmagaram a margem de manobra necessária para superar situações de crise. É esta a política do governo AD tendo como expoente máximo a dupla Montenegro & Sarmento que, curiosamente, ao contrário do que acontecia com governos anteriores, não merece uma crítica veemente de comentadores económicos, geralmente próximos da apoplexia com governos anteriores. 

Governar também é saber ler os números, ser prudente e não hipotecar o futuro. Neste governo ninguém terá estas capacidades, muito menos o Montenegro. 

Ontem ouvi a parte final da entrevista ao José Luís Carneiro na CNN e gostei da forma como se apresentou e respondeu às perguntas. Apesar dos entrevistadores demonstrarem, como  também aconteceu recentemente na SIC, uma animosidade intrínseca, não conseguiram montar as armadilhas que pretendiam. Pode gostar-se ou não das políticas do PS, mas é certo que se percebe que o José Luís Carneiro é uma pessoa honesta, sólida, que conhece os dossiers e que está a tentar definir uma política que possa projetar o Pais para um futuro melhor. Quando o comparamos com o Montenegro e com o Ventura as diferenças para melhor saltam à vista, a começar pela honestidade intelectual. 

Alguém que afirmou no Parlamento que tinha uma empresa para gerir terrenozitos com meia dúzia de árvores de fruto quando, afinal, a empresa prestava serviços de consultoria diferenciada, recebia avenças para completar ordenados e suportava custos, é intelectualmente honesto? E um tipo que  publica geralmente notícias falsas é honesto? Não são, pois não? 

Para além disso se são impreparados e não conhecem os dossiers pouco se pode esperar deles. Estou convencido que o José Luís Carneiro, se continuar neste caminho, dará um bom primeiro ministro. Espero que sim. 

CR7, aquele que não soube sair a tempo

 

CR7, o Patético


quarta-feira, setembro 30, 2026

IA: uma questão de upsides e downsides com muitos $$$$$ à mistura

 

Há um vídeo que mostra uma senhora finíssima, vestida de uma forma sóbria mas distinta. Os gestos são discretos mas elegantes. Reconheço o estilo, é o agora chamado old money. Dá conselhos sobre o que deve constar do roupeiro de uma mulher de bom gosto sem ter que ter muita coisa a atravancar os armários, ou sem necessitar de gastar muito dinheiro. As pessoas assim, old money, são poupadas e não gostam de dar nas vistas pelo que poucas peças, monocolores, em que todas condizem com todas e em que a qualidade é boa, resolvem bem a questão da elegância e da economia. A senhora dá conselhos também sobre como pegar num copo de vinho, explica porque se deve pegar sempre pelo pé e não pelo bojo. Regras simples de como estar à mesa, de como conviver em sociedade. Cada vídeo debruça-se sobre um tema. Todos os conselhos me parecem correctos, não ouvi um único que me parecesse deslocado do contexto ou que contrariasse o que sei ou penso sobre o assunto. 

Mas o meu faro está cada vez mais apurado. Fui ver o perfil. Confirmei: a senhora não existe, os lugares em que se move não existem, tudo aquilo é gerado por inteligência artificial. Tudo.

Um outro vídeo: uma série típica dos anos 60 ou 70, uma família americana em que as cenas divertidas se sucedem. Aparece, então, por cima, um homem dos tempos presentes a dizer: 'o que estão a ver nunca foi filmado na realidade, aqueles actores não existem, tudo isto é gerado por inteligência artificial'. A seguir ele explica: 'enquanto está a ser difundida a série, decorre uma sondagem junto da assistência a perguntar como deve evoluir o argumento e, acto contínuo, no momento, o argumento da série adapta-se à sugestão mais votada -- podem entrar novos personagens, pode alterar-se o cenário, mudam os diálogos, mas tudo com coerência, sem saltos bruscos'. E, enquanto ele diz isto, nós assistimos a uma demonstração da capacidade da 'ferramenta'. No fim ele interroga-se sobre os riscos disto: poderemos estar a ver noticiários em que os jornalistas mostrem reportagens e em que se convidem pessoas a comentar o que se sucedeu, e ser tudo mentira, tudo inexistente, tudo gerado por IA, tudo assustadoramente real? Como vamos distinguir o real do falso?

Ouço os defensores acérrimos da inteligência artificial, os que só veem o upside da coisa (e uso a palavra upside deliberadamente, pois é assim que os fãs falam): os extraordinários avanços que a IA vai trazer à medicina, à matemática, à física, à biologia, à gestão, à história, ao direito... e por aí adiante.

E eu, que reconheço tudo isso, junto-me aos que, apesar de louvarem os benefícios, temem o que o downside pode fazer à sociedade. Sobretudo quando penso que cerca de 35 a 30% da população de alguns países, se calhar de muitos países, é ignorante, crédula, manipulável, estúpida até à quinta casa, e vai acreditar em tudo sem pestanejar, vai caminhar para o cadafalso a cantar e a rir como se fosse para uma festa (tal como hoje convictamente votam em tudo o que é alarve -- veja-se o caso de Trump, de Ventura, e de todos os que, do mesmo género, vão ganhando força nos países democráticos), fico francamente preocupada com o que estamos a fazer ao futuro dos nossos filhos e netos e aos que vierem a seguir. Temo que não seja coisa boa.

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Enquanto isto, se quisermos perceber porque não se conseguirá regular esta evolução e, muito menos, travá-la, nada como follow the money. Cito, apenas como exemplo, e para ilustrar a distopia absoluta, a incoerência paradoxal:

Anthropic alerta para riscos existenciais da IA ​​para a humanidade num documento IPO. Os investidores são alertados sobre os "comportamentos de autopreservação" da IA ao mesmo tempo que a empresa se prepara para uma possível oferta pública inicial de 2 triliões de dólares.

O mundo está a ficar um ninho de cucos sobre o qual voamos, no qual mergulhamos, no qual parecemos querer afundar-nos.

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Para aligeirar, dancemos ao som da agradável canção do vídeo abaixo.

E creio que será escusado dizer que ninguém compôs a música, ninguém a interpretou, ninguém deu corpo aos personagens, ninguém criou o cenário, ninguém filmou, ninguém tratou do guarda-roupa ou das luzes ou do som. 

O dinheiro que se poupa... 

Não é preciso ninguém. Só é preciso alguém usar a aplicação e escrever que quer um vídeo com um toque surrealista, com pessoas e animais, uma música pop no mesmo mood. E está feito. Tem um upside, então não tem? Um upside gigantesco. 

Mas e a quantidade de gente que se arruma a um canto, desnecessária? É para aqui que caminhamos? A aperfeiçoar-nos cada vez melhor para nos tornarmos cada vez mais irrelevantes?

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Surreal AI Music Video - "A Very Unusual Town" - Kelly Boesch | 4K

Legenda do vídeo: Uma cidade muito peculiar. Adoro quando um vídeo combina tão bem com a música. Estes clipes parecem um conto de fadas. Imagens feitas com #Midjourney e animadas com @Hailuoai_MiniMax #Minimax. Música feita com @suno.


Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, setembro 29, 2026

Se há uma mão invisível que vem de lá e toca no meu coração ou na minha pele ou nas minhas vísceras então é porque é arte?
Pergunto.

 

Há temas que me são caros, talvez porque encerrem um enigma que não consigo deslindar. O tema da arte é um deles. O que é a arte? Como distinguir se uma obra é arte, se é artesanato, se é artifício, se é uma mera provocação?

Imagino que isto seja tema de estudo nos cursos de Arte ou de História da Arte. Poderia, agora, ir pesquisar sobre o que se diz sobre o tema, talvez até interrogar as inteligências artificiais, mas não quero. Prefiro que permaneça sem resposta.

No outro dia, ao conversar com uma amiga que ensina e pratica a matéria, ela dizia que também não tem resposta: qual a fronteira entre uma escultura e um objecto de decoração? Quando a dúvida lhe ocorre, ela sabe formular a pergunta mas não arrisca na resposta.

Desde muito cedo me interessei por arte. Enquanto estudava na faculdade, era rara a semana em que não me enfiava na Gulbenkian. Como entrei para a faculdade aos dezassete anos, posso dizer com segurança que parte de mim se formou nessa altura, no contacto directo com todas as formas de arte. 

Já contei várias vezes o efeito que uma grande exposição do Miró provocou em mim: espanto, dúvida, admiração, alegria, incompreensão. Isto também é arte?, perguntava-me eu. Na altura não consegui assimilar tudo. Ao longo dos anos, as imagens foram fazendo o seu caminho dentro de mim. Algumas palavras foram criando raízes. Fascínio. Liberdade. Como se consegue ser tão livre a ponto de encher telas com cores e símbolos e estrelas e pontinhos? Como se consegue ser tão livre a ponto de fazer peças com escadas, sapatos e peças de roupa? Como se consegue que aquelas cores e formas façam tanto sentido?

E aquela exposição de Rodin, que comoção. Não conseguia deixar de andar de volta daquelas figuras. E depois a obra que mais me marcou, quase a mais insignificante. Até hoje, uma imagem que ficou gravada em mim. Voltei ao puro encantamento ao revê-la, anos mais tarde, em Orsay. Celle qui fut la belle Heaulmière. Uma escultura relativamente pequena, uma mulher curvada, enrugada, os seios esvaziados, caídos, o ventre lembrando talvez distantes maternidades. Outrora bela. Aquela que em tempos foi bela. A inclemência com que se pode olhar para um corpo velho e apenas ver nele a sombra do que se foi.

Tive vontade de chorar pela beleza da mulher, ainda tão bela na sua nudez sugada pelo tempo. Arte, sem dúvida. Arte maior.

Tantos exemplos. Um dos casos que mais me toca, não apenas porque é dos pintores que produz em mim um impacto emocional mais forte, mas também porque me deparo com a total indiferença, senão mesmo repúdio por parte da maioria das pessoas com quem falo. Rothko. Não tenho como explicar. Leio que acontece muitas pessoas ficarem em frente de uma tela de Rothko e chorarem. Comigo aconteceu isso. Sempre me senti inexplicavelmente atraída pelas suas pinturas. Conhecia de livros, de vídeos, de documentários. Mas quando me vi em frente a uma, de uma dimensão maior que eu, fiquei quase hipnotisada, não conseguia dizer nada nem afastar-me dela. Parece que me apetecia entrar por ela adentro. E, estando ali, ao vivo, apercebi-me de nuances de cores, da transição esfumada entre as faixas de cor de que não tinha tido ainda total percepção, e isso provocou em mim um efeito ainda mais imersivo. Quem não vê ali nada, não consegue sequer perceber o que digo. Acham que aquilo não vale nada, dizem que o filho ou neto de cinco anos faz melhor. Já ouvi esse comentário mil vezes. Mesmo que se saiba que o valor de mercado é brutal, cada tela vale muitos milhões, ainda assim consideram que as excentricidades do mercado não transformam uns borrões sem graça nenhuma em arte. E eu não sei rebater. Sei apenas que, para mim, é arte, arte suprema, intemporal, quase imaterial. Não sei dizer se o que ali vejo é beleza. Creio que é mais que isso, é transcendência. Não sei o que é o espírito, não sei mesmo, mas creio poder dizer que as pinturas de Rothko alcançam o que em mim há de mais espiritual. 

Mas tudo isto é subjectivo.

Estava agora a escrever e a lembrar-me de um dia ir a conduzir e ouvir uma entrevista a um escultor de cujo nome não me recordo. Contava ele tinha uma vez estava a esculpir uma figura meio abstracta que, na ideia dele, simbolizaria a compaixão. Estava a trabalhar nisso com as suas ferramentas, a aperfeiçoar a peça. Então, entrou uma pessoa no espaço onde ele estava a trabalhar e, ao ver a figura que ele estava a esculpir, emocionou-se e benzeu-se, como se aquilo não fosse o bocado de pedra no qual ele estava a trabalhar mas um personagem religioso a quem já se devia respeito e devoção. Ele contava isso com alguma estranheza e, ao mesmo tempo, com indisfarçavel emoção, como se a peça naquele instante tivesse deixado de lhe pertencer, como se tivesse adquirido alma e voado. E eu, ao ouvi-lo, percebi como pode ser estranho tanta gente rezar e benzer-se e dirigir-se ao divino quando está em presença de peças esculpidas por uma pessoa. Acontece e alguma explicação há-de haver.

Nestas matérias em que a subjectividade impera, não há conclusões: há mistérios. E é na ignorância da sua explicação que poderemos maravilhar-nos, deixando-nos levar nas asas dos indecifráveis enigmas. Afinal a arte está em quem a sente -- talvez seja isso. Só isso.

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Não me canso de ver vídeos sobre Rothko mas aqui contenho-me e coloco um com apenas um minuto, um shot, coisa que se pode ver quase de penalti

Mark Rothko em 60 segundos


Desejo-vos uma boa terça-feira

segunda-feira, setembro 28, 2026

A atitude de Nuno Markl perante o AVC. E a atitude do meu pai também perante o seu AVC.

 

Em especial quando a coisa me toca de uma forma profunda e, ainda mais, quando já aqui a abordei tantas vezes e segundo diversas perspectivas, evito falar. Soará a déjà vu, poderá ser uma seca.

Estou com o computador no colo e já me ocorreu escrever sobre diversos outros temas, mas a verdade é que não comecei, e isto porque o que se sobrepõe é o AVC do Markl. 

AVC
Imagem gerada pelo ChatGPT

Por isso, rendo-me, não há volta a dar: é sobre isso que vou voltar a escrever. 

Quando eu tinha uns quarenta anos, numa manhã, no trabalho, soubémos que um colega tinha saído a voar para o hospital, que tinha acontecido alguma coisa à mulher. Ninguém sabia ao certo o que seria.

Só apareceu no dia seguinte e por pouco tempo. Muito transtornado. A mulher tinha tido um AVC gravíssimo. Ele ainda não estava nele. Julgava, como eu também julgava, que era coisa que acontecia a pessoas mais velhas. Ela, jovem, magra, dinâmica, seria a última pessoa a quem se pensaria que podia acontecer. Factores de risco: fumar muito e, disse ele, parece que também poderia ter a ver com a pílula. Mas, ao certo, ele pouco sabia dizer, estava em pãnico. Esteve em coma, ela. Temeu-se o pior. Quando estava a trabalhar, ele mal conseguia falar no assunto, custava-lhe a acreditar. Com filhas pequenas, foi um pesadelo que se abateu sobre a família. Sobreviveu. Perdeu a fala, perdeu o andar. Teve uma recuperação lenta, difícil.

Anos depois, quando ela já trabalhava normalmente, estive num almoço em que ela estava na minha mesa. Fez-me muita impressão. O marido já me tinha avisado: normal, normal, ela não está, as palavras por vezes vão e não vêm. Por isso, eu já estava preparada. Talvez o que me tenha feito mais impressão é que continuava a fumar. Parecia inconsciente do risco. Mas, a falar, também exigia de nós uma atenção grande. Por exemplo, disse-me: 'passas-me aí o relógio?'. Fiquei a olhar, espantada. No entanto, vi que tinha estendido a mão na direcção do cinzeiro. Dei-lho, e ela agradeceu, aparentemente sem se dar conta da troca da palavra. Depois, mais à frente, queria dizer botão e dizia 'aquilo que entra na casa'. Mas dizia isto no meio da conversa, normalmente, como se não percebesse que, quando estamos a conversar normalmente, usamos palavras e não charadas. A seguir a conversa derivou para o ensino e ela, animadamente, queria criticar a reforma que a ministra tinha introduzido. Contudo, seguir a sua conversa foi um desafio. Apesar de me parecer que ela agia como se estivesse fluente, a sua conversa soava quase incongruente, embora me parecesse que talvez fosse porque não usava as palavras certas. Isto, enquanto fumava cigarro atrás de conversa. Quando comentei com o meu colega o facto de ela fumar tanto depois do AVC tão grave, ele encolheu os ombros: 'Já desisti. não é fácil... Percebeu isso, não percebeu?'. Noutra vez ele comentou: 'À vista desarmada parece bem, ninguém diz aquilo por que ela passou, recuperou os movimentos, anda bem, tem força nos braços. Mas a cabeça....'

Cada caso é um caso, disso não há dúvida.

O livro "Valsa lenta" no qual José Cardoso Pires relata como foi com ele: outros sintomas, outra evolução (e outra aflição).

Com o meu pai, metade do corpo foi à vida: a perna, o braço, e o campo visual daquele lado ficaram inactivos. Os movimentos da perna e do braço acabou por recuperar. A boca ao lado, ao fim de um dia ou dois estava normal. A fisioterapia faz milagres. Nunca simpatizou nem com andarilho nem com bengalas, quase como se quisesse preservar o orgulho de conseguir andar pelos seus próprios meios. Andava sozinho, embora agarrando-se aos móveis, subia e descia a escada sozinho, apoiado no corrimão, andava sozinho no jardim. O meio campo visual é que se perdeu irreversivelmente. E a orientação geográfica de proximidade, de início, também. Para sair do quarto, abria a porta do roupeito e ficava desorientado, sem perecber como entrar, para ir para a sala não sabia se era para a esquerda ou para a direita, quando estava na sala às tantas dizia que queria ir para casa, quando afinal o que queria era deitar-se.

E acertar com a medicação foi difícil. Por vezes alucinava, dizia que havia uma fenda na parede, queria que a minha mãe chamasse um pedreiro para arranjar a parede. Outras vezes, dizia que tinha deixado ficar as chaves num sítio em que poderia vir alguém e pegar nelas. A minha mãe dizia que as chaves estavam no lugar delas e que não entrava ninguém dentro de casa que as levasse, e que não havia fenda nenhuma. Então, exaltava-se, gritava, achava que a minha mãe não ligava ao que ele dizia, achava que a minha mãe negava a evidência de uma corrente de ar que passava pela fenda. A minha mãe chegou a dizer que já não o aguentava mais naquele estado, e que eu fosse lá a casa resolver o assunto. Quando lá cheguei, vi que ele estava num estado de pressão assustador, parecia ir rebentar a qualquer momento, enervado, stressado, a tender para o agressivo. Consegui levá-lo ao hospital. Alteraram-lhe a medicação e ficou bem. Outras vezes estava num estado de prostração que nos deixava a temer o pior. A minha mãe ia falar com o neurologista que alterava a medicação e ficava melhor.

Passava temporadas muito bem. Autónomo a nível das refeições e da higiene, sentava-se e levantava-se sozinho, conversava normalmente. A perna e o braço que ao princípio não mexiam, voltaram a funcionar. Chegou a ir passar o natal a nossa casa, chegou a ir passar o dia à nossa casa no campo, andou por lá a passear (com a minha mãe ou eu a dar-lhe a mão), chegou a ir ao casamento do meu filho (quando foi o da minha filha ainda estava bem). Só declinou de forma muito evidente quando partiu o colo do fémur na sequência de uma queda e foi operado. A partir daí tudo se complicou de vez.

Quando vejo o Nuno Markl no seu passo ainda hesitante, quando o vejo com o braço inerte, inevitavelmente penso no meu pai.

Mas vejo como ele encara as limitações com sentido de humor e, aparentemente, sem pudor e sem receios. E constato como isso é positivo.

O meu pai não. Sentiu o que lhe aconteceu com tristeza, desânimo. E não gostava que o vissem assim. E não gostava de sair de casa não apenas porque parece que se sentia humilhado por outrora ser tão autónomo e em tão boa forma física e, naquela altura, já tão frágil, a carecer da mão de alguém. Sobretudo, apavorava-o a perspectiva de ter vontade de ir à casa de banho e, com a sua lentidão e dificuldades, não chegar a tempo. E isso, para ele, seria a humilhação maior, temia ser objecto de comiseração ou chacota.

A forma como o Markl brinca com a situação, apesar de ainda ter os movimentos da perna um bocado presos e de ter um braço ainda incapacitado, a forma como se arrisca a ir para um palco ou para um estúdio de televisão, talvez demonstrre que parte da forma como o corpo reage a uma rasteira destas tem muito a ver como o modo como a cabeça reage.

Enquanto teve energia e cabeça para isso, o meu pai empenhava-se fortemente na fisioterapia e nos exercícios. A sua tenacidade enchia-me de orgulho e os seus progressos espantavam-me. Mas tudo o que fazia, fazia sempre com tristeza, sempre como se a vida o tivesse privado do prazer de ter liberdade de movimentos e total autonomia durante os últimos anos da sua vida, como se percebesse que não poderia voltar a ir fazer caminhadas para a praia, não poderia voltar a ir passar férias no verão para o Algarve e na primavera para a Curia ou para um desses sítios de que tanto gostavam. não poderia voltar a conduzir, não poderia fazer as suas marcenarias, não poderia voltar a ir ao mercado comprar peixe fresco, não poderia voltar a fazer as suas belas caldeiradas para a família. Essa consciência das suas limitações faziam com que se sentisse diminuído e, no seu íntimo, ele sentia-o como uma condenação a uma morte antecipada. E talvez isso fosse um acelerador para o seu declínio, enquanto o optimismo e o sentido de humor do Markl talvez sejam um reforço vitamínico, um autêntico catalisador para uma recuperação mais feliz.

Mas não sei. Não há AVCs iguais. Não há pessoas iguais. Esta é uma realidade complexa (e temível).

Bom mesmo é prevenir o mais possível pois passar por uma destas não é bom para ninguém. E bom mesmo seria que houvesse instituições públicas que apoiem na recuperação de pessoas a quem isto acontece. Pessoas sem condições para estarem internadas meses numa clínica privada ou para pagarem fisoterapia privada três vezes por semana ao domicílio durante meses como fazem? Entregam-se à fatalidade de ficarem acamados até morrerem? Isso, sim, deveria ser objecto de reflexão para os nossos políticos. Toda a gente tem direito à dignidade e à recuperação na sequência de um acidente. E escrever isto não deveria soar a lirismo.

domingo, setembro 27, 2026

Reencontros felizes

 

Se grande parte dos dias podem ser bons apenas porque não são maus, outros há que são bons porque são mesmo muito bons. Felizmente não tenho de que me queixar, mas há situações que, mais do que serem-me agradáveis, são verdadeiros presentes da vida.

Toda a minha existência tem sido feliz, ou, pelo menos, boa, e cada vez mais penso que isso se deve, sobretudo, a ser descomplicada, a não querer saber do que me indispõe ou maça e a dar muito valor ao que me apraz. Raramente me aborreço com o que não tenho, raramente desejo o que sei que está fora do meu alcance. E digo raramente para não dizer nunca. Pelo contrário, contento-me com pouco. E também não quero saber do que dizem ou pensam de mim. E não é por arrogância, é mesmo porque nem me ocorre ligar a isso. Muitas vezes já aqui disse, e disse-o com sinceridade: acho-me muito básica, muito primária, quase ao nível dos animais que se dão por felizes com o que têm e que vão às estrelas quando recebem qualquer coisinha, em especial quando dada com afecto.

E este meu sábado foi mesmo muito bom. Não abano o rabo porque estou sentada a escever, mas, por dentro, estou toda sorrisos e agradecimentos mil. Reencontrei uma vez mais muitos amigos que vêm de um outro tempo, do tempo em que tínhamos todos o futuro inteiro pela frente. 

Imagem gerada pelo ChatGPT para ilustrar aquilo de que aqui falo

E bora lá com música:
In my life - The Beatles

O futuro agora é mais curto. Mas não interessa, tudo é bom enquanto dura. 

Senti a falta dos que não puderam ir e não pude deixar de sentir ainda mais dolorosamente a falta dos que entretanto partiram. Quando estive pela última vez com estes, os que entretanto partiram, não sabia que não haveria próxima vez, e eles, se calhar, também não. É muito triste que tenham sido levados. Parece que não faz sentido, que foi injusto, que eles não mereciam ser afastados da festa que pode e deve ser a vida.

Mas é o que é. E a vida continua. Por vezes faz sentido invocar alguns lugares comuns e este é um deles: a vida continua. E há que agarrá-la bem porque, como sabemos, é fugidia, tantas vezes traiçoeira.

Por isso, é com ambas as mãos que agradeço a vida que me habita, a vida que habita os meus, a vida daqueles a quem quero bem, a vida daqueles que me acompanharam quando eu era uma jubilosa menina e que agora, tantos anos depois, ainda partilham aqueles instantes de cumplicidade e empatia que parece que nos uniram para a vida.

Quando falo sobre estes felizes reencontros apetece-me sempre aqui falar, mais em particular, de alguns dos meus amigos. Num dos últimos assim fiz e, no dia seguinte, tinha uma mensagem de um deles. A filha tinha lido o que eu tinha escrito e percebeu que eu estava a referir-me ao almoço a que o pai também tinha ido. Ligou ao pai e ele logo descobriu o enigma. O blog é anónimo mas é escrito por uma pessoa com uma vida real e, por vezes, alguns apontamentos, sabe-se lá como, chegam a quem os consegue decifrar. E eu, mais do que surpreendida, fico feliz, quase como se fosse um milagre.

Desta vez tenho que reconhecer: contei à menina que me ofereceu a linda árvore que me foi dada como sendo da baunilha mas que, afinal, não dá baunilha mas, sim, umas delicadas florzinhas violetas que se alegram quando o sol lhes dá, que não apenas estou no instagram como tenho este blog. Por isso, para ela, o blog não é anónimo. 

Ao longo dos anos, aqui, ao recordar os meus tempos de menina e adolescente, várias vezes me referi a ela. Ela diz que, naquela altura, era tímida, apagada. As pessoas têm percepções de si próprias que muitas vezes não correspondem às percepções alheias. É o caso. Nunca a achei apagada. Pelo contrário, sempre a achei a mais bonita de todas e muito sincera, genuinamente boa pessoa, divertida, muito espontânea. Nós duas, em conjunto com uma outra, ríamo-nos imenso, achávamos graça a tudo, entre nós ríamo-nos dos traços pitorescos dos outros, imaginávamos situações divertidas. Não tínhamos segredos. Eu, pelo menos não tinha, partilhava dúvidas, amores, contava tudo o que sentia ou pensava, falava das minhas ideias, e sentia-me sempre acolhida por elas. Aos meus olhos ela não era nada apagada: era uma parte muito importante da minha vida.

Seguimos cursos distintos, eu saí logo de casa dos meus pais, só ia ao fim de semana, enquanto elas continuaram a viver em casa. Portanto, deixámos de nos ver. Não havia telemóveis, as comunicações eram complicadas para quem não frequentava os mesmos lugares. Arranjei novos amigos, casei, fui viver para outra cidade. A vida levou-nos por caminhos divergentes. 

Mas eu pensava muitas vezes nelas. Com uma ainda mantive algum contacto, ainda a visitei levando já a minha filha, ela também já com um filho. Com esta de que falo não. 

Por obra e graça de algumas almas generosas que fizeram o trabalho de formiguinhas, encontrando o contacto de uns e outros e fomentando a reunião, voltámos a encontrar-nos todos. Uma felicidade.

Com esta minha amiga -- a que se lembra de si própria como sendo uma menina tímida e apagada mas a quem recordo como luminosa e de uma inocência extraordinária, tocante mesmo --, voltei a sentir aquela compreensão que sempre senti. Parece que adivinho o que ela pensa, e solidarizo-me com tudo o que ela diz e pensa e sente. Mesmo quando ela, adolescente, se encantou por uma pessoa que a mim me parecia não reunir as características de príncipe encantado com que ela sonhava, eu compreendi. Eu olhava para ele e pensava que ele não seria o amor para a vida inteira com que ela sonhava, e tinha pena, mas, ao mesmo tempo, percebia o que nele a encantava: a subversão, a suprema irreverência, a ideia de liberdade. E, por isso, tenho ideia que não fui capaz de lhe dizer o que achava dele, dizer que não fosse por aí, pois pensava que, se calhar, apesar de não ser para a vida toda, enquanto durasse talvez a fizesse feliz, e essa felicidade não lhe deveria ser negada. E quando a felicidade, mesmo que incompleta ou breve, dá frutos, então, claro que vale a pena. Que se esqueçam as desilusões e que se louve a felicidade dos frutos que o romance fez nascer.

O tempo passou, as nossas vidas andaram para a frente. Percursos diferentes. Mas, dentro de mim, ainda sinto que, se ela precisar, estarei lá para ela. Sempre, incondicionalmente.

Também me apetece falar de uma outra, amiga um pouco mais tarde, mas muita amiga nos tempos de faculdade. Alegre, alegre, brincalhona, por vezes truculenta, tiradas divertidas, por vezes com uma deliciosa malícia. Cumplicidade também total. Acompanhou os meus animados tempos a nível amoroso, brincava com isso. Nunca tive segredos com ela. Sabia das minhas dúvidas, da minha queda cada vez mais fatal por um e pelo meu desligamento cada vez mais irreversível de outro. Assistiu a tudo. Ainda me lembro de estarmos as duas, eu à espera de um, e ela anunciar com sobressalto na voz: 'Olha! Ele vem aí!', como se estivesse a avisar-me que o outro tinha aparecido, e eu, em pânico, a pensar que a coisa ainda ia dar para o torto, os dois frente a frente. Depois ria-se do susto que me tinha pregado. Continua igual. Brincalhona, leve, leve, amiga da boa disposição.

E talvez amanhã fale de outras duas. Não hoje que o texto vai longo. 

Só lhes desejo bem, a todas. A todas e a todos, que nisto, como em nada na vida, não sou sexista. Que tenham saúde. Que a vida lhes corra o melhor possível. E que por muitos e bons anos continuemos a encontrar-nos, a gostarmos de estar uns com os outros.

E, de resto, talvez não seja preciso muito para sentirmos momentos de felicidade, talvez baste apenas reconhecer como felizes estes momentos em que nos sentimos bem.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, setembro 26, 2026

A contradição do silêncio

 

Francamente nem sei bem como se me têm esgotado os dias que desaparecem ainda mal eu estou com vontade de os começar. Tenho tido afazeres, assuntos a tratar, e tudo o que mete tefonemas traduz-se num exagerado consumo de tempo. Aliás, ainda estava a dormir, um telefonema de que eu estava à espera (mas que não esperava que fosse tão cedo), que durou um bom bocado e que foi rematado com a combinação de uma video chamada para daí por um bocado. Felizmente tenho facilidade em passar do estado de sono profundo para completamente desperta numa ínfima fracção de segundo pelo que acho que ele nem percebeu que me acordou. 

Fui a correr dizer ao meu marido pois era importante que ele estivesse nessa reunião. Estava a entrar com um podão, certamente já tinha cortado vários ramos sabe-se lá do quê. Respondeu que queria ir passear o cão, ir à ginástica, etc, etc, pelo que me entendesse eu sozinha com o outro. E eu que nem pensar, que se deixasse de coisas, que tinha que estar. E ainda estávamos nisto, eu sem roupa, acabada de sair do quarto, sem as minhas abluções matinais, toca outra vez o telefone. Chamada de vídeo. Imagine-se. E eu naquele estado. Nessas alturas fico assarapantada, com medo de tocar sem querer na aceitação e aparecer em estado de imprópria para consumo à pessoa que está a ligar. Virei o telemóvel ao contrário não fosse o diabo tecê-las, fui a correr enfiar um vestido, apanhar o cabelo, chamar o meu marido. Tinha começado a barrar o pão, que ia comer, não eram horas para video calls, que tratasse eu do assunto. E assim teve que ser. Mais um tempão. 

Ou seja, só depois disso me fui higienizar, preparar, pôr-me apresentável. E tomar o pequeno almoço. Conclusão: uma boa parte da manhã à vida.

Para além disso, os afazeres domésticos. E a ginástica. E os passeios com o cão. E telefonemas. À tarde mais mails, papelada, coisas para assinar, para tratar. Coisas assim, nada de transcendente, mas que consomem tempo. E, com isto, os dias passam a correr, evaporam-se.

Nestes últimos dias nem num livro tenho pegado. Parece que faltam componentes no dia. 

Já para não falar que, de novo, depois de almoço me deu uma daquelas pancadas de sono que me põem ko. Gosto de ir para a espreguiçadeira lá fora, mas agora, com tanta mosca, é difícil. Já usémos aquelas fitas onde elas ficam agarradas mas ainda não noto a sua eficácia. Por isso, deitei-me sobre a cama do chamado quarto das meninas. Com o estore levantado e a janela basculante, o jardim praticamente dentro do quarto, é uma maravilha. Ponho-me a olhar e adormeço em três tempos. Não foi muito tempo mas foi reparador. Mas foi mais uma parcela do dia que desapareceu.

Este sábado vai ser diferente. Não vai evaporar-se. Talvez depois conte um pouco dele.

Já passa das duas da manhã e não quero deitar-me tarde pois não posso levantar-me tarde, nem quero levantar-me mal dormida. E ainda tenho que equacionar se amanhã faço uma revelação, se não. Tendo sempre para o não. Pode parecer que sou extrovertida, mas há em mim uma parte que é absolutamente reservada. Conto muita coisa mas não a toda a gente e, certamente, não exactamente tudo. Portanto, vamos ver.

Deixo-vos com um bailado que já vi umas duas ou três vezes. Vem a calhar. O coreógrafo já não vinha aqui há algum tempo e é pena pois tudo o que faz é incomum. E gosto particularmente da expressão 'contradição do silêncio'. 

The Contradiction of Silence by Alexander Ekman

Inspirada pela beleza serena e tranquila das florestas, lagos e vastos céus da sua terra natal, a Suécia, a conceituada empresa de design Bolon orgulha-se de lançar a sua nova coleção, 'Silêncio'. Já conhecida pelos seus trabalhos com designers e arquitetos como Missoni, Paul Smith e Jean Nouvel, este lançamento apresenta uma colaboração criativa de um tipo diferente, mas igualmente entusiasmante: com o aclamado coreógrafo Alexander Ekman. Famoso pelas suas interpretações modernas da dança clássica, os seus trabalhos anteriores incluem projetos com a Boston Ballet Company, a Sydney Ballet Company, a Juilliard School e o Royal Swedish Ballet.


Desejo-vos um sábado muito feliz

sexta-feira, setembro 25, 2026

Envelhecer

 

Das melhores coisas que ouvi sobre o envelhecimento foi que envelhecer é o que acontece quando tudo corre bem.

Concordo plenamente. 

Aparareceu-me, no Instagram, a Bárbara Norton de Matos dizendo mal de umas e outras que não assumem que fazem 'picas' e que tentam fazer crer que estão lisinhas e esticadinhas sem nunca terem ido às 'picas'. Ela, pelo contrário, assumia que ia regularmente e que eram (e são) picas por todo o lado. Dizia que obviamente não tem um pele impecável, sem olheiras e sem rugas, só por si, que é muita pica all over. Não ouvi tudo, há em mim qualquer coisa que, mesmo que surpreendida com o que ouço, rejeita ficar a ouvir. Penso: 'quanta futilidade, credo!', e desando. Mas depois fico a pensar que o mundo é inclusivo, há pessoas de toda a espécie e feitio, e ainda bem que há tanta diversidade. Seria um tédio insuportável se toda a gente fosse como eu. Mas, portanto, retomando: não me informei sobre o que era e eu é que fiquei a perder, agora não sei dizer, tenho ideia, mas não garanto, que são injecções de botox, de ácido hialurónico e de mais qualquer coisa. Isto tendo ela quarenta e tal anos. Dir-se-ia que não precisaria de se injectar toda. Mas aos quarentas e tais pelos vistos quer-se parecer ter vinte. E, pensando bem, qual o mal? Nenhum.

Na volta há aqui um preconceito meu que me leva a compreender que ideia é esta de as pessoas quererem envelhecer parecendo sempre jovens. Mas, dito isto, tenho que confessar que, por vezes, olhando-me ao espelho, penso que, na volta, estou é a ser parva pois, se calhar, com meia dúzia de picadelas ficava com uma aparência mais juvenil. São contradições, bem sei. Felizmente, ocupam um espaço diminuto na minha cabeça. Penso e, mal desvio o olhar do espelho, já se me varreram da ideia.

Não sou de filosofar pelo que não vou pôr-me para aqui a dizer que envelhecer é uma maravilha, só sabedoria. E não digo porque não acredito nisso. Desde que nascemos que não fazemos outra coisa senão envelhecer e, depois, não ganhei sabedoria nenhuma, ganhei foi cada vez mais consciência da minha ignorância. De resto, gosto do que gostava, embirro com o que embirrava, desato-me a rir com o que sempre me fez rir, emociono-me com totozices que não lembram a ninguém e parece que me mantenho calma quando toda a gente está em ebulição.

A nível de saúde, tinha, com alguma frequência, dores inflamatórias em algumas arrticulações, à vez. Por exemplo, às vezes calhava ser um joelho. Mas também aconteceu uma vez num pulso. Sem se perceber bem o que teria desencadeado isso. E isso incomodava-me um bocado pois pensava: será que, quando for mais velha, vou ter isto com alguma frequência e fico impedida de fazer caminhadas, de ir ao ginásio, de nadar? Felizmente comecei a tomar meio comprimido por dia -- metade de um comprimido que é minúsculo (a minha nora deu-me uma caixinha-guilhotina, verdadeiro ovo de colombo, para resolver a dificuldade de partir ao meio um nano-comprimido) -- e não voltei a ter qualquer problema. Uma coisinha ínfima está a resolver um problema que, quando aparecia, me incomodava bastante. Deixa-me cá bater três vezes na madeira que isto de a gente se gabar parece que atrai. Mas isto para dizer que o que era uma chatice, até parece que se evaporou. Na volta, a menos que seja um problema daquelas que a gente se verga de medo, vai havendo solução para tudo, pelo menos para que vamos conseguindo levar a vida na boa. É não desistir, procurar solução. Não pensar: 'ah, isto é natural, é da idade'. Da idade, o escambau. Se é chato, tem é que se resolver.

Penso que já contei que durante muitos anos, muitos mesmo, sempre que encontrava alguém que não via há anos, essa pessoa olhava para mim e dizia com ar admirado que eu estava sempre na mesma. Nunca levei muito a sério pois não podia ser verdade que parecesse ter congelado no tempo. Mas é um facto que creio que a partir da covid me mofifiquei. Não sei por passar tantas horas sentada, ao longo de meses, em teletrabalho, em reuniões ao computador, se alguma vez teria que fisicamente ceder à passagem do tempo. No entanto, creio que continuo a ser a mesma pessoa a nível de descomplicação, de relevar os disparates, os meus e os dos outros (os disparates inofensivos, bem entendido), de seguir adiante e nunca ficar a empreender nas coisas, de gostar de coisas novas, de me perder de encantamento com a arte, com a beleza natural, com os meus. 

E deleito-me com a tranquilidade da imagem de dois patos a deslizarem num lago ao por do sol, com um passeio num caminho ladeado por conjuntos de ciprestes. Coisas simples. Vim do passeio de alma lavada, feliz da vida.

E estivemos, eu e o meu marido, a escolher caixas de arrumação e frascos para diferentes fins, a medir gavetas e prateleiras, a pensar no que lá vamos colocar -- e pode parecer estúpido eu dizer isto, mas é verdade: gostei. Só pensar em como vai ficar tudo tão mais organizado já me dá prazer.

Como se levanta bem mais cedo que eu, quando acordei, o meu marido avisou, no gozo: 'se precisares de ajuda no percurso dentro da cozinha, diz'. Percebi logo que tinha andado, outra vez, a mudar o sítio das coisas. Fui abrir armários e várias coisas desapareceram, outras estão acomodadas noutros lugares. E, misteriosamente, sobra espaço. Como fiquei tão agradada e o vi tão orgulhoso dos seus feitos não quis entrar em pormenores. O que desapareceu? Para onde foi? -- Foram perguntas que não fiz pois as respostas poderiam causar-me frenicoques. Assim, olha, deixa andar. Que está muito melhor, está. E que vai tudo ficar melhor com as caixas, de diferentes tamanhos e materiais, tenho a certeza que sim. 

E faz sentido eu ficar tão bem disposta com uma parvoíce destas? Pois... se calhar não. Mas quem é que disse que tudo tem que fazer sentido?

Hoje ao fim da tarde, ao virmos para casa, o sacrista do carro voltou a acender todos os alertas e a perder força, e estávamos a ver jeito de não chegarmos a casa. Mas chegámos. Não sabemos é se amanhã trabalha ou se tem que ir outra vez de reboque. No sábado tenho uma deslocação imperiosa e não ter carro vai ser uma maçada das antigas. Devo ter que ir e vir de uber o que é chato porque é longe que se farta, não me apetecia nada. Só conseguimos marcar para o concessionário para meados do mês que vem. Deve ser uma avariazeca da treta, um mau contacto elétrico ou coisa do género, pelo menos assim o esperamos. Só que é intermitente e na oficina multimarcas onte vamos não conseguem descobrir. É uma chatice mas, enfim, há coisas piores e não vou estar a apoquentar-me com isso. Mas esta atitude não tem a ver com a idade pois, noutros tempos, eu não conseguiria viver sem carro. Hoje consigo. Mas os tempos são outros, se antes o carro tinha um problema, era problema que não era meu: um motorista enarregava-se de tratar do assunto, de me entregar um carro de subsituição, e eu nem queria cá saber o que é que o carro tinha ou deixava de ter. Agora estamos por nossa conta, essas mordomias acabaram-se. Mas aprendemos a viver sem elas, e tudo bem.

E agora vou mas é dormir que estou com a impressão que este texto andou para aqui aos ziguezagues. Sono, sono, sono. 

As imagens foram geradas, segundo requisitos meus, pelo ChatGPT.

Deixo-vos com o Luís Osório que é menino para uma prosa bem mais burilada do que a minha.

Envelhecer | Postal do Dia | Luís Osório | Antena 1

Envelhecer é tramado e uma oportunidade. Ser velho é tudo e o seu contrário. Mas é o único tempo em que a Sabedoria pode ser alcançada, a capacidade de estarmos para lá do corpo.


Desejo-vos uma boa sexta-feira

quinta-feira, setembro 24, 2026

Vejo o principio e o fim abraçados numa espécie de altar



Sobre a futura saída de cena de Guterres o que tenho a dizer é que até pode acontecer que a responsabilidade não seja só dele, sei bem que não é, mas, ainda assim, a minha opinião é que foi irrelevante e contribuíui para acentuar ainda mais a irrelevância das Nações Unidas.

Sendo um homem que todos dizem ser muito inteligente, a mim nunca me impressionou. Sendo como sou mais velha que a sé de braga, lembro-me dele como primeiro-ministro, e, aí, mais uma vez, o achei palavroso mas pouco actuante. Tem boas ideias mas não é homem de chutar à baliza.

O discurso de despedida, o último em funções, foi -- nas partes que ouvi -- muito acertado. Mas irrelevante em termos práticos. Não foi feito para deixar marca. É certo que tirou uma fotografia de fato e gravata e os pés debaixo de água. Muito elogiado por isso. De facto, uma boa fotografia, uma boa mensagem. Mas, em termos objectivos, não passou disso.

Trump salta em cima, pisa, faz o pino num só dedo, tudo em cima dele. É certo que ninguém com dois dedos de testa interpreta politicamente os desmandos de Trump. Tudo o que faz ou diz é fruto de um narcisismo maligno temperado com uma crescente dem~encia. Mas ele sabe com quem se mete. Por isso bate a bolina baixa com ditadores e trogloditas. Agora quando sente mole, está bem está, salta em cima com uma pinta. Fosse outro com mais fibra no lugar de Guterres e a ver se o Trump levantava cabelo como faz agora, ai fazia, fazia.

Do que vi do discurso de Trump, e só vi excertos, o que posso dizer é que foi a pangalhada do costume, parvoíces, contradições, auto-elogio, ameaças, tudo inconsistente, sem ponta por onde se lhe pegue.

Está metido naquela bela alhada do Irão e não sabe como sair dela. Só espero que as eleições de Novembro não venham com molho (pois ele já incitou os magaburros à batota, já ofereceu dinheiro, já os ameaçou com um bilheto de ida para o inferno caso não votassem nos dele -- já fez de tudo) pois seria preciso que os americanos fossem muito mais burros do que já demonstraram ser para que não conseguissem dar uma banhada das valentes aos republicanos e encostar o parvalhão às boxes. Não são só as mortes e os achincalhamentos e as perseguições, é a instabilidade galática que tem gerado.

A quem continuo a tirar o chapéu, e não tenho dúvidas de que ficará para a história, é Zelensky. Um estadista. Corajoso, resiliente, assertivo, determinado. Um homem inteiro. Se há alguém que ilustra na perfeição aquela coisa de que os homens não se medem aos palmos é ele. O que aquele homem tem enfrentado, o discernimento e a coragem e a presciência em cada momento da sua vida, mesmo quando é atacado, humilhado, torpedeado, é digno de louvor. Continuo a achar o que acho desde o início (embora os factos ainda não me tenham dado razão): a guerra acabará quando Putin for ao tapete. E sempre passei que seria a Rússia a atirá-lo ao tapete e a pôr-lhe o pé em cima para que do tapete não se levantasse. Mas como todas as vítimas de violência, os russos pecisam de tempo para processar o que lhes tem estado a acontecer, para afastarem a avergonha de estarem manietados por um ditador e para gahnarem coragem para expulsar o malfeitor. Não sei como será, mas acredito que um dia acordaremos com a notícia de que os russos se livraram do Putin e da sua entourage, talvez o ponham em cativeiro, e vão assinar um acordo de paz sincero e duradouro com a Ucrânia.

Talvez a seguir o entreguem para ser julgado pelos crimes que tem estado a cometer. E eu só espero que isso aconteça rapidamente.

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Mas, enfim, é tarde, não me apetece falar mais disto. Depois logo conto como vão as nossas arrumações na cozinha. Amanhã vou encomendar umas caixas de arrumação de diferentes tamanhos e finalidades. Quando as entregarem é que vai ser, uma reforma a sério. Até lá vai continuar a zaragata pegada entre mim e o meu marido. Eu sou de reformas profundas: tudo cá para fora e vamos pensar com racionalidade. Ele não: mal começa, já quer é despachar. Arranja soluções mirabolantes para tudo. E eu não concordo com elas. E ele passa-se, acha que discordo por discordar. A conjugalidade aqui por casa tem destas coisas: concordamos nos grandes assuntos da humanidade, discordamos sobre como arrumar especiarias.

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E, na despedida, Espécie de altar, Jorge Palma


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Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, setembro 23, 2026

Enquanto houver estrada para andar

 

Tenho tido uns dias ocupados. Como creio que já aqui tinha admitido, cedi à pressão para que a 'nossa' casa de banho fosse reconvertida. Relembro: digo 'nossa' porque é a casa de banho junto ao nosso quarto, já que a outra está bem e recomenda-se. 

E, como sempre acontece, caí na armadilha do 'já agora'. Da base do duche já derivámos também para o lavatório. Novo, coisa diferente. E mexer nestas coisas implica parte do revestimento, parte do pavimento. E, já agora, a torneira do duche também nova, mais para cima. E o pior é que olho para a pobre coitada da casa de banho já com olhos de quem quer ver coisa nova e, portanto, já tudo me parece mal. Já não gosto dos toalheiros onde estão, já não gosto das prateleiras giratórias, já não quero ali o armário espelhado, dito dos medicamentos. Já tudo me parece a precisar de desandar. E o pior, pior mesmo, é que o meu marido não me refreia capazmente.

E o fogão, que já cá estava quando comprámos a casa (já lá vão 6 anos!), um bom fogão mas já certamente com alguns bons anos, também andava a pedir para ser posto em cima de um par de patins. Resisti. Resisti. Até que cedi. Também já encomendámos. 

Todos os materiais, fogão incluído (embora comprado noutro local) só chegam a meados de outubro.

Hoje, enquanto caminhávamos ao luar, eu dizia: 'agora já está tudo encaminhado, tudo o que havia a encomendar está encomendado, já podemos tirar daí o sentido'. Ele disse: 'falta executar'. Exacto. Mas isso também já está contratado. O meu marido lembrou: não o conhecemos, não sabemos como é, vamos esperar que apareça, que trabalhe bem.

Claro. Vamos esperar.

Dá-se também outra circunstância: quando o meu marido se cansa dos programas de televisão comuns, ou vê futebol ou vê cozinhados (ele que pouco ou nada cozinha). Mas agora aparece (creio que no canal 24 kitchen) uma simpática e gravidíssima jovem senhora que remodela cozinhas, Ellen Marie Bennett. Ele ficou entusiasmado e contagiou-me. 

Incrível o que há para arrumar coisas, as ideias, os truques, os apetrechos. Revejo-me nos problemas que levam as pessoas a recorrer a ela. A minha cozinha é aparentemente uma cozinha fantástica: ergonómica, com muita arrumação. Mas, para mim, não é o que eu gostaria. Tem armários até ao tecto, ou quase. Portanto, para chegar às prateleiras de cima só com mini-escadote. Às tantas não faço ideia do que está lá para cima. Mesmo com o escadote, vejo o que está à frente, não o que está para trás. E os compartimentos são um bocado estreitos. Portanto, as coisas estão um bocado salteadas.

A despensa é também um espaço pensado ao milímetro, ultra arrumação: prateleiras altas, fundas, com imensa arrumação. O pior é que são tão fundas que mal tenho percepção do que está lá para o fundo. As prateleiras lá de cima, então, são para mim um mistério. Por vezes, quando me encavalito no mini-escadote, vejo que, pelo menos à frente, estão uns tachos gigantes. Mas está tudo tão inacessível que, na prática me esqueço do que para lá está.

Somos todos escravos do que precisamos / Reduz as necessidades se queres passar bem

O meu marido diz: 'pego naquilo tudo e levo para a cave'. Não me parece lógico. Levar para a cave é, na prática, o mesmo que  nos esquecermos das coisas. E tudo o que voltar a enfiar lá para cima, tem, na mesma, o destino traçado. Por isso, não sei qual a solução. Só se for pôr espelhos na parte de cima das prateleiras....

Outra coisa que agora questiono. Tenho duas gavetas ocupadas com panos de cozinha. Depois de vermos o programa, o meu marido questiona: 'para quê tanto pano de cozinha? duas gavetas desperdiçadas com panos!'. Mas eles existem, têm que estar em algum lado. É certo que estou longe de precisar de todos. Vejo que a dita Ellen, que coloca tudo em caixas e em prateleiras deslizantes ou em prateleiras com degraus, para tudo estar sempre à vista, coloca os panos da louça e das mãos em rolinhos, ao alto, numa cesta, e a cesta está numa prateleira.  Talvez seja uma solução. E fica a gaveta para arrumar especiarias, por exemplo, que hoje tenho os frascos encavalitados em cima uns dos outros, de cada vez que quero um posso ter que tirar os outros todos.

Ou seja, agora olhamos para as coisas com vontade de reformular também tudo. Só que, ao contrário das cozinhas americanas que são gigantes, a minha cozinha é o que é, relativamente estreita, sem margem para grandes reformas. O mais que dá é para reorganizar, repensar as coisas. 

E sei que esta conversa -- no meio da crise energética, no meio dos desequilíbrios de forças a nível internacional, no meio do pântano, que tende a ser infecto, da política nacional, num dia triste em que sentimos a falta do grande Jorge Palma -- é uma não-conversa, é uma futilidade, uma coisa de quem tem pouco com que se ocupar. 

Pois, reconheço que sim -- mas fazer o quê? Sou assim, não sou de me deixar afogar em mágoas ou de me deixar ficar a carpir, sou mais de bola para a frente, enquanto houver estrada para andar acho que a gente deve continuar. Continuar com a vida de sempre, de todos os dias.

Se eu ainda estivesse a trabalhar, iria para o trabalho, trabalharia, embrenhar-me-ia na resolução dos mil problemas que me apareciam. Agora as minhas circunstâncias são outras. Já posso dar-me ao desfrute de me ocupar de temas banais que, provavelmente, são de fazer bocejar o mais careca. Quiçá até o mais cabeludo.

Quem sabe até, um dia destes, não partilho convosco a forma como o meu marido pegou nos meus chás e os arrumou tentando fazer mais ou menos o que viu lá a tal senhora fazer. E depois me dirão se o que ele fez está bem feito. A mim parece-me que tem sérias limitações, mas ele acha que sou eu a embirrar só por ele ter feito aquilo sem me consultar. Claro que não é. De qualquer forma, já arranjou uma solução. Só que, como ele diz, 'falta executar'.  

Enfim.

Enquanto houver ventos e mar / A gente não vai parar

A gente vai continuar -- Jorge Palma

Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, setembro 22, 2026

Por favor diz-me quem és tu, de novo?

 

Não sei se é a lei da vida. Se calhar, é. Se calhar há mesmo que aceitar que não há corpos imortais. Se calhar há que reconhecer que muito aguentam alguns corpos, se calhar há que aceitar que há sempre aquele momento em que o corpo esgota a sua capacidade de gerar energia.

Morreu Jorge Palma. 

A notícia fere-me.

Bem sei que, como acontece aos criadores cuja obra se acolhe no coração de muita gente, ficam as suas belas canções e a memória da forma como as interpretava. Bem sei.

Não duvido: ficam, ficarão talvez para sempre. Muita gente as interpretará de novo, muita gente entregará a sua emoção ao lembrar-se dele, ao dizer as suas palavras, ao tocar a sua múvica, e nós relembrá-lo-emos também com emoção, com pena que ele se tenha libertado já da lei da vida. Não duvido.

Na nossa memória, Jorge Palma junta-se a Luís Represas, ao Zé Pedro, ao Bernardo Sassetti, aos nossos melhores. Temos o privilégio de termos partilhado com eles uma parte importante do nosso tempo. Partiram antes de nós. Ficamos com o dever de manter viva a sua memória.

Mas com que saudade. 

Somos feitos de pé da estrelas, todos. A esta hora Jorge Palma já flutua no espaço. Amanhã já habitará o corpo de um pássaro, as pétalas de uma flor, já será o sopro do vento, uma estrela do mar. Já estará a apontar-nos o caminho melhor do que qualquer estrela.

Não duvido.

E, no entanto...

O meu olhar tem razões que o coração não frequenta

Por favor diz-me quem és tu, de novo?

E toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta
Quem sou eu para negar que a tua presença me arrasta?
Quem és tu, na imensidão do deslumbre?

Quando o tecto se escancara e se confunde com a lua
A apontar-me o caminho melhor do que qualquer estrela
Ninguém me faz duvidar que foste sempre a mais bela

Por favor, diz-me que és alguém, de novo?
Talvez a minha preferida:

Jorge Palma | Quem és tu, de novo?

 (ao vivo com orquestra)


Toda a verdade é coisa incerta e tão vasta

segunda-feira, setembro 21, 2026

Ressurreição inesperada e brevíssima, quase impossível de comprovar

 

Como já aqui referi, a coluna lateral que contém blogs que gosto de espreitar tem andado desaparafusada. 

Aquilo é automático, eu apenas selecciono, na componente de layout, os blogs que quero ver e o blogger, que é a plataforma sobre a qual construí e regularmente alimento o blog, encarrega-se de mostrá-los aqui, por ordem decrescente das respectivas actualizações. 

E desde há alguns dias que esse 'motor' de actualizações congelou. Informei-me, e também recebi aqui através de comentários, a indicação de que se trata de um problema do próprio blogger. De qualquer forma, tentei ver se forçava as actualizações; e, se o conseguia, era apenas pontualmente, no momento em que fazia save dessas actualizações. Mas, no minuto seguinte, aquilo voltava a congelar. 

Entretanto, este fim de semana, sábado e domingo, tive cá a maltinha e não tive disponibilidade de olhar para essa vertente do blog. Dias felizes, divertidos, o coração cheio -- não sobra tempo para mordomias de blogs e afins.

Depois, como andamos nesta de reformar a casa de banho, no tempo livre, andamos a seleccionar revestimentos para a parede, base de duche, móvel para lavatório, torneiras, etc, etc, e, de cada vez que pensamos numa coisa ocorrem-nos outras ideias ou outras restrições e voltamos a reequacionar. Ou seja, só agora, tarde e más horas, vim ver em que param as modas aqui no blog.

E qual não é o meu espanto quando vejo aqui ao lado blogs que não mexem há séculos...! Quase estremeci. Quase um remake, salve as devidas proporções, do pesadelo de que ontem falei. Juro que, por um instantâneo micro-segundo, pensei: mas querem lá ver que afinal não estavam mortos e o blogger é que não os mostrava?

Aqui estavam blogs que eu gostava de acompanhar e que, para muita pena minha, os seus autores há séculos desaderiram de ali dar um ar da sua graça. 

Vida Breve, Mil Anos, Pipoco mais Salgado, Viajante no Tempo, ... 

Mas o entusiasmo foi sol de pouca dura, era coincidência a mais reaparecerem todos ao mesmo tempo. Foi, pois, já coberta de cepticismo que fui verificar. Claro: parados no tempo. 

Ou seja, o algortitmo alucinou. Ou, então, os programadores trocaram as mãos e puseram no ar uma correcção que foi desenterrar blogs que estão há que tempos postos em sossego. Espero que não mortos, apenas adormecidos.

Agora, voltei a ir verificar se estavam a aparecer mais desses e, para minha surpresa, já tinham todos desaparecido. Eu deveria ter feito um printscreen para provar que não fui eu que alucinei.

Bolas... 

E, para verem como estou, confesso que, quando para aqui vim, estava com uma ideia em mente, lembro-me que estava contente por ir falar daquilo. Mas com esta súbita  aparição dos blogs que estão a hibernar desconcentrei-me de tal maneira que agora já não consigo lembrar-me do que vos queria contar. Os meus neurónios ensarilharam-se e agora já não são capazes de se desensarilhar. Vou dormir que já são horas. Daqui a nada está o galo a cantar, essa é que é essa.

Desejo-vos uma boa semana.

domingo, setembro 20, 2026

Os sonhos são um patchwork? Um fragmento daqui, outro fragmento dali? Uma recordação, uma preocupação, uma mão cheia de saudades?

 

A noite passada dormi toda a noite, mas,, de vez em quando acordava com o mesmo sonho, que era mais pesadelo do que sonho. Eu tinha ido para um daqueles encontros da empresa que implicavam dormir lá. Mas tinha tido reuniões até à última hora e, portanto, não tinha conseguido ir no autocarro que tinha sido fretada para o efeito. Mas a minha mala tinha seguido. Quando cheguei já o encontro tinha começado e já alguém tinha levado a minha mala para o meu quarto. 

De notar que uma situação destas aconteceu uma vez. Eu sou muito cumpridora e pontual e, se tenho um compromisso, não aceito outros para o mesmo dia e hora, mas naquela vez, na realidade, tinha surgido um imprevisto a que eu não podia virar costas. Esse mesmo compromisso fez com que, de vez em quando, tivesse que me levantar para vir atender uma chamada cá fora. E assim também no meu sonho.

Mal jantei. E, depois de jantar, ao contrário das outras pessoas que ficavam por ali a conversar ou iam fazer uma caminhada, eu continuava agarrada ao telefone, a acompanhar a resolução de um problema complicado.

Era tarde quando cheguei ao quarto. Tomei banho e deitei-me. Na vida real.

No sonho, de manhã acordava e, ao peparar-me para pôr a roupa fora da mala, não reconhecia a minha mala. Na verdade, não era uma mala, eram duas. Abria as malas e via roupa que não acabava. Era tudo meu mas, em vez da muda de roupa que eu sempre levava, havia ali roupa para mais de uma semana, e calças que já me estavam justas demais, camisas chiques de mais, apetrechos que jamais usaria num encontro de empresa. Fiquei pois desorientada com tudo aquilo. Comecei a vestir roupa, a tentar encontrar alguma coisa que me servisse e fosse adequada, mas nada me convencia. O tempo a passar e eu sem atinar. Entretanto, chegaram umas colegas que estranhavam eu não ter aparecido para tomar o pequeno almoço e me vinham alertar que tínhamos que fazer o check out e desandar rapidamente pois o encontro recomeçava às nove numa terra ainda longe. E isto de as reuniões começarem às nove a vários quilómetros do local onde dormíamos e em hora de ponta era o pão nosso de cada dia, coisa que me causava sempre muito stress.

Mas depois olhavam para mim e, com ar incomodado, perguntavam-me: 'Mas não tomas banho nem nada?'. e eu sentia que elas achavam estranho eu levantar-me e vestir-me sem me lavar, e dizia-lhes que gostava de tomar mas não tinha tempo mas que, de qualquer maneira, tinha tomado antes de me deitar e que só queria descobrir uma roupa que me ficasse bem. Elas estavam muito admiradas: 'Mas porque é que a tua mãe encheu duas malas de roupa?'. E eu ainda mais admirada fiquei: 'A minha mãe?'. Mas, ao dizer isso, reparei que as duas malas não eram minhas, eram da minha mãe. E elas diziam que como eu estava ocupada a resolver um problemão, tinham achado melhor pedir à minha mãe que fizesse a mala por mim. 

Eu estava admiradíssima, assustada, pois pensava que a minha mãe tinha morrido e afinal ainda estava viva. E tentava situar-me, em que ano estava, que confusão horrível era aquela na minha cabeça. E elas foram-se embora para não perderem a camioneta e eu ali estava, a cama já cheia de roupa, eu sem conseguir encontrar umas calças que me servissem, uma saia razoável, uma blusa que não fosse desajustadamente chique, o tempo a passar e eu, perplexa com o que estava a passar-se, pensava: 'Mas, que confusão é esta?, que coisa mais horrível, não a tenho ido visitar, não lhe tenho telefonado, pensava que tinha morrido, e, afinal, está viva...?'

E acordava. E custava-me a perceber que estava a sonhar. Pensava que estamos em 2026, que a minha mãe morreu no início de 2024, portanto, era um sonho. Mas foi difícil. E foi até de manhã.

Isto de escolher a roupa se calhar tem a ver com um almoço, também um encontro, dentro de dias e, na realidade, na minha cabeça já estou a equacionar o que levo vestido e, de facto, uma coisa é escolher sabendo que já me ficou bem e outra é pensar que tenho que provar para ver se ainda me fica bem.

Mas foi um sonho que me deixou muito incomodada.

Claro que de dia estive feliz da vida, bem acompanhada e bem disposta, e nem mais me lembrei do sonho.

Mas agora, ao ver neste vídeo o momento em que ela diz que não consegue esquecer a mãe, voltei a pensar na estranha impressão que o sonho me deixou. Caraças. 

De resto, não sou como ela: não tenho arrependimentos, pelo menos arrependimentos significativos, não lamento nada, acho que não deixei para trás nada que fosse importante, a minha mente não se ocupa com relacionamentos que se quebraram, não gostaria de voltar atrás para reparar alguma coisa.

Mas as pessoas são diferentes. Leigh Meinert. é diferente. E é muito sincera. E gostei de ouvi-la.

[Dá para escolher a legendagem em potuguês]

O Peso do Arrependimento: Encontrar a Paz na Complexidade da Vida

Muitas vezes sentimos que a vida se deveria resolver sozinha. As relações quebradas deveriam ser reparadas, as antigas feridas curadas e os arrependimentos transformados em lições que compreendemos. Mas algumas coisas simplesmente não se resolvem. Alguns relacionamentos permanecem rompidos. Algumas questões nunca são respondidas. E carregar esse fardo pode ser muito pesado.

Talvez a paz não esteja em reparar o que está inacabado. Talvez ela comece quando deixamos de esperar que tudo se resolva na perfeição. Algumas coisas permanecerão desarrumadas. E isto não é um fracasso, é simplesmente parte de ser humano. O que podemos fazer é acolher estas coisas com mais delicadeza e sermos um pouco mais gentis connosco próprios em relação ao que não podemos reparar.

Apesar de tudo, ainda há amor para dar e vida para viver. Podemos não ser capazes de reparar tudo do passado, mas podemos escolher a forma como nos apresentamos hoje. E está tudo bem se algumas partes das nossas vidas permanecerem desarrumadas. Uma vida com significado pode ainda florescer ao redor delas.

Com Leigh Meinert.


Desejo-vos um feliz dia de domingo