domingo, junho 07, 2026

Ora vamos lá a saber: quanto tempo consegue aguentar-se apoiado/a numa só perna?

 

Hoje a minha filha referiu a importância do equilíbrio numa única perna enquanto indicador da longevidade.

Por acaso, já sabia e até é uma coisa que pratico sempre que vou ao ginásio; e, mesmo em casa, volta e meia gosto de me apoiar numa única perna. Aliás, já o fazia antes de saber disto. Gosto de o fazer.

Então, estive a mostrar-lhes. E ela também esteve a fazer o teste. E um dos rapazes, um verdadeiro pernilongo, também. Mas esse faz toda a espécie de movimentos enquanto, em contínuo e durante um tempo que não acaba, se apoia numa única perna -- só que não conta como termo de comparação pois não apenas ainda só tem quinze anos, recém feitos, como é desportista a sério.

Porque é um tema de interesse geral, para poder partilhar a fundamentação científica, pedi explicações ao Gemini. Para facilitar a leitura, retirei as referências e a explicitação das fontes, nomeadamente os links para os textos científicos.

O Equilíbrio como Biomarcador de Longevidade: O que o Teste da Perna Única Revela em Qualquer Idade
A capacidade de uma pessoa se manter em apoio unípede (numa só perna) deixou de ser vista apenas como um teste de agilidade e passou a ser classificada pela comunidade médica como um biomarcador vital do envelhecimento sistémico. O tempo exato que o corpo consegue sustentar nesta posição serve como um preditor direto da saúde neurológica, cardiovascular e do envelhecimento biológico, aplicando-se desde os jovens adultos até à terceira idade. 
O Declínio Silencioso: Começa aos 30 Anos 
Muitas vezes associa-se a perda de equilíbrio à velhice, mas os dados clínicos mostram o oposto. Investigações da Mayo Clinic publicadas na revista PLOS One comprovaram que, entre a marcha, a força muscular e o equilíbrio, o tempo de suporte na perna não dominante é a variável física que declina mais rapidamente com o envelhecimento .
Este processo inicia-se logo a partir dos 30 anos devido à perda gradual de massa muscular (sarcopenia) e à diminuição da velocidade de condução dos sinais nervosos. O Unipedal Stance Test (UPST) estabelece os tempos normativos (de olhos abertos) esperados para um organismo saudável ao longo da vida, servindo como uma métrica de avaliação da idade biológica:
  • 30 a 49 anos: ~60 segundos
  • 50 a 59 anos: ~45 segundos
  • 60 a 69 anos: ~40 segundos
  • 70 a 79 anos: ~26 segundos
  • Mais de 80 anos: ~10 segundos
Quando um adulto jovem ou de meia-idade falha significativamente estes tempos, o seu corpo está a emitir um sinal de alerta de envelhecimento prematuro.

Isolando o Sistema Neurológico: A Variante de Olhos Fechados
Na prática clínica, os médicos utilizam uma variação avançada deste exame para avaliar a integridade do sistema nervoso de forma pura, eliminando a compensação visual: o Teste de Apoio Unípede com Olhos Fechados.
Ao fechar os olhos, o cérebro deixa de poder utilizar a visão para corrigir a postura. Isto obriga o sistema nervoso central a depender exclusivamente de dois sistemas internos: o sistema vestibular (localizado no ouvido interno) e a proprioceção (os recetores nervosos em músculos e tendões que mapeiam a posição do corpo no espaço).
Por ser um teste de stress neurológico, as médias populacionais normativas de olhos fechados são substancialmente inferiores e revelam falhas de conectividade precoces:
  • 30 a 39 anos: ~26 segundos
  • 40 a 49 anos: ~13 segundos
  • 50 a 59 anos: ~8 segundos
  • 60 a 69 anos: ~4 segundos
  • Mais de 70 anos: ~2 segundos

Mecanismos Biológicos: Por que Razão o Equilíbrio Prevê Doenças Ocultas?
Por requerer uma integração complexa entre o cérebro e a periferia do corpo, a incapacidade de manter a estabilidade unípede (pelo tempo esperado para a idade) serve como um indicador precoce de patologias assintomáticas:
  1. Lesões Cerebrovasculares Subclínicas: Um estudo publicado na revista Stroke da American Heart Association demonstrou que a incapacidade de manter o equilíbrio unípede por mais de 20 segundos (de olhos abertos) está fortemente associada à presença de doença de pequenos vasos cerebrais, micro-hemorragias cerebrais silenciosas e enfartes lacunares assintomáticos, funcionando como um aviso prévio em adultos aparentemente saudáveis.
  2. Declínio Cognitivo Prematuro: Uma redução drástica ou acelerada no tempo de suporte unípede ano após ano serve como um sinal precoce de atrofia cerebral e perda de integridade das vias neurais, antecedendo frequentemente a perda de memória detetável.
  3. Danos Metabólicos e Neuropatia: A dificuldade extrema no teste, especialmente de olhos fechados, indica frequentemente que os recetores periféricos das plantas dos pés estão a perder sensibilidade. Este é um reflexo comum de condições metabólicas crónicas e silenciosas, como a diabetes tipo 2 em fase inicial ou não controlada.

O Impacto na Longevidade a Longo Prazo
Em termos de mortalidade tardia, o estudo clínico longitudinal publicado no British Journal of Sports Medicine determinou que indivíduos de meia-idade e idosos que não conseguem sustentar a posição por apenas 10 segundos (de olhos abertos) apresentam um risco 84% maior de mortalidade por qualquer causa na década seguinte
O equilíbrio não é uma capacidade estática; reflete o nível de atividade física acumulada, a força do core e a eficiência neurológica. Monitorizar e treinar esta competência desde jovem através de exercícios simples do dia a dia é uma das estratégias mais eficazes para preservar a integridade do sistema nervoso e garantir a longevidade funcional.
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Nota

Para fazer o teste em casa, há que ter em atenção o seguinte:

Se quiser testar o seu equilíbrio de forma realista e comparável com os estudos científicos, ignore a imagem do vídeo abaixo (que se destina a mostrar como exercitar o equilíbrio), e siga estas regras:
  • Faça o teste descalço.
  • Cruze os braços no peito.
  • Suba um pé sem deixar que ele toque na outra perna.
  • Acione o cronómetro (e feche os olhos, se for essa a variante que quer testar)
O que INVALIDA o teste (O cronómetro para se):
  • Rodar ou arrastar o pé de apoio: O pé que está assente no chão tem de ficar totalmente fixo. Se o calcanhar ou a planta do pé rodarem, deslizarem ou derem pequenos saltos (saltitar para não cair), o teste termina ali. 
  • Girar ou inclinar muito o tronco: Inclinar o corpo excessivamente para o lado oposto, rodar as ancas ou fazer uma torção acentuada da coluna para contra-atacar o desequilíbrio é considerado uma falha de controlo postural. 
  • Descruzar os braços: Se a pessoa rodar o tronco e, nesse processo, afastar os braços do peito ou das ancas para se agarrar ao ar, o tempo é interrompido. 
O que é PERMITIDO (O cronómetro continua a contar):
  • Micro-oscilações: Pequenos tremores involuntários nos tendões do pé e do tornozelo são aceitáveis. É o sistema somatossensorial a trabalhar em tempo real para manter o eixo.
  • Movimentos da perna elevada: Desde que a perna que está no ar não toque na outra perna, no chão ou em objetos, ela pode mexer-se ligeiramente para ajudar na compensação.
Para garantir a máxima precisão ao realizar o teste em ambiente clínico ou doméstico, o avaliado deve focar-se em manter-se o mais imóvel e "alinhado" possível, funcionando como uma coluna única
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Minuto da Clínica Mayo

O que é que estar de pé sobre uma perna só pode dizer sobre a qualidade do envelhecimento de uma pessoa?

Medir a qualidade do envelhecimento de uma pessoa pode ser tão simples como equilibrar-se numa só perna. Pode não ser fácil para todos manter o equilíbrio numa só perna, mas, de acordo com um inquérito da Mayo Clinic, este pode ser um indicador fiável do envelhecimento neuromuscular tanto para homens como para mulheres.
Neste vídeo da Mayo Clinic, o Dr. Kenton Kaufman, professor de investigação musculoesquelética W. Hall Wendel Jr. e responsável pelo estudo, explica as conclusões e porque é que nunca é tarde para melhorar o equilíbrio.

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Portanto, vamos lá todos a treinar, a exercitar. E, caso pretendam atingir a vida eterna, é treinar até conseguir chegar até onde esta bailarina chegou. Mas, e aqui fica um conselho amigo, não o façam em cima dos ombros do vosso marido ou namorado ou companheiro pois ele pode ir-se abaixo nas canetas. 

Ballet nos Ombros: O Impressionante Pas de Deux do Ballet Acrobático Chinês que Encantou Monte Carlo

Um deslumbrante pas de deux acrobático da Trupe Acrobática de Cantão/Cantão, apresentado no estilo frequentemente descrito como "ballet sobre ombros". A performance combina a elegância do ballet clássico com a extraordinária técnica acrobática chinesa, apresentando delicados movimentos de ponta, elevações, equilíbrios e controlo preciso das mãos.

Esta célebre peça está intimamente ligada aos artistas Wu Zhengdan e Wei Baohua, cujo pas de deux de ballet acrobático ganhou o prémio Clown d'Or no Festival Internacional de Circo de Monte-Carlo em 2002. A sua aclamada técnica de "ballet sobre ombros" tornou-se posteriormente uma inspiração fundamental para o ballet acrobático completo O Lago dos Cisnes, coreografado por Zhao Ming e protagonizado por Wu Zhengdan e Wei Baohua.

Um belo exemplo de como a dança e a acrobacia se podem fundir numa performance poética. 

Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, junho 06, 2026

Colheita Feira do Livro de Lisboa 2026

 

Cá estão eles, conforme ontem tinha dito. 

Mas, antes de transcrever uma página de cada, explico porque os comprei.

  • Comprei o livro da Carla Pais e o do Nuno Duarte pois foram vencedores de prémios Leya e tenho curiosidade em perceber que género de livros estão os jurados a valorizar. Em concursos alguns anteriores, li-os e fiquei intrigada pois não consegui levá-los até ao fim, mal acabava de ler já me tinha esquecido do que tinha lido (e até tenho boa memória), e, enquanto os lia, não via interesse nem na história nem no rasgo literário. Claro que pode ser um problema meu, ou pode acontecer que, nessas vezes, eu estivesse a passar por uma crise aguda de exigência. Por isso, vou fazer nova tentativa com os dois últimos.
  • Comprei o '1984' pois acho que já o li mas, ao vê-lo no stand, ocorreu-me a dúvida se o teria. Como estava a um bom preço, pensei que mais valia trazer não fosse já não o ter cá em casa.
  • Comprei o da Lídia Jorge pois acontece que também tenho alguma dificuldade em manter-me interessada quando tento os seus romances. Como fez um grande discurso o ano passado no 10 de Junho, em Lagos, e está incluído neste livro de crónicas e não a conheço enquanto cronista, resolvi trazer.
  • Comprei o da Siri Hustvedt porque tenho simpatia por ela e porque gosto de ler memórias e tenho curiosidade em acompanhar a sua vida, não apenas enquanto mulher e viúva de Paul Auster, mas também enquanto pessoa autónoma e escritora.
  • Comprei o de Leonardo Sciascia porque o Paulo Portas o recomendou e, até ver, quando seguimos as suas recomendações, não nos temos dado mal.
  • Comprei o de Laura Agustí porque gostei da capa e porque fala de flores.

E agora a transcrição de uma página de cada livro. Fotografei e pedi à IA para passar a imagem a palavras. 

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(...) possibilidades: ou a senhora Roscio e o seu primo tinham sido surpreendidos em flagrante crime de adultério, como se diz nos processos verbais da polícia; ou Roscio não tivera qualquer suspeita, mesmo fundamentada, da sua ligação. No primeiro caso, devia reconhecer-se um comportamento muito estranho: ver, declarar friamente ao amante da sua mulher a intenção de o esmagar ali; depois, organizando a vingança, manter com o homem odiado um relacionamento cordial. No segundo caso, ficava por explicar como Rosello tinha sabido o que Roscio tramava contra ele. Havia, é verdade, uma terceira hipótese: que a senhora Roscio, inocente, tivesse sido seduzida, enganada, pelo primo, perseguida pelas suas assiduidades, e tivesse avisado o marido, ou, ainda, que o marido se tivesse apercebido disso. Mas, nesta última hipótese, assegurado da fidelidade da mulher, Roscio ter-se-ia limitado a modificar ou a romper as suas relações com Rosello. A sua compreensão e a sua tolerância para com as paixões humanas, perante esta ofensa irreparável, mesmo que apenas projectada, não podiam ter evoluído até ao ponto de procurar uma vingança irreparável.

Poder-se-ia, todavia, considerar que ele não tinha ido encontrar-se com o deputado comunista a não ser para verificar se este estava disposto à denúncia; que ele não tinha ainda resolvido exercer a sua vingança, e havia, aliás, claramente declarado ao deputado que devia ainda decidir que lhe diria tudo ou nada, segundo... Segundo o quê? Segundo o quê, sob a ameaça, Rosello mudaria ou não de comportamento?

Por conseguinte, ao ameaçá-lo abertamente, Roscio tinha-lhe posto uma condição? Era necessário, neste caso, voltar à primeira hipótese: a uma maneira mais estranha de se comportar, no estilo floreado continental, ou de cinema, da parte de um marido enganado mas apaixonado pela sua mulher, decidido a conservá-la contra todos e contra tudo. E embora Laurana julgasse severamente toda a maneira de viver governada pelas paixões, particularmente pelas do amor-próprio e da honra, não podia fazer de outro modo que o de sentir, na sua hipótese, uma falta de respeito pela memória de Roscio: era por isso que fazia todos os esforços por a demolir, por a aniquilar. Mas seja qual for a maneira como se encare o assunto, este tinha algo de equívoco, de ambíguo: mesmo que não aparecessem ainda muito claramente as relações de causa e efeito, as relações dos protagonistas entre eles, dos elementos de que dispunha com o mecanismo do crime. E no equívoco, na ambiguidade, Laurana sentia-se moral e sensualmente implicado. (...)

in 'A cada um o seu' de Leonardo Sciascia

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Na primavera, o jardim da minha mãe torna-se um espetáculo de calêndulas e outras flores, que crescem com vigor, e ela envia-me sempre fotografias para que eu veja como evolui cada uma das plantas. O jardim, quadrangular e quase tão amplo quanto a casa, tem uma secção dedicada à horta, onde o Francesco, o seu companheiro, planta curgetes, pimentos, tomates, beringelas, alhos e cebolas. Todos os anos acaba por semear mais do que o necessário, e a colheita é tão generosa que a minha mãe costuma repartir as verduras entre as amigas, para que nada se perca. Apesar das suas tentativas de convencer o Francesco a plantar menos, ele entusiasma-se sempre com a horta, como tantos outros reformados que encontram na jardinagem uma forma de se manter ocupados e produtivos.

Quando construíram a casa, a horta era uma das ideias-chave do Francesco. Instalaram mesmo uma cisterna para recolher a água dos telhados e poder assim regar sem depender da rede pública, um recurso especialmente valioso numa província seca como Teruel. Agora estão a pensar em ampliar a cisterna, devido ao aumento de restrições ao consumo de água.

A calêndula, que cresce com abundância no jardim, é uma planta bastante resistente, que não exige muito da terra e tolera bem tanto as geadas como as secas. Além de ser decorativa, tem aplicações práticas: as pétalas podem substituir o açafrão-das-índias como corante, e as propriedades anti-inflamatórias e cicatrizantes fazem dela uma base ideal para a confeção de cremes caseiros. Todos os anos, a minha mãe aproveita a colheita de calêndulas para fazer o seu próprio creme, e eu guardo os boiões vazios do que gasto durante o ano para que ela possa enchê-los com a sua produção artesanal. (...)

in 'Furor Botânico' de Laura Agustí

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(...) corre que se desunha, rapaz, se queremos que aprendas a ler em condições devemos correr atrás dele, quando não, será tarde demais, dizia-lhe isto porque nunca voltava inteiro das ausências, ficava sempre mais qualquer coisa perdida naquele vácuo para onde desaparecia enquanto o Victor lhe enchia o cachimbo com tabaco e o calcava no fundo, era como uma parede a que iam sendo retirados tijolos, seria chegado o dia em que desabaria, e nesse dia não haveria nada mais a ensinar e nada mais a aprender. Não tem filhos?, perguntou-lhe o Victor, e o Ângelo respondeu, tenho três, mas têm mais o que fazer do que aturar um velho rabugento, moram longe, um está na Alemanha, outro no Canadá, o terceiro é professor universitário em Coimbra, vê lá tu, e o Victor disse, o meu irmão vai para a Universidade, não sei se para Coimbra, e o Ângelo respondeu, pois faz muito bem.

O Vicente deu-lhe uma palmadinha no ombro e disse, anda lá, vá, disse-lhe aquilo e ele foi como foram todos, mas o que o apoquentava desde esse dia não era ter ido, era ter sido o último a ir como se algo dentro de si dissesse, fica, fica, fica, a coisa má dos Tirapicos, uma espécie de desejo mórbido de ser preso outra vez, uma vontade de se vingar do flato do pai, ter um filho ladrão e também subversivo, talvez até comunista, porque não?, o que não faltava em Alcântara eram reuniões clandestinas do Partido, se quisesse mesmo muito poderia aderir, fazer parte, mas nesse caso seria o comunista mais estúpido de sempre porque estaria a arriscar a prisão e a tortura apenas e só por despeito a um velho agonizante, e não por acreditar naquilo, sabia lá ele em que é que acreditava, tudo o que conseguia distinguir era aquilo em que não acreditava, sempre era melhor do que nada, e não acreditava nos cabrões dos americanos que diziam que a grua tinha sido verificada na semana anterior. Deu outra vez por si de punho (...)

in 'Pés de Barro' de Nuno Duarte

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(...) escala, sem sabermos como sair deste imbróglio. A questão não é de deformação por uma espécie de justiça essencial como a que movia Maria das Dores, ou pelos sentimentos contrários que tenham a ver com poder ou ressentimento. O problema é da ordem do embate entre o antropológico e o tecnológico em cuja encruzilhada nos encontramos perplexos. Li num artigo assinado pelo jornalista José Vegar que «a quantidade de informação transmitida por telecomunicações durante todo o ano de 1986 poderia ser transmitida em apenas dois milésimos de segundos em 1996».

Vinte e oito anos depois, a estrela irradiante que é a pulsão comunicacional como é descrita? Não tem descrição possível. Um mundo inimaginável de imagens, números e sinais crípticos expande-se pelo universo e leva-nos na enxurrada. O que entra nessa cadeia infinita não se retira mais, ainda que se apague. Esta é a eternidade que criámos. A responsabilidade por colocar mensagens que tenham a ver com a verdade nesta cadeia transfiguradora deveria por isso inserir-se na Ética e na Moral. Mas onde bater à porta de semelhante igreja?

5.

O ano de 2024 que agora entra, se acaso a História continua a ter parecenças com a lógica de uma narrativa, depois dos nós que se ataram, sobretudo desde há dois anos, estas guerras devem começar a ter suas peripécias definitivas e seus desenlaces, ao longo dos próximos meses. É possível (...)

in 'O céu cairá sobre nós' de Lídia Jorge

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(...) que a criança se perdesse no seio dos homens de barba feita e pés valentes, fizera-se ali um lugar para ele por ter aquele dom de falar com as pedras e por trazer àquelas almas uma certa curiosidade envolta de misticismo. Era preciso acolher aquele enviado, vigiar todos os sinais que o corpo transmitisse. Cada palavra, dita ou por dizer, podia significar uma profecia de oráculo que decifrasse a vontade de Alá. Davam-lhe livros sagrados a estudar, a decifrar, a ler em voz alta num refúgio da mesquita a que apenas os homens cultos tinham acesso. Uma espécie de quarto recôndito que se fizera para ouvir e refletir sobre as palavras do Profeta e assim preparar o sermão da sexta-feira para os fiéis. Mohamed fizera-se homem dentro daquele lugar. A cumprir o desejo do pai e a cava fé da mãe, orgulhosa que ficava a olhar para ele como um salvador tocado pela divindade e, por isso, aliviada das possíveis agruras que a vida lhe pudesse reservar. Bastava-lhe aquela ideia de que o filho mais novo trazia consigo as vontades cumpridas de um Deus. Trajado a preceito, com brio e esmero, a crescer sob uma bênção maior. Um saber inteiro que a escola não podia dar naqueles tempos de que só os escolhidos de Alá teriam o privilégio de desfrutar. Mohamed era, portanto, a voz materializada da crença e o menino que havia de estudar mais do que os outros. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, toda aquela doutrina lhe veio acentuar o silêncio e a mudez; foi-se calando ao longo dos anos, governando as vozes dentro de si, emudecendo-as com o passar do tempo, ora de mudos não se rege a religião, por isso, certo dia, o imã chamou o pai de Mohamed para lhe dizer que de nada lhe valia ter ali o filho, que ali só havia lugar para gente que adorasse as palavras e se vergasse às preces do Profeta, o que aparentemente não era o caso do miúdo. Isto, claro está, foi um grande desgosto para a mãe, que até ali via em (...)

de Carla Pais em 'A sombra das árvores no inverno'

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(...) que o que tinham antes. Estavam a dançar à porta do Michel. Ele vive pertinho da Bastilha e telefonou-nos por entre a barulheira toda. Acho que vou deixar a política pelo amor, não são coisas completamente separadas uma da outra, como é óbvio. Contei-te os horrores da minha doença para evocar a tua mais profunda e sincera compaixão pela tua pobre querida no Soho, atormentada por duas aflições: o coração e a cabeça. Espero que tenha resultado. Estás pronto para fugir comigo agora? Contento-me com um café. Que tal um café, sem beijos nem abraços. Pode ser um café perfeitamente espiritual para exibir a minha alma em toda a sua radiosa pureza. Se um café for demasiado íntimo, contento-me com fazer amor ao telefone. Como vai a vida? Esta palermice toda é só para te dizer que parece que passou uma eternidade e que tenho mais saudades tuas por não saber se e quando te verei. Acho que és o melhor do mundo e é muito triste perder o melhor.

Com amor,

Siri

Lembro-me da dor de cabeça. Passou depois de uma violenta explosão gastrointestinal na sanita que me deixou trôpega e zonza, mas sem dores. Diarreia-choque como cura milagrosa.

Demerol? Quando andava na faculdade, um médico receitou-me um medicamento para uma enxaqueca obstinada que continha Demerol, um opiáceo, nos ingredientes. Deu-me sete cápsulas roxas e vermelhas. A dor de cabeça durou mais de um ano e, depois, passou. Guardei aqueles comprimidos para tomar caso tivesse uma dor que me parecesse insuportável. Teria sobrado algum? Parece-me pouco provável. Não me lembro de arranjar uma receita para Demerol em Nova Iorque, mas talvez o tenha feito. (...)

De Siri Hustvedt, em 'Fantasmas, um livro de memórias'

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(...) meia-volta. Um rapaz com cabelo louro e cara de parvo chamado Wilsher, que ele mal conhecia, convidava-o, sorridente, a sentar-se num lugar vago à sua mesa. Não era seguro recusar. Depois de ter sido reconhecido, não podia continuar e ir para a mesa duma rapariga sozinha. Daria demasiado nas vistas. Sorrindo amavelmente, Winston sentou-se ao pé dele. O loiro Wilsher arvorava o seu sorriso parvo e radiante. Winston teve uma alucinação e imaginou-se a cravar-lhe uma picareta no meio da cara. Poucos minutos depois, a mesa da rapariga ficou inteiramente ocupada.

Mas ela devia tê-lo visto avançar na sua direcção, e talvez tivesse percebido a dica. No dia seguinte, Winston teve o cuidado de chegar mais cedo. E de facto ali estava ela, sentada mais ou menos no mesmo local e novamente sozinha. A pessoa imediatamente à sua frente na fila era um homenzinho com movimentos rápidos de percevejo e uma cara achatada, com uns olhitos pequenos e desconfiados. Quando se afastou do balcão com o seu tabuleiro, Winston viu que o homenzinho avançava a direito para a mesa da rapariga. As suas esperanças desvaneceram-se de novo. Havia um lugar vago numa mesa mais à frente, mas algo na aparência do homenzinho sugeria que ele apreciava suficientemente o conforto para escolher a menos ocupada. Com gelo no coração, Winston seguiu-o. Seria inútil se não conseguisse apanhar a rapariga sozinha. Nesse momento ouviu-se um grande estrondo. O homenzinho estava estatelado no chão, o seu tabuleiro voara pelos ares e havia dois jorros de sopa e café a escorrer à sua frente. Levantou-se e deitou a Winston um olhar feroz, parecendo suspeitar que este lhe passara uma rasteira. Mas estava tudo bem. Cinco segundos depois, com o coração a ribombar no peito, Winston estava sentado à mesa da rapariga.

Não olhou para ela. Colocou na mesa o conteúdo da bandeja e começou de imediato a comer. Era importantíssimo falar de imediato, antes que chegasse alguém, mas entretanto apossara-se dele um medo terrível. Passara uma semana desde que ela o abordara. A jovem podia ter mudado de ideias, podia ter mudado de ideias! Era impossível que aquela aventura acabasse bem; essas coisas nunca aconteciam na vida real. Winston podia ter recuado completamente na intenção de lhe falar se nesse momento não tivesse avistado Ampleforth, o poeta de orelhas peludas, a coxear pela sala com um tabuleiro nas mãos, à procura de um lugar

de George Orwell em 1984

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Desejo-vos um belo sábado

sexta-feira, junho 05, 2026

Dia bom, com ida à Feira do Livro (um gelado, vários livros).
E, para acabar, um vídeo todo fake.

 

Pode ser que amanhã mostre os livros que trouxe. Hoje não. Só faço bocejar. Estou com uma soneira tal que nem dá para imaginar. Acordei mais cedo do que devia e, em vez de voltar a adormecer, fiquei acordada a tentar descobrir se estava sozinha em casa ou se estavam apenas silenciosos. Depois ouvi o portão e percebi que estavam a chegar. Tentei perceber se já seriam horas de acordar ou se ainda era muito cedo. Claro que poderia ter-me levantado e ir ver as horas, mas tive receio de espertar. Já houve tempos em que tinha, na mesa de cabeceira, um relógio despertador. Agora, tudo isso caiu em desuso. Quando quero saber as horas, vejo no telemóvel. Mas geralmente não o tenho ao pé de mim.  Com isto, não voltei a adormecer e fiquei com um défice de horas dormidas.

Depois fui à Feira com a minha filha. Ela ainda se lembra das horas abaixo e acima quando ela e o irmão eram pequenos. Também me lembro. Íamos pelo menos duas vezes em cada feira, mas geralmente mais. Por vezes, no fim do dia de trabalho, ia lá numa corrida. Era muito viciada em livros. E lembro-me ainda antes, quando a Feira ainda era na Avenida da Liberdade e eu, sozinha, ainda miúda, por ali andava nas minhas sete quintas. Também me lembro de ir com os meus pais, sempre era uma maior capacidade de investimento do que quando ia sozinha e esticava a mesada para dar para alguns livros.

Agora a Feira está enorme, mas dá ideia que mais de metade dos livros são treta, tanga, muita cor e fantasia, mas conteúdo nulo. Mesmo alguns dos livros mais afamados, supostamente comercializados por editoras 'sérias', abrem-se e o que se vê são redacções básicas, conversa para encher chouriços, palavras desprovidas de vida. No meio daquela barafunda, desfoco-me, desconcentro-me, até porque se me focasse precisaria de muito mais tempo. Mas sobretudo, a falta de sobriedade das capas, o ruído de 'mercado', de feira popular, a confusão, tudo isso me causa algum agastamento. Também me dá um bocado de pena os escritores que ali se põem à espera que lá vão ter com eles. Nunca percebi qual a lógica ou a vantagem. Parece-me uma exposição um bocado artificial, senão mesmo humilhante. E depois há longas filas para pessoas que não se sabe quem são mas que, pelos vistos, vendem livros. Enfim, aquela já não é bem a minha praia. Ainda assim, trouxe sete livros. A ver se amanhã os mostro.

E jantámos em casa da minha filha, naquela sua ampla, bem temperada e luminosa casa. Os rapazes cada vez maiores, já só a quererem laré, cada um com as suas combinações. Ainda não há muito, era a mãe e o tio deles também sempre a saírem com os amigos. É bom que sejam sociáveis, que arejem as cabeças, que pratiquem desporto, que tenham amigos, que gostem de conviver.

Entretanto, íamos recebendo mensagens: o outro futebolista, o mais novo dos três guarda-redes (só o mais novo não saiu guarda-redes, e a menina é do vólei), estava num torneio de dia inteiro, a família foi torcer, e o pai ia dando notícias. Depois um vídeo, ele a defender um penálti, o pessoal a gritar pelo nome dele. Ao fim da tarde, tinha passado e ia para mais um jogo a ver se ficavam por ali ou se iam à final. Foram à final. E, por fim, já bem de noite, a vitória: venceram o torneio. E, para rematar, ele, todo feliz, com a taça na mão. Campeão. mais lindo

Entretanto, nós dois, quando regressámos à noite, ainda fomos passear com o cão mais fofo.

Com isto, só chegámos à sala tarde e más horas. O meu marido ligou a televisão, estava a dar o Eixo do Mal. Fiquei um bocado surpreendida, não sei porquê parecia-me sábado. Depois caí na real, qual sábado?, era quinta-feira. Seja como for, fiz um esforço para não dormir mas a impressão que tive é que não estive sempre acordada pois estou com dificuldade em lembrar-me do que disseram.

Agora liguei o computador e, ao abrir o youtube, apareceu-me um vídeo extraordinário. Às primeiras, vamos na inocência, uma pessoa até fica na dúvida se é verdade. Mas, quando se pára para pensar, percebe-se que é invenção, fake do mais fake que pode haver. Já há algum tempo me tinha parecido no Instagram mas aparece tanta coisa feita por IA que, mal me parece tanga, sigo adiante. Neste caso, fiquei a olhar e a tentar perceber, sob o ponto de vista de programação ou da física, se seria possível e a minha opinião foi que nem pensar. Por exemplo, fazer implantes capilares em segundos? No way. Mas, por via das dúvidas, perguntei às IA's. Embora me digam que já há robots que cortam e  lavam cabelos e massajam cabeças, ainda não fazem tranças nem fazem nascer cabelo. Claro.

Mas a verdade é que se, para já, não existem tais máquinas, a IA já consegue forjar uma realidade em que isso é possível. E, cada vez mais, vai sendo mais difícil perceber com exactidão onde está a fronteira entre o que é verdade, embora extraordinário ou extra-futurista, e o que é forjado.

De qualquer maneira, aqui fica desde já o meu veredicto. Caso haja por aí quem esteja mesmo a pensar fazer máquinas destas: a mim é que não me apanham a enfiar a cabeça numa coisa destas ou a deixar que uma cena daquelas me aspirasse o cabelo sabe-se lá para fazer o quê. Olha se o cabelo se ensarilhava lá para dentro e não conseguia tirar a cabeça a menos que lá deixasse ficar o cabelo todo... Ou se a máquina se engana e me pinta o cabelo de roxo e faz mil trancinhas, impossíveis de desfazer... Ná, not me.

Mas vejam lá o despautério (e não se deixem ir em cantigas, é tudo aldrabice):

Testaram estas máquinas de cabelo do futuro… Ninguém esperava por isto.

As máquinas de cabelo do futuro estão a começar a mudar a forma como o cabelo é penteado. Nesta compilação, são testadas diversas tecnologias capilares avançadas em demonstrações reais.

Desde sistemas automatizados de tranças a máquinas de styling futuristas, estes dispositivos de última geração podem transformar o cabelo em segundos.

Veja o vídeo completo e veja como funcionam estas máquinas de cabelo do futuro na prática.


Desejo-vos uma feliz sexta-feira

quinta-feira, junho 04, 2026

NotebookLM

 

Estava a falar com o meu filho sobre as minhas experimentações em volta das diferentes ferramentas de Inteligência Artificial e ele falou-me no Notebook LM, uma ferramenta google que cria bases de conhecimentos privadas, analisando a informação que lá metemos, permitindo associar-lhe notas ou o que quisermos.

Fiquei logo altamente curiosa. No outro dia tinha feito uma experiência com o Claude, enfiando-lhe uma série de exames médicos relacionados com um episódio cardíaco e fiquei espantada com os resultados.

Hoje, mal me apanhei aqui no sofá, fui experimentar este NotebookLM. 

O meu ponto fraco, a nível físico, são as articulações, em especial os joelhos. Penso que seja um misto de genética, de anos de vida sedentária, intercalados por grandes esforços físicos. In heaven acartei com toneladas de pedras. A minha mãe ficava aterrada quando me via, dizia que o meu corpo iria dar de si. E, uma vez, falaram-me que não havia nada melhor para o chão de madeira do que a vaselina líquida. Claro que fui experimentar. Estava a aplicá-la, quando desataram a tocar à campainha. Aquilo era para dar e depois secar, pois, quando se dava ficava manteiga, deslizava como sei lá o quê. Mas, para ir ver quem era, levantei-me à pressa e, esquecida de ter cuidado, levantei voo, e de que maneira, e aterrei aparatosamente de joelhos. Tive uma dor monumental e pensei que tinha esfanicado os joelhos, partido todas as pecinhas que os compõem. Mas não, ficaram só muito doridos. Durante bastante tempo, andei aflita. Mas nem me ocorreu ir ao médico, limitei-me a esperar que passasse. E passou. Mas, seja porque é de família (o lado paterno padeceu de dores), ou dos maus tratos, a verdade é que volta e meia tenho alguma inflamação articular ou alguma dor muscular. Como durante anos frequentei o mesmo local de saúde, tenho praticamente todo o meu historial médico lá guardado. Então, agora estive a dar-me ao trabalho de entrar no portal, ver exame a exame, e, se tivesse a ver com o tema ou com análises feitas numa dessas alturas, descarreguei. 

Com tudo descarregadinho, abri o dito NotebookLM e criei o meu primeiro notebook privado. Meti lá para dentro 20 relatórios médicos (incluindo algumas imagens). E pedi uma cronologia e uma análise.

E a vantagem é que agora fica ali tudo guardadinho naquele notebook, não apenas os exames, como as análises 'dele' e, ainda, toda a conversa subsequente -- porque, claro está, desatei a fazer perguntas. E aquilo vai mais longe: sugere perguntas, e algumas pertinentes e de que eu nem me lembraria. Tudo guardado.

E o que 'ele' concluiu, mais uma vez, deixa-me a modos que siderada. E deixa-me assim porque constato que só uma máquina, uma máquina super aditivada, consegue, num abrir e piscar de olhos, ler todos os relatórios, analisar evoluções ao longo de anos, cruzar informação. Claro que ninguém vai para o médico de família carregado de relatórios desde antes de cristo até agora. Não há tempo ou capacidade de análise imediata de tanta informação. Impossível. Só tirando apontamentos e mais apontamentos -- mas quem é que teria tempo para fazer isso?

Perante o que vi, não tenho dúvidas que, para cada utente do SNS, deveria haver uma base de dados que juntasse todo o seu historial clínico, proveniente de onde fosse, incluindo de hospitais privados. E, de cada vez que qualquer médico, estivesse onde estivesse, deveria aceder a esse historial, tendo-lhe a Inteligência Artificial preparado um relatório de síntese, alertando para os pontos críticos, sugerindo questões ou novos exames.

No meu caso concreto, não vou estar agora aqui a entrar em detalhes que só me interessam a mim mas, por exemplo, 'ele' (ele, o notebookLM), assinalou como causa provável para as minhas crises algo de que nunca nenhum médico me falou, provavelmente porque não repararam e porque isso ficou perdido num relatório que nunca mais ninguém viu:  Constatou, num rx de 2016, o seguinte ->  Desequilíbrio Mecânico da Bacia, concretamente um supradesnivelamento de 8 mm à direita. E sugere que este desnivelamento pode ser a causa de grande parte dos problemas. Se for, resolve-se com palmilha. Imagine-se. Se ele, ele com aspas, tiver razão, os problemas que eu poderia ter evitado... Mas é a primeira vez que estou a saber disto.

Depois detectou, ao longo dos anos, uma tendência relativa ao funcionamento da tiroide. Nas últimas análises em que isso aparecia, e já lá vão uns 4 anos, ainda não era crítico mas a tender para o sub-clínico. No entanto, nunca mais ninguém pediu essa análise. Se já estiver mais elevado, também explicaria muita coisa.

A Inteligência Artificial é uma coisa tão extraordinária que, nas mãos erradas, representa riscos existenciais. E disso eu não tenho dúvidas. Mas, bem usada, traz vantagens se calhar também existenciais. Quando se diz que dentro de pouco tempo terá sido descoberta a cura para todas as doenças, isso tem tanto de magnífico como se terrífico. 

Agora, pensando apenas em usos benéficos, há que considerar o tempo de aprendizagem, a adaptação de todos, da sociedade no seu conjunto. Em vez de se andar a querer impingir leis laborais ou a discutir tretas, não seria mais ajuizado se a sociedade se mobilizasse para ver como lidar com a Inteligência Artificial? Como assegurar o seu bom uso? Como potenciar os seus benefícios? E, ao mesmo tempo, como impor linhas vermelhas?

Por exemplo: tendo eu esta informação clínica a meu respeito, compilada, analisada, interpretada, posso eu fazer alguma coisa com isso? Duvido. Para começar tenho que pensar como é que, com muito jeitinho, posso transmitir alguma coisa ao meu médico de família sem que ele fique furioso, a achar que quero saber mais que ele.

É um tema, este. E coloca-se em todas as profissões, ou quase todas.

Neste caso da saúde, se eu estivesse no Ministério da Saúde, encomendava já o projecto de que acima falei: criar um modelo de IA para concentrar toda a informação clínica de todos os utentes num único sistema, criando 'notebooks' para cada um, e gerando os relatórios, alertas e sugestões para que cada médico, ao receber cada doente, tivesse essa informação. 

Enfim. Não tenhamos dúvidas: estamos a entrar num mundo novo que era bom que fosse admirável (no bom sentido).

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Desejo-vos um bom feriado