Estava a ver o vídeo aqui abaixo e a pensar que Karin Andersen, sobe quem é o vídeo, me faz imenso lembrar uma antiga colega minha. Muito este género. Nunca se destacou muito, creio que dela nunca a ninguém ocorreria dizer que era extraordinária. Apesar de ser alta, na altura era a mais alta de todas, quase não se dava por ela. Sei hoje que, na verdade, tinha um ou dois anos mais que eu, que quase todas as daquele buliçoso grupo. Sempre gostei imenso dela. Mas imenso. Muito boa pessoa, muito tranquila. Nunca foi de intrigas, longe, longe disso, não se metia em aventuras, creio que os rapazes não se derretiam por ela, tenho até ideia que não era daquelas que era convidada para a maioria das festas. Pelo menos, não me recordo de a ver por lá. Também nunca me recordo de a ver numa excitação para saber se este ou aquele também iriam. Se calhar porque ela, própria, não ia. Não era esse género. Eu era. Eu era tudo. Pelo menos assim me lembro de mim. Eu inventava o que fazer, tinha ideias, pregava partidas, apaixonava-me, apaixonavam-se por mim, pensava nas roupas, inventavas roupas, queria pintar os olhos, queria tudo, queria combinar ir ao cinema, ir passear, pentear o cabelo de outra maneira, sonhar acordada com tudo e mais alguma coisa. Tudo. Ela, do que me lembro, era o meu oposto. Não sei o que pensava ela de mim. Eu gostava tanto dela. Parecia uma parede fresca à qual eu poderia encostar-me e refrescar a minha sempre alta temperatura, parecia um jardim onde eu poderia ficar sem dizer nada, parecia ser uma permanente presença de amizade.
Quando a reencontrei, vi-a igual. Tranquila. Quase distante. Vive num outro comprimento de onda. Faz a sua arte, viaja, frequenta espectáculos, cinema, espaços em que a natureza é virgem, em que não há temas de partidos políticos, em que não há espuma. Eu falo, pergunto, tenho vontade de saber. Ela escuta, tranquila.
Nessa longínqua altura em que pouco ou nenhum pronto-a-vestir havia, eu queria usar calças e procurava em todas as lojas, e encontrava, feias (face ao gosto de hoje) mas encontrava, eu queria usar biquini e quase não os havia e eu, e outra grande, grande amiga, procurávamos ansiosamente, e isso mobilizava-me, e depois comprámos, uma vitória, o meu pai passado com a minha ousadia, e eu feliz por conseguir o que queria. Do que me lembro este era o género de coisas para os quais ela não estava nem aí. E se ela assistia a esta minha maneira de ser, não faço ideia do que pensaria. Talvez também não estivesse nem aí e nem se apercebesse disso.
Qualquer coisa nela sempre me pareceu meio transcendente.
Tenho ideia de que nunca a vi emotiva como aqui abaixo a Karin Andersen está. Mas com certeza terá os seus momentos. No entanto, quando penso nela parece que a imagino como também sempre acima dessas transitoriedades, parece que a imagino como parte da natureza.
É curioso.
Hoje, quando a vejo, acho que é das mais modernas de nós todas. Veste-se de uma maneira sui generis, penteia-se, usa uns colares que são diferentes, que parece que fazem sentido nela. Zero aparatosa, zero chamativa. Pelo menos, deliberadamente. E, no entanto, vê-se a milhas que é alguém diferente. Pelo menos, eu acho.
Quando mostrei as fotografias, a minha filha apontou-a e disse: 'esta tem pinta'. É isso. Tem pinta. Não se parece, nisso, com a Karin, que é mais simples. Mas a Karin, sendo uma mulher simples, também atrai pela sua simplicidade, genuinidade, também, certamente, se distingue por não se enaixar em modas. E esse desencaixar é a forma como as pessoas assim, boas, generosas, francas, afáveis, se destacam. Quem quiser um porto seguro pode sempre ir ter com pessoas assim. Não censura, não julga, parece até quase nem querer saber. Mas está presente. Sabe esta presente.
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Às vezes gostava de lhes dizer que tenho este blog, mas depois penso em dias como hoje: se soubesse que ela iria ler, seria capaz de escrever com a liberdade de movimentos com que estou a escrever? Não sei. Talvez tivesse receio de embaraçá-la. Mas, por outro lado, também gostaria de retribuir em palavras toda a gentileza que sempre vi nela. Nela e em todas e todos sobre os quais gostaria de escrever. Tenho tão boas memórias. Sou tão grata.Não faria sentido que eles soubessem isso?
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Gostei imenso de ver o vídeo que aqui partilho, talvez um dos que alguma vez mais gostei, desta série da Reflections of Life. Não apenas a Karin me faz lembrar a A., como, sobretudo, me identifico com muito do que ela diz. Gosto das palavras que usa. Percebo a emoção dela, sinto o que ela sente, em particular quando fala da perda da mãe e da falta que ainda sente, e da presença que ainda sente -- e como pensa que talvez isso nunca passe.
Por que razão o extraordinário é sobrevalorizado
Ninguém percorre a vida completamente sozinho. Somos moldados por aqueles que caminham ao nosso lado, por aqueles que vieram antes de nós e até por aqueles cujas vidas se cruzam com as nossas apenas brevemente. De formas visíveis e invisíveis, acompanhamo-nos uns aos outros pela vida.
Estar presente para alguém não significa repará-lo ou mostrar-lhe o caminho a seguir. Muitas vezes, significa simplesmente dar-lhe espaço para ser quem é. Existe um profundo conforto em ser verdadeiramente conhecido e aceite, sem sentir que precisamos de esconder partes de nós próprios ou de nos tornarmos outra pessoa.
E esta ligação não termina necessariamente quando alguém morre. Aqueles que amamos permanecem nas nossas memórias, na forma como vemos o mundo e, por vezes, até no rosto que nos encara ao espelho. Transportamo-nos uns aos outros connosco e talvez seja por isso que, mesmo nos nossos momentos mais solitários, nenhum de nós está verdadeiramente sozinho.
Com Karin Andersen.
Filmado na região de Overberg, África do Sul.
[Poderão activas as legendas em português]





