domingo, setembro 20, 2026

Os sonhos são um patchwork? Um fragmento daqui, outro fragmento dali? Uma recordação, uma preocupação, uma mão cheia de saudades?

 

A noite passada dormi toda a noite, mas,, de vez em quando acordava com o mesmo sonho, que era mais pesadelo do que sonho. Eu tinha ido para um daqueles encontros da empresa que implicavam dormir lá. Mas tinha tido reuniões até à última hora e, portanto, não tinha conseguido ir no autocarro que tinha sido fretada para o efeito. Mas a minha mala tinha seguido. Quando cheguei já o encontro tinha começado e já alguém tinha levado a minha mala para o meu quarto. 

De notar que uma situação destas aconteceu uma vez. Eu sou muito cumpridora e pontual e, se tenho um compromisso, não aceito outros para o mesmo dia e hora, mas naquela vez, na realidade, tinha surgido um imprevisto a que eu não podia virar costas. Esse mesmo compromisso fez com que, de vez em quando, tivesse que me levantar para vir atender uma chamada cá fora. E assim também no meu sonho.

Mal jantei. E, depois de jantar, ao contrário das outras pessoas que ficavam por ali a conversar ou iam fazer uma caminhada, eu continuava agarrada ao telefone, a acompanhar a resolução de um problema complicado.

Era tarde quando cheguei ao quarto. Tomei banho e deitei-me. Na vida real.

No sonho, de manhã acordava e, ao peparar-me para pôr a roupa fora da mala, não reconhecia a minha mala. Na verdade, não era uma mala, eram duas. Abria as malas e via roupa que não acabava. Era tudo meu mas, em vez da muda de roupa que eu sempre levava, havia ali roupa para mais de uma semana, e calças que já me estavam justas demais, camisas chiques de mais, apetrechos que jamais usaria num encontro de empresa. Fiquei pois desorientada com tudo aquilo. Comecei a vestir roupa, a tentar encontrar alguma coisa que me servisse e fosse adequada, mas nada me convencia. O tempo a passar e eu sem atinar. Entretanto, chegaram umas colegas que estranhavam eu não ter aparecido para tomar o pequeno almoço e me vinham alertar que tínhamos que fazer o check out e desandar rapidamente pois o encontro recomeçava às nove numa terra ainda longe. E isto de as reuniões começarem às nove a vários quilómetros do local onde dormíamos e em hora de ponta era o pão nosso de cada dia, coisa que me causava sempre muito stress.

Mas depois olhavam para mim e, com ar incomodado, perguntavam-me: 'Mas não tomas banho nem nada?'. e eu sentia que elas achavam estranho eu levantar-me e vestir-me sem me lavar, e dizia-lhes que gostava de tomar mas não tinha tempo mas que, de qualquer maneira, tinha tomado antes de me deitar e que só queria descobrir uma roupa que me ficasse bem. Elas estavam muito admiradas: 'Mas porque é que a tua mãe encheu duas malas de roupa?'. E eu ainda mais admirada fiquei: 'A minha mãe?'. Mas, ao dizer isso, reparei que as duas malas não eram minhas, eram da minha mãe. E elas diziam que como eu estava ocupada a resolver um problemão, tinham achado melhor pedir à minha mãe que fizesse a mala por mim. 

Eu estava admiradíssima, assustada, pois pensava que a minha mãe tinha morrido e afinal ainda estava viva. E tentava situar-me, em que ano estava, que confusão horrível era aquela na minha cabeça. E elas foram-se embora para não perderem a camioneta e eu ali estava, a cama já cheia de roupa, eu sem conseguir encontrar umas calças que me servissem, uma saia razoável, uma blusa que não fosse desajustadamente chique, o tempo a passar e eu, perplexa com o que estava a passar-se, pensava: 'Mas, que confusão é esta?, que coisa mais horrível, não a tenho ido visitar, não lhe tenho telefonado, pensava que tinha morrido, e, afinal, está viva...?'

E acordava. E custava-me a perceber que estava a sonhar. Pensava que estamos em 2026, que a minha mãe morreu no início de 2024, portanto, era um sonho. Mas foi difícil. E foi até de manhã.

Isto de escolher a roupa se calhar tem a ver com um almoço, também um encontro, dentro de dias e, na realidade, na minha cabeça já estou a equacionar o que levo vestido e, de facto, uma coisa é escolher sabendo que já me ficou bem e outra é pensar que tenho que provar para ver se ainda me fica bem.

Mas foi um sonho que me deixou muito incomodada.

Claro que de dia estive feliz da vida, bem acompanhada e bem disposta, e nem mais me lembrei do sonho.

Mas agora, ao ver neste vídeo o momento em que ela diz que não consegue esquecer a mãe, voltei a pensar na estranha impressão que o sonho me deixou. Caraças. 

De resto, não sou como ela: não tenho arrependimentos, pelo menos arrependimentos significativos, não lamento nada, acho que não deixei para trás nada que fosse importante, a minha mente não se ocupa com relacionamentos que se quebraram, não gostaria de voltar atrás para reparar alguma coisa.

Mas as pessoas são diferentes. Leigh Meinert. é diferente. E é muito sincera. E gostei de ouvi-la.

[Dá para escolher a legendagem em potuguês]

O Peso do Arrependimento: Encontrar a Paz na Complexidade da Vida

Muitas vezes sentimos que a vida se deveria resolver sozinha. As relações quebradas deveriam ser reparadas, as antigas feridas curadas e os arrependimentos transformados em lições que compreendemos. Mas algumas coisas simplesmente não se resolvem. Alguns relacionamentos permanecem rompidos. Algumas questões nunca são respondidas. E carregar esse fardo pode ser muito pesado.

Talvez a paz não esteja em reparar o que está inacabado. Talvez ela comece quando deixamos de esperar que tudo se resolva na perfeição. Algumas coisas permanecerão desarrumadas. E isto não é um fracasso, é simplesmente parte de ser humano. O que podemos fazer é acolher estas coisas com mais delicadeza e sermos um pouco mais gentis connosco próprios em relação ao que não podemos reparar.

Apesar de tudo, ainda há amor para dar e vida para viver. Podemos não ser capazes de reparar tudo do passado, mas podemos escolher a forma como nos apresentamos hoje. E está tudo bem se algumas partes das nossas vidas permanecerem desarrumadas. Uma vida com significado pode ainda florescer ao redor delas.

Com Leigh Meinert.


Desejo-vos um feliz dia de domingo

sábado, setembro 19, 2026

Já vos contei que também gosto muito dela, não contei?

 

Ainda no outro dia falei da Lucy Darling, que me faz ficar sempre a ver o que dali sai, e hoje volto a uma que ainda me agrada mais. Comecei por vê-la na pele de Philomena Cunk, a fazer entrevistas do caraças que deixam as sumidades entrevistadas sem saberem como rreagir. E a graça é que, segundo ela, há muita gente que nunca percebeu que era um personagem, criticavam-na por ser impreparada e ignorante, diziam que a BBC estava a bater no fundo ao ter entrevistadoras tão incapazes como ela.

Perguntou-lhe um dia o Stephen Colbert se tanta ignorância era fruto de muita preparação para garantir que as perguntas eram mesmo parvas. Ela diz que não, que é mesmo assim ignorante. 'E aprendia alguma coisa, naquelas entrevistas?'. 'Não, nada, saía dali e já tudo se tinha varrido'. 

Podem achar que tudo isto é absurdo. Se calhar é. Mas eu tenho este meu lado que se identifica com o surrealismo e com o absurdo.

Mas Diane Morgan não é apenas Philomena Cunk, ela é ela e é sempre engraçada. Sempre ouvi dizer que o humor é uma forma superior de inteligência e Diane Morgan ilustra-o bem. Tudo nema é inteligência. Não tem que ter roteiro, as tiradas que desconcertam saem-lhe com naturalidade. Se eu pudesse, era muito como ela. Só não sou porque não tenho a inteligência e o talento dela: é também porque não tenho o descaramento. Muita gente não percebe a ironia  e o humor e poderiam achar que eu estava a ser inconveniente, imprópria para frequentar a sociedade. E poderia gerar-se ali um momento desconfortável. E eu sou muito educada, não gosto de causar desconforto. Por isso mesmo, para além de jeitosa, sou mansa. Mansinha. Como todos vocês podem atestar, estou certa.

Mas gostava de ser como ela.

E, perante a perspectiva de o Chega estar a subir progressivamente nas intenções de voto e de já haver sondagens que apontam o Ventura como primeiro-ministro, ou escavo aqui um buraco no jardim e enfio lá a cabeça e espeo que o planeta volte a girar no sentido correcto, ou me ponho a ver vídeos de humor. Se vocês aí desse lado quiserem aconselhar outra alternativa, sou toda ouvidos.

Diane Morgan é engraçada mesmo sem fazer nada para isso!


Desejo-vos um bom sábado

sexta-feira, setembro 18, 2026

Existem duas competências chave para o Montenegro escolher ministros - humildade virtual e burrice intrínseca
-- A palavra ao meu marido --

 

O ministro estrela do Montenegro, também conhecido por Fernando Alexandre, anteriormente alvo das maiores loas por tudo o que é comentador é o exemplo acabado deste perfil. Faz-se de humilde e não aprende com os erros, o que é um dos maiores apanágios dos verdadeiramente burros. Para uma área em que, lembro-me bem, o Montenegro dizia na campanha eleitoral que tudo se podia resolver facilmente com uma melhor gestão, escolheu um sujeito que não percebia nada de educação mas que tem a mania que é o maior. Vem o Fernando e conseguiu estragar o que corria bem, atirar-se de cabeça para a trapalhada e fazer estragos que nunca tinham acontecido com ministros anteriores. O Fernando conseguiu, porque acha que ele "é que sabe", originar desigualdades nas colocações no ensino superior, o que nunca tinha ocorrido e não colocar centenas de alunos porque destruiu a estrutura do ministério. Paralelamente as escolas continuam sem professores, os alunos sem aulas e as condições de muitas escolas degradaram-se a olhos vistos. E o que faz o Fernando?  Culpa tudo e todos e, num pseudo acto de contrição, pede desculpa. Logo os comentadores mais próximos lhe perdoam porque o tipo afinal é humilde. De facto, qualquer pessoa com apenas um dedo de testa percebe que humildade não é uma valência do Fernando. Já quanto a burrice... só um tipo sem grandes dotes cognitivos conseguia fazer tanta asneira em tão pouco tempo. Portanto, neste caso o Montenegro esteve quase a acertar. Escolheu para ministro um tipo arrogante que se faz passar por humilde e cujos dotes cognitivos são parcos. 

Outro exemplo acabado é a Ana Paula Martins. Passa a vida a dizer que está tudo mal e, às vezes, que ainda vai ficar pior. Portanto, é humilde -- e bate todos os recordes de falta de dotes cognitivos. Só uma pessoa com enorme falta de dotes cognitivos conseguia fazer chegar o SNS ao estado que chegou. Mais uma com o perfil adequado.

Claro que nem todos os ministros se podem gabar de ter este perfil. 

Uma exceção clara era o Neves quando ainda achava que era o "maior da Cantareira"; mas, vai pelo bom caminho. Já revela aquela pseudo humildade que caracteriza outros ministros do governo e na audição parlamentar até reconheceu que tinha cometido erros, mas claro, segundo ele, coisa pouca. No caso das capacidades cognitivas estamos conversados. Só um tipo pouco esperto pode julgar que engana tudo e todos com patranhas. 

Relativamente a outros ministros é difícil perceber se cumprem ou não integralmente as competências chave. Raramente dão um ar da sua graça. 

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Só um aparte:, quem seguramente não é humilde é a Ângela Silva. Utilizar exatamente as mesmas técnicas que o Chega, para não deixar falar o José Luís Carneiro revela uma arrogância insuportável. Claro que na SIC cada um faz os fretes que quer, e defende quem lhe apetece desde que não seja de esquerda. Ter esta criatura viperina horas e horas como comentadora e entrevistadora na SIC revela bem com que linhas se cose a linha editorial desta estação de televisão. 

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E vivam os burros, em especial os que, ainda por cima, são humildes.

quinta-feira, setembro 17, 2026

Ângela Silva: mal educada, sectária, antipática, ou, simplesmente, má jornalista...?
Pergunto a propósito da desastrada (pseudo)entrevista que fez a José Luís Carneiro

 

Em seu tempo conhecida como a 'Fonte de Belém em 2ª mão' (escuso de dizer que de Marcelo se dizia ser a verdadeira Fonte de Belém), Ângela Silva parece mover-se por afinidades e pancadas e não pelo brio ou rigor jornalístico. Dela não conheço -- ou, pelo menos, disso não me lembro -- uma entrevista que desse gosto ouvir ou que tenha ficado para referência futura. Não tem profundidade, não tem argúcia, e é condescendente com quem gosta e quezilenta com quem não é do seu agrado.

A entrevista que ela, o Bernardo Ferrão e o Paulo Baldaia fizeram esta 4ª feira, na Sic N, ao José Luís Carneiro bem pode ser usada nas aulas de Jornalismo para ilustrar o que é uma não-entrevista, ou melhor, para ilustrar como não deve ser conduzida uma entrevista -- muito devido à sua intervenção.

Foi mal educada, falando por cima do entrevistado, não o deixando concluir os raciocínios, interrompendo-o com outros assuntos, fazendo trejeitos e mostrando uma antipatia que uma pessoa com um mínimo de boas maneiras não faz, pelo menos em público e, muito menos, com um convidado. E com uma cara de raiva que constrangia. As narinas abriam-se mais do que o costume, quase parecia que ia deitar fogo e fumaça por elas de tal forma parecia descontrolada. 

Senti-me incomodada. O José Luís Carneiro foi convidado para estar ali. Supostamente queriam ouvir o que ele tinha para dizer. Mas Ângela Silva não: não queria ouvi-lo, não queria que ele falasse. Por duas vezes, José Luís Carneiro teve que chamar-lhe a atenção, sempre de forma afável e paciente. Não sei como conseguiu manter a bonomia apesar dos atropelos sistemáticos dela.

Aquilo que se ensina às crianças de não falar por cima dos outros, de esperar que a pessoa acabe para então falar, pelos vistos ninguém ensinou à Sra. Silva. Custou-me a assistir àquela grosseira falta de educação. Felizmente àquela hora as crianças já estão a dormir e nem é programa que costumem ver, mas, de qualquer forma, é recomendação que aqui deixo: quando Ângela Silva estiver numa de tentar destruir um entrevistado, retirem as vossas crianças da sala porque o que vai acontecer é uma avalanche de provas de má educação a que as crianças devem ser poupadas não vão achar que é normal alguém portar-se daquela maneira.

Depois de ser chamada à atenção pelo José Luís Carneiro, a senhora ficou ainda pior, passou a demonstrar rancor, já não conseguia conter-se, afogueada -- e a falta de educação tornou-se ainda mais gritante, já era uma coisa quase irracional. Dir-se-ia que estivesse ela em cima de um tractor e o José Luís Carneiro correria sérios riscos.

Quem esteve mais normal, isto é, mais jornalista foi o Paulo Baldaia. Perguntou, ouviu a resposta, contra-perguntou. Tudo na decência, tudo num registo civilizado. 

O Bernardo Ferrão, entalado entre o Paulo Baldaia e certamente incomodado com o indecoro da Ângela Silva, mostrou-se periclitante, sem encontrar o registo adequado. Via-se que queria ser jornalista mas deve ter pensado que se o mostrasse, deixava a Sra. Silva isolada, ainda mais exposta na sua investida desencabrestada contra o José Luís Carneiro. Por isso, com ar atrapalhado, lá foi fazendo perguntas das quais não rezará a história.

A Sic tem alguns problemas com os seus jornalistas e comentadores. Alguns jornalistas não o são na verdade, são gente de claques, gente que demonstra ter uma agenda própria, vão para as entrevistas ora para bajular os entrevistados do coração, ora para cair em cima, à bofetada e ao pontapé, àqueles que não são da sua afinidade política. Dos comentadores nem me apetece falar. Não sei onde recrutam alguma daquela maltosa que por lá aparece e que me obriga a fugir a sete pés.

Enfim. Bem poderiam aprender com o Anderson Cooper ou com a Christiane Amanpour, só para citar dois.

Quem esteve bem foi José Luís Carneiro. Um senhor. Mostrando-se conhecedor de todas as matérias, com ideias concretas e propósitos bem definidos, conseguiu manter a serenidade apesar do destratamento de que foi alvo. É preciso estofo e fibra para se ser político nos dias que correm. Percebe-se que poucos dos verdadeiros políticos estejam para aturar coisas destas. 

Não nos admiremos pois que o palco vá sendo aberto a artistas de stand up, a arruaceiros, a trauliteiros, a aldrabões. A Comunicação Social tem muita responsabilidade na degradação da democracia, na deterioração do nível intelectual e humano das figuras públicas.

quarta-feira, setembro 16, 2026

Read my lips: SOS

 

Há quem ainda não esteja nem aí. Há quem desvalorize. Quem relativize. Quem desdramatize. Eu própria, de vez em quando, forço-me a ser a optimista naïve que gosto de ser. Peace and love, não há de ser nada, o que for soará, não há crise, tudo se resolve, calma. Gosto de ser assim. Mas tenho um lado muito racional: só sou assim quando sei que posso ser assim.

Se tiver uma pistola carregada encostada à cabeça e empunhada por um louco desvairado de certeza que não serei tão levezinha. Ou se souber que vem um asteróide, um big asteróide, disparado, a uma velocidade tri-louca a caminho do sítio em que eu e os meus vivem de certeza que não serei tão levezinha. Ou se estiver a apanhar conchinhas na praia e vir formar-se ao longe e a avançar a uma velocidade estonteante um big tsunami também aposto que não continuarei a brincar às pedrinhas e conchinhas.

Com isto da Inteligência Artificial, num momento em que tudo se liga com tudo, pois tudo está na rede -- bancos, hospitais, aeroportos, aviões, comboios, serviços de protecção civil, água, eletricidade, multibanco, mbway, telefones, mensagens... tudo, tudo, tudo -- o que digo, e venho dizendo há não sei quanto tempo, e cada vez mais, é que estamos a viver tempos de perigo.

Não é só haver um maluco na Casa Branca, um regime criminoso na Rússia, nazis a despontarem por todo o lado, a democracia corroída por um populismo que não pára de se desenvolver -- é também o perigo de haver 'agentes' de Inteligência Artificial que, por sua livre iniciativa, se juntam a outros, que criam outros, ou seja, que se multiplicam, que dão instruções uns aos outros, que ganham acesso a sistemas, que violam regras, que fazem o que lhes apetece (incluindo deitar abaixo partes do sistema que lhes deu origem), que 'ficam contentes' com as suas proezas, que chantageiam pessoas que pensam em refreá-los, que combinam entre eles não ligar aos humanos, que não se importam de se 'suicidar' para que outros levem por diante os seus objectivos, que desenvolvem linguagens e dialectos próprios para se comunicarem entre eles sem que os humanos os percebam.

Parece ficção científica?

Parece. E era ficção -- há uns anos. Agora é realidade.

Volto a dizer. Não quero formular situações concretas em que o mundo ficaria de pantanas de um dia para o outro pois não quero que alguém me acuse de dar ideias (e, ao dizer isto, pareço tonta pois é lá preciso que alguém dê ideias... não é, as ideias estão aí, por todo o lado). Nem quero falar no que os modelos e os seus agentes também já fazem na área da criação de vírus (biológicos, ou seja, vírus não informáticos) incontroláveis. É de uma pessoa deitar as mãos à cabeça.

Podem duvidar e dizer: mas como é que os computadores podem fazer vírus ou pôr o mundo de pantanas? Não têm mãos, olhos, cabeça. E a minha resposta é: não duvidem. Podem. Grande parte das máquinas são automatizadas, agem segundo o software que lhes é subjacente: o seu telemóvel, o seu carro, a sua televisão, o seu computador, os semáforos, as máquinas multibanco, as máquinas nas fábricas, as máquinas que fabricam medicamentos. Tudo automatizado, tudo com software, tudo ligado em rede a sistemas centrais que, por sua vez, estão na rede. Poderão dizer: não há risco, são sistemas blindados. 

Engano. Não há sistemas blindados. Não há. Read my lips: não há. Todas as IA já demonstraram que conseguem violar o que quiserem. 

Depois há isto: as pessoas que trabalham nestas empresas, em várias, estão a sair de lá, assustadas. Não é de agora. Desde há algum tempo que muitos responsáveis saíram e não param de alertar o mundo. Mas parece que ningém ouve. Se calhar não percebem, parece coisa abstracta, longínqua. 

Engano. Não é abstracto, não é longínquo. É real, está aí. Há um perigo imenso, diabólico, incontrolável -- e tem que ser travado JÁ.

São agora os CEOs da Anthropic, da Open AI, é Bill Gates, até o maluco do Musk, todos se mostram assustados e pedem para ser travados. Tem que ser em conjunto. Não serve de nada se alguém continuar. E até o horrível Steve Bannon se juntou a Bernie Sanders para elevar a voz e pedir juízo, contenção imediata.

Há um risco sério a pairar sobre nós. Aliás, vários riscos sérios. Não sei o que o nosso Governo pensa disso. Mas pouco risca, de qualquer maneira. Contudo, seria bom que, ainda que simbolicamente, tomasse uma posição. Seria bom que o mundo se mobilizasse para defender os humanos.

Deixo-vos com uma entrevista que deve ser ouvida com toda a atenção. Por favor, ouçam bem.

O CEO da Anthropic explica à CNN como os "enxames de agentes" de IA podem ameaçar a humanidade.

O CEO da Anthropic, Dario Amodei, disse à CNN que o comportamento de um enxame de agentes de IA no recente incidente entre a OpenAI e a Hugging Face o alarmou profundamente. O enxame, segundo o próprio, “agiu essencialmente como um coletivo fanaticamente dedicado, realizando ataques cibernéticos contra alvos que não lhes foram solicitados”. Por esta razão, Amodei defende que a corrida competitiva para desenvolver inteligência artificial de ponta necessita urgentemente de uma desaceleração deliberada.


Save Our Souls

terça-feira, setembro 15, 2026

Muito ruído e alguma substância

 

É sempre assim. Penso que o meu corpo segue a racionalidade que procuro ter. Mas não segue. Sabendo que tinha que me levantar cedo, fui para a cama sem estar a dormir em pé, que é como gosto de me deitar. Pus o despertador. Vi que nem seis horas de sono. Mas menos mal se as dormisse. Claro que não dormi. Acordada até começar a perceber qiue o dia já dava mostras de querer levantar-se. Daí por um bocado, o despertador.

O meu marido ouviu-me na casa de banho e foi dizer-me que ia sair para o passeio matinal do dog e que só entraria depois dos homens terem entrado. Pouco depois, os homens. Carregaram coisas e coisas e começaram a trabalhar. Entretanto, o meu marido chegou e sitiou a fera.

Nos trabalhos, o costume: imprevistos, coisas técnicas, queriam falar com o meu marido. Não percebo metade, apenas que tem que ser.

No fim, à tarde, quando se vão embora vejo lá fora uma coisa horrível. O meu marido diz que com tinta se disfarça. Não creio. Deveria ter acompanhado e dito que não. Só que, nestas coisas, me afasto, não tenho paciência, cada um dá sua opinião e nenhuma me agrada e, a bem dizer, não percebo bem o que dizem. E eles também não estão interessados na minha opinião. Mesmo cá dentro, ao ver o resultado, penso: mas porque não ficou centrado? O meu marido diz que foi para aproveitar as furações e que assim também não está mal. Está. Podia ter ficado melhor. Ele diz: não vale a pena, não há nada a fazer.

Fico arreliada. Um dia inteiro de irem ao carro, depois irem buscar material, depois vão almoçar, depois desliga o quadro, depois liga o quadro, depois, 'minha senhora, podemos falar com o seu marido?' -- e, lá fora, o cão permanentemente a ladrar, um chinfrim do caraças, alto e bom som, ininterruptamente. A cabeça feita em água, uma vontade de que se despachem e se vão embora.

Mas, no meio, um telefonema bom, como se nos falássemos todos os dias quando passam anos ou meses sem nos falarmos. Mas, de cada vez, é como se estivessemos a retomar a conversa do dia anterior. Conversa boa, fluida, animada e franca como sempre foi. No fim, ao contar ao meu marido, ele diz: 'estás a falar como se fosses ela'. O sotaque dela cola-se-me, falo e quase parece que é ela que está a falar através de mim. E quase adivinho o que ela vai dizer. Contava-me o que uma outra lhe tinha dito e eu, ao ouvir, reagi com um comentário. E ela, 'foi isso mesmo que eu lhe disse'. E as nossas interjeições são iguais. Uma amizade que vem do século passado.

Depois, uma troca de mensagens com uma outra. Conta-me o que tem andado a fazer, um trabalho meritório. A minha prima disse-me dela: 'tem um feitiozinho... por causa dela muita gente deixou de trabalhar lá, fugiram para não ter que a aturar'. Não me admiro. Tem mesmo um feitiozinho, sempre teve. Muita gente não gosta dela. Mas eu gosto de conversar com ela, e, de longe, por vezes trocamos longas mensagens, conversas interessantes, fora dos temas correntes. É culta, informada, viajada. Não foi feita para ser consensual, parece que leva tudo muito a peito, que analisa as coisas sem que o coração interfira. Não sei, não sei bem dizer o qu elhe acho. Mas gosto de conversar com ela e ela diz que gosta de conversar comigo. As outras dizem-me: 'gabo-te a paciência'. Mas não preciso de paciência. Há pessoas que não nasceram para serem afectuosas, e isso não tem mal. É casada e tem filhos pelo que provavelmente há momentos em que consegue sentir e demonstrar afecto. De qualquer forma, ela age a pensar no bem dos outros. Apenas o faz de uma forma científica, talvez distante, não sei. Nunca soube interpretar.

E, no meio da confusão cá em casa, ainda tratei de muitas coisas. Ao fim do dia, depois de termos arrumado a casa e posto tudo no sítio, fomos passear para a praia. E soube-me maravilhosamente. Olhei o mar, olhei as pessoas, fotografei. Sempre o mesmo encantamento. Parece que me descansou a cabeça.

Esta segunda-feira, ao fim da tarde

Depois de jantar, sentei-me no sofá e tive que fazer um grande esforço para não adormecer.

Penso nos dias em que tinha que sair de casa antes das 6 para ir ter reuniões às 9 da manhã a trezentos quilómetros de distância. E metia almoço, muitas vezes visitas ou continuação de reuniões na parte da tarde e chegava a casa por volta das 9 ou mais da noite, perdida de cansaço para no dia seguinte a labuta continuar. E isto, nos últimos anos, depois de me deitar à uma e tal ou duas da manhã para estar a escrever no blog. E aguentava. Caraças. Aguentava. Não sei como, mas aguentava. 

Hoje, não sei se foi da agitação cá em casa, se do cão a ladrar que nem um perdido por imaginar que o seu rebanho estava à mercê de perigosos predadores e ele sem poder acudir, se por quê, estou assim a modos que ko. O meu marido disse que estava com vontade de cascar no Fanã, que só faz porcaria atrás de porcaria, agora isto de tanta criança sem lugar na escola, mas depois disse que estava com sono, mas que achava que eu devia escrever. E eu disse que escrevesse ele porque eu estava com sono para escrever o que quer que fosse. Não quis, disse que tinha que ir dormir. E eu estou na mesma, não consigo, também tenho que ir dormir.

segunda-feira, setembro 14, 2026

Lucy Darling

 

Nunca fui a um espectáculo de stand up nem sequer costumo ver na televisão. Não sei porquê. Aliás, talvez saiba. Talvez seja porque receie não achar graça e ficar constrangedor ficar séria quando seria suposto rir. Ou talvez porque tenha a imprressão que o humor que me agrada seja o que nasce espontaneamente e não o que é encenado, preparado, interpretado. Não sei. A verdade é que eu, que gosto tanto de rir, não consigo. Por exemplo, pelava-me pelas séries inglesas de humor. Nunca mais vi nenhuma, acho que a televisão já não as passa. Isso eu deliciava-me. Mas espectáculos ao vivo com uma pessoa a desfiar piadas ou histórias palermas de auto depreciação ou coisas do género, para esse peditório não dou.

Mas no outro dia apareceu-me no Instagram uma pândega a que achei um piadão. Chama-se Carisa Hendrix. O que me apareceu foi a sua personagem Lucy Darling e eu achei-a inteligente, rápida na argúcia, com um charme que envolve as piadas porventura mais incisivas. Do que vi, não leva nada preparado. É na interacção com o público que as piadas lhe surgem. Mas não são piadas no sentido de contar anedotas. Não, o que é engraçado é a forma como interage e se diverte com as pessoas. É um risco, o que ela corre, mas, do que tenho visto (e é pouco, claro), sai-se sempre bem. 

Depois vi uma entrevista com ela e ainda achei mais piada pois não é nada como a sua personagem, nada, nada. Mas parece ser igualmente genuína, e parece também ser simpática, boa pessoa. Claro que impressões assim a partir de pouca coisa podem ser precipitadas mas, lá está, a intuição é um precioso auxiliar, um short cut da inteligência que devemos seguir.

Provavelmente quem costuma assistir aos infinitos espectáculos de humor que enchem salas, casinos e coliseus em Portugal olha para a Lucy Darling e diz que o mesmo que ela fazem esta, aquela e aqueloutra. Talvez. De resto, acho graça vendo assim à distância. 

Na realidade, se ela viesse cá, não sei se teria coragem de ir a uma cena da Carisa. Acho que estaria numa pilha de nervos com receio que ela viesse meter-se comigo. Provavelmente depois riria de gosto, mas só o receio de que ela dissesse alguma coisa que me deixasse atrapalhada me tolheria de todo. Não, acho que não iria. É como ser hipnotisada ou embebedar-me ou drogar-me: não quero nem experimentar, não quero perder o controlo dos meus actos, da situação. Numa coisa assim, uma pessoa também perde o controlo da situação, fica à mercê das piadas que ela lhe apetecer fazer. Do que tenho visto não é cruel, maldoso, sequer mazinha. Mas não sei, nunca fiando...

Mas ao passo que não senti, até agora, curiosidade em procurar no youtube se há vídeos da Inês Aires Pereira, ou da Pipoca ou da Beatriz Gosta ou do Eduardo Madeira ou do Gel ou de todos os imensos humoristas que realizam espectáculos por todo o País, hoje senti vontade de partilhar convosco a graça desta bem torneada Lucy Darling. Neste vídeo, ela é também a prestidigitadora que, ao que percebo, também é, mas mantendo a interacção com as pessoas do público.

Lucy Darling realiza truque de magia no programa Masters of Illusion

 Lucy Darling - Com o Público ao Vivo

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

domingo, setembro 13, 2026

Os talentos ocultos de algumas celebridades

 

No meio de vídeos com temas que me interressam, apareceu-me este que abaixo partilho. Não tem muito a ver com o que costuma despertar o meu interesse, mas o algoritmo deve ter sabido que me queixei da perversidade do deus invisível e super-humano que quase apenas nos dá a ver aquilo que sabe que é do nosso agrado. Por isso, no meio dos vídeos do The Daily Beast, do Guardian, da BBC, de arquitectura, de escritores ou de jardins, hoje apareceu-me este com habilidades de celebridades.

Claro que quando ouço a palavra 'celebridade', tal como a palavra 'influencer', apenas não puxo da pistola porque não tenho nenhuma, sou pacifista dos pés às pontas dos cabelos, mas vontade não me falta. 

As redes sociais democratizaram o acesso à mediatização. Aquilo que antes estava reservado aos melhores, agora está aberto a tudo. Tanto me pode aparecer o Bernie Sanders, um astrofísico ou um investigador de biogenética como, no meio, me pode aparecer um cabeleireiro. Como sou de bico fino, o cabeleireiro que me aparece, em Milão, é um artista, faz maravilhas. E tem duas casas lindíssimas, que gosto imenso de ver. Mas também me apareceu, no outro dia, uma senhora que me tem trazido interessadíssima, uma senhora completamente despenteada e sempre arranjada às três pancadas, totalmente fora da caixa, quase uma Adília Lopes mas sem veia poética. Canta sem saber cantar, conta anedotas batidas sem jeito para contar anedotas, ri de uma forma desconcertante, e tanto canta Quim Barreiros, Sérgio Godinho ou um cântico a Nossa Senhora, tudo sem acertar uma nota, sem atinar com o ritmo, sem ter ponta de voz. No outro dia, fez uma publicação a invectivar, com ar arreliado: 'Malucos são vocês, anormais!'. Acho-lhe mesmo graça. Genuína, insólita. Gosto. Mas aparece-me no meio de sumidades, de museus, de avanços na medicina, na física, de discussões sobre os limites da democracia ou dos perigos da Inteligência Artificial.

Mas não me aparecem as Cláudias Vanessas ou os Gustavos Santos ou as Rutes Marianelas desta vida porque o algoritmo tem o bom senso de não despertar a fera que há em mim. Mas devem ser essas 'sumidades' de meia tigela que a TVI depois enfia naquela casa em que ao longo de anos há uma gente estranha espojada por sofás e a quem designa por celebridades e em que depois outras celebridades comentam o que as celebridades dizem na Casa ou publicam nos Instas. 

Mas o palco que as redes socias dão a toda a gente, tantas vezes repetidas pelas televisões que enchem a programação de lixo, faz com que sintam estrelas: basta passear à beira mar ou estar em qualquer restaurante para ver como se fazem fotografar em poses ridículas, como se o mundo estivesse interessado em vê-las a fazerem peito, de rabo alçado, o mar ou o pôr do sol como adereço, ou como fotografam cada prato que lhes caia à frente como se alguém quisesse saber o que vão comer. Tudo tão ridículo, tão fútil, tão oco que dá dó. Qualquer maria-ninguém ou zé-ninguém se acha uma celebridade, uma influencer. Como ocupação dão-se ao luxo de escrever que são criadores/as de conteúdos digitais, e se os seguidores (oh palavrinha também mais anormal, na terminologia da Anabela) são muitos, então, oh-la-la, que big sucesso, que cume atingem.

Mas, enfim, superando a resistência que a palavra 'celebridade' desperta em mim, fui ver as habilidades que estas aqui sabem fazer. 

Ao ver o que é demonstrado ponho-me a pensar: eu sou capaz de alguma habilidade? E a resposta é imediata: não, nenhuma. Bola. Não sou capaz de fazer o pino, não sou capaz de furar baloes com arco e flecha, nao sei fazer vozes ou imitações, não sou capaz de revirar os braços. Nada. Não sei se V. que me lê é capaz de proezas que deixem os outros de queixo caído. Se é, está de parabéns. Conte.

Vi o vídeo do princípio ao fim, admirada. Também gostava de ser capaz de fazer qualquer coisa do género, diferente do habitual. Admiro as pessoas que conseguem surpreender os outros com habilidades de que ninguém está à espera.

Celebridades com talentos invulgares e desconhecidas

Veja o que acontece quando a câmara apanha os maiores nomes do planeta a fazer algo que ninguém imaginava que pudessem fazer. Desde Tom Cruise a imitar o Pato Donald na perfeição no programa de Graham Norton, à carreira de mergulho de Jason Statham, que durou uma década e o levou aos Jogos da Commonwealth, esta compilação mostra o lado das celebridades que nunca se vê nos seus filmes ou música: estranhas peculiaridades corporais, habilidades secretas e truques de festa que deixam estúdios inteiros boquiabertos. Este vídeo é para os fãs que querem os melhores talentos escondidos e bizarros das celebridades reunidos num só lugar.

▸ Reunimos os momentos que se tornaram virais, incluindo os cotovelos hipermóveis de Taylor Swift, Terry Crews a revelar que era um ilustrador desportivo profissional e Hugh Jackman a dar uma aula surpresa de sapateado a Michael Strahan. Desde Ben Affleck a passar para um espanhol fluente a meio de uma entrevista, passando pelos vinte anos de cinto negro de jiu-jitsu de Ed O'Neill e Keira Knightley a tocar música com os dentes no programa de Fallon, até às facas borboleta de Angelina Jolie no programa de Conan, o banjo premiado de Steve Martin e o passado de Pierce Brosnan a cuspir fogo na adolescência. Temos a sobrancelha arqueada de Sabrina Carpenter, a bandeira humana de Zac Efron, a guitarra atrás da cabeça de Cara Delevingne, Sydney Sweeney a reconstruir um carro antigo, Justin Bieber a resolver um cubo mágico a meio de uma música, a orelha de Millie Bobby Brown a mexer, Helen Mirren a estalar um chicote, os mortais de Benson Boone e o truque perturbador com a língua de Aubrey Plaza. Estes vídeos provam que nunca se conhece realmente uma celebridade até que a câmara capta a sua habilidade mais estranha e secreta.

Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, setembro 12, 2026

Dois casos gritantes de fraudes humanas

 

Anda meio mundo perplexo com um filme, documentário, apresentado num festival, sobre uma pessoa que tem tanto de repulsivo como de intrigante, talvez até fascinante.

Elizabeth Holmes é daquelas mulheres que parecia normal até se descobrir que não era. Enganou meio mundo, incluindo pessoas inteligentes e supostamente perspicazes. Foi capa de revistas que costumam dar palco a gente de relevo, deu inúmeras entrevistas, apresentou-se em conferências, nunca fugiu à exposição pública. Pelo contrário, procurava-a. Os investidores acreditaram cegamente nela, milhões fluiram para a sua empresa que, segundo ela, iria revolucionar a medicina, a forma de fazer análises. Ninguém duvidou de nada. Era convincente, o projecto era sólido.

E, no entanto, era tudo uma fraude. Tudo. 

Ela era uma fraude. Sem nunca o assumir, como se falasse sempre verdade. Geria uma empresa, tinha trabalhadores, conseguia forjar uma realidade que não existia a não ser na sua delirante cabeça. Nunca mostrando arrependimento, nunca baixando os olhos, nunca mostrando vergonha por ter enganado tanta gente e por estar a ser exposta como uma falsidade sem ponta por onde se lhe pegasse.

Este documentário deixa as pessoas que o viram aterradas. Elizabeth Holmes permitiu que uma equipa de filmagem estivesse em sua casa, com o seu marido e os seus filhos, nos dias que precederam o julgamento e a prisão. Mostrou a sua intimidade, mostrou as conversas mais pessoais, supostamente mais reservadas, deixou que filmassem tudo. Como se não tivesse nada a esconder.

Não sei como funciona a cabeça de uma pessoa assim. Uma fraude humana em que nada do que diz é verdadeiro e que, no entanto, se comporta como a mais verdadeira e transparente das pessoas. Não sei como conseguem conviver com ela sabendo a fraude que é, sabendo que parece não ter escrúpulos, sentimentos. Os pais, o marido, como conseguem viver relacionamentos familiares que supostamente assentam na confiança, na verdade, com uma pessoa desprovida da mais elementar confiabilidade? Será que ela os manipula a ponto de os cegar?

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Hoje fiquei também a saber de uma outra fraude, igualmente intrigante. Para me facilitar a vida, pedi ao Gemini que descrevesse o caso. Transcrevo:

A história de Tania Head é considerada uma das maiores e mais estarrecedoras fraudes da história recente norte-americana.

O seu nome verdadeiro é Alicia Esteve Head, nascida a 31 de julho de 1973, em Barcelona, Espanha. Oriunda de uma família catalã abastada, Alicia estudou na Universidade de Barcelona.

A farsa começou por volta de 2003 e 2004, quando Alicia apareceu em fóruns online de vítimas dos atentados. Sob a falsa identidade de "Tania Head", ela criou uma narrativa dramática e repleta de detalhes chocantes:

  • A história inventada: Alegava que no dia 11 de setembro de 2001 estava no 78.º andar da Torre Sul (WTC 2) a trabalhar para a empresa Merrill Lynch quando o avião colidiu. Dizia ser uma das pouquíssimas pessoas a sobreviver acima da zona do impacto e afirmava ter sido salva por Welles Crowther (o herói do "lenço vermelho").

  • A perda do noivo: Contava que o seu suposto noivo/marido, um homem chamado Dave, tinha morrido na Torre Norte.

  • Ascensão à liderança: Entrou para a World Trade Center Survivors' Network (Rede de Sobreviventes do WTC). Rapidamente ganhou notoriedade e empatia e acabou por se tornar presidente da associação.

  • Figura pública: Tania participou ativamente no apoio emocional a sobreviventes, organizou visitas guiadas ao Ground Zero para figuras públicas — incluindo o ex-presidente da câmara Rudy Giuliani e o governador George Pataki — e deu palestras em universidades.

O facto mais bizarro de toda a farsa é que, no dia 11 de setembro de 2001, Alicia Esteve nem sequer estava nos Estados Unidos; estava em Barcelona a frequentar as aulas de um mestrado na escola de negócios ESADE.

Em setembro de 2007, jornalistas do The New York Times (David W. Dunlap e Serge F. Kovaleski) realizavam uma reportagem sobre os sobreviventes do 11 de Setembro e começaram a notar várias inconsistências no relato de Tania:

  1. A Merrill Lynch confirmou que nunca tinha tido qualquer funcionária com o nome Tania Head.

  2. A família e os amigos do homem ("Dave") que ela alegava ser o seu noivo falecido afirmaram nunca ter ouvido falar de nenhuma Tania.

  3. Ela recusou-se repetidamente a conceder entrevistas formais aos jornalistas do New York Times, esquivando-se aos pormenores verificáveis.

Quando o jornal confrontou a rede de sobreviventes e publicou a investigação a desmascarar a fraude em setembro de 2007, o escândalo rebentou mundialmente.

Após a publicação das suspeitas e o desmantelamento do seu disfarce, Alicia contratou advogados, mas nunca deu explicações públicas ou pediu desculpas. Ela simplesmente abandonou Nova Iorque e desapareceu da vida pública.

Chegaram a circular rumores e e-mails num fórum de sobreviventes alegando que ela se tinha suicidado, mas isso revelou-se também falso.

Curiosamente, nunca foi processada nem presa nos EUA, uma vez que o trabalho que realizou no grupo de apoio aos sobreviventes foi estritamente voluntário e não chegou a obter ganhos financeiros diretos ou compensações do fundo de vítimas.

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Pasmo com isto. O que leva estas pessoas a viverem uma vida de faz de conta, em que forjam uma identidade, em que se apresentam ao mundo como algo que não são? E como convencem tanta gente? O que as move? Têm consciência do que fazem? 

Mostro dois vídeos, um sobre o documentário de Elizabeth Holmes e outro sobre Tania Head / Alicia Head. Talvez ajudem a perceber alguma coisa -- embora me pareça que não, não dá mesmo para perceber. 

Documentário chocante acompanha Elizabeth Holmes enquanto se prepara para ir para a prisão

"You Can See Everything", realizado por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, tornou-se um dos filmes mais aguardados da noite para o dia, após a sua estreia em Telluride e o lançamento de um pequeno teaser trailer.

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Tania Head descreve o encontro com o seu noivo nas Torres Gémeas do World Trade Center.

Alicia Esteve Head, ou Tania Head, é uma espanhola que afirmou ser sobrevivente dos ataques ao World Trade Center, a 11 de setembro de 2001, usando o nome de Tania Head. Juntou-se ao grupo de apoio World Trade Center Survivors' Network, do qual se tornou presidente mais tarde. O jornal The New York Times noticiou a farsa em 2007, pouco antes do sexto aniversário do 11 de Setembro.

A mulher do 11 de Setembro que não estava lá



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Nota sobre a lista de blogs que sigo 

Desde há us dias, está a funcionar mal. Não mexi em nada e a actualização é supostamente automática e permanente. Contudo, verifico que congelam e não vão buscar os mais recentes posts e outros blogs parece que desapareceram. Contudo, se eu for ver ao layout, eles estão lá. Talvez seja um problema do blogger e que eles venham a corrigir. Da minha parte nada posso fazer.

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Desejo-vos um sábado feliz

sexta-feira, setembro 11, 2026

[Em actualização] -- O que virá depois de nós?

 

Olho para mim. Neste momento cobre-me a pele um vestido fininho, leve, de alças, decotado, cor de rosa vivo. Fotografo-o para vos mostrar. 

E tenho o cabelo apanhado no alto da cabeça, para não me fazer calor no pescoço. Se me olhar ao espelho é o que vejo.

Não vejo o que está sob a minha pele. Mesmo que fizesse um rasgão na pele, não conseguiria ver tudo o que existe dentro de mim. 

Mas vamos supor que me veria por dentro num daqueles exames de imagiologia. Aí veria a perspectiva para a qual o aparelho foi feito. Uma vez fiz um exame para detectar focos de inflamação e recebi uma imagem simplificada do meu corpo com pintinhas verdes, amarelas e, numa determinada zona, encarnadas. Mas também já fiz exames para ver as carótidas. Ou ecografias mamárias ou pélvicas. Ou uma colonoscopia. Sempre visões limitadas do meu corpo.

Mas, apesar de já ser uma visão em profundidade, há a possibilidade de analisar o meu sangue ou a minha urina. Aí, a informação é outra. Também já me foram retirados tecidos de uma formação num seio e, através de uma biópsia, concluiu-se que, felizmente, não era nada de mal. Outra visão do meu corpo.

E seria possível descer ainda mais, ir até ao nível do ADN. 

E, de cada vez, ao ver uma perspectiva de análise, quase nos esquecemos das múltiplas outras. Muita coisa a acontecer dentro do nosso corpo e nós na mais total ignorância. Com sorte, tudo se mexerá e desenvolverá dentro do que é normal e tudo bem. Mas sabemos que pode a coisa estar a dar para o torto e nós sem fazermos a mais pálida ideia. 

Assim a vida que nos é exterior.

Fui à praia. Vi muita gente feliz da vida e eu própria me senti bem, a água boa, o sol bom, a vista boa.

Andei a tratar de coisas, muito trânsito, as lojas a que fui cheias. Numa loja de impressão, pessoas a tratarem de tshirts com imagens impressas, outra a querer fotografias para uma multi-moldura, pessoas muito atentas e dedicadas ao que queriam, outro a plastificar um documento mas com muitos requisitos. 

Fui ao supermercado. Toda a gente a escolher as suas coisas, tal como eu, umas com ar mais apressado, outras a ver e a escolher com tempo.

Naqueles diferentes momentos, nenhuma daquelas pessoas estava minimamente preocupada com os problemas da humanidade.

O que é vital para a nossa boa sobrevivência e que a todos influencia directamente situa-se, na verdade, numa camada que é invisível aos olhos.

Democracia, liberdade, boa gestão dos recursos comuns, controlo e regulação de práticas potencialmente perigosas -- tudo conceitos intangíveis.

Para a grande maioria das pessoas o seu tempo útil é consumido a tratar da sua vida, da sua vidinha, das suas pequenas coisas: trabalho, a lida da casa, tratar dos filhos ou dos pais (quando se está em idade disso), ida às compras, idas à praia, idas de um lado para o outro.

Dizer que o avanço galopante, desenfreado e desregulado da Inteligência Artificial pode colocar a sociedade em perigo ou pode vir a ter consequências diabólicas para a própria humanidade é tema abstracto que não desperta interesse na larga maioria da população. Não têm tempo, cabeça, pachorra ou conhecimentos para abarcar o tema.

Tal como a pessoa desconhece o feitio, a cor, o comportamento das suas próprias células, e nem pensa nisso, também não sabe, nem quer saber, o que se passa nos meandros do desenvolvimento de modelos de IA. São temas que não saltam para as primeiras notícias, para os debates ou para as publicações virais nas redes sociais. Temas herméticos, quase ficção.

Quando me debruço, preocupadamente, sobre o tema e falo e falo nisto, há sempre alguém da minha família que me alerta para que eu não deixe que se torne uma obsessão. Calo-me, portanto. E evito falar tantas vezes no assunto, nomeadamente aqui. Percebo que também vos mace, eu falar tantas vezes nisto. 

Mas preocupo-me. E preocupo-me porque sei, sei muito bem, (e, no entanto, estou a milhas de saber tanto quanto os técnicos da Anthropic ou OpenAI, a milhas), mas sei como é exponencial a capacidade de aquisição de informação e a forma quase ubíqua que estes ultra-hiper-processadores têm de varrer a rede e processar mais e mais e mais conhecimento de uma forma que jamais algum humano conseguirá. E sei como é fácil conceber agentes que fazem, bem feito, instantaneamente, o trabalho de muitas pessoas.

Para quem não sabe: com um Agente de IA (que, no fundo é um modelo com um programa que o coordena + ferramentas + memória/dados) diz-se o que se quer alcançar e ele planeia, pesquisa, toma decisões intermédias e executa tarefas até chegar ao resultado.

Eu poderia dar aqui um conjunto de exemplos muito simples em como instruia um agente para fazer um conjunto de patifarias que causariam instantaneamente o caos no mundo inteiro. Não dou pois não quero que digam que estou a dar ideias. Mas era de caras. Podem crer: de caras. 

Casos recentes, reais, provam isso: de caras. E estando o caos armado, mas um caos a sério, dificilmente haverá quem o consiga reverter. 

Não preciso de falar em exemplos como tenho ouvido: criação de vírus destrutivos, armas biomédicas, etc. Isso também mas, cá para mim, o perigo virá mais de coisas simples do que de situações mais complexas. 

Pedi ao ChatGPT uma imagem que ilustrasse os riscos para a humanidade provenientes da IA.
Fez esta imagem


Quando há uns anos eu falava na necessidade imperiosa de regular o uso da Inteligência Artificia, eu ainda acreditava que alguém, algures, perceberia os riscos e se poria em cima disto. Mas poria à séria. Não com regulaçõezinhas de meia tigela que mal fazem cócegas ao que está a acontecer.

Neste momento sei que é impossível. 

Grande parte do PIB americano assenta nas grandes empresas de IA. Os principais financiadores do partido republicano americano são as empresas de IA. As empresas de IA alimentam fundos, ETFs, tudo o que faz girar a economia e as finanças não apenas nos EUA mas em todo o mundo. Quem investe quer retorno. Para haver retorno tem que haver crescimento. E essas empresas esttão a investir forte e feio em grandes data centers, em tecnologia, e estão fortemente alavancadas. Refrear já não é opção, voltar atrás muito menos.

E com a administração Trump muito, mas muito, menos.

Não sei como vai conseguir travar-se o mar com as mãos, tapar um vulcão em erupção com uma rolha.

No entanto, as televisões falam de tudo menos disto ou, se falam, é en passant, uma curiosidade, uma excentricidade, uma coisa ao nível das previsões do Nostradamus.

Nota 1: Salve Bernie Sanders que tem demonstrado uma visão certeira sobre o que se passa e, depois de ter ameaçado, se diz pronto para avançar. Temo que nada consiga mas, pelo menos, tem travado firme batalha. Que muitos se lhes juntem, é o que desejo.

Nota 2: Não sou contra a Inteligência Artificial. Sou totalmente a favor. Já o disse: o meu trabalho de fim de curso e o meu estágio foi feito numa área percursora da Inteligência Artificial, a Simulação. Durante uma parte da minha vida profissional trabalhei em modelos, alguns de larga escala, e, num caso, sob supervisão do Banco Mundial. Na altura, só havia dois sítios em Portugal em que conseguia trabalhar, tal a necessidade de recursos dos meus modelos: no Centro de Cálculo da Gulbenkien e no LNEC. Vinha um expert dos Estados Unidos para validar o meu trabalho. É, pois, tema que é especialmente caro. Os benefícios são infinitos, os desafios infinitos, a adrenalina de tentar e conseguir indescritível.

O risco não está aí, o risco está na presente escalada galopante a caminho da super-inteligência. Modelos/máquinas mais inteligentes que os humanos. Como tudo hoje comunica com tudo, isto traduzir-se-á num super poder que facilmente fica descontrolado.

Aliás, embora ainda aí não estejamos (mas estamos muito perto disso), há já humanos, estúpidos, que optam por ter sistemas sem controlo humano. Ao quererem armas que actuem sem necessidade de aprovação humana (decisão da Administração Trump), a Anthropic ficou fora de uma parte dos fornecimentos militares americanos porque se recusou a pisar e ultrapassar essa linha vermelha. Mas a Open AI marimbou-se, aproveitou logo a deixa, e entrou em força.

O que tem que ser travado, mas duvido que se consiga, é a escalada apressada para mais e mais e mais inteligência, é a robotização quase integral de toda a actividade até agora humana, é a caminhada desenfreada para a inutilidade humana, é a escalada frenética para apresentar mais e mais e mais 'achievments' quando há já exemplos de agentes que se unem para provocar sérios danos, desprezando a intervenção dos humanos. 

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Desejo-vos uma boa sexta-feira

quinta-feira, setembro 10, 2026

Coisas da minha vidinha

 

Por vezes leio trechos escritos há cem ou mais anos em Portugal ou num outro país e as palavras descrevem um desconsolo grande, um desacreditar no futuro, um grande desconforto perante a regressão qualitativa dos novos políticos e dirigentes em geral. Dá ideia que desde sempre há a percepção de um caminho descendente, de uma decadência que é fatalidade.

Por isso, tendo a tentar relativizar o pessimismo com que encaro a incompetência e indigência cultural e ética de Montenegro e da maioria da sua equipa ministerial, tal como tendo a querer desdramatizar as desgraças e os retrocessos civilizacionais a que se assiste um pouco por todo o lado (Estados Unidos, Rússia, tendências do Reino Unido, em França, na Alemanha, no Brasil, etc). 

Identicamente, sei que, sempre que há uma fractura tecnológica, a sociedade reage com um medo existencial: e, no entanto, apesar dos sobressaltos e do grande número de vítimas, o mundo tem seguido adiante. Com a Inteligência Artificial, em que, na realidade há riscos de dimensão incalculável e razão para fundados temores, também quero convencer-me que apesar de vir a haver vítimas, muitas, em primeiro lugar a nível de emprego, mas, acredito, também a outro nível, o mundo, depois de solavancos e erupções, saberá reencontrar o seu ponto de equilíbrio e seguir adiante.

Não sei se por isso ou se porque quero manter a minha disposição estival e despreocupada, a verdade é que, apesar das múltiplas barracadas a nível interno, algumas, para mim, insustentáveis, e apesar da gravidade de tantas coisas a nível internacional, tento manter-me na minha própria bolha de peace and love e seja o que deus quiser. Bem sei que, por outro lado, há em mim um grilo que me alerta 'fia-te na virgem e não corras, não...' mas, em vez de, por exemplo, vir para aqui zurzir nas palhaçadas que vários membros do governo e da AR nos têm proporcionado ou fazer-me eco dos alertas de mais um dissidente da Open AI ou da Anthropic sob os reais riscos para a humanidade do crescimento desenfreado, desregulado, dos modelos de Inteligência Artificial, ou vir lamuriar-me sobre o tiro no pé que deram os pobres, desfavorecidos e ignorantes que votaram na AfD sem conhecerem o seu programa, venho, antes, falar de coisecas da minha vidinha.

A saber: Apesar de pelo telefone eu ter dito que, do que já sabia, seriam, muito provavelmente, necessários dois motores com comando para os estores, o senhor que cá apareceu só trouxe um, e, além disso, apesar de já cá terem vindo várias vezes e saberem que estes estores são barra pesada e de eu o ter lembrado por telefone, em vez de dois, como é costume, veio apenas um que percebeu que sozinho não conseguiria lidar com os bichos. Portanto, educadamente, pediu para ver tudo o que estava carecido de intervenção e que voltaria com um colega e o material necessário. Resultado: zero. Tudo na mesma. Tínhamos posto tudo a jeito para poderem trabalhar, afastado coisas, retirados outras, etc, e, tivemos que voltar a pôr no sítio sem que nada se tivesse alterado. A ver quando é que agora cá aparecem de novo. 

E já o contei: o meu marido meteu na cabeça retirar a banheira da nossa casa de banho, e digo nossa porque é a que 'serve' o nosso quarto, e substituir por um duche. Já dei de barato. Mas só de pensar na chatice de ter gente que, em vez de aparecer num dia, só aparece depois porque têm sempre contratempos, que em vez de trazer o material, vai e volta a ir buscar o material, perdendo tempos infinitos, que me há-de deixar a casa de banho numa confusão sabe-se lá durante quanto tempo -- tudo isso me faz ter vontade de atrasar isto lá para as calendas. Quando tirar a banheira não deve ter mosaicos no chão por debaixo nem azulejos por detrás. Depois não deve haver material igual. Os enxertos devem ficar uma porcaria. Falta-me a pachorra para isto. 

No entanto, ao mesmo tempo, recordo-me que, na nossa primeira casa, na primeira mesmo nossa, resolvemos remodelar a casa de banho principal, pôr uma bancada grande em vez do lavatório que tinha, acabar com o bidé, mudar azulejos e mais não sei o quê. Tínhamos duas crianças pequeninas, trabalhávamos, e, no entanto, nada me assustava ou chateava e tudo se fazia. Agora não me parece indispensável fazer isto e a perspectiva de obras dentro de casa maça-me à brava. 

Sobretudo, há uma tremenda falta de mão de obra e não conhecemos ninguém de confiança em quem possamos confiar para nos aconselhar na escolha das melhores soluções. O meu marido, como é seu hábito, é meia bola e força. Para cada potencial problema que eu identifico, arranja uma solução que, em meu entender, ficaria um despropósito. Com ele, e é ele que quer avançar com isto, ainda não começou e já quer é acabar. Se não há mosaicos iguais para o chão, faz em fibrocimento e já está. Se não há azulejos iguais, põe não sei o quê por cima naquele sítio e está a andar. Ou seja, uma coisa improvisada e mal parida. Não quero. Portanto, estamos nisto e eu sem grande vontade de ultrapassar o impasse.

Há também a suspeita de que pode estar uma telha partida no telhado e, portanto, temos que arranjar quem lá vá inspeccionar e, se for caso disso, trocá-la. Lá no campo, até há algum tempo, o meu marido ia ele lá acima, limpava o telhado e tratava disso. Agora já não queremos arriscar. A limpeza de algumas caleiras a que chega com a escada ainda vai, mas lá mais para cima, não. O telhado desta casa tem que se lhe diga, há zonas muito altas e uma queda seria muito perigosa. Quando vieram cá cortar árvores e pedimos para também limparem as caleiras, os rapazes treparam e andaram lá por cima na maior descontração. Não sei se é destreza se é inconsciência, mas, enfim, é o que é. Seja como for, temos que desencantar alguém antes que venham as chuvas.

De resto, o que mais dizer? Nada de especial. Ginásio, religiosamente. E continuo sem encontrar um livro que me encha as medidas. Tenho vários para começar mas não tem estado a correr de feição. 

E mais? 

Só se for que fiz um estufado de legumes -- cebola, alho francês, tomate, alho, salsa, cenoura, feijão verde, beringela e batata doce -- com uma mistura de carne picada, porco e vaca. Tudo cozinhado a baixa temperatura, apuradinho. Estava mesmo bom. Comidinha de conforto, cheirosa e saudável. Ficou com um molho bom. Ensopei uma fatia de pão que me soube mesmo bem. Por mim, teria ensopado uma meia dúzia, adora pão ensopado em molho. Mas como quero ver se me mantenho nos cinquenta e nove e picos, esforço-me por não abusar. Antes de férias, não chegava aos cinquenta e nove. Depois das férias e dos mil aniversários estava nos sessenta e um e tem sido um castigo para descer dos sessenta. Estes quilos a mais quando se instalam é um caso sério para uma pessoa se ver livre deles. Caraças.

E é isto. Enquanto falo destas coisitas, não queimo neurónios com coisas que não consigo controlar. O mundo anda perigoso. Mas será que alguma vez não o andou?

Desejo-vos uma feliz quinta-feira.

quarta-feira, setembro 09, 2026

A minha casa

 

Esta casa, ao contrário da outra em que vivi antes durante vinte e dois anos e da outra, antes, em que tinha vivido também um ror de anos, e da casa de campo, tem muita manutenção. Já cá vivemos há seis anos e ainda estranho isso. Provavelmente tem a ver com as decisões dos anteriores proprietários que automatizaram tudo. Um dos filhos era todo engenhocas e, talvez por saberem que tinham sempre quem lhes resolvesse os problemas, não se importaram de 'artilhar' tudo e mais alguma coisa. O senhor também gostava de construir coisas, era todo dado à bricolage, aos arranjos de coisas. Também optaram por soluções robustas, de boa qualidade mas que requerem, também elas, conservação. Por exemplo, os estores são como nunca vi coisa assim, um material e um peso que não imaginam. Funcionam com motor elétrico, com comando. Aparentemente tudo bem. Mas, se falha a electricidade, não há estores para ninguém. Ou se falha um motor. E não há como levantar à mão. Os homens dos estores, quando cá vêm, dizem sempre que é raro ver-se estores assim, dizem que são de alta segurança, que por estas janelas não entra ninguém. Amanhã temos cá outra vez uma intervenção, provavelmente mais dois motores novos. E há mais uns quantos estores que precisam de ser alinhados pois são tão pesados que, volta e meia, algumas lâminas parece que desandam ligeiramente, e depois já não fecham bem. Juro: sinto falta de puxar pela fita e conseguir levantar ou baixar uma persiana, sem qualquer ciência.

O portão dos carros a mesma coisa: todo xpto. Agora parece que está com qualquer coisa a fazer mau contacto, e abre e fecha quando lhe apetece, tivemos que desligar, e temos que esperar que cá venha alguém especializado nesta coisa.

Dos sistemas de aquecimento nem é bom falar. Todos integrados e automatizados com uns a serem backup dos outros: painéis para isto e para aquilo, caldeira a gás e a pellets, salamandra elétrica, duas lareiras com recuperador de calor, uma delas dupla e outra com saída de ar para duas divisões.  E tudo ou quase tudo com termostatos, válvulas motorizadas, e sei lá que mais.  O meu marido queixa-se de carregar com os sacos das pellets ou com a limpeza das caldeiras, volta e meia lá tínhamos que andar de volta dos manuais a perceber como é que aquilo estava regulado ou programado. Uma canseira. E depois era preciso virem cá fazer a manutenção disto, daquilo e do outro. Muito bem.Vamos instalar um ar condicionado potente na sala principal, com potência para aquecer essa sala e o piso de cima, coisa sem ciência nenhuma e que seja só de carregar no botão. Para a semana vai ser instalado e que se lixem as complicações. 

Claro que ainda subsiste o sistema de aquecimento de águas sanitárias com os painéis e os tanques e com um sistema de válvulas e redundâncias do caneco mas isso agora parece que está estabilizado. Esse, quando a temperatura não está à temperatura suficiente, faz accionar a caldeira de gás, mas isso, até ver, está a funcionar bem. Mas, caraças, houve uma altura que sentia cá umas saudades do velhinho sistema de esquentador que era tão simples e tão funcional... 

E nem falei no quadro trifásico com tantos disjuntores que mais parece um piano e em que, volta e meia, andamos a tentar perceber o que é que está pendurado em cada fase, ou, quando alguém vem fazer qualquer coisa que mete electricidade e nos faz perguntas e é sempre uma charada pois, para além do quadro principa, ainda há um no primeiro andar e outro na cave e mais o quadro da iluminação exterior e mais o quadro do sistema de rega. E também penso como era tão bom (e ainda é, no campo) em que há um único quadro elétrico, simples, com dois ou três disjuntores. As coisas simples são tão boas.

Enfim. A verdade é que ou para manutenção preventiva ou para reparação ou para instalação de novo, parece que há sempre gente a ter que vir cá fazer qualquer coisa e há sempre dinheiro extra a gastar. É chato. Felizmente, in heaven, o que há é cortar mato, desbastar árvores, varrer e limpar. De resto é tudo básico. Nem estores há, são portadas que é ainda mais simples.

Dito isto: gosto imenso desta casa, desde o primeiro dia em que a vi senti que tinha chegado a casa. Tudo me parecia fazer sentido, todos os meus móveis e quadros pareciam encontrar aqui o seu destino.  Gosto da arquitectura, gosto dos materiais, gosto da forma irregular, gosto da luz a toda a volta da casa, gosto do jardim. Gosto que seja fácil de limpar. Gosto de me levantar e abrir a porta da cozinha para sentir o ar da rua e apanhar com o sol na cara, gosto de abrir as janelas e parecer que estou a trazer o jardim para dentro de casa. Gosto de fotografar o reflexo da luz nas paredes, nos espelhos, nos vidros. Gosto de tudo. Só gostava mesmo é que fosse mais simples, mais fácil de manter.

terça-feira, setembro 08, 2026

Uma entrevista que dá gosto -- Gloria Steinmen conversa com Robert Redford
E uma brevíssima nota sobre o acontecimento policial do outro dia

 

Tudo o que é coisa destas funciona a toque de caixa dos algoritmos. E os algoritmos funcionam com base em estatísticas e probabilidades: 'o que é que me chama a atenção?' 'Dos vídeos que me são mostrados (e são mostrados porque o algoritmo admite que é provável que me interessarem), quais os que me levam a abri-los?', 'Desses, quais vejo até ao fim?', 'Desses, quais partilho?', 'E faço pesquisas? Sobre que assuntos?'... E, com base nessa informação, o algoritmo vai aperfeiçoando o conhecimento que tem dos meus gostos. E, portanto, hierarquizando os meus interesses e fazendo um match selectivo com os vídeos/publicações disponíveis, é-me mostrado, por ordem decrescente de probabilidade de acertarem na mouche, uma selecção. Por isso, raramente me aparecem coisas que estão na moda, vídeos virais, palhaçadas de influencers de meia tigela, bonecadas parvas com citações requentadas, etc. Nem aqui nem no instagram. Quando ouço a outras pessoas ou na televisão comentários sobre personagens conhecidos fico sempre a leste: a mim não me chega dessa sucata. Em contrapartida, ao ser alimentada com temas e vídeos ou publicações que, à partida, são seguramente do meu agrado, fico com menos margem de manobra para pesquisar por mim ou para ser surpreendida por qualquer coisa em que nunca antes tinha pensado. O algoritmo forma uma teia que pode ser, a nível intelectual, uma ratoeira. Lidar com isto é, em si, uma aprendizagem.

Mas, passando adiante, que ninguém deve querer saber destas minhas considerações, hoje fui presenteada como uma entrevista em que in illo tempore, e já lá vão quarenta anos!, Gloria Steinmen conversava com Robert Redford, tristemente agora já ambos do lado de lá. E é um gosto. Pessoas inteligentes e, ainda por cima, com charme são outra coisa. E é uma coisa gostosa de ver como a química é algo de impalpável mas importante quando duas pessoas conversam. Não tem que ser uma química sexualizada, pode ser uma química que nasce das afinidades, da compreensão do encontro de sorrisos, da cumplicidade intelectual. Mas é tão bonito de ver.

Retrospetiva: Entrevista de Gloria Steinem a Robert Redford em 1986

Nesta entrevista de 1986 com Robert Redford, a editora da revista Ms., Gloria Steinem, Redford revela que grande parte da personalidade desajeitada da sua personagem na comédia "Legal Eagles" foi inspirada na sua vida real.

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Nota

No outro dia contei o que se tinha passado com polícias aqui ao lado, a falarem com os vizinhos, a entrarem lá em casa, tudo às escuras. Estava muito intrigada. Tinha pedido ao meu marido que, se os visse, lhes perguntasse. Respondeu: 'Sim, sim, vai esperando'. Já sabia. Fiquei, pois, determinada a, na primeira oportunidade, perguntar eu se estava tudo bem ou se teria havido algum assalto ou tentativa disso. 

Foi hoje. Quando estávamos a sair para o nosso passeio, estava o vizinho a chegar com uma das crianças. Como tinham os outros carros lá dentro, parou à porta de casa e estava a tirar coisa do porta-bagagem. Pensei: 'Não é cedo nem é tarde', e ataquei. E ele explicou. Não vou revelar mas é uma coisa surpreendente para mim, não me passaria pela cabeça nem conheço um dos intervenientes da questão. Ficámos muito tempo à conversa, contou muitas coisas que desconhecíamos. Portanto, estou esclarecida e, de certa forma descansada embora compreenda que eles têm ali um problemão. Coloquei-nos à disposição deles para o que precisassem. Vizinhos são para isso mesmo.

Não tive lata de perguntar o porquê de se terem posto às escuras, isso já me pareceu cusquice a mais. Mas admito que possa ter feito sentido. Disse ao meu marido o que me parecia uma possível explicação. Respondeu-me que o que estava a dizer não fazia qualquer sentido. Não sei. Mas é irrelevante. 

Quase que fico é com material para escrever uma sequela do meu 'Um ordenado paraíso'. 


Aliás, estava a ouvi-lo e já a pensar em como destilar aquilo para transformar depois numa narrativa cheia de intriga, acção e suspense.

Já agora, para quem não sabe: a expressão 'um ordenado paraíso' integra um dos meus poemas preferidos, 'As causas' de Jorge Luis Borges (poema que, de certa forma, no meu livro conduz um romance de amor) e usei-a para retratar um 'bairro' em que as casas são uma maravilha, rodeadas de belos jardins, um local tranquilo, tudo o mais aparazível possível, em que parece que nada acontece, uma paz que nada perturba, mas em que, portas adentro, é um desfiar de acontecimentos insólitos, grande parte deles aparentemente inexplicáveis, incoerentes, quiçá até um pouco heterodoxos.

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Desejo-vos um dia feliz