Uma vez deu-me para descrever as coisas bizarras que se passavam na casa ao lado. Quando os meus filhos cá vinham, eu descrevia os acontecimentos inenarráveis a que assistia sem conseguir compreender nada da vida daquelas pessoas, esperando que eles acendessem uma luz que ajudasse a decifrar o mistério. Debalde. Os habitantes foram mudando ao longo dos poucos anos em que cá estamos, sempre tudo estranhíssimo, mas, ao mesmo tempo, sempre parecendo haver algumas coisas em comum. E assim continua. Os habitantes não mudaram desde então, pelo menos a esse nível parece haver agora alguma estabilidade, mas tudo continua a ser incompreensível, incluindo uma mulher que tanto fala como se fosse uma brasileira de gema, como uma portuguesa do mais 'nacional' que pode ser.
Publiquei na Amazon um livro ("Um ordenado paraíso") que descreve quase ipsis verbis aquilo que eu conseguia apreender. Os meus filhos estranhavam que, em tanto tempo, eu não tivesse nunca conseguido ouvir nenhuma conversa que desse para perceber alguma coisa. Mas não. Misteriosamente, o que chega até aqui são coisas desligadas e a partir das quais não consigo extrapolar nada. Mas diziam-me também que eu não tinha nada a ver com o que se passa na casa dos vizinhos e estranhavam a minha curiosidade. De facto, nunca, em toda a minha vida, tive ponta de vontade de saber o que quer que fosse da vida alheia. Morava num prédio e mal sabia quem lá morava de tão distraída e desinteressada da vida dos outros que sou. Mas aqui é outra coisa: é o insólito, o inexplicável. Nada bate certo.
Em contrapartida, na casa do outro lado, as coisas são mais lineares: um casal relativamente jovem e a respectiva descendência, uma criança com uns oito ou nove anos e outra talvez com quinze ou dezasseis que, quando os pais estão em casa, estão também com eles. Muitas vezes tratam do jardim em conjunto. De vez em quando há festas, e todos participam na preparação prévia. Parecem bastante unidos e pessoas bem dispostas.
Mas hoje aconteceu uma coisa também bizarra.
Geralmente a casa deles está sempre muito iluminada e, como por aqui é habitual, à noite luzes acesas dentro de casa e estores levantados, ou seja, estamos na rua ou eu aqui em minha casa e vê-se tudo ou quase tudo o que se passa lá dentro. E têm também projectores na parede exterior que iluminam fortemente o jardim a toda a volta. Mesmo quando vão de férias, os projectores em volta da casa estão sempre acesos.
Há pouco, quando saímos para o nosso passeio nocturno, era esse o cenário. O normal.
Contudo, quando vínhamos a regressar, ao fundo da rua, o meu marido disse que estava um carro da polícia ao pé da nossa porta. Sem óculos, não pesco boi, vi um carro e pareceram-me vultos, mas sem distinguir nada. Quando nos aproximámos vimos que não exactamente à nossa porta, mas quase. Dois polícias falavam com o casal. Estavam ambos do lado de fora do portão, a falar com os polícias. Tive vontade de perguntar se tinha havido algum problema, mas contive-me, estavam tão focados na conversa que não quis ser intrusiva. Além disso o meu marido, é zero, ou menos que zero, cusco e, se eu os tenho inquirido, haveria de achar falta de educação da minha parte. Quando entrámos no nosso jardim, vimos que os polícias estavam a entrar com o casal para dentro do jardim deles, provavelmente para dentro de casa. Mas, quando cheguei à minha porta e olhei para o lado, breu absoluto. Tudo apagado, escuridão absoluta, dentro e fora. Fiquei estupefacta: entraram com os polícias e apagaram tudo? Podem acreditar: sem luzes acesas não se vê nada. Uma coisa é morar na cidade em que há sempre luzes exteriores que, de certa forma, iluminam minimanente o interior, e outra é aqui. Sem luz acesa não se vê um palmo à frente do nariz. Nada. Bola. Quando entrei em casa, intrigada com aquilo, fui à minha janela espreitar para ver se o carro da polícia ainda lá estava. Estava. Durante bem mais de meia hora, talvez uma hora, o carro da polícia esteve ali. E da casa ao lado nem um som nem uma luz. Nem os cães, sempre barulhentos, soltavam um pio. Há bocado fui ver e o carro da polícia já não está aqui mas a casa continua mergulhada no breu e no silêncio mais absolutos. Não sei qual a explicação para isto. O que terá levado a polícia a entrar e estar tanto tempo lá dentro? E porque apagaram todas, t-o-d-a-s, as luzes? O que terão estado a fazer às escuras?
Os meus filhos diriam: 'e o que é que tu tens a ver com isso?'. Pois, bem sei, não tenho. Mas não é isso. O que me faz confusão é não encontrar sentido nas coisas, não me ocorrer nenhuma explicação plausível para isto.
Mas, pronto, vou dormir com esta dúvida. Não consigo sequer antever hipóteses palusíveis para encaixar estas peças.
Estou com um sono daqueles em que não atino, estou só a adormecer (mas não estou a delirar, calma, o que contei está descrito com precisão). Ontem tivémos cá um jovem para a janta e para pernoita, a que se juntou hoje um irmão para almoço e para a tarde. Depois foram ambos com o avô para um jogo no qual o mais velho era o guarda-redes. E nada de mais, tudo tranquilo, quando são poucos é uma calmaria extraordinária, zero trabalho. Mas, vá lá saber-se porquê, talvez por me ter ido deitar um pouco mais cedo que o habitual e ainda sem estar perdida de sono, tive mais uma daquelas estúpidas insónias em que vejo o dia clarear, ouço o galo a cantar, depois ouço passos de alguém na rua, a fazer corrida -- e eu sem conseguir sentir pitada de sono. Dantes nem sabia o que isso era, adormecia instantaneamente e dormia de seguida, como uma pedra. Mas, de há uns anos a esta parte (e já aqui falei disto), creio que depois de ter covid (mas pode não haver relação - tenho que ter o cuidado de dizer isto), é isto: o meu sono tornou-se caprichoso. De vez em quando, quase passo uma noite em claro. Se de dia não tenho afazeres, durmo a sesta e reponho. Se não, fico tonta, esvaída de sono. Depois pode acontecer que durante uma ou duas semanas durma que me farte, como nos bons velhos tempos. Até ao próximo episódio. O médico encolhe os ombros, diz que pode ser sequela da covid, sim, e que pode ser que vá passando. Mas é uma chatice. Portanto, estou no ir.
Desejo-vos um belo dia de domingo. E se tiverem explicações para isto a que assisti e que aqui reportei, ficarei agradecida.





