terça-feira, março 17, 2026

Um estudo muito estúpido

 

Em todas as áreas pode haver burocracia, aquela arte de fazer bem feito uma coisa inútil. Até na área dos estudos, incluindo os so-called científicos. 

Quando se faz um estudo tem que se saber minimamente a realidade sobre a qual se vai investigar, tem que se 'calibrar' o conhecimento conversando com pessoas envolvidas no processo, tem que se ir ao terreno e ver como as coisas funcionam na prática. Sei (mais ou menos) do que falo. Não apenas a nível profissional liderei projectos que envolviam estudos e respectivos planos de implementação e, muitas vezes, acompanhamento da respectiva execução, como orientei, durante alguns anos, vários estágios curriculares de licenciaturas. E quando a universidade pedia que acolhêssemos finalistas e me perguntava que temas poderíamos sugerir, eu atravessava-me com temas muito concretos e complexos demais para serem equacionados internamente sem recurso a apoio de quem tivesse tempo e recursos para fazer análise estatística, para construir modelos, para testar e validar soluções.

E a minha abordagem quando recebia os jovens era sempre a mesma: depois de lhes explicar o que pretendia e de os deixar durante uns dias a consultar informação, atirava-os para o terreno. Queria que fossem perceber qual o problema e porque o queríamos ver resolvido. Deveriam observar, falar com as pessoas, fazer perguntas, ouvir queixas e opiniões. Só depois os queria de volta. E, antes que começassem a fazer estudos, eu queria ouvi-los a falar da realidade concreta, queria ver se já 'sentiam' o problema como se fossem vítimas dele. 

E vem isto a propósito de uma notícia do Expresso. "Doentes só vão ao médico de família privado porque o seguro paga a consulta", Análise de investigadores da Nova SBE indica que a “cobertura por seguro de saúde é o principal fator de recurso a médico de família fora do SNS”. Quase 70% dos doentes que procuraram consultas fora da rede pública têm clínico atribuído no centro de saúde (...)

E eu leio isto e penso: que conclusões mais estúpidas...

É que a questão não é essa. A questão é: porque é que, tendo médico de família, optam por ir ao privado usando para isso o seguro (onde pagam sempre qualquer coisa)?

Bastaria terem entrevistado umas quantas pessoas nessas circunstâncias. E essas pessoas ter-lhes-iam respondido todas a mesma coisa: porque não conseguiram consulta no SNS em tempo útil.

Posso falar por mim e pelo meu marido, e temos ambos seguros de saúde, e posso falar por todas as pessoas que conheço. Apesar de termos seguros, gostaríamos de ser seguidos exclusivamente no SNS.

Só que, muitas vezes, não se consegue.

Se marcarmos consulta de revisão anual para daqui por uns seis meses, talvez consigamos. Mas se tivermos um problema e quisermos uma consulta para a semana já não conseguimos. 

No outro dia o meu marido precisou de ir ao médico. Se fosse uma situação crítica teria ligado para a Saúde 24 e, se eles assim o considerassem, teriam agendado consulta para o Centro de Saúde onde seria atingido por um médico qualquer, não pelo médico de família. Já usei essa prerrogativa duas vezes, uma quando fui picada no pé e o pé desatou a inchar estupidamente e aí a médica que me viu, uma jovem muito jovem, foi chamar uma mais experiente e vim de lá bem medicada, ou seja, correu bem, e outra, quando tive uma dor e inflamação num pulso. O médico de família tinha combinado comigo que, na próxima vez em que eu tivesse uma destas crises, eu deveria lá ir em plena crise para investigarem bem a sua origem. Liguei para a Saúde 24 e expliquei. Marcaram-me consulta. Dei com uma médica jovem, inexperiente, medrosa e pouco inteligente. Não conseguiu perceber o motivo da consulta, estava atrapalhada. Ir ou não ir foi a mesma coisa. Vim de lá desconcertada. Quando, meses depois, numa daquelas consultas anuais, falei nisso ao médico de família, sorriu, encolheu os ombros como se não se admirasse muito, mas nada pudesse fazer. 

Mas, portanto, o meu marido ligou para lá e disse que gostava de ter consulta com o médico de família. Disseram que ou daí por meses ou, se era para já, que fosse lá no dia seguinte de manhã. Foi, creio que talvez por volta das oito e tal da manhã. Já não tinha vaga, só havia duas e já estavam tomadas. Desistiu. Obviamente não faria sentido estar a ir para lá todos os dias, de madrugada, sem certeza de obter vaga.

Porque é que as pessoas vão ao privado? É simples: porque não arranjam vaga no público. 

E quando se quer consulta de oftalmologia, ginecologia ou o que for? Ou se está com problema sério que o médico de família referencie para o hospital e aí espera-se que o hospital chame (ao fim de muitos meses, se não mesmo um ano ou mais ) ou que remédio senão ir ao privado. Porque é que se vai ao privado? É porque se tem seguro? Não. É porque não se consegue no SNS.

E tudo isto é tão óbvio que não consigo compreender que raio de estudo mais estúpido foi este que a Nova SBE desenvolveu.

Transcrevo mais um pouco: "Investigadores da Nova SBE vêm contradizer a perceção de que os doentes recorrem a um médico de família privado porque não têm resposta no Serviço Nacional de Saúde (SNS). A análise que fizeram, e divulgaram esta segunda-feira, afirma que a procura de um clínico fora da rede pública é motivada pelo facto de a consulta ser paga pelos seguros privados e a prova é que a maioria dos doentes que recorreram à rede particular para medicina familiar em 2025 têm médico assistente no centro de saúde."

Isto só mostra que é gente que não põe o pé no terreno, que não faz a mínima do que é a realidade. 

“Os dados analisados permitem aferir que, em 2025, 14,1% dos adultos recorreram a médico de família no privado e, destes, aproximadamente 70% têm médico de família atribuído pelo SNS”, escrevem os autores Pedro Pita Barros e Carolina Santos. E, acrescentam, “apenas 4,2% da população total recorre ao privado por não ter médico de família no SNS e cerca de 10% da população tem dupla cobertura (médico de família no SNS e no setor privado)”.

Isto é um estudo burocrático: certamente muito bem feitinho mas desnecessário, absurdo, dispensável. 

Não conseguiram perceber nada do assunto.

E o Expresso, em vez de fazer uma leitura crítica das conclusões e questionar os autores, Pedro Pita Barros e Carolina Santos, não senhor, limita-se a divulgá-las como se acrescentassem alguma coisa, como se servissem para tirar alguma conclusão.

Quando se falta na falta de produtividade portuguesa é nisto que se fala: muita gente ocupada a fazer coisas que não valem uma casca de caracol.

segunda-feira, março 16, 2026

Pessoas com QI extremamente elevado...?


Não que eu sofra demasiado do chamado síndrome do impostor mas, com alguma frequência, ainda me surpreendo ao constatar que pessoas que se sentem extremamente autoconfiantes e que exibem grande conhecimento e à vontade oratório, quando postas à prova, vêm a revelar-se, afinal, bem mais limitadas do que ostentavam, não tão mais intelectualmente superiores que eu como, à primeira vista, se poderia pensar.

Um exemplo disso, que ficou muito marcado em mim, tem a ver com a minha entrada na faculdade. Uma das cadeiras daquele horroroso 1º ano era um pesadelo, uma coisa difícil de descrever. Pelo menos para mim era. A sala era enorme e não era em anfiteatro. Imagino que haveria lá, à vontade, para cima de cem pessoas. Só se devia ver bem na primeira ou na segunda fila. Mas eu não me sentia bem ali à frente, no meio de gente tão marrona. A professora era baixinha, mal se via das últimas filas, e falava muito depressa, tinha péssima dicção. E enchia quadros gigantes a grande velocidade. Para conseguir transcrever tudo o que ela dizia, eu não tinha tempo para processar. Se me atrasava, perdia-me de todo pois o quadro estava pejado de gatafunhos despejados a granel. Ela não contextualizava, não enquadrava. Limitava-se a despejar. E eu não conseguia acompanhar aquela enxurrada permanente de matéria. Vinha de ser a melhor aluna do meu ano na minha escola e, ali chegada, sentia-me a mais burra das criaturas. Parece que quase toda a gente percebia tudo, menos eu. No início da aula, havia uma dúzia de alunos que iam, muito íntimos da professora, colocar questões sobre trabalhos que tinham feito em casa. E pareciam dominar tudo de trás para a frente. Eu vinha também de um ambiente de convivência permanente, de muitas festas de aniversário e tardes dançantes, idas ao cinema e passeios à beira mar, muita amizade, namoros, alegria e irreverência. Pois ali ninguém queria saber de nada disso. Todos pareciam bem comportados, só queriam saber de engraxar os professores e estudar, e, mal acabavam as aulas, todos se evaporavam. Pensei seriamente em desistir. Parecia não me enquadrar ali. Nas outras cadeiras não era tão grave mas, ainda assim, o padrão era o mesmo: matéria despejada aos baldões, sem enquadramento, sem que os professores explicassem o interesse, a utilidade ou a beleza do que ali se ensinava. Mas parece que só eu me incomodava com aquilo e me sentia desajustada e, sobretudo, sem conseguir captar e assimilar quase nada do que ali se passava.

Vieram os primeiros exames. Salas gigantes, mesas individuais, completamente separados uns dos outros. Nunca antes eu tinha feito um exame, tinha dispensado sempre. Estava enervada e com a sensação que ia ter a pior nota de entre aquele batalhão de gente iluminada. Ia humilhada por antecipação. Achava que os resultados confirmariam que tinha que mudar de curso.

Fiz o que pude com a sensação de aflição de ver ali coisas que não sabia ou para as quais não tinha tempo para conseguir pensar e resolver. Nunca antes tinha passado por essa sensação. Saí de lá a pensar que se reprovasse não me admiraria nada. Apenas a uma cadeira fui com confiança, com a consciência de que sabia apenas uma pequena parte do que havia para saber mas com a sensação que tinha conseguido tocar o véu que envolvia aqueles assuntos que me pareciam tão fascinantes.

Quando saíram as notas, ia com o coração aos saltos, mentalizada para o pior. Naquela cadeira horrível, em que me sentia a mais burra da sala, vi uma pauta cheia de números encarnados à frente dos quais se escrevia 'reprovado'. Até que cheguei ao meu nome. 12. Nunca tinha tido uma nota tão baixa em toda a minha vida... mas, caraças, não sabia como mas tinha conseguido passar... Em contrapartida, quase toda aquela gente que exibia despudoradamente sapiência e à vontade tinha reprovado. Uma razia. Fiquei espantada, nem conseguia perceber. 

(Nas outras disciplinas tive notas um pouco mais altas e, naquela de que gostava mesmo, tive uma nota mesmo muito alta.)

Para mim foi uma lição. Assistindo ao comportamento das salas, eu não daria nada por mim. Certamente ninguém daria nada por mim. Sentia-me limitada, desajustada, burra. E, afinal, ao sermos avaliados, os resultados provavam o contrário do que parecia.

E ao longo de toda a minha vida constatei isto mesmo: nem sempre os mais exuberantes, os mais imediatistas, os mais extrovertidos, os mais autoconfiantes, os que sabem tudo e nunca se enganam, os que dizem que estão tão certos da sua razão que se fizessem a mesma coisa que fizeram há vinte anos, fariam exactamente da mesma maneira, são os que mais sabem. 

E não digo isto para me auto-valorizar pois estou muito longe de ser a última batata frita do pacote ou a última coca-cola do deserto ou porque o que eu sou ou deixo de ser não tem qualquer interesse nem para mim nem para ninguém. Digo isto porque estou farta de ver comentadores de tudo e mais alguma coisa, todos a falarem de qualquer assunto, todos a saberem de tudo, todos muito convictos das suas razões, todos a dizerem uma coisa e o seu contrário sem pestanejarem, picaretas falantes. Começa uma guerra aqui ou ali e eles sabem tudo, detêm o ex-príncipe André e lá estão eles, a saberem tudo sobre a Casa Real britânica, depois há um ataque a uma sinagoga e aí estão eles, a saberem tudo sobre religiões e história e geografia associada ao tema. Antes, na minha adolescente inocência, eu teria pensado que são todos tão inteligentes, tão sabedores, tão fantásticos, que nem dava para imaginar, e sentir-me-ia burra por não lhes chegar aos calcanhares. Hoje o que penso é que mais valia que não se desse tanto palco a tanto papagaio. A poluição que tanto comentário gera é atrofiante. E cansa. 

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Estou a ver a reportagem da entrega dos Oscares, mas como, até agora, está a ser muito sensaborona, com aquela minha mania de estar sempre com um olho no burro e outro no cigano (ditado popular que se calhar se tornou inconveniente...😏), estou, ao mesmo tempo, a ver o youtube. E apareceu-me um vídeo interessante, que fala um pouco nestes aspectos. 

Se V., meu Caro/a Leitor/a, quer saber se é muito inteligente ou se nem por isso, veja se se identifica com as características que aqui se enunciam (isto partindo do princípio de que quem fez o vídeo sabe do que fala).

Psicologia das pessoas com QI extremamente elevado

Já alguma vez se perguntou por que as pessoas extremamente inteligentes parecem, por vezes, um pouco diferentes?
Elas nem sempre são as mais barulhentas na sala.
E não sentem a necessidade de provar o quão inteligentes são.

Mas, se observar com atenção, vai notar pequenos sinais no seu comportamento que revelam como a sua mente funciona.

Segundo a psicologia e a neurociência, pessoas com QI muito elevado costumam desenvolver hábitos que refletem a forma como processam informações, analisam situações e entendem o mundo à sua volta.

Neste vídeo, exploram-se 10 hábitos que são comuns entre pessoas com inteligência acima da média.

Descubra:
• Por que pessoas inteligentes adoram passar tempo sozinhas
• Como a curiosidade se torna um motor mental poderoso
• Por que falar consigo mesmo pode melhorar o controlo da mente
• Por que dizer “Não sei” é algo natural para elas
• A ligação surpreendente entre pensar demais e inteligência
• Por que ter bom humor está ligado a um cérebro avançado
• Como a flexibilidade mental permite mudar de opinião com base em novas evidências
• Por que alguns se sentem mais alertas e criativos à noite
• O poder de observar mais do que falar
• E por que procuram sempre um significado mais profundo na vida

Este vídeo não é só sobre inteligência.
É sobre entender a psicologia humana, os padrões de pensamento e a forma fascinante como o cérebro interpreta o mundo.

A verdadeira inteligência nem sempre se faz ouvir.
Às vezes, é uma mente tranquila que continua a questionar, analisar e explorar.

Mantenha-se curioso. A mente humana é muito mais fascinante do que imaginamos. 


Se gosta de descobrir a psicologia por trás do comportamento humano e entender como a mente funciona, inscreva-se no Psychology Insight para mais vídeos como este
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Desejo-vos uma boa semana

domingo, março 15, 2026

Dias de chumbo

 


Só espero que França, Inglaterra, a Bélgica ou qualquer outro país europeu não caiam na esparrela de enviar navios de guerra para o Estreito de Ormuz sob a chantagem de Trump. A situação é crítica e podemos estar em vias de enfrentar graves disrupções de abastecimento, mas, ainda assim, não faz sentido enviar carne para canhão para alimentar o desvario de Trump e dos outros palhaços que o rodeiam, mormente o bronquésimo Pete Hegseth. É deixá-lo provar o veneno que ele próprio se gaba de espalhar. Não é ele que diz que vai continuar a atirar, nem que seja pela piada de o fazer? Trump says US may strike Iran’s Kharg Island oil export hub ‘just for fun’. Sem ajuda talvez o demente narcisista perceba que tem que recuar. Embora, mesmo que um dia capitule, nada apagará o estrago, o irreparável estrago, a todos os títulos irreparável, que já causou. Criminoso.

Igualmente só espero que os cobardolas europeus, incluindo Montenegro (não esquecendo o Rangel, verdadeira chicken), que não souberam demarcar-se do demente presidente dos Estados Unidos -- que, pela mão do assassino Netanyahu --, lançou esta guerra estúpida, desnecessária e de gravíssimas consequências, sigam o exemplo de Giorgia Meloni. Se todos os europeus, a uma só voz, se demarcassem, alto e bom som, de Trump, tal como se demarcaram de Putin (e não falo de Órban pois há mais marés que marinheiros e tenho esperança que a Hungria um destes dias se veja livre dele), talvez Trump pensasse duas vezes antes de se meter em alhadas. Mas, mesmo que não pensasse (porque já se viu que é cavalgadura pouco dada a pensamentos), talvez os congressistas tomassem mais alento para avançar para o que deve ser feito. Avançar ASAP -- antes que seja tarde demais (se é que já não o é). 

Só espero também que a União Europeia, atordoada com a irrelevância com que é olhada pelos facínoras que parecem estar na crista da onda, não ceda à tentação de se juntar aos piores com receio de ser ainda mais irrelevante. É que, volto a dizer, há mais marés que marinheiros e, um dia, talvez não muito distante, pelo menos assim o espero, os que agora parecem estar na crista da onda estarão sob ela, a estrebuchar para sobreviver. Tenho para mim que, uma vez que não há mal que sempre dure, não tarda muito o dia em que toda esta horrenda corja estará na prisão, enfrentando, no mínimo, prisão perpétua.

Penso muitas vezes, naqueles momentos em que a minha veia de optimista e de sonhadora tentam levar a melhor, que talvez, das brumas, venham a surgir aqueles que, em conjunto, vão saber travar esta deriva bélica e suicidária e restaurar os maravilhosos tempos de paz de que nunca mais deveríamos abdicar. Mas onde um Churchill, um de Gaulle, um Roosevelt? Onde os estadistas que sabem subir um degrau e pensar no mundo, pensar no futuro, pensar no bem da humanidade?

Quando vejo que Melania (que, com um desplante inaudito se gaba do que não é, descrevendo-se a ela própria como 'uma visionária'), que, ao fim de não sei quanto tempo a viver nos Estados Unidos ainda não sabe falar um inglês escorreito e que não tem quaisquer credenciais ou competências, presidiu ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e que os representantes dos outros países aceitaram fazer parte daquele circo, ou que Trump envia como seus representantes para negociar a paz noutros países, mormente naqueles em que se coloca ao lado do agressor, (ou, melhor, para negociar de reconstrução pós guerra) o genro e um outro pato bravo e ninguém se recusa a reunir com aqueles dois descredenciados, fico desconsolada de todo. Não há quem se erga, saia da sala e diga que já chega de palhaçada?

Sempre fui furiosamente contra tudo o que vagamente se assemelhasse a teorias da conspiração. Se há uns tempos me viessem dizer que, na volta, Trump anda a toque de caixa do Netanyahu ou do Putin porque estes o têm agarrado pelas goelas, quiçá pelos testículos (pois, segundo dizem, basta um apertãozinho menos cuidadoso para já doer), porventura porque têm provas irrefutáveis que o conduziriam de imediato à prisão, eu diria que não me viessem com cantigas. Agora, depois de tudo o que se tem vindo a saber na sequência da libertação dos ficheiros Epstein e na sequência do que muitos ex-apoiantes de Trump, nomeadamente de congressistas e ex-congressistas e alguns dos mais sonantes vultos do podcast político americano, têm vindo a divulgar sobre o poder de Israel sobre o Congresso, já não digo a mesma coisa.

Também não me tinha apercebido da influência brutal, do verdadeiro poder manipulador e mesmo estrangulador, que os grandes bilionários deste mundo, talvez em especial os das tecnológicas que dominam as redes sociais, a inteligência artificial e os grandes conglomerados da informação têm sobre a condução dos destinos do mundo.

A minha visão do que se passa é hoje menos inocente e, logo, mais preocupada. Aquela imagem de que somos meros peões num jogo de que mal conhecemos as regras está hoje muito marcada em mim. Hoje sei que estamos indefesos. E, pior, sei que mais depressa se atacam e deixam morrer os indefesos do que alguém mexe uma palha para impedir os agressores de continuarem a espalhar o mal. E sei que esse mal existe tantas vezes por nada, a troco de nada, a troco de parvoíces, de desvarios, de imaturidades. 

Salva-me deste estado de espírito (talvez um realismo que chegou tardiamente à minha vida) a capacidade de me alhear, de me encantar com os musgos, com os líquenes, com as flores, com o canto dos pássaros, com as folhinhas que nascem pela primavera. Ia acrescentar: e com os meus meninos. Mas não é verdade. Preocupo-me com eles, preocupo-me cada vez mais. Em que raio de mundo estão a entrar agora que são adolescentes ou a caminho disso? Tanto que eu desejava para eles um mundo de paz, de fraternidade, de prosperidade. E, afinal, o mundo está cada vez mais perigoso, mais pejado de falsidades, de manipulações, de inimizades, menos inclusivo, mais egoísta, mais enraivecido, mais brutal. Preocupo-me, pois, sempre que penso neles, e penso tanto.

Mas, enfim, coração ao alto. É madrugada, a casa está silenciosa. Pelo menos, por aqui os mísseis não rasgam os céus e, por isso, devo dar-me por contente. E amanhã voltarei a andar pelos campos à procura de flores, de rebentos, de bagas para olhar por dentro, para fotografar. E isso é bom.

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

sábado, março 14, 2026

Linha do tempo de um dia tranquilo

 

Geralmente é o meu marido que, de manhã, levanta a persiana do quarto. Levanta-se bem antes de mim, toma o pequeno-almoço, vai acordar o pobre do cão e arrasta-o até à rua, a seguir vai podar árvores, árvores e arbustos ou causar estragos que não lhe perdoo pois corta sempre demais e, quando já não sabe o que mais fazer, vai até ao quarto e pergunta-me se ainda não são horas. Isto para dizer que, quando levantou a persiana, vi que estava sol. Pensei: 'Vou mas é pôr já a roupa a lavar'. E assim fiz. Lençóis, toalhas, panos das mãos e o mais a que deitei a mão (compatível com temperaturas e cores, bem entendido), tudo para a barrela. 

Depois tomei o meu pequeno almoço. Laranja, depois um copo de kefir natural com sementes e latte dourado. A seguir um café.

Depois de estendermos a roupa, tarefa que dividimos, fomos para o ginásio. E, a propósito disso quero aqui deixar um apontamento: no outro dia, se calhar por causa duns stresses que vieram bater-me à porta (e de que já me livrei), estava com um torcicolo, acho que falei nisto aqui, o pescoço tolhido, a nuca apanhada e dorida. O meu marido pensou que eu não ia ao ginásio e, para dizer a verdade, ainda hesitei. Mas depois resolvi que ia na mesma. Não abusei muito, mas fiz o habitual, embora não tivesse puxado demais pelos ombros ou braços. Não piorei. E voltei. E pus-me boa. Sem tomar um comprimido. 

Aqui há algum tempo li um artigo científico em que se concluía que, para osteoartrites e inflamações de articulações e/ou artroses, o melhor remédio é o exercício. Não o repouso ou contenção de movimentos mas, justamente, o oposto, o exercício. Não sei se é para todas as situações, mas o que me tem parecido é que, pelo menos comigo, parece ser verdade. Em contrapartida, sinto que estar muito tempo sentada, andar pouco, fazer pouco exercício, isso é que dá cabo do corpo todo.

Bem.

Vindos do ginásio, tomámos banho, apanhámos a roupa e fomos almoçar. E não sei se foi a essa hora que ouvi a notícia que me pareceu a mais estúpida do dia. No meio das desgraças inomináveis das guerras absurdas e cruéis que estão em curso e de todas as implicações que já aí estão e as muitas mais que por aí virão, ouvi novidades da mais recente e espectacular operação da Polícia Judiciária, a Rigor Mortis: que as buscas à morgue do Hospital Santa Maria e às casas das pessoas, aparentemente, têm por base o facto de os funcionários da morgue receberem verbas entre 5 e 30 euros por cada corpo que preparam antes de os entregar às funerárias. Ouvi isto e só me apeteceu atirar um copo de água à cabeça do maluco que mobilizou investigadores da Judiciária para uma treta destas. É que não sei quem é que fica prejudicado com isto. Se os pobres coitados que têm como profissão lidar com mortos preparam minimamente os respectivos corpos e, com isso recebem uns trocos, que mal há nisso? O hospital fica prejudicado? Alguém fica prejudicado? E, mesmo que haja aqui qualquer coisa de vagamente ilícito, é caso para mobilizar tanta gente, tantos investigadores que custam caro, para uma coiseca destas? Não andariam melhor a apanhar traficantes de droga? Não andariam melhor a apanhar traficantes de armas de todo o tipo? Não andariam melhor a caçar pedófilos? Não andariam melhor a prestar atenção a bandidos que praticam violência doméstica e ameaçam as mulheres caso estas os denunciem? E a comunicação social também não tem neurónios? Que sentido dar tanto destaque uma notícia destas que nem se percebe que raio de notícia é? Não bastaria dar uma rabecada aos pobres coitados que, pelos vistos, ganham uns trocos indevidos? Era preciso tanto aparato? 

Bolas, só maluquices. Caraças.

Adiante.

Depois de almoço, estava um sol bastante jeitoso. Pensei que não era cedo nem era tarde: boa ocasião para a vitamina D. Vesti uns calçõezitos e uma tshirtezita e estendi-me numa espreguiçadeira. E senti-me abençoada por poder receber assim, em liberdade, um calorzinho tão bom. Ser reformada tem destas coisas: não ter horários nem obrigações, não ter que estar enfiada em escritórios de manhã à noite, a respirar ar condicionado e a resolver problemas e a aturar gente em contínuo, por telefone e em pessoa, sem possibilidade de pôr o pescoço de fora para curtir um raiozinho de sol.

Pois, pois. Foi mas foi sol de pouca dura. Veio uma nuvem e foi-se o verão. Logo depois estava frio. Tive que vir para dentro, mudar de farpela.

Tenho ainda a dizer que cá em casa praticamente não se comem doces: o meu marido não aprecia e eu aprecio mas, por cada 10 gramas de açúcar que ingiro, aumento 1 quilo. Além disso, não gosto de fazer sobremesas. Mas, de vez em quando, apetece-me. E o meu marido, volta e meia, diz: 'devia haver qualquer coisa que se comesse entre refeições, quando nos apetecesse, para não ser só frutos secos'. Pois bem. O Instagram tem-me trazido coisas com piada. No outro dia apareceu-me um japonês que dizia que se pode fazer um doce sem farinha e sem açúcar. 

E mostrava: esmaga-se batata doce cozida, mistura-se um ovo, leite de amêndoa e cacau em pó, bate-se e leva-se ao forno. E ficava com bom aspecto.  Então resolvi fazer. O pior é que não tinha quantidades. Tudo a olho. Não tinha leite de amêndoa mas tinha kefir. Pensei que, com o kefir, ainda deveria ficar menos doce. Então, antes de vazar a mistura para a forma, juntei algumas, poucas, tâmaras e nozes cortadas aos bocadinhos. Levei ao forno. 

E, se querem que vos diga, acho que ficou razoável. O meu marido não ficou extraordinariamente convencido e diz que com mais tâmaras talvez fique melhor pois assim parece que ficou com pouco sabor. É que, quando a gente vai comer um bolo -- e este fica macio, com um ar até a modos que apetitoso -- vai à espera de lhe saber a doce. E este doce, doce, não é. Para a próxima junto-lhe ou uma colherzita de mel ou mais tâmaras e talvez, até, algumas passas e arandos. Contudo, há pouco reparei que, apesar de lhe saber a pouco, até já comeu um bom bocado.

E depois fomos fazer uma caminhada e vi umas florzinhas amarelas muito lindas, lindas mesmo, um amarelo torrado, mais do que dourado, quase a querer alaranjar, mas tão perfeitas, tão harmoniosas, as pétalas quase translúcidas... Umas florzinhas ali, nascidas do nada. Nunca as tinha visto. Fiquei fascinada. 

A natureza é uma coisa repleta de mistérios. Tira-os da manga a toda a hora. Fotografei-as e filmei-as e depois coloquei o vídeo no instagram. Não sei se quem vê estas minhas platitudes pensa que, se não tenho nada de mais original para partilhar, mais valia estar quieta. Talvez. Mas, para mim, estas coisas não são vulgaridades, são, isso sim, verdadeiros milagres. E milagre que é milagre deve ser louvado e, se é para louvar, que o seja com testemunhas. Por isso, partilho.

O pior é que, quando estava a pôr aquilo no instagram, recebi uma chamada. Interrompi o processo, Quando acabou a chamada, carreguei na coisa de partilhar ou publicar ou lá o que é. E lá vai disto. Fui à minha vida. 

Há bocado, fiquei perplexa: vi que publiquei duas vezes. Ou seja, quando recebi a chamada, sem querer devo ter publicado. Depois dupliquei a dose. Agora quero apagar um deles e não consigo pois têm ambos visitas. Quem vê deve achar que sou maluca, publicar duas vezes a mesma coisa. 

E, pronto, vou ficar por aqui, não vou pôr-me ainda a falar do jantar nem da minha magnólia -- que está espectacular, coberta de um manto de flores belíssimas -- nem da nova bebé da família, fofa, fofinha, fofésima, uma ternurinha, por sinal minha homónima, nem do meu tio que está cada dia mais confuso, o único sobrevivente daquela geração, nem de mais nada que isto já vai para aqui um lençol que não se aguenta.

[Nota: Dei o título de 'linha do tempo de um dia tranquilo' pois agora está na moda isto da linha do tempo: por tudo e por nada, lá sai a linha do tempo à cena. E eu embirro solenemente com estas coisas que viram virais e só tenho pena que a ironia não se perceba bem sem uma expressão facial de malícia ou desdém. E aqui, a escrever, e ainda por cima num título, sem verem que isto tem ironia à mistura,  penso que, sem eu acrescentar esta nota, não perceberiam que claro que isto não é nenhuma linha do tempo, é um simples desfiar de tarefas irrelevantes ao longo de um dia normal, bom mas normal.]

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Mas, antes de ir pregar para outra freguesia, toma lá mais esta, ó Chalamet, vê lá se percebes que meteste a pata na poça.

Jiří Kylián: Sechs Tänze

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Desejo-vos um belo sábado

sexta-feira, março 13, 2026

O Um Jeito Manso já ultrapassou os 9.000.000 (9 milhões!) de visualizações
Muito obrigada

 

E, quando dei por ela, já tinha, mais uma vez, deixado passar o marco que gostaria de ter assinalado em cima da hora. Só espero que, qualquer dia, não deixe também de dar conta do meu dia de anos. 

É que, à data e hora que escrevo, a número de visualizações já ultrapassa os 9.054.000. 

Há uns tempos tinha pensado que, quando chegasse aos 9 milhões, deveria festejar de alguma forma. De início, arranjava maneira de fazer qualquer coisa diferente mas agora, muito sinceramente, também não sei bem o que fazer para marcar este patamar. Gostava de ter uma ideia original e que fosse recebida por vós como um presente. Mas esta cabeça já não é o que era... E, ao fim de tanto tempo por aqui, o que posso fazer que ainda vos surpreenda...? Não sei...

Embora nas palavras de pesquisa que as pessoas colocam nos motores de busca para virem aqui dar continue a aparecer muito "Quem é a autora do blog Um Jeito Manso?', pergunta que tem acompanhado este blog desde sempre,  tenho para mim que não há muito mais a dizer. Sou uma pessoa normalíssima (pelo menos é o que acho; se calhar quem comigo convive bem como vocês que por aqui me aturam acham que sou doida varrida mas isso já não sei, cada um pensa o que quer)

Agradecer parece-me a única forma intrinsecamente devida de assinalar um número de visitas de que, confesso, sinto um certo orgulho -- agradecer-vos a companhia, agradecer-vos a paciência, agradecer o não se fartarem de mim. Ao fim de tanto tempo, continuo a receber um número assinalável de visitas e isso deixa-me feliz e, ao mesmo tempo, espantada. E é com humildade que vos digo que gostaria de continuar a contar com a vossa presença aí desse lado. 

De resto...

Recentemente, houve uma mudança aqui no blog: de vez em quando o meu marido tem escrito uns textos, e parece-me que há muitos Leitores que apreciam e partilham o que ele escreve pois, nesses dias, aumentam as visitas via facebook ou por entrada directa no que ele escreveu. Quando o ouvia a reclamar contra alguma coisa, frequentemente contra algumas políticas ou algumas atitudes do Montenegro, dizia-lhe: 'escreve isso, que eu publico'. Resistiu, dizia que não tinha pachorra. Mas depois cedeu, e ainda bem. Quando o vejo concentrado, agarrado ao telemóvel, num canto do sofá, já sei que lá vem bomba. O meu filho também escreveu uns textos de fundo que, igualmente, mereceram bastante atenção, e isso, naturalmente, deixa-me orgulhosa pois ele pensa bem e escreve bem (posso não ser isenta, mãe é mãe, mas, neste caso, penso que é mesmo verdade).

Se me debruçar mais detalhadamente sobre as estatísticas, e vou usar mais ou menos a terminologia do software de análise de dados, vejo que a taxa de retenção de leitores usuais é alta e a taxa de 'aquisição' de novos leitores é linearmente crescente. Obviamente não sei quem são mas o algoritmo lá deve saber. E isso traduz-se numa linha de visualizações crescente ao longo dos anos. Se os blogs estão em crise, tenho tido a sorte de me conseguir ir 'aguentando'. Naturalmente, Portugal continua a ser o país em que mais Leitores me visitam, seguido do Brasil. França, Alemanha, Espanha e, embora menos, o Reino Unido e os Países Baixos, contribuem também com números significativos. Os Estados Unidos, este ano, também se têm movimentado bem, presumo por eu tanto falar de Trump e de todas as suas infames trumpalhadas.

Outra estatística que vejo e que me parece um bom sinal é o tempo de permanência por página, ou seja, o tempo que cada Leitor, em média, demora desde que entra no blog até que muda de página, parecendo evidenciar que, quem entra, fica a ler ou a ver os vídeos, ou seja, não vem apenas espreitar.

Os textos mais vistos nos últimos 12 meses são os seguintes, podendo V. clicar em cada um, caso queiram tentar perceber porquê (retiro-os directamente da página das estatísticas, colocando apenas os que, à data, tiveram mais de 5.000 visualizações):

Posts

Ao todo, desde que o blog foi criado, já publiquei 8.510 posts e já recebeu um pouco mais de 25.000 comentários. 
E, por falar em comentários, tenho que me desculpar. Ultimamente não tenho respondido nem agradecido os comentários. Não sei bem porquê mas mantenho o estúpido hábito de apenas pegar no blog ao fim da noite. Quando trabalhava, percebia-se. Durante o dia obviamente não tinha tempo para tal. E chegava a casa e tomava banho e preparava o jantar, jantava, fazia telefonemas, espreitava as notícias e, com isso, já era tardíssimo quando conseguia debruçar-me sobre o blog, para escrever, para responder aos comentários. Por vezes, ficava até de madrugada. E levantava-me pouco depois, fresca para um dia de luto.
Contudo, parece que acumulei o sono de anos. Ou isso, ou a Covid. A minha capacidade de me aguentar sem dormir já não tem nada a ver. Como só escrevo no blog às tantas, quando acabo, já estou capaz de ir dormir. Acresce que, não sei explicar porquê, desde sempre os Leitores, a maioria, sempre preferiu um registo de maior proximidade através de mail. Portanto, tenho sempre mails para ler e aos quais vou tentando responder (mas, alguns, acabam por ir passando e, quando me lembro, já lá vai um ou dois meses ou mais....). E não me sobra tempo nem energia. Peço desculpa. Não é falta de interesse, é frequentemente mesmo uma incapacidade quase física.
E é isto. Comecei num dia à noite, in heaven, sem saber nada de blogs nem como se mexia nisto. Porque o meu marido tinha passado o dia a cantar 'o meu amor tem um jeito manso que é só seu...'  e eu, por tabela, também andava com essas palavras na cabeça, foi o nome que me ocorreu: Um jeito manso. Não sabia o que ia fazer com isto, se era divulgar pinturas ou livros de que gostava, falar dos tapetes de arraiolos que fazia, escrever sobre coisas de nada, divertir-me e provocar ou, apenas, desistir depois de perceber como funcionava isto. Mas fui ficando. Gostei. Gosto. Por vezes, antes de desligar isto, vou espreitar quem está. Não as estatísticas gerais (e por isso deixei passar os nove milhões...) mas as estatísticas do momento. Escolho, como horizonte temporal, 'now'. E está sempre alguém. Eu a escrever e, ligados a mim, através das minhas palavras, pessoas em todo o mundo. Acho isso fascinante. Gostava de conseguir mandar um 'olá', saber se estão bem, se gostam de ler o que escrevo. 

Neste momento, estão estas pessoas:


Sobretudo através dos mails que recebo, vou sabendo que há quem sinta que lhes faço companhia, já houve quem me dissesse que sou a família que não têm, já houve quem me dissesse que nos momentos mais difíceis de um período de doença fui a presença alegre que ajudava a afastar as nuvens mais escuras. Palavras assim sensibilizam-me muito. Jamais as esquecerei. Tenho recebido desabafos, confissões, pedidos de ajuda. Tenho-me sentido muito próxima de quem me escreve e não sei se por vezes não fiquei aquém do que de mim esperavam. E tenho saudades de pessoas que deixaram de me contactar. Não sei se estão boas, se estão vivas ou se, simplesmente, desistiram de esperar por uma palavra mais acolhedora da minha parte.

A todos agradeço do mais fundo do meu coração.

E espero que nos vamos continuando a encontrar por aqui. No mínimo, será sinal de que estamos vivos. 
😜

quinta-feira, março 12, 2026

Trump compra sapatos para os seus totós amestrados e eles têm medo de não os usar, incluindo o Mark Rubio a quem os sapatos ficam a chinelar

 

Não foram os mortos, os estropiados, os deportados, os que ficam sem casa e sem família, os que ficam desempregados, os que ficam sem apoios a nível social ou de saúde ou de alimentação e todos os demais que se incluem entre as inúmeras vítimas da crueldade e da estupidez exacerbada de Trump, e tudo isto poderia ser um filme cómico.

Já tinha visto nas redes sociais mas, como sempre que vejo coisas parvas demais, desconfio que sejam fake news e mantenho-me de bico calado. Infelizmente, nestes desgraçados tempos, a realidade anda a ultrapassar a ficção pela esquerda, pela direita, por cima e por baixo.

Quando o Guardian confirma, eu rendo-me: é mesmo verdade. Transcrevo:

Segundo os relatos, Trump presenteia os membros do gabinete e os visitantes da Casa Branca com sapatos Florsheim.

Alguns funcionários do governo queixam-se de ter de usar calçado de qualidade inferior em vez dos seus modelos de luxo favoritos.

Sentado atrás da secretária Resolute, Donald Trump fixou o olhar nos pés de JD Vance e de Marco Rubio. “Marco, JD, vocês têm uns sapatos s—xy”, disse o presidente dos EUA, consultando um catálogo e perguntando o número que calçavam. Rubio disse 11,5 e Vance 13. Trump recostou-se na cadeira e comentou: “Dá para perceber muita coisa sobre um homem pelo número do sapato.”

A história é relatada numa reportagem do jornal The Wall Street Journal que conta como responsáveis, conselheiros e aliados visitantes estão discretamente a adquirir sapatos de couro oferecidos por Trump, que lhos apresenta com o entusiasmo de um vendedor ambulante.

Reuniões do gabinete, almoços e passagens pelo Salão Oval podem transformar-se subitamente em conversas sobre calçado.

“Recebeste os sapatos?”, pergunta ele aos colegas, segundo várias pessoas familiarizadas com o ritual citadas pelo jornal. Alguns chegaram mesmo a experimentá-los no Salão Oval.

Uma funcionária da Casa Branca comentou com ironia: “Todos os rapazes os têm.” Outra acrescentou: “É hilariante, porque toda a gente tem medo de não os usar.” (...)

Donald Trump, agora com 79 anos, terá começado no ano passado a procurar algo mais confortável para usar durante os longos dias de trabalho no cargo. Depois de se decidir pelos sapatos da Florsheim, começou também a encomendar pares para outras pessoas. Segundo a Casa Branca, ele paga os sapatos do próprio bolso.

Marco Rubio e JD Vance receberam os seus Florsheim depois de uma reunião em dezembro no Salão Oval. Membros do governo como Pete Hegseth e Howard Lutnick também passaram a fazer parte do “clube”, assim como os comentadores conservadores Sean Hannity e Tucker Carlson e o senador republicano Lindsey Graham.

Diz-se que um membro do governo se queixou em privado de que o presente presidencial o obrigou a aposentar os seus sapatos preferidos da Louis Vuitton — embora poucos pareçam dispostos a arriscar ofender o chefe deixando os Florsheim por usar.

O presidente desenvolveu até um pequeno truque de salão: adivinhar o número de sapato das pessoas. Quando fica satisfeito com o palpite, instrui um assessor a fazer a encomenda. Uma semana depois, chega à Casa Branca uma caixa castanha, por vezes com uma assinatura ou uma breve nota de agradecimento de Donald Trump, relata o The Wall Street Journal.

O hábito tornou-se tão rotineiro que alguns assessores dizem que agora existe uma pequena pilha de caixas de sapatos num gabinete próximo, cada uma com o nome do destinatário. (...)


Tão ridículo, tão, tão ridículo, caraças. Não dá para acreditar

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E são estas mesmas araras descerebradas que estão a lançar o caos e a destruir o Irão, a afundar submarinos cheios de gente, a bombardear uma escola cheia de meninas, a desestabilizar uma dúzia de países, a fazer desacreditar na viabilidade da lei e da ordem baseadas no direito internacional.

Eu sei porque é que a guerra de Trump está em desordem: Wolff | Dentro da cabeça de Trump

Michael Wolff e Joanna Coles discutem a guerra de Trump contra o Irão em tempo real, revelando um comandante-chefe que parece conduzir a guerra da mesma forma que conduz um comício: improvisando a cada instante. Do bizarro regresso da antiga ameaça de Trump de "fogo e fúria" às declarações contraditórias sobre a vitória, rendição e bombardeamento do Irão "de volta à Idade da Pedra", Wolff explica porque é que fontes internas afirmam que não há um plano, apenas improvisação. Entretanto, o Secretário da Defesa, Pete Hegseth, esforça-se por explicar uma estratégia que pode nem existir, os republicanos entram em pânico com o aumento dos preços da gasolina em vésperas de eleições intercalares, e o próprio Trump parece entusiasmado com o espectáculo. À medida que a retórica se intensifica e os objectivos da guerra permanecem indefinidos, Wolff e Coles expõem o caos, as contradições e os riscos políticos por detrás de um conflito que poderá terminar amanhã ou tomar um rumo imprevisível em Washington.

Um mundo que atravessa tempos para esquecer

quarta-feira, março 11, 2026

Este aqui faz-me lembrar imenso um colega que tive, jovem, elegante, bonito, muito certinho, muito competente, muito racional, que só dizia coisas acertadas, que até conseguia defender posições inconvenientes... mas sempre com ar de quem não partia um prato

 

O circo permanentemente armado em que Trump se sente bem e em que, simultaneamente, é o mestre de cerimónias, o palhaço, o ilusionista, o tipo que vende os bilhetes, o patrão e, ao mesmo tempo, o que não resiste a meter parte do dinheiro ao bolso, faz com que meio mundo tente interpretar os seus actos e as suas palavras ou as suas verdadeiras motivações. Pouca coisa bate certo nele. O que diz no início da frase pode ser oposto ao que diz no fim, o que faz pode ser dissonante face ao que anuncia. Desconcerta, causa repulsa e, ao mesmo tempo, atrai atenções.

Tenho visto o que diz a sobrinha, o biógrafo, o antigo colaborador, jornalistas experientes, congressistas batidos -- e uma coisa é comum a todos: sempre que falam, a emoção envolve o raciocínio. As pessoas mostram-se chocadas, horrorizadas, outras vezes quase divertidas. 

Mas não Jake Auchincloss, congressista, democrata, com um CV irrepreensível e, ao contrário de grande parte dos congressistas democratas que estão quase a cair da tripeça, apenas com 38 anos. 

Como escrevi no título, Jake Auchincloss faz-me imenso lembrar um colega. Depois de ter saído, para a reforma, o director experiente e altamente confiável que o antecedeu, a empresa recrutou uma empresa internacional de head hunters para arranjar alguém a quem se pudesse entregar uma área muito crítica e que fosse bem aceite pelos colegas, gente muito sénior e experiente que formavam uma equipa coesa.

Apareceram-nos com um 'puto'. Menino bem, diríamos que beto, alto, magro, bonito, elegante, sóbrio até dizer chega, certinho da cabeça aos pés, sempre com aquele ar muito lavadinho de quem acabou de sair do banho. Olhámos para ele um pouco cépticos. Fosse qual fosse o assunto, mesmo em situações em que o antecessor ferveria, usaria metáforas ou exigiria que rolassem cabeças, este mantinha a frieza, o vocabulário íntegro e bem alinhado, o tom de voz inalterado. Sorria mas era um sorriso educado, bem comportado. Não dizia piadas nem se exaltava. Ouvíamo-lo até enervados, tal a contenção, à espera que um dia lhe saltasse a tampa. Nunca saltou. Pelo menos, enquanto lá estive isso nunca aconteceu.

Aqui passa-se o mesmo. Joanna Coles bem puxa por ele. Mas Jake Auchincloss não se desalinha. Responde a tudo com exemplar racionalidade, com uma frieza de análise que quase passa ao lado do facto de Trump ser um lunático, um demente, um narcisista fora do prazo de validade. E, no entanto, não foge a nenhuma questão, nem se pode dizer que seja estritamente politicamente correcto. Um fantástico exercício de contenção, é o que é.

Eu sei qual é a próxima artimanha doentia que Trump tem na manga | Podcast do The Daily Beast

O deputado Jake Auchincloss junta-se a Joanna Coles para abordar o caos em torno dos ataques de Donald Trump ao Irão, alertando que o presidente pode estar a travar uma guerra sem uma estratégia clara e sem a aprovação do Congresso. O ex-fuzileiro questiona a liderança do secretário da Defesa, Pete Hegseth, pede a demissão do secretário da Saúde, Robert F. Kennedy Jr., por alegados conflitos de interesses e explica porque é que os democratas já se estão a preparar para a possibilidade de Trump tentar minar as eleições intercalares de 2026. A conversa abrange desde a luta do Partido Democrata para resgatar o patriotismo e definir a sua mensagem económica até ao poder político de titãs da tecnologia como Elon Musk e a ameaça à segurança nacional representada pelo TikTok, antes de terminar com perguntas persistentes sobre os Arquivos Epstein.


terça-feira, março 10, 2026

Será que o To Zé é mesmo um falso sonso* que nos vai surpreender...?
-- A palavra ao meu marido --

 

A partir de hoje vamos estar formalmente livres do Marcelo. Já aqui escrevi que na minha opinião foi um mau Presidente da República. 

Prometeu que vai ficar calado, mas temo que não consiga ficar longe dos holofotes mediáticos por muito tempo e que ainda tenhamos que aturar, com maior ou menor frequência, a incontinência verbal que o caracteriza. 

Devo confessar que tenho uma enorme dificuldade em associar a personagem To Zé Seguro ao cargo de  PR, não encaixa. Ver a imagem do Seguro na televisão e ouvir o locutor chamar-lhe Presidente obriga-me, embora tenha votado nele nas duas voltas da eleição, a um esforço cognitivo não despiciente para conseguir ajustar o cargo á pessoa. 

Há seis meses parecia impossível não só a mim como, julgo eu, a uma boa parte do País que fosse eleito PR. 

Conseguiu, mostrou resiliência e perseverança para atingir o objetivo. Merece aplausos e felicitações. Vamos ver como corre, e desejo que corra bem. 

Contudo, parece-me que estas ideias de que a estabilidade é um valor em si mesma e de que os consensos são o Alfa e o Ómega para o nosso desenvolvimento são, no limite, castradoras da democracia e potenciadoras do crescimento do Chega que se poderá posicionar como a única oposição capaz de agregar descontentamentos mais ou menos fundamentados. 

Também vai ser curioso ver como é que o Montenegro, até agora muito pouco dado a consensos, sem respeito pelo papel da oposição e gerador de conflitos, se vai posicionar neste novo contexto. Dobra a cerviz ou estampa-se contra a parede? 

Não me parece que o Seguro tenha muito tempo para mostrar o que vale. A Saúde e a legislação laboral são dois testes muito importantes para vermos se mudou e amadureceu ou continua como há dez anos atrás. 

Boa sorte. Dou-lhe naturalmente o benefício da dúvida, que espero seja infundada.

* - Falso sonso como no domingo foi descrito pelo Ricardo Araújo Pereira no Isto é gozar com quem trabalha

Embora hoje já não seja Dia da Mulher, aqui fica uma análise muito inteligente feito por uma mulher inteligente a propósito de duas mulheres, uma inteligente e outra que talvez também seja

 

Não dou uma casca de caracol furada pelo chamado Dia da Mulher. Não faz sentido haver um dia da mulher. Dizer vacuidades ou verdades requentadas ou repisar no que já toda a gente sabe não acrescenta um pelinho ao assunto. E em vez de pelinho ficava bem era outra palavra menos mimosa mas, como este é um lugar que se quer bem frequentado, vou manter o vocabulário devidamente decantado.

Por exemplo, ao ver como Teresa Morais tentou pôr os arruaceiros do Chega na ordem, pensei que fez mais sobre os direitos e a força das mulheres do que muitos discursos ou manifestações apregoando palavras regurgitadas e mil vezes remastigadas. Mostrou, na prática, quão mais destemidas e frontais e capazes são muitas mulheres do que muitos cacafónicos homens. 

Tinha pensado o mesmo quando, o ano passado ouvi o discurso do 10 de junho da Lídia Jorge. 

Uma mulher de fibra é sempre um monumento. Há vários exemplos disso. Por exemplo, nos Estados Unidos várias mulheres se têm levantado, corajosamente, para defender as suas ideias, a sua interpretação do que é a democracia e a lei e a ordem contra a ignorância e a malvadez dos esbirros de Trump. Liz Oyer é uma delas. 

Mas hoje trago aqui um vídeo em que Joanna Coles, a cujas conversas gosto sempre de assistir, fala de duas mulheres: Melania Trump e Hillary Clinton. Uma análise interessante, um vocabulário inteligente, sobre duas mulheres muito diferentes mas que, na realidade, partilham qualquer coisa de desconfortável. 

A coisa devastadora que Hillary Clinton e Melania Trump têm em comum | Vídeo de Opinião

Numa semana surreal de teatro político, Melania Trump subiu ao palco das Nações Unidas para proferir um discurso sobre paz, crianças e a promessa da inteligência artificial, apenas alguns dias depois de Donald Trump ter ordenado um ataque contra o Irão. Entretanto, Hillary Clinton compareceu perante a Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, negando com firmeza qualquer ligação a Jeffrey Epstein, mesmo enquanto a longa sombra das ligações de Bill Clinton a Epstein continua a pairar. O resultado pareceu um erro de guião: Clinton, defensora ao longo da vida dos direitos das mulheres, a responder a perguntas sobre Epstein, enquanto Melania, que circulava no mesmo mundo social de elite que Epstein cultivava, dava lições de paz a líderes mundiais. Por baixo do espetáculo encontra-se uma verdade familiar da vida política: ambas as mulheres, de formas muito diferentes, continuam a encontrar-se em palco a encobrir os seus maridos


segunda-feira, março 09, 2026

Ça va san dire, que é o mesmo que dizer que that goes without saying

 

Não dormi nada bem. A meio da noite, ou melhor, da madrugada, vendo que a coisa não ia, por si só, a bom porto, levantei-me e fui tomar meio comprimido daqueles que cá tenho, acho que é de raiz de valeriana. Não me faz logo efeito mas, quando faz, para aí daí por uma hora, finalmente caio no sono. E já sei que, durante uma semana ou duas, vou dormir como uma santinha. Foi o médico de família que me receitou há algum tempo. Tenho ideia que cada caixa tem para aí uns 20 comprimidos e dá-me, à vontade, para 1 ano. 

Mas, por causa disso, acordei tarde. E com mais dor no pescoço. Agora, de vez em quando é isto, torcicolo. Na sexta-feira já me doía um pouco e fui ao ginásio na mesma, não quero dar mole. E, enquanto der, continuarei a ir, mesmo puxando pesos e fazendo aquelas forças que, ao que parece, me garantem a longevidade eterna. Só que, não sei a que propósito, também acordei com dor de garganta. Tenho cá para mim que, quando pinta um stress, o meu corpo reage, inflama, manifesta-se. Estou a virar um vidrinho, é o que é.

Por exemplo, no último ano de vida da minha mãe, em que andei permanentemente debaixo de uma enorme pressão, com ela a queixar-se de tudo e mais alguma coisa mas tudo de forma errática, ilógica, aparentemente nada correlacionado, e em que eu julgava que ela estava num estado descontrolado de hipocondria e já não sabia o que havia de fazer, andei constantemente com inflamações ora num joelho, ora num pé, ora num braço. Ora andava meio manca, ora completamente de perna no ar com canadianas, ora de braço ao peito. Quando ia com ela ao médico ou ao hospital, ela ia lesta e eu toda lesionada. Tenho para mim que o stress me afogava em cortisol e o cortisol amarfanhava-me de todas as maneiras possíveis e imaginárias.

Depois meteu-se o pesadelo de esvaziar a casa, meses e meses, infindáveis meses, de stress. E a ter que carregar com sacos e caixas e toda feita dondoca, a deixar o esforço todo para os outros, em especial para o meu marido, pois continuei aleijadinha de todo e qualquer carga fazia exacerbar ainda mais a inflamação nas articulações. Só visto.

E dormir mal também me atrofia toda. Dantes, quando trabalhava, dormia seis horas, por vezes menos que isso, e andava fresca e arrebitada todo o dia, um mimo. Agora, se durmo menos que sete, já fico com alguma coisa a tender para o disfuncional. 

Seja como for, para já, nem o torcicolo nem a dor de garganta são por aí além. Por isso, fomos na mesma passear à praia. Não estava bom tempo. Mas estava um movimento do caneco, os estacionamentos inexistentes. Tivemos que andar por ali e pelas redondezas à procura de agulha no palheiro. Não íamos almoçar lá mas queríamos comprar sushi para almoçarmos em casa. Tudo cheio, a deitar por fora, tudo com montes de gente à porta. Não estávamos a perceber o que era aquilo. Vi uma mulher com uma roupa meio estranha e por um instante ainda pensei que, na volta, o carnaval se tinha estendido no tempo. Depois vi várias com flores. ainda me ocorreu que fosse dia dos namorados mas depois lembrei-me que isso já tinha sido. Antecipação do 25 de abril não porque não eram cravos. O meu marido também não estava a perceber. Pensei que se calhar era dia da mãe. Depois, porque gosto de confirmar as minhas suposições, perguntei ao gemini. Dia da Mulher. Só me apeteceu pensar que se calhar mais valia passar a chamar-se dia do restaurante.

Fomos passear à beira mar. Como sou míope, vi ao longe uma criatura pequena e gorda a rodopiar com os braços ao alto e um objecto na mão. Comentei: 'Até já as miúdas pequenas se auto-filmam em poses parvas. Em vez de olhar para o mar, olha ali aquela miúda a filmar-se a ela própria como se o mar fosse um mero pano de fundo. Caraças'. O meu marido respondeu: 'Qual miúda?'. Com o queixo apontei. Ele, sempre parco de palavras, apenas perguntou: 'Achas que é uma miúda?'. Pus-me a fotografá-la naquelas poses inestéticas, irracionais e despropositadas. Quando cheguei perto, vi que, afinal, criança era coisa que ela já não era,  era uma mulher baixa e gorda de calças muito justas, o volumoso rabo e as pequenas e gordas pernas a quererem estraçalhar aquelas calças todas. Num banco perto, uma criança à espera que a mãe se cansasse de fazer aquelas tristes figuras. Depois lá foram, à nossa frente. Fotografei-as: a criança mais alta que a mãe e, aparentemente, mais sensata, vestida mais normalmente. Só não ponho aqui as fotografias que tirei não vá a senhora descobrir e ficar furibunda. Afinal estou a descrevê-la como estou enquanto ela se vê, tenho a certeza, como uma nova Raquel Welch. E se já não há por aí a ler-me uma alma que saiba de quem estou a falar, então muito me contam. Serei a mais idosa ou a menos desmemoriada de entre todos os que por aqui passam? -- E ok, ok, façam o favor de fazer a caridade de não me responderem.

O que sei é que, à medida que ia andando, ia pensando: é este o mundo que temos pela frente. Não a perguntar mas a afirmar.

Mas, para não dar a viagem por perdida, ainda lá fiz dois pequenos vídeos que publiquei no Instagram. E, entretanto, ao telefone, a minha filha já manifestou, mais uma vez, a sua estranheza e incompreensão: não sabe o que é aquilo, o mar faz muito barulho, a minha voz mal se ouve, não falo de nada que interesse, e teme que ande, eu também, a fazer figurinhas tristes. Sosseguei-a: estava num sítio em que não havia mais ninguém. E são uns segundos, aponto o telemóvel, digo o que me ocorre dizer naquele instante e já está. Deveria editar ou ter o discernimento de me deixar estar quieta, bem sei. Mas se acho piada a fazer aquilo, porque não hei-de fazer, ora essa? E depois há coisas bizarras. Na quinta-feira à tarde fui passear à beira rio e vi um barquinho quase todo afogado. O barquinho chamava-se Faisão. Apontei o telemóvel e disse: 'Olha... o faisão foi ao banho...'. Pois bem, acreditam que ontem vi que aquilo já tinha sido visto mais de 3.800 vezes? Achei fantástico. E incompreensível. Claro que 3.847 é coisa nenhuma, zero vezes zero quando comparado com os milhões que as influencers de sucesso alcançam. Mas eu sou uma simples anónima, de voz sumida, que não diz coisa que se aproveite. Porque é que as pessoas veem? Será que acham que é uma coisa tão descabida que veem para tentar perceber se há ali alguma mensagem subliminar? Se é, lamento desapontar mas é mesmo só falta de jeito e, se calhar, também de tino.

E, para que vejam bem o grau de desorientação em que esta minha cabeça anda -- na volta porque o pescoço que a sustém está repuxado e a garganta dorida -- tenho que confessar que, quando abri o computador, vinha com a ideia de aqui desabafar um bocado a propósito do animal, do estupor, do infame e cruel cavalgadura que anda a desaustinar o mundo inteiro. Mas distraí-me e, depois, não me apeteceu arrepiar caminho.

Portanto, não levem a mal que eu não tenha feito mais nada senão por aqui ter andado na converseta, sem acrescentar nada que valha a pena... Mas, para que não fiquem a pensar que já estou mesmo maluca de todo e que, com a divagação pegada para a qual derrapei, me esqueci da abestalhada figura, aqui vai o cartoon que a Ella Baron fez para o Guardian

Finalmente, aqui chegada, e vou já dar a faena por encerrada, não faço ideia do nome que hei-de colocar lá em cima, como título deste post. Só me faltava mais esta, já meio a dormir e sem encontrar um denominador comum no que escrevi...

A guerra de Trump e Netanyahu no Irão: As novas roupas do Imperador 


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Desejo-vos uma boa semana