terça-feira, outubro 13, 2026

Breves e, certamente, indignas de registo

 

1. Estávamos aqui na sala, descansados, a ver um daqueles episódios da série de design de espaços quando ouvimos um barulho considerável aqui em casa. Olhámos um para o outro, tentando perceber se o outro tinha percebido o que era. Não identificámos o que poderia ter sido pelo que empreendemos uma busca. Varremos a casa de uma ponta a outra. Nada. Não conseguimos descobrir o que possa ter sido, não vimos nada caído. Alguma coisa foi, e foi coisa ruidosa.

Desistimos. Como o cão está tranquilo, admitimos que não será nada de extravagante. Amanhã (isto é, daqui por umas horas) logo haveremos de descobrir.

2. Continua a materializar-se tudo o que estava pendente há séculos. Hoje vieram instalar uma porta que tivemos dificuldade em encontrar quem a fizesse, uma porta à medida. Tempos e tempos de espera. Não há planeamento, não há prazos, não há nada. É na base de 'quando tivermos um bocadinho tratamos disso'. De manhã liguei para o dono da pequena empresa, preparada para protestar. Disse-me: vou hoje à tarde. E assim foi, desta vez cumpriu. Não veio ele mas mandou dois funcionários. Passado um bocado, ouvi: 'Olhe, faz favor!'. Fui ver. Estavam os dois especados: 'Quem é que encomendou esta porta?'. Não percebi bem o alcance da pergunta mas adiantei: 'Quem encomendou fomos nós mas foi o vosso patrão que cá veio ver e que tirou as medidas e fez o desenho.'. Aí eles arrepiaram caminho: 'É que a porta veio ao contrário, a abrir para o outro lado'. Foi a minha vez de ficar especada, sem perceber bem, sem conseguir avaliar se isso teria contraindicações. Chamei o meu marido que, segundos antes, me tinha chamado a mim para me comunicar que a máquina da roupa estava a deitar água por fora.

Foi ver e concluiu o mesmo que eu, que se estava assim e se, pelos vistos, não tinha contraindicações, pois o que se haveria de fazer...? Mas tinha, teria que se colocar um pouco mais para trás do que era suposto. Um deles disse, fica aqui com isto à vista mas é só pintar. E, claro, o 'só pintar' não é com eles, eles é só portas. 

Ocorreu-me que, se isto fosse em contexto profissional, a porta iria para trás por inconformidade. Assim, na penúria de oferta de qualidade, o que se há de fazer? O meu marido olhou para mim e encolheu os ombros. A falta de profissionalismo e rigor destas coisas é de uma pessoa se passar. Mas a falta de alternativas é total. Portanto, ficou e acabou-se, não se pensa mais nisso.

3. Entretanto, a máquina da roupa estava parada, isto é, sem funcionar, mas cheia de roupa e de água. Tinha feito uma máquina com a toalha gigante usada no domingo e mais umas toalhas e coisas claras que se aguentam com uma lavagem a preceito. Não despejava a água, não centrifugava, nada. Várias tentativas. Nada. Portanto, o meu marido pôs um tabuleiro fundo no chão, encostado à portinhola, e abriu a máquina. O tabuleiro ficou cheio de água mas o chão também. Tirámos a roupa a escorrer, mais do que ensopada, e pusemos tudo na corda. Depois, à mangueirada, enxaguámos. Depois, os dois, um a pegar numa ponta e outro na outra, torcemos cada peça. Ginástica a valer. Depois estendemos. À noite estava ainda tudo molhado a valer. Recolhemos para não ficar ainda pior com a humidade da noite. 

4. O cão agora, neste momento, está maluco, ladra, ladra. E os cães do lado também. Fui ver à janela e não vi nada. Presumo que seja o gato branco que por aí ande, outra vez, a provocar os cães. Aquele gato é estranhíssimo.

5. O Neves continua a fazer das dele. Agora correu com o Secretário-Geral do MAI que não está a ser de modas, acusa o Neves de informalidades, de o querer obrigar a cometer ilegalidades e acusa-o ainda de bullying contra ele próprio por não estar para aparar essas cenas. Se tivesse paciência para o Neves, ia ler umas coisas para descortinar ao certo o que se passa. Mas não tenho. Santa paciência. É tudo mais do mesmo. O Neves é assim que funciona. Tenho lido que os autistas são óptimos a descobrir padrões. Na volta sou do espectro pois acho que também detecto padrões à légua. Vejo o Neves e imediatamente o associo a outros do género que conheci, alguns dos quais de perto, um deles infelizmente perto de mais. Chamemos-lhe Sá Vidal, Engenheiro Sá Vidal. E digo infelizmente porque já não aguentava tanto esquema, tanta malabarice, tanta chico-espertice, tanto atropelo à ética, aos procedimentos, às regras da casa. E o pior é que era apreciado por meio mundo. Ia a todas. Volta e meia apareciam-me histórias, aparentemente desconexas, mas que o tinham como protagonista. Estou a lembrar-me de uma de quem um dia vieram dizer-me que tinha pedido uma reunião aos RH para dizer que achava que estava mal aproveitada, queria ser promovida, ganhar mais, que tinha potencial para ser directora, e que isto aquilo e o outro. Nos RH estavam parvos com aquilo. Tinha sido recepcionista e dali tinha transitado para a área de economato, como administrativa. Anunciou ainda que ia tirar o curso de gestão à noite, queria que lhe dessem o estatuto de trabalhadora estudante. No decurso da conversa descaiu-se que tinha ido almoçar com o Sá e que o Sá a tinha estado a incentivar. Os dos RH ainda mais pasmados ficaram. Ela tratava o Engenheiro Sá Vidal por Sá, na maior informalidade. E o Sá, numa de simpatia e charme com ela, a incentivá-la a apresentar-se como candidata a directora gestora. Fantástico. Numa outra vez, contaram-me que uma das recepcionistas, uma que mais parecia uma influencer, uma temporária que lá estava a substituir uma outra que tinha tido uma criança, tinha relatado que, estando com o frigorífico avariado, o Sá tinha ido a casa dela ver se conseguia arranjar ou perceber de que se tratava. Toda a gente estava de queixá caído. Não apenas ela morava no cu de judas como também o tratava por Sá. E ele tinha ido a casa dela arranjar o frigorífico? Parecia piada. Um director com montanhas de coisas para tratar, que nunca tinha tempo para 'papéis' (leia-se: ler relatórios, despachar expediente, etc), e andava a ir a casa da recepcionista para arranjar o frigorífico? Eu ficava passada com isto. Claro que toda a gente gostava dele, ultra disponível para tudo. Na prática não resolvia nada. Como o Neves a fazer excelente gestão a levar o atrelado cheio de produtos perigosos para um armazém normal em vez de os destruir como a juíza tinha ordenado, e, na prática, sem resolver coisa nenhuma e, na prática, pondo em risca a segurança de meio mundo (se houvesse um acidente na autoestrada ou um incêndio no armazém, alguém imagina o risco que aquilo seria?). Enfim. Uma anedota.

6. Outro que continua a fazer das dele é o Passos, Passos Coelho, em tempos aqui designado por Láparo. Mais parecendo um caniche a morder as canelas ao Montenegro, o Coelho de vez em quando sai da toca para chatear o sucessor espinhense. O tipo remediado de Massamá embirra à brava com o novo-rico da Spinumviva, é o que é. E não as poupa. Que é como o Costa, diz o Láparo, querendo com isso dizer, lá na dele, que o Montenegro não faz reformas, não faz nada que se veja, que, no fundo, não passa de um envaginado: em vez de se juntar à malta do povo profundo, taberneiros, ladrões de malas, pedófilos, invasoras de rádios e outros que tais, quiçá também com os betos da IL, o Montenegro por aí anda à deriva, de braço dado com uma cambada de ministrecos que não fazem ponta de coisa nenhuma. E vai mais longe, o Láparo: ameaça que se o Montenegro não provar que fez alguma coisa, salta mesmo a terreiro e vai ele tomar conta do saco de gatos que é o PSD. Imagino que a esta hora os gémeos separados à nascença, Montenegro e Hugo Soares, dois moços conhecidos pela sua visão estratégica, já estarão a preparar uma arruaça para pôr o Láparo mais o Relvas e mais o Morgado na linha. Gente fina é outra coisa.

Quem deve estar que nem um feijãozinho lhe cabe deve ser o Ventura, ao ver-se alçado a parceiro de confiança pelo seu mestre, actualmente em versão skinhead. 

Enfim. É o que é. Ou melhor, é o que temos. Ó Portugal, se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato!

7. Finalmente, para destoar, uma digna de registo. 

Susana Menezes diz 'Portugal' de Alexandre O'Neill


Desejo-vos um bom dia

segunda-feira, outubro 12, 2026

Tente amar as próprias perguntas
-- que é como quem diz, aceite
a liberdade de não ter todas as respostas

 

Não costuma acontecer-me desta forma. Se é normal identificar-me com algumas coisas de outra pessoa, já não é tão frequente eu estar a ouvir uma pessoa, durante uns dez minutos ou mais, e pensar que eu poderia dizer tudo o que essa pessoa esteve a dizer.

Nos cuidados que tenho com os meus filhos ou netos, no saber que não é preciso eu recomendar ou avisar, porque eles sabem, mas que é tão difícil ficar calada porque tenho sempre a impressão -- mais até que a impressão, o dever, e até mais que o dever: a obrigação -- de que devo alertar para os riscos ou aconselhar (seja a propósito do que for). Ou saber que não devo dizer a um amigo que não faça isto ou aquilo porque não vai resultar quando sei que não vai resultar. Mas também eu estou a aprender a não dizer nada porque afinal sei lá se vai ou não. Ou, mesmo que acredite que, mais do que certamente, não vai resultar, se calhar, enquanto a pessoa vive na ilusão, sente uma felicidade que não sentiria de outra maneira. Mesmo que seja fátua ou insensata ou efémera. Sabemos lá. 

Mas isto é uma aprendizagem. Penso por vezes em não dizer nada, mas também penso que quem me garante que, a posteriori, não lamentam que eu não tenha alertado, que talvez isso pudesse ter ajudado a não se meterem em situações chatas.

Dúvidas. É o que tenho cada vez mais. E aceito essas dúvidas. Tento aprender a viver com as dúvidas.

No trabalho eu alertava sempre para trajectórias que sabia, à partida, que iam correr mal. Isso trazia-me dissabores, mas eu não conseguia deixar de alertar. Por exemplo: 'Como...? Vem o Presidente da República inaugurar uma coisa que vai ser um fiasco? Como? Não pode ser, estão a envolver o homem numa coisa que é uma treta...' e ficavam furiosos comigo, a comunicação social toda convocada, equipas internas de filmagens, festa e beberete, notícias, entrevistas. E eu, doente com aquilo, 'esta coisa está longe de estar operacional, e, pior, nunca na vida vai ficar operacional, é um flop gigantesco'. E toda a gente incomodada comigo, a festa armada e eu a querer impedir a festa, a achar que só poderia ser uma farsa, não era possível que só eu estivesse a ver que ia ser um fiasco. E a festa fazia-se, convidados, comitivas e mais comitivas. Ao fim de alguns anos, tudo para o galheiro. Milhões para o buraco. Custos afundados, dizia-se. Claro, estava na cara, só não viu quem não queria ver. Mas durante muito tempo eu era a mulher do médico que via quando todos os outros estavam cegos. Mas hoje interrogo-me: eu era a única inteligente ou, pelo contrário, era a mais burra, a que não conseguia estar calada, a que arranjava inimigos, a que criava situações constrangedoras, a que não era capaz de se alinhar numa fantasia?

Se fosse hoje se calhar limitar-me-ia a dizer: 'não acredito que isso tenha pernas para andar mas, se é vossa decisão seguir em frente, quem sou eu para o questionar?'. E não diria mais nada. Mas faria como fiz naquela altura: 'como podem imaginar, por coerência, à inauguração, à festa, à recepção, isso eu não vou.'

Mas estou a derivar.

Dizia eu que, tal como a Jeanne do vídeo diz, as perguntas são muitas, as respostas são poucas. Mas está bem assim. A consciência da ignorância é uma coisa boa, tranquilizadora. Sabemos que pouco sabemos. Tenho vontade de aprender mas sei que jamais saberei a mais ínfima parte do que há para saber. E aceito-o, na boa. 

O vídeo é, como são sempre os vídeos desta série, muito envolventes, muito bem feitos, muito serenos. Espero que gostem.

---------------------------------------------------

Só um aparte, antes de partilhar o vídeo: o domingo foi muito feliz, com a família toda reunida. Desta vez os astros alinharam-se e conseguiram estar todos disponíveis para almoçar e ficar para a tarde. Até o menino (o menino grande, diga-se, alto que só visto) que teve jogo no domingo, ficou despachado a horas de almoçar com a família. Claro que estava cansado, com sono, o que é natural pois madrugou. 

E estreei o forno e correu bem. No fim, levaram o que sobrou, até a sopa. E fico feliz com isso, como é natural. 

Os meus meninos queridos (meninos lato sensu, bem entendido), os crescidos e os crescidos (porque estão todos cada vez mais crescidos, um deles já verdadeiramente um homem, meu rico menino) quando estão juntos a conversa flui, flui, flui, sempre toda a gente a conversar em volta da mesa, é uma alegria sem tamanho, boa e linda que só vista.

---------------------------------------------------

E agora é que é o vídeo, que dá para pôr com as legentas nativamente em português (ou seja, não são legendas automáticas, daquelas manhosas).

The Freedom of Not Having All the Answers

Passamos tanto tempo a tentar desvendar a vida. Procurando respostas, imaginando o que pode acontecer. Mas, quando pensamos que finalmente já percebemos tudo, a vida surpreende-nos com algo inesperado.

Esta necessidade constante de saber pode ser cansativa. Ficamos acordados a repassar possibilidades, procurando uma resposta que esperamos que nos traga finalmente paz de espírito. E, por vezes, estamos tão ocupados a tentar prever o que vem a seguir que perdemos o que está a acontecer agora.

Há um certo alívio em dizer: "Não sei". Podemos parar, respirar fundo e deixar algumas perguntas sem resposta durante algum tempo. Podemos ter curiosidade sobre o que vai acontecer a seguir, sem ter de ter todas as respostas. Não precisamos de todas as respostas para começar a viver de forma mais plena, exatamente onde estamos.

Com Jeanne. Filmado em Noordhoek, África do Sul. 


Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

domingo, outubro 11, 2026

Um sábado bem ocupado

 

Quando comecei a trabalhar no mundo empresarial, vinda do meio escolar, entrei num mundo que me parecia quase infinito: muitas pessoas, muitos edifícios, muitas actividades. Estava sempre a descobrir coisas. E mesmo o que era banal para quem já lá trabalhava há muito tempo para mim era uma coisa que me enchia de interesse. 

Por exemplo, soube que havia um encadernador. Para mim foi um espanto tão grande como se tivesse sabido que havia petróleo no pátio de um dos edifícios. Por isso, não descansei enquanto não fui lá ver. E foi um fascínio. Por acaso, tinha reuniões de trabalho frequentes nesse edifício. E aí era um espanto mas em sentido oposto: deparei-me com uma estrutura pesada, muito hierarquizada, ineficiente até dizer chega. Tinha vinte e poucos anos e muita energia, muita criatividade. Deparava-me com um assunto para resolver e, na minha cabeça, em meia dúzia de dias, resolvia aquilo. Mas, em vez disso, tinha que ter reuniões extensas, das quais se faziam actas que eram enviadas para circularem por todos, só depois alguém começava a esquematizar o que se pretendia, faziam dossiers, depois reuniões para passar para a fase seguinte, e mais actas, e mais dossiers. Anos mais tarde, numa profunda reestruturação, viria a estar incumbida de acabar com aquilo tudo. As pessoas, em si, nem teriam culpa por aquele marcar passo, era mesmo assim. Portugal, ou pelo menos parte dele, parece que, se o deixam, sente-se bem em enquistar-se.

Mas, portanto, vinha passada daquelas reuniões, porque sempre odiei desperdiçar tempo a fazer coisas inúteis, e ia visitar o meu amigo encadernador. As guilhotinas, as prensas, as peles, os dourados, tudo aquilo me encantava. Uma vez até aqui, num daqueles folhetins que gostava de escrever, inventei um personagem inspirado nele. 

Ele gostava que eu lá estivesse, mostrava-me a sua arte. Lembrei-me, então, de uma coisa. Uma das outras coisas extraordinárias que também havia era uma biblioteca infinita, uma coisa que não se imagina. Sei que, entreatanto, foi tudo doado. Encontrei lá livros que nunca poderia imaginar. Acabada de sair da faculdade, tive um segundo período de grande aprendizagem. O mundo abriu-se-me através daquela extraordinária biblioteca. Os livros franceses eram especialmente do meu agrado. Pensei, então, que poderia pedir para fotocopiar alguns desses livros e, depois, encadernar. Devo ter pedido uns seis ou sete livros. A capa em pele verde, letras em dourado. Lindos. 

Quando saí de lá, perguntei se os poderia levar comigo. O meu chefe da altura achou muita piada à minha pergunta, disse que claro que sim, quem é que ali ia precisar daqueles livros tão técnicos, em língua francesa ou inglesa, dizia que era mais que chinês, além disso eram fotocópias. Não ligavam patavina à capa. E, para mim, o mais especial de tudo era a capa.

Lembrei-me disto ao ver um dos pequenos apontamentos do canal Conta Lá: um senhor que, em Lisboa, ainda trabalha em encadernação. Trabalhar em livros, dar-lhes uma vida digna através de uma encadernação cuidada, requintada, deve ser uma maravilha.

....   ....   ....   ....    ....   ....   ....   ....

Aqui há algum tempo ouvi que este canal Conta lá estava em apuros. Tomara que tenham resolvido os constrangimentos financeiros pois é muito interessante. Por aqui consegue conhecer-se o país, conhecer mesmo, conhecer as pessoas, a vida normal. Não se fala de crimes, de desgraças, de misérias, de assaltos, de vinganças, de traições. Não. Uns falam de como restauraram uma casa de família, outro fala do vinho e do azeite que produz, uma senhora fala de como, apesar de lhe faltarem muitas peças, consegue manter-se activa e feliz na sua comunidade, outro fala de como ainda produz o chamado tijolo burro, a seguir falam do que é o jogo do pau, e, a seguir, uma jovem mulher orgulhosa de trabalhar na higene urbana de Lisboa, a conduzir um carro do lixo. Tudo muito interessante. E mesmo a forma como filmam é uma forma próxima, parece que as pessoas estão a conversar connosco, no seu ambiente. Muito bom. Por aqui, está no canal 123.

....   ....   ....   ....    ....   ....   ....   ....





Quanto ao móvel da cozinha, já está. Deu luta. O meu marido, de óculos, que lhe ficam muito bem, ali esteve a montar aquele puzzle complicado. Como é meticuloso, lá foi avançando. Só numa das partes é que a coisa esteve mal parada, não encaixava nem por mais uma. Por fim, já estava à martelada com aquilo ou, como a martelada não resolveu, com a chave de fendas e com martelo, já desbastava a ranhura, para a tornar mais funda e ver se a tábua entrava. Afinal verificou-se aquilo de que o material tem sempre razão: era um parafuso que não estava bem apertado e oferecia resistência ao encaixe de uma das partes. 

Nunca vi um tal processo: se tivessem mandado três tábuas grandes, duas laterais e uma para as ccostas, e mais as prateleiras e as portas, teria sido incrivelmente mais fácil. Agora mandarem dezenas de tábuas a tabuinhas e mil parafusos de diferentes espécies e porcas e pernes ou lá como se chama aquilo, parece um teste à paciência. Eu jamais teria dado conta de tal berbicacho.

Mas ele deu e reconheço que a cozinha fica melhor assim. 

Não gosto é dos puxadores, são pretos, não têm a ver com os outros. Temos que ver se arranjamos uns com a mesma furação mas mais compatíveis com os dos demais móveis da cozinha. 

Agora temos que ver onde colocar o suporte das pegas e o das chaves pois estavam por cima do mal-amado móvel baixo que lá estava. A parede agora está tapada com o móvel, que tem 1,90 de altura. Mas há tempo.

Eu, entretanto, andei a lavar cortinados, tapetes, pegas e o que mais me apeteceu deitar a mão. O tempo está bom para secar roupa ao ar livre, há que aproveitar para as limpezas pós-verão. Quando começar o tempo de chuva já não dá tanto jeito fazer estas barrelas.

E, claro, ida ao supermercado para compras semanais e fim-de-semanais, quatro sacos gigantes a deitar por fora, com ida e volta de uber. E refiro isto porque para nós é um salto quântico nos nossos hábitos, desde sempre habituados a andar de carro conduzido por nós. Aquele receio e transtorno que sentíamos afinal eram desnecessários. Claro que subsiste o tema do cão que, obviamente, não pode vir connosco. Ao supermercado não é assunto que se ponha mas, se quisermos ir a algum lado com ele, de uber não poderá ser. Não é de fiar com estranhos, nunca se sabe como se portaria, e não dá para arriscar. Claro que, em caso de necessidade extrema, lhe poríamos o açaime e o meu marido ia a agarrá-lo, no banco de trás, a fazer-lhe uma gravata o tempo todo. Mas, deixando-o em casa, para nós dois o uber é uma boa solução, lá isso é. Bem que os meus filhso nos chateavam por não usarmos. Tinham mais do que razão.

E este domingo já vou experimentar o meu forno novo. Estou desejando de ver se me ajeito com ele. Um forno bom é meio caminho andado para a gente se sentir bem na cozinha.

.... .... .... .... .... .... .... ....

Desejo-vos um bom dia de domingo

sábado, outubro 10, 2026

Dia de rebuliço com uma senhora surpresa à mistura

 

Há dias em que tudo converge. Encomendamos aqui, encomendamos ali, combinamos com uns, combinamos com outros, e, não sei como, de repente, parece que tudo se alinha para que apareça tudo no mesmo dia. Esta sexta-feira foi um desses dias. Não sei se já contei que finalmente acedi a trocar de forno. Toda a gente me chateava com isso. Mas eu entendia-me (mais ou menos) com ele e parecia-me um gasto desnecessário. Mas é verdade que algumas coisas já não estavam lá muito bem. Portanto, lá foi, encomendámo-lo. 

Quando estávamos a proceder à encomenda, o senhor perguntou: com entrega e instalação?

Pareceu-me óbvio que sim pelo que estranhei a pergunta e contra-perguntei: mas poderia ser sem instalação?

O senhor riu-se e disse: tenho clientes que dizem que pagaram quase cinquenta euros para depois a pessoa chegar lá, ligar três fios e, em cinco minutos, estar tudo feito.

O meu marido ouviu a conversa e perguntou: mas é só isso?

O senhor puxou o forno para fora e mostrou-lhe o cabo com os ditos três fios, pelo que o meu marido decidiu: nesse caso, é só o transporte.

Encomendou uns conectores wago. Como continuamos sem carro (está na oficina do representante, que tem uma fila de espera de cerca de dois meses), conectores encomendados online.

O forno era para chegar na quarta-feira e os conectores só na sexta. Afinal, a entrega do forno atrasou-se e só chegou esta sexta-feira. Estava o homem do forno a carregar com ele e estava o dos conectores a tocar à campainha.

Portanto, o forno ficou no meio da cozinha, envolto em esferovite e plástico. O forno antigo que o meu marido desinstalou foi levado. Quando o meu marido foi pôr o forno no buraco, parecia que não cabia. Fiz um esforço para me manter zen, até porque na loja tinham-nos dito que não aceitavam trocas de fornos. Medimos e parecia que caberia por um ou dois milímetros, quer em largura, quer em profundidade. Mas, ali, no momento da verdade, parece que não entrava. 

Contudo, o meu marido deu-lhe um jeito e um empurrão valente, aquilo fez um click e entrou, encaixando que nem uma luva. Depois puxou-o outra vez e fez a ligação. Ao princípio não percebeu como funcionavam os ditos conectores wago, que são diferentes dos que ele costuma usar, mas o chatgpt explicou e a coisa deu-se. Finalmente, com a parte elétrica reslvida, lá o encaixou definitivamente. Impec. À medida, perfeito.

Entretanto, na cozinha, temos na parede entre a porta e a entrada para a despensa, um móvel baixo, de prateleiras, mesmo à conta. É ali que temos as taças da fruta, uma caixa com os biscoitos e alguns produtos do cão, onde estão as embalagens de águas das pedras ou de cervejas. Praticamente não se vê. Ora o meu marido sempre embirrou com o pobre do móvel, diz que a porta da cozinha não abre completamente porque bate no móvel, que não conseguimos entrar bem na despensa por causa do móvel. Sempre a chatear por causa do móvel, que, coitado, é tão útil e tão invisível. Como se não bastasse, como anda numa de reorganizar tudo na cozinha, começou a ver soluções alternativas. No outro dia, convenceu-me a ver os móveis que tinha pré seleccionado. Às tantas pensei que, de facto, se o móvel fosse mais estreito e menos comprido, sobretudo a entrada para a despensa seria mais fácil. E se fosse mais alto, talvez ganhasse um espaço extra, a uma boa altura, para aquelas coisas que agora estão nos armários da cozinha, lá mais em cima, inacessíveis. Portanto, lá me dei por vencida. Encomendámos.

Chegava na segunda-feira. Pois bem, no meio da confusão, tocam outra vez à campainha. Um homem tira de um camião duas caixas pesadíssimas. O meu marido ficou espantado: o que é isso, agora? 

Eu também não sabia mas depreendi que só poderia ser o móvel que se tinha antecipado. Só que o meu marido convenceu-se que o móvel viria montado. Ao ver aquilo, teve o primeiro dissabor. Quando abriu as caixas e viu carradas de peças de madeira, montes, e uma caixa com carradas de parafusos e de porcas e um desenho com o que há para montar, ficou passado.




Felizmente foi ele que o escolheu... Imagine-se o que seria se fosse eu a impingir-lhe um móvel que ele não quisesse e lhe aparecesse uma coisa assim...

Já começou a montar mas depois desistiu, parou, já lhe doíam as costas.

No meio de tudo quem também apareceu hoje foram os homens dos estores. Desde Julho que ando a querer que venham, depois, no início de setembro veio um e desistiu e, finalmente, cá apareceram dois. Substituiram os motores de dois e alinharam quatro outros. 

Escuso de dizer que o cão-de-guarda estava na rua, vedado, capaz de estraçalhar quem lhe aparecesse pela frente, tamanha a barafunda de entra e sai, e em especial ao ver os das janelas a aparecerem à vez em cada janela. Devia pensar que eram lobos a andar por dentro do redil, as ovelhas em perigo, e ele sem poder fazer nada. Ladrava e saltava como um possesso.

Portanto, amanhã temos a continuação da odisseia do móvel. A ver se o meu marido dá conta daquele quebra cabeças. E temos as compras. Já nos habituámos ao uber. Prático. Chamamos o carro, vamos. Acabamos as compras, chamamos, esperamos com as compras no carrinho. Chega o carro, do carrinho do supermercado as compras vão para o porta-bagagens e regressamos. Li há tempos que, no futuro, não fará sentido ter carro a não ser como gadget pois andar de carro será recorrer a um serviço. Talvez. Parece que sem condutor. E isso já me parece mais estranho.

Entretanto, nesta semana que vem chegam os materiais para a renovação da casa de banho. O homem que vem montar agora fala que só lá mais para o início de novembro. Já estou por tudo. Desde que venha. Antes, supostamente, ainda virá para limpar o telhado, ver aquilo das telhas partidas, pintar o quebra-fogos (ou lá como se chama o rebordo do telhado). Já era para ter vindo mas todas as semanas desliza mais uma. 

Enfim. É o que é. Já lá vão os tempos em que eu planeava tudo ao milímetro e fazia questão de cumprir sem um atraso. Agora já me deixei disso. Estou dependente de aparecerem quando podem. Seja lá quando for.

Mas há coisas piores. Não me queixo. Na verdade, de certa forma até me divirto.

------------------------------------------------------------

Nota:

À hora a que estou a escrever isto, a coluna lateral direita com os blogs que gosto de espreitar está outra vez toda despassarada. Presumo que os fulanos do blogger lhe andem a mexer e, pelo que vejo, sem atinarem pois está tudo desconchavado. Pode ser que de manhã já tenham resolvido os erros. Portanto, como dá para perceber, é coisa alheia à minha vontade e à minha capacidade para resolver. Tenhamos esperança de que tudo se componha.

------------------------------------------------------------

Desejo-vos um sábado feliz

sexta-feira, outubro 09, 2026

Tim Walker no sofá

 

Gostava de encher o post de fotografias de Tim Walker. Sou fã, fã, muito fã dele, acho-o um dos melhores. Mas não me arrisco, não quero atrair urubus que andam em volta de quem usa fotografias sem pagar direitos de autor. Eu compreendo que o trabalho dos fotógrafos tem que ser remunerado. Nem é apenas compreender: é aceitar na íntegra. Mas isto aqui não é comercial. Quando aqui coloco imagens de algum artista, seja de que tipo for, é para o divulgar, não para me aproveitar do seu trabalho, muito menos para monetizar o que escrevo à custa de trabalho alheio. Aliás nem disso, nem de coisa nenhuma. Tudo o que faço, quer aqui quer seja, onde for é pro bono. Obviamente. Mas há plataformas que funcionam por arrasto e, por isso, tomo cautelas. Rastreiam imagens que não tenham pago o fee da ordem e saltam em cima, de mão estendida. E são plataformas que o que arrecadam nem é para os fotógrafos ou artistas em geral, é nem se percebe bem para quê, parece esquema, talvez até seja pois se há caso em que se aplica aquilo de que se parece que é esquema, cheira mesmo a esquema, então, o mais provável é que seja esquema.

Mas podem googlar: Tim Waljer. Verão como os trabalhos dele são especiais: oníricos, maravilhosos, cheios de cor, de fantasia, de magia, de elementos etéreos. Não se confundem com nada. São arte.

É curioso ele dizer que sempre receou ser um impostor. E parece ficar surpreendido por ser tão requisitado, tão elogiado. As pessoas diferentes às vezes t~em alguma dificuldade em aceitar que t~em valor.

Não é qualquer um que é fotógrafo. Há que saber conhecer o outro, observá-lo. Não interessa propriamente apanhar o melhor ângulo, isso é pouco relevante, é passageiro. O interessante é captar a essência da pessoa, a forma como se comporta quando está distraída, ou a forma como a luz a envolve quando ela não se dá conta disso, ou como as sombras se recortam no seu semblante.

Mas Tim Walker, em mais uma das conversas íntimas com Bella Freud, não fala apenas de fotografia. Com total naturalidade, conversa sobre as diferentes etapas da sua vida assumida de homossexual, dos meandros dos encontros, da vulnerabilidade que aí se encontra e se partilha, da conexão que se pode sentir num encontro sexual com um desconhecido. Que, segundo ele, pode ser tão poderosa como a conexão que se pode sentir quando se fala com alguém, que se encontra por acaso, que tem um cão e se põe à conversa connosco, quando estamos a passear o nosso cão. É tão amiga e despreconceituosa (e poshy) a forma como Bella fala de todos os assuntos, que os dois estão totalmente à vontade em territórios que poderiam ser algo melindrosos. Não há pudores, não há tabus. Ela fala abertamente de tudo. E Tim Walker conversa também de tudo. É carinhosa a forma como ela refere que transpira amor a relação entre Tim Walker e o seu actual companheirro, Chris. E ele confirma, diz-se feliz e afortunado por tê-lo na sua vida.

Mas o melhor é calar-me, que não sou para aqui chamada, a conversa é entre eles os dois. 

Tim Walker fala sobre Kristen McMenamy, sexo e selfies nuas | Fashion Neurosis

Tim Walker é um fotógrafo inglês. Começou a fotografar ainda jovem e, depois de terminar os estudos, trabalhou no arquivo de Cecil Beaton na Biblioteca Condé Nast antes de estudar fotografia na Exeter College of Art.

Após a universidade, mudou-se para Nova Iorque para trabalhar como assistente de Richard Avedon, antes de regressar a Inglaterra, onde fotografou o seu primeiro editorial de moda para a Vogue com apenas 25 anos. Tornou-se conhecido pelas suas composições elaboradas e ensaios fotográficos ambiciosos e narrativos em locais de todo o mundo, trabalhando com adereços e cenários extraordinários, frequentemente em colaboração com a cenógrafa Shona Heath.

Walker realizou seis curtas-metragens, entre as quais "The Lost Explorer" (2010), e criou capas de álbuns para artistas como Harry Styles e Kate Bush.

Já realizou exposições individuais em importantes instituições, como o Design Museum, a Somerset House, o Victoria and Albert Museum e o J. Paul Getty Museum. As fotografias de Walker fazem parte de coleções privadas e de instituições públicas, incluindo o V&A e a National Portrait Gallery de Londres.

A sua mais recente exposição, Tim Walker’s Fairyland, inaugura esta semana na National Portrait Gallery, em Londres.

Neste episódio de Fashion Neurosis, Bella Freud e Tim Walker conversam sobre como superar um coração partido através do sexo, a experiência de ser despedido por Richard Avedon e o que é a Beleza Extrema.


_____________________________________

Desejo-vos suma happy friday

quinta-feira, outubro 08, 2026

Uma casa com arte, design e muita luz

 

Deveria acrescentar ao título: e com muito bom gosto. E ainda: fácil de limpar.

Para uma casa assim, com este espaço, esta disposição, com esta mobília, peças de arte e peças decorativas, com este jardim e com esta vista, eu poderia mudar-me com a certeza de que me sentiria muuuuito bem.

O design seduz-me. Gosto imenso de peças que são isto mas também podem ser aquilo. Por exemplo, um caso simples: uma mesa de jogo. Pode ser uma simples mesa de apoio, mas, se rodar e abrir o tampo, vira mesa de jogo. Tenho uma, gosto imenso. Nunca a uso como mesa de jogo, mas gosto de saber que a posso transformar. A Julianne Moore tem um banco que vira cadeira, acho uma graça. 

E gosto também muito das prateleiras que usa como estantes: são elegantes, embora robustas, e acompanham o evoluir da parede. 

E as pinturas e as demais peças, tudo despojado e bonito.

Já o confessei aqui algumas vezes: gosto muito da minha casa, muito mesmo, tudo parece à medida do meu gosto. Mas, se fosse hoje mobilá-la de raiz, teria menos móveis e, sobretudo, quase não teria móveis de madeira escura. 

Contudo, para ter menos móveis, teria que ter menos coisas para lá guardar. Por exemplo, aqui em casa seria impensável ter umas prateleiras pequenas com a louça. Primeiro porque duvido que ninguém desse um encontrão e atirasse com os pratos e as tigelas ao chão, segundo, porque apenas caberia lá uma ínfima-ínfima parte da louça que tenho. Hoje posso questionar: para que tenho eu tanto prato, tanto prato, senhores, tanta terrina, tanto copo, copos, então, mais do que um enxame? São os que eram meus, que já eram demais, e são muitos que eram dos meus pais e que não consegui que os meus filhos os levassem. Copos que não acabam. E o pior é que grande parte deles não são de tipo de trazer a uso, são copos delicados e frágeis de mais, uns com pé ultra-fino, outros com desenhos, outros de cristal. Lindos, reconheço, mas uma carga de trabalhos pelo espaço que ocupam e pelo cuidado que há que ter no seu manuseio.

Uma casa, clean, como a da Julianne Moore é uma casa que só é possível se ela tiver não mais que o mínimo indispensável. Por exemplo, na onda arrumadista do meu marido, uma coisa com que embirrou foi ter duas gavetas cheias de panos da louça e das mãos. E são gavetas grandes. Para não o ouvir mais com isso, condescendi em tirar os panos de uma das gavetas e arrumá-los num cesto, cesto esse que coloquei numa daquelas prateleiras junto ao tecto que os meus armários da cozinha têm, em que mesmo com o meu escadote, mal lá chego. Quando estava a arrumar os panos no cesto já estava a passar-me. Tanto pano, não acabavam. Enchi um cesto grande com panos, e, para caberem, tive que fazer rolinhos e arrumá-los ao alto, a la Marie Kondo. O meu marido, passa-se, pergunta quando é que vamos precisar de usar todos aqueles panos, por ele ia tudo fora. Mas foram-me oferecidos pela minha mãe, pelas minhas avós. Custa-me. Se a Julianne Moore visse o espaço que ocupo cá em casa com coisas desnecessárias certamente não ia acreditar.

E nem vou falar das cómodas com gavetões a rebentar pelas costuras com toalhas de mesa cheias de bordados e de rendas que nunca uso. Nem faço ideia de quantas. Tenho pena de não as mostrar, são lindas. Mas, depois, se ficam com nódoas que não saem? Ia pô-las a lavar a altas temperaturas? Poderiam estragar-se. E a trabalheira a passar a ferro. Não arrisco nem estou para me meter em trabalhos. Só uso toalhas que não precisam de se passar a ferro. Aliás, já é raro passar alguma coisa a ferro. Mas vou desfazer-me das verdadeiras obras de arte que são aquelas toalhas? Horas de laborioso e amoroso trabalho da minha mãe e da minha avó? Não vou.

Mas, ao mesmo tempo, penso: pessoas que têm casas como a Julianne Moore fazem como? Não compram quase nada? Passam a vida a deitar coisas fora? Não sei. Gostava de saber, tenho essa curiosidade.

Seja como for, se há coisa que gosto de ver são casas, em especial casas luminosas, desatranvancadas, elegantes, fáceis de manter. Desta gostei bastante. Um chão daqueles limpa-se que é um mimo. E até limpar o pó, que é coisa que destesto fazer, há de ser um tirinho. E a casa de banho, que bonita, também sem tralha de qualquer espécie, branquinha, luminosa, facílima de limpar.

E o jardim no telhado, tão verdinho, tudo tão bonito... e com a vantagem de estar perto do céu, longe da barafunda de Nova Iorque.

Mas vejam e digam se não tenho razão. Não gostavam de viver numa casa assim?

Na casa de Julianne Moore, uma casa num rooftop em Nova Iorque | Open Door | Architectural Digest

Julianne Moore recebe a AD na sua casa em Nova Iorque, projetada pelo arquiteto Oliver Freundlich. A atriz vencedora de um Óscar encheu o seu apartamento na cobertura, construído na década de 1920, com arte, mobiliário vintage e peças de design colecionáveis, incluindo obras de George Nakashima e Isamu Noguchi. A partir do seu belo terraço no último piso, lareira em funcionamento e casa de banho em mármore, a casa de Julianne é um oásis de tranquilidade no meio da metrópole. 


E ela é uma simpatia, não é? E claro que está descalça. como se pode andar em casa a não ser descalça?

_________________________________

Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, outubro 07, 2026

A diva Cris, aka CR7, pariu um comunicado tentando apunhalar Jorge Jesus -- comunicado esse que, se as televisões se apiedassem do seu autor, o atiravam para o lixo, sem possibilidade de reciclagem

 

Continuo agarrada a requisitos, compilação de documentos, digitalização de documentos, fusão de documentos para irem todos no mesmo arquivo, redução da dimensão dos sub-ficheiros, e o diabo a quatro. Claro que, no meio disto, abro alas para ver, com carinho, a escritura em que os meus pais participaram, a sua assinatura que se manteve inalterável até ao fim, a descrição da casa em que cresceu, as plantas da casa em que reconheço a letra do meu pai, a memória descritiva em que reconheço o seu rigor. Tanto que se entregaram. O meu pai e o irmão acompanharam a construção, todos os dias iam ver o andamento da obra. Sei porque ele e a minha mãe me contavam. O meu pai disse que a casa era robusta, com o dobro do ferro do exigido, que podia vir a todos os tremores de terra que não caía. E, de facto, que me lembre, nunca houve problemas com aquela casa, construção à prova de bala. Como eles poderiam imaginar que esta papelada eles sobreviveriam e que, tantos anos depois, eu já com netos, ainda andaria às voltas com um empecilho burocrático, um pinchavelho que não seria problema em lado nenhum senão num país assente numa máquina burocrática operada por calhaus?

E posso ser injusto para as pessoas capazes, competentes e esforçadas que lá há. A eles peço perdão pela aparente generalização. Não generalizo. Mas quando é vítima de uma máquina, uma pessoa perde a paciência. É que, apesar de haver pessoas competentes e razoáveis, o pior são os outros, os que bloqueiam tudo, insensíveis a qualquer argumento por mais lógico, racional e legal que seja.

De uma coisa todos podem estar certos: jamais darei dinheiro a quem quer que seja para resolver ou agilizar ou o que for. Jamais. Posso esgotar-me até ao tutano mas isto tem que se resolver, e resolver pelos meios legais, normais, sem favores, sem dinheiros por baixo da mesa.

Mas, enfim, eu estava embrenhado nesta papelada que tenho que andar para aqui a desencantar quando ouço meu marido a protestar. Fui ver. Tinha ligado a televisão e estava um batalhão de gente a comentar o comunicado emitido por Cristiano Ronaldo. Fiquei a ver durante um bocado. Incomodada. Depois afastei-me. Tudo aquilo me parece inenarrável, pindérico, medíocre.

Como é que é possível que um jogador de futebol aprove comunicados que completou o treinador ia ler a pedir-lhe desculpas e o louvá-lo como se ele fosse uma diva? Como é possível que essa senhora diva faça uma tamanha birra porque o treinador obviamente não se prestou ao papelinho miserável que o dito Cris queria? Como é possível que, depois de ter feito o que fez, ainda tenha o topete de vir dizer que está disponível para jogar? Não percebe que, se o fulano da Federação, que não sei se é um fulano com coluna vertebral ou uma corcunda moral, você tiver no sítio lhe dirá, liminarmente, que vá dar banho ao cão? Já chega. 

Aquela conversa de que ele é um símbolo e rebéubéu, pardais ao ninho, poderia fazer sentido se ele, para além de marcar golos, informar manter-se digno, relatórios sair a tempo, informar que um capitão não faz birras, não põe o ego acima de tudo, não abandona treinos ou promessas ou compromissos. E se souber que um jogador de futebol aceita o que o treinador decide, não negociar x minutos ou neste ou naquele jogo. Quando um fulano, por muitos golos que tenha marcado, não sabe portar-se de acordo com o seu papel ou não reconhecer que o treinador, tal como um maestro, é soberano nas suas escolhas, então, santa paciência, a sua adição e maisce fortemente e, em vez de despertar afecto, desperta é prazer. 

Munch revisitado - elaborado pelo ChatGPT

E andar a fazer saber que vai comprar ainda mais presença na comunicação social mais parece manobra de intimidação junto de jornalistas e comentaristas. Ou andar a fazer-se de humildade para com isso conseguir ganhar vários meses, que faz de conta que são castigo, quando está na cara que é o tempo de que acha que precisa para manobrar e conseguir correr com o Jorge Jesus , é coisa que só engana os pategos. Muito mau o comunicado. Mais do que patético, a mim parece-me uma coisa quase miserável.

Como é sabido, de futebol não há peso uma. Tenho alguma simpatia por Jorge Jesus porque me parece uma pessoa autêntica, que vive para o futebol, mas ele só conhece as tiradas que se transformam em memes. Mas está a ter bons resultados na Seleção e isso é importante. Aliás, é o que é importante. O resto são fitas de pessoas que não se enxergam.

Um comunicado como o que a princesa CR7 emitiu, em que se vitimiza, em que se louva a si próprio e em que lança acusações, suspeições, e faz de tudo para manchar a imagem de Jorge Jesus, parece-me coisa abaixo do admissível. 

Se não fosse uma coisa tão mediática, o que merecia era silêncio, que as televisões dissessem: 'por compaixão pela imagem de Cristiano Ronaldo, vamos poupá-lo à vergonha de emitir o seu comunicado'. E a Federação, se quisesse ser simpática, bem que poderia informar o País que já falou com o vidrinho e que acordou com ele pagar-lhe uma série de sessões de terapia.

O meu marido diz que estes meandros do futebol são complexos, que nada é exactamente o que parece, que, por exemplo, acha muito que numa conversa entre Jorge Jesus, na qualidade de treinador da Selecção de Portugal, e Ronaldo, na qualidade o jogador da Selecção de Portugal, tinha estado presente o director desportivo do Al-Nassr. Pois, também não me faz sentido, mas admito que possa haver uma explicação, e que essa explicação possa não ser tão absurda quanto tudo isto parece ser.

Só me ocorre que isto se poderá é fazer uma ópera-bufa, uma paródia, um mega cagaçal para a gente do coco a rir -- com as manas Aveiro, cada uma mais caricata e dada ao furdunço que a outra, e mais a esposa dos diamantes, carteiras de milhares e com o seu fornido e mui contratado arrière, e mais a simpática mamãe a fazer anúncios ao pingo-doce, e mais toda a comitiva de mãos, primos, cunhados e padrasto, todos alto style, e o próprio, agora ruivo, baita cachucho na orelha, todo estiloso mas um estiloso às avessas, um desses estilos que condiz com lamber o rabo ao Trump ou prestar-se a limpar a imagem de um regime que não se recomenda -- e tudo condimentado com birras, com amuos, com choros, com ameaças, com recados mandados por este e por aquele, isto já para não falar na fase de andar a fazer filhos por encomenda. Consigo imaginar até uma série, vários episódios, tudo para a galhofa. Até o Montenegro, alto admirador do estilo, recomendando aos portugueses que seguem o super guru CR7, lá poderia fazer uma perninha de quando em vez. 

Enfim. Só visto. 

Agora a sério: não há neste país quem colocou a diva Cris na ordem? 

Caraças, já não há saco para tanto chilique. Até me apatece dizer: e que tal se falasse de futebol? Mas, note-se, do esporte futebol (e não do negócio e dos estranhos meandros do futebol)

terça-feira, outubro 06, 2026

Proposta de revisão eleitoral -- num dia em que não sei como ainda não me saltou a tampa

 

O dia todo, até agora, e já passa das duas da manhã, a tentar compilar documentos de mil novecentos e troca o passo para mais um requerimento às Finanças. Este país não é para pessoas impacientes. O que eu já penei para que as Finanças resolvam um não-problema criado por elas próprias não tem explicação. Nem têm conta as vezes em que me apetececeu desistir. Mas sou paciente, obrigo-me a fazer mil vezes a mesma coisa juntando mais e mais documentos. Mas estou exausta.

Uma máquina que não existe para resolver problemas mas antes para os criar, é parte do que pode ser o inferno na terra. Uma pessoa não poder dispor de um bem que lhe pertence porque as Finanças não conseguem nem querem resolver um problema que não é problema, é de uma pessoa ir ao céu e voltar, dar mil pinotes, espernear, enfurecer-se, virar a mesa, fazer não sei o quê.

Tem-se a nítida sensação de que se se conseguir descobrir um funcionário inteligente ou diligente isto se resolve em cinco minutos. Mas não o descobri até hoje.

Uma pessoa que lida muito com Câmaras e outros serviços públicos dizia-me que não tem dúvidas que muita dessa gente cria problemas para depois, se devidamente aliciada, poder facilitar. E uma outra cuja profissão passava muito por tratar de projectos e licenciamentos em Câmaras disse-me que abandonou essa actividade porque não aguentou mais, obstáculos e mais obstáculos, cada um mais despropositado que o outro, aquilo não era para ela. Desistiu.

Um castigo.

De dia, pensei em falar nas eleições do Brasil mas agora já estou perdida de saturação. só mesmo um breve lamiré. 

Do lado do PT não conseguem descobrir gente nova, sangue novo, uma visão nova, mantendo a independência, a liberdade, a democracia, a visão de atenuar a pobreza e as desigualdades, de pugnar pelo desenvolvimento e por um futuro alicerçado no respeito pelo planeta. E o facto de continuarem a aparecer com o mesmo PT lulista enfraquece o sentido de voto. Mas, caraças, quase metade dos brasileiros opta pelo Flavinho? Está tudo doido? 

No outro dia vi como é o sistema de voto no Brasil, tudo automatizado, um terminal quase como as máquinas ATM. 

E ocorreu-me que em todo o mundo, em todo, as eleições deveriam ser assim. Mas com uma selecção prévia. Tal como hoje, volta e meia, temos que provar que não somos robots e nos forçam a assinalar os quadrados onde aparecem semáforos, autocarros ou passagens de peões, e, se não provarmos, não conseguimos seguir adiante, também para votar se deveria provar que não somos burros, estúpidos ou ignorantes para lá da conta. Perguntas aleatórias, diferentes de pessoa para pessoa para evitar que fossem para lá com as respostas coladas com cuspo. E, já que a malta não se importa de partilhar tudo da sua vida, o que come, o que veste, com quem anda, por onde anda, o que pensa, imagens no hospital, a chorar, declarações de amor ao pai, à mãe, ao cão e ao gato, então, tudo bem. A resposta às questões deveria vir com aviso prévio: 'As respostas que der serão validadas com as suas intervenções públicas pelo que se vier a proferir afirmações diferentes das que aqui escolher como resposta acertada, será multado em x mil euros, ficará sem conduzir durante y anos e ficará sem acesso às redes socias durante z anos'. 

As perguntas seriam básicas, ao todo umas doze perguntas por pessoa, combinações aleatórias. Exemplo:

Qual a capital de Portugal?

Onde se situa a Madeira?

Qual a moeda dos países da zona euro?

Portugal é uma república ou uma monarquia?

A terra é redonda ou plana?

As vacinas são uma coisa boa ou uma invenção das farmacêuticas?

Em que continente se insere Portugal?

Luís de Camões foi rei de Portugal, um futebolista célebre ou um poeta?

O que se produz a partir de painéis solares?

O tomate pertence ao reino animal, vegetal ou mineral?

Quanto é um terço de 30?

Quanto é 20% de 50?

etc. Coisas b-a-ba. Uma triagem do mais básico, mesmo para identificar gente incapaz.

Quem não conseguisse responder acertadamente a pelo menos 80% das perguntas, seria impedido de votar, por manifesta incapacidade de participar num processo de escolha responsável e consciente das pessoas que nos vão governar.

E agora chamem-me elitista à vontade que a mim tanto se me dá. 

Aliás, vou mas é pregar para outra freguesia que, na volta, o meu mal é sono.

segunda-feira, outubro 05, 2026

De um lado o Flavinho e o CR7, do outro o Lula e o Jesus

 

Com os meninos cheios de compromissos, cada um a ser convocado para dias e horas não coincidentes, e um deles, para além de jogador, a ser agora também treinador de meninos mais novos (e, para além dos jogos em que participa como joador. a ter também os jogos em que se apresenta como treinador), juntarmo-nos todos juntos é cada vez mais difícil. Fasemos turnos. Portanto, entre o almoço de sábado e o jantar de domingo, foram chegando. E eu, claro, feliz da vida.

Vi uma fotografia do jovem treinador nessa função, e lá está, posicionado tal e qual como os treinadores, a olhar para todo o jogo, concentrado e responsável.

Quando cá chegou disse que não tinha muita fome e, se bem ouvi, tinha comido dois hamburgueres. Como estava do outro lado da mesa e há sempre muitas conversas cruzadas, não cheguei a perceber se foi a organização que providenciou o lanche. Mas percebi que só o facto de ter comido dois hamburgueres já era motivo para se sentir feliz e contente.

E desta vez, pela primeira vez, acho eu, houve televisão ligada durante o jantar: jogo de futebol com a rapaziada, desde os miúdos aos graúdos, a quererem acompanhar. No entanto, depois de jantar, já na sala e melhor instalados, viram com mais vibração.

Eu perguntei: 'Será que o Ronaldo está a ver o jogo?'

O meu filho disse: 'Claro que sim. Isto é a vida dele'.

Mas eu tenho dúvidas. 'Está ressabiado.'

O meu filho e o meu marido dizem que 'por isso mesmo'.

Não creio. Uma coisa seria constatar que depois dele é o dilúvio, o edifício a desmoronar-se. Sentir-se-ia necessário, provavelmente compelido a ir salvar a equipa, Outra, bem diferente, é que sem ele os resultados são melhores, a equipa joga para ganhar e está unida em torno do Jesus. Imagino que sinta um amargo de boca difícil de suportar, que desligue a televisão e vá levantar pesos para ver se engole o sapo que ele próprio enfiou goela abaixo. Saíu da Selecção pela porta pequena, de gatas, a fazer birra. Não há como voltar pela porta grande para junto do coração dos aficionados. Digo eu.

Também vi que no Brasil, entre um Bolsomaro, igual ao pai, e um Lula igual a si próprio, uma unha negra ali mesmo a meio estragou a festa de um deles, obrigando a que vão desempatar daqui por uns dias. Uma seca. Se eu votasse lá, obviamente votaria no Lula, mas, confesso, um bocado contrariada. Não posso com pessoas providenciais e faz-me impressão que a democracia brasileira não consiga encontrar um candidato com menos de oitenta anos. Por isso, espero bem que os brasileiros percebam o tiraço no pé se derem a vitória ao Flavinho, mas, ao mesmo tempo, desejo que, mesmo que ganhe o Lula, este se preocupe em não ser insubstituível e gira o seu tempo de forma a poder sair de cena sem que se abra um fosso no meio da esquerda democrática.

E estou de uma maneira tal que adormeço de minuto a minuto. Da última vez devo ter dormido uns dez minutos com as mãos em cima do teclado. Fico-me por aqui pois hoje, muito sinceramente, estou mais a dormir em pé do que capaz de continuar a escrever.

Ia desejar um feliz dia de domingo, esquecida de que domingo é hoje... ou melhor, foi porque já a segunda-feira, 5 de outubro, aí está e a esta hora já deve estar o Seguro, com vontade de ser Tozé e ir dizer palavras redondas, daquelas que não aquecem nem arrefecem. A ver se estou acordada quando o grande momento acontecer.

Bom feriado. 

domingo, outubro 04, 2026

De que é que ele tem mais medo? -- Que descubram que é estúpido

 

Po vezes quase descreio da bondade e da inteligência da humanidade -- humanidade lato sensu, leia-se. Ao mesmo tempo que escrevo, apetece-me ironizar, gozar comigo própria por parecer que estou a dramatizar.  E estou. Mas, ao mesmo tempo, forço-me a esfriar as ideias. Já aqui escrevi: se fizermos uma viagem literária às arrecuas (arrecuas temporais, entenda-se),  vamos ver que, em todas as eras e em todos os quadrantes, os escritores mais observadores ou mais dados à crónica social achavam que estava tudo mal, cada vez pior, que a classe dirigente era uma miséria, que a decadência moral estava a corrroer os alicerces do futuro. E, no entanto, o mundo foi andando, muitas vezes aos solavancos, aos pinotes, muitas vezes desviando-se dos caminhos morais, muitas vezes anulando o progresso que outros construindo. Mas foi andando. Não colapsou. 

No meio das descrenças e decepções, vamos, portanto, andando.

Pela parte que me toca, lembro-me de, colectivamente, termos atravessado períodos de incerteza, de crise, de desalento. Crises financeiras, guerras por motivos inventados, a pandemia -- por exemplo. No entanto, não tenho ideia de um período em que a descrepitude moral fosse tão gritante. Em muitos países elegem-se como representantes os mais ignorantes, os mais broncos, os mais mal-intencionados, os mais inescrupulosos.  Os países em que isso acontece são, assim, arrastados para situações inimagináveis, para guerras absurdas, para impensáveis derivas imperialistas, para cruéis atentados, para situações em que os mais pobres ficam mais pobres e os mais ricos se tormam destemidos e desencabrestados oligarcas.

Olho para o mundo e não reconheço lógica ou inteligência, vejo perigosos aventureirismos, vejo desatinos atrás de desatinos, riscos impensáveis nas mãos de irresponsáveis. Assusta-me o futuro.

Veja-se o que acontece em Espanha. Lá, como cá e por todo o mundo dito civilizado, não há casas para os mais pobres ou para quem está em início de vida. Grande parte das casas que estavam em arrendamento normal viraram-se para o alojamento local, em que o rendimento é muito maior e o risco muito menor. Por outro lado, face ao envelhecimento da população, grande parte da força de trabalho pior remunerado é levado a cabo por imigrantes que ganham pouco e não conseguem pagar uma casa cuja renda é superior ao que ganham. E o mal não está no valor das rendas pois parece que todas se arrendam. Ou seja, há procura para casas com rendas elevadas. Portanto, estar a olhar para isso é pura miopia. Esqueçam-se as casas que hoje estão no mercado. O problema não está aí, o problema está nas casas que não há. O problema está na escassez de casas, em número absoluto. Escassez. Fixemo-nos nisso e não no preço das rendas. E, claro, em particular escassez a rendas baixas -- habitação social pura e dura. Só por vistas curtas se pode pensar que o problema está nos senhorios ou nos despejos. Claro que se tem que dar garantias aos senhorios senão ou põem as casas em alojamento local ou vendem-nas ou fecham-nas. Portanto, deixem os senhorios em paz, tranquilizem-nos. O problema não está nos senhorios. O problema é que não há casas que cheguem, em particular casas que os mais pobres possam pagar. Os imigrantes amontam-se em quartos superlotados ou em bairros ilegais e os jovens não desandam da casa dos pais. Este é o problema. O problemão.

O Isaltino anda há que tempos a dizer isto mesmo: ponham-se casas no mercado, usem-se terrenos públicos para que neles se construam casas económicas (porque, terrenos privados, a preços de mercado, são caríssimos, e isso encarece logo o preço final das casas; deixem-se os terrenos privados para casas dirigidas à classe média ou média-alta). Vi que em Espanha, perto de Madrid, o município pegou em terrenos públicos, estabeleceu uma concessão de 75 anos a privados que lá construam casas económicas. E em cerca de 3 anos eles fizeram isso. Num condomínio com parque iinfantil, piscina, boas condições e a cerca de 30 minutos de Madrid, um T2 ou T3 arrenda-se à volta de 1300 euros. E note-se que o nível de vida em Espanha é superior a Portugal. Por isso, o que impede que os municípios em Portugal peguem também em terrenos devolutos (e, se necessário, alterem o Plano Director), e façam parcerias público-privadas para construirem e arrendarem prédios com fartura, bem pensados, bem integrados, bem urbanizados, com T0 e T1 a 500 euros, T2 a 700, T3 a 900? Por exemplo. Mas muitos prédios. Acabe-se com os bairros clandestinos e com a indignidade dos quartos com gente a monte. Caraças. Custa muito perceber isto?

Eu insurjo-me mas, pelos vistos, custa. Porque, em vez de se pensar na solução e de se pôr pés a caminho e mãos à obra, anda-se à volta, à volta, à volta, e discutir tudo menos o que é relevante. Fazer casas baratas, pegar em prédios públicos e reconvertê-los, pôr no mercado casas a pontapé a preços baratos, népias. Só conversa -- e acção zero, bola. Um atraso de vida que até dói.

Em Espanha, perante a crise e perante as manifestações, com as Portas do Sol transformadas num acampamento, quando Pedro Sánchez quis fazer qualquer coisa para atenuar um pouco o problema, o resto dos partidos boicotaram-no e a lei não passou. A direita e os populistas, uma vez mais, a ensarilharem tudo.

E, no entanto, as pessoas votam nesta gente que faz muito barulho, que atiçam multidões, mas que, na verdade, não têm nenhuma solução. Os deputados que fizeram isto, estão no Parlamento porque foram eleitos. Parte da população elege os mais trauliteiros, mais arruaceiros, mais incompetentes, mais estúpidos.

É como nos Estados Unidos, o exemplo mais acabado da suprema estupidez colectiva. Apesar de ser um cretino, um estupor, um corrupto, um desavergonhado, um anormal que já levou não sei quantas empresas à falência, já não sei quantas vezes condenado, com um passado infecto de atentados contra mulheres, um narcisista maligno que não respeita a democracia, um ignorante que nunca leu um livro na vida, Trump foi eleito pela segunda vez. E, apesar de todos os dislates, de todas asneiras que já fez -- e asneiras é palavra fofa para designar os atentados de toda a ordem que cometeu -- a verdade é que continua ainda a ter uma percentagem significativa de apoiantes. 

Ensarilhou o mundo: uns pagam com a vida, outros pagam com carteira cada vez mais vazia. E vamos ver como vão correr as eleições de Novembro. Tudo o que faz corre mal, o que não espanta porque só faz porcaria. Mas é inspirado nele, no seu descaramento, no seu populismo, nas suas mentiras, na sua forma prepotente e aldrabona, que muitos movimentos políticos, por todo o mundo, se inspiram. 

Quem conhece bem Trump é Michael Wolff. Gosto imenso das suas análises, quando conversa com Joanna Coles. Esta última conversa é muito elucidativa. Seria bom que se pensasse nele como pessoa, como o ignorante, o estúpido e cobardolas que é, e não como se fosse um político normal.

E, na volta, passa-se o mesmo com os estúpidos que por aí andam, a fazerem de tudo para que ninguém descubra que são umas nódoas, uns zeros. Esta conversa é tanto mais interessante quanto revela os mecanismos de defesa (que, muitas vezes, se transformam em mecanismos de ataque) a que provavelmente todos os estúpidos com poder sempre recorrem.

Estas são as 10 coisas que mais aterrorizam Donald Trump | Inside Trump's Head

Michael Wolff e Joanna Coles revelam os medos que, segundo eles, impulsionam Donald Trump — desde o medo de ser exposto como pouco inteligente e incapaz de absorver informação até ao pavor da rejeição, do ridículo, da solidão e de perder o protagonismo. Wolff relata os esforços extraordinários alegadamente feitos para manter o historial académico de Trump em segredo, explica porque é que uma conversa comum pode deixá-lo vulnerável e descreve um presidente que precisa de uma audiência, mas que se esquiva ao contacto humano genuíno. Ao analisar como estas inseguranças moldam os seus ataques, obsessões e recusa em aceitar a derrota, Wolff oferece uma previsão arrepiante de como Trump poderá preservar o seu poder depois de deixar o cargo — e porque é que a sua sede de atenção poderá nunca o deixar desaparecer.


________________________________________

Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, outubro 03, 2026

A época dos tesourinhos deprimentes, como diria o RAP
- De novo, a palavra ao meu marido --

 

Esta coisa dos tesourinhos deprimentes pega-se e parece que ninguém quer ficar atrás no concurso para tesourinhos do ano. 

Haverá tesourinho mais deprimente do que o protagonizado pelo MP que passou meia dúzia de anos a investigar uma cunha que parece não ter prejudicado ninguém e apenas acelerou a marcação de uma consulta? E que, de acordo com os que leram o despacho de acusação, suportou a acusação em percepções e enquadrou-a numa moldura penal injustificável mas, como parece ser prática corrente, com pena superior? 

E, já agora, parece curioso que a casa civil da presidência não tenha participado na cunha. Ou será só percepção? 

Quanto tempo mais vamos ter que suportar estes tesourinhos do MP? 

Quem concorreu também para este prémio foi o Ronaldo (Cris para os amigos). E, claro, concorreu para ganhar. Depois de uma carreira brilhante, que se arrastou penosamente nos últimos anos na Seleção, em que protagonizou vários episódios indignos do capitão de uma seleção nacional, decidiu, no meio de uma competição, mandar vir o jacto e cavar para Madrid. 

Seria preciso tanto para concorrer, com hipóteses de ganhar, ao título de tesourinhos deprimentes do ano? 

E vai daí o Luís (Montenegro, claro) seguiu, como nos tinha incitado a fazer, os passos do Cris. Para se posicionar numa boa posição para ganhar o prémio, telefonou ao Jorge e ao Cris para mediar o desaguizado, o que é obviamente uma das tarefas prioritárias da esfera do PM. Quando as comadres se zangam, vem o Luís e intervém. Que lhes terá dito? Imagino que ao Cris tenha dito "Volta, estás perdoado, podes continuar a arrastar-te na seleção até ao Mundial, aqui quem manda sou eu!" 

Imagem gerada pelo ChatGPT

Ao Jorge terá, provavelmente, referido, com algum azedume " É pá, deixa de ser rufia! O gajo é como eu, quer mandar em tudo, qual é o problema? Mete a viola no saco ou voltas para a Arábia. Aqui quem manda sou eu!". 

Será um tesourinho super deprimente se, como dizem algumas notícias, o Proença promover uma reunião para o "Volta, estás perdoado!". 

Os portugueses não têm que continuar a ter uma Seleção atrofiada por causa dos milhões dos patrocínios. 

Qual será o próximo tesourinho?

sexta-feira, outubro 02, 2026

Administração Pública: em grande parte, uma máquina de arrasto chamada burocracia

 

Hoje não me apetece escrever, estou arreliada. É o tipo de coisa que me tira a boa disposição, me mói, quase me esvazia. Decorrente da morte dos meus pais tenho enfrentado a grande, a devoradora, a verdadeira máquina de arrasto que é a Administração Pública. É certo que isto se passa porque herdei. Certo. Mas isso não é mal nenhum, pois não? 

Tal como grande parte das famílias portuguesas, os meus pais tinham casa própria. Ora porque a casa, uma moradia bi-familiar, foi construída para o meu pai e para o meu tio, e respectivas mulheres, num terreno que os meus avós paternos ofereceram aos filhos, incialmente foi registada na Conservatória como prédio único, embora na Câmara, no projecto e confirmado na vistoria, constasse que se tratavam de dois fogos, em regime de propriedade horizontal. Pouco depois, os dois jovens casais, foram ao Notário e fizeram uma escritura de aquisição de coisa comum. Os meus pais compraram aos meus tios a casa em que viviam e os meus tios compraram aos meus pais a casa deles, cada uma das casas com o respectivo logradouro. Depois foram à Conservatória e o artigo inicial deixou de existir e deu origem a dois artigos: o da casa dos meus pais e o da casa dos meus tios. Artigos separados. Foram às Finanças e nas Finanças dividiram o artigo inicial em dois. Tudo certo, sem qualquer problema. 

Entretanto, há uns anos, por obra e graça, nas Finanças alteraram a matriz quer da casa dos meus pais quer da casa dos meus tios e passou a vigorar o artigo inicial da Conservatória, anterior à divisão. E, também por obra e graça, os meus pais e os meus tios voltaram a ser todos proprietários de tudo.

Quando isso aconteceu, o meu pai já estava acamado. A minha mãe é que tentou tratar de tudo: foi às Finanças pedir para corrigir. Disseram-lhe que não, que tinha que ir pôr a casa em propriedade horizontal na Câmara. Na Câmara disseram que na Câmara o que já figuravam eram dois fogos, com pavimentos separados e mais não sei o quê, que a casa tinha sido projectada e construída nessa base. Foi às Finanças que lhe recomendaram que fosse então à Conservatória. Na Conservatória disseram-lhe para dizer nas Finanças que se deixassem de coisas e corrigissem, que o erro era deles, que na Conservatória já não havia nada que se pudesse pôr em propriedade horizontal pois as casas já estavam em artigos distintos. Voltou às Finanças. Disseram que não podiam fazer nada. 

Os meus tios fizeram as mesmas démarches e igualmente sem sucesso.

A minha mãe contratou um advogado que, do que sei, andou a calcorrear as mesmas capelinhas. Sucesso: zero.

Entretanto morreu o meu pai, depois a minha mãe. 

Iniciei eu o calvário. Exactamente a mesma coisa, nada a fazer. 

Entretanto, não consigo dispor da casa pois está como se apenas fosse dona de metade. Mais recentemente faleceu a minha tia. Resta o meu tio mas que, tendo problemas diversos de saúde, não quero incomodar com coisas que o perturbariam e confundiriam.Portanto agora a casa que era dos meus pais agora tem como donos eu, 50%, o meu tio 25%, e a herança da minha tia os outros 25%. Ou seja, a confusão amplificou-se.

E não faço ideia de como resolver isto pois, aparentemente, quem poderia resolver, a Conservatória, recusa-se pois diz que o que está, está bem feito e que as Finanças estão equivocadas, e que lhes compete a eles colocar nas Finanças o que está na Conservatória. E o que sei é não saímos disto. Já fiz, junto das Finanças, não sei quantas exposições, requerimentos, reclamações, recursos, sei lá que mais. Nada. Sempre a mesma resposta: não podem fazer nada.

Quando for a vez da minha prima herdar na totalidade vamos continuar na mesma, ambas donas da nossa casa e da casa da outra, sem que ninguém consiga fazer nada para corrigir a situação.

Como se deve classificar isto? Kafkiano? O reino do absurdo? A prepotência cega de uma máquina destruidora?

E como isto tenho enfrentado toda a espécie de buracos burocráticos onde se cai sem saber como, e sem se saber como se sai de lá. Por exemplo, a minha mãe tinha irs a receber no ano em que morreu. Portanto, herdei esse crédito. Ninguém imagina o que penei para o receber. Tive que ir presencialmente à repartição à qual a minha mãe estava adstrita preencher não sei quantos papéis, tive que pagar imposto de selo, que afinal era zero, tive que passar por todos os passos, declaração disto e daquilo e do outro. Meses. Meses. Era pouco, e mil vezes me diziam 'esquece isso, andas a maçar-te dessa maneira por uma coisa de nada'. Mas, para mim, era uma questão de princípio. Porque havia de abdicar de uma coisa que era devida à minha mãe? 

Dir-me-ão: sorte a tua porque herdaste. Certo. Mas, primeiro, não herdei milhões, não herdei fortunas, não fiquei milionária, e, segundo, fosse o que fosse, o normal é que, depois de ter tratado da habilitação de herdeiros, do imposto de selo e de mais não sei o quê, não tivesse que passar por um calvário para conseguir dispor das coisas. E, passado não sei quanto tempo, continuo com isto da casa tão embrulhado como no princípio e sem conseguir ver a luz ao fundo do túnel.

Imagino o que passam famílias com mais herdeiros ou com mais bens herdados ou que herdam quotas de empresas. Imagino também a quantos funcionários estamos nós a pagar para nos andarem a complicar a vida. Imagino ainda o que é isto a uma escala nacional, esta máquina trituradora que nos faz consumir tempo, dinheiro, paciência, que aniquila a produtividade nacional pois são não sei quantos funcionários que não geram riqueza, só empatam, só complicam, só fazem a vida dos outros andar para trás. Infernal.

Não anda para aí um ministro qualquer que supostamente ia acabar com estas máquinas de causar encrencas? Tenho ideia que ouvi falar nisso mas a verdade é que, se anda, não sei por nada.

Enfim.

Mas percebem porque é que hoje não me apetece escrever...? É que estou verdadeiramente maçada com isto, o meu dia foi passado a tentar avançar nem que fosse um milímetro... e não consegui. 

Dou em doida com isto. Juro.

quinta-feira, outubro 01, 2026

Montenegro & Sarmento - é gastar à tripa forra!
--- A palavra ao meu marido ---

 

O Montenegro acompanhado pelo Sarmento juram (quem mais jura mais mente!) que não é possível ajudar o povinho porque o orçamento não aguenta, e não querem correr o risco de haver défice no fim do ano. 

O que é curioso é que não é possível ajudar o povinho mas é possível ajudar os que estão em melhores condições para enfrentar a crise (por exemplo, o IRS jovem beneficia mais quem tem melhores condições). O ponto é o seguinte: o Estado deixou de arrecadar cerca de 1,3 mil milhões de euros com as medidas ditas emblemáticas do governo, como o IRS jovem e as isenções e apoios para os jovens adquirirem casa. E quais foram os resultados destas medidas levianas do governo? 

Os resultados são uma lástima! 

  • Embora não existam dados definitivos, a opinião generalizada é que a emigração jovem até parece ter aumentado. 
  • Relativamente à habitação, confirmou-se o que se previa: as medidas do governo originaram o aumento dos preços das casas e um aumento sem precedentes da taxa de esforço para muitos daqueles que adquiriram casa, o que poderá ter consequências muito nefastas para esses jovens num futuro próximo. 
Resumindo: a emigração jovem não diminui, a crise da habitação piorou e os cofres do estado arrecadaram menos 1,3 mil milhões de euros que tanta falta fazem para apoiar quem mais precisa na crise atual.

Para além de deixar de arrecadar dinheiro, a política do governo promoveu aumentos na função pública, muitas vezes sem critério, como aconteceu com os professores, que oneram bastante a despesa pública. São custos fixos, que passaram a pesar nas contas do Estado e esmagaram a margem de manobra necessária para superar situações de crise. É esta a política do governo AD tendo como expoente máximo a dupla Montenegro & Sarmento que, curiosamente, ao contrário do que acontecia com governos anteriores, não merece uma crítica veemente de comentadores económicos, geralmente próximos da apoplexia com governos anteriores. 

Governar também é saber ler os números, ser prudente e não hipotecar o futuro. Neste governo ninguém terá estas capacidades, muito menos o Montenegro. 

Ontem ouvi a parte final da entrevista ao José Luís Carneiro na CNN e gostei da forma como se apresentou e respondeu às perguntas. Apesar dos entrevistadores demonstrarem, como  também aconteceu recentemente na SIC, uma animosidade intrínseca, não conseguiram montar as armadilhas que pretendiam. Pode gostar-se ou não das políticas do PS, mas é certo que se percebe que o José Luís Carneiro é uma pessoa honesta, sólida, que conhece os dossiers e que está a tentar definir uma política que possa projetar o Pais para um futuro melhor. Quando o comparamos com o Montenegro e com o Ventura as diferenças para melhor saltam à vista, a começar pela honestidade intelectual. 

Alguém que afirmou no Parlamento que tinha uma empresa para gerir terrenozitos com meia dúzia de árvores de fruto quando, afinal, a empresa prestava serviços de consultoria diferenciada, recebia avenças para completar ordenados e suportava custos, é intelectualmente honesto? E um tipo que  publica geralmente notícias falsas é honesto? Não são, pois não? 

Para além disso se são impreparados e não conhecem os dossiers pouco se pode esperar deles. Estou convencido que o José Luís Carneiro, se continuar neste caminho, dará um bom primeiro ministro. Espero que sim. 

CR7, aquele que não soube sair a tempo

 

CR7, o Patético


quarta-feira, setembro 30, 2026

IA: uma questão de upsides e downsides com muitos $$$$$ à mistura

 

Há um vídeo que mostra uma senhora finíssima, vestida de uma forma sóbria mas distinta. Os gestos são discretos mas elegantes. Reconheço o estilo, é o agora chamado old money. Dá conselhos sobre o que deve constar do roupeiro de uma mulher de bom gosto sem ter que ter muita coisa a atravancar os armários, ou sem necessitar de gastar muito dinheiro. As pessoas assim, old money, são poupadas e não gostam de dar nas vistas pelo que poucas peças, monocolores, em que todas condizem com todas e em que a qualidade é boa, resolvem bem a questão da elegância e da economia. A senhora dá conselhos também sobre como pegar num copo de vinho, explica porque se deve pegar sempre pelo pé e não pelo bojo. Regras simples de como estar à mesa, de como conviver em sociedade. Cada vídeo debruça-se sobre um tema. Todos os conselhos me parecem correctos, não ouvi um único que me parecesse deslocado do contexto ou que contrariasse o que sei ou penso sobre o assunto. 

Mas o meu faro está cada vez mais apurado. Fui ver o perfil. Confirmei: a senhora não existe, os lugares em que se move não existem, tudo aquilo é gerado por inteligência artificial. Tudo.

Um outro vídeo: uma série típica dos anos 60 ou 70, uma família americana em que as cenas divertidas se sucedem. Aparece, então, por cima, um homem dos tempos presentes a dizer: 'o que estão a ver nunca foi filmado na realidade, aqueles actores não existem, tudo isto é gerado por inteligência artificial'. A seguir ele explica: 'enquanto está a ser difundida a série, decorre uma sondagem junto da assistência a perguntar como deve evoluir o argumento e, acto contínuo, no momento, o argumento da série adapta-se à sugestão mais votada -- podem entrar novos personagens, pode alterar-se o cenário, mudam os diálogos, mas tudo com coerência, sem saltos bruscos'. E, enquanto ele diz isto, nós assistimos a uma demonstração da capacidade da 'ferramenta'. No fim ele interroga-se sobre os riscos disto: poderemos estar a ver noticiários em que os jornalistas mostrem reportagens e em que se convidem pessoas a comentar o que se sucedeu, e ser tudo mentira, tudo inexistente, tudo gerado por IA, tudo assustadoramente real? Como vamos distinguir o real do falso?

Ouço os defensores acérrimos da inteligência artificial, os que só veem o upside da coisa (e uso a palavra upside deliberadamente, pois é assim que os fãs falam): os extraordinários avanços que a IA vai trazer à medicina, à matemática, à física, à biologia, à gestão, à história, ao direito... e por aí adiante.

E eu, que reconheço tudo isso, junto-me aos que, apesar de louvarem os benefícios, temem o que o downside pode fazer à sociedade. Sobretudo quando penso que cerca de 35 a 30% da população de alguns países, se calhar de muitos países, é ignorante, crédula, manipulável, estúpida até à quinta casa, e vai acreditar em tudo sem pestanejar, vai caminhar para o cadafalso a cantar e a rir como se fosse para uma festa (tal como hoje convictamente votam em tudo o que é alarve -- veja-se o caso de Trump, de Ventura, e de todos os que, do mesmo género, vão ganhando força nos países democráticos), fico francamente preocupada com o que estamos a fazer ao futuro dos nossos filhos e netos e aos que vierem a seguir. Temo que não seja coisa boa.

...............

Enquanto isto, se quisermos perceber porque não se conseguirá regular esta evolução e, muito menos, travá-la, nada como follow the money. Cito, apenas como exemplo, e para ilustrar a distopia absoluta, a incoerência paradoxal:

Anthropic alerta para riscos existenciais da IA ​​para a humanidade num documento IPO. Os investidores são alertados sobre os "comportamentos de autopreservação" da IA ao mesmo tempo que a empresa se prepara para uma possível oferta pública inicial de 2 triliões de dólares.

O mundo está a ficar um ninho de cucos sobre o qual voamos, no qual mergulhamos, no qual parecemos querer afundar-nos.

----------------------------------------------------------------

Para aligeirar, dancemos ao som da agradável canção do vídeo abaixo.

E creio que será escusado dizer que ninguém compôs a música, ninguém a interpretou, ninguém deu corpo aos personagens, ninguém criou o cenário, ninguém filmou, ninguém tratou do guarda-roupa ou das luzes ou do som. 

O dinheiro que se poupa... 

Não é preciso ninguém. Só é preciso alguém usar a aplicação e escrever que quer um vídeo com um toque surrealista, com pessoas e animais, uma música pop no mesmo mood. E está feito. Tem um upside, então não tem? Um upside gigantesco. 

Mas e a quantidade de gente que se arruma a um canto, desnecessária? É para aqui que caminhamos? A aperfeiçoar-nos cada vez melhor para nos tornarmos cada vez mais irrelevantes?

-------------

Surreal AI Music Video - "A Very Unusual Town" - Kelly Boesch | 4K

Legenda do vídeo: Uma cidade muito peculiar. Adoro quando um vídeo combina tão bem com a música. Estes clipes parecem um conto de fadas. Imagens feitas com #Midjourney e animadas com @Hailuoai_MiniMax #Minimax. Música feita com @suno.


Desejo-vos um dia feliz