Continuo agarrada a requerimentos, compilação de documentos, digitalização de documentos, fusão de documentos para irem todos no mesmo ficheiro, redução da dimensão dos sub-ficheiros, e o diabo a quatro. Claro que, no meio disto, abro alas para ver, com carinho, a escritura em que os meus pais participaram, a sua assinatura que se manteve inalterável até ao fim, a descrição da casa em que cresci, as plantas da casa em que reconheço a letra do meu pai, a memória descritiva em que reconheço o seu rigor. Tanto que se entregaram. O meu pai e o irmão acompanharam a construção, todos os dias iam ver o andamento da obra. Sei porque ele e a minha mãe me contavam. O meu pai dizia que a casa estava robusta, com o dobro do ferro do exigido, que podiam vir todos os tremores de terra que não caía. E, de facto, que me lembre, nunca houve problemas com aquela casa, construção à prova de bala. Como poderiam eles imaginar que esta papelada lhes sobreviveria e que, tantos anos depois, eu já com netos, ainda andaria às voltas com um empecilho burocrático, um pinchavelho que não seria problema em lado nenhum senão num país assente numa máquina burocrática operada por calhaus?
E posso estar injusta para as pessoas capazes, competentes e esforçadas que lá há. A eles peço perdão pela aparente generalização. Não generalizo. Mas quando se é vítima de uma máquina, uma pessoa perde a paciência. É que, apesar de haver gente competente e razoável, o pior são os outros, os que bloqueiam tudo, insensíveis a qualquer argumento por mais lógico, racional e legal que seja.
De uma coisa podem todos estar certos: jamais darei dinheiro a quem quer que seja para resolver ou agilizar ou o que for. Jamais. Posso esgotar-me até ao tutano mas isto tem que se resolver, e resolver pelos meios legais, normais, sem favores, sem dinheiros por baixo da mesa.
Mas, enfim, estava eu embrenhada nesta papelada que tenho que andar para aqui a desencantar quando ouço o meu marido a protestar. Fui ver. Tinha ligado a televisão e estava um batalhão de gente a comentar o comunicado emitido pelo Cristiano Ronaldo. Fiquei a ver durante um bocado. Incomodada. Depois afastei-me. Tudo aquilo me pareceu inenarrável, pindérico, medíocre.
Como é que é possível um jogador de futebol aprovar comunicados que supostamente o treinador ia ler a pedir-lhe desculpa e a louvá-lo como se ele fosse uma diva? Como é possível que essa lady diva faça uma tamanha birra porque o treinador obviamente não se prestou ao papelinho miserável que o dito Cris queria? Como é possível que, depois de ter feito o que fez, ainda tenha o topete de vir dizer que está disponível para jogar? Não percebe que, se o fulano da Federação, que não sei se é um fulano com coluna vertebral ou um corcunda moral, os tiver no sítio lhe dirá, liminarmente, que vá dar banho ao cão? Já chega.
Aquela conversa de que ele é um símbolo e rebéubéu, pardais ao ninho, poderia fazer sentido se ele, para além de marcar golos, soubesse manter-se digno, soubesse sair a tempo, soubesse que um capitão não faz birras, não põe o ego acima de tudo, não abandona treinos ou estágios ou compromissos. E se soubesse que um jogador de futebol aceita o que o treinador decide, não negoceia jogar x minutos ou neste ou naquele jogo. Quando um fulano, por muitos golos que tenha marcado, não sabe portar-se de acordo com o seu papel ou não reconhece que o treinador, tal como um maestro, é soberano nas suas escolhas, então, santa paciência, a sua credibilidade esmorece fortemente e, em vez de despertar afecto, desperta é enjoo.
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| Munch revisitado - elaborado pelo ChatGPT |
E andar a fazer saber que vai comprar ainda mais presença na comunicação social mais parece manobra de intimidação junto de jornalistas e comentadores. Ou andar a fazer-se de humilde para com isso conseguir ganhar vários meses, que faz de conta que são castigo, quando está na cara que é o tempo de que acha que precisa para manobrar e conseguir correr com o Jorge Jesus, é coisa que só engana os pategos. Muito mau o comunicado. Mais do que patético, a mim parece-me uma coisa quase miserável.
Como é sabido, de futebol não pesco uma. Tenho alguma simpatia pelo Jorge Jesus porque me parece uma pessoa autêntica, que vive para o futebol, mas dele só conheço as tiradas que se transformam em memes. Mas está a ter bons resultados na Selecção e isso é importante. Aliás, é o que é importante. O resto são fitas de gente que não se enxerga.
Um comunicado como o que a princesa CR7 emitiu, em que se vitimiza, em que se louva a si próprio e em que lança acusações, suspeições, e faz de tudo para manchar a imagem de Jorge Jesus, parece-me coisa abaixo do admissível.
Se não fosse uma coisa tão mediática, o que merecia era silêncio, que as televisões dissessem: 'por compaixão pela imagem de Cristiano Ronaldo, vamos poupá-lo à vergonha de emitir o seu comunicado'.
O meu marido diz que estes meandros do futebol são complexos, que nada é exactamente o que parece, que, por exemplo, acha muito estranho que numa conversa entre Jorge Jesus, na qualidade de treinador da Selecção De Portugal, e Ronaldo, na qualidade o jogador da Selecção de Portugal, tivesse estado presente o diretor desportivo do Al-Nassr. Pois, também não me faz sentido, mas admito que possa haver uma explicação, e que essa explicação possa não ser tão absurda quanto tudo isto parece ser.
Só me ocorre que disto se poderá é fazer uma ópera-bufa, uma paródia, um mega cagaçal para a gente partir o coco a rir -- com as manas Aveiro, cada uma mais caricata e dada ao furdunço que a outra, e mais a esposa dos diamantes, carteiras de milhares e com o seu fornido e mui alçado arrière, e mais a simpática mamãe a fazer anúncios ao pingo-doce, e mais toda a entourage de manos, primos, cunhados e padrasto, todos alto style, e o próprio, agora ruivo, baita cachucho na orelha, todo estiloso mas um estiloso às avessas, um daqueles estilos que condiz com lamber o rabo ao Trump ou prestar-se a limpar a imagem de um regime que não se recomenda -- e tudo condimentado com birras, com amuos, com choros, com ameaças, com recados mandados por este e por aquele, isto já para não falar na fase de andar a fazer filhos por encomenda. Consigo imaginar até uma série, vários episódios, tudo para a galhofa. Até o Montenegro, alto admirador do estilo, recomendando aos portugueses que seguissem o super guru CR7, lá poderia fazer uma perninha de quando em vez.
Enfim. Só visto.
Agora a sério: não há neste país quem ponha a diva Cris na ordem?
Caraças, já não há saco para tanto chilique. Até me apatece dizer: e que tal se se falasse de futebol? Mas, note-se, do desporto futebol (e não do negócio e dos estranhos meandros do futebol)








