sábado, setembro 12, 2026

Dois casos gritantes de fraudes humanas

 

Anda meio mundo perplexo com um filme, documentário, apresentado num festival, sobre uma pessoa que tem tanto de repulsivo como de intrigante, talvez até fascinante.

Elizabeth Holmes é daquelas mulheres que parecia normal até se descobrir que não era. Enganou meio mundo, incluindo pessoas inteligentes e supostamente perspicazes. Foi capa de revistas que costumam dar palco a gente de relevo, deu inúmeras entrevistas, apresentou-se em conferências, nunca fugiu à exposição pública. Pelo contrário, procurava-a. Os investidores acreditaram cegamente nela, milhões fluiram para a sua empresa que, segundo ela, iria revolucionar a medicina, a forma de fazer análises. Ninguém duvidou de nada. Era convincente, o projecto era sólido.

E, no entanto, era tudo uma fraude. Tudo. 

Ela era uma fraude. Sem nunca o assumir, como se falasse sempre verdade. Geria uma empresa, tinha trabalhadores, conseguia forjar uma realidade que não existia a não ser na sua delirante cabeça. Nunca mostrando arrependimento, nunca baixando os olhos, nunca mostrando vergonha por ter enganado tanta gente e por estar a ser exposta como uma falsidade sem ponta por onde se lhe pegasse.

Este documentário deixa as pessoas que o viram aterradas. Elizabeth Holmes permitiu que uma equipa de filmagem estivesse em sua casa, com o seu marido e os seus filhos, nos dias que precederam o julgamento e a prisão. Mostrou a sua intimidade, mostrou as conversas mais pessoais, supostamente mais reservadas, deixou que filmassem tudo. Como se não tivesse nada a esconder.

Não sei como funciona a cabeça de uma pessoa assim. Uma fraude humana em que nada do que diz é verdadeiro e que, no entanto, se comporta como a mais verdadeira e transparente das pessoas. Não sei como conseguem conviver com ela sabendo a fraude que é, sabendo que parece não ter escrúpulos, sentimentos. Os pais, o marido, como conseguem viver relacionamentos familiares que supostamente assentam na confiança, na verdade, com uma pessoa desprovida da mais elementar confiabilidade? Será que ela os manipula a ponto de os cegar?

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Hoje fiquei também a saber de uma outra fraude, igualmente intrigante. Para me facilitar a vida, pedi ao Gemini que descrevesse o caso. Transcrevo:

A história de Tania Head é considerada uma das maiores e mais estarrecedoras fraudes da história recente norte-americana.

O seu nome verdadeiro é Alicia Esteve Head, nascida a 31 de julho de 1973, em Barcelona, Espanha. Oriunda de uma família catalã abastada, Alicia estudou na Universidade de Barcelona.

A farsa começou por volta de 2003 e 2004, quando Alicia apareceu em fóruns online de vítimas dos atentados. Sob a falsa identidade de "Tania Head", ela criou uma narrativa dramática e repleta de detalhes chocantes:

  • A história inventada: Alegava que no dia 11 de setembro de 2001 estava no 78.º andar da Torre Sul (WTC 2) a trabalhar para a empresa Merrill Lynch quando o avião colidiu. Dizia ser uma das pouquíssimas pessoas a sobreviver acima da zona do impacto e afirmava ter sido salva por Welles Crowther (o herói do "lenço vermelho").

  • A perda do noivo: Contava que o seu suposto noivo/marido, um homem chamado Dave, tinha morrido na Torre Norte.

  • Ascensão à liderança: Entrou para a World Trade Center Survivors' Network (Rede de Sobreviventes do WTC). Rapidamente ganhou notoriedade e empatia e acabou por se tornar presidente da associação.

  • Figura pública: Tania participou ativamente no apoio emocional a sobreviventes, organizou visitas guiadas ao Ground Zero para figuras públicas — incluindo o ex-presidente da câmara Rudy Giuliani e o governador George Pataki — e deu palestras em universidades.

O facto mais bizarro de toda a farsa é que, no dia 11 de setembro de 2001, Alicia Esteve nem sequer estava nos Estados Unidos; estava em Barcelona a frequentar as aulas de um mestrado na escola de negócios ESADE.

Em setembro de 2007, jornalistas do The New York Times (David W. Dunlap e Serge F. Kovaleski) realizavam uma reportagem sobre os sobreviventes do 11 de Setembro e começaram a notar várias inconsistências no relato de Tania:

  1. A Merrill Lynch confirmou que nunca tinha tido qualquer funcionária com o nome Tania Head.

  2. A família e os amigos do homem ("Dave") que ela alegava ser o seu noivo falecido afirmaram nunca ter ouvido falar de nenhuma Tania.

  3. Ela recusou-se repetidamente a conceder entrevistas formais aos jornalistas do New York Times, esquivando-se aos pormenores verificáveis.

Quando o jornal confrontou a rede de sobreviventes e publicou a investigação a desmascarar a fraude em setembro de 2007, o escândalo rebentou mundialmente.

Após a publicação das suspeitas e o desmantelamento do seu disfarce, Alicia contratou advogados, mas nunca deu explicações públicas ou pediu desculpas. Ela simplesmente abandonou Nova Iorque e desapareceu da vida pública.

Chegaram a circular rumores e e-mails num fórum de sobreviventes alegando que ela se tinha suicidado, mas isso revelou-se também falso.

Curiosamente, nunca foi processada nem presa nos EUA, uma vez que o trabalho que realizou no grupo de apoio aos sobreviventes foi estritamente voluntário e não chegou a obter ganhos financeiros diretos ou compensações do fundo de vítimas.

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Pasmo com isto. O que leva estas pessoas a viverem uma vida de faz de conta, em que forjam uma identidade, em que se apresentam ao mundo como algo que não são? E como convencem tanta gente? O que as move? Têm consciência do que fazem? 

Mostro dois vídeos, um sobre o documentário de Elizabeth Holmes e outro sobre Tania Head / Alicia Head. Talvez ajudem a perceber alguma coisa -- embora me pareça que não, não dá mesmo para perceber. 

Documentário chocante acompanha Elizabeth Holmes enquanto se prepara para ir para a prisão

"You Can See Everything", realizado por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, tornou-se um dos filmes mais aguardados da noite para o dia, após a sua estreia em Telluride e o lançamento de um pequeno teaser trailer.

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Tania Head descreve o encontro com o seu noivo nas Torres Gémeas do World Trade Center.

Alicia Esteve Head, ou Tania Head, é uma espanhola que afirmou ser sobrevivente dos ataques ao World Trade Center, a 11 de setembro de 2001, usando o nome de Tania Head. Juntou-se ao grupo de apoio World Trade Center Survivors' Network, do qual se tornou presidente mais tarde. O jornal The New York Times noticiou a farsa em 2007, pouco antes do sexto aniversário do 11 de Setembro.

A mulher do 11 de Setembro que não estava lá



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Nota sobre a lista de blogs que sigo 

Desde há us dias, está a funcionar mal. Não mexi em nada e a actualização é supostamente automática e permanente. Contudo, verifico que congelam e não vão buscar os mais recentes posts e outros blogs parece que desapareceram. Contudo, se eu for ver ao layout, eles estão lá. Talvez seja um problema do blogger e que eles venham a corrigir. Da minha parte nada posso fazer.

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Desejo-vos um sábado feliz

sexta-feira, setembro 11, 2026

[Em actualização] -- O que virá depois de nós?

 

Olho para mim. Neste momento cobre-me a pele um vestido fininho, leve, de alças, decotado, cor de rosa vivo. Fotografo-o para vos mostrar. 

E tenho o cabelo apanhado no alto da cabeça, para não me fazer calor no pescoço. Se me olhar ao espelho é o que vejo.

Não vejo o que está sob a minha pele. Mesmo que fizesse um rasgão na pele, não conseguiria ver tudo o que existe dentro de mim. 

Mas vamos supor que me veria por dentro num daqueles exames de imagiologia. Aí veria a perspectiva para a qual o aparelho foi feito. Uma vez fiz um exame para detectar focos de inflamação e recebi uma imagem simplificada do meu corpo com pintinhas verdes, amarelas e, numa determinada zona, encarnadas. Mas também já fiz exames para ver as carótidas. Ou ecografias mamárias ou pélvicas. Ou uma colonoscopia. Sempre visões limitadas do meu corpo.

Mas, apesar de já ser uma visão em profundidade, há a possibilidade de analisar o meu sangue ou a minha urina. Aí, a informação é outra. Também já me foram retirados tecidos de uma formação num seio e, através de uma biópsia, concluiu-se que, felizmente, não era nada de mal. Outra visão do meu corpo.

E seria possível descer ainda mais, ir até ao nível do ADN. 

E, de cada vez, ao ver uma perspectiva de análise, quase nos esquecemos das múltiplas outras. Muita coisa a acontecer dentro do nosso corpo e nós na mais total ignorância. Com sorte, tudo se mexerá e desenvolverá dentro do que é normal e tudo bem. Mas sabemos que pode a coisa estar a dar para o torto e nós sem fazermos a mais pálida ideia. 

Assim a vida que nos é exterior.

Fui à praia. Vi muita gente feliz da vida e eu própria me senti bem, a água boa, o sol bom, a vista boa.

Andei a tratar de coisas, muito trânsito, as lojas a que fui cheias. Numa loja de impressão, pessoas a tratarem de tshirts com imagens impressas, outra a querer fotografias para uma multi-moldura, pessoas muito atentas e dedicadas ao que queriam, outro a plastificar um documento mas com muitos requisitos. 

Fui ao supermercado. Toda a gente a escolher as suas coisas, tal como eu, umas com ar mais apressado, outras a ver e a escolher com tempo.

Naqueles diferentes momentos, nenhuma daquelas pessoas estava minimamente preocupada com os problemas da humanidade.

O que é vital para a nossa boa sobrevivência e que a todos influencia directamente situa-se, na verdade, numa camada que é invisível aos olhos.

Democracia, liberdade, boa gestão dos recursos comuns, controlo e regulação de práticas potencialmente perigosas -- tudo conceitos intangíveis.

Para a grande maioria das pessoas o seu tempo útil é consumido a tratar da sua vida, da sua vidinha, das suas pequenas coisas: trabalho, a lida da casa, tratar dos filhos ou dos pais (quando se está em idade disso), ida às compras, idas à praia, idas de um lado para o outro.

Dizer que o avanço galopante, desenfreado e desregulado da Inteligência Artificial pode colocar a sociedade em perigo ou pode vir a ter consequências diabólicas para a própria humanidade é tema abstracto que não desperta interesse na larga maioria da população. Não têm tempo, cabeça, pachorra ou conhecimentos para abarcar o tema.

Tal como a pessoa desconhece o feitio, a cor, o comportamento das suas próprias células, e nem pensa nisso, também não sabe, nem quer saber, o que se passa nos meandros do desenvolvimento de modelos de IA. São temas que não saltam para as primeiras notícias, para os debates ou para as publicações virais nas redes sociais. Temas herméticos, quase ficção.

Quando me debruço, preocupadamente, sobre o tema e falo e falo nisto, há sempre alguém da minha família que me alerta para que eu não deixe que se torne uma obsessão. Calo-me, portanto. E evito falar tantas vezes no assunto, nomeadamente aqui. Percebo que também vos mace, eu falar tantas vezes nisto. 

Mas preocupo-me. E preocupo-me porque sei, sei muito bem, (e, no entanto, estou a milhas de saber tanto quanto os técnicos da Anthropic ou OpenAI, a milhas), mas sei como é exponencial a capacidade de aquisição de informação e a forma quase ubíqua que estes ultra-hiper-processadores têm de varrer a rede e processar mais e mais e mais conhecimento de uma forma que jamais algum humano conseguirá. E sei como é fácil conceber agentes que fazem, bem feito, instantaneamente, o trabalho de muitas pessoas.

Para quem não sabe: com um Agente de IA (que, no fundo é um modelo com um programa que o coordena + ferramentas + memória/dados) diz-se o que se quer alcançar e ele planeia, pesquisa, toma decisões intermédias e executa tarefas até chegar ao resultado.

Eu poderia dar aqui um conjunto de exemplos muito simples em como instruia um agente para fazer um conjunto de patifarias que causariam instantaneamente o caos no mundo inteiro. Não dou pois não quero que digam que estou a dar ideias. Mas era de caras. Podem crer: de caras. 

Casos recentes, reais, provam isso: de caras. E estando o caos armado, mas um caos a sério, dificilmente haverá quem o consiga reverter. 

Não preciso de falar em exemplos como tenho ouvido: criação de vírus destrutivos, armas biomédicas, etc. Isso também mas, cá para mim, o perigo virá mais de coisas simples do que de situações mais complexas. 

Pedi ao ChatGPT uma imagem que ilustrasse os riscos para a humanidade provenientes da IA.
Fez esta imagem


Quando há uns anos eu falava na necessidade imperiosa de regular o uso da Inteligência Artificia, eu ainda acreditava que alguém, algures, perceberia os riscos e se poria em cima disto. Mas poria à séria. Não com regulaçõezinhas de meia tigela que mal fazem cócegas ao que está a acontecer.

Neste momento sei que é impossível. 

Grande parte do PIB americano assenta nas grandes empresas de IA. Os principais financiadores do partido republicano americano são as empresas de IA. As empresas de IA alimentam fundos, ETFs, tudo o que faz girar a economia e as finanças não apenas nos EUA mas em todo o mundo. Quem investe quer retorno. Para haver retorno tem que haver crescimento. E essas empresas esttão a investir forte e feio em grandes data centers, em tecnologia, e estão fortemente alavancadas. Refrear já não é opção, voltar atrás muito menos.

E com a administração Trump muito, mas muito, menos.

Não sei como vai conseguir travar-se o mar com as mãos, tapar um vulcão em erupção com uma rolha.

No entanto, as televisões falam de tudo menos disto ou, se falam, é en passant, uma curiosidade, uma excentricidade, uma coisa ao nível das previsões do Nostradamus.

Nota 1: Salve Bernie Sanders que tem demonstrado uma visão certeira sobre o que se passa e, depois de ter ameaçado, se diz pronto para avançar. Temo que nada consiga mas, pelo menos, tem travado firme batalha. Que muitos se lhes juntem, é o que desejo.

Nota 2: Não sou contra a Inteligência Artificial. Sou totalmente a favor. Já o disse: o meu trabalho de fim de curso e o meu estágio foi feito numa área percursora da Inteligência Artificial, a Simulação. Durante uma parte da minha vida profissional trabalhei em modelos, alguns de larga escala, e, num caso, sob supervisão do Banco Mundial. Na altura, só havia dois sítios em Portugal em que conseguia trabalhar, tal a necessidade de recursos dos meus modelos: no Centro de Cálculo da Gulbenkien e no LNEC. Vinha um expert dos Estados Unidos para validar o meu trabalho. É, pois, tema que é especialmente caro. Os benefícios são infinitos, os desafios infinitos, a adrenalina de tentar e conseguir indescritível.

O risco não está aí, o risco está na presente escalada galopante a caminho da super-inteligência. Modelos/máquinas mais inteligentes que os humanos. Como tudo hoje comunica com tudo, isto traduzir-se-á num super poder que facilmente fica descontrolado.

Aliás, embora ainda aí não estejamos (mas estamos muito perto disso), há já humanos, estúpidos, que optam por ter sistemas sem controlo humano. Ao quererem armas que actuem sem necessidade de aprovação humana (decisão da Administração Trump), a Anthropic ficou fora de uma parte dos fornecimentos militares americanos porque se recusou a pisar e ultrapassar essa linha vermelha. Mas a Open AI marimbou-se, aproveitou logo a deixa, e entrou em força.

O que tem que ser travado, mas duvido que se consiga, é a escalada apressada para mais e mais e mais inteligência, é a robotização quase integral de toda a actividade até agora humana, é a caminhada desenfreada para a inutilidade humana, é a escalada frenética para apresentar mais e mais e mais 'achievments' quando há já exemplos de agentes que se unem para provocar sérios danos, desprezando a intervenção dos humanos. 

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Desejo-vos uma boa sexta-feira

quinta-feira, setembro 10, 2026

Coisas da minha vidinha

 

Por vezes leio trechos escritos há cem ou mais anos em Portugal ou num outro país e as palavras descrevem um desconsolo grande, um desacreditar no futuro, um grande desconforto perante a regressão qualitativa dos novos políticos e dirigentes em geral. Dá ideia que desde sempre há a percepção de um caminho descendente, de uma decadência que é fatalidade.

Por isso, tendo a tentar relativizar o pessimismo com que encaro a incompetência e indigência cultural e ética de Montenegro e da maioria da sua equipa ministerial, tal como tendo a querer desdramatizar as desgraças e os retrocessos civilizacionais a que se assiste um pouco por todo o lado (Estados Unidos, Rússia, tendências do Reino Unido, em França, na Alemanha, no Brasil, etc). 

Identicamente, sei que, sempre que há uma fractura tecnológica, a sociedade reage com um medo existencial: e, no entanto, apesar dos sobressaltos e do grande número de vítimas, o mundo tem seguido adiante. Com a Inteligência Artificial, em que, na realidade há riscos de dimensão incalculável e razão para fundados temores, também quero convencer-me que apesar de vir a haver vítimas, muitas, em primeiro lugar a nível de emprego, mas, acredito, também a outro nível, o mundo, depois de solavancos e erupções, saberá reencontrar o seu ponto de equilíbrio e seguir adiante.

Não sei se por isso ou se porque quero manter a minha disposição estival e despreocupada, a verdade é que, apesar das múltiplas barracadas a nível interno, algumas, para mim, insustentáveis, e apesar da gravidade de tantas coisas a nível internacional, tento manter-me na minha própria bolha de peace and love e seja o que deus quiser. Bem sei que, por outro lado, há em mim um grilo que me alerta 'fia-te na virgem e não corras, não...' mas, em vez de, por exemplo, vir para aqui zurzir nas palhaçadas que vários membros do governo e da AR nos têm proporcionado ou fazer-me eco dos alertas de mais um dissidente da Open AI ou da Anthropic sob os reais riscos para a humanidade do crescimento desenfreado, desregulado, dos modelos de Inteligência Artificial, ou vir lamuriar-me sobre o tiro no pé que deram os pobres, desfavorecidos e ignorantes que votaram na AfD sem conhecerem o seu programa, venho, antes, falar de coisecas da minha vidinha.

A saber: Apesar de pelo telefone eu ter dito que, do que já sabia, seriam, muito provavelmente, necessários dois motores com comando para os estores, o senhor que cá apareceu só trouxe um, e, além disso, apesar de já cá terem vindo várias vezes e saberem que estes estores são barra pesada e de eu o ter lembrado por telefone, em vez de dois, como é costume, veio apenas um que percebeu que sozinho não conseguiria lidar com os bichos. Portanto, educadamente, pediu para ver tudo o que estava carecido de intervenção e que voltaria com um colega e o material necessário. Resultado: zero. Tudo na mesma. Tínhamos posto tudo a jeito para poderem trabalhar, afastado coisas, retirados outras, etc, e, tivemos que voltar a pôr no sítio sem que nada se tivesse alterado. A ver quando é que agora cá aparecem de novo. 

E já o contei: o meu marido meteu na cabeça retirar a banheira da nossa casa de banho, e digo nossa porque é a que 'serve' o nosso quarto, e substituir por um duche. Já dei de barato. Mas só de pensar na chatice de ter gente que, em vez de aparecer num dia, só aparece depois porque têm sempre contratempos, que em vez de trazer o material, vai e volta a ir buscar o material, perdendo tempos infinitos, que me há-de deixar a casa de banho numa confusão sabe-se lá durante quanto tempo -- tudo isso me faz ter vontade de atrasar isto lá para as calendas. Quando tirar a banheira não deve ter mosaicos no chão por debaixo nem azulejos por detrás. Depois não deve haver material igual. Os enxertos devem ficar uma porcaria. Falta-me a pachorra para isto. 

No entanto, ao mesmo tempo, recordo-me que, na nossa primeira casa, na primeira mesmo nossa, resolvemos remodelar a casa de banho principal, pôr uma bancada grande em vez do lavatório que tinha, acabar com o bidé, mudar azulejos e mais não sei o quê. Tínhamos duas crianças pequeninas, trabalhávamos, e, no entanto, nada me assustava ou chateava e tudo se fazia. Agora não me parece indispensável fazer isto e a perspectiva de obras dentro de casa maça-me à brava. 

Sobretudo, há uma tremenda falta de mão de obra e não conhecemos ninguém de confiança em quem possamos confiar para nos aconselhar na escolha das melhores soluções. O meu marido, como é seu hábito, é meia bola e força. Para cada potencial problema que eu identifico, arranja uma solução que, em meu entender, ficaria um despropósito. Com ele, e é ele que quer avançar com isto, ainda não começou e já quer é acabar. Se não há mosaicos iguais para o chão, faz em fibrocimento e já está. Se não há azulejos iguais, põe não sei o quê por cima naquele sítio e está a andar. Ou seja, uma coisa improvisada e mal parida. Não quero. Portanto, estamos nisto e eu sem grande vontade de ultrapassar o impasse.

Há também a suspeita de que pode estar uma telha partida no telhado e, portanto, temos que arranjar quem lá vá inspeccionar e, se for caso disso, trocá-la. Lá no campo, até há algum tempo, o meu marido ia ele lá acima, limpava o telhado e tratava disso. Agora já não queremos arriscar. A limpeza de algumas caleiras a que chega com a escada ainda vai, mas lá mais para cima, não. O telhado desta casa tem que se lhe diga, há zonas muito altas e uma queda seria muito perigosa. Quando vieram cá cortar árvores e pedimos para também limparem as caleiras, os rapazes treparam e andaram lá por cima na maior descontração. Não sei se é destreza se é inconsciência, mas, enfim, é o que é. Seja como for, temos que desencantar alguém antes que venham as chuvas.

De resto, o que mais dizer? Nada de especial. Ginásio, religiosamente. E continuo sem encontrar um livro que me encha as medidas. Tenho vários para começar mas não tem estado a correr de feição. 

E mais? 

Só se for que fiz um estufado de legumes -- cebola, alho francês, tomate, alho, salsa, cenoura, feijão verde, beringela e batata doce -- com uma mistura de carne picada, porco e vaca. Tudo cozinhado a baixa temperatura, apuradinho. Estava mesmo bom. Comidinha de conforto, cheirosa e saudável. Ficou com um molho bom. Ensopei uma fatia de pão que me soube mesmo bem. Por mim, teria ensopado uma meia dúzia, adora pão ensopado em molho. Mas como quero ver se me mantenho nos cinquenta e nove e picos, esforço-me por não abusar. Antes de férias, não chegava aos cinquenta e nove. Depois das férias e dos mil aniversários estava nos sessenta e um e tem sido um castigo para descer dos sessenta. Estes quilos a mais quando se instalam é um caso sério para uma pessoa se ver livre deles. Caraças.

E é isto. Enquanto falo destas coisitas, não queimo neurónios com coisas que não consigo controlar. O mundo anda perigoso. Mas será que alguma vez não o andou?

Desejo-vos uma feliz quinta-feira.

quarta-feira, setembro 09, 2026

A minha casa

 

Esta casa, ao contrário da outra em que vivi antes durante vinte e dois anos e da outra, antes, em que tinha vivido também um ror de anos, e da casa de campo, tem muita manutenção. Já cá vivemos há seis anos e ainda estranho isso. Provavelmente tem a ver com as decisões dos anteriores proprietários que automatizaram tudo. Um dos filhos era todo engenhocas e, talvez por saberem que tinham sempre quem lhes resolvesse os problemas, não se importaram de 'artilhar' tudo e mais alguma coisa. O senhor também gostava de construir coisas, era todo dado à bricolage, aos arranjos de coisas. Também optaram por soluções robustas, de boa qualidade mas que requerem, também elas, conservação. Por exemplo, os estores são como nunca vi coisa assim, um material e um peso que não imaginam. Funcionam com motor elétrico, com comando. Aparentemente tudo bem. Mas, se falha a electricidade, não há estores para ninguém. Ou se falha um motor. E não há como levantar à mão. Os homens dos estores, quando cá vêm, dizem sempre que é raro ver-se estores assim, dizem que são de alta segurança, que por estas janelas não entra ninguém. Amanhã temos cá outra vez uma intervenção, provavelmente mais dois motores novos. E há mais uns quantos estores que precisam de ser alinhados pois são tão pesados que, volta e meia, algumas lâminas parece que desandam ligeiramente, e depois já não fecham bem. Juro: sinto falta de puxar pela fita e conseguir levantar ou baixar uma persiana, sem qualquer ciência.

O portão dos carros a mesma coisa: todo xpto. Agora parece que está com qualquer coisa a fazer mau contacto, e abre e fecha quando lhe apetece, tivemos que desligar, e temos que esperar que cá venha alguém especializado nesta coisa.

Dos sistemas de aquecimento nem é bom falar. Todos integrados e automatizados com uns a serem backup dos outros: painéis para isto e para aquilo, caldeira a gás e a pellets, salamandra elétrica, duas lareiras com recuperador de calor, uma delas dupla e outra com saída de ar para duas divisões.  E tudo ou quase tudo com termostatos, válvulas motorizadas, e sei lá que mais.  O meu marido queixa-se de carregar com os sacos das pellets ou com a limpeza das caldeiras, volta e meia lá tínhamos que andar de volta dos manuais a perceber como é que aquilo estava regulado ou programado. Uma canseira. E depois era preciso virem cá fazer a manutenção disto, daquilo e do outro. Muito bem.Vamos instalar um ar condicionado potente na sala principal, com potência para aquecer essa sala e o piso de cima, coisa sem ciência nenhuma e que seja só de carregar no botão. Para a semana vai ser instalado e que se lixem as complicações. 

Claro que ainda subsiste o sistema de aquecimento de águas sanitárias com os painéis e os tanques e com um sistema de válvulas e redundâncias do caneco mas isso agora parece que está estabilizado. Esse, quando a temperatura não está à temperatura suficiente, faz accionar a caldeira de gás, mas isso, até ver, está a funcionar bem. Mas, caraças, houve uma altura que sentia cá umas saudades do velhinho sistema de esquentador que era tão simples e tão funcional... 

E nem falei no quadro trifásico com tantos disjuntores que mais parece um piano e em que, volta e meia, andamos a tentar perceber o que é que está pendurado em cada fase, ou, quando alguém vem fazer qualquer coisa que mete electricidade e nos faz perguntas e é sempre uma charada pois, para além do quadro principa, ainda há um no primeiro andar e outro na cave e mais o quadro da iluminação exterior e mais o quadro do sistema de rega. E também penso como era tão bom (e ainda é, no campo) em que há um único quadro elétrico, simples, com dois ou três disjuntores. As coisas simples são tão boas.

Enfim. A verdade é que ou para manutenção preventiva ou para reparação ou para instalação de novo, parece que há sempre gente a ter que vir cá fazer qualquer coisa e há sempre dinheiro extra a gastar. É chato. Felizmente, in heaven, o que há é cortar mato, desbastar árvores, varrer e limpar. De resto é tudo básico. Nem estores há, são portadas que é ainda mais simples.

Dito isto: gosto imenso desta casa, desde o primeiro dia em que a vi senti que tinha chegado a casa. Tudo me parecia fazer sentido, todos os meus móveis e quadros pareciam encontrar aqui o seu destino.  Gosto da arquitectura, gosto dos materiais, gosto da forma irregular, gosto da luz a toda a volta da casa, gosto do jardim. Gosto que seja fácil de limpar. Gosto de me levantar e abrir a porta da cozinha para sentir o ar da rua e apanhar com o sol na cara, gosto de abrir as janelas e parecer que estou a trazer o jardim para dentro de casa. Gosto de fotografar o reflexo da luz nas paredes, nos espelhos, nos vidros. Gosto de tudo. Só gostava mesmo é que fosse mais simples, mais fácil de manter.

terça-feira, setembro 08, 2026

Uma entrevista que dá gosto -- Gloria Steinmen conversa com Robert Redford
E uma brevíssima nota sobre o acontecimento policial do outro dia

 

Tudo o que é coisa destas funciona a toque de caixa dos algoritmos. E os algoritmos funcionam com base em estatísticas e probabilidades: 'o que é que me chama a atenção?' 'Dos vídeos que me são mostrados (e são mostrados porque o algoritmo admite que é provável que me interessarem), quais os que me levam a abri-los?', 'Desses, quais vejo até ao fim?', 'Desses, quais partilho?', 'E faço pesquisas? Sobre que assuntos?'... E, com base nessa informação, o algoritmo vai aperfeiçoando o conhecimento que tem dos meus gostos. E, portanto, hierarquizando os meus interesses e fazendo um match selectivo com os vídeos/publicações disponíveis, é-me mostrado, por ordem decrescente de probabilidade de acertarem na mouche, uma selecção. Por isso, raramente me aparecem coisas que estão na moda, vídeos virais, palhaçadas de influencers de meia tigela, bonecadas parvas com citações requentadas, etc. Nem aqui nem no instagram. Quando ouço a outras pessoas ou na televisão comentários sobre personagens conhecidos fico sempre a leste: a mim não me chega dessa sucata. Em contrapartida, ao ser alimentada com temas e vídeos ou publicações que, à partida, são seguramente do meu agrado, fico com menos margem de manobra para pesquisar por mim ou para ser surpreendida por qualquer coisa em que nunca antes tinha pensado. O algoritmo forma uma teia que pode ser, a nível intelectual, uma ratoeira. Lidar com isto é, em si, uma aprendizagem.

Mas, passando adiante, que ninguém deve querer saber destas minhas considerações, hoje fui presenteada como uma entrevista em que in illo tempore, e já lá vão quarenta anos!, Gloria Steinmen conversava com Robert Redford, tristemente agora já ambos do lado de lá. E é um gosto. Pessoas inteligentes e, ainda por cima, com charme são outra coisa. E é uma coisa gostosa de ver como a química é algo de impalpável mas importante quando duas pessoas conversam. Não tem que ser uma química sexualizada, pode ser uma química que nasce das afinidades, da compreensão do encontro de sorrisos, da cumplicidade intelectual. Mas é tão bonito de ver.

Retrospetiva: Entrevista de Gloria Steinem a Robert Redford em 1986

Nesta entrevista de 1986 com Robert Redford, a editora da revista Ms., Gloria Steinem, Redford revela que grande parte da personalidade desajeitada da sua personagem na comédia "Legal Eagles" foi inspirada na sua vida real.

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Nota

No outro dia contei o que se tinha passado com polícias aqui ao lado, a falarem com os vizinhos, a entrarem lá em casa, tudo às escuras. Estava muito intrigada. Tinha pedido ao meu marido que, se os visse, lhes perguntasse. Respondeu: 'Sim, sim, vai esperando'. Já sabia. Fiquei, pois, determinada a, na primeira oportunidade, perguntar eu se estava tudo bem ou se teria havido algum assalto ou tentativa disso. 

Foi hoje. Quando estávamos a sair para o nosso passeio, estava o vizinho a chegar com uma das crianças. Como tinham os outros carros lá dentro, parou à porta de casa e estava a tirar coisa do porta-bagagem. Pensei: 'Não é cedo nem é tarde', e ataquei. E ele explicou. Não vou revelar mas é uma coisa surpreendente para mim, não me passaria pela cabeça nem conheço um dos intervenientes da questão. Ficámos muito tempo à conversa, contou muitas coisas que desconhecíamos. Portanto, estou esclarecida e, de certa forma descansada embora compreenda que eles têm ali um problemão. Coloquei-nos à disposição deles para o que precisassem. Vizinhos são para isso mesmo.

Não tive lata de perguntar o porquê de se terem posto às escuras, isso já me pareceu cusquice a mais. Mas admito que possa ter feito sentido. Disse ao meu marido o que me parecia uma possível explicação. Respondeu-me que o que estava a dizer não fazia qualquer sentido. Não sei. Mas é irrelevante. 

Quase que fico é com material para escrever uma sequela do meu 'Um ordenado paraíso'. 


Aliás, estava a ouvi-lo e já a pensar em como destilar aquilo para transformar depois numa narrativa cheia de intriga, acção e suspense.

Já agora, para quem não sabe: a expressão 'um ordenado paraíso' integra um dos meus poemas preferidos, 'As causas' de Jorge Luis Borges (poema que, de certa forma, no meu livro conduz um romance de amor) e usei-a para retratar um 'bairro' em que as casas são uma maravilha, rodeadas de belos jardins, um local tranquilo, tudo o mais aparazível possível, em que parece que nada acontece, uma paz que nada perturba, mas em que, portas adentro, é um desfiar de acontecimentos insólitos, grande parte deles aparentemente inexplicáveis, incoerentes, quiçá até um pouco heterodoxos.

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Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, setembro 07, 2026

Como é a casa de uma feminista?

 

Durante muito tempo não quis pensar em mim como sendo feminista. Parecia-me redundante. Claro que era, sempre fui, ferozmente defensora da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, da igualdade de direitos. Mas sempre senti aversão a clubes do bolinha. Lugares só para mulheres, tal como lugares só para homens, é coisa que me parece absurda. Nunca fui capaz de frequentar 'retiros' só de mulheres, causam-me urticárias clubes de leitura só de mulheres, projectos só de ou para mulheres. Ou só para homens. O mundo é plural e as suas múltiplas derivações também o devem ser.

E sempre me pareceu evidente que o mundo caminharia para a rejeição de privilégios (de classe, de género, de 'raça'), para uma rejeição da homofobia, da xenofobia, para uma rejeição de coisas canhestras e ridículas como a defesa de que o papel da mulher é em casa, a tratar de tudo para que a vida do marido seja mais feliz. Tudo isso me pareciam coisas do passado e que já nem valia apena andar a repisar coisas que tinham passado à história.

Só que não, não passaram à história.

Começam a reaparecer saudosismos, ignorâncias, regressões culturais e civilizacionais. Parece-me impossível que isto esteja a acontecer, mas está. Como se uma coisa que se considerava morta e enterrada, começasse a reaparecer de debaixo das pedras, uma coisa com ar meio decomposto, meio infecto.

Quando andei no liceu, havia disciplinas extra curriculares, para quem o quisesse. Como sempre quis tudo, a minha curiosidade era ilimitade e a minha disponibilidade para me entusiasmar era insaciável, inscrevia-me em tudo e mais alguma coisa. Uma em que me inscrevi, porque me disseram que a professora era fixe, foi Lavores Femininos. Supostamente seria para ensinar as raparigas a serem boas donas de casa e boas mães de família, mas disseram-me que não e, por isso, fiquei ansiosa por frequentar. Aprofessora, por sinal casada com um conhecido general, tinha mente arejada. As aulas eram momentos de animada conversa. Foi a ela que ouvi pela primeira vez que o Hitler tinha um único testículo e que, por se sentir complexado, se terá desforrado e exercido tão gratuita e inenarrável violência. Falávamos de tudo, alargávamos horizontes. Portanto, já nessa altura, e há tanto tempo que isso foi, a ideia que havia é que nós, raparigas, podíamos fazer o que quiséssemos. Eu, pelo menos, sempre assim pensei.

Pensar que aos dias de hoje há anormais, perfeitas anormais, que vêm defender o contrário é quase incompreensível, coisa de gente ignorante e burra.

Há dias ouvi uma dessas descerebradas, certamente também psicologicamente perturbada, descrever as feministas como mulheres que viviam para agradar ao patrão, desprezando a vida familiar. Felizmente nunca estive frente a frente com uma dessas anormais, senão haveria de ter muita dificuldade em controlar-me. No mínimo, levantar-me-ia e virar-lhe-ia costas pois com gente estúpida não vale a pena perder tempo a explicar-lhes que tudo o que dizem é mentira, é pura estupidez.

Morreu há dias uma das feministas mais conhecidas, Gloria Steinem. Sempre que falava sorria. Muito longe de quezílias ou discussões estéreis, limitava-se a falar do que importava. Não perdia tempo a rebater A ou B ou a deixar-se submergir pela espuma dos dias: a sua causa era a da defesa dos direitos das mulheres e era nisso que se concentrava. Mulher de cultura mas também de sociedade, elegante, com um savoir faire que ilustra bem que ser feminista não é ser 'radical' ou 'pouco feminina'. Elegante, sempre bem vestida e bem penteada, Gloria Steinmen tem, neste vídeo um colar que eu não me importaria nada de ter igual. E a pulseira também é bonita.

Aqui, ela mostra a sua casa, um apartamento que começou por ser de um piso, depois comprou o piso de baixo e uniu-os por uma escada interior. E tem um jardinzinho, por sinal com a vedação pintada numa cor de que gosto muito. Se um dia repintar a minha casa, esta é uma das cores fortemente candidatas, talvez um pouco mais clara do que a dela.

É uma casa incrível, com muito bom gosto, com muito conforto, com peças interessantíssimas. Claro que já sabem que o meu lado prático me faz sempre pensar no trabalho que dará limpar o pó daquilo tudo. E numa outra coisa: eu adoro tapetes, almofadas, mantas, cortinas. Mas acumulam pó. Tem que se aspirar muito bem, sacudir, lavar com frequência. Senão podem causar alergias. Vou ser muito sincera e temo que me considerem também muito estúpida mas, ao ver a casa, pensei: não é a casa mais saudável e segura para uma pessoa com mais de noventa anos. É certo que tem o jardinzinho, mas ela diz que pouco o frequentava. E vê-se, ao lado dela, uma bengala, por sinal bem engraçada, e isso significa que já tinha alguns problemas de mobilidade. Ora tanto tapete...

Mas o que eu penso ou deixo de pensar não interessa, o que interessa é a diversidade e beleza de tantos objectos que ela tem, é o conforto daqueles sofás, são os tecidos e as cores, são as pinturas, são as soluções engenhosas (como a do quarto extrra). 

Para quem não atina bem com a língua inglesa, relembra que dá para pôr legendas em tradução automática para português.

Por dentro da casa histórica de Gloria Steinem em Nova Iorque | Architectural Digest

A AD tem o prazer de receber Gloria Steinem para uma visita guiada à sua casa em Nova Iorque, onde vive há muitos anos. O ícone feminista mudou-se para o seu duplex num edifício de tijolos do século XIX em 1968, após o estrondoso sucesso da sua reportagem de 1963, "A Bunny's Tale", que expôs o caso do Playboy Club e impulsionou a sua carreira jornalística para novos patamares. Nos 58 anos em que Steinem viveu na sua casa, esta tornou-se a base perfeita para fazer e testemunhar a história. Foi em 1971 que a sua sala de estar recebeu mulheres dos media e da política, e onde nasceu a revista Ms. A casa de Steinem é profundamente pessoal, repleta de memórias fascinantes da sua incansável carreira e ativismo – um espaço luxuoso e colorido, onde é fácil sentir-se acolhida e instantaneamente em casa. Steinem não pretende deixar de receber mulheres influentes tão cedo.


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Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

domingo, setembro 06, 2026

Polícias à porta de casa -- e uma situação insólita e inexplicável

 

Uma vez deu-me para descrever as coisas bizarras que se passavam na casa ao lado. Quando os meus filhos cá vinham, eu descrevia os acontecimentos inenarráveis a que assistia sem conseguir compreender nada da vida daquelas pessoas, esperando que eles acendessem uma luz que ajudasse a decifrar o mistério. Debalde. Os habitantes foram mudando ao longo dos poucos anos em que cá estamos, sempre tudo estranhíssimo, mas, ao mesmo tempo, sempre parecendo haver algumas coisas em comum. E assim continua. Os habitantes não mudaram desde então, pelo menos a esse nível parece haver agora alguma estabilidade, mas tudo continua a ser incompreensível, incluindo uma mulher que tanto fala como se fosse uma brasileira de gema, como uma portuguesa do mais 'nacional' que pode ser.

Publiquei na Amazon um livro ("Um ordenado paraíso") que descreve quase ipsis verbis aquilo que eu conseguia apreender. Os meus filhos estranhavam que, em tanto tempo, eu não tivesse nunca conseguido ouvir nenhuma conversa que desse para perceber alguma coisa. Mas não. Misteriosamente, o que chega até aqui são coisas desligadas e a partir das quais não consigo extrapolar nada. Mas diziam-me também que eu não tinha nada a ver com o que se passa na casa dos vizinhos e estranhavam a minha curiosidade. De facto, nunca, em toda a minha vida, tive ponta de vontade de saber o que quer que fosse da vida alheia. Morava num prédio e mal sabia quem lá morava de tão distraída e desinteressada da vida dos outros que sou. Mas aqui é outra coisa: é o insólito, o inexplicável. Nada bate certo.

Em contrapartida, na casa do outro lado, as coisas são mais lineares: um casal relativamente jovem e a respectiva descendência, uma criança com uns oito ou nove anos e outra talvez com quinze ou dezasseis que, quando os pais estão em casa, estão também com eles. Muitas vezes tratam do jardim em conjunto. De vez em quando há festas, e todos participam na preparação prévia. Parecem bastante unidos e pessoas bem dispostas. 

Mas hoje aconteceu uma coisa também bizarra.

Geralmente a casa deles está sempre muito iluminada e, como por aqui é habitual, à noite luzes acesas dentro de casa e estores levantados, ou seja, estamos na rua ou eu aqui em minha casa e vê-se tudo ou quase tudo o que se passa lá dentro. E têm também projectores na parede exterior que iluminam fortemente o jardim a toda a volta. Mesmo quando vão de férias, os projectores em volta da casa estão sempre acesos.

Há pouco, quando saímos para o nosso passeio nocturno, era esse o cenário. O normal.

Contudo, quando vínhamos a regressar, ao fundo da rua, o meu marido disse que estava um carro da polícia ao pé da nossa porta. Sem óculos, não pesco boi, vi um carro e pareceram-me vultos, mas sem distinguir nada. Quando nos aproximámos vimos que não exactamente à nossa porta, mas quase. Dois polícias falavam com o casal. Estavam ambos do lado de fora do portão, a falar com os polícias. Tive vontade de perguntar se tinha havido algum problema, mas contive-me, estavam tão focados na conversa que não quis ser intrusiva. Além disso o meu marido, é zero, ou menos que zero, cusco e, se eu os tenho inquirido, haveria de achar falta de educação da minha parte. Quando entrámos no nosso jardim, vimos que os polícias estavam a entrar com o casal para dentro do jardim deles, provavelmente para dentro de casa. Mas, quando cheguei à minha porta e olhei para o lado, breu absoluto. Tudo apagado, escuridão absoluta, dentro e fora. Fiquei estupefacta: entraram com os polícias e apagaram tudo? Podem acreditar: sem luzes acesas não se vê nada. Uma coisa é morar na cidade em que há sempre luzes exteriores que, de certa forma, iluminam minimanente o interior, e outra é aqui. Sem luz acesa não se vê um palmo à frente do nariz. Nada. Bola. Quando entrei em casa, intrigada com aquilo, fui à minha janela espreitar para ver se o carro da polícia ainda lá estava. Estava. Durante bem mais de meia hora, talvez uma hora, o carro da polícia esteve ali. E da casa ao lado nem um som nem uma luz. Nem os cães, sempre barulhentos, soltavam um pio. Há bocado fui ver e o carro da polícia já não está aqui mas a casa continua mergulhada no breu e no silêncio mais absolutos. Não sei qual a explicação para isto. O que terá levado a polícia a entrar e estar tanto tempo lá dentro? E porque apagaram todas, t-o-d-a-s, as luzes? O que terão estado a fazer às escuras?

Os meus filhos diriam: 'e o que é que tu tens a ver com isso?'. Pois, bem sei, não tenho. Mas não é isso. O que me faz confusão é não encontrar sentido nas coisas, não me ocorrer nenhuma explicação plausível para isto. 

Mas, pronto, vou dormir com esta dúvida. Não consigo sequer antever hipóteses palusíveis para encaixar estas peças. 

Estou com um sono daqueles em que não atino, estou só a adormecer (mas não estou a delirar, calma, o que contei está descrito com precisão). Ontem tivémos cá um jovem para a janta e para pernoita, a que se juntou hoje um irmão para almoço e para a tarde. Depois foram ambos com o avô para um jogo no qual o mais velho era o guarda-redes. E nada de mais, tudo tranquilo, quando são poucos é uma calmaria extraordinária, zero trabalho. Mas, vá lá saber-se porquê, talvez por me ter ido deitar um pouco mais cedo que o habitual e ainda sem estar perdida de sono, tive mais uma daquelas estúpidas insónias em que vejo o dia clarear, ouço o galo a cantar, depois ouço passos de alguém na rua, a fazer corrida -- e eu sem conseguir sentir pitada de sono. Dantes nem sabia o que isso era, adormecia instantaneamente e dormia de seguida, como uma pedra. Mas, de há uns anos a esta parte (e já aqui falei disto), creio que depois de ter covid (mas pode não haver relação - tenho que ter o cuidado de dizer isto), é isto: o meu sono tornou-se caprichoso. De vez em quando, quase passo uma noite em claro. Se de dia não tenho afazeres, durmo a sesta e reponho. Se não, fico tonta, esvaída de sono. Depois pode acontecer que durante uma ou duas semanas durma que me farte, como nos bons velhos tempos. Até ao próximo episódio. O médico encolhe os ombros, diz que pode ser sequela da covid, sim, e que pode ser que vá passando. Mas é uma chatice. Portanto, estou no ir.

Desejo-vos um belo dia de domingo. E se tiverem explicações para isto a que assisti e que aqui reportei, ficarei agradecida.

sábado, setembro 05, 2026

Está tudo louco ou a Montenegro & Ventura deram cabo disto tudo?
--- De novo, a palavra ao meu marido ---

 

A coisa está curiosa. O Seguro manda dizer (afinal tem ou não tem quem fale por ele?) que ficou "furioso" com o discurso do Neves na Madeira. Deve ter sido uma gritaria das antigas em Belém, só é pena que ninguém tenha ouvido. Em contrapartida, o Montenegro diz que está tranquilo quanto ao discurso do Neves. Claro que a questão de ter sido desautorizado pelo Neves é um pormenor sem importância. Antes assim, mais vale malharem no Neves do que falarem nas 12 horas de espera nas urgências, na compra das fragatas, na barraca dos exames e, sobretudo, do que falarem no aumento do custo vida. Percebe-se que o Montenegro esteja tranquilo, a coisa está tão complicada que dá jeito ter um Neves para aparar os "raios". O que o Montenegro não percebe é que, quando o raio cai, tudo o que está perto fica chamuscado.

Já agora, falando em gente inconscientemente tranquila. Alguém tem que dizer à mocinha da saúde que os ministros, teoricamente, estão lá para resolver os problemas pondo em prática as medidas que são necessárias. Vir para as televisões dizer que está muita coisa mal, que algumas ainda vão piorar, como por exemplo os tempos de espera, e não resolver um único problema, antes pelo contrário tomar medidas que os agrava como faz a Ana Paula, é de uma pelintrice de espírito que até chateia. Aliás, o diretor executivo do SNS tem exatamente o mesmo discurso e também não dá uma para a caixa. Estas coisas pegam-se, sabe-se! Será que o Seguro também fica furioso com estas tiradas dos responsáveis pela saúde e ninguém nos diz nada?

Em resumo entre as fúrias do Seguro e a pelintrice de espírito e falta de ética de quem nos governos a coisa vai mal. 

Haverá luz no fundo do túnel?

sexta-feira, setembro 04, 2026

O que é a caquistocracia?


Caquistocracia (ou kakistocracia): significa o «governo dos piores», ou seja, um sistema político liderado pelas pessoas menos qualificadas, mais incompetentes ou mais inescrupulosas.

  • Etimologia: A palavra vem do grego kakistos (o pior, superlativo de mau) combinado com kratos (poder ou governo).
  • História: O termo foi criado no século XVII para descrever governos entregues a cidadãos sem capacidade ou mérito para exercer a função pública. 
  • Principal característica: Incompetência como critério - o governo escolhe ou tolera membros com base na falta de preparação, afastando e hostilizando quem demonstra verdadeira competência.
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A caquistocracia segundo o ChatGPT


Um Governo em que o primeiro-ministro está contaminado por uma infecta Spinumviva que para sempre lhe ficará colada como uma carraça, que começou a governar sobre uma mentira que soou aos portugueses como uma fraude (falando numa descida espectacular do IRS quando era afinal algo que já estava reduzido (pelo governo PS)), que tem balizado a sua actuação por meias verdades, por chutar para canto, por incumprir tudo o que tinha prometido, que se fez rodear de uma equipa de ministros fraquíssimos, que estragam tudo em que tocam (o caso da Saúde, da Educação, então, são paradigmáticos do que é a incompetência elevada a expoentes impensáveis), em que um ministro da Administração Interna (o 3º erro de casting, depois de duas senhorinhas que não atinaram) se apresenta como um polícia de tipo self-made man -- quero, posso e mando e que venha o primeiro que me impeça de fazer o que quero -- não é um exemplo de que, também em Portugal, se tem vindo a decair no sentido de uma caquistocracia? 

Os que estão no Governo não deveriam ser os melhores dos melhores? Como é possível que as coisas estejam num declínio tal?

Mesmo na Assembleia da República, como é possível ver nas bancadas um tal rebotalho? 

A bancada do Chega seria de anedota se não fosse uma tragédia. O mal que este partido tem feito à democracia é palpável, é como uma gangrena que vai alastrando.

Mesmo na bancada do PSD, que líder parlamentar é aquele? Um trauliteiro, um fala barato. Qual o critério: ser unha com carne do Montenegro? Outro vírus para a democracia.

E que porta-voz do PSD é aquele? Que credenciais tem o Bugalho? Ser outro fala-barato? Abre a boca e sai um bafo que incomoda.

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Ainda assim, há que reconhecer que nada que se pareça com a palhaçada a que se assiste nos Estados Unidos. Aí, sim, é um filme de terror, a coisa vai para além do imaginável. Não se consegue perceber como o país mais poderoso do mundo (será que o é, de facto?) está nas mãos de um narcisista maligno, demente, ignorante, estúpido até à quinta casa. Nem se percebe como admitem os americanos que a equipa executiva seja constituída por gente tão totalmente desqualificada. Ou como admitem que todas as instituições basilares da democracia estejam permanenetemente sob ataque por parte de Trump, que só descansa quando corre com os competentes e os subsitui por gente desqualificada e servil. É de fugir. 

Gostei de ouvir George Clooney descrever esta situação como uma caquistocracia. No vídeo fala de várias coisas, incluindo disso. Vale a pena ouvir.

George Clooney critica a América da era Donald Trump: "Estamos a viver uma caquistocracia neste momento"

A estrela de Hollywood George Clooney fez uma série de declarações contundentes no Festival de Veneza, onde recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto da sua obra. Clooney abordou temas como a política norte-americana, o jornalismo, a inteligência artificial, Hollywood, as alterações climáticas e a propriedade dos meios de comunicação.

Clooney descreveu a situação atual nos Estados Unidos como uma "caquistocracia", termo que se refere a um governo exercido pelas pessoas menos qualificadas. Alertou ainda para o conteúdo gerado pela inteligência artificial e para os deepfakes, afirmando que podem tornar cada vez mais difícil distinguir a verdade da ficção.

O ator manifestou ainda preocupação com a concentração dos media e a proposta de fusão entre a Paramount e a Warner Bros., além de discutir as alterações climáticas e os incêndios florestais que afetaram a casa da sua família em França.


Desejo-vos uma boa sexta-feira

quinta-feira, setembro 03, 2026

Impermanências

 

Estava a ver o vídeo aqui abaixo e a pensar que  Karin Andersen, sobe quem é o vídeo, me faz imenso lembrar uma antiga colega minha. Muito este género. Nunca se destacou muito, creio que dela nunca a ninguém ocorreria dizer que era extraordinária. Apesar de ser alta, na altura era a mais alta de todas, quase não se dava por ela. Sei hoje que, na verdade, tinha um ou dois anos mais que eu, que quase todas as daquele buliçoso grupo. Sempre gostei imenso dela. Mas imenso. Muito boa pessoa, muito tranquila. Nunca foi de intrigas, longe, longe disso, não se metia em aventuras, creio que os rapazes não se derretiam por ela, tenho até ideia que não era daquelas que era convidada para a maioria das festas. Pelo menos, não me recordo de a ver por lá. Também nunca me recordo de a ver numa excitação para saber se este ou aquele também iriam. Se calhar porque ela, própria, não ia. Não era esse género. Eu era. Eu era tudo. Pelo menos assim me lembro de mim. Eu inventava o que fazer, tinha ideias, pregava partidas, apaixonava-me, apaixonavam-se por mim, pensava nas roupas, inventavas roupas, queria pintar os olhos, queria tudo, queria combinar ir ao cinema, ir passear, pentear o cabelo de outra maneira, sonhar acordada com tudo e mais alguma coisa. Tudo. Ela, do que me lembro, era o meu oposto. Não sei o que pensava ela de mim. Eu gostava tanto dela. Parecia uma parede fresca à qual eu poderia encostar-me e refrescar a minha sempre alta temperatura, parecia um jardim onde eu poderia ficar sem dizer nada, parecia ser uma permanente presença de amizade. 

Quando a reencontrei, vi-a igual. Tranquila. Quase distante. Vive num outro comprimento de onda. Faz a sua arte, viaja, frequenta espectáculos, cinema, espaços em que a natureza é virgem, em que não há temas de partidos políticos, em que não há espuma. Eu falo, pergunto, tenho vontade de saber. Ela escuta, tranquila.

Nessa longínqua altura em que pouco ou nenhum pronto-a-vestir havia, eu queria usar calças e procurava em todas as lojas, e encontrava, feias (face ao gosto de hoje) mas encontrava, eu queria usar biquini e quase não os havia e eu, e outra grande, grande amiga, procurávamos ansiosamente, e isso mobilizava-me, e depois comprámos, uma vitória, o meu pai passado com a minha ousadia, e eu feliz por conseguir o que queria. Do que me lembro este era o género de coisas para os quais ela não estava nem aí. E se ela assistia a esta minha maneira de ser, não faço ideia do que pensaria. Talvez também não estivesse nem aí e nem se apercebesse disso.

Qualquer coisa nela sempre me pareceu meio transcendente. 

Tenho ideia de que nunca a vi emotiva como aqui abaixo a Karin Andersen está. Mas com certeza terá os seus momentos. No entanto, quando penso nela parece que a imagino como também sempre acima dessas transitoriedades, parece que a imagino como parte da natureza.

É curioso. 

Hoje, quando a vejo, acho que é das mais modernas de nós todas. Veste-se de uma maneira sui generis, penteia-se, usa uns colares que são diferentes, que parece que fazem sentido nela. Zero aparatosa, zero chamativa. Pelo menos, deliberadamente. E, no entanto, vê-se a milhas que é alguém diferente. Pelo menos, eu acho.

Quando mostrei as fotografias, a minha filha apontou-a e disse: 'esta tem pinta'. É isso. Tem pinta. Não se parece, nisso, com a Karin, que é mais simples. Mas a Karin, sendo uma mulher simples, também atrai pela sua simplicidade, genuinidade, também, certamente, se distingue por não se enaixar em modas. E esse desencaixar é a forma como as pessoas assim, boas, generosas, francas, afáveis, se destacam. Quem quiser um porto seguro pode sempre ir ter com pessoas assim. Não censura, não julga, parece até quase nem querer saber. Mas está presente. Sabe esta presente.

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Às vezes gostava de lhes dizer que tenho este blog, mas depois penso em dias como hoje: se soubesse que ela iria ler, seria capaz de escrever com a liberdade de movimentos com que estou a escrever? Não sei. Talvez tivesse receio de embaraçá-la. Mas, por outro lado, também gostaria de retribuir em palavras toda a gentileza que sempre vi nela. Nela e em todas e todos sobre os quais gostaria de escrever. Tenho tão boas memórias. Sou tão grata.Não faria sentido que eles soubessem isso?

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Gostei imenso de ver o vídeo que aqui partilho, talvez um dos que alguma vez mais gostei, desta série da Reflections of Life. Não apenas a Karin me faz lembrar a A., como, sobretudo, me identifico com muito do que ela diz. Gosto das palavras que usa. Percebo a emoção dela, sinto o que ela sente, em particular quando fala da perda da mãe e da falta que ainda sente, e da presença que ainda sente -- e como pensa que talvez isso nunca passe.

Por que razão o extraordinário é sobrevalorizado

Ninguém percorre a vida completamente sozinho. Somos moldados por aqueles que caminham ao nosso lado, por aqueles que vieram antes de nós e até por aqueles cujas vidas se cruzam com as nossas apenas brevemente. De formas visíveis e invisíveis, acompanhamo-nos uns aos outros pela vida.

Estar presente para alguém não significa repará-lo ou mostrar-lhe o caminho a seguir. Muitas vezes, significa simplesmente dar-lhe espaço para ser quem é. Existe um profundo conforto em ser verdadeiramente conhecido e aceite, sem sentir que precisamos de esconder partes de nós próprios ou de nos tornarmos outra pessoa.

E esta ligação não termina necessariamente quando alguém morre. Aqueles que amamos permanecem nas nossas memórias, na forma como vemos o mundo e, por vezes, até no rosto que nos encara ao espelho. Transportamo-nos uns aos outros connosco e talvez seja por isso que, mesmo nos nossos momentos mais solitários, nenhum de nós está verdadeiramente sozinho.

Com Karin Andersen.

Filmado na região de Overberg, África do Sul.

[Poderão activas as legendas em português] 


Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, setembro 02, 2026

O Montenegro está nas mãos da improvável sociedade Ventura & Neves? E, afinal, o Neves também é um populista, não é?
-- A palavra ao meu marido --

 

A fazer fé nas notícias que li, o Neves revelou-se na comunicação que fez esta terça-feira, qual Ventura II, um verdadeiro populista. Fez exatamente o que os populistas, nomeadamente o Ventura, fazem. Não esclareceu nada, não tocou nos factos de que é acusado, elegeu um inimigo, neste caso o Ventura, e negou, irritado e vitimizando-se, tudo. É o que faz um populista: nega tudo (vejam o discurso do Trump), elege um inimigo principal (no caso do Ventura, a imigração) e nunca responde aos factos de que é acusado dizendo que são "fake" e resultam de uma cabala. Cavalgam a onda da "vox populi" e dizem o que é mais conveniente num determinado contexto, independentemente de ser verdade ou mentira. 

O Neves aproveita a onda dos "amigos do Neves" nas redes sociais e na comunicação social e transforma-se em arauto do combate ao populismo, elegendo como inimigo principal o Ventura e uns outros tantos que, diz, organizaram uma cabala contra ele, afirmando que são tudo mentiras e que esses difamadores vão sofrer consequências. 

Relembrando uma frase em voga: se fala como um populista, se age como um populista e se parece um populista, então, o mais certo é que o Neves seja mesmo um populista. 

No entanto, deve ter-se esquecido que está no governo mais populista de que há memória, que tem um discurso populista, que aprova leis suportadas no populismo, que segue a agenda do partido do Ventura eleito inimigo principal pelo Neves. Portanto, o Neves, que anunciou que "está de pedra e cal", vai afinal também vai encetar um combate sem tréguas contra o Montenegro..?. Curioso, muito curioso! 

Aliás, o Neves, segundo li, apresentou-se  como se a sua continuação como ministro dependesse da sua própria vontade e decisão e não da vontade e decisão do Primeiro-Ministro. A ser verdade, quer isso dizer que o Primeiro-Ministro não risca nada no que a ele diz respeito? Ou, melhor perguntando: o Neves quis mostrar a toda a gente que tem o Montenegro na mão? 

Parece que o Neves também disse que os bens apreendidos aos criminosos devem ficar ao serviço de quem os apreende. Curioso. Segundo tenho ouvido, parece que não é bem isso que é suposto. 

(Não sei bem porquê mas até me veio à memória uma frase batida "ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão") 

terça-feira, setembro 01, 2026

Slow living in heaven
-- E uma casa muito bonita em Melides --

 

Acordei tarde. Aqui é a regra. Não sei porquê mas aqui durmo muito mais, um sono dos ferrados, dos bons. Sempre assim foi. Não sei se há ainda mais oxigénio do que na outra casa. Mas não deve ser isso, porque ar puro também não falta lá. Mas há qualquer coisa aqui que me traz um sono maravilhoso. Se calhar é porque o meu marido anda pelo campo e, ao não estar em casa, não faz barulho, não me acorda.

Fomos almoçar àquela tasca de uma aldeia a alguns quilómetros daqui. Em boa hora a descobrimos. Come-se francamente bem, é tudo bem servido e os preços bastante razoáveis. Nada a ver com o disparate que se pratica lá pelas minhas outras bandas: preços, no mínimo, o dobro, quantidade se calhar metade. Aqui comemos lindamente e ainda sobrou pelo que trouxémos o resto em caixinhas. O pior é o barulho no início, quando a sala está repleta. A acústica é péssima, um barulho que me incomoda. Há sempre grupos, gente palradora, parece que falam todos ao mesmo tempo. Depois, quando começam a sair, fica bom. Por isso, geralmente vamos mais para tarde porque assim mais de metade do almoço já decorre em ambiente mais tranquilo.

Hoje, por cá, foi dia de rega das valentes. O meu marido queixa-se sempre da água que gasto, diz que choveu, que nem valia a pena regar, e que não era caso para uma rega tão prolongada, que é um desperdício. Mas água dada à terra nunca é água mal gasta. Levo muito tempo, sim, sou cuidadosa, imagino a água a descer, quero que a terra fica molhada até bem fundo. E há muitos pontos para regar aqui do lado da frente e de um dos lados da casa. Não rego atrás nem do outro lado e muito menos rego longe da casa. Mas o curioso é que parece que tudo já se habituou à míngua de água. Algumas plantas, como por exemplo os aloés, ficam com as pontas mais castanhas mas, ainda assim, aguentam-se como uns valentes. 

O meu marido, como sempre, anda de serra, serrote e podão e corta tudo o que pode. Mais uma vez o rapaz que queremos que cá venha dar uma ajuda não pôde vir. Tem outro trabalho e não sai cedo. E os dias estão mais pequenos. Não sabemos de mais ninguém. Há, claro, o senhor da aldeia lá de baixo que cá veio algumas vezes. Dizem dele, os outros: 'Tem um problema, bebe muito, mas quando ele vê que não está capaz, não trabalha. É sério.'. A verdade é que não vinha muitas vezes e, como fazia tudo manualmente, o rendimento era pouco, quase nenhum. Não valia a pena. Ele mesmo dizia: 'Não rende, fica tudo na mesma.' Sério, lá está. 

De qualquer forma, gostamos de nos ocupar. No entanto, fico sempre com a sensação que nunca nada está tão bem quanto poderia estar. Mas a genica já não é tão efervescente como era dantes, e já gosto de me pôr na espreguiçadeira a olhar o céu e as árvores, na mais pura indolência. Dantes não sabia o que isso era, agora sabe-me tão bem...

Estive também a dar xylophene numa cadeira que está na cozinha, de apoio (ou seja, não faz parte das cadeiras em volta da mesa). O meu marido disse que estava a tomar o pequeno almoço e a ouvir um barulho. Apurou o ouvido e percebeu que vinha da cadeira. Espreitou e viu que um dos pés já tem dois buraquinhos. Levou a cadeira para a rua. E estive a dar-lhe umas boas camadas daquilo e ver se os bichos morrem.

Muitas vezes pensamos que havemos de ir aqui ou acolá. Mas depois, não sei se por preguiça ou se até bastante racionalmente, abstemo-nos. Estamos aqui tão bem, gostamos tanto de aqui estar, quando trabalhávamos desejavamos tanto ter tempo para poder desfrutar calmamente deste lugar, que acabamos sempre por achar que não vale a pena andar a fazer quilómetros para trás e para a frente para estarmos em sítios onde não nos sentiremos tão bem como aqui. 

Ao fim do dia, vinha de fechar as janelas na parte antiga da casa, encantada com as florzinhas da buganvília que agora adornam o exterior da janela do quarto que era da minha filha e cheguei ao corredor que estava iluminado pelas cores douradas do pôr do sol e parei: tão acolhedor, tão doce. A luz é um elemento fundamental na vida desta casa. Pela sua configuração, pela forma como se oferece ao sol, a casa vai-se iluminando diferentemente ao longo do dia. Fui buscar o telemóvel e fiz várias fotografias. 

Esta aqui abaixo, certamente por nabice minha, não fixou os dourados brilhantes da luz do sol, parece que ficou tudo rosado. Mas não era assim, era amarelinho, dourado pelo sol. A ver se amanhã tento de novo.

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Agora, ao ligar o computador à noite, o youtube tinha uma casa para me presentear. Teria graça que o youtube sorteasse casas e me tivesse calhado esta que aqui vos mostro. Mas não, limita-se a mostrar, a fazer fosquices. 

É em Melides. 

Ao ver a casa pensei que é muito do género da casa de um amigo nosso: uma casa térrea, ampla, cheia de portas, com amplos terraços, com um belo jardim. Esta casa aqui abaixo dá para os campos de arroz. A dele dá para um campo de golf. Tudo verdinho à frente, quase a perder de vista. A casa dele também é muito especial, obra dele, e tem diversas esculturas e pinturas de grandes dimensões. Também tem peças de artesanato, mas não é uma casa tão 'bonitinha', organizada e arrumada como a que verão abaixo. Ele é apaixonado pela casa e percebo-o. A dona desta casa em Melides também parece bem encantada com a sua casa. Um oásis. Só tenho dúvidas é em relação aos mosquitos. A Comporta, do que conheço, pelo menos até há algum tempo, tinha um bocado esse problema, em especial, que me lembre, mais para o fim da tarde. Estas aqui em Melides, com os campos de arroz, não terão também esse problema? Se calhar não, senão não havia tanta gente a dar fortunas por um terreno ou por uma casa lá, não é?

Por dentro de uma encantadora casa de campo portuguesa, inspirada no estilo Cape Dutch

Combinando o estilo colonial holandês da sua infância com a arquitetura tradicional portuguesa local, a autêntica casa recém-construída de Penny Morrison em Melides é um refúgio relaxante e acolhedor, repleto de peças adquiridas nas suas viagens.

"Vim passar o fim de semana e fiquei completamente apaixonada por Melides", diz Penny ao recordar como mergulhou no projeto de construção na costa portuguesa após uma recomendação de Carolina Irving.


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Desejo-vos uma feliz terça-feira