Não vou a um cinema há já algum tempo. Perdeu a mística. Em vez de cheiro a cinema, cheira a pipocas.
E os cartazes dos filmes já nada me dizem. Muita imagem de violência, de bonecada. Olha-se para aquilo e adivinha-se a chinfrineira, perseguições, derrapagens, violência, gente a saltar de prédios, ou seres do outro mundo, monstros, zombies, macacadas. E eu gosto de filmes normais, com uma história como deve ser, e com sossego, sem um ruído que fira as sensíveis membranas dos meus tímpanos e sem imagens que firam a minha inteligência e a minha sensibilidade.
Durante muitos anos, não perdia um bom filme. Era daquelas experiências imersivas que me cobriam de prazer estético e intelectual.
Mas não aprecio apenas os filmes assentes em obras literárias de boa qualidade, aprecio também filmes de humor, comédias ligeiras, vitaminas de boa disposição.
O Diabo veste Prada foi desses filmes ligeiros, bem dispostos, com um conjunto de boas interpretações, com um figurino de se lhe tirar o chapéu, e em que a coesão de tudo carimbava o sucesso garantido.
Como ontem aqui referi, duas décadas decorridas é com expectativa que vejo que os mesmos actores voltaram a juntar-se para se divertirem e nos divertirem a nós.
Diz Meryl Streep, na conversa que abaixo partilho, que, vinte anos depois, este é um mundo novo. A prevalência das comunicações instantâneas, o telemóvel como parte integrante da nossa forma de viver, com tudo o que esse objecto comporta, torna, hoje, difícil perceber como conseguíamos viver sem ele.
Conseguíamos.
Mas com severas limitações - reconheçamos.
As situações de atrapalhação de que mais me recordo por não ter como me comunicar prendem-se com aeroportos. E peço desculpa aos que me acompanham há mais tempo mas vou repetir-me.
Uma aconteceu numa era em que já os havia de forma permanente mas em que, por distração pura ou, melhor, por ainda ser um hábito relativamente recente e ainda não era normal tomarmos logo nota dos números uns dos outros, não tomei nota do número de nenhum dos que estavam comigo na viagem.
Tínhamos feito escala em Bruxelas e, não dando tempo de ir à cidade mas sobrando tempo até à hora de embarque, resolvemos dar uma volta pelas lojas. Entrámos na mesma, e creio que éramos três ou quatro, já não me recordo ao certo. Como sempre, perdi-me nos perfumes, talvez também nos chocolates. O que sei é que, quando fui pagar, já não os vi. Não me preocupei, pensei que estariam lá fora à minha espera. Não estavam. Mas ainda era cedo. Fui dar outra volta, tinha tempo. Passado um bocado, ouvi chamar para o voo e fui andando. Pensei que estariam na salinha junto à porta de embarque. Não estavam. Dei uma volta por ali a ver se os via. Nada. Pensei: 'Não iam entrar sem esperarem por mim...'. Voltei para trás, outra vez pelas free shops. E se aquele aeroporto é grande e uma barafunda de gente... Nada, desaparecidos. Só pensava que eles deviam estar como eu, a ver se me descobriam. E eu sem poder contactá-los. Por fim, já a última chamada. Pensei: 'Não vou perder o avião.'. Mas depois pensava: 'E se me meto no avião e eles ficam no aeroporto à minha procura?'. Fiquei ali mesmo atarantada sem saber o que fazer. Até que, in extremis, resolvi mesmo entrar.
Mal entrei no avião, vi-os. Fizeram de conta que não estavam ansiosos a pensar que eu ficar em terra. Sentei-me ao lado deles, como se não fosse nada. E eles nada me disseram, também como se nada se tivesse passado. Só depois soube que, na primeira loja, tinham deixado de me ver, pensaram que eu já tinha saído da loja sem esperar por eles. E que nunca mais me tinham posto a vista em cima.
Parece uma história ridícula nos dias de hoje, em que obviamente toda a gente se contacta com toda a gente a toda a hora.
Mas a pior situação aconteceu em Londres (e já a contei mais que uma vez pois foi quase traumática), longe ainda de se sonhar que um dia existiriam telemóveis e que ficaríamos dependentes deles. Tínhamos voo para cá a seguir ao almoço. Era eu e dois colegas. Eu, como sempre, queria trazer roupinhas para os miúdos. Era o tempo da Mothercare e eu adorava aqueles modelos, aqueles tecidos, uns veludos muito macios, uns impermeáveis muito alegres, aquelas cores. Dali, ainda fui espreitar o Marks & Spencer mas só por ir, porque nunca fez o meu género, parecia-me tudo roupa à velha e se nem agora eu gosto de me vestir à velha, imagine-se naquela altura. Ou seja, só lá fui perder tempo. Depois fui até à Selfridge para trazer uns brinquedos. Entretanto, havia a feira de artesanato afegão com carpetes maravilhosas. Trouxe uma grande e um tapete normal, ambos bordados à mão, motivos muito ingénuos, numas cores muito lindas. Por fim, tal o volume e o peso dos sacos, já não conseguia quase andar. Tinha combinado encontrar-me com eles em Westminster. E era suposto irmos à catedral, dar uma volta por ali, almoçarmos, e irmos para o aeroporto. Mas, carregada como estava, era impossível fazer aquele programa, carregada com a minha mala e mais com todos aqueles sacos e sacos, alguns ultrapesados. Portanto, não apenas não levantei a minha mala como também deixei essas compras no hotel. Pensei que, se fosse preciso, comia uma coisa rápida ao almoço para ter tempo de ir ao hotel e do hotel para o aeroporto. Mas isto já a stressar e a correr. Deixei a carga e meti-me no metro. Saí na estação, fui andando aceleradamente e, às tantas, perguntei a uma pessoa se Westminster ainda era longe. A pessoa respondeu-me, devolvendo-me uma pergunta: 'Westminster Abbey ou Westminster Cathedral?'. Ainda me lembro bem do calafrio. Se tínhamos combinado qual era, eu não me lembrava. Não fazia ideia. Lembrei-me de perguntar a essa pessoa qual a mais conhecida. Pergunta estúpida, claro, são ambas. Não me recordo da resposta. Só sei que lá fui, numa pilha de nervos. Se não os descobrisse, o que fazia? Quando me aproximei, uma multidão. Nestas coisas, a minha aflição nem era tanto eu ficar perdida deles pois sabia o caminho para o hotel e sabia como ir do hotel para o aeroporto -- era, sobretudo, pensar na preocupação que ia causar-lhes a eles, sem saberem de mim e sem saberem se deveriam embarcar para Portugal, possivelmente deixando-me para trás, em Inglaterra. Reparem: sem termos como nos comunicar! Mas os deuses protegem-me e, no meio daquela barafunda de turistas, eis que os vejo a eles, tranquilamente conversando um com o outro enquanto olhavam a ver se me viam.
Claro que eles já estavam com a sua pequena valise, sem compras nenhumas, prontos para dali seguirem para o aeroporto, e eu ali estava sem mala nenhuma. Já contei antes que o esforço que fiz depois para, sozinha, conseguir carregar aquilo tudo é algo que não esqueço. Pensei que fisicamente o meu corpo não conseguia. Nem era os meus braços não terem força, era mesmo o meu coração não aguentar. Quando olho para a carpete de lã, pesada, que ainda hoje aqui está no activo, mais o tapete também de lã, penso que só isso já era obra. Agora em cima desse peso enorme, casacos e casaquinhos, calças e calcinhas, camisolas e camisolinhas, brinquedos e ainda mais a minha mala, nem sei mesmo como consegui. Só que não podia parar e descansar pois eles já tinham ido para o aeroporto e eu ainda andava naquelas bolandas a ter que lá chegar, quase sem conseguir dar passo. E a não conseguir combinar com eles irem esperar por mim à porta para me ajudarem. Nada. Incontactáveis.
Por isso, de facto, viver num mundo em que toda a gente se comunica, por voz, por escrito ou por imagem, com toda a gente, é uma vivência tão radicalmente oposta à que era antes que creio que já nem dá para acreditar.
Seja como for, resumindo e concluindo, e pedindo-vos desculpa por me ter desviado tanto, claro que será de gosto que irei ver O Diabo veste Prada, 2.
O elenco de ‘O Diabo Veste Prada 2’ reflete sobre o original.
Meryl Streep, Anne Hathaway, Stanley Tucci e Emily Blunt falam sobre a sequela de "O Diabo Veste Prada" e o que é preciso para ser a chefe.