Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, abril 07, 2020

Em dia de chuva o tema é cozido à portuguesa e outros temas de suma relevância





Todo o santo dia choveu. Mas choveu muito. Muito, muito. Água forte ao longo de todo o dia, água escorrendo por todo o lado.

E o dia muito escuro, muito frio. Não consegui sair de casa. E tive muito frio. A casa é grande, difícil de aquecer. Tenho que estar com um aquecedor por perto. Noutra ponta da casa está o meu marido, também com um aquecedor. A princípio da manhã, acerquei-me de uma porta de vidro que dá para a rua e por onde entra mais generosamente a luz. Relativamente perto dele. Mas, às tantas, estávamos os dois em vídeo-conferência, cada um na sua, uma estereofonia difícil de orquestrar. Levantei-me e fui para longe, para um canto resguardado. Mas mais escuro, mais frio. 


No primeiro dia de teletrabalho, ele abriu a escrivaninha que está ali ao canto e, sem hesitação,  aí se instalou e aí se mantém, dia após dia, de manhã, à tarde e, se necessário for, à noite. Eu já corri meia dúzia de sítios, em busca do melhor lugar. Ou me dá o sol de frente, ou fica numa zona de sombra e fica escuro mais cedo do que é suposto, ou está numa zona mais de passagem, ou isto, aquilo e o outro. O meu marido pasma com a minha procura pelo lugar ideal. Ri, encolhe os ombros, acha uma maluqueira. Não ligo. 

Claro que, quando em videoconferênia, desfoco o fundo, senão a procura teria que ser ainda mais exigente.


Mal me levantei, depois de ver os primeiros mails e de ter encaminhado um tema, fui a correr para a cozinha e pus a sopa a fazer. Sopinha de legumes temperada com ramalhete de hortelã. 

Antes de almoço, mal me despachei da última reunião da manhã, fui de novo para a cozinha e, num tacho, coloquei azeite, cebola cortadas aos bocados, três dentes de alho e frigi levemente. Juntei cinco tomates maduros de tamanho médio, um bocado de alho francês às rodelas largas, uns quantos feijões verdes cortados aos bocados, salsa que tinha congelada. Deixei amolecer. O cheirinho começou a desenvolver-se. Depois juntei dois lombos de salmão que tinha deixado a descongelar. Passado uns cinco minutos, juntei um pouco de sal e duas quantidades de água em relação à quantidade de arroz basmati que iria colocar a seguir. Quando a água ferveu, juntei, então, o arroz. Ao fim de uns oito a dez minutos, o arroz tinha absorvido o caldo. Desliguei o fogão, destapei o tacho, deixei respirar. Um cheirinho apetitoso a envolver a cozinha. Não desfazendo, ficou bem bom. E ainda sobrou um bocado que comemos ao jantar, depois da sopa.


Logo a seguir, voltámos ambos ao trabalho. Não gosto de não dar um tempo a seguir à refeição. Parece que a comida nem aterra nem acama. Mas teve que ser. Foi um dia estrafegado para ambos. Lá do fundo, o telefone não parava de tocar e, no intervalo, chegavam-me vozes de toda a espécie e feitio. E eu na mesma, atarefada, a casa invadida por sucessivas meetings. Novos tempos.

Ao fim do dia, quando pensava que já pouco faltava para encerrar o expediente, ao receber uma chamada, decidi que estava na hora de fazer a transição. Abri uma janela que é mais abrigada e fiquei, de janela aberta, a ver e ouvir a chuva em directo, quase a senti-la. Enquanto tinha ouvido o telemóvel a tocar, tinha ido a correr buscar a máquina, pendurei-a ao pescoço e, assim, enquanto falava sobre o dilúvio de pouca sorte que ameaça desabar sobre a tesouraria das empresas e sobre mudanças que são necessárias nas estratégias e nas estruturas organizativas, olhava as gotas e apontava a objectiva para captar a beleza límpida do que o meu olhar alcançava. 

Do outro lado, um colega partilhava as suas dúvidas e preocupações e eu referia alternativas e a coragem que é necessária para enfrentar decisões que aí estão para ser tomadas mas, enquanto isso, a minha alma já estava a voar de mim, já estava em busca dos verdes e dos pássaros e de tudo o que é independente das conjunturas. Ouvia-me e parecia que estava a ouvir outra pessoa. Nessas alturas desconheço-me.


Mas o dia foi bom: os números covidianos foram animadores, as notas que já chegaram de dois dos meninos muito boas, meus meninos mais queridos, um projecto de uma das meninas crescidas foi aceite como altamente promissor, e é, os telefonemas mostraram os meninos a brincarem nas respectivas casas, todos bem, bem dispostos, o meu bebé mais lindo, mais lindo, já tão crescido e a falar como um rapaz grande, os meus pais também. Tudo é frágil e nada é garantido e eu, a cada instante, penso nisso. Mas a gente vai levando. E, quando está tudo bem, sinto-me agradecida e feliz da vida.

Já vi que vai continuar a chover forte e feio até de manhã desta terça-feira e que depois vai aliviando até à hora de almoço e que só volta a chover na quarta-feira. Gosto da chuva. A chuva lava a terra, lava o mundo, lava as almas. Claro que tanta chuva, quando a gente está a trabalhar fechada em casa, acaba por ser uma coisa confinante. Mas não faz mal, não é problema, não é tema. A chuva é bonita, é boa, deixa tudo limpinho e luzidio e a terra fica com cheiro de mulher fértil e os musgos ficam grandes, macios, de uma cor requintada de veludo antigo.


Há pouco estava a fazer a lista das compras do supermercado: escrevi 'carnes, legumes e enchidos para fazer cozido à portuguesa'. Quando estava a escrever, e juro que é verdade, um plim no whatsapp. Uma fotografia. Um big tabuleiro com croquetes, uns cilíndricos e outros bolinhas. Como legenda que eram croquetes de cozido. Dizia o meu filho, chef de mão cheia, que eram bons mas difíceis de pôr bonitos. Fiquei a salivar. Logo de seguida, um plim da minha filha, a pedir que lhe dissessem receita simples de cozido para encomendar ingredientes para fazer cozido pelo Páscoa. E eu fiquei a olhar para o telemóvel: de repente, o cozido à portuguesa estava na convergência das nossas ideias. Achei curioso. E bateu-me uma saudade deles. Se no próximo domingo houvesse almoçarada em minha casa, como costuma haver, perguntar-lhes-ia se achavam bem um cozido à portuguesa e, pelo que vejo, haveria de merecer o apoio de todos. Mas paciência, este ano é um ano diferente e enquanto tivermos todos saúde para nos batermos com um belo cozido tudo estará bem.


Nestes dias em que estamos longe, destas pequenas coisas se vai fazendo a nossa proximidade.

E destes pequenos nadas se vão fazendo os nossos dias. Um após outro. A caminho do que será a nova normalidade.

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La lluvia tiene un vago secreto de ternura,
algo de soñolencia resignada y amable,
una música humilde se despierta con ella
que hace vibrar el alma dormida del paisaje.

Es un besar azul que recibe la Tierra,
el mito primitivo que vuelve a realizarse.
El contacto ya frío de cielo y tierra viejos
con una mansedumbre de atardecer constante.
(...)



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Um bom dia a todos.

segunda-feira, abril 06, 2020

Olhem, meninos, amanhã a mãe e o pai estão a pensar fazer uma pizza ou um pão naan


No outro dia, em casa do meu filho, fizeram pizza. São ambos aventureiros e a culinária para eles é um bom território para descobertas. Antes, os meninos já tinham anunciado: hoje vamos fazer pizza. Estavam todos entusiasmados. Depois enviaram uma fotografia. 

E nós, gulosos frustrados,  ficámos, aqui, a olhar para aquela saborosa imagem e a lembrarmo-nos de quando, naquela outra e distante vida, mandávamos vir uma pizza e de como ela, ao chegar, trazia consigo um cheirinho bom a pãozinho feito em forno de lenha, um cheirinho a quentinho, a coisinha apetitosa.  E logo a casa se alegrava para receber tão gostosos sabores. Lembro-me daquela com alcachofras e presunto, ou, então, a outra com queijo de cabra, mel e nozes; ou, outra também boa, com mozzarela, salmão fumado, sumo de limão e folha de manjericão. Tão booooas. O que eu gostava daquelas pizzas com base estaladiça, saborzinho a coisa boa. Ou o pão naan, tão bom, só com queijo ou, então, com queijo e alho. A última vez que comemos essas delícias não nos apercebemos que nem tão cedo a elas voltaríamos. 

Que saudades.

Depois de vermos a fotografia da pizza caseira e ao imaginarmos o quanto eles, os cinco, devem ter-se deliciado com ela -- aliás, conhecendo-lhes o farto apetite, presumo que deve ter sido mais que uma -- olhámos um para o outro e, à uma, dissemos: 'e se também fizéssemos?'.

Há bocado, ele pediu que eu visse como se faz e eu disse que visse ele. Sempre a mesma coisa.

Insistiu. 

Acabei por espreitar. Não me parece que seja coisa para mim. Sugeri-lhe que fizesse ele a massa pois acho que é preciso sová-la e não me vejo ao soco com uma bola de farinha. 

A verdade é que nem sei se vamos ter tempo ou se vamos ter paciência. Ou se, entusiasmados com a perspectiva de uma bela pizzoca ou de um belo panito naan, não acabamos por arranjar tempo e paciência e vamos os dois para a cozinha, em equipa, tratar do assunto. Claro que eu preferia que ele tratasse da massa que a mim o que me atrai mais é sempre a parte criativa: por exemplo, queijo, espinafres, noz, orégãos, frango desfiado, um leve fio de azeite, um subtil toque de mel. Ou o pão naan com fio de azeite, um pouco de queijo, um pouco de alho, um pouco de alecrim. E depois, nham-nham, bora lá a ver se ficou bom e dá aí um golinho de cerveja fresquinha. Inha, inha.

A minha filha agora, que nem de propósito, acaba de enviar para a família duas receitas de bolos cremosos, daqueles ditos de caneca, para fazer no microondas. Até me lambi, ainda que, apenas, mentalmente. Ou, na volta, lambi-me mesmo na realidade. Sei lá. Bolos mais bons. Só de ver a fotografia já fico aguada. Mostrei ao meu marido e ficou a olhar para mim, penso que à espera de um sinal. Quis perceber se os vou fazer. Talvez. Ando carente de um docinho. Hoje, a meio da tarde, deu-me a fome e fiquei com vontade de uma guloseima. Então, numa colher de sobremesa, coloquei um pouco de mel e três miolos de amêndoa. Ah que bem que me soube.

Tirando isso, estou preocupada é com uma coisa. Naquela longínqua sexta-feira à noite em que resolvemos fazer a trouxa e desandar para o campo, não pensámos bem no que nos esperava. Pela parte que me toca, peguei em meia dúzia de trapos, nuns quantos livros, na máquina fotográfica, numa quanta comida, não muita, e, depois, já prestes a sair, voltei atrás, a correr, buscar o saquinho de gengibre cristalizado. Sem isso é que não. Uma pessoa mune-se para a guerra com a contenção que o momento exige -- que isto do corona tem que ser na base da guerra mesmo, espadeirada na cabeça do merdinhas até que recolha os totós e definhe como uma batata velha -- mas, noblesse oblige, que o gengibre cristalizado não me falte. Ora essa. Jamais (e, se não se importam, digam jamé). Na frente de batalha, na trincheira ou na preparação da moral das tropas, seja onde for, a guerra será sem quartel mas, sempre, sempre, sempre, com um cubo de gengibre cristalizado para apimentar e adoçar a minha existência.

Tenho andado a racionar, claro. De novo: não racionalizar mas, mesmo, racionar. Uma dor de alma ver aquele pedaço de paraíso a escoar-se. De cada vez que como um quadradinho de chocolate preto, pego num cubinho de gengibre e delicio-me com a mélange. Hoje comi o penúltimo. E, agora que tenho ali o último, estou sem saber como vou conseguir habituar-me a viver sem esse bijou, sem esse mimo, sem esse suspiro de prazer.

Enfim. Pode ser que consiga ir ao supermercado e quem sabe não sou bafejada com esse petit beaucoup de sorte. 
[Ah, que bom que é uma pessoa gostar destas pequenas coisas].

Bem. Voltando à cold cow. A pizza ou o naan.

Caso nos atiremos à faena, estou a pensar pôr a máquina a filmar. É que pode muito bem acontecer que a coisa descambe para um bailado tão harmonioso como este aqui abaixo que, obviamente, tem mão e pezinho de Alexander Ekman.

E, tirando isto, bon apetit também para vocês.


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Acham que faz sentido, neste contexto, desejar-vos uma boa semana?
Eu acho que faz. 
Se para vocês também fizer, pois que os meus votos sejam bem sucedidos.

domingo, abril 05, 2020

Entre a contradição do silêncio e um fish kiss com limpezas domésticas pelo meio






Gosto de fazer limpezas. Tal como quando vivia em tempos normais, só ao fim de semana tenho tempo para as fazer. Na cidade, a limpeza do chão faz-se em primeiro lugar com o aspirador. Aqui não. Aqui começo por tirar tapetes, levo-os lá para fora, sacudo-os e deixo-os ao ar, de preferência ao sol. A seguir, varro o chão de ponta a ponta. Tenho uma vassoura forte. Gosto de varrer com força. Numa casa no campo entram folhinhas secas, sempre entra mais pó ou graozinhos de terra do que na cidade. Afasto sofás, mesas, móveis, levanto cadeiras. Nada escapa. Fico contente ao ver que não há vestígio de cotão ou folhinha que escape.


O meu marido prontificou-se a limpar o pó mas é sempre uma crise em potência. Por motivos que não alcanço, mal começa já está inquieto, quer despachar-se em três tempos. Eu, nas limpezas, sou a antítese: sou sistemática, rigorosa. Começo numa ponta e levanto cada peça para a limpar e limpar por baixo, e limpo tudo, incluindo as laterais dos móveis, os rodapés, as portas, tudo. Ele passa o pano a correr, à volta das coisas, e, se lhe chamo a atenção, fica logo irritado, ameaça desistir. E eu digo que prefiro isso, que desista mesmo, que prefiro que não faça do que faça mal. Ele, contrariado, diz que é impossível limpar como eu quero, que não sairia dali se se pusesse a levantar cada coisa ou a passar o pano por todo o lado. Aborreço-me. Digo que, primeiro, foi ele que se ofereceu e, segundo, se tivesse o Palácio da Ajuda para limpar, percebia o desespero. Agora uma casa do tamanho da nossa, só com nós dois...?  Meio furioso, ameaçando que, se digo mais alguma coisa ou se controlo o que anda a fazer, deixa a limpeza do pó, lá voltou atrás e, em meia dúzia de minutos mais, deu a coisa por concluída. Não vale a pena. 

Amanhã tenho muito que fazer: quero varrer lá fora, há muitas folhas secas, debaixo do telheiro há terra junto à mesa e aos bancos. Quando chove parece que ainda se junta mais lixo.


O meu marido, como se levanta de noite, começa por se embrenhar pelos seus trilhos no seu desporto de eleição. A seguir, quando regressa a casa, pega nos serrotes e podões e vai desbastar árvores e mato. Mas não há muito mato, há é muitas florzinhas. Há algum tojo, algumas silvas, mas muito menos que antes, quando as ramadas das árvores vinham até abaixo e tudo se enleava. O que rebenta agora por todo o lado são as folhinhas junto aos troncos anteriormente cortados. Uma graça.

O campo está lindo. Gosto muito de andar sob as árvores e, quando ele anda com aquele serrote que está na ponta do cabo gigante, gosto de ver onde se deve cortar para que a copa fique mais desafogada, para que o sol entre melhor e o ar circule e as ramagens fiquem mais alegres e viçosas. 

O meu marido lembra-me que durante anos era uma guerra: eu não queria que ele cortasse nada, achava que tudo era intocável, achava que tudo na natureza era sagrado. Com as regras de prevenção de incêndios, de desbastar as árvores até meia altura ou quatro metros, tive que me adaptar. E agora gosto muito. O campo está mais limpo, temos muito mais espaços por onde passear, as árvores desataram a subir, cada vez mais altas, mais 'sagradas'. E a luz do sol flui mais livremente e tudo, junto à terra, floresce. Dou-lhe razão: era uma parvoíce minha, antes, é verdade. Ele fica contente que eu lhe dê razão.


E os pássaros? O que eles cantam...? São tantos, tantos e cantam tanto. E as lagartixas...? Tantas, tantas, velozes, tão bonitas. E os gatinhos...? Agora, pelo menos dois, sempre por aqui andando na maior tranquilidade.

É um lugar de paz, este.

E, à hora de almoço, ligaram ao mesmo tempo, todos. Tão queridos, tão bem dispostos, sempre tão animados. O meu menino que fez anos continua com os legos. Segundo a minha filha me conta, são construções em mais de duzentos passos e que ele segue, sem dificuldade, montando carros, motas, carros de carga. E sei que, de tarde, estiveram a jogar uns com os outros, provavelmente o tal fortnite. E, ao longo da tarde, fomos trocando mensagens. Se estou ao pé do meu marido, ele fica um bocado impaciente ao ouvir aquele plim-plim sucessivo e por ver que interrompo o que estiver a fazer para ler o que escrevem e para, por vezes, também me meter na conversa. Não me importo com as impaciências dele. É a minha maneira de me sentir próxima daqueles de quem estou longe. E quase me sinto próxima. Vejo-os, ouço-os, leio-os. A minha mãe também se mantém animada, atarefada. O meu pai esteve um bocado adoentado, o que me deixou bem preocupada, mas parece que já está melhor. A enfermeira vai lá todas as semanas, vai feita astronauta, equipada de alto a baixo. A minha mãe diverte-se com isso.

A vida continua.


Enquanto estava a andar lá por baixo, por entre cedros, eucaliptos e pinheiros, ia pensando no extraordinário que é, com meio mundo confinado e os hospitais e morgues a deitarem por fora,  haver um batalhão de gente que continua a trabalhar, a manter os concidadãos alimentados e o país a funcionar. Não são apenas os heróicos profissionais de saúde. São também os transportadores que levam as coisas para onde elas fazem falta, os empregados dos supermercados, os das empresas de telecomunicações, os que asseguram que temos electricidade, água tratada, os lixos recolhidos, combustível nas estações de serviço, os que fazem o pão, os que cultivam e embalam, os que levam encomendas a casa. Tantas vezes precários, mal pagos, tantas vezes fazendo da sobrevivência diária uma luta. E, no entanto, é graças a eles que o país se aguenta vivo. E as pessoas que, de repente, em vez do que fizeram toda a vida, passaram a fazer outras coisas, fatos, máscaras, desinfectantes...?Nunca agradeceremos suficientemente a todas estas pessoas.

Aqueles investidores e executivos que ganham larguíssimas centenas milhares de euros por ano, quando não milhões, deveriam perceber quão frágil é a sua vida e quão dependentes são daqueles que ganham misérias. E deveriam perceber que lhes cabe também a responsabilidade de dar passos significativos no sentido de um mundo mais equilibrado, mais inclusivo, mais justo.


Mesmo que a lusa ivermectina prove a sua eficácia no combate ao corona, e tomara, tomara que sim, que seja um verdadeiro mata-piolho destruindo o bicho em 48 horas, os testes ainda demorarão algum tempo para se poder dizer qual a dosagem certa. E, mesmo que os testes de imunidade comecem a ajudar a libertar os que já deram conta do merdinhas, a libertação será progressiva, condicional. Mas, seja quando for e seja como for, a verdade é que, mal consigamos retomar a vida 'normal', faremos bem se repensarmos o nosso modo de vida, pondo de parte as anormalidades que fazíamos.

Por exemplo. Se o teletrabalho é possível, qual a necessidade de meio mundo se concentrar nos grandes centros? Porque não poderemos viver na 'província', nas belas terras do interior, onde tudo é tão lindo e limpo, onde há outra qualidade de vida? Porque não poderão as mães e os pais de crianças pequenas viver tranquilamente, em vez de andarem numas aflições para sair do trabalho a horas, sabendo que têm o trânsito pela frente, nuns nervos para chegar a horas à escola dos filhos? Porque não poderão trabalhar em casa, podendo ir a pé buscar os filhos ou, mesmo, quando mais crescidinhos, irem eles a pé, sozinhos, para casa? E porque não poderemos ter uma hortazinha, comer fruta e legumes frescos?

Parece bucólico?
É bucólico. E seria muito bom.

Temos todos a obrigação moral de repensar a vida que queremos levar. Espero bem que, mal nos virmos livres do merdinhas invisível, não desatemos a fazer a bodega que fazíamos antes, a consumir toda a espécie de inutilidades, a fazer selfies em frente às paisagens e aos quadros nos museus, abrutalhados, acéfalos e sempre prontos para dizer mal de todos e de tudo e a enfiarmos, goela abaixo, toda a porcaria que nos derem a comer.

Acho um absurdo humanizar o corona, fazendo dele a encarnação do anjo vingador. O vírus é um vírus é um vírus (neste caso, quanto muito, um anhucazeco abichanado com totós cor-de-rosa). Mas acharei igualmente absurdo se não reflectirmos sobre o que está a passar-se. Se não soubermos mostrar a nossa inteligência, então, os que não forem desta para melhor com a covid-19 irão na próxima. Porque, a continuarmos como estávamos, haverá próxima -- e cada uma será pior que a anterior porque qualquer vírus revela ser mais inteligente e veloz que os burros dos humanos. 

Bem. Já chega disto. Queira eu ou não, acabo sempre a falar da mesma coisa. Parece que a sombra do cabrão do corona já se ensarilhou nos meus neurónios (pardon my french).


A ver se este domingo consigo ler. Anda a apetecer-me estender-me ao sol e, depois, recolher-me à sombra para ler. Mas o tempo não vai ajudar. Se não estiver mau de todo, levo uma cadeira ali para fora. Senão, talvez dê para me pôr do lado de dentro mas com a porta aberta, para sentir os cheiros e ouvir os sons da chuva, da aragem, dos pássaros.

Um dia destes viro um bicho. Hoje ao fim da tarde, para fotografar, subi a uma pedra. Depois fiquei, lá em cima, a ver se descobria os pássaros que cantavam. O meu marido viu-me e ficou intrigado.

E eu percebi que um dia ainda dou por mim a fazer o que os gatos fazem, a andar pelos muros, a subir aos telhados, a deitar-me ao sol.


E já escrevi demais. Distraio-me a escrever. Imagino a seca para quem me lê.

Partilho apenas mais uma coisa que acho o máximo. Não um french kiss, coisa banalmas um fish kiss. Muito bom. Gosto cada vez mais do Alexander Ekman. 


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Um abraço para cada um que tenha conseguido ler tudo até aqui.
(Merece, que ler tamanho exagero é feito que, imagino eu, não estará ao alcance de qualquer um).

Um bom dia de domingo.

sábado, abril 04, 2020

Não sei sobre o que escrever. Muito menos sei que título dar a uma conversa à toa.





Não vou falar do meu dia.

Só uma coisa: é que, no meio da trabalheira, me lembrei de convocar a família para uma vídeoconferência. Como em cada casa há mais que um computador, os dos adultos e o iPad dos meninos -- que na escola já o usam e agora por maioria de razão -- receberam todos convocatória. E, então, foi uma alegria. Na casa do meu filho, os meninos estavam felizes, cada um em seu sítio, conversando uns com os outros por esta via e aparecendo, de surpresa aos outros, para mutuamente se surpreenderem. O primeiro meeting foi a seguir ao almoço mas houve confusão pois um dos da minha filha estava a ir para as aulas. Mas a menina apareceu toda aperaltada. Adorei vê-la. Disse-lhe: 'Mas estás tão bonita, com uma roupa tão bonita...'. Ela, coquette, disfarçando: 'Não, não, nada, apeteceu-me foi pôr umas collants, há muito tempo que não usava...'. Ouvi o pai a dizer: 'Foi, foi...'. O meu marido segredou: 'Não digas nada, não a envergonhes'. A posteriori, tive que lhe explicar que a alegria de perceber que os outros reparam em como nos arranjámos bem às vezes parece timidez. Mas, por baixo do que parece timidez, está a alegria, a motivação para uma próxima vez.


Ao fim da tarde já estávamos todos. O que em tempos era, aqui, por mim, chamado de ex-bebé e que agora já é um menino crescido com nove anos estava a fazer um lego que lhe oferecemos e que os tios encomendaram, por nós, recorrendo à glovo. Gostou do presente. Estava já resignada à ideia de não podermos oferecer-lhe um presentinho, quando os tios se lembraram desta alternativa. Assim, quando ele até estava conformado com a ideia de que, face às circunstâncias, não poderia ter presentes, o meu menino mais querido recebeu vários. Aliás, do lado da mãe, também. É que mal ela pressentiu que isto poderia acontecer, ainda a porca não tinha começado a torcer o rabo, foi logo a correr, num fim de dia, e preveniu-se com o qb para lhe organizar uma festinha e ter presente para o seu 'bichinho'. Entretanto, o menino do meio queria era combinar jogar o fortnite com os primos. Ela mostrou-nos o trabalho que tinha feito de tarde e que me pareceu um cogumelo cheio de brilhantes e que, afinal, era uma menina, creio que com brilhantes no cabelo. O bebé andava à aventura, descobrindo os irmãos, perguntando coisas, radiante da vida. O mais crescido de todos, está cada vez mais um pré-adolescente. Ainda hoje, ao vê-lo numa fotografia de costas, até tive que ampliar, já me parecia um rapazinho crescido, outro que não ele. Meu amor mais lindo.
Foi ele que me baptizou como Tá. Era bebé, ainda não falava e quando eu lá ia a casa, ria, brincava e dizia tá, tá, tá. Um dia a minha filha disse: eu acho que a tá és tu. Não achei, achei que era apenas alegria. Mas, à medida que foi crescendo e dizendo as primeiras palavras, foi ficando cada vez mais claro que a Tá era mesmo eu. E era. E ainda hoje sou.

Momentos bons. Aos poucos vamo-nos habituando a apreciar os sucedâneos, como se estivéssemos a descobrir outras formas de expressar o afecto. 

E esteve sol. Não um sol exuberante mas, antes, aquele solzinho manso que nos faz brilhar os olhos e o coração. Depois do cinzento e do frio que me custou na alma, um dia suave, morninho, aprazível.

Tive reuniões na rua. Via-me no monitor do computador com o cabelo luzindo ao sol, o rosto atravessado pela luz. Do outro lado, ouviram os passarinhos. Senti-me melhor, consegui trazer um pouco do encantamento do lugar para dentro de situações que de encantamento têm raspas.


Na parte da manhã, só me despachei do trabalho bem depois da uma e, antes do meeting familiar das duas, tinha que almoçar e telefonar à minha mãe pelo que foi de raspão que, antes de fazer a chamada, vi os números. Vi o número absoluto dos novos casos e mentalmente calculei que não devia chegar aos 10%. Fiquei contente. Em número absoluto são muitos, os casos difíceis vão surgindo, cada vez mais, os que não resistem também. Mas, se conseguirmos continuar assim, regredindo na percentagem, estaremos a ir no bom caminho e talvez consigamos evitar chegar ao desespero mais absoluto em que, por exemplo, se vive em algumas regiões de Espanha ou Itália. Mas, ainda assim, vai ser muito mau. Quem está mal, está mal durante muito tempo. É daqueles casos em que a matemática também ajuda. Neste caso é a teoria das filas de espera que entra em cena. Neste caso há mais doentes a chegarem aos cuidados intensivos do que a sair deles. Desenvolve-se o efeito de acumulação que, neste caso, tem a particularidade de estarmos a falar de pessoas a precisarem de assistência para respirar e de os que lá estão não darem o lugar a outros senão ao fim de muito tempo (a menos que morram antes, claro). É, pois, fácil modelizar a situação para calcular de quantos ventiladores se vai precisar tal como é fácil perceber que, por muitos que haja, serão sempre poucos.

Caneco. Não queria falar nisto.


Queria falar noutra coisa.

Mas a esta hora estou a ver o Governo Sombra e, uma vez mais, aprecio a sensatez e a honestidade intelectual de Pedro Mexia e a estupidez insanável de João Miguel Tavares. Agora acha que o governo vai ter que dizer em que data é que se vai poder abandonar o distanciamento social. Como se o governo devesse ser mentiroso e estúpido só para lhe agradar. Só um mentecapto pode pensar assim, caraças. E eu a única coisa com que me espanto é por alguém o convidar para emitir opinião. E não apenas o convidam como lhe pagam. Gente, certamente, ainda mais burra que ele.

E, já agora que voltei a descambar para este tema tão incontornável, deixem que expresse a minha estranheza por não ver sinais de solidariedade e compaixão por parte da Igreja. Não digo que não haja, digo apenas que não vejo. Esperaria que os cardeais e bispos anunciassem que os mosteiros e demais edifícios habitáveis tinham sido cedidos para alojar idosos de lares onde surgem casos ou, de futuro, se não houver lugar para albergar infectados ou doentes em recuperação mas ainda contagiosos. Assim como esperaria que a Igreja tivesse já anunciado que padres, freiras, diáconos, acólitos, beatos e demais fiéis tinham sido alocados ao cuidado de idosos isolados em casa, ao cuidado dos sem abrigo e de todos que sejam vítimas indefesas desta droga virulenta. Mas não ouvi ainda nada disso. Não sei o que se passa. Agora que missas e outros ajuntamentos estão fora de questão (e presumo que nem façam grande falta), não estaria na altura dos devotos receberem formação e mostrarem que existem para abnegadamente servir os outros? Mas, na volta, está bem, está.


Bem. Digo que não quero falar nisto e, mal me distraio, aqui estou caída. É que queria era falar do post tão bonito do Steve McCurry, do qual retirei as fotografias e as citações abaixo que aqui partilho convosco: Proud, Strong, Unshakeable: Portraits of Resilence
  • The world breaks everyone, and afterward, some are strong at the broken places – Ernest Hemingway
  • Resilience is the ability to overcome adversity, cope with setbacks, and persevere in the face of  trauma and deprivation.
  • The greatest glory in living lies not in never falling, but in rising every time we fall. – Nelson Mandela
  • The bamboo that bends is stronger than the oak that resists. – provérbio japonês
E queria falar disto porque sinceramente acredito que, no meio da adversidade, da saudade, do medo, do sofrimento, do desespero, das dificuldades e da falta de alento, é necessário que, de dentro de nós, se levante a força que todos temos, uma força mesmo que desconhecida, se levante a esperança, se levante a persistência. Haveremos de chegar a dias melhores. É respirar fundo, olhar pela janela, procurar uma ideia que traga paz e beleza, levantar a cabeça, esperar que melhores dias cheguem -- e acreditar. 


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Um bom sábado. Saúde.

sexta-feira, abril 03, 2020

Sunset in heaven






Não sei o que tenho que, mesmo nessa situação, parece que o trabalho continua a fustigar-me. De vez em quando, estando horas de seguida a trabalhar, com telefonemas, videoconferências e mails a torto e a direito, apetece-me dizer que me deixem em paz. Estou na minha casa, nesta casa que adoro, neste lugar que me é tão querido, e não consigo fazer o que quero. Eu, que prezo tanto a minha privacidade, vejo a minha vida caseira invadida, vejo-me impedida de gerir a minha disponibilidade e liberdade. Estava habituada a aceitar isto na minha vida anterior mas era em contexto profissional normal mas, aqui em casa, por vezes isto quase me massacra. 

À hora de almoço, fui a correr (literalmente a correr) pôr a posta de corvina no forno, pôr as batatas a cozer, depois fui a correr até ao estúdio, onde está a máquina, para pôr a roupa a lavar (incluindo umas três ou quatro blusas dos fundos das gavetas dos fundos, coisas de que já me tinha completamente esquecido), depois, enquanto dava um parzinho de little voltas apressadas lá por baixo, liguei à minha mãe, depois regressei e almocei à pressa, depois fui soltar o cabelo que tinha prendido e que ainda estava húmido, vestir outra blusa e outros brincos, depois, sentindo-me melhor arranjada, fui a correr fazer um chá para ter em cima da mesinha e depois, a correr, a correr, fui juntar-me à reunião que estava a começar. E foi até às sete da tarde.

Cansada, cansada. 

Mal acabou, vendo que o sol estava dourado, lindo, agarrei no telemóvel e na máquina fotográfica e fui andar e, enquanto andava, telefonei ao colega a quem não tinha atendido pouco antes, depois à minha filha, depois à minha mãe. Enquanto falava, ia fotografando. Gosto de andar em silêncio mas não foi possível. Mas é bom falar com os meus. Tão bom. E as cores do pôr do sol estavam tão lindas, tão lindas. Emocionantemente lindas. A beleza emociona-me.

Depois regressei a casa e vim espreitar dois mails com documentos que vão ser analisados em duas reuniões sucessivas amanhã de manhã.

E há coisas ali com que não concordo e que me apetece atirar para o espaço. Estou  na minha casa, a trabalhar demais e ainda tenho que aturar coisas com que não concordo nem um bocadinho?

Bolas.

(Será que estou mesmo a passar-me?)

Gostava, Lúcio, acredite que gostava de escrever alguma coisa de jeito. A sério que gostava. Mas falta-me o distanciamento que a viagem de carro, no trânsito, atravessando a bela cidade, introduzia na minha vida depois de um dia de trabalho. Havia essa barreira que eu transpunha. Saía de um dia fatigante mas saía, mudava de ares, saía dali e ouvia música ou o Alvim, chegava a casa, mudava de roupa, mudava de ambiente.

Agora não, agora é desde que me levanto até à noite. E reuniões e mais reuniões, prazos, projectos com prazos curtíssimos, cenários, ficheiros, cálculos, e dia após dia a ver os cenários a derraparem, a derraparem.

A gente quer aguentar, a gente faz cenários a ver até onde aguenta. A preocupação é sempre: cumprir compromissos, não quebrar as cadeias, não romper o tecido económico e o social. Mas todos os dias chegam novos números, a actividade quebra, os custos fixos pesam, as obrigações apertam. 

Até quando?

Chegará um milagre?

Pedro Simas, homem francamente bonito, sorridente, inteligente, disse que não descarta essa possibilidade: tantos cientistas de todo o mundo e de tantas áreas a estudarem que pode acontecer que se descubra a forma de se sair disto. Mas, a não acontecer, serão meses. Meses a doer seguidos de meses de liberdade condicional e intermitente.

Haveremos de nos habituar, haveremos de adoptar outros comportamentos, haveremos de construir novas formas de viver. Mas preocupo-me tanto com os que não conseguirão aguentar este período de provação e com a miséria que muita gente vai conhecer. Preocupo-me com os tempos que aí podem vir. Tomara que a democracia sobreviva, tomara que a barbárie não esteja nunca à espreita. 

Falando com colegas em terras de Espanha chegam-nos sinais de que, em determinados locais, estão como se estivessem a aproximar-se do fim dos tempos. O medo no rosto e na voz deles é de nos deixar paralisados. Não sabem o que fazer aos doentes, não sabem o que fazer aos mortos. Estão aterrorizados. Esforço-me por não comentar, aqui em casa. Penso: não vale a pena, só nos deixa ainda mais inquietos. 

Penso muitas vezes: não fora a distância dos meus, se conseguisse ignorar as notícias e se evitasse falar com colegas de países verdadeiramente batidos pela desgraça, se resolvesse não aparecer em algumas videoconferências e se, de vez em quando, conseguisse pirar-me para o meio das árvores, talvez conseguisse tirar partido destes tempos. Mas isto é se e isto do se faz-me sempre lembrar aquela de que se cá nevasse fazia-se cá ski.

Já é sexta-feira e uma vez mais não vou poder ir passear à noite para a praia, não vou ver o mar, e apenas vou ver a minha gente através de vídeos e fotografias. Mas, a esta hora, há muitos médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares muito, mas muito, mais exaustos que eu, há famílias a sofrer de medo ou de dor, há muita gente que não tem a sorte que eu tenho. Por isso, o melhor que tenho a fazer é estar calada porque, pensando bem, devia era sentir-me agradecida.

Pode ser que, daqui por vinte e quatro horas, estando a entrar no fim de semana, consiga estar mais animada, Lúcio e Pôr do Sol e Luísa, mas agora não consigo dar mais do que isto. Sorry.


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O meu amigo algoritmo do YouTube tinha este vídeo para me mostrar e eu, que gosto de partilhar, deixo-o aqui: Jane Goodall, com os seus mais de oitenta anos, diz como é


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E, para acabar com alguma boa disposição, um outro vídeo 

Vogue Corona Parody by Chris Mann


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Desejo-vos um dia bom, apesar de todos os pesares.

Saúde.

quinta-feira, abril 02, 2020

Pedro Simas, virologista extraordinaire


Uma vez mais estou a vê-lo e a ouvi-lo. Na RTP 3. 


Ao dia não sei quantos de quarentena, dia frio, triste e chuvoso, com o peito vazio





Dia muito preenchido, dia absurdamente cansativo. Na empresa, e, se calhar, em quase todas as empresas, parece que toda a gente está a reagir de forma hiperactiva. Toda a gente quer avançar em força com muitos projectos, toda a gente ao mesmo tempo, como se toda a gente quisesse compensar a perda de actividade económica com uma forte dosagem de trabalhos que, podendo-se fazer em teletrabalho, mais vale fazê-los já antes que seja tarde demais.

Então, estou em sucessivos meetings e a ver que estão a convocar-me para outros e, passado um bocado, já vejo o meeting, que não aceitei, no ar e que, estranhamente, estão a tentar puxar-me para lá. Envio mensagem a dizer que estou noutra reunião. Mas, mal acabo aquela em que estava, já estou a receber uma convocatória para daqui por dois dias para fazer o seguimento da reunião que acabou de haver e na qual não estive. Uma loucura. É desde que me ponho o pé no chão até tarde na noite. Mal tenho tempo para almoçar, janto às quinhentas. Exaurida. E aborrecida com tudo isto.


E, ao sentar-me, um telefonema. Um conhecido diz-me que um familiar próximo está com covid e ele e a mulher, e sabe-se lá mais quem, certamente também. E uma pessoa fica pregada. Pregada. Do outro lado, o silêncio, depois a voz do medo. Medo. Ligo a outra pessoa a tentar perceber o que podemos fazer. Do outro lado, o silêncio. O medo. Nunca antes senti, como sinto agora, do outro lado, a materialidade do medo, mesmo quando o sinto traduzido em silêncio. Medo. O contágio invisível, o contágio entre os que se amam. A dor, o medo.


Como se não bastasse, esteve um frio de rachar e choveu que se fartou. Tive que me encher de roupa o que, em mim, é coisa nunca vista. Não faz parte de mim ter várias camadas de roupa em cima. Sou bicho de pele descoberta ou, vá lá, apenas levemente coberta.

Acresce que, obviamente, estamos os dois a partilhar na mesma casa, ambos cheios de trabalho e de videoconferências. Não podemos estar ao pé um do outro. Toca um telefone, toca outro, ouve-se um a falar, ouve-se o outro. Toda esta zona da casa comunica entre si, sem portas. Uma dificuldade acrescida, nestas circunstâncias. E aquecer a casa toda tem sido uma dificuldade.

O dia foi de tal maneira que nem consegui pôr o pé na rua. A bem dizer, nem consegui chegar-me à janela. Em dias assim, gosto de estar junto às janelas de vidro vendo a chuva, vendo o vento e o frio a dar nas árvores. Ficam muito bonitas as árvores em dias de frio, vento e chuva. Lavadas, livres, belas, vestidas de verdes exuberantes. Mas hoje apenas vi de longe. Vi e ouvi mas, infelizmente, sem poder prestar atenção. A dado momento pareceu-me ouvir um ribombar ao longe. Agucei os sentidos. Quis que trovejasse, mesmo. Se era para estar mau tempo, pois que viesse trovão, relâmpago, golpe de vento, gelo a valer. Mas se era trovão ao longe, pelas lonjuras se ficou. Não vi azul, nem nesga. Nem para saudade tive tempo.


Em tempos, distantes tempos, houve uma varanda florida, uma escada que descia para a rua, entre flores, e acho que o céu estava azul e que tudo sorria, o azul do céu, a sombra das árvores, as cores das flores, nós. Há muito, muito tempo. Numa outra vida. Não sei se noutra vida, se até noutro planeta. Não sei mesmo se outra-eu. Daqui por algum tempo talvez pense que nem nunca existiu esse outro tempo. 

Não há muito, talvez há uns dias, alimentei a esperança de que por esta altura estaria eu a sacudir almofadas, a arejar cobertores, colchas e almofadas. A casa iria ser invadida, haveria meninos a brincar, a correr na rua, a jogar à bola, sentados à mesa. O ano passado, um dos meninos, à mesa, lambendo-se com os petiscos da sua Tá, disse: 'Isto sim, isto é que é vida'. Quando nos rimos e, perguntámos porquê, disse que aqui podiam brincar, subir às árvores, fazer o que queriam e comer comidas boas. Fiquei toda contente e ainda me lembro do ar satisfeito dele. Contou-me a mãe que, numa composição, escreveu que tinha saudades de cá estar. Entristeço-me. Como aconteceu uma coisa destas?, não me canso de me interrogar. Fez no outro dia anos, este meu querido menino, e gostou da festinha virtual que a mãe organizou, com família e amigos. Vamos inventando novas formas para tudo. Somos animais mutantes. Mas sinto tanta falta de os abraçar. Quando fazem anos, depois de apagarem as velas, gosto de me me chegar a eles para lhes dar um beijo e desejar que contem muitos e felizes anos de vida. Desta vez não foi possível. E ainda não aprendi a dar abraços virtuais, em especial quando o amor é muito.


Há pouco escrevi um mail pessoal mas em contexto profissional. Andava para fazê-lo. Sei que é assunto que agora parece disruptivo, sei que quem o recebeu não está ainda preparado para encarar a verdade que antevejo. Sei, pois, que o que escrevi vai ser recebido com desconfiança e sei que, se bem conheço aquele que a esta hora deve estar a lê-lo, depois vai ficar inquieto, hesitando entre fazer de conta que não leu ou levar-me a sério. Sei que se esforçará para não me levar a sério. Mas tomara que leve pois o que aí vem -- não sei quando -- será uma realidade apesar de ainda não a conhecermos. Não vai ser a continuidade do que era nas primeiras semanas de Março deste ano que eu pensei que, pela graça do número, 2020, seria um ano bom e que, até ver, está a ser um ano pavoroso. Mas, se fomos apanhados desprevenidos, batidos por um merdinhas invisível, temos agora a obrigação de ser inteligentes e saber dar a volta por cima, tornado-nos menos nocivos para o planeta, para a natureza, para os outros.

Mesmo num dia frio, triste e chuvoso, mesmo sentindo o peito vazio, esforço-me por pensar nos dias que virão a seguir e que quero imaginar que serão os promissores dias de um mundo novo, dias que festejaremos com a ajuda de Sophia, dizendo:

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

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Bem. Para ver se me animo, vou ver o mais recente vídeo de Liziqui.
Comidas floridas, aspecto delicioso, uma paz feita de gestos silenciosos, vagarosos.

不能去人多的地方扎堆儿,赶在上巳节这天家门口春个游


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A street art dedicada ao merdiúnculo do corona foi avistada por um Panda aborrecido

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E eu desejo-vos um dia caloroso e bom. Apesar de tudo.

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quarta-feira, abril 01, 2020

Os momentos da perplexidade, descoberta e reaprendizagem antes do recomeço





Vamos experimentando novas astúcias. Um passo um dia, hesitações, dois passos num outro dia, uma ousadia ao terceiro.

Sem rede e sem quem possa abeirar-se de nós para nos ajudar, adquirimos novas competências, auto-suficiências.

E, até para emular as formas tradicionais de exprimir afectos, descobrimos teledemonstrações do que for preciso -- e o nosso cérebro aprende novas línguas, não apenas as dos abraços e beijos mas também as das palavras, as das imagens, as que se constroem em cima das saudades, as que cimentam com débeis e inseguras esperanças.


Passaram duas ou três semanas e o distanciamento social começa a entrar no nova normalidade. Aproximamo-nos de outra maneira. Trocamos mensagens, sorrisos, alentamo-nos mutuamente. Pelo menos, teremos pela frente mais quase três semanas idênticas. E o mais provável é que depois venham mais duas semanas ou talvez ainda mais duas, talvez então já com algumas nuances. E talvez depois comece o abrandamento. Ainda com distância, talvez todos com máscaras.  E talvez sabendo que pode ser uma liberdade condicional e relativa. É que pode acontecer que, de Setembro a Novembro, voltem as recomendações mais apertadas. E talvez, então, com sorte, por essa altura, já haja vacina ou tratamento e tudo se resolva -- e embora o covid continue por aí já não meta medo a ninguém.

Mas, quando isso acontecer -- e mesmo que, por um bambúrrio de sorte, já daqui por um bom par de meses, haja ventiladores com fartura e tratamento para grande parte dos casos --, nessa altura já seremos outros.


Ao termos passado por este regime de inoculação diária de números diários de contagiados, ventilados e mortos, durante largas semanas confinados e amedrontados, estaremos conscientes da nossa vulnerabilidade, teremos aprendido que o espirro de um pangolim no distante mercado de Wuhan pode prender-nos em casa, pode afastar-nos dos que amamos, pode ceifar vidas, esvaziar ruas, derrubar empresas, empobrecer tudo à sua passagem, pode deitar o mundo abaixo.


Estaremos, pois, nessa altura, conscientes do respeito que o equilíbrio da natureza nos deve merecer, estaremos conscientes de que, por milhões de conhecimentos que adquiramos, nada nos salvará se uma gotícula invisível que se tenha evadido da expiração de um qualquer anónimo entrar em nós.

Teremos aprendido que há formas mais saudáveis e racionais de viver, teremos aprendido que somos todos agentes de saúde pública, teremos aprendido que o melhor para todos nós é se formos também guardiões do planeta azul e verde.


Seremos outros e o mundo será outro, mais limpo, mais natural e acolhedor. Ter-se-ão reinventado ocupações, criado novas actividades, adquiridos novos hábitos. Hoje ainda não sabemos quais, ainda não sabemos como faremos, como seremos. Hoje desconhemos aqueles que seremos. Hoje estamos a iniciar a construção do que seremos no futuro, um futuro que queremos que seja próximo e bom.


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1. Recomendo a leitura de algumas sementes das chaves que abrirão a porta ao novo mundo: Oxford firm to screen 15,000 drugs in search for coronavirus cureExscientia to use AI to hunt through compounds which have passed human trials


2. Recomendo que vejam e ouçam a prova de quão resilientes somos, de quão generosos poderemos ser




3. Recomendo que vejam um dos vídeos que provam como a natureza tem horror ao vazio


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As pinturas são de Otto Dix e vêm ao The way that I love you, segundo o Passenger

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E agora, se me permitem, vou ver um bailado de um coreógrafo que o Paulo B. me deu a conhecer, Alexander Ekmman, que cria bailados na fronteira entre o mundo actual e o mundo novo


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E agora, com vossa licença, vou ouvir poesia e, se descobrir alguma que me face arrepiar ou ouvir de olhos fechados, volto aqui para partilhar convosco

terça-feira, março 31, 2020

A terra apareceu coberta de musgo e esse verde dourado quase iluminou o meu dia




Acordei cedo e, como sempre, ao levantar-me, logo abri a porta de vidro e a portada e saí para a rua. Mas, de imediato, arrepiei caminho. Um frio, um cheiro a terra molhada, as gotas da acácia branca a caírem-me em cima. Até exclamei: 'É lá... mas o que é isto?!?'. Pensava que estava a falar sozinha mas o meu marido ia a passar, vindo da rua, e disse: 'E esteve a chover com força. E muito frio. Vê lá o que é que vestes'. Como ando sempre à fresca, tem medo que eu me ponha doente. Deixei as portadas exteriores abertas mas fechei a porta de dentro. Quando me vesti, tive que estudar a indumentária. Quando, à pressa, fizemos a trouxa para virmos para o exílio, não pensei que tinha que me prevenir para este inverno que veio ensombrar a primavera nem que aqui iríamos ficar, sem ir à cidade buscar mais coisas, durante muito tempo.

Felizmente, no outro dia, estive a dar uma volta à roupa desandada, que, por falta de moda, desajuste de número ou desengraçamento, já de pouco préstimo tinha na cidade e que em boa hora, nos idos, pensei que aqui, no campo, num just in case, poderia vir a ser útil. Retirei do fundo do roupeiro uma blusinha já demasiado justa e cor de pele que tinha rejeitado por quase me fazer parecer despida, um colete de veludo quentinho, acolchoado, que sempre me pareceu demasiado campestre, uma blusa preta excessivamente quente, uma blusa lilás num fio que me parece já ilógico -- coisas assim, desirmanadas, vintage até dizer chega. Lavei tudo, não quis voltar a vestir coisa com ar de resto, mofudo, coisa com aquele ar desajeitado que têm as coisas que querem ressuscitar. E foi isso que hoje me valeu e que amanhã e depois também me devem valer. Ponho um colarzinho, uma écharpe, uns brinquinhos e já me acho apresentável. Hoje até me apeteceu pôr um perfuminho. Tenho um frasquinho na maleta do computador. Mas depois racionei. Quem sabe um dia aqui, no degredo, ainda vou precisar. Nunca se sabe. Também não alteraria o visual. De qualquer forma, por videoconferência disfarça, não dá para ver pormenor -- tento eu convencer-me. É que não apenas já preciso de variar como está um frio absurdo, e estas peças, por datadas que sejam, pelo menos não me fazem estar a bater o dente.


O dia foi atarefado. Esta coisa apanha-me a meio de processos que estou a tentar manter em movimento e que acrescem à profunda mudança que, num ápice, se operou na maneira de trabalhar e de viver.

O almoço e o jantar foram restos dos dias anteriores, as favas com entrecosto do almoço de domingo que bem apuradinhas estavam, e peixe cozido com batatas e legumes com que fiz uma salada. Por isso, não tive que confeccionar comida. Por volta da uma e meia despachei-me do primeiro turno, peguei no telemóvel e fui telefonar à minha mãe. E, então, enquanto andava, apercebi-me de um milagre. Fiquei fascinada. Vim a casa, quase a correr, e peguei na máquina fotográfica. E fotografei: de ontem para hoje, tal a força do frio, da chuva e desta terra que antes era pedregosa e que agora é tão fértil, o musgo medrou, macio, alto, fofo, verde quase dourado. Sente-se a macieza só de olhar. Nem passei a mão, não precisava: mais macio que veludo, que lã de seda, que olhar de namorado.

Fotografei, fotografei. É a minha maneira de guardar a eternidade das coisas mais belas, mais efémeras. 

Se não estivesse aqui não tinha assistido a este milagre. Em tudo, em todos os momentos, mesmo nos mais incertos, há breves instantes em que a harmonia do mundo converge na mais insignificante das coisas, torando-a única, infinita como infinitas são as coisas que tocam o nosso coração.


A tarde continuou. Reuniões. Todos se interrogam, todos temem. Ninguém disfarça. Ninguém se aventura a adivinhar qual será o cenário mais provável. Pedem-se salvaguardas para que, no caso de uma catástrofe, pelo menos haja com que pagar os ordenados. Faço de conta que não me deixo afectar com o que ouço. Mas afecta-me: sinto que, por dentro, tenho vontade de me emocionar. Como é que, no espaço de tão pouco tempo, chegámos aqui? A dimensão e a desolação da cratera que pode sobrar, no fim disto tudo, assusta.

À noite, ao telefone, o meu filho traçou cenários. Fala naquilo que será o mais inteligente, aguentar o tecido económico mesmo que a duras custas: não despedir, pagar os ordenados, resistir, não deixar que as empresas vão à falência. É isso mesmo.

Mas quantas empresas conseguirão resistir? E o pequeno comércio? E os trabalhadores individuais? E a gente do mundo dos espectáculos? Tanta gente que vai passar dificuldades.

Mas, mesmo por essas pessoas, por todos, em especial pelos mais pobres, pelos menos seguros, temos que resistir. Fechados em casa, longe dos nossos, preocupados com a saúde dos mais frágeis, mas quebrando as pernas à curva de contágio, defendendo-nos de males ainda maiores.


O tempo passa a correr e em todos os momentos há instantes que cintilam. Um mail bom que recebi, que me deixou toda contente, comentários que me abraçam, deixam-me a achar que escrever aqui, à noite, se calhar até faz algum sentido. O musgo que, da noite para o dia, atapetou a terra de uma espuma viva e verde de veludo macio também faz todo o sentido. O pássaro que passou ali à frente da porta de vidro da sala, saltitando, preto e com o papo branco, com uma poupinha, momento também tão transcendente faz mais sentido que tudo. O gatinho cor de mel e branquinho que já não se assusta, que já vai a andar devagar à minha frente, esperando que eu me maravilhe, durante o tempo que quiser, com cada flor ou ervinha que desponte da terra, também me enleva, também me surpreende. O que fiz eu para merecer tanto?

Liguei a televisão mas as notícias não me trazem o que eu quero ouvir: quero saber de tratamento, vacina, vida em liberdade. Quero notícia boa, feliz, quero sinal de esperança, quero prenúncio de vida nova. Quero antever sinais do mundo que vai renascer. Mas, pelo contrário, ouço autarcas exaltados, ouço acusações tão injustas e ingratas à Graça Freitas, mulher que admiro, que estimo, a quem agradeço, a quem todos tanto devemos. Ou ouço notícias dolorosas, ecos do que se passa em terras aqui tão perto. Não quero ouvir.

Quero, antes, que cada dia contenha bons momentos e que cheguem até mim ecos de abraços, sinais de afecto, palavras boas, sorrisos, um poema cantado e triste de tão belo, quero ver a terra amansada, coberta de musgo macio, o andar langoroso do gato que me espreita e mostra o caminho. E quero saber que os meus estão bem e que, não tarda, vou poder abraçá-los. Não quero muito. Mas quero tanto...

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Foi pela mão de Mestre Plúvio, com quem aprendo o respeito pela nossa língua, que também conheci este ser extraordinário, Jacob Collier (e é admiração que dura desde que o aprendi)

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A todos desejo um dia o melhor possível. Saúde.