Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, abril 26, 2018

Mário Soares foi ao Jardim neste 25 de Abril


Não fui a manifestações, não participei em eventos de qualquer espécie. Acordei cedo convencida que iríamos dedicar o dia a cortar mato mas, afinal, não sou só eu que tenho o corpo despreparado para grandes labutas rurais. O meu marido também anda com um ombro dorido. Ainda por cima, andar ontem à noite a passear com o bebé ao colo, deixou-o ainda pior. Portanto, mudança de planos. 

Fomos cirandar. Depois de almoço rumámos ao restaurado e recém nomeado Jardim Mário Soares que antes chamávamos de Campo Grande. Por lá tinha andado, umas duas horas antes, Marcelo Rebelo de Sousa, Ferro Rodrigues, António Costa, Fernando Medina e membros da família Soares.




Durante os anos de estudo, era frequente andar por estas bandas. Alugávamos bicicletas e andávamos por ali e pela Cidade Universitária. Sempre gostei muito de andar de bicicleta e ali havia como. Era também normal jantarmos na Cantina de Farmácia ou da Cidade Universitária e, de caminho, passarmos pelo jardim do Campo Grande.

A minha filha, com quem estive agora a falar, também ainda se lembra de andarmos de barquinho lá no lago. Diz que se lembra do pai a rabujar. E eu lembro-me porquê. Eles não paravam sossegados, tudo aquilo balouçava, eu ria a bandeiras despregadas, e o meu marido, sozinho, tinha que aguentar o barco.


Os barquinhos ainda cá estão. O jardim agora está mais bonito, mais arranjado. Tem agora elevações que dão graça à paisagem, que protegem do vento e isolam do ambiente urbano. É um oásis no meio da cidade e nem se dá pelas ruas circundantes, cheias de carros.


Tem agora também um outro laguinho e já cá andam meninos a tomar banho e a brincar. Sobre a curiosa escultura que está pousada no topo, transcrevo:
Fonte-escultura, que representa uma caricatura, decorrente do desenho cartoonado, executada, em 1992, por Samuel Torres de Carvalho, mais conhecido por Sam, e traduz uma peça única, metálica, resultante de várias formas que ao serem insufladas se transformaram numa só, à semelhança de um balão habilmente manipulado. Localizada na margem do lago do topo Sul do Jardim do Campo Grande foi inaugurada, em 17 de Setembro de 1993, por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa.
Escultor - Samul Azavey Torres de Carvalho. Data - 1993. Material - Bronze. Estilo - Figurativo.
 Mesmo na direcção da casa de Mário Soares, mais um apontamento: só é vencido quem desiste de lutar.


Fiquei agradavelmente agradada. Muitos casais jovens com crianças, a andar de bicicleta, a patinar, as zonas de parque infantil cheias, muitos jovens, muita gente. Pensei que, durante anos, quando estava num qualquer outro país, ficava sempre admirada porque, lá, as pessoas andavam na rua, desfrutavam os espaços públicos. A primeira vez que passeei em Hyde Park fiquei espantada: gente a apanhar banhos de sol, deitadas na relva, homens em tronco nu, gente a tocar. Cá ninguém ia para os jardins e esplanadas, era gente maioritariamente encafuada, ensimesmada.


Penso que muito do ambiente opressivo de antes do 25 de Abril perdurou nas mentalidades durante muitos anos depois. 

O tempo que passa, o intercâmbio estudantil do Erasmus, as viagens low costs que facilitam o conhecimento de outras culturas e a multidão de turistas que nos últimos anos têm trazido novas práticas, têm ensinado aos autóctones o gosto pelo convívio, pelo contacto com a natureza, a descontração de se fazer o que apetece desde que não se moleste ninguém.


Um pouco mais à frente, li 'Sempre' e pensei: tomara que, para todos, seja 25 de Abril sempre. E que haja a vontade inquebrantável para defender a democracia e a liberdade sempre.


Como já não ia para aquelas bandas há algum tempo, não sei se alguns dos edificados ou apontamentos escultóricos já ali estão há muito ou se são recentes. O que sei é que gostei. Claro que alguns estão grafitados de forma despropositada mas, nisto como em tanta coisa, penso que há ainda um caminho de aprendizagem a percorrer. 

Penso que os poderes públicos, nomeadamente a nível autárquico, têm uma palavra a dizer. O graffiti pode ser uma arte e penso que se for dado espaço e prestado respeito a quem a pratica passará a haver compreensão de que a sua prática indevida pode ser puro vandalismo.


E, estava eu fotografando, isolada do mundo como sempre me acontece quando toda eu convirjo no que estou a observar, quando ouço o meu marido a chamar-me. 'Olha, ali a atravessar a rua, o Eduardo Lourenço'. Estava parado nos semáforos, esperando que abrisse o verde para peões na direcção talvez da Biblioteca Nacional. Enterneci-me. Comemorando o 25 de Abril, o estóico filósofo, 94 anos, ali estava junto ao jardim que relembra Mário Soares. Um país é feito de muita coisa: da sua história, da sua geografia, das suas gentes, da sua memória, dos seus desígnios mas quem consegue a fusão de todos os aspectos e sabe transformá-los na matriz genética do povo são as pessoas da cultura. Deles somos todos eternos devedores.


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Enquanto escrevia este post e escolhia as fotografias para aqui colocar, estive a ver uma entrevista de Vítor Gonçalves a Conceição Matos e Domingos Abrantes. E o que aconteceu foi que, a maior parte do tempo, parei de escrever para ouvir e ver com atenção o impressioante testemunho deste casal que suportou a tortura da PIDE e que sobreviveu, com inteireza e notável dignidade, para o poder contar. A quem não viu e possa fazê-lo, sugiro que use a box e tente ver o programa. É um testemunho absolutamente extraordinário. Toda a gente devia conhecer o que eram as práticas do regime anterior ao 25 de Abril para que não subsistam dúvidas.

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Macron e Trump, in love
[E a extraordinária linguagem corporal dos dois casais]


Já ontem tinha tido vontade de aqui partilhar alguns momentos mimosos e bizarros da visita do casal Macron na sua recente visita aos States e ao peculiar casal Trump. Mas sendo que o assunto que me motivava era o 25 de Abril, não quis misturar fenómenos do Entroncamento com uma data tão especial.

Pois bem, não consigo esperar mais. Sem que consiga dizer alguma coisa sobre o tema já que, perante acontecimentos do além, tendo a ficar muda e queda, deixo aqui ficar algumas imagens que demostram o bom clima entre os dois fantásticos casais que, pelo que parece perceber-se, disputam entre si quem faz a pose mais inesperada (ou amalucada, como se queira).

Os jornalistas e blogueiros que defendem que é importante que a transmissão televisiva dos interrogatórios judiciais aconteça -- para que nós, jurados do povo, através da sua linguagem corporal dos inquiridos, possamos julgá-los ajuizando se o que dizem é verdade -- talvez saibam interpretar as pernas abertas da Brigitte, as inacreditáveis poses da Melania, os beijinhos e as mãos dadas do Donald e do Emmanuel ou o beija-mão deste último à dúbia primeira-dama americana. Eu não sei. Limito-me a achar que tudo aquilo me parece um filme cómico.








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Olha as mãozinhas....


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E mais não digo pois não sei mesmo o que dizer. Macron ter aparecido ao lado do palhaço Trump e da taralhouca May na fantochada do pseudo ataque aos depósitos de armas químicas da Síria deixou-me intrigada e agora este climinha de amor entre ele e Trump é o corolário da minha incompreensão.  E não são as aparentes críticas de Macron a Trump no Congresso que me ajudam a esclarecer qual a verdadeira relação institucional entre os dois estados. Ou Macron é mais esperto do que possa parecer ou é mais parvo do que se julga. Por isso, deixo as especulações sobre o tema para quem perceba alguma coisa de jogos de xadrez com peças de fabrico incerto.


quarta-feira, abril 25, 2018

25 de Abril





Oito das minhas unhas das mãos estão pintadas de cor de cravo. A menininha linda pediu se, depois de jantar, me podia maquilhar. Foi buscar a caixa e sarapintou-me. Depois pediu que a pintasse eu a ela. Assim fiz. Logo, de seguida, pediu para me deixar pintar-me as unhas de cor de cravo. Deixei. O mano do meio tinha ido buscar a guitarra e tocava e cantava uma sentida balada, alto e bom som. E o bebé trepava para cima de tudo, abria todas as portas, tentava tirar tudo de dentro dos armários, abrir todas as gavetas enquanto eu tentava impedi-lo. Portanto, no meio daquilo, não me sobrava capacidade de reacção para argumentar. 

À hora de jantar já o bebé tinha partido um prato. Tínhamo-nos esquecido que com gentinha miúda deste calibre ou os pratos são de plástico ou temos que ficar agarrados à louça. Depois de ter jantado um prato de sopa, um prato de arroz e frango assado e um kiwi, não descansou enquanto não comeu mais arroz e mais frango. E eu a dar atenção aos manos, num segundo descurei o prato à frente dele e pimbas, no chão. E ele a rir.


Depois fez cocó. Levei-o para a sala para lhe mudar a fralda e, no segundo em que vim deitar fora a fralda e o deixei à guarda da irmã, ouvi-a a chorar, desesperada aos gritos: 'Alguém vem aqui depressa?'. Assustada, larguei tudo e fui a correr. Estava ela a chorar e ele a rir. 'O que foi?'. 'Foi ele que me mordeu!'. Levantei a blusa para ver. A maminha toda encarnada. 'Mas porque é que ele fez isto?'. 'Porque estava a abrir o armário e eu não deixei porque ele queria tirar uma garrafa e ele mordeu-me'. Lá fui pôr-lhe água na maminha. Enquanto isso já o bebé estava a trepar para um banco. E eu a gritar pelo meu marido para vir tomar conta do bebé. Lá veio, lastimando-se: 'Pá... gostava de jantar...'. 

Resolvemos ir passear com eles: muita gente na rua, música, ambiente de festa. O meu marido com o bebé ao colo, eu agarrada aos dois que tremo de os perder de vista. Uma alegria para eles. Depois ela quis uma bandolete com luzes da kitty ou da minnie (não sei de qual) e ele uma espada com luzes. O bebé perdido de sono mas de olho aberto. Por ali andámos até que achámos que já tinham sentido o espírito de festa. Resolvemos regressar, os mais crescidos todos contentes e o bebé meio a dormir, meio a espreitar o que se passava.


Em casa, tentei adormecer o bebé mas está quieto. De cada vez que me via a querer pôr-lhe a chucha desatava a fugir. Os manos puseram-se a ver televisão. E ele a subir e a descer do sofá, a rir, a desafiar os outros. Peguei-o ao colo, embalei-o. E ele de olhos quase fechados, a adormecer. Mas, logo de seguida, cuspia a chucha, sentava-se, ria e aí vai ele a abrir portas, gavetas, a gozar, todo brincalhão. 

À meia-noite vieram os pais e ali estavam os três ainda a pé: a mais velha de bandolete a piscar, o do meio com espada luminosa e falante e o bebé a andar de um lado para o outro a rir. 

Depois estivemos à janela a ver o fogo de artifício porque daqui conseguimos vê-lo e, para eles, é sempre uma festa.

Ela contou-me qualquer coisa do Dia da Revolução, salvo erro que fez um desenho em que saíam cravos das espingardas. 


Queria ter cantado o Grândola mas eles já estavam com sono demais para isso. 

Há muitos anos foi esse dia 25 de Abril e tomara que todos os meninos saibam sempre como foi importante que tenha havido essa revolução que trouxe luz, alegria e esperança a este país que era cinzento, velho, baço, rançoso, sem futuro.

Ainda há muita gente que conserva esse espírito. E é pena. A democracia e a liberdade são coisas boas e é bom que a gente as respeite e preserve na sua pureza original. E é bom que as saibamos ir interpretando à luz da modernidade para que nunca se abra espaço para a sua negação.


Ensinei o bebé a levantar o punho quando eu dissesse 25 de Abril sempre mas, quando os pais chegaram, talvez por estar passado de sono, recusou-se a mostrar a gracinha. O meu filho gozou: 'Não te está a correr bem, mãe'. Mas aposto que hoje, bem dormido, deve fazê-lo. 

Gostava que os meus queridos cinco pimentinhas guardassem sempre, dentro deles, este slogan: 

25 de Abril sempre!


terça-feira, abril 24, 2018

Quando a arquitectura inspira e liberta os corpos


Faz uns anos descobri, e foi amor à primeira vista, a arquitectura de Luis Barragán. Os volumes, as cores das paredes conjugadas com os jogos de sombras, os pátios, as escadas, os reflexos de luz sobre as cores quentes das construções -- tudo aquilo me pareceu fascinante. 

Na altura em que pintava, muitas vezes me inspirei nele. Inúmeros quadros meus contêm apontamentos que são fruto das imagens que guardo da sua obra. Foi, pois, com surpresa que ao abrir o Youtube descobri que o querido algoritmo tinha posto toda a sua inteligência artificial em acção para me surpreender e agradar: um vídeo de dança através de um edifício Barragán. Maravilha.

Enquanto espero que os meus meninos cheguem, que hoje vai ser jantarada e festa rija com fogo de artifício e tudo (que o 25 não se pode fazer por menos), vou ver de novo e partilho convosco, transcrevendo a apresentação no Youtube:
Iconic Mexican architect Luis Barragan’s Casa Gilardi — an iconic modernist house in Mexico City — hosts a body-bending dance troupe who twist and move through the geometric building’s colorful spaces and rooms. Director Andres Arochi explains his interest in experimenting with the physicality of Barragan’s architecture: “I wanted to play around with and explore the architect’s design. He knew exactly when and where people stand, and how the combination of light and space makes them feel.” Continuing, he notes that:  “When we began shooting, magic started to happen. Light burst in through the window, and the dancer’s bodies started to flow in a way I had not anticipated.”


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O Padre Ray Kelly e a roqueira Jenny Darren


O Father Ray Kelly parece um santinho, tímido embora bem disposto, e apresentou-se nervoso embora querendo parecer à vontade.  A avózinha Jenny Darren parece uma crente da paróquia do padre, embora se perceba que há ali uma certa dose de irreverência. Apresentou-se avozinha da cabeça aos pés mas provou que quem vê caras não vê corações. Rapidamente se despiu de preconceitos e pôs o pessoal todo de olhos arregalados. Enquanto ele encantou com a sua voz sentida e de veludo, ela foi o contrário, bombou até deixar toda a gente ao rubro. Ele tem 64, ela 68.

Depois de ter escrito o que abaixo escrevi -- que não faz sentido alinhar os sonhos com o de outras pessoas já que isso pode significar abdicar deles a troco de nada e de ter partilhado o vídeo sobre isto de cada um ter o seu relógio da vida-- eis que me aparecem estes dois fantásticos vídeos. Vejam que vale muito a pena.
Passou-se no Britain's Got Talent 2018 deste fim de semana.
Ele interpretou Everybody Hurts dos R.E.M. Ela Highway To Hell dos AC/DC. Vejam (e ouçam), por favor, porque só visto (e ouvido). 




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E se ainda não leram o que escrevi abaixo, permito-me sugerir que o façam pois perceberão melhor o meu espanto ao descobrir estes dois espantosos cantores justamente logo a seguir a ter acabado de escrever o que escrevi. Ele há coisas, caraças.

E viva a vida!

Respeitar o tempo de cada um


Quando eu era menina, fui menina até tarde. Muitas amigas minhas já tinham maminhas grandes, corpo de mulherzinhas, já eram menstruadas, e eu ainda não. Pouco a pouco todas iam ficando 'senhoras', como na altura se dizia, e eu não. Aquilo começou a ser para mim uma ralação. Alegre e namoradeira como era, não me sentia diminuída junto dos meninos e, quando andava nessas andanças, nem me lembrava da minha preocupação mas, sempre que sabia que mais uma já era menstruada, aí sim, ficava com receio de que a mim nunca tal sorte me batesse à porta. Até que aos catorze anos, a caminho dos quinze, a coisa aconteceu. Foi por essa altura que 'deitei' corpo e que as minhas curvas começaram a desenhar-se. Depois disso, que me lembre, não voltei a sentir um verdadeiro receio de que alguma coisa não me acontecesse.

A nível da menopausa, já que falei na menstruação, foi o contrário: já toda a gente da minha idade tinha chegado à menopausa e eu ainda certinha e a ter que ter cuidados. Lembro-me de andar a fazer uma pós graduação e de, uma vez, ao almoço, dessa vez a mesa toda de mulheres, a conversa ser em volta disso. Uma vez mais, eu era a atrasada. Até uma colega com quarenta e poucos já andava a sofrer as agruras dos afrontamentos e dos enervamentos (dizia que tinha dias em que tinha vontade de esganar o marido, nem ela sabia bem porquê) e de uma outra da minha idade que se espantar comigo já que ela já estava livre de maçadas há vários anos. Nessa altura ocorreu-me: mas será que o meu organismo anda desfasado e que me vou manter menstruada até ser podre de velha? Mas não. Aconteceu e, como já aqui o referi, felizmente quase sem efeitos colaterais.

Mas isto para dizer que isto de a gente andar a comparar-se com os outros é um disparate: cada um é como é e o relógio não anda à mesma velocidade com todos.

O vídeo que aqui vou colocar e que Leitor amigo a aquem agradeço me enviou não é bem disso que trata.  Mas ocorreu-me falar nisto.

Também me ocorre que hoje de manhã, quando ia trabalhar e, pelo caminho, já ao telefone, numa conversa chatíssima, voltei a pensar que, um dia que deixe de trabalhar, quero começar uma outra actividade, uma coisa completamente diferente, uma coisa que me deve encher as medidas (ou, pelo menos, assim o antecipo). Pensei depois: vai ser tarde para começar uma vida nova, às tantas, quando lá chegar já não me apetece. Mas, depois, pensei noutras pessoas, algumas até bem sucedidas, que, justamente já tarde, iniciaram actividades diferentes e foi como se essa fosse a sua verdadeira vocação. Pensei, então, que o que é preciso é que haja saúde e motivação. E isto não é lugar comum. Com os meus pais aconteceu uma coisa terrível. Depois de se reformarem, tinham o meu avô paterno e a minha avó materna a dar-lhes água pela barba. Ou era um ou era outro e eles sem conseguirem uns dias de seguida descansados. Quando ficaram sem essas preocupações e começaram a ter uma vida regalada, teve o meu pai o AVC que mudou radicalmente a vida de ambos. Portanto, nem sempre as coisas correm bem. Mas, enfim, não vale a pena conversas fatalistas porque nunca se sabe o que vai acontecer pelo que mais vale não nos pré-ocuparmos. Mais vale mantermos viva a chama da esperança.

Mas vejam o vídeo e perceberão porque estou com esta conversa.


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segunda-feira, abril 23, 2018

Terra. Não morras.




Penso que já aqui contei que um dos primeiros livros que me fascinou, teria eu uns cinco anos ou seis anos, foi um livro sobre o mar com fotografias maravilhosas de peixes, corais, moluscos, algas. 


Primeiro lia apenas os seus nomes, achando graça ao curioso nome que aparecia por baixo. Mas, mais tarde, lia também as caracterizações biológicas daqueles seres que me encantavam. Durante anos folheei e li aquele livro. Era um mundo inacessível aos meus olhos, um mundo maravilhoso, quase mágico, onde vivia um peixe que se chamava peixe-balão, com corais, com cores e formas que eu nunca antes tinha visto.

Também já contei muitas vezes que, quando menina, o que eu gostava mesmo era de andar na rua, em especial no campo que havia perto da casa da minha avó materna ou na horta, atrás do meu avô paterno. 


Ou como gostava de ir com o meu pai ou com o meu avô apanhar amêijoas ou 'isco' para a pesca. Era uma praia que não era normal, era uma praia pedregosa com areia escura, onde havia sempre marisco, conchas maravilhosas, limos de cores e cheiros que a mim me pareciam inebriantes.

E, quem aqui me acompanha, estará farto de saber que, desde sempre, tive vontade de ter um bocado de terra que fosse meu. E saberão de cor e salteado como uma vez -- a minha filha já quase adolescente, o meu filho ainda miúdo -- encontrámos um pedaço de chão coberto de pedras e mato rasteiro e uma casa especial num canto e, todos, imediatamente nos apaixonámos. Saberão também como na minha cabeça se forjou um sonho e que não descansei enquanto não o transformei em realidade: ali haveria de nascer um pequeno bosque, com sombras, com pássaros. E durante anos plantámos árvores e arbustos e regámos e protegemos dos coelhos, dos ventos, das temperaturas extremas.


Por isso, não é novidade que é na natureza que habitam as minhas divindades, que é na natureza, que para mim, residem todos os mistérios do mundo. Se tenho algum sentido de religiosidade, ele advém sempre da contemplação da natureza, da adoração que tenho com tudo o que a ela se prende. Respeito os animais, as árvores, as pedras, a luz, as sombras, o canto dos pássaros, a chuva, as águas do mar e dos rios, o silêncio bom das noites de luar.

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Parece que foi Dia da Terra e eu, vagueando por alguns sites, descobri estes vídeos que me apetece partilhar convosco.

Se há coisa que verdadeiramente receio é que os meus descendentes, os que já existem e os que existirão, possam não vir a conhecer o mundo belo e puro como eu ainda tive e tenho o privilégio de conhecer.








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E queiram ir deslizando por aí abaixo caso vos apeteça acompanhar-me nos meus passeios deste fim de semana.

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Onde é? Onde é?


Pronto. Vou direita ao assunto. Começo por mostrar uma imagem linda que vi numa loja que tem umas peças que me levaram a lamentar ser domingo. Mas, por aí abaixo, vou desvendando imagens que, aos poucos, vão revelando mais e mais. A última, então, é inequívoca.












Coruche, pois então.

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E queiram continuar pois, abaixo, há mais dois posts sobre esta terra.

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domingo, abril 22, 2018

Dou uma ajudinha com mais umas fotografias: que vila é esta com todas estas escadarias...?



Há bastante tempo que, quando se falava nesta terra, eu pensava: tão perto e, parece impossível, nunca lá fomos. Por isso, este domingo, quando o meu marido percebeu que eu tinha acordado (depois de ido dar uma volta e de, regressado, já ter estado a ver televisão), foi ter comigo para decidirmos o programa de hoje. Já que estávamos sem compromissos, falámos, então, em ir até lá. 


E lá fomos. Parecia que estávamos longe, longe do bulício da capital e, no entanto, tão perto. Planície, planície, planície. Regadio, regadio, regadio. 

Até que chegámos. 


Tal como disse em relação a Salvaterra, também aqui não me deslumbrei. Tem sítios bonitos mas, confesso, não de uma pessoa ficar enlevadíssima. Mas tem uma coisa que sempre me agrada: não tem trânsito, não tem barafundas. Não vimos um único turista. Andei pelo meio das ruas, olhando, cirandando e não corri riscos: poucos carros passaram.

Há casas grandes, muito bonitas e o sossego deve ser uma constante. Que diferença quando comparado com os lugares que frequento e em cujas ruas desperdiço grande parte da minha vida.

E escadinhas, escadinhas que vão até lá acima. Não subimos porque não íamos preparados para uma de Bom Jesus ou de Montmartre mas agora, vendo as fotografias, fiquei com pena. 


 Acho que, um dia que lá voltemos, iremos peregrinar escadaria acima para visitarmos o Santuário.

E já sabem onde estive, Caríssimos?

E agora, meus Caros, só por estes graffitis conseguem adivinhar onde é que estive esta manhã?



A primeira, a de cima, não é muito elucidativa. Só as pessoas de lá ou que já por lá passaram é que devem conhecer.


Esta, aqui acima, já diz qualquer coisa sobre a terra.


E a terceira diz muito. Onde é, onde é? 

Um bombom* a quem descobrir por onde andei hoje

E o bombom vai para... o PB* que acerta sempre.
Salvaterra de Magos


*Um bombom virtual, claro. Um bombom imaginário, let us say. Quando fizer um post a seguir a este, venho a aqui e mudo o título do post para o nome da terra que visitei. Mas agora deixo em branco para quem quiser adivinhar.


Não fiquei de queixo caído com a terra mas, admito, deve ter sido porque foi uma rapidinha e, nas rapidinhas, sabido é, a coisa não dá para percorrer todos os acordes, de a a z. Portanto, não tenho muito para mostrar. Mostro apenas um lugar delicioso, um daqueles lugarzinhos onde apetece estar a olhar. Tem aquele misto de beleza natural, decadência, inocência, mistério, cor, canto de pássaros e sossego que faz qualquer alma palpitar de promessa de felicidade.









Já agora: nesta fotografia, onde está o Wally?

*O Leitor PB, que me surpreende sempre, voltou a a certar. Enviou-me um mail a dizer o seguinte: Então andou a explorar a cultura avieira, pelos lados de escaroupim?

Elegância e beleza no sobe-e-desce do Chiado




Pronto. Desvendei. De resto, presumo que também já tivessem adivinhado onde eram as montras que mostrei no post abaixo. Chiado.

As ruas mais turísticas estão pejadas de gente. Muitos grupos em filinha de pirilau por aqueles passeios estreitinhos seguindo um guia que vai à frente com o braço ao alto e uma tabuleta com um número. Vários grupos de gente asiática, muitos americanos, brasileiros all over, franceses, o que queiram.  Todas as línguas do mundo. Uma torre de Babel. E muita gente jovem. Muitos casalinhos, jovens e não jovens, a puxarem a sua maleta com rodinhas. Gente, gente, gente. 

Eu -- que gosto tanto de gente diferente e que acho que gente de origens díspares só enriquece os lugares, que sou fervorosa adepta da miscigenação -- vendo tamanha avalanche (e isto num dia de Abril, meio chuvoso), comecei a pensar que lá mais para o verão a coisa pode mesmo ser excessiva.


Para fugirmos aos passeios pejados de gente, deslocámo-nos para as ruelas, escadarias e recantos menos badalados e, aí, ainda se conseguiu aquele recato bom daqueles lugarzinhos que são dos mais bonitos de Lisboa.

Fotografei também gentes. E o Chiado tem isto: mulheres elegantes que, como que aparecidas do nada, atravessam as ruas, atravessam as multidões, e caminham sedutoramente. Podem ser belas toilettes, pode ser beleza natural, pode ser a graça do conjunto, mas há sempre um desfile interessante de observar por aqui. Agora coloquei apenas a fotografia lá de cima pois prefiro não mostrar o rosto mas, não fora esse meu cuidado, muito mais pessoas poderia mostrar. Pela Rua do Carmo, pelo Largo de S. Carlos, pelo Camões, por todos essas ruas e largos, há gente que dá gosto contemplar.

Mas, pronto, fico-me pelos candeeiros, pelo Tejo que se avista ao fundo com os seus veleiros e veleirinhos, pequenos pontos brancos num rio amansado, fico-me pelos céus onde se desenham os arabescos dos cabos que alimentam os 'eléctricos'.


E tuc-tucs. Omnipresentes. De todos os tamanhos, cores e decorações. Mas agora, para vos mostrar, escolhi esta fotografia aqui abaixo com os GoCars. São muito engraçados estes carrinhos e, não sei exactamente porquê, as pessoas que vão neles (de capacete) vão sempre a rir, ar feliz da vida.

Parece que os carrinhos assobiam, contam anedotas e mais não sei o quê. Na volta é isso que faz rir os seus condutores.


Como é bom de ver -- e como os meus Leitores já estão fartos de saber -- ando sempre de máquina fotográfica em punho e por todo o lado vejo coisas ou pessoas que despertam a minha atenção ou que me encantam.

Quando chego a casa e revejo o que os meus olhos viram, penso sempre que estou a acumular milhares de fotografias que ninguém vai alguma vez ver e que eu própria, que gosto é de fotografar e não de ver fotografias, também jamais me darei ao trabalho de rever. Há qualquer coisa de irracionalidade nisto mas, enfim, fazer o quê? Pertenço ao sub-gupo dos humanos irracionais e está tudo dito.

E mesmo, quando quero escolher algumas para aqui, à laia de diário, ilustrar o andamento dos meus dias, tenho tantas por onde escolher que a coisa não é fácil. Por vezes, uma verdadeira seca, tantas elas são. 

E não quero pô-las a eito, tento encontrar uma linha comum entre algumas para que haja alguma coerência no post. No de baixo, escolhi as que tinham a ver com montras. Aqui resolvi escolher as que evidenciam a orografia de Lisboa: ruas inclinadas, escadinhas a unir as ruas, o rio lá em baixo. E juntei uma mulher para mostrar a elegância desta cidade que amo de coração. Mas, acreditem, podia ter inventado muitas outras combinações. O Chiado é lindo demais seja qual for a perspectiva pela qual o olhemos.


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E queiram, meus Caros Leitores, continuar a descer porque, já a seguir, há mais Chiado.

E agora é para ver se adivinham por onde andei eu a ver as montras




Não foi propriamente uma passeata mas, mais, uma flanagem. Não saímos cedo. Dormi até tarde. Depois ainda fui à ourivesaria buscar o meu relógio que estava para pôr uma pilha e à sapataria para ir comprar uns sapatos azuis escuros de salto alto. Tenho uns mas são com a parte de cima em rendilhado, esburacadinhos e, com algum frio, não dão muito jeito e os outros, os que uso mais, em camurça em dois tons, estão já um bocado coçados. Não queria nem muito afilados nem com salto muito alto mas, logo por coincidência, os que me ficaram melhor foram justamente assim. Trouxe-os na mesma pois visto-me muito em tons de azul e estava mesmo a precisar.

Depois ainda fui comprar fruta e legumes e pôr tudo a casa. Portanto, já não foi a horas decentes que saímos. Mas foi bom na mesma, deu para o que deu; e chegou.


O meu marido foi pelo caminho do costume mas eu discordei, achei que mais valia ir por outro lado.  Seria mais seguro em termos de trânsito e de estacionamento. E, de facto, não vos digo nada. Por pouco não tive que lhe dizer que, como se provava, eu tinha razão. Mas não disse. Agora uma coisa vos digo: tanta gente, tanta, tanta. Isto vai em crescendo. Aqui, no post, para vos mostrar, tenho essencialmente montras e não propriamente pessoas mas acreditem em mim: magotes. De todas as nacionalidades. 

Comentámos: tomara que não tenham razão os que temem um fenómeno de gentrificação por estas bandas.


Mas não andei apenas a ver montras. Na loja acima entrei mesmo. Tenho várias peças daqui e, se passo perto, não resisto a espreitar as novidades.

Desta vez trouxe uma menina cheia de flores. Uma graça. Se o meu marido já tivesse espetado um prego resistente para a pendurar, fotografava-a para vos mostrar. Mas ainda não. A ver se não vai andar a encanar a perna à rã, a fazer-se esquisito ou a inventar desculpas para não tratar do assunto. Se fosse um prego normal eu ainda me arriscava. Mas acho que é melhor com bucha, tem que ser com berbequim e, com isso, não me ajeito. Por isso, agora está deitada ao lado do Stº António, à espera -- e, claro, não vou fotografá-la assim nestas intimidados com um santo.


Depois fomos almoçar a um dos magníficos restaurantes do Avillez. Sempre bom. Boa comida, bom serviço, bom ambiente.

Ao nosso lado, duas brasileiras. O que elas conversaram, o que elas se auto-fotografaram, o que elas comeram e beberam, a graça do que diziam, tudo aquilo era razão mais do que suficiente para me apetecer ficar ali a vê-las e ouvi-las. Uma vive cá, a outra está de férias. Meninas com alto poder de compra, pelo que me foi dado perceber. O meu marido, volta e meia, alertava-me para não me pôr a observá-las tão descaradamente. Mas elas estavam tão focadas uma na outra e na conversa e nas fotografias que tiravam que nem deram por mim. Oh língua gostosa este nosso português enfeitado de cor, perfume e sabor do Brasil. Quando nos viémos embora ainda elas iam a meio do almoço, tão vagarosas estavam a ser, tantas as vezes que paravam para se fotografarem, para escreverem no telemóvel, para mostrarem fotografias uma à outra, para conversarem. Só me apetecia filmá-las. Uma novela, aquelas duas.


Depois fomos para onde vos mostrei abaixo e que espero bem que tenham adivinhado onde é

Para a Gulbenkian, of course. Patos, patinhos, um ovinho no meio das folhas debaixo de umas árvores, os meninos sempre contentes naquele espaço. Mas também exposições, um lanchinho dos bons, livros (ofereci 'O Leopardo' à minha filha, embora não seja a mesma tradução e a mesma versão que o meu amigo me ofereceu), conversa em dia, boa disposição, convívio bom daqueles que aconchega o coração de uma carangueja com ascendente de caranguejo (conversámos de signos, com os meninos a quererem perceber o que é isso dos signos e com um deles a dizer que o dele não é carneiro nem leão nem nada disso, é dragão. Como é bom dever, agora deu em dizer que é adepto do Porto. Lá lhe explicámos que os signos não têm nada a ver com isso, que não há dragão nenhum nos signos. Não pareceu muito convencido.)


E a ver se ainda cá volto que tenho mais para vos mostrar

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