sábado, fevereiro 04, 2023

A bichectomia e outras faces do minimalismo estético

 

Depois da moda dos implantes para ficar com o rabo alçado, dos implantes para ficar com tetas de vaca leiteira, dos implantes nas bochechas para ficar com maçãs mais redondas e saudáveis que as saloias, dos implantes ou injecções nos lábios para ficar com uma carnuda boca de pato... eis que a moda deu meia volta e arranjou maneira de não faltar trabalho às clínicas de intervenção estética.

Como se sabe isto não chega de imediato às bases. Pode acontecer que a última camada ainda ande a fazer economias e pesquisas para ver onde insuflar a bom preço e a prestações e já ande a camada de topo, aquela para quem o dinheiro não é tema, a retirar tudo o que pode. Maminhas e rabinho andróginos, cara ossuda, lábios finos.

Quem as viu todas carnudas e generosas e agora todas minimalistas... 

A última aprendi-a agora: a bichectomia, isto é, retirar as bolas de Bichat. Nem sabia que as tínhamos. Pois, as bolas de carne que, com o peso da gravidade, descaem deixando a malta com ar de quem está a deslassar. Carne ou gordura? Respondo: nem carne nem bolas. Mais concretamente: pequenas bolsas de gorduras localizadas na região da bochecha, as glândulas de Bichat.

Supostamente, retirando as ditas coisinhas de nome bichano é como se houvesse um lifting instantâneo. 

Agora olha-se e estranha-se mas, um dia destes, é um novo standard. Quando nos olharmos ao espelho até vamos pôr as bicholas para dentro dos dentes para ver se ficamos mais nos conformes, com este moderno ar levemente esfomeado.

Contudo, nada de decisões precipitadas. Transcrevo

A decisão merece consideração. "Primeiro, porque é irreversível: se retirarmos as bolas de Bichat, elas voltarão ao sítio'", adverte o doutor Bergeret-Galley. E depois porque a operação é desconfortável e dolorosa; sem esquecer os riscos que isso acarreta. “Além de pequenos sangramentos, pode haver especialmente paresia. De facto, há um pequeno ramo do nervo facial que fica logo à frente da bola de Bichat, e pode-se sentir um entorpecimento nesse nível durante um certo tempo. Por fim, o médico salienta que o resultado nunca será perfeitamente simétrico e que pode acentuar a diferença de espessura das duas bochechas."

Ele há coisas. 

sexta-feira, fevereiro 03, 2023

Um amendoim verde entalado no cu do padre

 

Remeto-me à dimensão caseira: greve de professores, tamanho dos palcos e da pacóvia mania das grandezas -- tudo na mesma. O tempo passa, o ano lectivo avança e os alunos vão tendo aulas quando têm porque, no resto do tempo, voltam para casa ou andam aos caídos ou no forró durante os furos; e, não tarda, está a chegar o Papa e mais a multidão de pecadores que aí vem danada para se confessar e curtir e a malta ainda por aí anda a cacarejar acerca dos projectos, dos orçamentos, sobre quem é o  coordenador e sobre toda a barafunda que se armou. Até a múmia parece que continua na mesma, a aparecer quando a gente já nem se lembra dela. Deve vir dar mais uma lição daquelas dela, daquelas com que ninguém aprende o que quer que seja e em que toda a gente fica indisposta. Toda a gente menos a sua senhora, dona pespenica excelentíssima, que essa, habituada ao fel que escorre da boca do amado esposo, acha sempre tudo o máximo e, na volta, até parirá inspirado poema. Ámen.

Portanto, não havendo novidades a festejar, depois de atirar papelinhos dourados para cima do fantástico Tom Ball, agora dou a palavra a quem quase morreu duas vezes sem que alguém tivesse dado por isso. Se fosse essa a hora, teria ido mesmo, uma afogado à beira de água entalado entre um caiaque e uma lata de cerveja e outra asfixiado com um amendoim verde entalado no cu do padre*. Entalanços como sina. O tema, tendo o seu quê de religioso, aconselharia a alguma fé mas, ainda assim, acho que é mais de ver e ouvir para crer.

Augusto Madeira quase morreu duas vezes e ninguém viu! 

| Que Historia É Essa, Porchat?

* Melhor escrevendo:  'Cu do Padre' -- e agora não sei se o cu do padre fica melhor com ou sem aspas...

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E queiram, por favor, descer mais um pouco, ok?

Golden Buzzer para Tom Ball

 

Um jovem tímido, humilde, com um vozeirão que as percorre todas sem pestanejar, das altas às baixas, das graves às agudas, das rápidas às prolongadas. Golden Buzzer sem hesitação a todas as mãos.

The Sound of Silence

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Uma boa sexta-feira
Saúde. Boa sorte. Paz.

quinta-feira, fevereiro 02, 2023

Não faço a mínima ideia de quem eram os meus antecessores.
Seria interessante conhecer as minhas raízes?

 


É verdade e já várias vezes aqui o referi. O passado não me interessa. Há algum tempo a minha mãe queixou-se que só tardiamente soube onde tinha sido baptizada porque a sua mãe não ligava a nada disso e pouco conversava sobre esses aspectos. Fiquei muito admirada. Disse-lhe: 'Eu também não sei onde fui baptizada, também nunca me contou'. Ficou desconcertada. Depois disse-me onde tinha sido como se eu devesse saber. E eu, como de facto, também não ligo, esqueci-me no momento seguinte.

Também sei que ele e a minha mãe tinham inúmeros primos, grande parte deles espalhados pelo país e pelo mundo mas também nunca me interessou saber que é feito deles. De uns ou outros tenho fugazes ideias, chegaram a ir visitar-nos ou às minhas avós mas sempre foram vidas tão diferentes e longínquas que nunca investi o meu interesse.

Mas lembro-me de um evento singular. Havia uma prima com quem a minha avó materna se dava muito. Não sei se era prima direita daminha avó ou da minha mãe ou se era filha de alguma prima direita. A minha avó era muito nova. Teve a minha mãe, acho, com 16 anos. Encobriu a sua verdadeira idade creio que para parecer que tinha sido aos 17. Só quando morreu é que isso foi descoberto. Toda a vida festejámos os seus anos numa data errada.

Fui ao casamento dessa prima. Devia ir pelos trinta ou trinta e picos quando se casou. Aliás devo ter sido, uma vez mais, a menina das alianças. Depois teve uma filha, por sinal muito bonita.

Até que um dia um burburinho, conversas a meia voz. A minha mãe, a minha avó, uma das minhas tias. Já eu devia ser quase adolescente. Percebi que havia um segredo prestes a ser revelado. Não sei como, presumo que foi trama cujo conhecimento me foi subtraído, o que sei é que a minha avó tinha recebido uma carta, tinha havido troca de correspondências. E que ia haver um encontro intermediado pela minha avó, em sua casa. A dita prima, o seu amoroso e dedicado marido e uma jovem mulher, já casada, espanhola. Sua filha. Toda a gente para morrer.

O encontro deu-se, contou a minha avó que foi muito emotivo, o marido da prima aceitou aquela mulher espanhola que diziam ser belíssima, muito parecida com a sua irmãzinha portuguesa.

Tinha vindo também com o marido, com um filho bebé. Foram conhecer os meus país a nossa casa. Era, na realidade, um espanhola toda ela sentimento e emoção, encantada por ter encontrado a família portuguesa que procurava há tanto tempo.

Nunca mais soube dela. Se calhar a minha mãe sabe. Eu não. Esqueci-me.

Sobre os meus avós, maternos e paternos sei que vieram do Algarve. 

O meu avô paterno, um aventureiro que em adolescente, tendo o pai fugido do país, andou por Espanha e por França e que me encantava por falar francês, tinha traços orientais,

A minha avó paterna, algarvia típica, relativamente baixa, senhora do seu nariz, tomava decisões sozinha que deixavam o meu pai furioso, em especial quando vendia terrenos, casas, propriedades em zonas que já estavam a bombar. Decidia que não queria chatices e desfazia-se de tudo, quase sempre a preços irrisórios. Lembro-me da estupefacção e irritação do meu pai e dela se estar a marimbar. O meu avô também. Eram coisas que tinham sido herdadas por ela, que fizesse o que quisesse. Até nisso a sua calma era oriental.

É do lado dessa minha avó, que tinha vários irmãos, que conhecemos mais tios e primos mas, apesar disso, a maioria anda pela Austrália, pela França e sabe-se lá por onde mais.

O pai desse avô foi o senhor morgado que, tendo perdido tudo no jogo e nas 'mulheres', partiu para a Argentina (ou para a Venezuela) sem se despedir ou deixar algumas indicações. Durante décadas ninguém o procurou nem ele procurou a família. Perdeu-se-lhe o rasto.

Do lado da minha mãe havia o pai dela, invulgarmente alto, invulgarmente muito louro, com olhos invulgarmente azuis. Não faço ideia das suas origens nem da sua família. Morreu novo, num horrível acidente. Presumo que se tenha pedido a ligação à sua família.

Da mãe da minha avó materna era prima de um presidente da República e já contei que, quando morreu, vi correspondência dessa bisavó com primos algarvios, invulgarmente cultos e divertidos. Não sei onde param essas cartas. Essa minha avó teve vários irmãos, um dos quais lutador pela democracia que viveu entre prisões, deportações e clandestinidades. Mas sobre as origens mais para trás não faço ideia.

Quando vejo estes vídeos em que é revelada a geneologia até tempos longínquos a pessoas que não faziam nem ideia, fico a pensar como seria a minha reacção se descobrisse coisas das quais nunca sequer suspeitei. Faz diferença a gente conhecer as nossas raízes mais profundas? Não sei. Diria que não. Mas sei lá.

Jeff Goldblum reacts to Family History in Finding Your Roots | Ancestry


Um dia bom
Saúde. Rápidas melhoras a quem delas precisa. Paz.

quarta-feira, fevereiro 01, 2023

Alô, alô Senhores Professores!
Se não estão contentes porque não se mudam?
E o Presidente Marcelo não é capaz de mostrar um peremptório STOP às brincadeiras do André Pestana & Cia...?

 

Acabei de ouvir uma exaltada professora a queixar-se que vive em Portalegre e trabalha em Elvas (ou vice-versa, não fixei), tendo que fazer diariamente salvo erro uns 100 km. Mas se não tem vaga ao pé de casa e só arranja vaga ali o que é que ela quer que se faça? Que inventem vagas?

Se aquele local de trabalho não é compatível com a vida que quer, porque não tenta arranjar outro trabalho ao pé de casa?

Durante anos fiz cerca de 150 km por dia. A empresa em que eu trabalhava mudou-se para ali --  e o que é que eu podia fazer? Aliás, podia. Podia despedir-me. Mas optei por não fazê-lo. Agora não me ocorreu fazer greve ou vir para a rua maçar os outros.

Na empresa a que tenho estado ligada nos últimos tempos é normal haver necessidades de pessoal que não se conseguem preencher com mão de obra local. Por isso, ou vai para lá alguém já da empresa que vai e vem todos os dias (há casos de quem faça 300 km por dia) ou se contrata alguém que para lá queira ir, mesmo que morando longe. Isto é normal, banal. Claro que volta e meia temos demissões de pessoas que não aguentam trabalhar muito longe de casa e resolvem tentar outro rumo na sua vida. Compreensível. 

Mas qual a alternativa: deixar que as pessoas que vivem mais longe dos lugares mais apetecíveis fiquem sem serviços, ao abandono? No caso dos professores: deixar os alunos que vivem em lugares mais remotos sem escola?

Agora estes professores que aqui vejo na maior baderna parece que vivem noutro planeta, esquecidos que problemas maiores ou iguais aos deles há por todo o lado, em todas as profissões. 

Querem ser professores no ensino público,

(mas, se não estão satisfeitos no público, porque não tentam dar aulas em colégios privados? será porque não há vagas...? Ah pois, acontece...) 

e, ainda por cima, querem todos chegar ao topo da carreira. Querem tudo, o melhor dos mundos. E ainda estamos com sorte por não quererem ser todos presidentes da República com local de trabalho ao fim da rua.

Ouço-os e só penso que ainda os havemos de ver a protestar nas ruas, negando aos alunos o direito a terem aulas, só porque querem que o Ministério da Educação lhes lave o rabo com água de malvas.

Não há ninguém que ponha juízo na cabeça destas pessoas? 

O Presidente Marcelo, que tanto fala a propósito de tudo e de nada, não é capaz de fazer uma intervenção na comunicação social, em prime time, mostrando como estas pessoas estão a degradar o ano escolar e a comprometer os hábitos de estudo dos alunos e, ainda por cima, a degradar -- se calhar irreversivelmente (pelo menos nos próximos anos) -- a imagem dos professores?

Acho que devia.

Vejo isto a progredir, sem ninguém dar um 'basta!', e fico seriamente preocupada. 

Vejo o efeito num dos meus netos. Está sempre na perspectiva de não haver aulas. Greve, greve, greve, escola fechada, falta um professor, falta outro, greve, greve. A sério: que impressão que isto me faz. Não há pachorra! 

Já não bastava o eterno Mário Nogueira, sempre com ameaças na boca, sempre a mostrar que a última prioridade dos professores são os alunos. Agora aparece este André Pestana que é um verdadeiro populista. Li que, há algum tempo, ganhou uma bolsa de doutoramento para ir fazer um trabalho de investigação na Amazónia. Imagine-se. Parece anedota. Não sei como funcionam estas bolsas mas, na volta, parte dela foi paga com trabalho meu cujo remuneração, em vez de ir para mim, foi directamente para impostos, para pagar disparates destes. 

E, já agora, uma pergunta: enquanto viveu à conta a investigar na Amazónia, o líder do STOP veio para a rua agradecer a rica vida que o Ministério da Educação lhe proporcionou? Ou esqueceu-se disso? 

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Um dia bom

Saúde. Juízo. Paz.

terça-feira, janeiro 31, 2023

Com as minhas limitações... claro que tenho que estar numa mais contemplativa

 

Continuo presa à minha maleita e, escrevendo isto, constato que uma desconcertante e escusada transformação está a operar-se em mim. Antes sofria em silêncio, disfarçava, escrevia sobre o que calhasse mas nunca sobre o que me apoquentasse, fosse doença minha ou alheia, preocupação profissional ou outra e, mesmo, perda. Só falava, e era se falasse, quando tinha passado e o desfecho estava bem assimilado.

E agora estou nisto, a relatar dores e maleitas em tempo real. Talvez seja uma fase e espero bem que seja passageira pois falar das minhas agruras não faz o meu género.

E isto para dizer que dormi pessimamente, sem posição, com dores. Por isso, passei o dia reclinada e a perna elevada, sobre almofadas. E certifiquei-me que tomava mesmo o anti-inflamatório. E, de quando em quando, gelo. 

[E agora, ao ler o comentário do Corvo, já fiquei na dúvida. Acho que o gelo não está a fazer-me bem. Aliás, quando o ponho, ficou com dores bem insuportáveis. Se calhar, amanhã vou reconsiderar].

Mas não sinto que esteja a ficar famosa. Não consigo assentar o pé no chão, não consigo dobrar a perna, tenho dores e o joelho está deveras inchado.  Estive prestes a chamar o meu marido para me calçar a meia daquele lado. Não chamei mas fiz uma ginástica que só vista e que me encheu de dores. Mas foi ele que fez o jantar (e ficou óptimo). Detesto dar trabalho mas a verdade é que estou incapacitada. Tenho esperança que amanhã comece a melhorar.

Aproveitei para ler. Do sofá, deslizei até ao parapeito e peguei no livro em que a Sharon Stone fala da sua vida, incluindo do AVC que a ia matando e da reviravolta que a sua vida sofreu depois disso. Papei-o todo.

Quem anda deveras intrigado com o meu estado, em especial com a minha quase inexistente locomoção, de canadianas e a arrastar uma perna que não consegue endireitar-se, é o ursinho felpudo. Olha de alto a baixo e, quando vê que estou  observá-lo ou quando lhe digo: 'não percebes o que se passa com a dona, não é?', desvia o olhar, põe-se a olhar para outro lado. 

Há bocado queria levantar-me do sofá e não conseguia. Fiz diversas tentativas mas não conseguia. Frustrada, chamei o meu marido mas estava lá para dentro, não ouviu. Então disse ao meu cão de guarda, que me olhava com ar preocupado a tentar equilibrar-me e sem força para o fazer com esta perna inchada e dolorosa, 'vai chamar o dono, está bem?'. E ele, acto contínuo, foi e chegou à porta da divisão em que ele estava e deu um sonoro latido. Não foi ladrar, foi mesmo chamar. Fiquei espantada e comovida. Meu amiguinho.

Tirando isso, vi a entrevista do Costa mas, confesso, um bocado desatenta. Como quase não consegui dormir de noite, passei o dia a querer dormitar. Detesto estar assim, caraças.

Há bocado, dei uma circulada pelas notícias e nada me interessou a ponto de aqui querer comentar. A única coisa que me interessou foi ver esta casa maravilhosa aqui abaixo no meio da mais maravilhosa natureza. Mais do que a(s) casa(s) de uma família, é também uma bela pousada. O vídeo é muito bonito.

Qualidade de vida: A decisão de se mudar da cidade para o sítio da família 

| Lar: Vida Interior

Vanda Ferraz teve a decisão que muitas pessoas sonham a vida inteira: sair do centro urbano e viver mais perto da natureza. O sítio de Petrópolis, no Rio de Janeiro, foi o refugio para que esse sonho se realizasse! Para poder viver de forma mais tranquila e ainda conseguir obter uma renda, o sítio também virou pousada! 


E para quem como eu anda mais por casa e não viajando, um vídeo que mostra lugares extraordinários. Começa logo com a nossa Madeira. E que imagens fabulosas ele nos mostra.

Top 10 lugares para visitar em 2023 

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Fotografei as florzinhas com o telemóvel por dentro das janelas. Na primeira até dá para ver a cortina do quarto reflectida no vidro.

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Um dia bom
Saúde. Rápidas melhoras a quem delas precisa. Paz.

segunda-feira, janeiro 30, 2023

Post desinteressante sobre a minha maleita

 



Calhou, a semana passada, ter que andar muito a pé. E, dito isto, se forem como o meu marido, corrigir-me-ão lembrando-me que, pelo menos na sexta-feira, se andei cerca de 20.000 passos, foi porque quis. Certo. Pelo menos uma boa metade foi isso. Ninguém me obrigou. Aliás, ele bem tentou atalhar. Mas eu estava numa de urbana e o frisson das montras, das luzes, das esplanadas cheias, da gente a sair dos trabalhos, tudo aquilo me pareceu demasiado sedutor para lhe virar costas. E só não andei o dobro porque vi que, para meu desconsolo, a Casa dos Gelados estava fechada. Senão teria continuado Avenida de Roma abaixo e, depois, dali, a pé, debaixo de um frio hostil, de volta até lá bem acima, ao topo da Rio de Janeiro. Isto depois de ter andado cerca de uma hora a bater perna na Avenida da Igreja e para cima e para baixo -- naquelas transversais que fazem de toda aquela zona até ao Mercado de Alvalade um bairro que tem tanto de tradicional quanto de moderno.

Creio que já contei que noutra vida resolvemos viver por aquelas bandas e, depois de muito escolhermos, encontrámos uma casa ampla com seis grandes assoalhadas e o luxo de um pequeno logradouro devidamente ajardinado. Isto para além de estar perto do jardim de Alvalade. Pensámos que nos tinha saído a sorte grande. Não esperávamos era o boicote concertado dos meus filhos. Não conseguiam ver-se afastados dos amigos, dos lugares que frequentavam, nem ela do namorado, nem ele do pavilhão desportivo onde treinava. Uma crise... Queríamos morar numa casa mais ampla, mais perto dos nossos trabalhos, num lugar de que gostávamos muito. E nunca nos passou pela cabeça que, para eles, fosse tamanho o drama. Abandonámos a ideia, claro. Nunca poderíamos ser felizes se os nossos filhos se sentissem infelizes.

Algum tempo depois ela mudou de namorado, ele passou a praticar outro desporto e quando entraram para a universidade estariam muito melhor ali. Se calhar a casa era a acertada, o momento é que ainda não era. Mas, pronto, fizemos-lhes as vontades e nunca se sabe se a vida que escolheram teria sido essa se nos tivéssemos mudado para aquela bela casa.

Contudo, toda esta zona desde a Guerra Junqueiro, Roma, Igreja, Alvalade e por aí, in between, é e será sempre para mim um lugar de eleição.

Mas isto para dizer que na sexta-feira andei bastante com um frio desgraçado. Já na quarta feira à noite, por razões que não vêm ao caso, tinha feito quase outro tanto num sobe e desce de ruazinhas para cima, ruazinhas para baixo e, identicamente, sob um frio que penetrava até às entranhas, até à medula das articulações.

E no domingo anterior, em que andei também a caminhar, usei uns ténis que vi logo que podiam ser bonitos mas, para caminhada, nem pensar.

Resultado: estou aflita de um joelho. Quando a coisa se anuncia assim forte só lá vai com um anti-inflamatório potente mais gelo e perna estendida. Mas calhou, no sábado, irmos passar o dia ao campo. Por isso, não havia como estar com aqueles sacos congelados nem havia anti-inflamatórios. E ainda andei um bocado. Portanto, ao fim do dia estava péssima. Ontem à noite, para além das dores, sentia-me até febril.

Este domingo foi passado no bem bom, perna estendida, gelo, medicação e... canadianas. 

Ao jantar pedi ao meu marido que fizesse o favor de me ir buscar os comprimidos. Como estava a ver o Paulo Portas e conversando, no fim não sabia se tinha tomado ou não o comprimido. Como estou com a dosagem máxima não me arrisquei a tomar outro. Agora estou aqui a rezar a todos os santinhos que já o tivesse mesmo tomado, senão amanhã não apresentarei melhoras. O meu marido não me apenas me recrimina por achar que tenho andado demais, ainda por cima já não me sentindo muito católica do joelho, provocando esta lesão, como se aborrece por achar que sou cabeça no ar. Amofina-se todo por eu não saber se tomei ou não o comprimido, diz que tenho que passar a prestar mais atenção a estas coisas. Pois tenho. Mas só me apetece dizer-lhe: tarde piaste. Deveria era, antecipadamente, forçar-me a fazer as coisas sem ser en passant. 

Enfim.

No sábado, a minha filha, ao ouvir-nos, dizia que qualquer dia estamos como os marretas, sempre a implicarmos um com o outro. Não digo que não. O que nos vale é que não temos pachorra para andarmos aborrecidos e, portanto, as implicações são sempre sol de pouca dura.

Mas estou lesionada, o joelho um bocado inchado e a doer-me. De tarde estiveram todos na praia, mega jogatina na areia e depois lanche na vila, e eu a roer-me, danada para pegar nas canadianas e ir pôr-me lá a vê-los mesmo que de longe. Para a areia seria impossível de todo. Mas o meu marido tirou-me isso da ideia. E nem teve que se esforçar muito pois quando estou com o joelho assim fico incapacitada de todo.

E, portanto, é isto. 

(E, afinal, todos os males fossem estes, não é?)

[E aqui chegada penso que o mal do joelho já deve ter chegado à cabeça. Senão a que propósito escreveria eu um post a falar de uma treta destas? Desculpem-me, ok? Isto passa]

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Pinturas de Paula Modersohn-Becker na companhia de uma valsa primaveril atribuída a Chopin, muito apropriada sugestão do Ccastanho a quem agradeço.

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Uma boa semana a começar já em beleza esta segunda-feira

Saúde. Boa sorte. Paz.

domingo, janeiro 29, 2023

Ao sol até que se está bem mas de manhã e à noite está um gelo... um gelo...
Embora, claro, nada a ver com estes amigos aqui abaixo

 

De manhã, o carro coberto de gelo. Tivemos que lhe pôr água em cima mas por mais que uma vez pois voltava a congelar. Quando regressámos, ao início da noite, 3º. Agora certamente menos que isso. Contudo, de dia, ao sol, esteve-se bem. Eu é que nem por isso. Mas passa.

Mas, quanto ao frio, o que será debaixo de neve, com dezenas de graus negativos...? O corpo humano é resistente. Por vezes tão frágil, por vezes quase imbatível.

A dura vida dos nómades Chukchi no Ártico. Sem gadgets, sem mimos


Tomar banho ou ir à casa de banho com -50º...?


Um dia bom
Saúde. Boa sorte. Paz.

sábado, janeiro 28, 2023

Uma inesperada capa em rosa chique, uns saudosos pastéis de massa tenra, palcos para todos os gostos e, para se ver o que é bom, a casa de um mafioso viciado em sexo (salvo seja, claro)

 


O dia não foi fácil, cheio de imprevistos e stresses. Mas, a bem da verdade, o que tenho a dizer é que se lixem as dificuldades quando o desfecho é feliz. 

A saber: apesar de já noitar, andando ali para as bandas da Avenida da Igreja da boa memória, ei-la feliz da vida a flausinar pelas montras, a velha graça de espreitar as oportunidades e os bons preços e, esquecida do seu firme propósito de que mais roupa jamais (leia-se: jamé), a entrar numa loja, a adrenalina já a embalar-lhe as intenções, e, depois, toda cheia de boas emoções... a ir provar uma bela capa em rosa glamour...  Ao ver-se ao espelho, a pecadora, nem quis cá saber de misérias: gostou de se ver e isso bastou. Pecou que deu gosto.

Ah, que ninguém duvide: mulher que tem um gostinho por coquetterie jamais (jamé) se recupera. 

Depois, não lhe bastando ser vaidosa, recaiu numa outra perdição: pastéis de massa tenra, eterna saudade, eterna rendição. E se bem o pensou melhor o decidiu. E aí vai ela, pernas para que te quero, a caminho da Frutalmeidas. 

Ali chegada, ah cheirinho bom, aguinha na boca mais promissora, jantarinho mais belo em perspectiva.

[Reparem: dissociei-me de mim e estou a falar na terceira pessoa. E isto porque amanhã, quando me passar a alegria do retrocesso, voltarei a mim e baterei no peito a jurar que vaidosices e gulodices jamé.]

Chegada a casa, já nada cedo, resolvi que bom bom era um arrozinho de legumes (coisa simples: cebola, feijão verde, talo de brócolos, cenoura, tomate e salsa). Foi servido, fumegante, com os gostosinhos pastéis de massa tenra aquecidos e salada de alface. Ah, souberam-me pela vida. 

E, se querem que vos diga, tudo o que me maçou durante o dia já se evaporou porque já estamos no fim de semana e porque para a semana logo se pensa em coisas maçadoras.

No meio disto só tenho pena de estar tanto frio. Senão, amanhã vestiria calças brancas, blusinha de malha rosa com a capa nova por cima. Nem sei é se não terei mesmo que cortar um bocado o cabelo e pô-lo, à frente, com uma madeixa cor de rosa para toda eu ficar pink fashion. Assim, com tanto frio, tenho que pôr o glamour em stand buy.

Sobre o tema dos malfadados palcos papais que tilintam moedas (pun intended) e demais desvarios o que tenho a dizer é que se é para estar a funcionar no início de Agosto e requer construção de espaços e envolventes, nomeadamente acessibilidades e demais infraestruturas de apoio, diria eu que já devia estar a caminho de estar tudo pronto para passar à fase da instalação de equipamentos, testes de bom funcionamento, inspecções técnicas, procedimentos de segurança e etc. 

Portanto, tal como ontem referi, não consigo perceber nada do que se está a passar. Não apenas não percebo quem é o dono da obra, figura crucial neste tipo de projectos, como também não consigo perceber como é que nesta fase ainda se estão a discutir conceitos, projectos, orçamentos, etc. Claro que, na brincadeira, dá vontade de dizer que, com tanta omni-intervenção e tanta omni-boca, o dono da obra, a partir daqui, só pode ser o omni-Marcelo. Mas, num projecto globalmente orçado em 80 milhões e com a repercussão internacional e a responsabilidade que representa, não se deveria brincar com coisas sérias.

Para não ser uma monumental barracada e não se transformar na gargalhada geral, é bom que atinem e se organizem. Senão, daqui por um bocado está aí o Papa e mais os magotes e magotes de devotos e ainda o Moedas por aí anda feito betinho sonso apanhado em falso e a fingir que é valentão, o Marcelo a atirar tiros à esquerda e à direita, o Auxiliar Américo a fazer de conta que a bem dizer não é nada muito com ele e os comentadores já sem saberem o que mais dizer. E ainda o Papa tem que ficar em cima de um atrelado e a malta estendida pelo chão, numa de Zambujeira peace ando love. Ámen.

Tirando isso, não tenho mais a dizer a não ser que amanhã tenho que me levantar cedo e, para encarar isso na desportiva, tenho que ter uma certa dose de optimismo. 

E, para não sair daqui directinha para a cama (que o sono já está a fazer-me trocar os dedos) sem dar um arzinho da minha graça, partilho um vídeo com uma casa extraordinária. Não é coisa que eu esperasse dele, não. Visualizo-o nos Sopranos e agora no White Lotus, todo ele quase low profile mas com muito carisma e sensualidade mal contida. E agora uma casa assim... incrível, fantástica, coisa do além.

Na casa cheia de história de Michael Imperioli em New York 
| Open Door | Architectural Digest

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'Olhai o mundo' é da autoria de Alfredo Luz. Vanessa Wagner interpreta Before 6 de Ezio Bosso

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Um bom sábado

Saúde. Gostinhos bons. Paz.

sexta-feira, janeiro 27, 2023

Dois palcos marcelistas, um patriarcado à beira de um ataque de nervos, um atrevido Moedas a nadar em cifrões e vestidos de pernas para o ar

 



Um asteroide vai passar mais perto que nunca antes da Terra. Não se pode dizer que seja uma rasante tout court mas, à escala a que estas coisas se passam, é bem perto, mais perto do que alguns satélites. Chama-se 2023 BU (que também poderia ser o nome de um dos filhos do Elon Musk) e, segundo a Nasa, no big deal. Não vai ser por aí. Não só não consta que venha cair-nos em cima da cabeça como o provável é que se desfaça em fanicos na atmosfera e que uns calhauzecos se despenquem por aí. Sorte.

Não ligamos a isto e talvez seja a atitude mais inteligente. Estarmos a ralar-nos para quê? Se um dia um deles, um asteroide em versão gigante, qualquer coisa como um Big BU (quiçá com bacon, pickles e cheddar derretido), resolver vir embirrar connosco, o mais certo é que, sem darmos por isso, nos tornemos os novos dinossauros do futuro, uma espécie meio burra que antes habitava o planeta e da qual pouco ficará. E, se assim for, azarinho.

Também com a cena de a Terra ter o seu íntimo a girar em sentido contrário, a malta está manifestamente a caguar-se (de novo: caguar, com u, que eu, se não sou beta, sou, na mesma, menina fina).

Tem razão, Ccastanho, o que interessa à malta é se o Cravinho não teria feito melhor em caguar de alto para os doentes Covid em vez de deixar que arranjassem o hospital. Inteligentes. 

E agora é o altar. Claro que me estou também a caguar para o altar em si pois, como é óbvio, é tema que não me aquece nem arrefece. Que o Papa Francisco (que me desiludiu com aquela de  homossexualidade ser pecado) venha a Portugal e que, em torno disso, se junte um milhão de pessoas, é coisa que nada me diz. Não sou fã. Nem de igrejices nem de ajuntamentos em geral.

E que arranjem aquela zona da cidade, se for coisa bem pensada e inteligente como foi o caso de toda a zona da Expo, parece-me até bem.

Mas já não me parece nada bem que num altar se gastem cinco milhões. Dizem que vai ficar forever, que vão rentabilizá-lo. Mas como? Vão usá-lo para quê? Para a IURD? Para comícios do Chega? Ou para festivais de rap? Para gravarem o Domingão? Não sei. Nem imagino. 

E parece que no Parque Eduardo VII vai também haver um palco, que se desmontará depois dos festejos, e que vai também para milhão e meio de aereos. Não percebo. A cidade nada em dinheiro? A avioneta não apenas despejou haxixe em cima do Alentejo mas também notas sobre Lisboa? 

E é que, se os milhões viessem dos cofres da Santa Madre, eu não tugia nem mugia. Mas, por espantoso que possa parecer, não é a Igreja que entra com o carcanhol mas sim, uma vez mais, o zé pagode, quer através das autarquias quer do Governo. Pode uma coisa destas? Eu acho que não.

E agora ouvi que o sistema de som e de vídeo vai também para uma mão cheia de milhões. Tudo à grande.

Não sei se foram os requisitos que foram estratosféricos (pode ser, a malta mais pequena, perante a perspectiva de deixar obra, às vezes perde a cabeça, fica desvairada), se são os fornecedores que viram que o Moedas & Companhia (o Moedas era o dono da obra? Pergunto) estão numa lógica de sempre a abrir e, sem rebuços, puseram a pata no acelerador e lá vai disto, ou se há meninos lá pela Câmara, daqueles chico-espertos que mal ouvem as moedas a tilintar começam logo a mostrar os bolsos a ver se lhes toca algum. Adjudicações directas e o escambau. Podia ser pior, diz o fofo do Moedas. Então não. Pode sempre ser pior, pode-se até cair e partir uma perna. 

Não sei. O que sei é que receber o Papa Francisco no meio desta gastação destemperada parece coisa de gente perturbada.

Claro que o imparável Presidente Marcelo não podia perder a oportunidade de cavalgar a onda. Onda que é onda tem o Prof Marcelo a surfá-la. Imagine-se se é uma onda benta, como é o caso desta que, não apenas é benta, como, cereja em cima do bolo, é papal. Marcel Surfistinho upa lá-lá na onda papal. Tá certo, não tem como enganar.

Neste momento, se o Moedas era o dono da obra já não o é. Num salto cataventista Marcelo tornou-se ele mesmo o dono e gestor da obra (até quer estar ao corrente das reuniões de obra, quiçá até conferir os autos de medição), mas mais que isso: tornou-se o negociador com os fornecedores, quer descontos, o urbanista, o arquitecto de obra, o engenheiro civil, o decorador, creio que, até, o promotor turístico. É obra. 

Neste ínterim, arranjou uma bronca com o Patriarcado que o desmentiu, dizendo que ele não se fizesse de anjinho porque já sabia muito bem que se ia gastar os olhos da cara. Ele ofendido. Que é lá isso? Não sabia nada. A gente a rir com a revista à portuguesa. Mas eis que, logo a seguir, veio um Bispo, creio que auxiliar e américo, armado em santinho magoado, a branquear a baderna que estava ali a armar-se e limpar a barra do Marcelo, que, aos microfones (sempre na ribalta, o bom do Marcelo), não escondeu o alívio. É muito jogo.

Os asteroides a rasar os ares e a malta entretida a brincar aos organizadores de arraiais e cavalhadas com preces, orações e muitos milhões à mistura. Só falta mesmo um traveca musculado, mascarado de padre com cueca de fio dental, saltar para o estúdio, invadir as televisões, pegar no microfone e expulsar os apresentadores dizendo que só ele tem competência para falar de tão sagrado tema. Ámen.

Portanto, não sabendo eu já onde está o alfa e o ómega disto tudo, muito menos sabendo traçar a bissectriz entre vectores tão sagrados e tão profanos, todos divergentes entre si, alieno-me e deslizo até outras paragens. Bora comigo?

E é assim que, com vossa licença, vou mas é partilhar uma passagem de modelos que se situa num outro patamar. Os vestidos estão ao lado ou à frente ou, até, de pernas para o ar. De vez em quando, oh surpresa, vão no sítio. E eu, olhando-os e achando-os lindos, fico até a pensar se não estará na hora de me casar vestida de noiva, quiçá até aproveitando o cenário das Jornadas do Marcelo. 

Casada e com a bênção do Papa...? -- perguntarão vocês, disfarçando a ironiazinha. 

Qual Papa? - perguntar-vos-ei eu.

Mas, antes que me esclareçam, logo vos responderei: Ná. Pelo próprio Santo. Pelo São Marcelo.

Viktor & Rolf turn Paris Fashion Week upside-down

Um dia bom

Saúde. Cabeça no lugar. Paz.

quinta-feira, janeiro 26, 2023

Tal e qual

 

Um bordado que poderia ter sido imaginado e feito por mim. 

(Se a minha língua nativa fosse o inglês, bem entendido).

E se não perceberem onde quero chegar, não tenho nada a ver com isso. O mais que poderia dizer seria isto:

Isto se fosse eu a bordadeira, claro

quarta-feira, janeiro 25, 2023

O núcleo da Terra resolveu pôr-se a rodar em sentido contrário.
Perante isso, words of wonder

 

Por vezes, quando não leio nem ouço notícias durante o dia, quando aqui chego à noite, meio a brincar, digo que não sei se a Terra não começou a andar para trás, a rodar ao contrário.

E eis que parece que é, em parte, o que está a acontecer. Por dentro da Terra, no miolo, as coisas reviraram-se e, enquanto a bolinha azul no seu todo gira para a frente, o miolo mostra que é do reviralho e gira para trás.

Felizmente para nós a rebeldia ainda se situa nas profundezas senão era como se fossemos a andar para a frente numa passadeira rolante e, de repente, a passadeira começasse a deslizar em sentido oposto, parecendo fugir-nos debaixo dos pés..

Parece que não é coisa inédita. Nada no mundo parece ser inédito. Parece que de vários em vários anos (ou décadas?) o núcleo faz uma pausa e, quando retoma, vai às arrecuas. 

Os sismologistas e outros cientistas andam a ver se percebem bem o que se passa e se isso impacta a duração dos dias, a estabilidade tectónica ou se há mais a acontecer a um nível profundo.

Claro que os nossos políticos, a nossa comunicação social e tutti quanti, ocupados que andam a brincar aos tirinhos a ver se deitam o Cravinho ou o Medina abaixo, isto depois de andarem a brincar às galinhas a bicar a Maria do Céu, não querem saber disso para nada. Aliás acho que nem se lembram que andam com os pés em cima de uma coisa chamada Terra.

E eu, pela parte que me toca, ando a organizar-me para a minha vida futura, recomecei a ler e, ao fim do dia, fui até à praia de onde trouxemos sushi. Ao sentar-me um pouco na sala enquanto o meu marido tomava banho antes de irmos jantar, voltei a adormecer redondamente. 

E agora estou a ouvir Words of Wonder. Boa onda, boas vibes. Tá-se.


Um dia bom
Saúde. Alegria. Paz.


terça-feira, janeiro 24, 2023

A falta que fazem os arquitectos

 

Um dos arquitectos da família, quando era mais novo e quando perante uma casa já construída relativamente à qual lhe pedíamos opinião, punha-se a olhar com ar crítico e, invariavelmente, concluía: deitas esta parede abaixo, aquela ali também, abres aqui uma janela de parede a parede, ali vai também abaixo

Eu até tremia... Uma pessoa a querer uma abordagem construtiva e dali tudo o que saía era destrutivo. Aliás, acho que, por ele, ia tudo abaixo.

Mas, tirando esse pequeno aspecto, tenho a melhor impressão dos arquitectos pois conseguem sempre surpreender-nos e encontrar soluções imaginativas para problemas que parecem insanáveis.

Das boas memórias que guardo, algumas das mais gostosas têm a ver com projectos de arquitectura para as sedes de duas das empresas em que trabalhei. Sempre privilegiámos algum arrojo. 

O prazer começava com o briefing em que era explicado o que, de forma global, se pretendia. Depois havia o programa com o descritivo exacto dos objectivos (quantos postos de recepção, quantos e de que dimensão e localização os espaços de arquivo, zonas de convívio, zonas de open space, gabinetes, etc). Depois as visitas das equipas de arquitectura ao espaço futuro e respectivas envolventes bem como a avaliação às dinâmicas nos espaços antigos. Depois a fase dos esboços, as discussões, o confronto das nossas mentes formatadas com soluções que transportavam modernidade, inovação e desafio; depois, mais tarde, as maquetes e, mais tarde ainda, a escolha dos materiais, e, por fim, o acompanhamento da obra e apoio à decoração (ou mesmo a concepção do mobiliário).  

A utilização de um espaço depende -- e de que maneira -- da qualidade da sua arquietctura. E isto vale para edifícios de habitação, de escritórios, de shop floor, de comércio, de cultura, de desporto, de jardins ou o que for. 

Já aqui falei disto várias vezes: é espantoso como a casa em que agora vivo tem uma arquitectura tal que, ao aqui vir pela primeira vez, me senti imediatamente acolhida. Não há uma coisa que eu fizesse diferente. O único aspecto que, ao princípio, me parecia que poderia ser diferente era a dimensão e morfologia da cozinha. Contudo, ao fim de pouco tempo reconheci que é perfeita na dimensão e na ergonomia. 

Não apenas a arquitecta foi muito feliz no seu trabalho como a dona tem um filho arquitecto que introduziu alguns arranjos que respeitaram a traça e contribuíram para uma melhor funcionalidade como foi o caso de estantaria embutida e adaptada aos recantos em que se insere na sal do piso superior. Quando vi a casa apaixonei-me logo por essas estantes e temi que as levassem. Mas não, estão embutidas. Seria difícil retirá-las e não encaixariam noutro lugar como encaixam aqui.

In heaven é diferente. Há um núcleo antiquíssimo, de pedra, em torno do qual o antigo proprietário construiu a parte principal da casa. Não lhe mexemos, com a excepção de termos transformado as janelas da sala em portas de vidro. Mas não tem uma distribuição de espaços perfeita. Por exemplo, há uma casa de banho que é enorme, maior que um quarto. Não faz sentido. Mas fazer-lhe o quê? Ficou assim. Penso que deve ter sido ele com um engenheiro que desenharam aquele acrescento. Para além das janelas, limitámo-nos a transformar a antiga garagem, que era enorme, num apartamento, ligando as duas casas com um muro e com um telheiro. 

Mas, enfim, estive a fazer a apologia dos arquitectos mas talvez seja de acrescentar 'bons da cabeça' porque se um arquitecto não tem os cinco alqueires bem medidos é mais que certo que sai asneira da grossa.

Canzana style

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Penso que já lá vai o tempo em que as construções e os projectos urbanísticos não tinham que ser obra de arquitectos. Mas quantos atentados à lógica, à funcionalidade ou ao bom gosto não se têm feito...? As imagens que aqui partilho são alguns dos vários exemplos que ilustram a falta que faz um (bom) advogado.






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E queiram descer para ver um vídeo que só visto

Sharon Stone, 64 anos, Sam Smith, 30 -- Gloria

 

Sem mais, no Saturday Night Live, um fantástico momento:


Um dia bom
Saúde. Boa onda. Paz.

segunda-feira, janeiro 23, 2023

Criada por macacos

 

Vivo uma vida privilegiada e, tal como eu, a maioria das pessoas que conheço. Podemos queixar-nos de tudo mas não temos razão nenhuma para isso.

No outro dia a minha prima, olhando para a minha mãe, disse que ela estava bem. A minha mãe, em vez de dizer que sim, que felizmente está bem, fez logo um certo ar sofredor dizendo que nem por isso. Para sua frustração, quando se preparava para falar dos seus males, a minha prima atalhou, disse que coisinhas todos temos, eu mudei de assunto e perguntei pelos meus tios, e a conversa seguiu. Depois, já quando estava só com ela, perguntei porque tinha, outra vez, tentado dizer que não está boa quando está. Que não, que não está, que isto e aquilo, e tudo insignificâncias que têm a ver com não ter vinte anos, coisa que parece não querer aceitar. E voltei a dizer-lhe que não percebo porque é que, em vez de dar graças por estar tão bem, parece que anda sempre a ver se fica doente. Quase ofendida, reagiu: que não, que não quer nada ficar doente, que disparate, ora essa. E eu insisti: 'Então sinta-se agradecida, dê graças por estar tão bem'. Encolheu os ombros. Acha que não a compreendo.

De facto, para minha pena, não se sente agradecida, anda constantemente a ver se identifica sintomas que possam levar à descoberta de uma possível doença. E, desta forma, acaba por não aproveitar a boa vida que tem.

Nisso sou o oposto em relação à minha mãe. Sinto-me permanentemente agradecida. 

Agradecida pela saúde que tenho e pela saúde dos meus (e desvalorizo as pequenas coisas do dia a dia), agradecida por estarmos juntos, por vivermos perto uns dos outros, por gostarmos uns dos outros, por termos casas em que nos sentimos bem, por vivermos num país afável e bonito, por podermos conviver e passear em paz... por tantas razões.

Tendo uma pessoa próxima a atravessar um mau momento, um difícil momento de sofrimento físico e de medo, o que me traz naturalmente preocupada, penso ainda mais convictamente que devemos dar-nos por felizes pelo que temos enquanto estamos bem pois a verdade é que nunca sabemos se um dia deixaremos de estar. E também para não parecermos estúpidos e mal agradecidos aos olhos dos que estão realmente mal e precisam que saibamos encontrar as palavras solidárias e de conforto que os ajudem a ter esperança e a suportar melhor aquilo por que estão a passar. Lembremo-nos também das heroicas pessoas da Ucrânia e de todos os países em que há guerra, em que há fome, tragédias naturais, ditaduras, opressão, perseguições e maus tratos. Aí, sim, a vida é difícil, verdadeiramente difícil.

De forma geral temos, sim, razão para nos sentirmos agradecidos e razão para sabermos desfrutar tudo o que de bom nos rodeia.

O vídeo abaixo não tem legendas em português e é uma pena. Mas, a quem consiga entender o inglês, recomendo a sua audição. 

Marina Chapman foi raptada aos 4 anos de uma aldeia na Colômbia rural. E foi abandonada numa selva. Aí viveu durante cerca de 4 anos, sobrevivendo entre macacos. O que esta criança sofreu dificilmente se imagina. Mas sobreviveu. Até que um dia resolveu aparecer a uns humanos, acreditando que a mulher jovem era uma boa pessoa. O que sofreu depois disso foi talvez ainda pior. Mas um dia uma senhora resolveu ajudá-la e aí a sua vida mudou. Agora, com cabelos grisalhos, sente-se feliz. Sorri. Não fala com amargura, não fala com revolta. Gostaria de voltar à selva em que viveu e tentar encontrar os macacos com que viveu. Mas não sabe onde é. Do que ela diz, dir-se-ia que não acha que a sua vida tenha sido uma vida de sofrimento, dir-se-ia que pensa que foi um percurso que a trouxe até onde está hoje, feliz.

I Lived With Monkeys In The Jungle


Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Coragem. Reconhecimento. Paz.

domingo, janeiro 22, 2023

Momentos

 


Na sexta-feira, mais para o fim da tarde, depois da missão cumprida, reparando que havia um fio de sol, peguei em dois livros ('Os anos' e 'Uma paixão simples' da Annie Ernaux), coloquei o colchão no sofá do terraço e instalei-me. O urso felpudo, feliz da vida, saltou também para lá. Com chuva e frio e, sobretudo, falta de tempo, há já algum tempo que ali não podíamos estar os dois. Claro que tive que vestir um casaco quente por cima e, como estava com chinelos, calcei um segundo par de meias.

Gostei da leitura, gostei de ter tempo para a leitura, gostei de ali estar com o meu amigo. Depois, foi para o chão. Estava cansado e a proximidade da literatura devem tê-lo cansado. É mais terra a terra.

Fui lendo mas o prazer de ali estar era também grande. Depois foi esfriando e ensombrecendo. Tive que parar com a leitura mas ainda ali fiquei a saborear o momento.

Então, com o telemóvel, pus-me a fazer fotografias. O sol a esvair-se ao fim da tarde através das árvores é beleza maior. E traz-me sempre uma consoladora serenidade.

Pelo meio recebi uma mensagem que me fez temer que alguma coisa não estivesse bem com quem ma enviou. Quando antes lhe tinha ligado sem ser atendida, também temi isso. Isso toldou-me um pouco o bem estar que estava a sentir.

Na realidade, à noite recebi um mail com a confirmação. Pensei nos conselhos que aqui já recebi, nomeadamente da Pôr do Sol e no que a Linda Blue tem vindo a escrever sobre a sua travessia e tentei encontrar palavras adequadas. Não sei se as há. Mas tentei encontrá-las.


O sábado foi tranquilo. Já tenho as gracinhas em cima da secretária onde tenciono instalar-me quando iniciar uma nova vida. Fui com a minha mãe à loja onde na semana passado as tinha visto. A minha mãe aproveitou e comprou uma orquídea branca para a bancada do lavatório da casa de banho. 

Estive com uma das minhas primas. Surpreendo-me sempre com o ar aprumado que tem em qualquer circunstância, mesmo ao fim de semana. Eu não consigo. Admiro essa sua consistência. Eu só em ambiente profissional me aperalto. Em ambiente informal (e os fins de semana para mim são-no forçosamente) não consigo formalizar-me. 

Tirando isso só posso dizer que, quando aqui me sentei, escolhi um filme da Netflix. Não me lembro de qual. Acordei algum tempo depois, não sei quanto, com o meu marido a querer ver o noticiário. Pelo meio já jantei e já vi o filme da 1 com o Robert de Niro. E continuo cheia de sono e preguiça. Para aqui estou e não escrevo nem deixo de escrever, não danço sem saio da pista. A indolência é uma coisa tramada. Parece que acumulei em mim sono de mil anos.

E mais nada a não ser que gostei imenso deste vídeo aqui abaixo. Geralmente têm legendas mas este, por ser muito recente, ainda não as tem em português.

Awaken

How often have you been still? Really still and quiet? Part of our alienation with the world is our inability to stop and just be. We don’t need to do anything, have a purpose, or expect anything from the moment. 

So give yourself the space to enjoy moments of stillness – to lean into them, to be nourished by them.  Let stillness be a teacher and a friend.  It is these moments of silence that open up a closer connection with others. We are able to express ourselves, ask for what we need, and give what we desire to give from the centre of our being.

As Rumi says, “Listen, silence isn’t empty, it is full of the answers.”

Filmed in Colesburg, South Africa. 
Featuring Antony Osler.

Um bom dia de domingo
Saúde. Bom descanso ou boa farra, conforme for o caso. Paz.

sábado, janeiro 21, 2023

As anjinhas da Victoria's Secret antecipam o Dia de S. Valentim
-- quem as viu e quem as vê...

 

Bem sei que a Jacinda Arden teve um gesto insólito e louvável e que merece todos os louvores. E também sei que felizmente a dessalinização em Portugal começa a ser encarada a sério, como um investimento essencial e crítico. E também sei que o Pedro Nunes Santos afinal deu o ok ao meio milhão da Alex Louboutin, outras das ex-tapianas de boca aberta, e que o deu, en passant por whatsapp, tão em passant que a coisa até já se lhe tinha varrido, isto apesar da badalação.

E tantas mais coisas.

Só que tenho que me rebalancear, aprender novos ritmos, costurar novos hábitos. E adquirir doses de paciência para conseguir decantar os excessos, filtrar, esperar que assente, não gastar prosa com o que acabará por se dissipar.

Por isso, lamento, estou outra vez numa lateral.







Estando a aproximar-se essa data extraordinária que tem tudo a ver com a nossa história e a nossa cultura, por via das dúvidas, não vá algum de vós esquecer-se de que é altura de pensar nos preparativos, aqui estão umas fotografias e um vídeo que contém sugestões interessantes. Para todas as idades, para todas as silhuetas. Basta gostar de brincadeira.

Desejo-vos um bom sábado

Saúde. Bom apetite. Paz.

sexta-feira, janeiro 20, 2023

Casas opostas

 

Lamento mas não me apetece falar no forrobodó que por aí vai de suspeitos e arguidos, uns deputados, ex-autarcas, outros ministros ex-autarcas, outros secretários ou ex, e uns e outros todos alegadamente a favorecerem amigos, genros, mulheres, correlegionários ou, melhor ainda, a ele próprios. E mais uma que fez lobby (e, por lá, quem nunca...?) e agora, desenterrada, uma outra ronalda, outra excêntrica, ex-tapiana claro, que levou uma indemnização de mais de um milhão. E mais uns que sim e outros que talvez e, cavalgando a onda, vociferante, demagogo, desavergonhado, o Chega. E, claro, omnipresente e sempre com a veia comentadeira em versão saltitante, o Presidente Marcelo.

Ainda se a justiça fosse lesta e apurasse, em tempo útil, a verdade e a legitimidade dos factos. Agora assim é apenas lama atirada de uns para cima de outros. A sociedade transformada num lodaçal.

Ora, lamento mas tenho mais coisas que me ralem do que andar a consumir as minhas energias com esta overdose de casos, casecos, hipotéticos casinhos, alegadas casões e mais com as constantes conferências do Ventura, o campeão das bocas. 

Ou hiberno ou mergulho mas aqui a enfardar disto a toda a hora não fico.

Neste momento estou é a ver se ganho balanço para um corte de cabelo radical. O que me faz balançar é que para o pão com manteiga -- corte acima, corte abaixo, escadear de um lado, escadear do outro -- a minha mão amadora ainda vai dando. Agora a uma mudança radical não me abalanço. A coisa, como eu a idealizo, tem ciência, requer mão profissa. E, estando há uns três anos sem pôr pé em salão de cabeleireira, parece que lhe perdi o sentido. Não sei bem.

É tema a ver.

Entretanto, delicio-me a ver casas (virtualmente falando, claro). 

Quando, em pleno confinamento, resolvemos que estava na hora de dar o salto para uma outra casa, vimos várias. Grande parte delas de um mau gosto de causar dor. E nem é só pela arquitectura: é também pela decoração. Na família é tema que nos é caro. Uns vêem sob o prisma técnico, outros pelo prisma estético, outros pelo enquadramento e outros pelo conforto. Eu não sou profissional de coisa nenhuma destas e guio-me é pela intuição, pelo feeling que tem que ser good.

Estas duas aqui abaixo são lindas de dar gosto. Opostas. Mas uma belezura.

Uma linda casa construída em volta de uma pedra | Lar: Vida Interior

Já imaginou uma casa que foi construída em volta de uma pedra? O lar da Dani Costa tem as paredes formadas por pedras, que são a sustentação da casa e de sua vida.       


Dentro da casa do Estilista da  Balmain Olivier Rousteing que tem objectos maravilhosos | Vogue

O designer Olivier Rousteing abre as portas do seu apartamento parisiense. Como ele mesmo admite, Olivier tem uma obsessão por preto e dourado - basta olhar para as suas coleções para a Balmain, a famosa casa de moda parisiense que ele dirige desde 2011. Então, é alguma surpresa que, quando a Vogue pediu ao estilista para nomear as suas coisas favoritas na sua casa em Paris para o último episódio de “Objects of Affection”, a maioria deles tenha obedecido a esse mesmo esquema de cores? 

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Uma bela sexta-feira
Saúde. Bom gosto. Paz.