sexta-feira, outubro 07, 2022

O bom doutor

 

Algumas pessoas da minha família, umas de forma directa, outras de forma menos directa, trabalham na área da Saúde. Quando assim é, sabe-se de casos, sabe-se de situações. A medicina não é ciência exacta. Longe, longe disso. É técnica, é saber. É inteligência, em especial a forma mais aguda de inteligência: a intuição. Ver para além do que se vê, ver antes de ver, ver sem precisar de ver. E é ter criatividade. E ter coragem. E ter capacidade de arriscar. É ter sangue frio no momento em que mais dele se precisa.

Para um doente muitas vezes a sorte está em acertar com o médico. E, para o médico, muitas vezes o mais importante é ter sorte (isto dito por um deles, pelo mais experiente e intuitivo de todos): sorte em reparar no pormenor, sorte em pedir o exame certo no momento certo, sorte em conseguir conjugar os exames com uma observação dita casualmente pelo doente. Sorte.

Comecei no outro dia a ver na Netflix a série The Good Doctor. Como cheguei tarde à Netflix e como chego às coisas por acaso e não porque siga recomendações (presumo que as recomendações de séries apareçam nos Faces e Instas desta vida, coisa que, sabido é, não frequento), se calhar já toda a gente conhece esta série.

Seja. Nesse caso não estarei a dar novidade. Apenas o meu testemunho. Acho The Good Doctor das séries mais extraordinárias que tenho visto. Estou agarrada. Os meus posts têm sido mais pequenos pois começo a ver The Good Doctor e custa-me a parar. Volta e meia dou por mim a chorar. Outras a sorrir. Outras aflita. Outras a torcer para que corra bem.

Os argumentos são óptimos, os personagens óptimos, o desempenho e a realização óptimos.  Shaun Murphy, o interno de cirurgia, autista e savant, é um personagem extraordinário interpretado por Freddie Highmore, actor de quem nunca tinha ouvido falar e que é extraordinário.

Se já conhecem a série, concordarão certamente comigo. Se não, digo-vos: do melhor que há.


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Annie Ernaux - Nobel de Literatura 2022

 

Não faço apostas, nem sobre os Nobel nem sobre o que quer que seja. Acho que nunca fiz uma única. Creio que, tal como não gosto de jogos -- nem de cartas nem de damas nem de máquinas nem de roleta -- também não gosto de apostar. Não estou interessada em perder em coisas para as quais tanto se me dá.

Nisto do Nobel nunca me deito a adivinhar. Tenho como certo que sempre haverei de ser surpreendida. Geralmente não conheço.

Este ano voltou a acontecer. Não conheço Annie Ernaux. Não faço ideia de quem seja, nunca tinha ouvido falar. 

A minha ignorância é infinita e isso é tranquilizante para mim pois, sabendo-a infinita, sei, de antemão, que jamais poderei derrubá-la e, portanto, sou condescendente para comigo quando tenho evidências da sua imensa amplitude.

Mas já vi uma fotografia dela e hei-de ler alguma coisa dela para tentar perceber a razão de ser do Nobel. Devo dizer que muitas vezes não percebo mas, na minha humildade, admito sempre que o problema é capaz de ser meu. Mas, seja ou não seja, também tanto faz.

Para já, vou ver uns vídeos só para ganhar algum contacto.

Annie Ernaux - Página Dos | La2

quinta-feira, outubro 06, 2022

Pela liberdade
Jin, Jiyan, Azadi
Women, Life, Freedom

Mulher, Vida, Liberdade

 


Não sou ninguém nem o meu cabelo, inteiro ou cortado, tapado ou à vista, tem qualquer significado ou importância. Mas, ainda assim, é um gesto. Perante o preconceito absurdo, a ditadura da moral e dos costumes, a tirania da impostura sobre o corpo e sobre a vontade das mulheres, muitas iranianas se têm arriscado cortando os cabelos na rua, desafiando a repressora ordem vigente.

E, um pouco por todo o mundo, muitas mulheres têm manifestado o seu apoio às mulheres que, no Irão, são obrigadas a viver atrofiadas, como se o seu mundo tivesse recuado ao tempo das trevas -- ou melhor, como se os homens que governam o seu país tivessem saído das trevas.

Duas semanas depois da morte de Mahsa Amini, Juliette Binoche, Marion Cotillard, Angèle, Isabelle Adjani, Isabelle Huppert, Juliette Armanet, Jane Birkin, Charlotte Gainsbourg, Julie Gayet e outras são algumas das artistas francesas que se juntam no seu apoio às mulheres iranianas, cortando o seu cabelo em público.


Também:
Uma eurodeputada sueca cortou o cabelo durante um discurso no Parlamento Europeu, em solidariedade com as mulheres iranianas e com os protestos das últimas semanas, que começaram na sequência da morte de uma jovem detida pela chamada “polícia da moralidade” e se tornaram a maior onda de contestação ao regime dos últimos anos.

“Até que o Irão seja livre, a nossa fúria será maior do que a dos nossos opressores. Até que as mulheres do Irão sejam livres iremos apoiar-vos”, disse Abir Al-Sahlani, que nasceu no Iraque, num discurso em Estrasburgo, França, na terça-feira.

Em seguida, cortou o cabelo que tinha apanhado e disse em curdo: “Jin, Jiyan, Azadi” — Mulher, Vida, Liberdade.

no Público: Eurodeputada corta cabelo durante discurso para demonstrar solidariedade com iranianas

 Moment Swedish lawmaker cut her hair in protest against Iranian regime during EU assembly


Pela liberdade das mulheres
Pela liberdade

quarta-feira, outubro 05, 2022

Sombra e luz

 


Saímos depois do trabalho, já não era nada cedo. No caminho, ele apontou para o céu e disse: 'patos'. Olhei. Um bando em formação. Um V perfeito. Mais atrás, uma linha perpendicular em relação ao eixo central do V, perfeita. Voavam numa elegante geometria. Ocorreu-me que ver uma coisa assim justifica que estejamos vivos. E senti-me feliz.

Quando estávamos quase a chegar, o meu marido perguntou se eu tinha trazido o computador. Não, não tinha trazido. Antes de sairmos, ele tinha dito que a mala do computador estava aberta, com fios a sair, e que não se arriscava a levá-la para o carro, que a levasse eu. Quando passei por lá, fechei-a. Estava no meio das outras coisas que eram para trazer. Ele é que costuma levar as coisas para o carro. Eu fico a fechar as janelas, ver se as luzes estão desligadas, e, no fim, fecho a porta e ligo o alarme. 

Portanto, ele não trouxe pois tinha dito que não trazia e não pensou mais nisso e eu não trouxe pois pensava que o problema era a mala estar aberta e, como a fechei, nem pensei mais nisso.

Já anoitecera quando demos por ela. Como hoje tinha reuniões e muita coisa para despachar, tivemos que voltar atrás. Passou-me a felicidade que me tinha chegado do céu. Fiquei furiosa. Discutimos durante um bocado e depois ele calou-se e eu calei-me também.

Chegámos já passava das dez e meia da noite. Arrumámos as coisas, ele tomou banho. Jantámos tarde e felizmente tinha trazido restos pelo que foi apenas aquecer. Quando aqui cheguei à sala, já me tinha passado a arrelia. Aliás, já nem me lembrava de tal coisa. Tenho isto. Dão-me fúrias mas passam-me quase instantaneamente.

Hoje trabalhámos todo o dia, ambos. Cada um no seu sítio. O cão anda entre um e outro e, pelo meio, ladra quando ouve algum carro a passar na estrada. Felizmente só passa um de muito quando em quando pelo que, na maior parte do tempo, é o silêncio e o canto dos pássaros.

Quando fui andar lá em baixo, vi que que na quinta que num dos extremos fica pegada a um dos extremos da nossa estava um carro mas, como o meu sentido de observação para carros é nulo, fiquei na dúvida se era o mesmo de sempre. Perguntei ao meu marido. Disse que sim, claro, há anos que têm aquele carro.

A minha dúvida veio do facto de, na última vez que cá estivemos, os vizinhos terem cá vindo despedir-se de nós. Claro que não puderam entrar pois a fera de guarda fica possessa quando alguém que não conhece se abeira de nós. Falámos, pois, eles na estrada, do lado de fora do portão, nós no lado de dentro e o cabeludo aos saltos, no meio, a ladrar. Ao princípio mal ouvíamos o que nos diziam. Depois o urso percebeu que era gente de bem e acalmou-se. Os vizinhos vinham despedir-se. Venderam a quinta, quiseram contar-nos, desejar-nos saúde, felicidades.

É um casal muito diferente de nós. Têm o terreno muito limpo, sem uma ervinha, as árvores muito bem tratadas, árvores de fruta, e, entre elas, apenas terra. O nosso tem alecrim, rosmaninho, madressilva. E há pinheiros, cedros, aroeiras, azinheiras, oliveiras selvagens, eucaliptos. E pássaros que não acabam e, agora, esquilos. Eu, se houver sol, ando meio vestida, cabelo apanhado, caminho por caminhar, faço fotografias. A vizinha não poderia ser mais o meu oposto. Anda sempre arranjada, geralmente sempre da mesma maneira, muitas vezes anda ao pé do marido e já a vi a cavar, muito aplicada. O marido dela também é o oposto do meu. Anda sempre a trabalhar. Tem um pequeno tractor e lavra a terra, anda com serra eléctrica e não há um pé de flor fora do sítio nem um ramo por desbastar. O meu marido também trabalha mas é a cortar mato ou a desbastar árvores.

Uma vez queixaram-se do filho, que não ligava a isto e que nunca cá vinha nem nunca trazia as filhas. De facto, vejo-os sempre só aos dois e não me lembro de lá ver mais carros ou o barulho de crianças. Percebi que tinham pena. Também moram em Lisboa mas, ao contrário de nós, que gostamos de cá estar só por estar ou que cá temos, com alguma frequência, companhia e o barulho alegre de crianças, parecia que eles vinham para manter o terreno limpo. Nós também andamos ocupados mas não no mesmo registo. 

Então, ali no portão, disseram que já não iam para novos, que manter o terreno limpo e as árvores tratadas é coisa que dá muito trabalho e que, por isso, tinham resolvido que era melhor desfazerem-se. Nunca se sentiram emocionalmente ligados à terra e à casa e o facto do filho e das netas sempre se terem mantido desligados desmotivaram-nos. 

Ainda me lembro do meu pai olhar para o terreno dos vizinhos como um exemplo que, com pena dele, nós não seguíamos. Sempre tentei explicar-lhe que eu queria uma casa no campo não para me tornar agricultora mas para ter uma parcela de natureza na qual me pudesse sentir livre, que não queria transformar o campo num terreno arado mas, pelo contrário, queria ter um bosque com sombras e sol e pássaros e lagartixas e cogumelos a rebentar do chão e musgo a atapetar a terra quando vem o tempo da chuva.

Mas fiquei a pensar, com alguma apreensão, se algum dia, mais tarde, também sentiremos que vir para cá é ter um trabalho que já não poderemos suportar. Se isso acontecer, que seja daqui por muito tempo. Para já o que me interessa é o agora e agora é um prazer muito grande estar aqui. O outono em toda a força, folhas e folhas e folhas. Este dia feriado vou ter muito que varrer. Vou também aproveitar para fazer uma máquina de roupa e para fazer uma limpeza em casa. Mas trouxe um livro que também quero poder ler e espero ainda poder sentar-me ao sol, sem fazer nada. E hoje ao fim do dia fomos ao supermercado à vila mais próxima e trouxe carnes e legumes e enchidos para fazer um cozido que, quase aposto, vai espalhar um cheirinho bom, saído pela chaminé, até lá fora.

E está tudo certo. 

Shadow and light 

Life consists of polarities – light and dark, good and evil, sweet and bitter. We are no different.  All of us have a shadow side.  And it is this shadow or dark side that allows us to gain a sense of perspective, by allowing us to truly appreciate the light side of life.  The more we acknowledge what we don’t like, the easier it is to see our gifts and strengths.  It makes us a whole human being.  

"There was a man who was so disturbed by his own shadow that he was determined to lose it for good. So he got up and ran. But his shadow kept up with him, and so he ran faster and faster until the exertion took its toll and he dropped. If he had simply stepped into the shade, sat down and stayed still [meditated], his shadow would have vanished." -Chuang Tzu, The Way 


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Um dia bom
Saúde. Serenidade. Luz. Paz.

E viva a República.

terça-feira, outubro 04, 2022

Como funciona o orgasmo nas mulheres?

 


Pode acontecer que todas as mulheres e todos os homens sejam letrados em orgasmo feminino. Se calhar longe vão os tempos em que o tema era tabu, se calhar o tema já virou mainstream ou, dizendo de outra maneira, já viralizou.

Capaz até de, levado o tema a debate na televisão, os omnipresentes Helena Matos, João Miguel Tavares, Raquel Varela, Francisco Louçã, Jovem Bugalho, Pedro Marques Lopes, Ana Drago, Manuela Ferreira Leite, Majores e Tenentes Coronéis de todos os ramos das FA opinarem erudita e convictamente sobre clitórís, lábios vaginais et al. Sabem de tudo. Aposto que tiram isto do orgasmo feminino de letra. 

Ando por fora dos Faces, dos Instas, dos Tik Tok, dos Twitters e, por isso, não faço ideia dos trilhos por onde o tema já anda: capaz de haver stories, vídeos macaquinhos, danças capapé-tirolirolé, vai de ladinho e bate o pé, tudo com as perninhas do bichinho. 

[Sim, que o clitóris não é só aquele botãozinho que foi cantado e recantado por poetas que se ficaram pela superfície em vez de mergulharem fundo. Não é só botãozinho, não, não é mesmo: é bichinho pernudo mesmo (pernudo e danadinho para a brincadeira)].

Mas, pronto, se por aí, desse lado, é tudo gente escolada e doutorada em prazer feminino, o vídeo abaixo não trará novidade. Mas, ainda assim, arrisco. 

Arrisco porque pode acontecer que haja por aí alguém que ainda não saiba exactamente alguns pormenores. Ou pormaiores -- como quais as zonas erógenas no corpo da mulher -- e tenho cá para mim que alguns ficarão surpreendidos. Olhem, eu fiquei. 

Há uma zona que a mim não me tinha ocorrido. Não vou dizer qual é pois, na volta, toda a gente já estava fartinha de saber menos eu... e algum maldoso ainda vem aqui dizer que, ignorante desta boa maneira, mais valia ingressar num convento. Ora.

Também penso ser relevante conferir se há maneira de alguém saber se a mulher atingiu ou não o orgasmo ou se é verdade isso dos orgasmos múltiplos nas mulheres. E pode um homem ser competente a ponto de também conseguir ter orgasmos de seguidinha? Pode...?

E, lá está, perdoem-me se aqui estiver a trazer matéria que já se ensina na pré-primária. Não é só das redes socias que ando desfasada, é também dos programas escolares.

Do you know how orgasm is in females? female body and biology


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Um dia bom
Saúde. Animação. Paz.

segunda-feira, outubro 03, 2022

Spray me, dress me

 

Ela caminha, lentamente, com a subtileza silenciosa de uma gata etérea e pouco segura. 

Está quase nua. A mão oculta, sem ocultar, os seios. 

Os homens aproximam-se, cercam-na. Não a olham com curiosidade ou desejo. O olhar deles é técnico. Experimentaram muitas vezes antes o que vão fazer: tudo tem que ser rápido, eficiente e perfeito. 

Bella é, agora, uma tela, a superfície sobre a qual vão trabalhar.

Bella mantém-se imóvel, o olhar distante, o corpo não tem alma, o corpo agora é apenas o objecto sobre o qual o milagre vai acontecer.

E eles revestem-lhe o corpo, aplicam o produto, vaporizam-na. Um graffiti branco, um véu, um tule que se vai transformando.

No fim, uma outra mulher aparece para os retoques finais: uma abertura na saia para que o andar flua como flui o deslizar das gatas, as alças caídas para que os ombros melhor reflictam a luz que a ilumina.

No fim, depois do momento irreal, Bella está vestida, elegante, bela, segura como uma gata feliz. 

Bella Hadid closing the Coperni SS23 show in a dress sprayed onto her live on the runway

Aconteceu no desfile na Semana da Moda em Paris com a marca Coperni. É ciência, é técnica, é arte. E é um salto gigante na indústria da moda e da indústria têxtil. 

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Spray me

domingo, outubro 02, 2022

Não será caso para serem desencadeadas buscas* a tudo o que é lugar onde haja crianças e padres?

 

Com tantos casos de abuso sexual de menores e tanto encobrimento por parte da Igreja Católica, não será de começarmos a suspeitar de que estamos perante uma organização em que não se pode confiar, que acoita criminosos ou gente perversa?

É que é por todo o lado. Não podemos continuar a pensar que são casos isolados. São casos a mais, ao longo do tempo. Dá ideia que há um comportamento que se repete com demasiada frequência na Igreja Católica, quer em paróquias, quer em orfanatos, onde quer que haja crianças ou adolescentes, aparentemente sobretudo quando as vítimas se encontram em situação vulnerável, o que junta a cobardia à maldade, à perversidade. E não apenas se vai sabendo de toda a espécie de comportamentos desviantes por parte de padres, bispos ou arcebispos como, igualmente grave, se vai sabendo que todas as denúncias foram sistematicamente abafadas pela estrutura da Igreja, ao longo dos tempos, ao longo do país, ao longo dos países.

E é inconcebível que haja processos internos mas não denúncia junto das instâncias judiciais. Se for verdade que o Bispo José Ornelas estava sabedor de abusos e não encaminhou o assunto para a Procuradoria ficarei, uma vez mais, indignada. E enojada. 

Quando ouvi sobre as suspeitas que impendem sobre Ximenes Belo fiquei petrificada. Ao mesmo tempo que recebia o Nobel da Paz estava a abusar de crianças? Não quero acreditar em tal coisa. Espero que haja investigação a sério e o mais rapidamente possível. A mancha é suja e grave demais para que a dúvida possa ficar a pairar. 

Penso que a dimensão do que tem passado (e, se calhar, do que ainda se passa) justifica que nos questionemos sobre o que leva tantos membros da Igreja Católica a terem práticas pedófilas. São o celibato e a ocasião que fazem o 'ladrão'? Não me parece. Gente de bem, de bom carácter, mesmo que não consiga controlar a libido, não abusa de crianças. Alguém minimamente decente que, num dia de desvario e descontrolo absoluto violente sexualmente uma criança, não conseguiria continuar a viver pregando como se fosse um emissário de Deus. Alguém, minimamente normal, que tenha praticado tão hediondo crime, abandonaria a Igreja e entregar-se-ia à Polícia.

Alguém consegue receber a hóstia da mão de um padre depois de se ouvirem as denúncias das crianças? Alguém consegue deixar as crianças à guarda de padres depois de se saberem de tantos e tantos e tantos casos?

E os órgãos judiciais do País vão ficar passivamente à espera das queixas, sabendo que, quando as queixas ocorrem, já é geralmente tarde demais, depois dos abusos praticados e dos danos psicológicos terem ocorrido, muitas vezes muitos anos depois? Não seria de agirem proactivamente?

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* Perguntaram-me: 'Buscas para quê? Para ver se apanham alguns em flagrante delito?'

Respondo: Para pesquisarem os computadores os telefones dos padres, para ver se encontram fotografias ou vídeos suspeitos, para ver se encontram mensagens trocadas com crianças ou adolescentes, para verem se encontram qualquer outro material suspeito que indicie a prática da pedofilia.

sábado, outubro 01, 2022

Olha, afinal se calhar foi da cabeçada...

 

O que está a passar-se com a Rússia ameaça a paz, ameaça os princípios mais básicos da civilização e da humanidade, ameaça o futuro de todos nós. E é tão grave, tão assustador que, para minha defesa, de vez em quando forço-me a desviar o pensamento de tamanha desgraça. Além do mais, não sei porquê, olho para o Putin e vejo uma alma penada, alguém que está de pé como se assim fosse estar para sempre, alguém a quem muitos milhões de pessoas por todo o mundo desejam que passe rapidamente à história, à história de sarjeta, que vá juntar-se à montureira onde se acumula a pior escória que o mundo produz.

Mas, para mim, hoje não é dia de dar palco a dead men walking, a zombies (corados como pêros saloios -- mas zombies), a assassinos bêbados do seu próprio veneno, a bandidos. 

Hoje não consigo, hoje preciso de abrir espaço para me rir.

E um dos que sempre me faz rir, e que gosto de ver com os meus netos, rio que me farto, sempre, é o Mr. Bean. Se calhar é porque, em parte, me revejo um bocado nas atrapalhações dele, nos stresses agudos que ele sente antes dos grandes momentos.

Chegada a casa depois de termos ficado com os meninos enquanto os pais foram a uma cena, fomos dar uma volta nocturna com o dog de guarda que tinha ficado em casa. É bom andar a passear de noite. Zero pessoas na rua, claro. Os cães, em várias moradias, completamente desestabilizados e o nosso, feliz da vida, nem aí, a andar a saltitar e a correr todo contente pelo inesperado passeio com os donos regressados. Como à noite já está mais frio, tinha levado calças e, claro, os meninos andaram encostados ou por cima de mim. E devem ter deixado o seu cheirinho bom pois, uma vez regressada e a passear, a fera cabeluda andou o tempo todo a cheirar-me as pernas e a dar-me beijinhos e a cheirar e a dar saltinhos e todo ele estava radiante com o cheiro que eu trazia nas calças.

Quando, aqui chegada à sala e francamente com algum sono, abri o youtube. Claro, bingo, Putin e a sua última e macabra filha-de-putice. Não dá para acreditar no pesadelo que o mundo está a viver. Parece uma ficção estuporada, daquelas tão parvas e excessivas que chegam a ser cómicas. 

Fechei. 

Pus-me a ver o Pantanal e, quando dei por mim, percebi que tinha estado a dormir. Voltei a abrir a arca dos mil tesouros e escrevi Mr. Bean. O algoritmo percebeu a mensagem: a minha onda hoje não está para bandidagem, está para gente inofensiva cuja única arma é o sentido de humor. 

O primeiro vídeo que me apareceu foi este fantástico que abaixo partilho convosco.

Mr Bean Goes to a Premiere


Um bom sábado
Saúde. Boa disposição. Paz.

sexta-feira, setembro 30, 2022

A ferocidade e a hipocrisia destes criminosos

 

A Rússia prepara-se para decretar a anexação de regiões ucranianas e, com mais este movimento no sangrento tabuleiro de xadrez de Putin, a guerra sobe mais um degrau na escala da severidade do risco para a humanidade.

Os crimes, monstruosos, são múltiplos, imperdoáveis, e as mentiras para os justificar são constantes, inacreditáveis, absurdas.

O que acontece diariamente é impensável, de um mal que parece infinito.


























A destruição é inexplicável, arrasadora, a dor das pessoas é imensa, profunda. A imagens que nos chegam das mais diversas fontes são provas irrefutáveis da extensão e intensidade dos crimes que diariamente são praticados pela Rússia em território ucraniano. As fotografias que aqui mostro são algumas das muitas da Reuters e tive o cuidado de não mostrar as mais sensíveis como, por exemplo, a que mostra uma criança no caixão. 

O que Putin está a fazer na Ucrânia não tem justificação nem pode ter perdão. Um dia, que espero que não seja longínquo, isto há-de ter um fim e o direito internacional voltará a ser respeitado, as fronteiras do país que hoje está a ser objecto da maldade absoluta de um pcicopata assassino voltarão a ser repostas, o país será será reconstruído e os sobreviventes poderão voltar a viver em paz e liberdade no seu próprio país. Não tenho dúvida. Todo o mal, mesmo o que parece infinito, se esgota depois de devorar os que o praticam. 

Tal como temos que manter viva a memória do nazismo e do fascismo, também deveremos manter viva a memória do putinismo. Temos que saber detectar os sinais mesmo quando apenas ainda germinam dentro dos ovos das serpentes, temos que saber impedir que floresçam e ganhem força para levar a cabo as campanhas massivas de desinformação e os genocídios que sempre levarão a cabo desde que a tal não sejam impedidos. 

Não podemos esquecer-nos do que está a acontecer. Não podemos perdoar nem esquecer.

Nem podemos esquecer-nos dos parasitas da maldade, aqueles vermes que sempre vivem no lombo das bestas, que não são capazes de se demarcar deles preferindo disfarçar a sua ligação afectiva aos criminosos repetindo as farsas que estes põem a circular, nomeadamente chamando a atenção para as consequências de não rendição. Os cobardes e os pérfidos apelam sempre à rendição dos agredidos, andam de rastos pela lama quase pondo as culpas pelos dramas da guerra nas vítimas.

Muitos milhares de russos têm estado a demonstrar a Putin e ao mundo que se demarcam da política criminosa do Kremlin. Quer através da fuga, quer através das manifestações, muita gente tem mostrado que lhe corre nas veias a coragem e o gosto pela democracia e pela liberdade. Acredito que mais corajosos apareçam e que consigam travar Putin. Quero acreditar nisso. Quero muito acreditar nisso.

Não quero acreditar que estejamos perante um risco real de uma nova guerra mundial. 

'Utter ferocity': See the devastating scene in a newly-liberated Ukrainian town

As Ukrainian forces make further gains in the eastern region of Donetsk, CNN's Nick Paton Walsh reports from a newly-liberated monastery town in the region, where local residents spent seven months underground while Russian forces occupied their homes.

quinta-feira, setembro 29, 2022

Ligações, promoções, confraternizações. Sacos. Melgas. E etc.

 


Recebo convites para participar aqui e ali, para almoços e pequenos almoços executivos, para passeios de barco, para cocktails em rooftops ao pôr do sol com jazz como companhia. Agradeço a gentileza do convite e declino ou vejo se é possível encaminhar para colegas que estejam receptivos. Eu já não consigo. Nunca tive grande saco mas, desde há algum tempo, fechei mesmo para obras. Não dá.

Hoje, ao fim da tarde fomos caminhar à beira da praia. 

Num dos restaurantes havia uma festa. Um músico contribuía para o ambiente boa onda. As ondas do mar a pouca distância contribuíam com o resto do acompanhamento musical. Num dos topos, uma mesa posta com aqueles simpáticos amuse-bouche e petites pâtisseries que coloridamente abrem o caminho para a gourmandise e que dão gosto só de olhar. Para compor o ramalhete umas dezenas de pessoas com ar de executivos que se aperaltaram para a ocasião. Homens e mulheres mostravam-se glamourosos, elas bem maquilhadas, bem vestidas e bem penteados e eles idem. Todos de copo na mão, todos sorrindo, confraternizando, circulando. Alguns mais sérios, ar de quem carrega a pesada chave que abre o cofre das soluções do mundo, certamente falando do business

E eu, vendo-os, pensei numa coisa que sempre ouvi dizer a todos os meus colegas: que os bons negócios se fazem à mesa ou que é nestas ocasiões que se fazem contactos frutuosos. E se todos o dizem é porque para todos eles isso funciona.

Pois comigo nunca funcionou. Nunca, nunca. O meu mindset só se sintoniza no business quando estou a trabalhar, em horário laboral, em local de trabalho. Preciso de estar focada nas coisas, preciso de estar preparada, preciso de ser incisiva quando for preciso, preciso de perceber até onde posso ir. Nada disto é compatível com distração, música, copos, gente a interromper.

Pior que isso: quando estou (ou melhor, quando estava) em lugares assim, odiava -- e digo bem: odiava, o-di-a-va -- que viesse algum chato maçar-me com assuntos de trabalho. 

Nestes encontros, conferências, almoços, tretas, há sempre o intuito por parte de quem organiza de estreitar connections, de estabelecer contactos, de farejar intenções de investimento. E eu percebo isso, estão a gastar dineiro nos eventos com esse propósito. Só que sou a ave que voa fora do bando, sou a ovelha sempre pronta a tresmalhar-se. Se é para ser almoço, então vamos curtir a ementa e falar de coisas simpáticas ou de política ou de lugares bonitos do nosso país. De tudo menos de trabalho. 

Não aguento quando um palerma pergunta qual a nossa experiência com a empresa A ou B, com a metodologia C ou D, com a tecnologia E ou F, com os mercados G ou H ou com o caraças. Só apetece perguntar se não sabe que é falta de educação falar de trabalho à mesa. Só não o perguntava para não me arriscar a ouvir que, justamente, aquele era um almoço de trabalho.

É que a conjugação de um almoço ou evento profissional com um chato é do pior que pode acontecer. Sempre fugi de chatos mas há ocasiões em que não dá para fugir. É, então, a tortura total. 

No Grupo, todos os anos havia encontro do maralhal quase todo. Foi interrompido com a Covid e agora está a retomar-se a boa prática. Um hotel todo por nossa conta não chega. Uns ficam na guest house

Num ou noutro sítio, à noite fazem-se grupinhos e há sempre quem aproveite para trocar ideias sobre projectos em curso ou em perspectiva, sobre problemas, sobre planos de negócio. Mal vejo algum a aproximar-se logo eu salto fora. Não há pachorra. 

Eu a organizar coisas destas, imporia uma condição: proibido falar de trabalho. 

E agora vou fazer um paralelo que, na volta, não é de nenhum paralelismo. Mas ainda assim. Qual a lógica daquelas cenas de lançamento de livros? Ter outras pessoas a falar do livro do autor? Mas há alguma coisa a dizer? Quanto muito há a ler e cada leitor que interprete como quiser. Se eu um dia escrever um livro nem arrastada me apanham numa cegada dessas. Não teria nada a dizer. Um autor vai pôr-se a dizer o quê do livro que escreveu? O que havia a dizer, foi dito por escrito. Ou outra pessoa ao lado a dizer coisas sobre o autor ou sobre o livro? Que abuso. Não faz sentido. Um escritor é escritor enquanto escreve. Quando não está a escrever, deve ser deixado em paz. Nem imagino o suplício que deve ser para um escritor ter que andar a aturar chatos que andam à volta que nem melgas para falar dos personagens ou sabe-se lá do quê. Mas parece que as editoras querem os escritores a circular, a exporem-se em lançamentos, em feiras, em encontros, parece que isso ajuda a divulgar. Não vejo como. Nem percebo como é que os escritores conseguem ter paciência para falar do que escreveram. Se me imagino nisso, só penso que, mesmo que involuntariamente, ia dar comigo a dar respostas inconvenientes, a ser irónica, a abandalhar a conversa. Acredito que, ao fim de algum tempo, na editora haveriam de me implorar que não aparecesse em público. Melhor para mim, claro.

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E isto porque vi aquela gente num fim de tarde tão bonito, mesmo em cima do mar e, em vez de curtir o jazz ou vir para a rua olhar para o sol a mergulhar no horizonte, andavam ali a jogar conversa fora ou a perder tempo a falar de trabalho. Mas sei lá. Cada um é como cada qual. Se calhar, eles é que fazem bem.

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As fotografias RX de flores são da autoria de Aleks Reba e, uma vez mais Nina Simone faz-nos companhia com Mr. Bojangles

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Um dia bom

Saúde. Boa onda. Paz.

quarta-feira, setembro 28, 2022

UM JEITO MANSO -- 6.000.000 de visualizações
Para assinalar a ocasião, uma entrevista imperdível

 


E eis que ultrapassei os seis milhões sem que estivesse atenta. Foi através de um mail que fui alertada, aliás com uma reivindicação, 'Então desta vez não há surpresa para os Leitores?'. Upssss....

Parece que foi há tão pouco tempo que aqui tivemos uma animação com filmagens e brincadeira que não me lembrei de estar preparada para o marco dos 6M. De facto, foi em Agosto do ano passado que, aqui em casa, os meus cinco pimentinhas estiveram na risota a festejar os 5.000.000 de visualizações. Aliás, de cada vez que atingi um marco com seis zeros, agradeci aos Leitores, retribuindo da maneira possível a generosidade da companhia que, ao longo do tempo, me vêm fazendo. A excepção foi a dos 4.000.000 -- passou-me, não dei por eles e, quando reparei já ia tão mais adiante que já não fazia sentido assinalar.

E hoje, apanhada desprevenida mas, se quisesse, ainda a tempo, fiquei sem saber o que fazer. A primeira reacção foi pedir desculpa por não ter nada para oferecer. Até que pensei que tinha a obrigação de puxar pela cabeça. E se já tinha tido o meu marido, já tinha tido os meus filhos, já tinha tido os meus netos, já me tinha tido em toda a minha nudez... portanto, agora teria que ter o mais recente membro da família.

Devo confessar que a falta de preparação, a premência e o adiantado da hora não me deixaram margem para estudar melhor a operação. Acresce que, na base, está a minha incompetência para a arte. Tentei a entrevista com o telemóvel mas o entrevistado não facilitou. Acresce que, de cada vez que pensei ter cumprido, ao tentar fazer o carregamento do telemóvel, me apareceu um aviso de que o vídeo era grande demais para tal coisa. Poderia ter arranjado um processo, claro que sim, para tudo (nestes domínios) há solução, mas o telemóvel chamou-me para outra diligência e depois o meu marido estava a querer que saíssemos. Portanto, fui buscar a máquina fotográfica que está empenada desde que, no Algarve, foi alvejada com jactos de areia, e, num único take, despachei a coisa. Está tudo errado, a luz, o ângulo, a proximidade, a movimentação da câmara, a ausência de guião, a incoerência das falas. Tudo. Mas acredito que já estejam habituados às minhas inabilidades e que, por isso, já as relevem. Seja como for, acreditem que é de coração.

Mas, antes, também como agradecimento, deixem que vos informe sobre algumas estatísticas que são mais vossas que minhas.

Até a este preciso momento em que escrevo as visualizações vão em 6.000.505

Até a este momento, e incluindo este que estou a escrever, já publiquei 7.065 posts

Até este momento foram publicados 21.075 comentários.

Os posts mais visualizados nos últimos 12 meses (independentemente de terem ou não sido escritos neste último ano) são os que abaixo se vêem nas imagens que capturei directamente das estatísticas do blogger. 

Alguns textos foram escritos há vários anos e, ano após anos, continuam a receber bastantes visitas. 

Por exemplo, o 4º post mais visitado nos últimos meses, aquele em que falo no regresso a casa do meu pai, foi escrito em Janeiro de 2015 (Porque o meu pai já está em casa, porque 'o humor é a liberdade', porque a vida é uma coisa extraordinária, e porque mil outras coisas). Se me reportar ao blog desde o seu início, este post é o 11º mais visto desde sempre. Comove-me pensar que tantas pessoas têm lido um texto tão pessoal, tão sentido.

Curiosamente, o 7º post mais visto desde sempre (e que não faz parte do top destes últimos 12 meses) é também um texto muito pessoal, um onde falo do meu avô: E, por falar dos figos lampos que aí vêm, as nêsperas doces e o meu avô...

Há qualquer coisa de fantástico nisto: estou aqui sossegada na minha sala, vou escrevendo sobre o que me ocorre, às vezes sobre pensamentos ou sentimentos muito meus, muito íntimos, e algures, não apenas em Portugal mas um pouco por todo o mundo, não apenas nesse dia mas ao longo de anos, há alguém que recebe as minhas palavras e que talvez se sinta acompanhado por elas. E isso é uma recompensa maravilhosa para mim.

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E agora a prometida entrevista. Aliás, a entrevista possível. O entrevistado não colabora e a entrevistadora também não acerta uma. Portanto, é mais um daqueles tesourinhos deprimentes a la UJM. Mas é com carinho que aqui partilho convosco este momento em família.

Um Jeito Manso - seis milhões de visualizações

O cãopeludo, a fera mais cabeluda de que há memória, (não) diz de sua justiça sobre o blog da sua dona



Agradeço-vos por tudo, pela companhia, pelo incentivo, pela simpatia umas vezes, por me picarem e discordarem outras vezes, por estarem aí desse lado, pelos mails que me escrevem, pela amizade que já estabeleci com alguns de vós, por tudo. 

Muito, muito, muito obrigada. Para todos os que estão aqui por bem vai o meu abraço.

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As fotografias que aqui usei foram feitas no outro dia. In heaven o outono está dourado, lindo, o chão arruivado pela caruma e pela rama miúda dos cedros. E, neste dia, apetece-me ter aqui imagens deste lugar tão especial para mim.

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E um dia bom
Saúde. Boa disposição. Paz.

terça-feira, setembro 27, 2022

Guia rápido para parecer natural

 



Sempre fui de me deitar tarde e, portanto, nunca consegui levantar-me folgadamente cedo por forma a ter tempo para grandes empreitadas pré-matinais a nível de make-up. Quando os miúdos eram pequenos e tinham que estar cedo na escola, a alvorada era compatível com dar tempo a arranjarem-se, tomarem um bom pequeno almoço, lavarem dentes, pentearem-se, etc, e no meio, em dois minutos, se tanto, tentava dar a mim própria um arzinho de minha graça. Quando ficaram autónomos ou saíram de casa, os horários poderiam ter sido abrandados não fora eu, nessa altura, ir trabalhar para mais longe, obrigando-me a não apenas atravessar a cidade como a fazer trajectos em autoestradas. Portanto, como não desbastava tempo ao sono, a parte de me arranjar continuou a ser feita em três tempos.

Ultimamente, poderia fazer as coisas como devido mas aí já estava demasiado desinstruída. Continuo na base do meia bola e força -- e  feito.

Contudo, agora, volta e meia, o YouTube presenteia-me com tutoriais com a rotina matinal ou nocturna de tudo o que é mulherada que se conservará nova até ser velha. 

Provavelmente descaí-me uma ou outra vez  a espreitar os vídeos -- sou cusca, quero saber qual o golpe de magia --, e vai daí o algoritmo, que é fino que nem um alho, topou logo que ando com vontade de saber como é. O pior é que, de cada vez que vejo, vou ao tapete. E dizem elas que aquilo é o que fazem quando não têm tempo... Faria se tivessem. Bolas. Além disso, tudo novidade para mim. Sinto-me pré-histórica, ignorante, fora deste mundo.

Para mais, vendo isto, percebo porque é que, quando for idosa-idosa, não vou conseguir fingir que tenho vinte aninhos. Não tem havido esfoliações, séruns vegans, tratamentos combinados -- e não é agora que vou conseguir recuperar le temps perdu. Ou seja: já foste, Ujota-Emezinha.

É que eu faço assim: depois da cara lavada com água fria, aplico-lhe um creme hidratante qualquer e, a nível de tratamento de pele, nada mais. Bem, não é bem um hidratante qualquer. Geralmente é de supermercado mas ultimamente procuro aqueles que se anunciam como sendo anti-envelhecimento ou anti-rugas. 

[Não sei se fazem alguma coisa a esse nível mas, assim como assim, não custa tentar. Bem sei que, na cosmética, não se vendem tratamentos, vendem-se ilusões -- mas capaz de as ilusões fazerem bem à pele, nunca se sabe].

E sempre assim foi comigo. A única vez que resolvi experimentar pôr base, fiquei estranhíssima. Olhei-me ao espelho e parecia uma bonequinha, toda lisinha, toda impermeabilizadinha, sem vestígios de imperfeiçãozinha que fosse. Ainda me lembro de um colega me perguntar: 'Está diferente. O que é que tem?'. Não me lembrei que seria da base, fiquei admirada. Depois entrei para uma reunião e o presidente, um desbocado, olhou para mim e disse para os outros: 'Está mais bonita, ela, hoje, não está?'. E para mim: 'O que é que tem para estar diferente?'. De repente lembrei-me mas não disse. Temi que estivesse a querer parecer artificial. E estava era arrependida de ter posto aquilo sobretudo por estar com medo de sujar a blusa. Nem queria pensar que a blusinha branca ficava com o decote, no pescoço, todo acastanhado. 

Nunca mais.

A nível de cosmética, também é do mais básico que pode haver. Ponho um little bit of blush nas faces a ver se fico com um arzinho de saudável vida no campo. Ultimamente nem uso nada de especial: faço um risco de cada lado com baton e depois esbato, e está o blush posto. Depois, uma sombrazita esbatida na pálpebra superior, um brilhozinho nos lábios... e está feito. Dantes ainda punha um rímelzito nas pestanas de cima. Ultimamente, nem isso. Aliás, nem sei se ainda se diz rímel pois ouço toda a gente a dizer máscara, dito assim: masscárah. Cheira-me que rímel é coisa do passado. 

Mas eis que agora, tentando aprender com estes tutoriais, constato que colocam coisa sobre coisa e tudo fica bem. Sempre temi fazê-lo não fosse aquilo reagir entre si e eu ainda ficar toda pintalgada de brotoeja ou sei lá o quê. Afinal, vejo-as a porem camada disto, camada daquilo, camada de primário, camada de foundation, camada de contour, camada de mais não sei o quê. Há coisas que nem sei o que são. O que sei é que, no fim, estão com a pele perfeita, todas elas lisinhas, luminosas, todas impecáveis.

E, então, feita macaquinha de imitação, hoje, depois de lavar a cara, apliquei um pouco de creme da L'Oreal desses anti-idade e, passado um bocado, depois de aquilo estar absorvido, pus-lhe creme nívea por cima. Espalhei bem, claro. E não apenas não reagiu com o creme anterior como me parece que fiquei com a pele melhor, mais luminosa. 

Agora à noite estou capaz de lavar a cara e aplicar um outro creme que para ali tenho para usar à noite e, por cima, mais uma dose de creme nívea. Mas quando digo creme nívea não é nívea para o rosto, é mesmo aquele mais antigo que eu, aquele indiferenciado, daquele que vem naquelas caixas azuis, metálicas, redondas, clássicas. 

E é isto.

Imagino que este tema não interesse a parte significativa dos meus Leitores mas eu hoje estou assim, zeníssima. Junto à hora de almoço fui levar a massagem que recebi de presente, ainda o verão era uma criança. Aproveitei para nadar na piscina interior, para descontrair no jacuzzi, para beber água perfumada por frutos vermelhos e, só depois, me entreguei nas sábias, fortes e suaves mãos da massagista. Havia música de meditação, velas de luz bruxuleante e não apenas vários óleos foram espalhados no meu corpo como, no final, toalhas quentes e molhadas foram aplicadas nas minhas costas. Terminei com um ritual de chá. E apetecia-me era lá ficar a hibernar. Quase aposto que mais um bocado e ainda era capaz de esvaziar a cabeça e ficar a levitar, ou seja, a meditar.

Mas, moça trabalhadeira que sou, claro que a seguir fui trabalhar como se não estivesse com a alma mais do que zen. 

Por isso, como podem imaginar, o tema agora à noite teria que ser assim, levezinho, levezinho, levezinho...

Candice Swanepoel's 10-Minute Guide to "Fake Natural" Makeup and Faux Freckles | Beauty Secrets

Victoria's Secret model Candice Swanepoel reveals how to do sunkissed skin, faux freckles, and the perfect lip tint on camera.


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Já agora: e à noite? Como é que é...? Coisa simples, também...?

Alanis Morissette's 18-Step Nighttime Skincare Routine | Go To Bed With Me | Harper's BAZAAR



Confirma-se: coisa simples...
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A primeira, a segunda e a última fotografias mostram Candice Swanepoel, 33 anos. A terceira e a quarta mostram, respectivamente, Michelle Pfeiffer e Sharon Stone, ambas agora com 64 anos. 

Bamboo Flute | by 陳悅

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Um dia bom
Saúde. Confiança. Paz.

segunda-feira, setembro 26, 2022

Quando a maior e mais nuclearizada nação do mundo está nas mãos de um único homem o que podemos dizer é que estamos a atravessar um dos períodos mais sombrios da nossa existência

 

Mesmo que se tratasse de um homem equilibrado, um democrata, um humanista, um tipo decente, um fulano culto e com uma visão holística do mundo, ainda assim seria perigoso. Toda a gente funciona bem até deixar de funcionar. E um país tem que ter camadas de poder, camadas não apenas horizontais (diferentes níveis de decisão) como camadas de poder distintas e independentes. E umas camadas devem vigiar as outras. E os termos em que a vigilância entre camadas independentes se exerce devem estar bem definidos.

Mesmo assim há perigos como vimos com Trump que, apesar de todos os checks and balances, conseguiu manter-se durante uns anos à frente dos Estados Unidos. E isto apesar de todas as suas mentiras, de toda a incompetência, dos reais riscos de deslealdade que a proximidade a Putin prenunciavam, do narcisismo doentio que o levava a toda a espécie de dislates e alarvidades, apesar da erosão política e social que cavou na sociedade americana. 

Agora imagine-se um regime obsoleto, baseado na distribuição de prebendas entre oligarcas (muitos dos quais, estranhamente, a aparecer mortos), em que as supostas primeiras figuras são humilhadas publicamente ou sumariamente descartadas, em que a lógica é a da concentração de um poder absoluto em Putin, um ex-agente do KGB, um saudosista de impérios de má memória, um psicopata assassino que governa ditatorialmente e que não se importa de sacrificar milhares de vidas para salvar a sua.

O que Fareed Zakaria diz no vídeo abaixo é muito interessante e muito claro. 

O que está a acontecer na Rússia e na Ucrânia é grave demais. Diz ele -- e eu acredito -- que a implosão do regime putinista não deve estar longe. O pior é o que vai acontecer até lá. O mundo está um lugar cada vez mais perigoso.

Zakaria explains what Putin's nuclear threat tells us about him

CNN's Fareed Zakaria discusses Putin's nuclear threats toward the West and what they tell us about  his war in Ukraine


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PS: Claro que os resultados em Itália também não podem deixar ninguém muito tranquilo

O nazismo e o fascismo cercam as democracias como feras sedentas de sangue.

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domingo, setembro 25, 2022

O que diz Yevgenia Albats

 

No vídeo abaixo, Yevgenia Albats, corajosa jornalista russa, diz a Anderson Cooper o que pensa do que está a acontecer no seu país. 

De uma forma ou de outra todas as vozes lúcidas convergem, dizendo o óbvio. Putin é um dead body que mata sem piedade por motivos fúteis, mentirosos, pretensamente imperialistas mas, na verdade, mal calculados, mal engendrados, e que inflige morte aos ucranianos e aos russos numa luta irracional e criminosa que é tão mais tresloucada quanto mais sente que a sobrevivência lhe foge. 

Putin sabe que o que está a fazer ao seu país, impondo a guerra, forçando a guerra, agudizando a guerra, querendo forçar os homens do seu país a ser carne para canhão, só poderá ter um desfecho e, cobardemente, tenta, a todo o custo, atrasá-lo mesmo que, por cada dia que o consegue atrasar, muitas vidas sejam sacrificadas.

O mundo civilizado não lhe perdoará os crimes, os violentos atentados, o sangue e a dor que tem estado a causar. Mas, de entre todos, quem mais quer travá-lo e quem mais o odiará para todo o sempre serão os próprios russos. 

Milhares fogem como e para onde podem, outros, corajosos, vão para a rua manifestar-se, outros tentam partir os próprios braços para não serem alistados. 

Esta guerra cruel e miserável não vai acabar bem para ninguém pois ninguém sai bem de uma guerra. Mas vai acabar ainda pior para Putin, esse bandido que age à margem da lei, que mostra que não tem coração nem razão.

Russian journalist Yevgenia Albats says Putin knows he's losing

Um bom dia de domingo

Saúde. Luz. Paz.

sábado, setembro 24, 2022

Joe Biden 'perdido no palco'. Caso para chacota?

[E memória do meu pai].

 

Um vídeo com Biden supostamente perdido no palco, aparentemente sem saber bem para onde ir, tornou-se viral. E não houve gente medíocre e com reservas mentais quanto aos democratas dos Estados Unidos que não saísse à cena  a dizer que estamos bem entregues ou que Biden não bate bem da bola.

Biden Completely Lost on Stage During Global Fund Speech

Claro que não conheço o boletim clínico de Joe Biden nem as circunstâncias em que aquilo aconteceu.

O que sei é que olho para aquelas imagens e não apenas não consigo tirar conclusões como, sobretudo, não consigo gozar.

Por uns momentos, vendo aquele excerto, descontextualizado, lembrei-me do meu pai.

Quem por aqui me tem acompanhado lembrar-se-á que o meu pai, que entretanto morreu há pouco mais de dois anos, teve cerca de doze anos antes um AVC extenso e grave que o deixou muito debilitado. Depois de muita fisioterapia recuperou o andar e esteve durante muitos anos autónomo a nível da movimentação (embora com algum acompanhamento), a nível de se alimentar e de tratar da própria higiene. Falava, estava lúcido, tinha boa memória. Para o fim, talvez dois anos antes de morrer, depois de ter partido uma perna e de ter sido operado, aí, sim, entrou em declínio acentuado e tornou-se quase totalmente dependente.

Mas, antes desse terrível AVC, teve pelo menos quatro AITs. Eram coisa ligeira, em especial dois deles, nem ninguém percebeu que eram um aviso para levar muito a sério. Apenas depois, pelos exames que fez noutras alturas, se percebeu, pelas pequenas marcas que deixaram no cérebro, que tinham ocorrido. Os outros dois últimos já foram mais evidentes mas, em qualquer dos casos, eram coisas momentâneas e das quais recuperava completamente, fazendo uma vida normal. Mas, de vez em quando, percebíamos, por pequenos sinais, que havia ali qualquer coisa que não estava absolutamente bem. Contudo, só as valorizámos depois do AVC.

O meu pai sempre teve uma saúde robusta, era muito activo, fazia caminhadas, praticou desporto até tarde, tinha orgulho nos seus hábitos saudáveis e na sua vida tão cheia de energia. Não era hipertenso, não tinha colesterol alto, não era gordo e, fisicamente, parecia mais novo que era.

Contudo, era um bocado stressado, tendia a dormir mal e de vez em quando tinha arritmias. Como fazia uma alimentação saudável e achava que tinha controlo sobre o seu corpo e, além disso, era avesso a medicamentos, geralmente não seguia a medicação devida. 

E foi isso que o tramou. Mas só o percebemos tarde demais, quando teve o AVC.

O primeiro AIT foi assim: estava em casa e, ao ir no corredor, fraquejou momentaneamente, como se lhe tivesse faltado a força nas pernas. Agarrou-se ao fecho de uma porta, equilibrou-se. Durou uma fracção de segundo. Mas ele achou estranho, a minha mãe achou estranho. Mas ficou bom, continuou a sua vida activa, normal. Não pensou mais nisso.

Outra vez, no verão, estavam a passar férias in heaven com os meus filhos. Quando lá estavam, ele fartava-se de trabalhar: aplicava verniz protector nas portadas de madeira, montava rede protectora para as janelas com armação de madeira para não entrarem bichos, regava, etc. Um dia, ao almoço, por uma ou duas vezes, ao levar a comida à boca, parecia que não acertava bem com o garfo. Nem ele percebeu o que se passava nem a minha mãe o percebeu. Pensou que estava com os braços e as mãos cansadas, ou que tinha estado tempo demais ao sol. Ficou bom, não ligou. Mas, quando lhes liguei, a minha mãe referiu isso. Mas aquilo tinha durado uma fracção de segundo, tinha ficado logo bem. 

Entre uma e outra coisa, podiam passar anos de vida normal. Iam de férias para o Algarve, iam de férias para as Beiras, passeavam, iam ao cinema, tudo tranquilo. 

Até que uma vez foi pior. De manhã, ao acordar parecia que as palavras não lhe saíam bem. Mas tinha dormido mal, pensou que precisava era de dormir. Mas, em vez disso, foi andar para a rua, a ver se espertava. Um vizinho disse à minha mãe que achava que ele não estava muito equilibrado, que parecia hesitante no andar. A minha mãe estava a estranhar aquilo e disse-lhe que era melhor irem ao hospital. Zangou-se, estava bem. Mas a minha mãe não achou que ele estivesse absolutamente normal. Falou com o meu tio, irmão dele. Ele foi vê-lo e também achou que alguma coisa não estava completamente bem. Ligou à minha prima, que é médica, e ela disse que era melhor levá-lo ao hospital. Aí foi detectado o AIT e foi nessa altura que se percebeu que já lá havia umas marcas de pequenos AITs anteriores. Passou a noite lá, por precaução. Fui buscá-lo do dia seguinte. Saiu pelo seu pé, vinha normalíssimo, a achar que tínhamos exagerado nos cuidados. 

Nos tempos seguintes esteve óptimo e ninguém pensava mais em tal coisa. Supostamente estaria medicado embora houvesse sempre divergências entre ele e a minha mãe, ela que achava que ele deveria seguir a medicação à risca e ele que achava que ele é que sabia e que ela não tinha nada que andar com aquelas conversas.

Nessa altura, a nossa boxer ficava lá durante a semana e ele ia passear com ela para o campo ou para a praia, fazia móveis em madeira, ia às compras, era activo e estava saudável. Nem mais nos lembrámos do AIT. Até ao seguinte.

O último poderia ter tido consequências graves. Tinha ido ao shopping com a minha mãe e, no parque de estacionamento, tinha ficado com o pé na embraiagem e não o conseguia levantar. Apanharam um susto. Se o carro estivesse em movimento, o que poderia acontecer... Aí perceberam nitidamente que a perna tinha ficado momentaneamente sem acção. Foi também apenas uma fracção de segundo. Dali seguiram, com ele a conduzir, para o hospital. Outro AIT, claro. 

Dessa vez, houve uma sequela, por sinal muito bizarra: esqueceu-se dos números. Não os reconhecia e, claro, não sabia fazer contas. No dia seguinte foi para casa, fresco, a andar e falar normalmente. Mas aquilo dos números era muito estranho. A minha mãe ensinou-o e ele rapidamente recuperou o conhecimento. Nessa semana, na sexta à tarde, quando lá fui buscar a cadela, já ele estava a resolver raízes quadradas à mão, números imensos cujas raízes quadradas resolvia na maior das calmas. Ficou bom de novo. 

E mais uns anos passaram até que veio aquele terrível AVC.

Esteve muito tempo no hospital e voltou para casa com meio lado do corpo morto, com meio campo visual perdido, com dificuldade na fala. 

Veio a recuperar a mobilidade e a fala. O campo visual perdido é que não teve volta. Mas uma outra coisa apareceu comprometida: a orientação espacial de proximidade. E isso era muito estranho. Se lhe perguntássemos como se ia de casa até um sítio qualquer na cidade ou noutra, ele descrevia as ruas, o percurso todo, ao pormenor, sabia onde se poderia estacionar na proximidade, tudo. Mas quando saía da sala, por exemplo para ir à casa de banho, parecia ficar perdido, não sabia se era para a esquerda ou para a direita, hesitava. Mesmo quando se levantava da cama, via a porta do roupeiro e ficava na dúvida se a porta do quarto era ali ou se era noutro sítio. Era muito estranho. Vacilava, ficava perdido (e muito infeliz).

Nessa altura, descia as escadas sozinho, andava no jardim, ia à rua, tudo bem, e arranjou truques para se orientar. Mas uma vez, vinha da rua, talvez encandeado ou talvez simplesmente desorientado, entrou na sala cuja porta é perto da entrada e deu uma volta à chave, tirando-a da porta e colocando-a numa estante. Pensava que estava a fechar a porta da rua e a pôr a chave num móvel chaveiro que há parede. Quando a minha mãe percebeu o que se tinha passado, começou a dizer-lhe para abrir a porta. Mas, como não percebeu o que tinha acontecido, pensou que, inadvertidamente, se tinha fechado em casa deixando a minha mãe na rua. Então, dizia à minha mãe para dar a volta à casa e tentar entrar pela outra porta. A minha mãe, aflita, dizia que ele se tinha fechado na sala. Como via mal, como a sala estava com a janela fechada e às escuras e como ele estava completamente desorientado, foi o cabo dos trabalhos. Teve que se chamar uma pessoa que, não sei como, conseguiu entrar pela janela. Ele estava muito nervoso pois, nestes momentos, sentia-se diminuído e até envergonhado por dar trabalho e pela situação a que tinha chegado.

Não faço ideia do que se passou com Joe Biden no dia que o vídeo mostra. Pode ter sido apenas cansaço, exaustão. Não sei.

O que sei é que acho que não devemos gozar com quem passa por situações assim. As pessoas podem estar bem, fazer a sua vida normal, estar lúcidas, na plena posse das suas capacidades e, no entanto, momentaneamente, passaram por um qualquer estado de perturbação. Pode acontecer com os nossos pais, pode acontecer connosco. Somos todos feitos de matéria frágil.