sábado, maio 28, 2022

As mãos, a lã, a tradição, a paz nas montanhas

 


Não sei se posso dizer que sou artesã. Gostava de poder dizer. Contudo, agora de artesanato apenas faço o blog. Mas, durante muito tempo, fiz tapetes de arraiolos. Já tinha feito tricot e quando mudei de casa reencontrei várias camisolas feitas por mim, geralmente com um design improvisado enquanto ia fazendo. Apenas para os meus filhos e marido fazia peças normais. Para mim era sempre um design fora da caixa. Também houve uma altura em que fazia crochet e até uma colcha eu fiz. E bordei e tenho vários 'quadrinhos' abstractos feitos em bordado. Mas aquilo de que mais gostei de fazer foi, sem dúvida, os tapetes de arraiolos.

Para já, gosto de tapetes. Não apenas gosto de fazê-los como de os ver e sentir na casa. Digo 'sentir' porque frequentemente ando descalça. Acho que uma casa, para ficar confortável, tem que ter tapetes. E gosto de tapetes de lã. Um dos mais bonitos, comprei-o em Londres e é um tapete afegão. É um tapete frágil, lindo, em lã que parece prensada e, depois, sobre a base da lã prensada, é bordado. É uma pequena carpete, talvez de 1,2 por 2m. Está in heaven e por isso agora não posso medi-lo. Com medo que se desfizesse, pedi à minha mãe que o forrasse. A parte que agora contacta com o chão é de algodão espesso e pespontou o tapete ao forro. Tenho também um outro tapete afegão mas mais simples, menos frágil. Tem um bordado em quadrícula, em cada quadradinho um desenho quase infantil. São peças especiais. 

Às vezes penso que, um dia que tenha tempo, poderia fazer tapetes e quadrinhos bordados para vender. Mas, deformação profissional oblige, mentalmente faço um business plan e concluo que não dá. Fazer um tapete leva tempo. E as lãs são caras. Teria que vender o meu trabalho a valor abaixo do de terceiro mundo para que alguém os quisesse comprar. E estar a trabalhar para aquecer não me parece que faça qualquer sentido. 

No entanto, vejo imagens como as do vídeo abaixo e fico encantada, as mãos a fervilhar de vontade de fazer coisas assim.

Trata-se de uma família ucraniana que, numa aldeia remota, continua o seu ofício de trabalhar a lã, de fazer tapetes e outras peças. E todos colaboram, a mulher, o homem, a filha. A filha, jovem adolescente, trabalha ao lado da mãe e é geralmente ela que aparece nas fotografias a usar os casacos. 

A lã, depois de tosquiada, tem que ser desfiada, fiada, tingida (quando é o caso), lavada, penteada, tecida, lavada de novo, escovada. Muito trabalho até que fique pronta e apta a durar anos. Uma maravilha. 

Estive a ver as peças que estão à venda e fico tentada. O conforto que um tapete ou um cobertor ou um poncho assim transmitem é palpável apesar da distância e apesar de não poder fazer o que apetece: passar a mão para lhes sentir a macieza.

As sapatinhas, por exemplo, devem ser tão boas de sentir, devem ser tão confortáveis... O pior nelas é que uma pessoa, com umas sapatinhas destas calçadas, nem deve ter vontade de sair de casa.

Mas o melhor é vermos o vídeo.


Ukrainian Mountain Weavers Refuse To Surrender Their Traditions In War Or Peace | Still Standing

Ukrainian’s Hutsul ethnic minority is keeping a century-old weaving tradition alive by using the same tools and techniques that their people have for generations. In war and in peace, they’re determined to keep their craft alive, and they sell their blankets on Etsy (www.etsy.com/ie/shop/WovenWoolArt). We visited their village in Western Ukraine to see how their tradition is still standing.


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Viver poderia ser sempre uma coisa simples, boa.

sexta-feira, maio 27, 2022

Uma casa no campo, uma casa na cidade

 



Se seguirmos um blog com regularidade, acabaremos por reconhecer um padrão. Há quem fale com arrogância moral, colocando-se num plano de superioridade a partir do qual tudo o que alcançam são seres menores a cometerem actos vulgares, mesquinhos. Há quem use palavras raras para contar histórias de mulheres carentes ou ardentes que acabam por ceder aos desejos caprichosos do autor. Há quem se martirize com os próprios defeitos queixando-se das suas tendências auto-destrutivas. Há quem romantize a vida, os sonhos, a luz, e, em palavras ou em riscos, consiga traduzir sentimentos com uma precisão e contenção ímpares. 

Não sei como me vê quem por aqui me acompanha mas sei que há um padrão: o sono, a escrita sob o efeito do sono. 

Um dia vou aprender a escrever durante o dia, quando estou bem acordada. Agora não consigo pois só tenho tempo à noite. Mas, mesmo quando tenho tempo durante o dia, parece que todas as outras tarefas são prioritárias em relação a esta. Sinto que tenho que varrer, fazer o almoço, arrumar papéis, fazer pagamentos, ir às compras. E, mesmo nesses dias, só à noite, quando nada mais há para fazer e quando estou demasiado cansada para fazer qualquer outra coisa, é que me ponho aqui a escrever. E, no entanto, mesmo quando me custa manter os olhos acordados e pouco ou nada tenho para dizer, aqui estou.

Os dias têm andado madrugadores. Parece que os astros se andam a desalinhar pois para juntar o punhado de gente que deve tratar de alguns assuntos parece que as únicas horas possíveis são à hora em que as galinhas abrem os olhos. O défice de sono vai-se acumulando e eu anseio por pôr o descanso em dia. 

Hoje a meio do dia, lavei umas almofadas e coloquei os 'recheios' dentro da forra de outras que tinha lavado. Também reguei uns vasos. E lavei à mão uma blusinha sensível que não quero lavar na máquina. Com o sol e calor que estava secou num instante.

Ao fim da tarde, quase a noitar, antes de fecharmos as janelas, fui apanhar nêsperas com o pau que tem um gancho na ponta. Comi algumas ao jantar. Boas.

Com esse gancho a ver se esta sexta-feira arranjo tempo para puxar umas guias de glicínia que estão a invadir o quintal da vizinha. 

Sinto muita vontade de ter tempo para fazer coisas assim sem ser a correr.

Também tenho vontade de ir comprar uma grinalda de luzinhas solares para colocar aqui no jardim, no pátio onde costumamos juntar-nos. Mas gostava de ir com tempo para poder ver o que há e escolher com calma. E também gostava de ter tempo para poder dar bondex no banco de madeira que pusemos no jardim, à frente. 

Mas, em vez disso, uso o meu tempo a ver ebitdas, a pedir explicações sobre margens e afins. E o pior é quando aqueles a quem peço explicações, em vez de irem direito ao assunto e despacharem a resposta em três tempos, resolvem justificar tudo muito justificado, uma minúcia que quase me faz ficar com falta de ar, uma argumentação que quase me dá vontade de inventar uma desculpa e pirar-me a sete pés.

Enfim. Cada um é para o que nasce e, para além disso, todos temos uma cruz para carregar.

Portanto, com tudo isto, quando aqui me vejo, quero saber se alguém já internou o Putin (tenho ouvido dizer por aí que é assim que o seu destino se vai cumprir) ou se já acabou o julgamento que opõe Johnny Depp à Amber Heard (coisa com mais destaque do que pandemia, guerra ou degelo) ou, ainda, para ver em que param as modas, nomeadamente o que andam a vestir as socialites que embelezaram a passadeira vermelha de Cannes. Neste particular vi que o que está a dar é a transparência, tudo a ver-se por debaixo. Só ainda não percebi se se aplica a toda a gente, de qualquer idade e qualquer elegância, ou se apenas se aplica a jovens esculturais. Mas essa dúvida fica em stand by. Não estou com cabeça para temas metafísicos.

Vou escolher algumas das fotografias que fiz no outro dia in heaven para polvilhar este texto. Faz de conta que estou a polvilhar o meu kefir matinal com canela. 

Reparem nestes little figuinhos. Agora estão assim, inocentes, infantes. Não tarda estarão tentadores, doces, carnudos. E sobre estes milagres é que os intelectuais deveriam escrever  tratados. Transcendência maior não pode haver. Digo eu.

Bem. Hoje não dá para mais que isto. Só se for decorações. Gosto muito de ver casas. Partilho convosco o vídeo com a simpática Alexandra Tolstoy (de quem já aqui falei, ex de um oligarca próximo de Putin) na sua casa de campo que é toda muito cottage, muito british mas que depois tem um recanto muito seu, muito russo.

Love your home x Alexandra Tolstoy

E agora em Chelsea, uma casinha à maneira. Muito agradável.

The Home of Alexandra Tolstoy Created With Colefax & Fowler Design Firm | Christie's

‘This house is a family home,’ says Alexandra Tolstoy of the beautiful six-bedroom Chelsea residence she converted from two adjacent artists’ studios. ‘I wanted it to be really comfortable — not to be stilted and too formal.
‘Everything we’ve got I feel is in its own right very unusual and special.’

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E tenham um dia bom

quinta-feira, maio 26, 2022

A contida emoção de dois gigantes

 

Já antes aqui os referi e hoje, de novo, vou falar deles. 

Muitos serão os heróis e heroínas que se têm revelado nesta guerra sangrenta. Uns porque largaram tudo e foram lutar para a linha da frente, outros porque tudo arriscam para andar a ajudar os soldados, os feridos, os escondidos, outros porque conseguem sobreviver durante meses em subterrâneos, sem luz, sem água, sem gás, outros porque conseguiram a coragem para pegar nos filhos e, deixando tudo para trás, partir para onde não conhecem nada, nem os lugares, nem as pessoas, nem a língua, outros porque conseguem fazer uma vida aparentemente normal enquanto as bombas caem sobre as casas e os mísseis cruzam os céus. São muitos. Milhões.

Muitos filmes, muitas séries, muitos livros se produzirão sobre o que está a passar-se e será difícil escolher alguém, uma só pessoa, que se destaque mais do que os outros. 

Ao escrever isto lembro-me dos primeiros que chamaram a atenção pela inacreditável bravura, mas esta não será certamente superior à avalancha de coragem a que se tem vindo a assistir desde então. Mas porque foram os primeiros, ficaram gravados de forma mais indelével. 

A mulher de idade que disse ao soldado russo que guardasse sementes de girassol nos bolsos para que floresçam quando o seu corpo estiver enterrado. Os soldados da Ilha da Serpente que responderam à ordem de rendição russa com um 'Vão-se f..., soldados russos'. Ou Zelinskyy a dizer que os soldados russos verão os seus rostos e não as suas costas quando invadirem o território ucraniano. Ou a dizer que quer munições e não uma boleia para abandonar o país.

Mas não tenho dúvida de que os irmãos Klitschko terão também um lugar de destaque no grupo dos heróis desta guerra. Têm sido uma presença firme e corajosa nos momentos difíceis e conseguiram inspirar a confiança necessária para que a vida (quase) voltasse ao normal em Kyiv. São dois gigantes que guardam a capital de um país debaixo de fogo. Não abandonam as populações, estão onde é preciso, falam com uma calma determinada à comunicação social de todo o mundo e deixam sempre bem claro que estão ao lado dos seus conterrâneos a lutar pelas suas vidas, pela vida dos seus familiares, pela liberdade e pela independência do seu país.

Estão cansados e percebe-se a sua emoção ao dizerem que todas as guerras são horríveis, ao testemunharem o medo dos inocentes. Mas lutarão como leões pelo seu país e pelos seus conterrâneos e isso é certamente uma inspiração e um exemplo para muita gente.

Ukraine War: Klitschko brothers warn 'this war could destabilise Europe'

Political and business leaders from across the globe have been meeting in Davos to discuss the economy this week.

Sky's Paul Kelso spoke to the Mayor of Kyiv Vitali Klitschko and his brother Wladimir, who asked for an international, unified response to Russia's actions.

They also warned that the conflict in Ukraine could destabilise all of Europe.


E foi parte do vídeo abaixo que, na entrevista acima, foi mostrada aos irmãos Klitschko. Mais um punhado de gente que deveria igualmente figurar na tribuna dos heróis desta guerra absurda e bárbara. 

Ukraine War: The desperate fight for Severodonetsk, a city under siege

Sky's Alex Crawford witnesses first hand the desperation of people living in the war-torn city of Severodonetsk in eastern Ukraine

E tão vítimas da desmesurada ambição imperialista e assassina de Putin e dos seus apaniguados são os ucranianos como os próprios soldados russos que, muitos sem preparação e sem motivação, caem mortos nos campos de batalha sem que ninguém queira resgatar os seus corpos. Fechados em sacos de plástico, muitos sem identificação, estão armazenados em contentores frigoríficos à espera que haja alguém que os receba na Rússia. Isto enquanto as famílias nada sabem deles e provavelmente acreditam nas torpes patranhas com que a opinião pública é manipulada.

Russian soldier corpses pile up in refrigerated trains as 'Putin set to lose 30k men' in Ukraine


The bodies of dead Russian soldiers have been piling up on refrigerated trains, a video shows.

The claim, made by Ukraine in a video released Friday, comes after reports Vladimir Putin has lost nearly 30,000 of his troops in battle.

The footage, shared by Ukraine's railway chief Alexander Kamyshin, describes how Ukraine preserves the bodies of the fatalities.

The captions reads: "We treat dead #russians better than they treat live #ukrainians. Just another thing that makes us different."

The clip states that Ukraine preserves the bodies "according to humanitarian law, to release them to mothers and wives."

It adds: "Russia hides real losses from families. To avoid panic and to avoid payment of compensations."

The video then explains how Ukraine preserves the bodies by storing them in refrigerated trains. It adds that the railway is ready to deliver "cargo 200" to Russia- a Soviet military code term referring to war casualties.

The video ends: "Your 'cargo of 200' is waiting on demand".
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E queiram descer caso vos apeteça voar na companhia de Sergei

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Sergei in love

 

Já andava com saudades dele. É daqueles amores, sabem. Quando se gosta assim, mesmo que não se perceba ou não se ache bem, a gente continua a gostar. 

Já pintou a manta, já se pintou todo (incluindo estampar-se com a fotografia do Putin), já inalou e ingeriu o que não devia -- e, no entanto, se me ponho a vê-lo voar, esqueço-me de tudo e foco-me apenas na sua arte.

Na verdade, a gente não tem que conhecer ou aprovar as opções pessoais de um artista para apreciar a sua arte. Melhor: a gente não deve mesmo saber. A arte deve valer por si, independentemente das opções de vida de quem lhe deu vida.

A viver na Rússia, com a mulher grávida a viver na Rússia, mas nascido ucraniano, em Kherson, e com família ainda a viver lá, Sergei que até não há muito gostava de detonar a sua carreira, dizendo coisas inaceitáveis, gerando desconforto e repúdio no meio em que se move, não faço ideia de como está agora a gerir as emoções.

Espero que a sua família, na martirizada Kherson, ainda esteja viva e que a sua casa não tenha sido arrasada, espero que tenha mandado apagar a tatuagem do Putin, espero que se sinta agoniado com a chacina que o assassino está a levar a cabo na Ucrânia, espero que apoie os seus colegas que saíram da Rússia. E espero que continue talentoso, brilhante, exímio voador.

Sergei Polunin & Elena Ilinykh: Life, Love, and Family

Ballet dancer Sergei Polunin (Сергей Полунин) and ice dancer Elena Ilinykh (Елена Ильиных) in a montage with their art, life, relationship, and their family including their sons, Mir and Dar Polunin. 

Song: Nuvole Bianche by Ludovico Einaudi. Cover by Luka Sulic (cello) with Evgeny Genchev (piano)

Footage: Crocus Fitness Awards 2019, Elena Ilinykh and Nikia Katsalapov "Don Quixote" 2010 -2011 Euros; Sergei Polunin and Erika Mikirticheva in Don Quixote with the Stanislavsky Ballet 2012 and 2013. Russian Morning Show Interview, April 2019. Vlad Topalov and Elena in "Ice Age", aired October, 2020, with Sergei as one of the judges. Evening Urgant show 2019, 2020. Polunin Ink Tour video (Romeo and Juliet, 2019). Art Kitchen Project 2019. Who Wants to Be a Millionaire 2020. Avto Radio and Russian Television Show Interviews in 2021. "Rasputin" rehearsals, promotional appearances, and performances 2019 and 2021. Sia "Music" music video rehearsals, behind the scenes, and official video. Bililbili short for Sergei's channel "How I Met Elena". Inglot modeling shoots and promotional videos. Hello Russia modeling shoot 2020. Photos and videos from Elena, Sergei, and their mothers' Instagram accounts 2020-2022. 

quarta-feira, maio 25, 2022

Um mistério que esconde outro mistério que esconde outro mistério.
Uma matriosca de mistérios.

 

Já aqui o referi: fico passada comigo mesma por verdadeiramente nunca me ter ocorrido que Putin era um perigo não apenas para os russos como para o resto do mundo. Eu sabia das prisões e dos envenenamentos e achava que isso era lamentável, desastroso. Por isso, obviamente não simpatizava com Putin. Também sabia da invasão da Crimeia, das suas incursões em território alheio, mas ou porque estava mal informada ou mal informada, relativizava. Tinha ideia de que, às tantas, o desenho das fronteiras tinha sido impreciso e que se tratava de pôr o risco um bocado mais para leste, coisa sem grande relevância internacional e que merecia (mais ou menos) o apoio das partes envolvidas. Lembro-me de participar em conversas sobre isso mas a ideia que tenho é que ninguém sabia bem o que dizia. E havia aquilo dos hackers russos e da espionagem económica e de outro tipo. Falava-se que não eram hackers por conta própria mas que era o próprio estado russo que o fomentava. Sabia, achava grave, mas também há os chineses, os coreanos. Ou seja, relativizava. E havia também a ingerência russa nas eleições ocidentais. A ser verdade, seria muito grave. Mas não sabia se seria mesmo verdade. Podia ser chicana política. 

Ou seja, desvalorizei. Não liguei as pontas. A minha perspicácia falhou em absoluto. Se cada um destes factos já seria grave de per se, quando juntos não deixam margem para dúvidas de que o perigo é real e não poderia ser desvalorizado.

O meu marido tenta apaziguar a minha auto-condenação: diz que não era a mim nem aos civis em geral que competiria mapear os riscos e alertar a comunidade internacional para os riscos não negligenciáveis que estavam a desenhar-se para os países vizinhos e não alinhados com a Rússia e, por essa via, para o mundo em geral -- era aos serviços secretos de todos os países.

Então como é possível que tenham falhado todos? Ou não falharam... e os políticos é que não os levaram a sério? Mas, então, porquê?

O que falhou? Alguma coisa foi. Aliás, muitas coisas foram.

Já se sabia (e agora sabe-se mais e melhor) como a Rússia tinha (e tem -- e agora bem à vista de todos), espalhados pelos mais diferentes centros de decisão (na política, na comunicação social, nas forças armadas, no meio académico, etc), agentes de influência que canalizavam informação nos dois sentidos. Mas isso não acontece apenas com a Rússia e, portanto, até aí, nada de mais. Mas os agentes dos serviços secretos dos países ocidentais não perceberam qual o rumo que a estratégia russa estava a seguir? Ou os políticos estavam todos cegos? Todos...? Ainda se fosse apenas um ou outro... Agora todos...?

Não percebo -- e, se alguém aí desse lado o percebe, muito agradeceria que me explicasse. É que tudo isto me deixa deveras intrigada.

Penso que os investigadores têm aqui um manancial de informação por explorar. Muito há por perceber em toda esta história de horror.

Twenty Years of Putin Playing the West in 3 Minutes | NYT Opinion

Vladimir Putin, especially these days, is widely reviled. To some he’s a war criminal, to others he’s a dictator, and to many he’s simply a very bad man.

But it wasn’t always this way.

We trawled through video footage from 20 years of international summits, speeches and news conferences and discovered a man who once basked in high regard: the one who went fishing and dancing with George W. Bush, who fell into warm embraces with Tony Blair and whose jokes had NATO’s leaders rolling on the floor with laughter.

As the Opinion Video above starkly reveals, Western leaders once considered Vladimir Putin not just an ally, but also, apparently, a friend.

Even if they were simply giving him the benefit of the doubt for political purposes, they were taking a naïve gamble of historic proportions: Be nice to Putin, and maybe he would be nice back.

It’s true that this brand of personal diplomacy scored some significant security victories. Arms control treaties were signed, and Putin allowed U.S. jets to strike the Taliban from bases in Russia’s satellite states.

But as Russian tanks rolled into Georgia in August 2008, Bush learned that his eight-year friendship with the Russian leader had earned him zero leverage over Putin’s territorial ambitions.

While it’s debatable whether Western governments could have foreseen the bloody horizon of Putin’s vision, let’s now be clear about one thing: Personal diplomacy doesn’t work when you need it most.


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Pela parte que me toca, já se sabe.


terça-feira, maio 24, 2022

Jaime Vilaseca diz que foi ela que mudou a sua vida.
[Por acaso, ela nasceu na Ucrânia e, por acaso, diz-se que a mãe foi violada por soldados russos. Mas isso agora não vem ao caso]

 

Não poderei dizer que ela também mudou a minha vida pois, para falar a verdade (se é que sei qual a verdade, não é, K.?) acho que nunca nada mudou a minha vida. Olho para mim e vejo-me, agora e desde sempre, no mesmo trilho. Não mudei por nada nem por ninguém. E não por obstinação, orgulho ou sina, apenas porque todos os caminhos que percorri foram sempre o mesmo e é o caminho que me traz e não eu que o escolho.

Mas que ela me impressionou fortemente lá isso é um facto. Quando a conheci, quase parava de respirar para tentar perceber que sentimentos eram aqueles, os dela que assim se me dava a conhecer, os meus que assim me conhecia e que assim a conhecia. 

Não sei qual o primeiro livro que li dela. Nunca tinha lido coisa assim. A gente sente e pensa mas, por vezes são coisas tão cá dentro, tão viscerais, que nem faz sentido tentar encontrar palavras para as traduzir. São coisas que se formam dentro da respiração, que circulam dentro do nosso sangue. Mas ela fazia-o, encontrava as palavras para isso e era tudo tão íntimo e, ao mesmo tempo, tão transcendental que, de repente, as coisas mais etéreas e as mais terrenas se encontravam cerzidas com a perfeição das coisas raras e belas demais.

Não se percebem pessoas assim. 

Não sei se foi a história da sua família que ficou inscrita nos seus genes, se foram as dores que a mãe sofreu, se é coisa que sempre teria existido mesmo que o percurso de vida fosse outro, mesmo que tivesse ficado na Ucrânia, mesmo que a mãe não tivesse sofrido às mãos dos russos. 

Não se sabe. Eu, pelo menos, não sei. 

[E ainda bem que não sei pois a vida seria insuportável se soubéssemos tudo o que há para saber]

Uma moldura para Clarice

Um encontro com Clarice Lispector mudou sua vida, na década de 1960. O espanhol Jaime Vilaseca era marceneiro no Rio de Janeiro. 

A escritora encomendara a ele uma estante de livros, que foi feita e montada em seu apartamento, no bairro do Leme. Durante aqueles dias, silenciosamente, observara-o trabalhando e, terminado o móvel, olhou para ele e disse: “Você vai ser moldureiro. Não vai escapar ao seu destino!”.


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Estender a roupa como deve ser
-- Um post para quem gosta de animais... e de sorrir... --

 

Dantes tinha máquina de secar roupa. Uma vez meti lá dentro uma coisa pesada (cobertor?) que ficou ainda mais pesada estando molhada e, com o peso, partiu-se a fita (ou a correia?) que sustinha o tambor. Pelo menos é o que me lembro de quando o técnico lá foi. Deu a explicação, disse que ia ver se arranjava uma peça, depois nunca mais dizia, depois disse que não tinha arranjado mas que ia falar com um colega a ver se arranjava, depois nunca mais disse... e fui-me habituando a prescindir dela.

Quando mudámos de casa, desfizemo-nos da dita cuja. Problema resolvido.

Mil vezes melhor secar ao ar livre. Há o trabalho de estender e apanhar mas é uma espécie de exercício e eo exercício faz bem. No campo, então, quando está vento e sol é uma maravilha, a roupa é como se levasse uma lavagem suplementar.

E gosto de a dispor certinha, direitinha. De vez em quando o meu marido, acelerado como é, começa a tirar a roupa da máquina e a estendê-la antes de eu chegar. Frequentemente tenho que retirar as molas e voltar a estender como deve ser. É que poucas coisas são passadas a ferro para além das camisas dele pelo que, se estender a roupa com 'preceito' (como diz a minha mãe), ela acorda seca e aprumada.

Mas uma coisa é estender a roupa de modo a não deixar marcas e outra é estendê-la artisticamente.

A artista russa Helga Stentzel, agora a viver em Londres, tem essa pontinha de graça que faz com que, com duas ou três peças de roupa, dê à luz toda a espécie de animais. Depois fotografa-os. E a gente fica a sorrir.








Desejo-vos um bom dia

domingo, maio 22, 2022

Imagens de satélite mostram o que não vai ser possível esconder

 

Para os mais distraídos poder-se-ia arranjar um exercício simples: descobrirem as diferenças entre o 'antes' e o 'agora'. Poderíamos ainda pedir que se entretivessem a identificar o que aconteceu. E, num esforço ainda atento, que identificassem as consequências do que aconteceu.

Imensas valas cavadas em torno das zonas massacradas por sucessivos bombardeamentos. Para que servirão? Para enterrar corpos? Quantos? Quantos milhares? Quantas pessoas restaram para chorar os seus familiares que agora são apenas 'corpos' à espera de ser enterrados para que não se decomponham à vista dos vivos?

E os campos antes plantados com cereais que, uma vez colhidos, eram armazenados em grandes silos quando voltarão a produzir? E onde serão armazenados os grãos se toda a infraestrutura foi arrasada? Porque foram destruídos os silos de cereais e as instalações de carga e distribuição? Para empobrecer os agricultores? O país? Para matar outros tantos milhares à fome, sabendo-se como são críticos os cereais para as populações mais pobres de todo o mundo?

E as fábricas agora destruídas? Quanto tempo demorará a reconstruir um complexo como este?

Digo-vos sem sombra de dúvida: anos. Primeiro há que remover os escombros, voltar a preparar os terrenos. E há que fazer os projectos para todas as novas estruturas. Depois encomendar os novos materiais para construir e equipar as novas fábricas. Com a escassez de matérias primas, será outra dor de cabeça. Montar, testar, pôr em produção. Anos. E até lá? Toda a produção de aço que ali havia será colmatada como? Não será. Não há sobrecapacidade noutros locais que possa colmatar estas falhas. Haverá carência. Uma carência que se somará às outras carências. E não afecta apenas a Ucrânia: afecta todo o mundo.

Os crimes que estão a ser cometidos pela Rússia não podem ser esquecidos nem perdoados. Não são apenas desumanos. São vastos, complexos, profundos. 

E não nos esqueçamos. É a Rússia que está em território alheio, a destrui-lo. Não há outro culpado. 

E que não venham dizer que foi a Ucrânia que o pediu ao não aceitar ceder território à Rússia desde que esta começou a invadi-la. Crimeia? Acordos de Minsk? Que conversa é essa? Os ucranianos não querem ser russos. Demonstram-nos por palavras, por actos, pelos votos, dando o seu sangue por isso. E têm todo o direito a defender a sua vontade. A vontade dos povos é soberana. Essa á a base do direito internacional.

Se um ladrão vier aqui roubar a minha casa, querendo passar a ser o seu dono e que eu seja sua serva, tenho todo o direito a defender-me. A casa é minha, as coisas que aqui estão são minhas e eu sou dona e senhora de mim. Se o ladrão a seguir desatar a torturar-me, a destruir a minha casa até que eu ceda, haverá gente de bem que defenda o ladrão, dizendo que eu é que me deveria ter rendido?

Sei que sim, que há quem o defenda. Sempre haverá gente que defenda os agressores, gente que acha que os agressoras têm direito imperial sobre aqueles que querem subjugar. Não nos esqueçamos que houve quem defendesse, em tempos, a invasão da Checoslováquia, tal como houve quem se manifestasse a favor da 'paz' defendendo que se deixasse Hitler tomar os países que quisesse e matar quem quisesse.

O vídeo abaixo mostra imagens por satélite. E são estas imagens, tal como as imagens colhidas por drones, tal como as comunicações móveis omnipresentes que desmontam qualquer argumento negacionista. 

Satellite image leads to horrifying conclusion


🎵 (Ras)Putin Remix - Boris Johnson ft. Biden, Trump, and Farage 🔥

 

E agora, enquanto me inspiro para o próximo post, um pequeno interlúdio musical. A minha menininha Plim-Plim hoje pediu para ver o blog e perguntou se tenho escrito sobre eles. Respondi que não, que tenho andado mais por outros territórios. Mas fiquei a pensar que deveria fazê-lo. Mas, para escrever qualquer coisa para eles tenho que estar bem acordada e, lamentavelmente, não é ainda o caso. Por isso estou a ver se desperto.

Fico-me, por ora, por um sugestivo vídeo. Não são os belos cantares de Timor que agora têm passado nas televisões e que sempre me farão recordar um longínquo dia (e, contudo, aparentemente tão próximo) em que começámos a falar depois de ambos termos assistido a um encontro de resistentes timorenses que cantaram o Monte Ramelau e outras cantigas mas que, para nós, eram sobretudo a insólita música de fundo para a atracção que fazia com que ele tivesse passado o tempo todo a tentar perceber se eu ainda estava atrás dele e eu o tempo todo a sentir que estava a inquietá-lo. E depois foi aquela coisa que sempre me leva a fazer o que sinto que deve ser feito: arranjei maneira de dar o passo que estava há algum tempo à espera de ser dado.

Mas isso foi num Setembro quente. E não é sobre Timor Leste, aka Loro Sae, que a cantiga abaixo trata.

A única coincidência entre a música que vou partilhar e os cantares de Timor encontrá-la-á o nosso inefável Marcelo que padece do mal de não conseguir controlar o que diz, em especial quando tem um microfone apontado à boca, e que estabeleceu relação idêntica ao conectar a sua ida a Timor com a ida de António Costa à Ucrânia no que parece ter sido uma incomprénsível gaffe de segurança.


A ver se até já

sábado, maio 21, 2022

No fim de mais um dia daqueles, apesar da noite não estar estrelada foi-me oferecido de bandeja um grande discurso

 


Por razões que não vêm ao caso tenho dormido muito pouco. Por umas razões ou por outras, tenho sido forçada a acordar cedo demais, não conseguindo dormir os mínimos dos mínimos. E se antes encaixava bem noites seguidas com poucas horas de sono agora já me custa.

Acresce que os dias têm sido longos demais. Longos, cansativos, stressantes. Esta sexta, por exemplo, começou cedo com um telefonema complicado. Acabou o telefonema e fiquei incomodada. Tentei digerir mas não descia. Liguei de volta para dizer de minha justiça. Não consigo processar incómodos sem soltar os cachorros. Está-me na massa do sangue. E foi uma hora de discussão acesa. Há momentos em que há que encontrar o devido equilíbrio entre ser-se contemporizadora e ter a mão pesada. Eu tendo para a mão pesada pois não creio que faça sentido ser de outra maneira para quem não é leal nem se esforça por ser competente. Ele acha que é preferível tê-los por perto do que afugentá-los e deixá-los à solta a fazer não se sabe o quê. Mas estou cansada e sem paciência para paninhos quentes, para jogos de espelhos.

Mas, enfim, é o que é. 

Por vezes penso na dificuldade que tenho quando os miúdos me perguntam: 'Mas fazes exactamente o quê?'

O que faço é isto. Tomar decisões que nem sempre agradam a todos, questionar quem preferia não ser questionado, não satisfazer as vontades de todos, puxar por quem preferia estar quieto, mandar estar quieto a quem faz o que não deve, tentar que se entendam alguns que não podem nem ver-se. Coisas assim.

Por isso, chego a esta hora e estou off ou quase. 

Hoje, depois de almoço, não tendo nenhuma reunião agendada para a próxima hora, reclinei-me. E adormeci instantaneamente. Infelizmente logo tocou o telefone. Há bocado, aqui no sofá, estava a ver as notícias quando senti que não aguentava. Encostei a cabeça para trás e pimba. Não estaria completamente anestesiada pois estava a ouvir vozes familiares. Mas não conseguia processar a quem pertenciam nem abrir os olhos para tentar esclarecer. Só passado um bocado consegui sentar-me melhor e ver o que se passava. O Masterchef Australia. Não sabia que estava a dar nem faço ideia em que episódio vai. Pena não ter acompanhado de início.

Agora, mais ou menos acordada, estou a ver o Pantanal. Não vi da primeira vez, não sei porquê. Fui ver quando foi e vi que foi em 1990. Eram os meus filhos pequenos. Desses tempos lembro-me é da minha labuta para acompanhá-los o melhor possível apesar do tanto trabalho que tinha, apesar das filas de trânsito, apesar da labuta que me trazia numa correria. Provavelmente à noite, depois de os pôr a dormir, depois de arrumar a casa e preparar as coisas para o dia seguinte, já não me sobrava tempo para telenovelas. Se calhar só para ler um bocado. Não sei.

Antes de jantar, fui dar uma volta no jardim. Agora nem isso tenho podido. Reparei que uns vasos estavam quase secos. Não sei como fui esquecer-me de os regar. Deu-me uma inquietação de verdade. Uns arbustos que escolhi e plantei e tratei com tanto cuidado e fui esquecer-me de os regar. Parece que estava fiada nas pingas de chuva que de vez em quando haveriam de cair. Mas tem estado tanto calor e chuva nenhuma. Fui logo a correr encher o regador, uma e outra vez. Mas não sei. Nem quero pensar. Olhava para os pequenos arbustos, antes tão viçosos e agora ressequidos, uns se calhar já sem recuperação. Como foi isto de me esquecer...?

O tempo não me chega para todas as obrigações. Mas regar os vasos é daquelas que não podia ter-me esquecido -- e esqueci.

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Estive há pouco a ver o que o YouTube tinha para me sugerir e só posso tirar o chapéu às mentes brilhantes que concebem o algoritmo que o movimenta. Já é inteligência artificial (IA) e eu, que tanto me preocupo com os riscos da IA neste mundo ainda tão desregulado no que a isto diz respeito, afinal sou consumidora de produtos que me são dados a comer por um algoritmo. Ele mostra-me o que 'acha' que eu gosto e não me mostra o que 'acha' que eu não gosto. E acerta bastante no que eu gosto. Mas não sei se, mesmo que na melhor das boas intenções, a de me agradar, não me oculta muito do que se calhar eu gostaria de conhecer. Mas, enfim, é um produto que uso gratuitamente e, por isso, não posso esquecer-me de que quando consumo um produto que não pago é porque o produto sou eu. Portanto, adiante.

Estava eu dizendo que estava a ver o youtube e apareceu-me um excerto do fantástico O Grande Ditador. Como o que é bom é para ser partilhado, aqui o deixo convosco.

Charles Chaplin - O Grande Ditador - Discurso final

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Ilustrações de Alireza Karimi Moghaddam (que vive em Lisboa) sobre a vida e obra de Vincent van Gogh 

na companhia de Don McLean com Vincent (Starry Starry Night)

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Desejo-vos um bom sábado

Saúde. Alegria. Serenidade. Paz.

sexta-feira, maio 20, 2022

Imagens censuradas da parada do Dia da Vitória

 

É sabido que, sempre que os russos ocupam uma região, não apenas matam e esfolam como roubam tudo o que apanham. Televisões, máquinas de lavar louça, frigoríficos, tapetes, o que calha. Até tractores e outras máquinas agrícolas eles roubaram. Tudo lhes serve. Saque geral.

Há nisto qualquer coisa de miserável (e triste). Muitos jovens soldados russos ficam espantados pois pensavam que iam encontrar um país pobre, refém de nazis, gente explorada ainda mais carente que eles e, afinal, encontram um mundo civilizado, livre e em que muitas casas têm manifestos sinais de conforto e modernidade. Roubam, pois, o que podem. Não sei se é numa de levar um recuerdo ou se é numa de que já que nos obrigaram a vir fazer isto, ao menos que alguma coisa se aproveite e bora mas é levar o que se consegue.

Imagino que, quando caírem neles, a par das violações, torturas e assassinatos, terão vergonha e arrependimento também de se terem portado como verdadeiros gatunos. Claro que, ao não serem impedidos de o fazer, a responsabilidade passa para os superiores que, directa ou indirectamente, o permitem. Juntam, assim, a delinquência às suas características.

Putin celebra o Dia da Vitória e da Paz com uma parada militar e gosta de ostentar o imenso poderio bélica da Rússia. Dantes tinha sempre muitos convidados. Este ano, de mantinha nos joelhos, o assassino teve menos equipamentos de guerra a desfilar e, claro, convidados decentes e civilizados não teve um único. 

O vídeo abaixo é uma graça. Não há como o sentido de humor para caricaturar as situações, expondo o lado ridículo dos que gostam de se julgar importantes. 

Parada militar do Dia da Vitória -- 9 de Maio


😂😂😂

quinta-feira, maio 19, 2022

Coronel Mendes Dias versus Major-General Agostinho Costa

 

É um dos poucos que gosto de ouvir. 

Frequentemente deixa-me a pensar. Fala com entusiasmo, fala com clareza. 

Acho-o inteligente e um bom comunicador.

Em contrapartida não tenho um pingo de paciência para o sonso e enviesado  Major-General Agostinho Costa. Se o apanho, desvio-me. Hoje apanhei-o numa zaragata malévola com a Helena Ferro de Gouveia que estava que não podia, capaz de lhe atirar com um copo de água cabeça abaixo. E percebe-se. Aquele Agostinho fala sempre inclinado para um lado, não fala como um comentador ou estudioso isento, derrapa a cada palavra para desculpabilizar ou louvar a actuação russa. Tira qualquer pessoa de bem do sério. 

E, se do Agostinho eu fujo, ao Mendes Dias eu procuro. Parece experiente e perspicaz. E parece conhecer a arte da guerra. E sabe conjugá-la com a história. E, ainda por cima, sabe falar. E sabe chamar a atenção para as subtilezas destas coisas da informação, contra-informação, diplomacias ocultas, etc. 

Portanto, ele fala e eu paro para o ouvir.

E é isto que tinha para dizer. Está dito.

quarta-feira, maio 18, 2022

A força das mulheres

 


Virá o dia, talvez não muito longínquo, em que os russos, em geral, vão revoltar-se contra o que está a acontecer na Ucrânia. Quando as avós, as mães, as mulheres, as namoradas e as irmãs começarem a perceber que os seus bem amados jovens que foram para uma "operação especial" na fronteira e de quem nada sabem afinal não vão voltar, nem vivos e, se calhar, nem mortos, quando souberem que há dezenas de milhares de rapazes russos mortos nas morgues da Ucrânia que a Rússia não reclama, quando for público que, quando tinham tempo, oz próprioz colegaz de armaz queimavam os que tinham morrido ou os escondiam em valas comuns, a revolta vai ser incontrolável. In-con-tro-lá-vel. 

Que ninguém subestime a ansiedade de uma mãe que não sabe do seu filho e a sua raiva quando suspeita que alguém o tratou mal. Todas as mães viram lobas, todas as mães lutam seja contra quem for pelos seus filhos. No receio e na raiva de que a vida dos seus filhos tenha sido ceifada, qualquer mãe arrisca tudo -- porque nada mais tem a perder.

Se agora os que se manifestam são presos -- e desde a invasão mais de 15.000 russos já foram presos --, depois será impossível reprimir a revolta popular e prender todos quantos se insurjam. As ruas encher-se-ão de gente que chorará, gritará, exigirá a verdade -- e os corpos dos seus filhos. As mulheres russas não perdoarão o que Putin fez aos seus meninos. Mesmo os meninos que sobrevivem, virão transformados, loucos de arrependimento pelos roubos, pelas violações, pelas torturas, pelas mortes que cometeram. Virão loucos de raiva pelo que foram obrigados a fazer. E as suas mães, as suas mulheres, não encontrarão desculpa para o que Putin obrigou os seus meninos a fazer.

Além disso, a contestação pública começa a ganhar novos contornos: na televisão estatal um comentador militar já teve coragem para assinalar o fracasso da dita "operação" bem como a rejeição mundial generalizada. 

Os russos vão acordar. Vão perceber que afinal andaram a ser manipulados, enganados, vão perceber que estão mais pobres, mais isolados e que os seus familiares, involuntariamente, causaram crimes imperdoáveis contra um país que não tinha feito mal a ninguém.

Não vão perdoar.

Cercado, humilhado, derrotado em toda a linha, não haverá, então, quem defenda Putin. 

Apenas aqui, na ponta da Europa, encostados ao Atlântico, uns quantos sobreviventes do comunismo lusitano continuarão a defendê-lo. Talvez não mais que uma dezena. Talvez ainda mais uns quantos, que se contarão pelos dedos da mão, de pessoas baralhadas, daquelas que, desnorteadas por teorias da conspiração e filosofias descontextualizadas, nunca sabem bem como interpretar o que se passa à sua volta.

Não sei como vai acabar Putin mas a sua história não terá um final feliz. 

Entretanto, mais de oito milhões de pessoas foram desalojadas, muitas das quais fugindo do país, muitas das quais perderam empregos, casas, familiares. Pessoas mortas não têm ainda um número. Vão-se descobrindo. Gente que ficará traumatizada para o resto da vida é algo que talvez nunca se consiga contabilizar.

Gente que viu morrer outros, alguns viram morrer os pais, os filhos, as mães, os irmãos. E gente que viveu com familiares mortos ao seu lado. Dores que não se esquecem nem se perdoam.

E agora mais uma história: um de três irmãos sobreviveu depois de ter sido enterrado vivo. Os irmãos não sobreviveram.

E isto porquê? Porque Putin e a seita que o acoberta têm como ambição reconquistar os países que antes pertenceram à União Soviética, porque Putin e os seus só conhecem a força bruta, porque Putin e os seus ignoram a sua condição humana e a condição humana daqueles a quem destroem. 

Entretanto, um dia ainda viremos a saber o que vai acontecer aos militares que saíram de Mariupol depois de heroicamente terem tentado defender a cidade das mãos dos russos.

Há quem pense que deveríamos todos ter achado muito bem que os russos os tivessem tentado matar à fome e à sede, destruindo, en passant, completamente um dos grandes complexos siderúrgicos da Ucrânia. Eu não penso. Há quem pense que são, todos eles, nazis.  Eu não penso. 

E acho que, independentemente de tudo, são heróis e comovo-me quando penso no que sofreram, tanto, tanto, e na sua inacreditável coragem.

É hoje claro e documentado que se alguns dos militares de Azov são da extrema direita há muitos que são apenas tropa de elite, militares de eleição, certamente muitos daqueles que gostam de lutar até ao fim, gente com alma de comando ou fuzileiro (conheço alguns, daqueles que falam com saudade de quando andavam a rastejar na lama, às escuras, daqueles que passavam fome e sede e não se queixavam, daqueles que achavam, e acham, que se a missão era defender um pedaço de terra ou levar até porto seguro os 'seus homens', era isso que fariam até ao último pingo de sangue).

Estes, nos subterrâneos da fábrica, defenderam os milhares de civis que lá se abrigaram, defenderam os camaradas que caíram feridos, defenderam aquele pedaço de terra, defenderam os corpos dos que morreram e lá ficaram. Defenderam o que puderam até que, humanamente, não conseguiram mais.

E quero aqui dizer uma coisa. Se o meu país estivesse a ser atacado, destruído, se a população do meu país estivesse a ser dizimada, se os russos atirassem mísseis e uma verdadeira chuva de munições sobre o meu país, se os russos quisessem anexar o meu país, se eu fosse corajosa como gostaria de ser eu aceitaria ajuda de quem nos quisesse ajudar a defender a nossa independência e a nossa liberdade, mesmo que fossem de extrema direita. Depois de expulso o agressor, eu e os de extrema direita ou de extrema esquerda ou quem quer que tivesse sobrevivido logo nos entenderíamos. 

Contudo, há que ter em atenção que nas últimas eleições na Ucrânia, a extrema-direita ficou-se pelos 2% (quanto teve o Chega...? Tomáramos nós que tivesse tido apenas 2%).

Portugal -> Chega 7,15%

Transcrevo do Guardian:

Vladimir Putin is himself a fascist autocrat, one who imprisons democratic opposition leaders and critics. He is the acknowledged leader of the global far right, which looks increasingly like a global fascist movement.

Ukraine does have a far-right movement, and its armed defenders include the Azov battalion, a far-right nationalist militia group. But no democratic country is free of far-right nationalist groups, including the United States. In the 2019 election, the Ukrainian far right was humiliated, receiving only 2% of the vote. This is far less support than far-right parties receive across western Europe, including inarguably democratic countries such as France and Germany.

Ukraine is a democratic country, whose popular president was elected, in a free and fair election, with over 70% of the vote. That president, Volodymyr Zelenskiy, is Jewish, and comes from a family partially wiped out in the Nazi Holocaust.


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'I had to live to tell this story': Ukrainian survives being buried alive by Russians


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Ao som de um basso profondo da Rússia, todas as fotografias pertencem ao Guardian (daqui e daqui) com excepção para a segunda que pertence a um vídeo dilacerante, daqui

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Um bom dia
Coragem. Paz.

terça-feira, maio 17, 2022

Três extraordinárias previsões para o futuro -- e alguns dilemas da minha vidinha

 


Tenho vários temas relevantes por resolver. 

Por exemplo: gosto de ver às outras mulheres mãos com nails em vermelho rubi, carmim, bordeaux, grenat ou mesmo em quase negro. Além do mais, sei que a saison, talvez para espantar as pesadas nuvens negras que por aí andam a pairar, requer nails multicores, uma unha de cada cor, e cores alegres, cor de laranja, verde pistachio, azul turquesa. 

Em abstracto tudo isso me agrada. Melhor: seduz-me.

Mas depois vem o lado prático. Não consigo ter unhas compridas nem consigo paciência para as pintar ou retocar frequentemente. Além disso, há que ter precisão para que o colorido não transcenda a pequena superfície que lhes é destinada. Debato-me, pois. Imagino que vendam pequenos estojos com frasquinhos multicores, pincelinhos pequeninos, e sinto-me tentada a experimentar. Mas, depois, já sei que acabarei sem aplicar nada ou, quanto muito, apenas um brilhozinho transparente, quanto muito um discretíssimo nude. 

Dilemas.

Se não trabalhasse, também ousaria uma maquilhagem divertida. Sombras nas pálpebras também em cor-de-laranja. Ou em verde-alface. E lábios em morango suculento e brilhante. Assim, trabalhando, não dá. Não seria levada a sério se me apresentasse assim a discutir propostas que, já de si, deixam alguns com os cabelos em pé. Tenho que me reservar para um dia mais tarde.

No domingo, quando fomos passear com a minha mãe, estava fresca, colorida e jovial: calças justas, alinhadas, em branco, uma tshirt justinha em verde seco e uma blusinha de lã fina em cor-de-laranja sobre os ombros. Ténis brancos. Completava a toilette com um chapéu de palhinha e de abas largas. Elogiei-a, disse-lhe que finalmente se veste como lhe fica bem, sem se preocupar se a toilette é adequada à idade ou com o que amigas e vizinhas pensam. Riu-se. Disse que finalmente tinha começado a libertar-se. Pensei -- mas não disse -- que já não era sem tempo. 

Pode parecer futilidade -- e quem sou eu para o negar -- mas a forma com a gente se arranja é meio caminho andado para a forma como a gente se sente. Se estamos com roupas tristes e desiluminadas, vai ser difícil sentirmo-nos especiais. E claro que é importante sentirmo-nos especiais. Pode haver quem pense que não quer sentir-se especial, quer apenas sentir-se vivo/a, e tudo bem -- só que não é a mesma coisa.

Há também a questão das flores. Vi umas florzinhas lindas, delicadas, em suave lilás. Estavam nas areias, nas dunas, junto à praia. Estou com vontade de ir colher umas quantas e pôr numa jarrinha. Hoje, nas reuniões, pensei que aquelas florzinhas ali ao meu lado fariam toda a diferença. Mas o que gostava mesmo era de apanhar com raiz e plantar um canteiro por aqui. Mas será que flor de beira mar vai dar-se bem em terra? Não sei. Nem sei se tente. Não quero fazer coisas contra natura mas, por outro lado, quem garante que elas não gostariam de mudar de ares?

Dilemas.

E depois há os pássaros. O meu marido reclama da gaiola grande que trouxemos da garagem para pôr aqui no jardim. Diz que está ali para nada, que não sabe porque quis eu trazê-la para aqui. Expliquei que pensava que, tendo a portinha aberta, os passarinhos entrariam e dali fariam a sua casa, podendo sair sempre que quisessem. Mas toda a gente me explicou que era uma armadilha, que os passarinhos que entrassem não conseguiriam sair. E a verdade é que a gaiola ali está de portinha aberta e nem um pássaro lá entra. Mas aí lembro-me de uma coisa. A anterior proprietária tinha periquitos. Nunca prestei atenção a essa ideia. Mas no outro dia lembrei-me de uma vez ter falado ao telefone com uma amiga e só ouvir uma orquestra de pássaros por trás. Ela disse: são os periquitos que a minha mãe aqui tem, são muitos, às cores, cantam que só visto. E era uma alegria. Sou muita contrária a pássaros prisioneiros. Mas será que os periquitos não se tornaram bicho de gaiola? E sendo a gaiola grande e estando no meio de árvores, não será para eles um resort que apreciem? Não sei. 

Dilemas.

E estou com esta conversa nem sei bem porquê. Será que fico com vontade de me remeter à maior simplicidade sempre que ouço falar de temas que me deixam as entranhas num frenesim?

Estive a ouvir três previsões muito prováveis para os próximos tempos. Algumas são-me, à partida, um pouco incómodas. Robots que se auto-fabriquem parece-me coisa meio assustadora. Mas se isso acontecer em Marte talvez não seja mau de todo. Robots que construam fábricas e enviem o fruto da sua produção para a Terra. A Terra transformada em paraíso, sem poluição, sem esforços, só desfrute. Talvez a vida ainda possa vir a ser uma coisa boa e o mundo um lugar feliz e pouco perigoso. E também me é estranha a ideia de fazer download do cérebro e pôr máquinas a usarem as ideias e memórias. Ou a perspectiva de se transmitirem emoções ou sensações e não apenas informação. Não sei bem o que pensar nisso. Mas parece-me provável e potencialmente estimulante. E depois há a promissora ideia de aprendermos, ab initio, se temos células que vão degenerar em cancro. Termos em casa sanitas com auto analisadores que detectem sinais de alerta que permitam que não se formem tumores -- o fim do cancro. Uma maravilha. Um alívio para todos.


Michio Kaku: 3 mind-blowing predictions about the future | Big Think

Carl Sagan believed humanity needed to become a multi-planet species as an insurance policy against the next huge catastrophe on Earth. Now, Elon Musk is working to see that mission through, starting with a colony of a million humans on Mars. Where will our species go next?

Theoretical physicist Michio Kaku looks decades into the future and makes three bold predictions about human space travel, the potential of 'brain net', and our coming victory over cancer.

"[I]n the future, the word 'tumor' will disappear from the English language," says Kaku. "We will have years of warning that there is a colony of cancer cells growing in our body. And our descendants will wonder: How could we fear cancer so much?"


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As luas pertencem ao artigo Super flower blood moon – in pictures e estão aqui na companhia de Blue Moon pela Billie Holiday and Her Orchestra
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Desejo-vos um dia tão bom quanto possível
Alegria. Força. Paz.