Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, abril 19, 2021

In heaven a varrer e a carregar móveis.
Na praia a ver beldades em sessões fotográficas e a ver o mar.
Em casa, feliz da vida, a começar a desconfinar.

 


No sábado estivemos in heaven. Há quanto tempo... O campo está verde, lindo, lindo, o rosmaninho todo florido, há insectos e passarinhos, há perfumes no ar, há silêncio, há paz. É o meu chão, o meu ar, o meu céu.

As duas roçadoras, a mais antiga e a mais recente, estão avariadas. Não há como cortar o mato. O meu marido foi pôr as duas numa pequena oficina na vila mais próxima. Disseram que durante a semana ligam a informar se conseguem arranjá-las. A ver se sim. Sem se ter podido mudar de concelho e agora com as máquinas incapazes, está complicado cumprir o prazo para limpar o terreno.

Andei por lá, fotografei tudo, os verdes, as pequenas flores, as árvores, as pedras, as saudades que tinha. 

Já sei que, quando o meu marido se apanhar com uma roçadora nas mãos, vou tremer: por ele vai tudo à frente. Não é especialmente sensível a florzinhas ou a distinguir vulgares ervas daninhas de plantas aromáticas. Depois já não vê muito bem. Ele acha que só não vê bem ao perto mas eu tenho algumas dúvidas. Pior quando põe aqueles óculos de plástico de protecção. A tentação dele é despachar, ir tudo a eito. E eu fico em pânico. O que eu gostava mesmo é que ele andasse com o podão a cortar, à mão, tojo e silvas, poupando tudo o resto. Diz que sou maluca, diz que, se é isso que quero, vá eu para o meio do tojo e das silvas cortar pezinho a pezinho. É um tema que nos divide desde os primórdios.

Quanto à casa, a ver se conseguimos que coincidam no espaço e no tempo nós e as pessoas que gostaríamos que lá fossem ver os arranjos que queremos fazer para fazerem um orçamento e para nos dizerem quando poderiam começar. Olho para a casa e parece que já a vejo como eu gostaria que ficasse. Na zona mais antiga da casa, a zona central, os tectos e o chão são de madeira e os varandins das mezzanines também. Tenho vontade de -- com excepção do chão, que gosto de ver em soalho -- pintar tudo de branco. As janelas dessa zona são de madeira e vidro simples. A ver se as mudamos para vidro duplo e se calhar tudo em branco. Os aros dos vidros são bonitos em madeira mas requerem muita manutenção e, em termos de isolamento térmico, são fracos. E toda a casa precisa de ser pintada. E acho que é desta que vou ter coragem para fazer aquilo que tenho vontade de fazer desde que aquela passou a ser a nossa casa de campo. Já o contei: a casa, pelo que é, é uma casa rústica e as paredes são rugosas. Não sei se é tinta de areia, se tem outro nome. Ora eu prefiro paredes lisas. Deve ter que ser tudo lixado ou estucado, não sei. Deve ser demorado e uma sujeira pegada pela casa, só poeira. Mas alguma vez vai ter que ser. Não posso ver as teias de aranha entranhadas naquelas rugosidades. De cada vez que lá chego tenho que fazer um esforço para me abstrair, senão passava o pouco tempo de que disponho, a catar ínfimos fios por entre o arenoso da parede. Se vou com uma vassoura, mesmo que envolta num pano, ou consigo a leveza de gestos que as arranque, ou o que acontece é que as teias ainda mais se entranham. Só de pinça se conseguiria. Portanto, tem que haver outra solução.

Enfim. Andei a varrer cá fora: folhas, folhas, folhas. Se há coisa de que gosto é de varrer. Tenho uma vassoura daquelas grandes, pesadas, de 'pelo' de arame. A pá também é de metal, de pé alto. E ando com um balde grandão com rodas. Encho-o e vou vazá-lo nos canteiros mais longe. 

Também andámos a apanhar nêsperas. As nespereiras estão carregadinhas. Os frutinhos amarelinhos não estão ainda a saber a mel mas já se comem muito bem. 

E outra coisa: nesta casa, esta onde estou agora, como já o referi, os móveis do apartamento encaixaram como um puzzle perfeito. Misteriosamente, tudo parece ter sido feito à medida desta casa. Porém sempre houve uma zona da casa em que a coisa não convenceu: é a entrada principal. Há uma espécie de curto corredor que vai dar a um pequeno hall de onde partem mais dois corredores. Embora largo, por ser curto, nunca se percebeu bem o que haveria de ali ficar. Pusemos um móvel de meia altura, com três prateleiras e uma gaveta em baixo. Mas parecia um pouco insignificante ali. Uma aguarela por cima, uns bibelots simples. Comecei por lhe arranjar um banco de veludo claro e pés dourados para pôr ao lado, para compor o espaço e porque um banquinho na entrada dá sempre jeito.

Mas, in heaven, na sala de jantar, tínhamos um móvel bonito em nogueira, com pés altos, três gavetas e duas portas. Ali onde estava não achava que estivesse muito bem e ocorreu-me que onde estaria mesmo bem seria aqui na entrada. 

Portanto, lá o conseguimos levar, em cima de um tapete, até ao carro. Pesado, pesado, pesado. Madeira maciça, pesadérrima. Mas o pior foi conseguir enfiá-lo no carro. Rebatemos os bancos e lá conseguimos.

À vinda fomos a casa da minha mãe. Aproveitei para tratar do irs dela e para tirar dúvidas no tablet. Fartou-se de insistir para eu não comer tantos frutos secos, para não comer tanta fruta, diz que tenho que perder algum peso. Também acho. Ela não tem um grama a mais e acha que eu deveria seguir-lhe o exemplo. Diz: tens sempre fome, desde pequena que és assim, sempre com vontade de comer. Confirmo. Digo-lhe que é da menopausa, que alarguei, que engordei. Ela diz que com ela foi a mesma coisa, também alargou, os casacos deixaram de lhe servir. Mas diz que depois normalizou. Espero que comigo seja a mesma coisa. Nem me peso para não ter desgostos. Imagino que devo estar para aí com uns sessenta e cinco quilos, senão mais. Uma desgraça. Abaixo dos sessenta já não devo ir. Tantos anos nos cinquenta e cinco, toda delgadinha, e agora este disparate. Mas como é que arranjo disposição para uma dieta das valentes? Gaita.

Quando chegámos aqui a casa, já era de noite. Manobra inversa com o móvel. Pior mesmo foi conseguirmos subir os degraus até à porta. Um pesadelo. Mas conseguimos. Um dia destes é provável que me apareçam dores nas costas ou nas pernas. Depois foi preciso trazer o móvel que lá estava aqui para esta sala onde estou. A cómoda pequena com tampo de mármore da Arrábida, que estava com a televisão em cima, foi para o lado do sofá grande. A televisão agora está em cima do móvel que estava na entrada. Ficou tudo a fazer sentido.

Na entrada, o quadro que estava em cima do móvel teve que ser subido e eu já temia o pior, que ele se recusasse a ir buscar o berbequim. Afinal, tudo se resolveu, encurtando o arame. Portanto, embora tarde e más horas, tudo ficou pronto.

Contudo, não estou especialmente convencida. Agora parece-me um bocado grande demais. Mas não digo nada para não despertar a fúria dos deuses.

Este domingo à tarde, fomos ter com a minha filha e com os meninos à praia. Na primeira, tivemos que dar meia volta: carros, carros, carros. Não havia onde estacionar. Muita gente. Fomos a outra. 

Uma belíssima tarde de praia. Os meninos tomaram um belo banho. Muito bom. A praia quase cheia. Zero covid. E digo-o sem sombra de censura. Ao ar livre e desde que com algum distanciamento não creio que haja problema. Sempre desejei Abril. Penso que com os mais velhos vacinados, com vida ao ar livre e com algum cuidado, poderemos voltar a estar uns com os outros.

Perto de nós, uma mulher bonita, alta, magra, elegante. A minha filha chamou-me a atenção: era uma conhecida actriz de telenovelas. Não a fazia tão alta. Brindou-nos com uma inspirada sessão de fotografias. Fez poses de toda a espécie e feitio, sorriu e espevitou a perna, esticou o braço, pôs-se contra o mar, contra a luz, a cabeça para a frente, a cabeça para trás. Não contente com isso, fez selfies atrás de selfies. Passado um bocado a minha filha confirmou: as fotografias já estavam nas suas páginas das redes sociais. Penso que, neste caso, também se pode usar aquilo do 'novo normal'. O culto do 'eu. Diz a minha filha que não é só isso, é que também ganham dinheiro com aquilo. Basta que sejam pessoas conhecidas e que façam publicidade ao que vestem, calçam, que produtos usam, onde compram.

A poucos metros, duas outras, com carnaduras mais generosas, estavam na mesma: uma, deitada ou sentada na areia, fazia poses, esticava a perna, esticava o braço, fazia trejeitos e habilidades; a outra, de pé, fazia a reportagem, orientava a animada diva. 

Toda a gente se sente uma vedette, uma star, alguém com direito a toda a fama do mundo. Não é preciso ser-se conhecido, bonito, elegante, culto, inteligente, sabedor de alguma coisa: não senhor, todo o cão e gato, desde que haja uma máquina fotográfica por perto, se sente no direito de se exibir ao mundo. 

E, se calhar, é hábito que veio para ficar e, se calhar, quem, como eu, gosta de fotografar o mar, as flores, os outros e os seus hábitos, só revela não estar alinhada com os astros. Mas é isso aí: sou vintage. Acho que são os outros têm graça, não eu. 

Fartei-me de fotografar, claro está. E adoraria mostrá-las inteiras, a actriz, os que a fotografavam, as outras duas. Mas não, só uns relances. 

Inteiras, mas é porque estavam de costas, só as duas beldades que embelezaram as cores e a bravura do mar com a sua graciosidade.

Depois da praia viemos todos cá para casa, mais concretamente para o jardim. Arranjei-lhes um lanchinho. Enquanto eles estiveram a comer, eu estive por perto e com máscara. Tranquilo. O meu marido, nestas ocasiões, anda sempre a vigiar-me. Acha que não sou cuidadosa. Mas gosto tanto de estar com eles que volta e meia até me esqueço dos cuidados a ter. 

Varreram o jardim, apanharam folhas, andaram de balouço, riram, brincaram às lutas, espantaram a rola que se acolhe dentro da buganvília.

Contei-lhes que estou com a ideia de colocar no jardim a gaiola grande que está na garagem. Mas para a ter aberta, com água e sementes para os pássaros irem servir-se. Uma coisa tipo bar aberto. Eles acharam boa ideia. O meu marido caladinho. Perguntei-lhe o que achava. Disse: desde que depois sejas tu a limpá-la.

Não sei porque se há-de sujar: os pássaros entrarão, comerão e beberão e voltarão a sair. Não vão lá ficar a fazer as necessidades. É o que me parece.

E é isto. Estou ferrada de sono. Estou assim desde que vim da praia. O meu marido também estava assim. Disse: é do ar do mar. Duvido. 

Ainda por cima, isto de escolher as fotografias, reduzir-lhes a resolução, colocá-las aqui, demora. Já meio a dormir e ainda nisto. O que me preocupa mais nem é o sono, é o receio de que isto vá cheio de gralhas e já não ter pachorra para dar uma vista de olhos. Gaita. Nem consigo agradecer os comentários nem dar uma vista de olhos a ver se isto não vai desvirgulado, despassarado.

[A chuvada do outro dia deixou o vidro em bom estado, deixou, deixou.... Só agora, ao ver a fotografia, reparei nisso. Ainda hesitei em colocá-la aqui. Mas até acho que o fundo, assim, tal como está, ainda valoriza mais as minhas perfumadas rosas mutantes. Não são tão bonitas?]

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Desejo-vos uma boa semana. 

Saúde. Alegria. Força.

domingo, abril 18, 2021

Beatriz Gosta conta como conheceu Maria Luiza

 

Como é sabido simpatizo imenso com a Marta Bateira, aka Beatriz Gosta. Acho que tem graça, é genuína, tem a língua afiada e o raciocínio rápido. E farta-se de rir o que é coisa boa de ver numa pessoa.

Depois da série da Beatriz Gosta embaraçada em que descrevia a transformação que ia observando no seu corpo à medida que a sua bebé ia medrando no seu ventre eis que começa a série Beatriz Gosta (des)embaraçada, começando com a descrição do parto.

Gosto de ouvir falar de nascimentos e gosto de ver imagens de partos. Tenho pena que os partos dos meus filhos não tenham sido filmados. Gostava mesmo. Foram momentos gloriosos mas eu, lá em cima, torcendo-me de dores, não consegui ver o surgimento deles. Isso, sim, deve ter sido maravilhoso. Um milagre. 

Sem querer anestesias -- e com eles, grandes, subidos, sem descerem -- toda eu me sentia dilacerada. Dores, dores. Transpirava. A cama encharcada com a transpiração. Depois com as águas. Dores, dores. Das duas vezes, um dia inteiro de dores. Depois tirados a ferros. A sangue frio. Tinha pavor que, mais tarde, viesse a descobrir-se que as anestesias prejudicavam a saúde e o desenvolvimento das crianças. E achava que se os bichos, na natureza, têm partos naturais, sem anestesias ou ajudas, também eu haveria de tê-los. E tive-os.

E é como a Marta descreve: depois de horas a temer não resistir à violência das dores eis que, mal as crianças saem, todo o sofrimento se evapora e, como que por artes mágicas, ela -- tal como eu e provavelmente qualquer outra mãe -- fica apenas envolta em felicidade, em tranquilidade.

Estou agora curiosa com o que ela vai dizer do puerpério. Para mim também foi o pior. Ela não levou pontos. Eu, sim. Com aquelas tenazes a entrarem dentro de mim para puxarem as crianças, o médico, para evitar rasgões, cortou. Apesar de tudo, piece of cake quando comparado com o resto. Mas o puerpério com o incómodo vaginal, os pontos a picarem, tudo um bocado dorido, e, pior, com o leite a subir -- que a mim até me deu febre -- isso foi muito mau. Os peitos ficavam túrgidos, depois encaroçados, doíam até mais não. E depois os mamilos feridos. Qualquer deles puxava-os ao mamar, mas puxava-os com toda a força. Com o peito encaroçado, o leite se calhar não saía bem. Eles puxavam e eu torcia-me de dores, o peito doía demais, os mamilos sangravam.

Da primeira vez, fui à pediatra ao fim de poucos dias, antes da altura convencionada, porque já não me aguentava mais e receava que lhe fizesse mal o sangue que certamente ia junto com o leite. E as crianças têm cólicas, gritam, e lembro-me de se torcerem com dores das cólicas enquanto mamavam, ainda maltratando mais o peito. Na primeira vez, tinha vinte e três anos acabados de fazer: tudo era novo, tudo doía, tudo me preocupava com receio de não fazer bem. De lembrar que não havia internet para a gente poder informar-se em tempo real.

Mas, depois, ao fim de umas semanas, tudo se resolvia também: eles mamavam melhor, davam mais vazão ao leite produzido, o peito desencaroçava, os mamilos ganhavam resistência. Não sei se haverá mamilos mais resistentes que outros. Os meus são muito claros, de pele muito fina. Talvez, por isso, sejam mais sensíveis. Tenho sempre a impressão que quem os tem castanhos escuros e muito grandes deve padecer menos. Mas não sei, nunca tirei isso a limpo.

Mas, enfim, tudo passa e eu mal os incómodos passavam, logo os esquecia como se tudo fosse bom. Quando estava grávida do meu filho nem pensava sequer no incómodo que ia ser nem me ocorria que poderia ser tão doloroso quanto o da minha filha. E, tivessem as circunstâncias da minha vida sido outras, por exemplo se tivesse família por perto que me pudesse ajudar, teria tido certamente mais filhos. Trabalhava muito, na altura ainda andava de transportes públicas, Lisboa toda para atravessar, tudo longe e difícil, mal conseguia organizar-me para ir buscar um e outro, para chegar a horas, para não lhes faltar com o tempo, a atenção e dedicação que sempre foram a minha primeira e absoluta prioridade. No mínimo, gostava de ter tido três mas, na realidade, gostava mesmo era de ter tido uns cinco ou seis. Sempre me imaginei a ter uma catrefada de filhos, muitas crianças à minha volta. Se calhar, de cada vez que nascessem, iria ter o mesmo problema, o de não descerem facilmente, se calhar teriam que ser todos tirados a ferros e eu, de certeza, que ia sofrer horrores -- mas iria aguentar firme, logo me esquecendo das dores mal os tivesse em cima de mim, cheios de placenta, sangue e vontade de viver.

E estava a ouvir a Marta e a pensar nisto. Ela fala do que lhe custou mas toda ela irradia. Ela ri enquanto descreve o parto, ela ri enquanto fala das dores. Mas ri, feliz da vida. Já cá tem a sua Maria Luiza e isso é que importa.

Que sejam muito felizes, que a vida de ambas seja repleta de sorte e amor. E que a Marta, aka Beatriz, continue a divertir-nos com os seus relatos cheios de realismo e bom humor.

Um regresso muito aguardado: Beatriz Gosta já não está Embaraçada. Agora, reflete sobre esse festival gore chamado "parto". Se têm estômagos sensíveis e comeram bitoque malpassado, boa sorte. 


sábado, abril 17, 2021

Eu, versão nude

 



Raramente agora uso saltos altos. Só quando tenho que calçar forçosamente sapatos pretos. Não sei dos meus sapatos pretos, básicos, de meio salto a que tanto recorria. Eram meio em pele, meio de camurça e com salto não excessivo nem em altura nem de finura. Provavelmente ficaram in heaven do primeiro período de confinamento. Os que tenho cá são uns bem altos, outros em dois tons ou, outros, num modelo adequado a quem tem o pé feito a sacrifícios. Agora, andando maioritariamente de ténis ou chinelóides, até tremo quando me arranjo toda a preceito e, quando estou para sair, constato que tenho que usar sapatos pretos. Lá tenho que trepar para os que cá estão.

Écharpes também. Raramente as uso. Em casa não vou estar de echarpe. Se saio ao fim de semana ou, durante a semana, ao fim do dia, para as compras ou outros afazeres, também não vejo sentido em grandes aperaltamentos. Jeans ou afins, blusas simples, um casaquito básico ou um poncho. Apenas se vou a trabalho reencontro aquele ritual que era tão meu. Mas aquelas precedências que eram tão intuitivas, falham. Vou a sair, toda pronta, e quando vou calçar os sapatos, verifico que ainda estou com as meias de algodão ou lã fina que uso em casa. Coisas assim. 

Também nunca mais usei o meu relógio. Era inseparável dele. Só ao fim de semana é que não o usava. Isso e a aliança. Nunca mais a usei.

Ai... caraças... (já venho)

Bolas. Bolas! 

Já apanhei um susto. Nem vos conto. Que susto.

Estava a escrever isto e, de repente, ocorreu-me que há mais de um ano que não os uso. Entretanto mudei de hábitos, mudei de casa, mudei de emprego. E deu-me um susto: onde estariam? Com o coração a palpitar, fui à procura, cheia de medo de lhes ter perdido o rasto. Tinha muito presente onde os tinha, na outra casa. Mas agora tudo mudou de sítio, não apenas em termos absolutos mas, também, em termos relativos. Dantes, usava o quarto que tinha sido da minha filha, para ter as minhas coisas à larga. Em cima da secretária dela, tinha uma caixinha onde tinha os anéis de uso corrente e era aí que todos os dias, ao chegar a casa, colocava anéis, aliança e relógio. De manhã, o gesto era também automático: depois de me perfumar e vestir, escolhia o anel e o colar que iam bem e a aliança e o relógio.

O relógio já o contei: inseparável dele. Tem um peso, um toque, uma elegância de que não conseguia desprender-me. O ponteiro das horas avariou. O dos minutos estava bem. Eu usava-o assim mesmo. Até que resolvi que não fazia sentido. O arranjo custou uns duzentos ou trezentos euros, nem sei. Voltei a poder ter horas certas. Até que, passados uns tempos, talvez uns dois ou três anos, voltei a notar que o ponteiro das horas começava, de novo, a perder a pedalada. Deixei-me estar. Por mim, sem problema. O pior eram as outras pessoas: dava por elas a espreitar-me para o relógio, depois olhavam para o delas. Algumas ultrapassavam a barreira da indiferença e diziam: acho que o seu relógio não está certo. E eu explicava o que expliquei mil vezes: só o das horas é que não está bem. As pessoas ficavam meio desconcertadas. Uma pessoa sabe sempre mais ou menos as horas, não sabe é os minutos. Portanto, como o ponteiro dos minutos estava bem, eu orientava-me. Ainda pensei voltar à ourivesaria reclamar da reparação. Mas a reparação já tinha uns dois ou três anos. Depois meteu-se a pandemia. Agora já nem moro perto. 

Agora, quando vou trabalhar presencialmente, nem me lembro do relógio ou da aliança. Também estou a pensar que antes punha sempre rímel e que nunca mais o pus, nem de tal me lembrei. Baton ou gloss agora só uso em teletrabalho. Na rua ou no trabalho presencial não, só serviria para sujar a máscara. Parece que eu, a meus olhos, já só existo bem na versão nude: no make up, no toilette, no high heels.

Quando ouço falar no regresso à 'normalidade' estremeço por dentro. Não sei se sou capaz de voltar a andar metida no trânsito em horas de ponta, não sei se sou capaz de voltar a andar todos os dias de saltos altos, aperaltada, todos os dias a comer em restaurantes, todos os dias confinada em torres e todos os dias rodeada de gente que, muitas vezes, não nos permite sermos donos da nossa própria agenda.

Mas, dizia eu que apanhei um susto ao escrever sobre o relógio e a aliança: afinal já os encontrei. Senti um tremendo alívio. Nem imagino a aflição em que ficaria se não os tivesse achado.

Esta sexta-feira, ao fim do dia, fomos à outra casa ver se estava tudo bem, trazer o correio, buscar comida feita para o jantar e para o almoço de sábado. De caminho, pensei parar para ir procurar mais duas suculentas e uma nova taça. É que, no outro dia, ao distribuir as que tinha comprado, tinha-me sobrado uma. Mas então não é que, antes de ir pagar, tive uma chamada que me fez distrair-me por dois minutos? Mal dei por ela, já o meu marido as tinha posto deitadas, dentro da taça de barro. Conclusão: partiu várias folhas, fez outras tantas caírem. Nem queria acreditar. Fiquei passada. Mas, sonso como é, achou que eu devia estar maldisposta por outra coisa qualquer para estar tão chateada por motivo tão nulo. Fiquei ainda mais passada. Disse-me que não estivesse ao telefone em vez de estar a tomar conta delas. Desisti. Ao chegarmos, sendo já tarde, de noite, não pude ocupar-me delas. A ver se faço um bercinho para tentar que das folhinhas partidas renasçam novas flores.

Só me apetece ir tratar disso. Não me apetece pensar nas chatices que invadiram o meu dia nem noutras maçadorias. Só em jardinagens, coisas simples, andar com as mãos na terra, pensar em coisas boas.

E é isto. Ou melhor, não passa disto. Passa das duas da manhã. Tenho que me levantar cedo. Por isso, vou parar com esta conversa mole, que não ata nem desata. 


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Fotografias de Ben Hassett na companhia de David Gilmour com Yes, I Have Ghosts

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E tenham, por favor, um belo sábado.
Be happy.

sexta-feira, abril 16, 2021

Dia após dia.
Nem parece que estou dentro de Abril

 


Tive uma reunião cedo, à primeiríssima da manhã. Além disso, hoje era dia de lavar o cabelo o que me faria levantar ainda mais cedo. Como se não bastasse, uma hora e tal antes ouvi batucar como se alguém estivesse a bater com um martelo no jardim. Estando com os vidros abertos, ainda mais ouvia. O meu marido estava a pé, na realidade preparando-se para a sua caminhada pré-matinal. Disse-me depois que era alguém arranjando qualquer coisa já não me lembro se era no passeio se no jardim da vizinha. Resultado: não dormi mais. Estou, pois, aqui perdida de sono. 

E tinha a reunião ao dealbar da manhã mas depois, até à seguinte, tinha meia hora de intervalo. Estando com o cabelo molhado, tinha pensado: ajeito o cabelo, passo um brilhozinho nos lábios. 

Essa primeira foi do mais maçador: tudo noutra língua, eu estava por favor, nada ali me interessava, gente que não se calava nem por mais uma. Estava na reunião, um telefonema urgente. Mal acabou a reunião, já com um quarto de hora de atraso, respondi ao telefonema e entrei na seguinte já com dois minutos de atraso. Sem tempo de ajeitar o cabelo ou passar um brilhozinho de framboesa nos lábios.

E estava na reunião e uma pessoa só a ligar. Eu desligava e mandava mensagem a dizer que ligava de volta e, logo a seguir, nova insistência. Por isso, mal acabou a reunião, liguei. Telefonema longo. Mal tivemos tempo para a breve caminhada da hora de almoço. Almoçámos a correr. Ele saiu para ir para junto da equipa e eu entrei noutra reunião.

E não continuo pois foi neste registo até às sete. Contudo, uma das reuniões não correu bem. Um dos intervenientes é má pessoa, é provocador, é descarado e, ainda por cima, pouco elegante. O alvo dele não fui eu. A outra pessoa enervou-se, levantou a voz, mostrou forte desagrado. Depois da reunião, telefonámo-nos: eu comentei a rudeza e a estupidez do outro. Ele disse que não tinha paciência nem vontade de aturar aquilo. Creio que, mais dia, menos dia, a coisa vai acabar mal. Há pessoas tóxicas, que minam qualquer ambiente à sua volta. Ainda debaixo daquela má onda, fui finalmente para a rua, para respirar.

Liguei, então, à minha filha -- cinquenta e cinco minutos --, depois à minha mãe -- onze minutos. Só depois fiz o jantar. Tarde, tarde. Hora imprópria para começar a cozinhar. Arroz de frango com bocadinhos de bacon e alguns legumes de permeio. Enquanto o frango cozinhava, ligou o meu filho. Mais rápido: quatro minutos e quarenta segundos. Quando acabou o telefonema, pus a máquina da roupa a trabalhar. Jantámos às dez e tal. Depois arrumei a cozinha. Vim para aqui e respondi a mails. Depois adormeci. Entretanto acordei e vi o House, desta vez com ele a acabar em lágrimas, coisa mais fofa. Um homem apaixonado e a disfarçar as emoções é do mais touching que existe. E agora, quase às duas da manhã, ainda estou nisto. Não tive tempo para ver flores, para olhar pela janela, para espreitar as gordinhas. Ou para ver as notícias. Estou aqui em total estado de inocência.

Assim passa o tempo: sem que se dê por ele. Estamos já na segunda metade de Abril, um mês misericordioso. Casei-me em Abril, mês de todas as primaveras, de todos os ensejos, de todas as madrugadas.

Sempre gostei de passear nas ruas de Lisboa e ainda mais em Abril. Um dia destes vou passear para o Chiado. Mas não poderá ser para já. Temos mato para cortar, imagino como estará toda aquela natureza à solta lá in heaven. O Chiado vai ter que esperar. 

Ah, é verdade: ontem verifiquei uma coisa do além. As duas rosas amarelas, lindas e luminosas, que no outro dia fotografei tinham ficado cor de salmão. Vim a casa a correr buscar a máquina para registar. Se não fosse tão tarde agora ia buscar essas fotografias. A ver se amanhã me lembro. Uma coisa de loucos. A minha mãe, no domingo, esteve a averiguar se era o mesmo pé de roseira. Pensou que poderia haver dois pés. Mas não: um único pé. Rosas múltiplas e mutantes. Um milagre.

E, perante a evidência de tais milagres, como poderia eu não ser crente e devota? Como...? 

Creio e venero a infinita superioridade e o infinito mistério da natureza. Ámen.


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Eu sei que pode parecer que, encaixar aqui o vídeo seguinte, é de loucos. Talvez. Mas não é apenas o jovem que é belo, andrógino, elegante, fascinante. É a casa. Que casa... deus meu, que casa... que casa habitada por um tão belo exemplar. Céus, que casa... céus, que rapaz... 

[Não vem aqui a propósito...? Ai não que não... Há coisas que vêm sempre a propósito. Vão por mim].

Inside Troye Sivan's Victorian-Era Melbourne Home 

| Open Door | Architectural Digest



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Kate Moss é fotografada por © Nigel Shafran enquanto Marlene Dietrich interpreta Falling In Love Again

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Desejo-vos uma sexta-feira completamente sexta-feira: boa demais

quinta-feira, abril 15, 2021

Sócrates na TVI: a entrevista, os comentários.
E Darius e a bola de fogo
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Sim, vi a entrevista. Sim, vi o debate na tvi24 que se seguiu. Sim, continuo a achar que toda a gente é inocente até prova em contrário. Sim, continuo a achar que ainda vale a pena haver tribunais. Sim, ainda acredito na Justiça, essa velha trôpega, tantas vezes entregue aos cuidados de gente que a mina e enlameia. Sim, podem chover canivetes que eu tentarei que não caiam directamente, a pique, sobre o peito nu dos que estão no chão, levando pedradas e pontapés da turbamulta.

O mundo dá muitas voltas e frequentemente o que se vê não é senão uma pequena parte do que há para saber. Na primeira pessoa muitas vezes o testemunhei. Mil vezes acompanhei, por dentro, conspirações, intrigas, farsas. Como assisto, sem preconceitos ou julgamentos prévios, às situações que me rodeiam, há muita gente que confia em mim. Confiam cegamente. Sabem que o podem fazer pois, se é para não falar, eu não falo. Tenho tido, portanto, a oportunidade de saber os contornos, as motivações, as manobras, os disfarces, de conhecer as actuações e as reacções --- e de constatar como, geralmente, é limitada e imponderada a visão dos que apressadamente julgam, pouco sabendo do que há para saber.

Em contrapartida, tenho testemunhado como é bondosa, generosa, a opinião dos outros para quem se apresenta como um sofredor. Pode o sofredor usar esse disfarce para ocultar uma alma de manipulador, um espírito de oportunista (quando não, mesmo, de desonesto), uma prática de mentira continuada. Bastar-lhe-á usar um jeito de vítima, de pessoa incompreendida, de alguém a quem os outros não reconhecem os méritos, pôr um arzinho indefeso de quem precisa de colo para que, perante a turbamulta, passe a ser visto como alguém que precisa de um conforto, que merece carinho. Tenho visto isso tantas vezes.

É assim.

Houve um primeiro-ministro que dizia que o povo é sereno. Mas eu digo outra coisa: tem dias. 

Podem passar séculos, podem as temperaturas e as águas dos mares aí estar, a subir, podem ter caído monarquias e repúblicas, podem os homens ter ido à lua e mandado geringonças para marte, pode tudo. Mas a populaça é a mesma, gente que saliva e grita de entusiasmo enquanto alguns são puxados ao encontro da guilhotina, gente que não desvia o olhar quando um corpo indefeso cai inerte, desprendido da mente, da alma. 

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Depois de um dia nem mau nem bom, antes pelo contrário, depois de uma noite cansativa, estou aqui a pedir, justamente, serenidade. E não preciso de pedir muito: já adormeci algumas vezes. Evito ir até ao youtube pois tem milhares de vídeos de suculentas para me mostrar e eu... não consigo resistir-lhes. Percebo agora porque milhares de mulheres no mundo inteiro andam fascinadas com as gordinhas. Nestes vídeos, as jardineiras-amadoras falam todas com diminutivos rolando redondinhos na boca. Fico com vontade de fazer mudinhas, de esperar para ver rebentar brotinhos, de misturar verdinhas escuras com verdinhas clarinhas. De início. este terracinho aqui tinha só um vaso grande com uma planta seca. Agora há dois cadeirões e uma mesa, um vaso grande com uma espécie de grande feto e quatro taças com gordinhas lindas. E começo a aventurar-me na reprodução, embora, impaciente como sou, esteja a tentar short cuts que, se calhar, nem vão resultar. E, pior, está de chuva quando elas gostam é de substracto sequinho e não todo húmido -- e tudo isso. Mas não faz mal. O universo há-de protegê-las. De vez em quando abro a porta da rua e vou espreitá-las, toda eu cheia de enlevo e de ideias.

Entretanto, passei os olhos pelas notícias. Hoje nada que me tenha agradado. Ontem sim. Duas que me dão que pensar, e por motivos distintos.  

Uma é que Darius desapareceu. Tem cerca de um metro e trinta de tamanho e dizem que é o maior do mundo. A dona está preocupada, diz que o ladrão o pode matar por não saber os cuidados que Darius requer. A polícia está atrás do animal e a sociedade lamenta que haja quem mercadeje com coisas tão sensíveis, a saber, um ser vivo. E eu, reparo agora, estou a usar, pela primeira vez na minha longa vida, o verbo mercadejar. Aqui pensa-se que o ladrão vai querer mercadejar não um cabrito, que não tem, mas um Darius rabbit que está a deixar a dona com um buraco no peito, infeliz porque o seu Guiness já não esteja disponível para se fazer fotografar com ele nos seus braços.

A outra notícia é que uma bola de fogo de grande dimensão atravessou os ares a grande velocidade e que só por um bambúrrio de sorte não causou o fim da picada. Fireball lights up Florida sky as it 'passes uncomfortably close to Earth'. Passou longe, por sorte. Podia ter-me caído em cima e eu já aqui não estaria a escrever, ou ter caído em cima de si e já não estaria aí a ler-me, ou do João Miguel Tavares, do José Manuel Fernandes, do Filipe Santos Costa, do José Alberto Carvalho, da Ana Lourenço, do Ricardo Araújo Pereira e de todos os que sabem de tudo, antes de todos, e que -- sim, é verdade -- estão acima de todos e que, a ter-lhes a bola caído em cima, já não estariam por aí a manipular, a distorcer, a poluir a opinião pública. Tivemos sorte, todos. 

Contudo, ao ver o vídeo, fico a pensar: até quando estaremos a salvo? 

Estarmos a salvo é uma sorte: a salvo de que uma bola de fogo nos apague da superfície da terra, a salvo de que um qualquer outro evento não nos desgrace a vida. 




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A primeira fotografia é de © Alique e a segunda de © Ben Hassett e ilustram um artigo onde li que, para o meu signo, a melhor forma de me retemperar é um belo banho, coisa que confirmo 8e não precisa de ser de imersão nem de lhe misturar sais, basta um belo duche quentinho).

A música, como é bom de ver, é:  Get Up Stand Up por Skip and Cedella Marley (2020) | Playing For Change | Song Around The World

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 Um dia feliz

quarta-feira, abril 14, 2021

A Lei de Lynch e as fogueiras da Inquisição
-- Sócrates, Ivo Rosa, Marques Mendes, José Manuel Fernandes et al. --

[A palavra a alguns Leitores do Um Jeito Manso]

 

"Não foi um erro da Justiça. Foi um insulto ao país"; “Este juiz ou é ingénuo, ou faz-se de ingénuo, ou anda num mundo à parte. Em qualquer dos casos é muito grave e um homem assim é um perigo à solta”.

Os autores destas pérolas são, respectivamente, José Manuel Fernandes (que escreve no Observador e opina onde lhe pagarem) e Luís Marques Mendes, comentador da SIC. O primeiro reconhece logo que não é jurista e não está interessado em discutir a lei (essa maçada...), o segundo sabemos bem que é jurista e já foi objecto de notícias relativas à venda de umas acções de uma empresa bem abaixo do preço de mercado, com a inerente falta de pagamento do imposto devido, e por ter sido sócio de uma empresa alegadamente ligada a esquemas com vistos gold, pelo que deveria ser mais circunspecto com os julgamentos em praça pública.

Tudo somado, acabam por ser bem mais graves as apreciações do LMM, pois que o outro não passa de um alegre desconhecedor das coisas do direito. Ainda assim e fazendo jus ao mote de que a ignorância é atrevida, põe em causa o trabalho de um juiz que claramente tem uma licenciatura em direito, claramente tem uma carreira internacional desde 2012, claramente analisou o assunto, claramente teve a coragem de deixar a salivar até dia 9 os comentadeiros da praça, e claramente fez questão de ler uma súmula da decisão e publicitar essa leitura para impedir que os ditos comentadeiros tivessem facilitada a tarefa de deturpar a decisão. Enfim, JMF, vindo da UDP e por ora acoitado no Observador, tem tanto juízo, tantos conhecimentos jurídicos e tanta vergonha como os milhares de patetas alegres que assinaram uma petição para a AR e/ou o STJ afastarem o Dr. Ivo Rosa da magistratura.

Luís Marques Mendes é outra loiça - não melhor, apenas diferente. Gostaria de o ter ouvido pronunciar-se acerca dos fundamentos da decisão, mas ele limitou-se a focar a parte da decisão que lhe agrada (aquela que pronuncia JS, e que eu, que ouvi na íntegra a leitura, considero a parte mais fraca, por vários motivos) e a virtuosamente declarar que não comentava, que para isso lá estaria a Relação. Mas sempre foi comentando - com falsidades, pois afirma que até é normal haver na instrução alterações à acusação, mas que o que o juiz fez não é normal - "ele destruíu praticamente a acusação". Aconselho vivamente LMM a largar o conforto da advocacia de negócios e tirar um ano para fazer direito penal, e poderá constatar que há (muitos) casos em que a acusação é destruída - chama-se a isso haver um despacho de não pronúncia. Também afirmou que seria melhor o caso ir a julgamento, mesmo que as provas não fossem inatacáveis pois aí haveria 3 juízes. Ou seja, o que o incomoda é haver a fase de instrução (esperemos que no seu escritório não haja no futuro alguém acusado e a precisar de pedir abertura de instrução ...).

Para além disso LMM limitou-se a atacar o juiz, pessoalmente. Há juízes competentes e há outros incompetentes. Do que ouvi (toda a súmula lida) pareceu-me um juiz escrupuloso, minucioso, com conhecimentos técnicos e um bom raciocínio lógico-dedutivo. Para além disso integra desde 2012 o tribunal de Haia, onde não chega quem quer.

E aquilo que ele disse da acusação não me surpreendeu. Conheço o procurador-estrela do caso e sei do seu gosto por processos em que a montanha acaba por parir um rato (casos Moderna, submarinos BPN...). Será Ivo Rosa o culpado??

MPDAguiar

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O Observador foi criado a partir de algum capital de origem duvidosa, como por exemplo de angolanos identificados com José Eduardo dos Santos e pessoas e grupos próximos de si.

Marques Mendes pertence ao escritório de advogados “Abreu Advogados”, com fortes ligações à Região Autónoma da Madeira e outros grandes interesses no Continente. Com conexões ao triângulo Angola/Brasil/China. É um “Escritório do Regime”. Sempre ligado aos grandes negócios das privatizações e concessões. 

Participou na privatização dos CTT, em conjunto com outro desses Escritórios de advogados, a PLMJ. Entre algumas figuras conhecidas da política e dos negócios, fazem parte da “Abreu Advogados”, José Eduardo Martins (PSD), Paulo Teixeira Pinto (ex-banqueiro e Opus Dei), etc. Francisco Lacerda que viria a ficar à frente dos CTT, era amigo de Paulo Teixeira Pinto e saiu da Cimpor para ir gerir os CTT. Antes tinha estado no BCP. A “Abreu Advogados” (a que pertence Marques Mendes) tinha uma prática líder em derivados e swaps e nesse sentido aquele Escritório veio a assessorar o Grupo BES (incluindo o próprio BES e a ESAF) no financiamento de um conjunto de projectos do sector público, domésticos e internacionais. O BES e o Banif (onde Obiang da Guiné Equatorial depositou alguns dos seus milhões roubados ao seu povo, que o melífluo Luís Amado veio a gerir, e tão bem, que levou o banco à falência) eram clientes da “Abreu Advogados”. Também o BPN, de Oliveira e Costa (e BPN Imofundos) era cliente daquele Escritório.

Quanto à decisão de Ivo Rosa, para além de um meu comentário anterior, aquilo que importa é a interpretação que foi feita à luz das Leis Penais e Processuais Penais vigentes (aprovadas em sede da A.R, convém não esquecer). Foi o que pelos vistos fez Ivo Rosa. Já o MP cometeu erros, nulidades e mesmo atropelos, por exemplo ao ter junto escutas de outros processos, que não estavam apensados a este, o que viola disposições legais. Aguardemos agora com serenidade o que a Relação vai decidir. Por fim, se há coisa mais lamentável são julgamentos tipo pelourinho, que a imprensa promoveu ao longo destes anos, através de meticulosas e cirúrgicas peças processuais que o MP lhe foi passando, com o objectivo de fazer vingar a sua tese acusatória e fazer pressão sobre quem viesse posteriormente a decidir a Pronúncia (após o debate instrutório). Pelo menos é a impressão que fica. O Direito é uma coisa, a especulação dos “media” outra.

P.Rufino

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Este país está minado de gente maluca com palco. A sério que isto me deixa assustado. Eu não sou da área mas raio... o que me parece disto tudo é até positivo! O sistema de justiça ainda funciona minimamente. O homem continua acusado de vários crimes. Caíram outros por falta de sustentação? Até um leigo será capaz de perceber que a ideia de "mega processo", uma coisa com 6000 páginas... Epah... Isto deixa dúvidas de muita coisa só por si. Claro que a justiça tem muitas fraquezas e muito precisa de ser melhorado.

Esses peticionários podiam começar sei lá por pedir um enquadramento jurídico eficaz a criminalizar enriquecimento injustificado e o recurso a entidades que não permitem identificar beneficiários últimos de bens materiais e de capital... Sei lá, assim uma ideia minimamente decente... Um país onde 150 000 mil alminhas estão dispostas a crucificar um juiz por não ter mandado crucificar com ou sem argumentos sustentáveis alguém de que eles simplesmente não gostam? Que coisa impressionante! Que manipulação preocupante alastra nestes meios de comunicação!! (A capa do Pasquim CM de hoje / ontem é de um enorme nojo!) Enfim. Eu já alarguei a procura de trabalho ao resto da Europa - se é para me sentir estrangeiro pode ser em qualquer lado - não que tenha vontade de ir para fora mas.. 

Paulo B.

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A Lei de Lynch e as fogueiras da Inquisição
O atual processo mediático, em que comentadores, pseudo jornalistas e pseudo moralistas arrastam o bojo pela lama tentando cada qual agradar mais à turba sedenta de sangue, depois de ser durante anos instrumentalizada, faz-me pensar que não gostaria de ver ninguém cair nas mãos daqueles que, em Portugal, verdadeiramente, estão acima da Lei.

 Marcelo Lima

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Os textos acima são comentários a um dos meus posts sobre o tema que, crendo que os seus autores -- a quem agradeço -- não me levarão a mal, repesquei para o corpo principal do blog

terça-feira, abril 13, 2021

Trabalhos, penteados e uma entrevista saborosa

 


Hoje comecei o dia, recebendo telefonemas atrás de telefonemas estando eu ainda na cama, a acordar. Não gosto. Gosto de acordar na minha hora, quando o meu corpo se sentir confortável com o despertar. Se acordo quando o meu marido se levanta, peço para abrir a janela. Abrir a janela é como quem diz, pô-la basculante. O estore em si fica apenas chegado até abaixo mas com os buraquinhos todos abertos para entrar luz e ar. O meu marido protesta com os meus pedidos, diz que não está tempo para abrir a janela, que entra ar frio. Eu gosto. O ar frio da manhã com canto de pássaros à mistura é muito bom. Daqui por algum tempo, poremos o sistema de rega a funcionar. E, portanto, acordarei com o frescor da aurora, o som da rega, o canto dos pássaros, o cheiro das flores do canteiro sob a janela. Geralmente volto a adormecer, tranquila, encantada, e acordo com o despertador.

Ao fim de semana, não havendo compromissos, acordo e fico um bom bocado no quentinho, no bem bom, curtindo o prazer de estar entre lençóis em pleno dia. 

A antítese de tudo isto é estar a dormir e acordar com o telefone. Uma neura. Pior ainda se, atendendo, estiver do lado de lá alguém cheio de problemas, alertas, ralações e que faz questão de os passar inteirinhos para mim. Detesto. A minha cabeça gosta de ter um tempo de setup generoso. 

Outra coisa que também me estraga o dia é ter que acordar à pressa, com aceleradas abluções e petit dejeuner sem um mínimo de vagar e qualidade e, sem tempo para me ver ao espelho, ajeitar cabelo ou passar um brilhozinho nos lábios, entrar em reunião e, de súbito, ter que me sintonizar num outro comprimento de onda. Não gosto. Nada.

E esta segunda-feira, dia já de si desagradável, acordei assim. Telefonemas, telefonemas. Depois, tantas as emergências, tive que marcar reunião e, de supetão, entrar nela. Estava a entrar na dita e a pensar: isto não vai correr bem. Penso que só os distraídos é que ainda não perceberam que não deveriam pôr-se a jeito, ainda por cima a uma segunda-feira de manhã. Não correu bem, claro. Dei por mim a falar devagarinho, baixinho, nitidamente a conter-me para não me portar mal. Depois, na seguinte, a que estava planeada, a que era para ter corrido rapidamente, atrasou-se. Um incómodo. 

Fomos caminhar à hora a que deveríamos estar a almoçar. Podia não ter ido e limitar-me a almoçar. Mas preferi andar. Como a seguir tinha outra para a qual tinha que ler um documento antes, almocei uma banana. Horas nisto. 

E assim fui até que terminei por volta das sete e tal, hora a que tive que ligar a um colega, depois à minha filha, depois à minha mãe. Felizmente, o jantar foi um resto que estava parqueado no frigorífico, senão daria para belas horas. A seguir estive à conversa com o meu filho. E mal me instalei, novo mail a pedir-me uma opinião antes da reunião de amanhã. Pensei: gaita, lá terá que ser, vou mas é despachar já senão amanhã, em vez de acordar com os passarinhos, acordo com um pedido de opinião. 

E é isto. Ainda me lembro de um dos meninos me ter perguntado: o que é que tu fazes? E eu ter ficado sem saber bem o que dizer. Como se explica a uma criança a vida que levo? Não curo doentes, não construo ou projecto casas ou pontes, não defendo prisioneiros, não sou professora, não sou cabeleireira ou polícia, não sou jardineira. Faço o quê? Só isto que aqui vos conto e que, espremido, não sei se dá algum sumo.

E, assim, neste comprimento de onda, os dias vão passando. À hora do almoço, o tempo estava razoável, havia raios de sol, a temperatura estava amena. Quando, ao fim da tarde, saí para o jardim para apanhar ar enquanto falava com a minha filha, estranhei: estava frio, o céu escuro, fechado, o chão molhado, alguma coisa tinha chovido. Cheguei a casa, tive que me agasalhar, parece que a própria casa tinha esfriado. Não percebi.

Usei hoje o poncho de lãzinha fininha que a minha mãe me fez e que, por causa do confinamento, só ontem recebi. Tem aquela cor de que tanto gosto, é solto e macio, e é quentinho. 

E agora aqui estou. Do que me apercebo, continua o fuzuê em torno de Sócrates e de Ivo Rosa, com as vizinhas comentadeiras a comentarem-se umas às outras. A coisa já deve ir na quinquagésima derivada, com o gato e o cão a desfiarem palpites sobre a relevância das provas indirectas e sobre se há razão ponderosa para que o grande Perna, afinal, não seja tratado como o DDT mas apenas como um pindérico portador de um canivete suiço. E, aproveitando o descaso, o coroninha dos pink totós, agora todo feito prosa, a dar-se ares de primo da rainha, todo posh, vai pulando toda a cerca que pode, deslizando do verdinho para o amareladinho, já com tonzinho laranja, a namorar o encarnadinho. Blink, blink.


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As fotografias mostram uns penteados que me deixam roída de inveja. E não é da branca, é mesmo da tinhosa. Gostava mesmo que o Alexis Ferrer me fizesse um penteado assim, com pinturas a preceito.

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E, já agora, deixem que partilhe uma entrevista gostosa. Gente inteligente e desprendida é outra coisa.

Fernanda Montenegro - Conversa com Bial 

No ano em que comemorou seus 90 anos, a atriz lançou seu livro de memórias, "Prólogo, Ato, Epílogo". A obra foi o assunto do Conversa com Bial de 03/10/2019, que celebrou a grande dama do cinema e da dramaturgia do Brasil. Marta Góes, a biógrafa, também estava na conversa e é definida por Fernanda como "uma excelente parteira". O livro é fruto de 18 entrevistas transcritas e editadas por Marta e a conversa foi uma aula de vida e de atuação.


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Desejo-vos um dia bom

segunda-feira, abril 12, 2021

Um dia luminoso

 


Dia muito bom, dia de reunião de família. O menino do meio fez dez anos no outro dia mas, nesse dia, não se podia circular. Reunimo-nos este domingo na praia. Cantámos os parabéns a você com algum vento à mistura. Felizmente a areia não andava demasiado pelos ares.

De manhã fomos buscar a minha mãe. Apesar de estar vacinada, usa máscara: a vacina, tanto quanto sei, evita doença grave mas não evita que uma pessoa vacinada seja contagiada e contagiante. Portanto, usa ela e usamos nós. Em casa, mantivemos as janelas abertas e almoçámos na mesa grande, nós numa ponta, a minha mãe na outra. Por nós e por ela, achámos que deveríamos manter-nos cautelosos. 

Depois de almoço fomos, então, para a praia, ter com os mais novos que já brincavam e jogavam uns com os outros, felizes da vida por estarem juntos. Para nós, havia panos grandes para nos sentarmos em cima mas, para a minha mãe, levei uma cadeira destas aqui do jardim, uma meia espreguiçadeira levezinha. Isto merece ser registado porque, quando vamos para a praia, somos todos minimalistas e, desta vez, dia de festa em tempos covid, até uma geleira levámos. A minha mãe, que fez dois bolos, levou também um saco térmico. Portanto, foi um filme. Geleira e cadeira. Só faltou um chapéu de sol. Aliás, quando viu o sol a descobrir, quando estávamos quase a chegar, a minha mãe disse isso: se calhar eles também não trouxeram uma sombrinha. Claro que não. Nem devem ter. O que lhe valeu foi que tinha vindo prevenida com um chapéu de palha de aba larga, uma verdadeira capeline. De resto, concluiu que a ver se as lojas abrem para ver se arranja um chapéu mais apropriado a sol com vento, talvez um de pano.

Quanto, ao repasto: juntámos os salgados, os doces e os sumos e fez-se a festa assim mesmo. Não exactamente um déjeuner sur l'herbe mas um lanche sobre a areia.

A dada altura estava a olhar para eles, para todos, feliz da vida por estarmos juntos, diz o mais pequeno: tira uma foto. Com o vento e a algazarra deles, nem percebi. Ele repetiu: tira uma foto. Imagine-se, pois, o estado de enlevo em que eu estava para ter que ser o mais novo a chamar-me a atenção para que o momento requeria uma fotografia.

Claro que, em condições normais, da praia viríamos todos para cá. Mas não é prudente, os miúdos andam sempre em cima uns dos outros, entrariam em casa. Espaços fechados, ajuntamentos: ainda não é uma boa ideia. Mas foi o que se pôde arranjar: a gente habitua-se às circunstâncias. Estivemos juntos, bem dispostos, animados. Claro que fiz de tudo para matar saudades deles, abracei-os pelas costas, beijei-os na nuca ou na cabeça ou nas costas, mesmo que com a máscara. Limitações, limitações. De vez em quando ouvia chamar por mim. Era algum dos crescidos a chamar-me a atenção, 'Atenção à Covid!'. O meu filho, então, cada vez que me vê agarrada aos seus dois filhos rapazinhos, diz: 'Cuidado, estão cheios de covid'. A menina usa máscara, é mais cuidadosa. Como os mais novos na escola não têm que usar máscara, é verdade: nunca se sabe. Mas, podendo parecer que não, acho que até sou cuidadosa.

Depois de termos estado a tirar ainda mais fotografias no parque de estacionamento, despedimo-nos. A minha mãe veio para minha casa. 

Era para fazermos o IRS dela mas, afinal, tinha-se esquecido de trazer as passwords. Estive a tirar dúvidas do mail, de como pesquisar mails, etc. E estive outra vez a ensiná-la a tirar fotografias e a partilhá-las por mensagem ou por mail. Mas, cá para mim, amanhã já vai outra vez estar sem saber bem e com receio de se aventurar. Por mais que lhe diga que ouse, que não tenha medo, está sempre com medo de fazer estrago, seja no telemóvel, no tablet, no correio, nas mensagens. Receia apagar indevidamente, estragar, meter-se em trabalhos. Medos, medos. Por isso as crianças aprendem tudo tão facilmente: não têm medo de nada.

E andámos a ver as rosas: ela também nunca viu isto. Rosas do mesmo pé de rosa que ora nascem amarelas, ora cor-de-rosa, cor-de-salmão ou cor-de-laranja. Escandalosas de tão belas e únicas.

Ao fim do dia, fomos levá-la. Ia feliz da vida, dizia que os dias assim grandes são uma alegria. No carro, fomos falando nos meninos, nos pequenos, nos grandes. Tínhamos ido para a mesma praia para onde ela e o meu pai iam com os meus filhos quando eram pequenos. 

Gostou de ter ido. E os meus filhos também ficaram contentes por estar na praia com a avó. Há muitos anos que ela não vinha à praia: se o meu pai não podia ir, ela também não ia, ficava com ele. E agora estava ali, anos depois, já não apenas com os netos mas já com a família que os netos formaram. Uma alegria para todos. Um dia luminoso.


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As rosas são cá de casa e acompanham Anoushka Shankar & Norah Jones em Traces Of You

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Desejo-vos uma boa semana

domingo, abril 11, 2021

Bora deportar o Ivo Rosa? E esfolar o Sócrates?
E, de caminho, vamos promover o José Gomes Ferreira, a Ana Lourenço, o Paulo Morais, a Joana Amaral Dias e mais uns quantos a Juízes da Relação, do Supremo, quiçá mesmo, do Constitucional?
Bute?

 

Tenho para mim que o excesso pode estragar. Gordura é boa se não for em excesso, a curiosidade é boa se não for em excesso, atingir a perfeição é um bom objectivo mas tornar-se-á uma pancada se for demais. E por aí vai.

Por exemplo, excesso de informação é uma fonte de confusão. Excesso de informação na comunicação social, excesso de informação nas redes sociais. Informação não filtrada, não processada, informação que não é nada, apenas lixo, informação a granel e em permanente atropelo. A quem aproveita tamanha enxurrada, tão carregada de detritos? Creio que a ninguém. Informação de qualidade que calhe acontecer vai de arrasto no meio da lama e do lodo que segue na torrente.

Vamos de canal em canal e todos estão cheios de gente a comentar o caso Marquês, sentenciando a torto e a direito como se pudéssemos prescindir da Justiça e substituir as suas instâncias pelos milhares de opinadores que, sem hesitação, se arrogam o direito de tecer teorias sobre o que apenas conhecem dos jornais e das redes sociais.

Conhecem o processo aqueles que opinam com tanta assertividade e ar tão clarividente? Presumo que não. Têm alguns conhecimentos jurídicos? Grande parte não tem.

E, no entanto, jornalistas que nunca ninguém viu mais pintados/as e que espumam raiva pelos olhos, palermas com a mania que têm competência para chefiarem governos e que, tanto opinam como economistas (fingindo que o são) como causídicos simulando grandes conhecimentos na área, putativas psicólogas que dariam tudo para se poderem apresentar de biquini com a depilação brasileira bem à vista, ex-candidatos à presidência da República em quem apenas a família votou e que de leis conhecem tanto como o cão dos meus vizinhos que ladra, ladra mas que, juraria, não leu as milhares de páginas do processo nem cursou leis -- e todos comentam, todos criticam, todos ajuízam.

Qualquer das pessoas que se apresenta na televisão queixa-se que nunca tal se viu, que tudo isto é incompreensível, e criticam iradamente Ivo Rosa por lhes ter trocado as voltas. Acabei de ver um, transtornado, a dizer que não percebe nada disto... e, ouvindo-o, até parece que a culpa é disto. Se, por acaso, um cirurgião tiver dificuldade em fazer um transplante complexo e perguntarem ao Joselito Gomes Ferreira, à Amaral Dias e a tutti quanti o que acham disso, provavelmente, também todos se sentem à vontade para tecer considerações, para dar palpites, para invectivarem o cirurgião por não tornar a operação mais simples para que eles possam perceber. E uns, sem qualquer sombra de dúvida, dirão 'se fosse eu aspirava o fígado por uma palhinha', outros não terão dúvidas que o que deveria ser feito era 'injectar um par de pulmões pelo rabo acima'. E a Ana Lourenço e outros e outras jornalistas farão olhares sentenciosos e justiceiros, pedindo sangue, mais sangue, que se esfole o Sócrates, o Ivo Rosa, todos os ricos e poderosos, mas que se esfolem vivos, e, de passagem, quiçá também mais uns e umas que para aí andam a dizer que à Justiça o que é da Justiça.

Enfim. Um desespero assistir a isto.

E, assim sendo, por ora, sobre o tema é o que tenho a dizer. Estou de ressaca tal a overdose de comentários e opiniões a que tenho estado sujeita. Portanto, se me permitem, vou arejar. 

Até já.

sábado, abril 10, 2021

Sócrates: o animal feroz está de volta
[embora com uma vulnerabilidade que pode minar a sua ferocidade]

 


Tenho para mim que quando uma fera se atira à jugular da vítima não deve uma única vulnerabilidade, nem calos nas patas nem uma unha encravada ou um grão de areia a incomodar o olho. Quando se atira a doer é para acertar. Não pode haver o risco de, na hora, haver algo que possa fazer vacilar.

Tem razão José Sócrates em saltar para a arena para sacudir de cima de si a larga maioria dos crimes com que o Ministério Público, ao longo de sete anos, infamemente tentou sujá-lo. Tem razão em revoltar-se contra a ignomínia de que foi vítima. Se fosse comigo, tudo faria para cair em cima dos infames. Nem que tivesse que lutar até ao limite das minhas forças e até ao fim dos meus dias para que fossem condenados, fá-lo-ia.

Mas fá-lo-ia se não tivesse manchas na consciência, se não tivesse nada a esconder. Nessas circunstâncias, sem quaisquer hesitações, daria o peito às balas e denunciaria -- em todos os tribunais do mundo, se necessário fosse -- aqueles que tivessem tentado destruir a minha honra.

Desde o início que acho que toda a fantochada em volta de Sócrates era uma pouca vergonha. As coisas quando são a sério não têm carnaval à volta. Se havia suspeita séria contra ele, agia-se dentro da lei, da ordem e da decência. Não era nos Sábados e Correios da Manhã desta vida, não era com as câmaras em directo, não era com fugas de informação, não era com nacos avulsos que provocam discursos inflamados como os que acabei de ouvir na TVI a uma histérica Joana Amaral Dias ou a outras criaturas que, nada conhecendo de leis e pretendendo o auto protagonismo, insufladas de demagogia e populismo, pretendem que se julgue sem provas, na rua.

A minha matriz formativa é a da matemática e, na matemática, entre outras vertentes, prezo a lógica. Mesmo perante o apelo das aparências, não me afasto do que me parece ser o rigor. Pode a intuição pretender condimentar a análise mas, quando é para me pronunciar a sério, não me desvio um milímetro nem dos factos devidamente provados nem da lisura dos raciocínios. 

E, tal como na matemática há os axiomas que não carecem de demonstração, também aqui há o que assimilei como incontornável: toda a gente é inocente até prova em contrário.

Pode a Joana Amaral Dias, a Felícia Cabrita, cinquenta bloggers, uma mão cheia de jornalistas, vinte peixeiras, quarenta justiceiros, cinquenta freiras, sessenta cabeças rapadas, cem galinhas cacarejantes decretarem penas e ditar sentenças que eu não me movo um milímetro: toda a gente é inocente até prova em contrário.

Para sair daqui, têm os tribunais que dar como provados os factos que o contradigam.

Portanto, de tudo -- tudo -- o que ouvi e li do Caso Marquês, de todas as suposições que me pareceram delirantes, de todas as fantasias que me pareceram lunáticas, de todos os enredos que me pareceram ilógicos, apenas um facto me pareceu, desde o início, estranho e a carecer de explicação.

Desde o início o disse -- e aqui o disse --: se nada fez de ilícito, Sócrates deveria ter eliminado a suspeição que, junto da opinião pública, se instalou  e explicado a que bizarro fenómeno se deveu aquele imoderado uso de empréstimos por parte do amigo.

O fazer agrados a amigos por parte de gente rica não é inédito nem é, por si só, crime. 

Conheço um homem muito rico, muito mesmo, que tem proporcionado toda a espécie de mordomias a um amigo. Porque o faz? Faz porque pode. Faz porque aprecia a companhia do amigo e porque sabe que a única maneira de usufruir da companhia dele é pagando-lhe as viagens e as estadias. Tornou-se sócio do amigo numa empresa porque a empresa estava em dificuldades e porque quis ajudar o amigo -- e porque o dinheiro que lá pôs (uma e outra e outra vez) a ele não fazia diferença e para o amigo era determinante. Conheço ambos. Como é que o amigo aceita tantas mordomias e tantas ajudas? Não sei. São amigos. As mulheres são amigas, os filhos são amigos. O que recebe as prendas e prebendas sabe como o homem rico genuinamente aprecia a sua amizade e companhia. Alguma corrupção nisto, alguma coisa de ilícito? Não. Conheço ambos. Nada de mal. O menos endinheirado é um homem culto, letrado. O muito rico aprecia ouvir o menos rico, aprecia a convivência com alguém que tem milhares de livros, que sabe falar de história, de filosofia, de física, de gestão. Quem os conhece bem diz: é como se fosse uma relação de irmãos. Já não se questiona: é assim e é lá com eles. Se me perguntarem se eu alguma vez seria capaz de viver em grande parte às custas de um amigo a resposta é não. E, no entanto, conhecendo a amizade e a dinâmica da convivência entre aqueles dois, já me habituei a aceitar isso como 'natural'. Há nisto qualquer coisa como havia com os homens ricos de antanho que patrocinavam artistas, músicos, escritores.

Terá sido isso que se passou com Carlos Santos Silva e Sócrates? Pode ser que sim. Mas, se foi, tal deveria ser assumido, explicado sem peias. É um assunto pessoal e ninguém tem nada a ver com isso? Pois. É verdade. E prezo muito a privacidade e a liberdade individual de cada um. Entre pessoas sem vida pública em funções de responsabilidade política, sem dúvida. Se a minha mãe me der dinheiro ou se o meu conhecido muito rico financiar uma vida abastada ao amigo ninguém tem nada a ver com isso. Mas se algo de intrigante a esse nível se passa com um ex-primeiro-ministro, então ou há uma explicação inequívoca ou é correcto que se julgue sobre a transparência e licitude dos factos.

Ou, não foi bem isso e, dos tempos do início da carreira, dos tempos de fura-vidas, dos projectos de vivendas e coisas assim, subsistiram dívidas de gratidão de Carlos Santos Silva para com Sócrates que se traduziram nestas liberalidades? Estamos a falar de proventos que, tendo sido recebidos em espécie, não foram declarados como rendimento? Bem... se é isso, não estaremos perante um caso de fuga ao fisco? Dúvida legítima.

Nada tendo Sócrates explicado, é normal que advenham dúvidas e, havendo-as, é normal e saudável que sejam explicadas.

Sobre todas as outras ficções, Ivo Rosa mandou o Ministério Público ter juízo. Ou melhor: mandou que tivessem vergonha na cara. Rosário Teixeira, Carlos Alexandre e sobretudo a Santa Mana aka Joana Marques Vidal, a mais incompetente de todas as incompetentes que a Justiça pariu, foram mandados para o estrado, com orelhas de burro. Expostos ao público por toda a sua ineficiência, falta de inteligência, incompetência. Sem meias palavras. 

Mas, sobre o mistério dos empréstimos, Ivo Rosa mandou que seguisse a procissão para que se apurem e julguem os factos. Fez bem. Se Sócrates está inocente, a inocência há-de ser provada. Se não está, deve ser condenado.

E não falo de julgamentos políticos ou morais -- esses não são do domínio da Justiça. Falo de crimes enquadráveis pelas molduras penais devidamente instituídas. À Justiça o que é da Justiça.

Tirando isso, nada a não ser que desejo veementemente que a sociedade se mobilize para erradicar a prutefacção que grassa na Justiça portuguesa. E, já agora, que se afiram as capacidades intelectuais e emocionais, a estabilidade psicológica e a sanidade mental dos magistrados em geral e dos juízes em particular.


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As fotografias provêm do The Guardian: The week in wildlife – in pictures
David Gilmour adoça o ambiente com Thanks For The Dance

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Um bom sábado