Em seu tempo conhecida como a 'Fonte de Belém em 2ª mão' (escuso de dizer que de Marcelo se dizia ser a verdadeira Fonte de Belém), Ângela Silva parece mover-se por afinidades e pancadas e não pelo brio ou rigor jornalístico. Dela não conheço -- ou, pelo menos, disso não me lembro -- uma entrevista que desse gosto ouvir ou que tenha ficado para referência futura. Não tem profundidade, não tem argúcia, e é condescendente com quem gosta e quezilenta com quem não é do seu agrado.
A entrevista que ela, o Bernardo Ferrão e o Paulo Baldaia fizeram esta 4ª feira, na Sic N, ao José Luís Carneiro bem pode ser usada nas aulas de Jornalismo para ilustrar o que é uma não-entrevista, ou melhor, para ilustrar como não deve ser conduzida uma entrevista -- muito devido à sua intervenção.
Foi mal educada, falando por cima do entrevistado, não o deixando concluir os raciocínios, interrompendo-o com outros assuntos, fazendo trejeitos e mostrando uma antipatia que uma pessoa com um mínimo de boas maneiras não faz, pelo menos em público e, muito menos, com um convidado. E com uma cara de raiva que constrangia. As narinas abriam-se mais do que o costume, quase parecia que ia deitar fogo e fumaça por elas de tal forma parecia descontrolada.
Senti-me incomodada. O José Luís Carneiro foi convidado para estar ali. Supostamente queriam ouvir o que ele tinha para dizer. Mas Ângela Silva não: não queria ouvi-lo, não queria que ele falasse. Por duas vezes, José Luís Carneiro teve que chamar-lhe a atenção, sempre de forma afável e paciente. Não sei como conseguiu manter a bonomia apesar dos atropelos sistemáticos dela.
Aquilo que se ensina às crianças de não falar por cima dos outros, de esperar que a pessoa acabe para então falar, pelos vistos ninguém ensinou à Sra. Silva. Custou-me a assistir àquela grosseira falta de educação. Felizmente àquela hora as crianças já estão a dormir e nem é programa que costumem ver, mas, de qualquer forma, é recomendação que aqui deixo: quando Ângela Silva estiver numa de tentar destruir um entrevistado, retirem as vossas crianças da sala porque o que vai acontecer é uma avalanche de provas de má educação a que as crianças devem ser poupadas não vão achar que é normal alguém portar-se daquela maneira.
Depois de ser chamada à atenção pelo José Luís Carneiro, a senhora ficou ainda pior, passou a demonstrar rancor, já não conseguia conter-se, afogueada -- e a falta de educação tornou-se ainda mais gritante, já era uma coisa quase irracional. Dir-se-ia que estivesse ela em cima de um tractor e o José Luís Carneiro correria sérios riscos.
Quem esteve mais normal, isto é, mais jornalista foi o Paulo Baldaia. Perguntou, ouviu a resposta, contra-perguntou. Tudo na decência, tudo num registo civilizado.
O Bernardo Ferrão, entalado entre o Paulo Baldaia e certamente incomodado com o indecoro da Ângela Silva, mostrou-se periclitante, sem encontrar o registo adequado. Via-se que queria ser jornalista mas deve ter pensado que se o mostrasse, deixava a Sra. Silva isolada, ainda mais exposta na sua investida desencabrestada contra o José Luís Carneiro. Por isso, com ar atrapalhado, lá foi fazendo perguntas das quais não rezará a história.
A Sic tem alguns problemas com os seus jornalistas e comentadores. Alguns jornalistas não o são na verdade, são gente de claques, gente que demonstra ter uma agenda própria, vão para as entrevistas ora para bajular os entrevistados do coração, ora para cair em cima, à bofetada e ao pontapé, àqueles que não são da sua afinidade política. Dos comentadores nem me apetece falar. Não sei onde recrutam alguma daquela maltosa que por lá aparece e que me obriga a fugir a sete pés.
Enfim. Bem poderiam aprender com o Anderson Cooper ou com a Christiane Amanpour, só para citar dois.
Quem esteve bem foi José Luís Carneiro. Um senhor. Mostrando-se conhecedor de todas as matérias, com ideias concretas e propósitos bem definidos, conseguiu manter a serenidade apesar do destratamento de que foi alvo. É preciso estofo e fibra para se ser político nos dias que correm. Percebe-se que poucos dos verdadeiros políticos estejam para aturar coisas destas.
Não nos admiremos pois que o palco vá sendo aberto a artistas de stand up, a arruaceiros, a trauliteiros, a aldrabões. A Comunicação Social tem muita responsabilidade na degradação da democracia, na deterioração do nível intelectual e humano das figuras públicas.




