quarta-feira, maio 06, 2026

Longe da civilização

 

Tem sido o barulho das serras eléctricas. Ontem estávamos, na sala, a conversar, eu e o meu marido, quando ouvimos um estrondo profundo e, ao mesmo tempo, seco. Eu disse: 'Foi abaixo'. O meu marido fez que sim com a cabeça. Tinham abatido o cedro gigante. O barulho sobre a terra foi violento. 

Fui espreitar cá de cima. Estava a olhar para aquele volume de verde sem compreender bem onde começava e acabava a grande árvore, quando ouvi, vindo lá de baixo: 'Olá, menina, boa tarde!'. Apurei a vista. 'Aqui, em cima, no tronco!'. E lá estava ele, o mais acrobático, empoleirado em cima do tronco cortado. Quando viu que eu o tinha descoberto, fez-me adeus, todo orgulhoso da sua façanha. Cá em baixo o outro virou-se e fez-me também adeus. E disse-me: 'Isto vai!'. 

Disse-lhe: 'Vocês tenham cuidado, não se magoem.' Riram-se: 'Esteja descansada. O pior já foi, já lhe cortámos a cabeça'.

Percebi que um tinha trepado a meia altura e tinha serrado a parte que jazia. Mesmo tendo caído apenas meia árvore, tinha sido aquele horrível som cavo, pesado.

Depois disso ainda estiveram durante mais umas duas horas a serrar. Estavam a cortar o tronco, as pernadas, a decepar todo o enorme corpo.

Quando se foram embora, já era quase noite, havia um intenso cheiro a madeira de cedro, um perfume maravilhoso. É, então, esse o cheiro que os cedros exalam ao serem esquartejados...

Hoje, de manhã, quando lá fui ver de perto, o cheiro ainda se fazia sentir mas já não era tão inebriante quanto o da véspera à noite.

O meu marido contou-me que os rapazes, ontem ao fim do dia, lhe tinham dito que, sem aquela árvore gigante, até veríamos melhor o pôr-de-sol, e fez questão de me dizer que concordava com eles. Talvez se veja melhor a linha de horizonte da serra em frente, mas isso não apaga a pena que sinto por termos destruído uma árvore tão vigorosa, tão bela.

Ainda há mais umas quantas para serrar mas já não é crítico nem tem a ver com a Kristin: é uma figueira que secou, um ramo grande de aroeira que está tombado demais, são dois troncos anteriormente cortados e que ficaram demasiadamente a sair da terra. E mais umas quantas pernadas. A serra elétrica do meu marido não tem dimensão ou força para ramos tão grossos. Durante o dia ele anda a desbastar árvores ou arbustos, mas de dimensão mais comedida. 

Há bocado tive um sobressalto. Eu tinha-lhe dito que estava um folhado grande, muito tombado sobre o caminho, ali mesmo em frente, e que ele poderia cortar. Luz verde para cortar coisas é do que ele gosta. Passado um bocado, já ouvi a serra elétrica. Cortou, cortou, e eu nem estava a perceber o que é que ele tanto cortava. Mas estava ocupada com outra coisa, não fui investigar. Quando o meu filho me ligou, fui andar lá para fora enquanto falava com ele, e, para meu espanto, o folhado ainda lá estava. Em contrapartida, um vazio num outro lado. Um vazio difícil de perceber. Só quando acabei a chamada é que perguntei ao meu marido o que é que ele tinha feito. Achou que eu me tinha referido a outro, um que não estorvava nada, enorme, lindo. E deu cabo dele. Ao lado, no chão, um monte enorme. Fiquei para morrer. Nestas alturas só não fico possuída e à beira de apoplexia porque já aprendi a conter-me e a relativizar. Quanto a ele, nunca se dá por achado. Como se não tivesse feito um disparate de todo o tamanho, disse: 'Pensava que era aquele. E também não estava ali a fazer nada.' Respondi que, por essa ordem de razões, também ele, também eu, também tudo e todos não estamos cá a fazer nada. Mas, pronto, fazer o quê?, o mal estava feito. Coração ao alto.

Hoje o barulho foi o da roçadora: silvas, sobretudo. E ainda não estão todas. E ainda falta o tojo. O meu marido disse que ele tinham que ter cuidado comigo pois se eu via que tinham cortado orégãos não iria perdoar. Por causa disso, a produtividade não foi a maior. O meu marido diz que não é assim que as coisas se fazem, que o que se devia fazer era apontar para uma área e dizer: corte. Eu não concordo. Acho que tem que haver uma selecção. Claro que andar com atenção, a contornar os pés de orégãos não deve ser fácil.

Cá em cima, longe de cena do crime, chegava não só o barulho contínuo das roçadoras mas também o intenso cheiro das verduras sacrificadas. É um cheiro bom.

E ainda falta muito mais. Por um lado, sinto que estamos a fazer o que tem que ser feito. Compreendo e constato que, se nada fizermos, a natureza avança e toma conta de tudo. Misteriosamente constato também que este bocado de terra se tornou tão verdejante que, apesar de se terem estado a cortar tantas árvores, pernadas e arbustos, o que se vê e sente é ainda uma saudável mancha verde. Mas, ao mesmo tempo, sinto aquele instinto primário de viver no meio da natureza, de deixar que ela siga o seu curso.

Quando se passam assim vários dias, aqui hibernada, sinto que os conflitos absurdos que homens dementes levam a cabo perdem ainda mais o sentido. A meu ver, todos os esforços deveriam ser envidados para que o planeta fosse fértil, saudável, eterno, um lugar de leite e de mel, um lugar de grande beleza. Sei que isto é conversa de quem não vai além da primeira camada cutânea, de quem desconhece toda a espécie de tormentos e perturbações que habitam a mente de muitos humanos, que a guerra e o apelo pelo mal fazem parte da natureza desta nossa espécie. Mas tenho pena. Tanta ciência, tanto desenvolvimento e, afinal, pouco se encaminhou para extinguir a maldade e a vontade de destruição.

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Estive a ver o vídeo abaixo que gostava que também vissem: vê-se e quase parecem sonhos. Como é possível que ainda haja povos a viverem assim? Como devem ser felizes por desconhecerem a malvadez que se propaga como um vírus daninho nas zonas ditas civilizadas.

Humanos Inacreditáveis ​​​​| 11 Culturas Extraordinárias que Não Vai Acreditar que Existem | 4K

Das tribos que vivem nas árvores da Papua aos nómadas do mar no Sudeste Asiático, dos guardiões do deserto do Saara aos monges espirituais do Butão, a humanidade adaptou-se aos lugares mais extremos e fascinantes da Terra.


Neste vídeo de viagem em estilo documentário, exploramos 10 comunidades extraordinárias:
  • Tribo Korowai (Indonésia)
  • Povo Maasai (Quénia e Tanzânia)
  • Povo Yakut (Sibéria, Rússia)
  • Nómadas do Mar Bajau (Filipinas)
  • Povo Aymara (Bolívia)
  • Povo Moken (Tailândia e Myanmar)
  • Povo Dogon (Mali)
  • Monges do Mosteiro Ninho do Tigre (Butão)
  • Tribo Kogi (Colômbia)
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Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, maio 05, 2026

Sobre a inimputabilidade

 

Há sempre aquilo, o lugar comum dos dois gumes. Está bem que não estava bem da cabeça quando cometeu o crime... mas o pobre coitado que foi assassinado...? E não pode haver um terceiro gume: o da possibilidade de voltar a acontecer?

Estes domínios, que me atraem  -- e, não por acaso, a primeira hipótese de opção profissional quando tive que escolher um curso era a psiquiatria, depois não por causa dos mortos nas aulas de anatomia, depois psicologia, mas, afinal, não porque não sabia se era reconhecido como curso superior --. têm sobre mim o fascínio de tudo se passar dentro da cabeça, de não serem visíveis a olho nu e de ainda estarmos longe de perceber o funcionamento do nosso cérebro.

Já contei que, quando ia para as minhas reuniões a norte (porque, a sul, ia eu a conduzir), tentava ir de boleia e, muitas vezes com um colega e amigo com quem tinha muita confiança. Uma das coisas que eu gostava era de ouvi-lo a falar da prima que era doida-varrida. E, por umas três ou quatro vezes, apanhei, ao vivo, aquelas delirantes conversas. Ele levava o telemóvel em alta voz e não tinha segredos em relação a mim. Cheguei também a apanhar dessas conversas no gabinete dele. Acabava por sair porque eram intermináveis, ele pura e simplesmente não conseguia pôr um fim naquilo. Tudo começava com: 'Ligaste-me?', e dizia o nome dele. Ele dizia que não. Ela insistia: 'Apareceu-me aqui o teu número. Ligaste...'. Ele voltava ao mesmo: 'Não, não te liguei.'. Por fim, pedia-lhe ele: 'Mas, vá, diz lá o que queres.'. E aí a coisa começava a ganhar graça. Lembro-me de uma vez em que ela queria que ele assinasse um documento. Ele perguntava: 'Ah, sim? Mas que documento?'. E ela dizia que o banco dizia que ele tinha que assinar um documento a dar-lhe, a ela, autorização para movimentar a conta. Ele, já não estranhando nada daquilo: 'Eu? Mas a que propósito? A conta é tua. Eu não tenho nada a ver com a tua conta.'. E ela muito admirada: 'Ah não? Julgava que já te tinhas feito titular da minha conta...'. Ele piscava-me o olho e continuava a conversa: 'Eu? Mas então uma pessoa pode fazer-se titular da conta de outra pessoa...?'. Ela ficava em silêncio. Depois dizia: 'Mas tu e a Elita não combinaram fazer-se titulares da minha conta? Ela disse-me que sim.'. Ele fazia-me sinal de que a paranoia dela começava a manifestar-se e retorquia: 'Ah foi? Ela disse-te isso? Mas como é que fazíamos isso sem a tua permissão?'. Silêncio. Ele contra-atacava: 'Mas não foi o Banco que te pediu uma assinatura minha para eu te autorizar a ti a movimentares a tua conta?'. Silêncio dela. Depois, como se já estivesse cansada: 'Eu não estou é a perceber já nada desta conversa...'. Ele concordava: 'Pois, também me parece que essa conversa não tem grande sentido, não.'. Ela ficava em silêncio, ouvia-se a respiração. Depois voltava: 'Mas então tu e a Elita não se fizeram titulares da minha conta?'. Ele começava a agastar-se: 'Olha, não vais volta ao mesmo, pois não? E era só isso? Como pelos vistos estás a fazer confusão, vai lá esclarecer melhor. Eu agora não me dá jeito, estou no carro.'. Silêncio. Depois: 'Ah, estás a conduzir... Então vê lá... Tem cuidado. Mas olha, quando chegares, depois liga-me que é para combinarmos.'. E ele já farto: 'Mas combinarmos o quê?'. E ela: 'Então, vires assinar o documento que o banco pediu.'. Ele: 'Mau... Outra vez...?'. E ela, a suspirar: 'Já estás outra vez impaciente, não se pode falar contigo. Não vês que tenho que esclarecer isto? Julgas que não percebo que já estás a despachar-me?'............

E isto poderia durar quase a viagem inteira, ele a querer desligar e ela a prendê-lo, em loop.

Solteira, sem irmãos, sem pais, apenas com dois primos. Professora do ensino secundário, a maior parte do tempo de baixa, com vários surtos psicóticos, os vizinhos a chamarem a polícia com o barulho que ela fazia supostamente a matar bichos que a queriam atacar. Com duas casas muito bem situadas, requintadamente mobiladas, com obras de arte valiosas, tudo herança dos pais, supostamente com uma conta bancária recheada. Segundo o meu amigo, para entrar em casa dela só de luvas e máscaras. Não limpava as casas nem queria lá ninguém, sempre a achar que todos a queriam roubar. De facto, ele e a prima Elita já tinham falado com ela algumas vezes que era melhor ela ter acompanhamento médico, ter alguém em casa a ajudá-la, que seria mais seguro que alguém mais pudesse também ter acesso à conta, talvez um advogado para ela não desconfiar que eles, os primos, queriam roubá-la. Nunca quis nada. Por duas ou três vezes a polícia levou-a para o hospital e ela deu o contacto dos primos. Lá chegados, encontraram-na a simular uma lucidez que não lhe conheciam. Dizia-me ele: 'Os malucos parecíamos nós, eu e a minha prima Elita'. Dizia também que dela queriam era distância pois estava sempre a insinuar que eles a queriam roubar, tinha chegado a dizer que já tinha apresentado queixa deles.

Mas, dizia-me ele: 'Se a vir, não diz. Vê-se que não anda muito bem arranjada, mas parece assim uma senhora fina, uma aristocrata um pouco alternativa, e consegue manter uma conversa completamente normal, disfarça completamente'.

E tive uma que trabalhava numa das minhas equipas, e cheguei a falar aqui dela, que nunca foi boa da cabeça, mas que chegou a um ponto que começou a ser ameaçadora, os meus colegas já temiam pela minha segurança, já me diziam para eu ter cuidado com ela. Sempre que podia, punha-se virada para mim, a olhar-me fixamente, com ar ameaçador. Chegou a entrar-me no gabinete uma vez que fiquei sozinha naquele piso, a trabalhar até tarde. Quando lhe perguntei o que estava ali a fazer, fez um sorrisinho maligno: 'Não tenha medo, não vou fazer-lhe mal.' E ficou ali a olhar para mim. Mas, ao mesmo tempo, com as pessoas com quem não tinha interacção directa, fazia-se de muito querida, fazia bolos e bolachinhas para oferecer aos colegas, desfazia-se em mesuras com toda a gente. E, no entanto, a nível pessoal a sua vida era uma complicação. Por exemplo, empreendeu que o irmão queria roubar os pais, empreendeu que o irmão tinha feito com que os pais a prejudicassem a ela, apresentou queixa na esquadra contra o irmão, o que levou o pai a cortar relações com ela, engendrava coisas surreais para virar a mãe, já meio demente, contra o irmão. E, a nível profissional, cometeu erros gravíssimos pelos quais responsabilizou outras pessoas, promoveu campanhas de vitimização e, ao mesmo tempo, de culpabilização dos colegas. Nem sei. Conseguiu que todos os colegas directos se incompatibilizassem com ela e que em alguns locais proibissem a sua entrada. Para eu me ver livre dela foi o cabo dos trabalhos. Finalmente, por acharmos que era um caso social, conseguimos mantê-la mas em funções inócuas, em que, na prática, não tinha que interagir com ninguém (pois já toda a gente queria distância e alguns já tinham medo dela), nem havia risco de causar danos com os seus erros. Já eu não estava lá quando soube que a mãe tinha morrido e que, no dia seguinte, apareceu lá, cabelo pintado de uma cor arrojada, vestida de um colorido exuberante e que ria e contava piadas por todo o lado, sem ninguém saber como reagir perante tão insólita reacção. 

Isto para dizer que muitas vezes se subestima o risco que pessoas assim podem representar para os outros. Num momento de paranoia, num surto psicótico, podem atacar alguém. Muitos dos que acabam a cometer crimes já antes tinham dado sinal de que a sua estabilidade mental e emocional não existia. 

O episódio que aqui partilho é disso exemplo.

O homem que perdeu a liberdade antes de ir para prisão | Do Outro Lado

O psiquiatra Sérgio Saraiva lembra o momento em que um doente percebeu que tinha cometido um crime violento. O caso mostrou-lhe, na prática, como a doença mental grave pode anular a vontade própria.


Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, maio 04, 2026

Quanto custa despedirmo-nos de árvores?

 

Esta tarde estiveram cá uns rapazes ágeis, cheios de força e determinação. Quase conseguiram levar a cabo a tarefa de derrubar todos cedros grandes que estavam tombados. 

Antes, um deles já tinha vindo sozinho, durante dias, e já tinha cortado um deles que estava totalmente caído, a obstruir um dos caminhos, e também uns três ou quatro pinheiros muito altos e secos, um cedro que inexplicavelmente também secou (e que ainda não tinha atingido um porte gigante), um outro que estava bem vivo mas muito tombado, apenas sustentado por outras árvores, pernadas grandes de pinheiros e de aroeiras que se tinham partido. Mas a tarefa de hoje era a pior: cedros enormes, muitos metros de altura, possantes, uma ramagem compacta de alto a baixo -- e inclinados pelo vento, quase a cair.  Tudo fruto da depressão Kristin.

E, entre os dois, conseguiram dar conta de quatro. A complexidade maior, para além da envergadura e do risco de lhes cair em cima, é que estavam entre muretes e em volta de uns muros/bancos forrados a azulejos que importava preservar.

Conseguiram. Mas ainda há muito trabalho pois, para cada um, o grande torrão composto por terra, raízes e parte do tronco, ainda está intacto, um volume compacto, pesado --- e entre muros. Ou seja, um tractor não consegue lá chegar. 

E, para além disso, agora há troncos por todo o lado, ramagens e mais ramagens. 



No fim, teremos que pedir a alguém para cá vir levantar tudo isto. Das ramagens talvez façamos uma queimada. Já estamos registados no portal das queimas e queimadas e solicitamos aprovação. Talvez a família se junte, os meninos gostam de ver a grande fogueira que, em dias assim, se forma. O resto será lenha que alguém um dia consumirá. Nós já não temos onde acondicionar mais. O meu marido já transportou muitos troncos cortados para o telheiro da lenha.

Falta ainda o cedro mais complicado, talvez o mais alto, o maior de todos, que está entre painéis de azulejos. Nem quero pensar. Vê-se da nossa casa, faz parte da paisagem directa, não precisamos de ir passear para lá para o vermos. 

Isso será feito de seguida. Não quero ver.

Destes que já foram abatidos, enquanto os rapazes lá andaram, mantive-me em casa. Ouvia as serras a cortarem em contínuo. Só fui quando se foram embora. 

Uma desolação inexplicável. Onde antes havia uns vultos gigantes, frondosos, cheirosos, há agora o vazio e restos de troncos espalhados por todo o lado. 

Tento abstrair-me, não dramatizar, pensar que acontece. Aconteceu connosco e com tantas pessoas e muito mais grave que nós. Tivemos sorte. Bem sei. 

Mas também sei que antes de ir trabalhar, muito cedo, ia aos viveiros, escolhia as arvorezinhas, depois plantava-as, depois regava-as todas as semanas, fazia uma protecção em volta para o vento não os perturbar, para os coelhos não os comerem. Até que vingassem, tratei deles com cuidado e amor. Anos. Depois senti-me orgulhosa quando os vi, adolescentemente a deitarem corpo, espigados, a crescerem todos os dias. Finalmente, senti orgulho por serem tão fortes, tão belos, a darem aquela sombra com que tanto sonhei, a exalarem a frescura que tanto me reconforta. 

E agora tivemos que os abater.

É a vida, é a natureza. 

E foi também a nossa ingenuidade e impreparação. Sempre adorei cedros e nunca me passou pela cabeça que os cedros não fossem o tipo de árvore mais adequado a um lugar como este. Só depois disto soube que os cedros não enraízam em profundidade, em especial se o terreno é pedregoso. Quando pequenos, de facto deitam raízes para baixo mas, com a idade, quando atingem alturas grandes, estendem as raízes na horizontal. E com o vento a fazer o efeito de vela e as terras molhadas, empapadas, não houve pressão subterrânea para os aguentar. 

Fica a aprendizagem. E fica a memória da sua beleza quando estavam majestosos. 


De qualquer forma, não acabo sem responder à pergunta que formulei no título: Quanto custa despedirmo-nos de árvores?'. Custa muito.

domingo, maio 03, 2026

Vou reincidir, claro que vou. Agora numa era em que não vivemos sem telemóveis.

 

Não vou a um cinema há já algum tempo. Perdeu a mística. Em vez de cheiro a cinema, cheira a pipocas. 

E os cartazes dos filmes já nada me dizem. Muita imagem de violência, de bonecada. Olha-se para aquilo e adivinha-se a chinfrineira, perseguições, derrapagens, violência, gente a saltar de prédios, ou seres do outro mundo, monstros, zombies, macacadas. E eu gosto de filmes normais, com uma história como deve ser, e com sossego, sem um ruído que fira as sensíveis membranas dos meus tímpanos e sem imagens que firam a minha inteligência e a minha sensibilidade.

Durante muitos anos, não perdia um bom filme. Era daquelas experiências imersivas que me cobriam de prazer estético e intelectual.

Mas não aprecio apenas os filmes assentes em obras literárias de boa qualidade, aprecio também filmes de humor, comédias ligeiras, vitaminas de boa disposição.

O Diabo veste Prada foi desses filmes ligeiros, bem dispostos, com um conjunto de boas interpretações, com um figurino de se lhe tirar o chapéu, e em que a coesão de tudo carimbava o sucesso garantido.

Como ontem aqui referi, duas décadas decorridas é com expectativa que vejo que os mesmos actores voltaram a juntar-se para se divertirem e nos divertirem a nós.

Diz Meryl Streep, na conversa que abaixo partilho, que, vinte anos depois, este é um mundo novo. A prevalência das comunicações instantâneas, o telemóvel como parte integrante da nossa forma de viver, com tudo o que esse objecto comporta, torna, hoje, difícil perceber como conseguíamos viver sem ele.

Conseguíamos.

Mas com severas limitações - reconheçamos.

As situações de atrapalhação de que mais me recordo por não ter como me comunicar prendem-se com aeroportos. E peço desculpa aos que me acompanham há mais tempo mas vou repetir-me.

Uma aconteceu numa era em que já os havia de forma permanente mas em que, por distração pura ou, melhor, por ainda ser um hábito relativamente recente e ainda não era normal tomarmos logo nota dos números uns dos outros, não tomei nota do número de nenhum dos que estavam comigo na viagem.

Tínhamos feito escala em Bruxelas e, não dando tempo de ir à cidade mas sobrando tempo até à hora de embarque, resolvemos dar uma volta pelas lojas. Entrámos na mesma, e creio que éramos três ou quatro, já não me recordo ao certo. Como sempre, perdi-me nos perfumes, talvez também nos chocolates. O que sei é que, quando fui pagar, já não os vi. Não me preocupei, pensei que estariam lá fora à minha espera. Não estavam. Mas ainda era cedo. Fui dar outra volta, tinha tempo. Passado um bocado, ouvi chamar para o voo e fui andando. Pensei que estariam na salinha junto à porta de embarque. Não estavam. Dei uma volta por ali a ver se os via. Nada. Pensei: 'Não iam entrar sem esperarem por mim...'. Voltei para trás, outra vez pelas free shops. E se aquele aeroporto é grande e uma barafunda de gente... Nada, desaparecidos. Só pensava que eles deviam estar como eu, a ver se me descobriam. E eu sem poder contactá-los. Por fim, já a última chamada. Pensei: 'Não vou perder o avião.'. Mas depois pensava: 'E se me meto no avião e eles ficam no aeroporto à minha procura?'. Fiquei ali mesmo atarantada sem saber o que fazer. Até que, in extremis, resolvi mesmo entrar.

Mal entrei no avião, vi-os. Fizeram de conta que não estavam ansiosos a pensar que eu ficar em terra. Sentei-me ao lado deles, como se não fosse nada. E eles nada me disseram, também como se nada se tivesse passado. Só depois soube que, na primeira loja, tinham deixado de me ver, pensaram que eu já tinha saído da loja sem esperar por eles. E que nunca mais me tinham posto a vista em cima.

Parece uma história ridícula nos dias de hoje, em que obviamente toda a gente se contacta com toda a gente a toda a hora.

Mas a pior situação aconteceu em Londres (e já a contei mais que uma vez pois foi quase traumática), longe ainda de se sonhar que um dia existiriam telemóveis e que ficaríamos dependentes deles. Tínhamos voo para cá a seguir ao almoço. Era eu e dois colegas. Eu, como sempre, queria trazer roupinhas para os miúdos. Era o tempo da Mothercare e eu adorava aqueles modelos, aqueles tecidos, uns veludos muito macios, uns impermeáveis muito alegres, aquelas cores. Dali, ainda fui espreitar o Marks & Spencer mas só por ir, porque nunca fez o meu género, parecia-me tudo roupa à velha e se nem agora eu gosto de me vestir à velha, imagine-se naquela altura. Ou seja, só lá fui perder tempo. Depois fui até à Selfridge para trazer uns brinquedos. Entretanto, havia a feira de artesanato afegão com carpetes maravilhosas. Trouxe uma grande e um tapete normal, ambos bordados à mão, motivos muito ingénuos, numas cores muito lindas. Por fim, tal o volume e o peso dos sacos, já não conseguia quase andar. Tinha combinado encontrar-me com eles em Westminster. E era suposto irmos à catedral, dar uma volta por ali, almoçarmos, e irmos para o aeroporto. Mas, carregada como estava, era impossível fazer aquele programa, carregada com a minha mala e mais com todos aqueles sacos e sacos, alguns ultrapesados. Portanto, não apenas não levantei a minha mala como também deixei essas compras no hotel. Pensei que, se fosse preciso, comia uma coisa rápida ao almoço para ter tempo de ir ao hotel e do hotel para o aeroporto. Mas isto já a stressar e a correr. Deixei a carga e meti-me no metro. Saí na estação, fui andando aceleradamente e, às tantas, perguntei a uma pessoa se Westminster ainda era longe. A pessoa respondeu-me, devolvendo-me uma pergunta: 'Westminster Abbey ou Westminster Cathedral?'. Ainda me lembro bem do calafrio. Se tínhamos combinado qual era, eu não me lembrava. Não fazia ideia. Lembrei-me de perguntar a essa pessoa qual a mais conhecida. Pergunta estúpida, claro, são ambas. Não me recordo da resposta. Só sei que lá fui, numa pilha de nervos. Se não os descobrisse, o que fazia? Quando me aproximei, uma multidão. Nestas coisas, a minha aflição nem era tanto eu ficar perdida deles pois sabia o caminho para o hotel e sabia como ir do hotel para o aeroporto -- era, sobretudo, pensar na preocupação que ia causar-lhes a eles, sem saberem de mim e sem saberem se deveriam embarcar para Portugal, possivelmente deixando-me para trás, em Inglaterra. Reparem: sem termos como nos comunicar! Mas os deuses protegem-me e, no meio daquela barafunda de turistas, eis que os vejo a eles, tranquilamente conversando um com o outro enquanto olhavam a ver se me viam. 

Claro que eles já estavam com a sua pequena valise, sem compras nenhumas, prontos para dali seguirem para o aeroporto, e eu ali estava sem mala nenhuma. Já contei antes que o esforço que fiz depois para, sozinha, conseguir carregar aquilo tudo é algo que não esqueço. Pensei que fisicamente o meu corpo não conseguia. Nem era os meus braços não terem força, era mesmo o meu coração não aguentar. Quando olho para a carpete de lã, pesada, que ainda hoje aqui está no activo, mais o tapete também de lã, penso que só isso já era obra. Agora em cima desse peso enorme, casacos e casaquinhos, calças e calcinhas, camisolas e camisolinhas, brinquedos e ainda mais a minha mala, nem sei mesmo como consegui. Só que não podia parar e descansar pois eles já tinham ido para o aeroporto e eu ainda andava naquelas bolandas a ter que lá chegar, quase sem conseguir dar passo. E a não conseguir combinar com eles irem esperar por mim à porta para me ajudarem. Nada. Incontactáveis.

Por isso, de facto, viver num mundo em que toda a gente se comunica, por voz, por escrito ou por imagem, com toda a gente, é uma vivência tão radicalmente oposta à que era antes que creio que já nem dá para acreditar.

Seja como for, resumindo e concluindo, e pedindo-vos desculpa por me ter desviado tanto, claro que será de gosto que irei ver O Diabo veste Prada, 2.

O elenco de ‘O Diabo Veste Prada 2’ reflete sobre o original.

Meryl Streep, Anne Hathaway, Stanley Tucci e Emily Blunt falam sobre a sequela de "O Diabo Veste Prada" e o que é preciso para ser a chefe.


Desejo-vos um belo dia de domingo
E para quem é mãe, um dia muito feliz. Para quem não é, um dia igualmente feliz.

sábado, maio 02, 2026

Não é por nada mas, cá para mim, ela tem pacto com o diabo para se manter como se mantém...

 

Acho que a primeira vez que a vi foi no Kramer contra Kramer, num cinema pequeno, aqueles cinemas-estúdio, que ficava encavalitado creio que na Estação dos Restauradores. Tenho ideia que havia uma escada num dos lados. Será que estou enganada? Acho que não, que havia ali um cinema. O filme era muito bom, ela e o Dustin Hoffmann numa terrível disputa pela guarda do filho. Também me lembro dela num filme que me marcou, com uma componente literária como agora já é raro, A Amante do Tenente Francês. E o tocante, tocante A escolha de Sofia

Meryl Streep sempre extraordinária. Fugindo aos cânones da beleza mais formal, Meryl sempre se impôs pela contenção, pela naturalidade, pela forma como se confunde com as personagens que representa, encarnando-as. 

E, ao mesmo tempo, num registo sempre de grande simplicidade e espontaneidade, sem medos ou meias palavras, sabe fazer valer a sua presença e a sua voz para se posicionar ao lado da democracia, da liberdade, do respeito pelos direitos humanos. 

Nesta entrevista  -- com o sempre-alvo-a-abater (pela família Trump, essa familiazinha de horrores) Jimmy Kimmel --, quando disse que o primeiro filme O Diabo Veste Prada já tem 20 anos fiquei parva. 

20 anos? Já passaram 20 anos? Como assim? Lembro-me tão bem de ver o filme numa sala de cinema. E lembro-me de apreciar como a personagem representada pela Anne Hathway evoluiu na forma de se vestir e lembro-me de pensar que a minha filha também deveria ficar lindamente com aquelas roupas. 

É chiché, claro, mas, caraças, o tempo passa mesmo a correr. Vinte anos...

Agora uma coisa também posso dizer: estou como ela quando me perguntam a idade dos meus netos, tenho que pensar para não me enganar, pois, como ela refere, estão sempre a fazer anos e estragam-nos a carreirinha que tínhamos fixado. Não há muito, quando perguntei a uma conhecida com quantos anos estavam os netos, respondeu prontamente: 'Há muito tempo que desisti... não faço ideia...'. Depois ficou a pensar e disse que achava que o mais novo tinha seis e o mais velho dezoito e que, portanto, os outros onze andavam pelo meio. Tinha desculpa, são muitos. O mais engraçado foi o avô do meu genro que, quando lhe perguntei quantos bisnetos tinha, se riu e disse que não fazia ideia, que estavam sempre a nascer. Acho que alguém disse que já deviam ir em trinta e tal. Nesse caso nem eram as idades, era mesmo a quantidade de bisnetos.

Mas deixo-vos com a entrevista e com o bom humor e a genuinidade de Meryl Streep. E reparem como se mantém bonita, elegante, jovial. O diabo não apenas veste Prada como a tem poupado.

Meryl Streep fala sobre a excitação com O Diabo Veste Prada 2, ligar a Lady Gaga e ser avó

Meryl fala sobre homenagear Stanley Tucci e Emily Blunt na cerimónia de entrega das suas estrelas no Passeio da Fama em Hollywood, ser a maior queixosa do mundo, ter seis netos, ser um pouco como Miranda Priestly como avó, ler-lhes Harry Potter, imitar sotaques quando se fala com as pessoas, O Diabo Veste Prada 2, a expectativa mundial pelo filme, ligar a Lady Gaga para lhe perguntar se participaria no filme e se gostaria de ser presidente algum dia.

sexta-feira, maio 01, 2026

Como compara o estado da Saúde em Portugal com o de alguns outros países?

 

Durante grande parte da minha vida, o tema da Saúde não era crítico. Primeiro, era jovem, respirava saúde. Depois, nas empresas em que trabalhava havia médico em permanência que só não era médico de família pois só nos tratava a nós e não ao resto do agregado familiar. A seguir vieram os seguros de saúde que, por sorte, eram muito generosos. Até há pouco tempo, não havia copagamentos, estava tudo coberto. Portanto, não frequentávamos o SNS.

Quando nos reformámos, de uma forma muito natural para nós, subscrevemos, cada um de nós, um seguro de saúde. Mas deparámo-nos com a dificuldade da nossa idade. Muitas seguradoras não fazem seguros para a nossa idade e as que fazem levam muito caro.

De qualquer forma, resolvemos virar-nos para o SNS. Já aqui falei disso. Quando vamos à consulta, gostamos. Gostamos do médico de família que nos calhou na rifa. Mas ainda estamos no Centro de Saúde correspondente à casa em que vivíamos. Tentámos mudar para o nosso município mas não há vagas. Aconselharam-nos a ficar onde estamos. 

Mas a dificuldade está em conseguir consultas. Não sendo urgente, contentamo-nos com o facto de apenas termos consulta para daí por uns quatro ou cinco meses. Se quisermos ir mostrar os exames que forem prescritos, só para a próxima. Se houver uma situação urgente, sujeitamo-nos a que a Saúde 24 concorde que é urgente e nos marque uma consulta, e aí calhamos com um médico qualquer. Da segunda vez em que isso aconteceu, deu com uma jovem que parecia amedrontada, e que era inexperiente e muito 'atada'. Não percebeu o que se passava, não soube questionar, e eu, com pena dela, vim-me embora apesar de constatar que ter ido lá ou não ter ido era a mesma coisa.

Além disso, não há consultas de ginecologia, de reumatologia, de cardiologia, de dermatologia, de oftalmologia... etc... a menos que a situação seja tão grave que o médico de família referencie para o hospital. Já me aconteceu com o oftalmologista, não é uma situação grave mas a precisa de acompanhamento. Só tive consulta ao fim de muitos meses, já não sei ao certo mas se calhar quase um ano. Mas consultas de rotina, de prevenção, isso não há.

E ainda há outro problema. Se o médico prescreve alguns exames, uma simples mamografia ou osteodensiometria, começa o calvário de descobrir um sítio onde fazer com protocolo com SNS. Só há sítios privados mas praticamente nenhum tem protocolo. E o que tem, está tão cheio que só há vagas para daí por uns meses. Ou seja, se quiser fazer exames em tempo útil, só pagando.

Depois de toda a vida andar a descontar pela medida grossa, taxada forte e feio para o IRS, constato que o que, agora, recebo em troca é escasso e de difícil acesso.

Contudo, o que se ouve é que o SNS sai cada vez mais caro, há sempre necessidade de lá injectar mais dinheiro.

Para poder situar-me, ou seja, ver as coisas em perspectiva, voltei a questionar o Gemini, e , sempre, pedindo análises comparativas. 

Abaixo as suas respostas a algumas questões. O que obtive e que compilei num documento é muito mais mas não quero tornar isto aqui excessivamente longo.

Devo ainda dizer que, como já aqui referi várias vezes, tenho familiares que, a nível profissional, vivem, por dentro, o assunto da Saúde. E a opinião é que, em Portugal, o que há a fazer é fazer de novo. O SNS é uma boa ideia mas descambou, está mal gerido, neste momento já está mal pensado. 

Sem ortodoxias e pensando apenas no bem da população, muito há a fazer. O presidente Seguro, que fez da Saúde uma das suas bandeiras, deveria impor 'mente aberta' a quem vier a tentar fazer alguma coisa a nível do pacto de regime que ele quer patrocinar. Para já, a escolha do Adalberto parece-me um tiro ao lado, uma oportunidade perdida. Mas vamos ver.

(A ver se não é o do costume. Perdemos tempos infinitos a partir pedra, a atirar bolas para o pinhal, a pentear macacos, a olhar para ontem, a capinar sentados,... e tomar decisões a sério e melhorar as coisas está quieto). 

Mas, vá, a palavra ao Gemini.

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Esta é uma das questões mais críticas da gestão pública e onde a desinformação abunda. Para comparar Portugal com países de referência, é preciso olhar para três pilares: quem paga, como se acede e o que está incluído.

Em Portugal, o sistema é de base fiscal (Beveridgiano), inspirado no modelo britânico. No entanto, o SNS português tem "buracos" cobertos quase exclusivamente pelo setor privado e social, o que não acontece da mesma forma noutros modelos.

Aqui está a comparação rigorosa:

1. Modelos de Financiamento e Custo

País

Modelo

Como é Financiado?

O que o cidadão paga (direto)?

Portugal

SNS

Impostos gerais.

Taxas moderadoras (atualmente quase extintas) e 100% no privado se não houver convenção.

Alemanha

Bismarck

Seguro social obrigatório (desconto direto no salário, partilhado entre empregado e patrão).

Pequenos copagamentos por internamento ou medicamentos.

Suíça

Seguro Obrigatório

Seguros privados obrigatórios por lei. O Estado subsidia quem tem baixos rendimentos.

Franquias anuais (o cidadão escolhe quanto quer pagar do bolso antes do seguro ativar).

EUA

Misto/Privado

Seguros via empregador ou individuais. Medicare (idosos) e Medicaid (pobres).

Praticamente tudo tem custos elevados (copagamentos e franquias) até atingir um teto.



2. A Especialidade e o Ambulatório: O fosso português

Portugal tem uma característica quase única: a separação rígida entre Centros de Saúde (Primários) e Hospitais (Especialidades).

  • Na Alemanha e Suíça: Não existe esta barreira. Um ginecologista ou um reumatologista têm consultórios de rua (ambulatório) que atendem pelo seguro obrigatório. O cidadão vai diretamente à especialidade no "consultório da esquina" e o seguro paga. Não há a necessidade de ir ao hospital para uma consulta de rotina de especialidade.
  • Em Portugal: O SNS "empurrou" as especialidades para dentro dos hospitais. Como os hospitais estão sobrecarregados, o cidadão é forçado ao privado.

3. Exames e Diagnóstico: A caça ao protocolo

Em Portugal o Estado não investiu em centros públicos de diagnóstico (Ressonâncias, TACs).

  • A falha: O SNS depende de "cheques" para o privado. Se o valor que o Estado paga às clínicas é baixo, elas deixam de aceitar o SNS, restando apenas os seguros ou o pagamento integral.
  • Comparação Nórdica (Dinamarca/Suécia): Os centros de saúde e hospitais públicos têm os seus próprios equipamentos de ponta. O cidadão faz o exame onde teve a consulta, sem "andar com a requisição na mão" à procura de quem a aceite.

4. O Problema da Idade e os Seguros

Este é o ponto mais dramático.

  • EUA: Após os 65 anos, entra o Medicare. É um sistema público para idosos, porque o mercado de seguros privados os abandonaria ou cobraria preços impossíveis.
  • Alemanha/França: Como o sistema é baseado em descontos sobre o rendimento (ou seguros sociais que não podem excluir por idade ou doença pré-existente), o valor que se paga aos 70 anos é proporcional à reforma, não ao risco de saúde.
  • Portugal: Como o SNS falha na resposta rápida (especialidades e exames), o idoso fica refém de seguros de saúde. Estes funcionam por risco: acima dos 65 anos, o prémio sobe exponencialmente ou o seguro simplesmente não é renovado. É uma exclusão de mercado que o SNS deveria, por desenho, proteger, mas não consegue por falta de capacidade operacional.

5. Saúde Oral (Dentistas)

Este é o "parente pobre" de quase todos os sistemas, mas com diferenças:

  • Alemanha: O seguro obrigatório cobre grande parte da medicina dentária básica.
  • Portugal: A cobertura pública é quase nula (os "cheques dentista" são muito limitados). É o setor onde o gasto direto das famílias é maior.

Síntese do Cenário

Portugal tem um sistema que é teoricamente generoso (cobre tudo no papel), mas operacionalmente incompleto (faltam dentistas, ginecologia -- e outras especialidades -- de proximidade e meios de diagnóstico próprios).

Ao contrário da Suíça, onde o sistema é caro mas funciona em todo o lado, ou da Alemanha, onde a especialidade está na rua, Portugal criou um sistema onde quem tem mais de 55 anos e não tem um subsistema (como a ADSE) ou rendimentos para um seguro proibitivo, fica numa zona de perigo: tem direito ao SNS, mas não tem acesso em tempo útil.

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PaísMédicos (por 1.000 hab.)Enfermeiros (por 1.000 hab.)Rácio Enf/Méd
Portugal5.67.41.3
Alemanha4.513.93.1
Suíça4.418.44.2
Noruega5.218.03.5
EUA2.712.04.4

O rácio médico/enfermeiro é a "chave do cofre" que a maioria dos debates políticos em Portugal ignora. A diferença abismal no número de enfermeiros nos sistemas de Saúde não é apenas uma questão de quantidade; é uma diferença radical de conceito de profissão e de organização do trabalho.

Em Portugal, a estrutura ainda é muito vertical e "doutor-centrada". Noutros países (Nórdicos, Suíça, Holanda, Reino Unido), a enfermagem é o motor operacional do sistema.

Aqui estão as diferenças fundamentais nas valências e no que eles fazem:

1. Autonomia Clínica (Prescrição e Diagnóstico)

  • Noutros países (ex: Holanda, Reino Unido, Suécia): Existem os chamados Nurse Practitioners (Enfermeiros de Prática Avançada). Eles têm autonomia para prescrever medicamentos de rotina, passar baixas médicas simples e pedir exames de diagnóstico (análises, radiografias).
  • Em Portugal: O enfermeiro, por mais experiente que seja, está legalmente impedido de prescrever até um paracetamol ou de pedir uma análise básica. Tudo tem de passar pela assinatura do médico, o que cria um "gargalo" administrativo e obriga o cidadão a esperar por uma consulta médica apenas para uma renovação de receita ou um penso de rotina.

2. Gestão de Doenças Crónicas

  • Noutros países: Se tens diabetes, hipertensão ou asma, o teu "gestor de saúde" é o enfermeiro especializado. É ele que ajusta a dose de insulina, que faz o controlo da tensão e que decide se precisas de ver o médico (o médico só entra se houver uma complicação).
  • Em Portugal: O enfermeiro faz a medição, mas a decisão terapêutica é quase sempre empurrada para o médico. Resultado: as agendas dos médicos de família estão entupidas com doentes crónicos estáveis que poderiam ser perfeitamente geridos por enfermeiros.

3. O "Giro" de Bairro (Cuidados Domiciliários)

  • Noutros países (ex: Dinamarca): Há uma rede massiva de enfermeiros que se deslocam a casa dos idosos para fazer tudo: desde a gestão da medicação até à pequena cirurgia de enfermagem. Isto evita que o idoso vá à urgência.
  • Em Portugal: Como há poucos enfermeiros (lembra-te do rácio 1.3 para 1, enquanto na Noruega é quase 4 para 1), eles não têm mãos para sair do Centro de Saúde. O domicílio é residual. O idoso, sem apoio em casa, acaba por chamar o 112 e ir parar à urgência do hospital, sobrecarregando o sistema.

4. Gestão Hospitalar e Triagem

  • Noutros países: Os enfermeiros gerem as altas hospitalares, a logística dos quartos e a coordenação das equipas de forma muito mais autónoma. Em muitos hospitais americanos ou suíços, o "Chefe de Unidade" é um enfermeiro com poderes de gestão financeira e de recursos humanos sobre a sua ala.
  • Em Portugal: O enfermeiro tem um papel muito mais executivo ("cumprir a ordem médica") do que coordenador.

Por que razão a diferença é tão grande (em números)?

Se o trabalho fosse o mesmo, não seriam precisos tantos. A diferença numérica existe porque esses países transferiram tarefas do médico para o enfermeiro.

  1. Custo-Eficiência: Um enfermeiro especializado é um recurso altamente qualificado, mas o seu custo salarial e de formação é inferior ao de um médico. Ao ter muitos enfermeiros com valências elevadas, o sistema resolve 80% dos problemas de forma mais barata e rápida.
  2. Sobrevivência do Sistema: Países com populações muito envelhecidas (como a Suíça ou a Alemanha) perceberam que o médico não pode estar em todo o lado. Se não tivessem este exército de enfermeiros, o sistema colapsava em 24 horas.

Em Portugal, o cenário é este: Temos médicos a fazer trabalho de enfermeiro (burocracia, renovação de receitas, triagem básica) e enfermeiros a fazer trabalho de administrativo (registos informáticos excessivos, logística de material).

Conclusão: A diferença não é apenas "ter mais braços". É que noutros países, o enfermeiro é um parceiro clínico do médico; em Portugal, o sistema ainda o trata, muitas vezes, como um auxiliar técnico.Em Portugal estamos a usar mal o potencial da profissão. Sem dar autonomia (valências) aos enfermeiros e sem triplicar o seu número, o SNS nunca deixará de ser um "sorvedouro".

quinta-feira, abril 30, 2026

Será o Montenegro o Orbán cá do burgo? E o Andrézito é um brincalhão do caraças? E o MP não se interna voluntariamente Rilhafoles?
-- A palavra ao meu marido --

 

Talvez alguns tenham ficado surpreendidos com o apoio objetivo dado por Montenegro a uma repescagem de Putin. Para mim não é surpresa. O Montenegro faz parte da direita com pendor populista que em grande parte está ao lado do Putin e o quer ver regressar, com alguma pompa e circunstância, aos palcos internacionais. Depois do Trump fazer todos os possíveis para dar protagonismo ao Putin, eis senão quando vem o Montenegro, antes de haver concertação europeia nesse sentido, apoiar o Trump e antecipar-se à maioria dos nossos parceiros europeus, seguindo as pisadas do tipo responsável pela enormíssima e perigosíssima crise em que o mundo está mergulhado. Será que temos um novo Orbán na Europa? O PM português? Ainda não chegou aos extremos do húngaro mas segue os passos do Trump, revela-se defensor da re-inclusão de Putin nas plataformas decisórias, já aprovou com a extrema direita as leis da nacionalidade e da imigração, já revelou enorme falta de respeito pela verdade e pelas instituições e já atacou bastas vezes a comunicação social. De facto, isto é apenas a cereja em cima do bolo. Para além de seguirmos a política de bar aberto relativamente à utilização das Lajes pelos americanos, ainda temos o Montenegro a defender que o Putin volte a ser considerado na cena internacional.

Parece que o Andrézito definiu hoje a linha vermelha para aprovar o pacote laboral. Embora se possa admitir, atendendo à habitual coerência do rapaz, que a linha vermelha hoje definida amanhã muda de cor, dizer que só aprova o pacote se a idade da reforma descer é de mestre. Esta não lembrava ao mais pintado. O Montenegro até deve ter batido três vezes com a cabeça na parede para ver se alucinava de vez. Não há nada tão reconfortante como ter o Andrézito como parceiro, não é Luís?

Hoje o tribunal, por unanimidade, decidiu absolver o Rui Pinto considerando que o julgamento era inválido e inconstitucional e que o MP tinha violado as garantias de defesa do réu. Será possível que o MP ainda desça mais fundo? Os procuradores deviam ser internados em Rilhafoles e punidos por incompetência e desbaratamento do erário público. O PGR devia demitir-se, emigrar e ir pentear macacos para o meio da selva. Ou melhor ainda: fazia um trio com os dois acima referidos e iam contar osgas para a Conchichina. Isso é que era!

quarta-feira, abril 29, 2026

Em Portugal o ascensor social está mesmo bloqueado? Como desbloqueá-lo? Como fazer crescer o País e a confiança das pessoas?

 

Há pouco, ao fazer uma pesquisa a mails antigos, encontrei uma fotografia de um menino talvez com cerca de um ano, dá ideia que estava a levantar-se sozinho mas ainda com cautela. O primeiro dos meninos, um fofo, espertíssimo. Muito pequenino e já dizia coisas que revelavam a sua inteligência. O tempo passa. Não tarda faz dezoito anos. E, como ele é e com a abertura que revela a conhecer novos mundos, temo que se sinta impelido a ir para fora. Com a minha menina temo o mesmo: é independente, gosta de abrir asas, é voluntarista. Se souber de oportunidades que não identifique por cá pode passar-lhe pela cabeça ir experimentar a sua sorte lá fora.

Há isto, em especial no mais velho, de achar que por cá não vai ter facilidade em conquistar a autonomia, em ganhar dinheiro para ter a sua casa e a sua vida.

E, na realidade, há um sentimento na classe média (e, mais ainda, na classe mais baixa) de que ninguém consegue verdadeiramente progredir a menos que circule pela via da fuga aos impostos.

Face ao sentimento de uma certa impotência que se sente nos mais jovens (e fruto disso é a forma como têm votado), resolvi, uma vez mais, recorrer à Inteligência Artificial. Pretendi, também neste caso, ter uma certa análise comparativa. O que se passa para que haja esta sensação? Como compara a carga fiscal em Portugal com outros países? O que poderia ser feito para se sair desta situação?

Fui colocando questões e fui obtendo respostas. Transcrevo o que me parece interessante. Abaixo as palavras do Gemini.

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A sua análise toca no ponto nevrálgico da economia portuguesa: o fenómeno do "ascensor social bloqueado". A sensação de que a classe média é taxada como se fosse rica não é apenas uma perceção abstrata; ela tem fundamentos matemáticos claros quando comparamos o esforço fiscal com o custo de vida e a qualidade dos serviços.

Para fundamentar isto, vamos olhar para três métricas críticas:


1. A Armadilha da Progressividade Precoce

Em Portugal, as taxas elevadas de IRS (Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Singulares) começam a incidir em níveis de rendimento muito baixos comparativamente à Europa do Norte.

  • Portugal: Se ganhar 6.000€ brutos/mês, entra no penúltimo escalão (45%). O Estado trata este rendimento como "muito alto".
  • Holanda ou Suíça: Esse mesmo valor é considerado um salário de classe média ou média-baixa. Nesses países, para chegar à taxa máxima, teria de ganhar o dobro ou o triplo.
  • O Resultado: O Estado português "confisca" a capacidade de poupança da classe média antes mesmo de ela conseguir acumular capital.

2. A Dupla Tributação (O "Imposto Oculto")

O que torna a situação portuguesa única (e dolorosa) é o que chamamos de insuficiência do retorno público.

  • O Modelo Nórdico: O cidadão paga 40% de imposto, mas tem "custo zero" em saúde, educação e creches. O seu rendimento líquido é para lazer e poupança.
  • O Modelo Português: O cidadão paga 35%-45% de imposto, mas como o SNS não responde a consultas de rotina e a escola pública tem falhas de pessoal, ele tem de pagar por fora:
    • Seguro de saúde privado.
    • Consultas e exames no setor privado.
    • Explicações ou colégios para os filhos.
  • A Conta Final: Se somar o IRS (35%) + IVA (23%) + Seguros de Saúde + Copagamentos, a carga real sobre o rendimento disponível de um profissional qualificado em Portugal é, muitas vezes, superior à de um sueco ou dinamarquês, com a agravante de ter um salário base muito menor.

3. O Castigo à Poupança (Capital)

Sobre os juros sobre o capital: 28% sobre os juros. Este é um dos pontos mais críticos para a falta de liquidez:

  • Em países como a Holanda, existem isenções de impostos sobre o património até certos valores para incentivar a poupança.
  • Em Portugal, a taxa é plana e alta (28%). Para um pequeno aforrador, isto é punitivo. Se a inflação for 3% e o banco pagar 3%, o aforrador perde dinheiro após pagar o imposto, porque o Estado taxa o lucro nominal, não o real.

Estudo Comparativo: Esforço Fiscal vs. Poder de Compra

Variável

Portugal

Suíça

Dinamarca

Salário Médio Bruto

~1.500€

~6.800€

~6.200€

Taxa IRS para 3.000€

Alta (Entra no topo)

Baixa

Média

IVA (Padrão)

23%

8.1%

$25%

Retorno em Serviços

Baixo (requer privado)

Eficiente (Pago via seguro)

Muito Alto (Público)

Conclusão: É Percepção ou Realidade?

A sua análise está fundamentada. Portugal sofre de um desfasamento entre a sua estrutura fiscal (desenhada para um país rico) e a sua produtividade (de um país de rendimento médio).

O sentimento de "não sobrar dinheiro" deve-se ao facto de a classe média portuguesa estar a financiar dois sistemas em simultâneo: o Estado (via impostos) e o Privado (via seguros e serviços diretos), porque o primeiro não entrega a qualidade mínima necessária no dia a dia.

Isto cria um ciclo de estagnação: sem liquidez, a classe média não investe; sem investimento, a economia não cresce; sem crescimento, os salários não sobem.

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Nota: O sistema fiscal português atual não é obra de uma única pessoa, mas sim o resultado de uma reforma profunda ocorrida entre 1988 e 1989, que procurou modernizar Portugal para a entrada na Comunidade Económica Europeia (CEE).

No entanto, há nomes e contextos políticos fundamentais que explicam por que é que o sistema tem esta estrutura "voraz" para a classe média:


1. O "Pai" da Reforma: Miguel Cadilhe

O grande arquiteto do sistema fiscal moderno foi Miguel Cadilhe, Ministro das Finanças dos governos de Aníbal Cavaco Silva (PSD).

  • O Objetivo: Antes de 1989, Portugal tinha um sistema caótico e arcaico. Cadilhe criou o IRS (rendimento de pessoas singulares) e o IRC (rendimento de empresas), que entraram em vigor a 1 de janeiro de 1989.
  • A Inspiração: A ideia era simplificar, seguindo modelos europeus, e baixar as taxas nominais que eram altíssimas, mas que ninguém pagava porque a fuga ao fisco era generalizada.

2. A Introdução do IVA (1986)

O IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado) foi introduzido por exigência da adesão à CEE. Substituiu o antigo "Imposto de Transações".

  • O Problema: Sendo um imposto sobre o consumo, ele é cego à riqueza. O "pobre" e o "rico" pagam os mesmos 23% por um computador ou pela eletricidade. Como Portugal tem salários baixos, o IVA retira uma fatia muito maior do rendimento disponível do que num país com salários altos.

3. A "Mão" de Vítor Gaspar e a Troika (2011-2014)

Se Cadilhe criou a estrutura, foi Vítor Gaspar (Ministro das Finanças de Passos Coelho) quem "apertou o garrote" de forma definitiva durante a crise da Troika.

  • O "Enorme Aumento de Impostos": Em 2013, houve uma reestruturação dos escalões de IRS (passaram de 8 para 5), o que empurrou a classe média para taxas muito mais altas muito mais cedo.
  • A Herança: Embora os governos seguintes (PS/António Costa) tenham revertido algumas medidas e voltado a desdobrar os escalões, o nível de receita fiscal nunca baixou significativamente. O sistema habituou-se a este nível de arrecadação.

Por que é que o sistema se tornou "perverso"?

A intenção original de 1989 era boa, mas o sistema falhou por três razões históricas:

  1. Baixa Produtividade: Os legisladores criaram escalões a pensar que Portugal iria convergir rapidamente com os salários europeus. Como os salários estagnaram, o IRS que era para ser "para ricos" começou a apanhar a classe média-baixa.
  2. O Facilitismo do IVA: Como é difícil controlar a economia paralela, os governos sucessivos (de esquerda e direita) preferiram manter o IVA alto e o IRS retido na fonte. É dinheiro "fácil" e garantido para o Estado, mas retira liquidez imediata às famílias.
  3. A Máquina do Estado: Portugal mantém uma estrutura de Estado desenhada para um país rico, mas com uma economia de país remediado. Para sustentar hospitais, escolas e pensões num país envelhecido, o Estado "seca" quem ainda trabalha e produz (a classe média).

Resumo Político

  • PSD (Anos 80/90): Criou a estrutura moderna (Cadilhe/Cavaco).
  • PS (Anos 2000 em diante): Consolidou o uso do IVA e da carga fiscal para financiar o modelo social.
  • Troika (2011): Maximizou a eficiência da cobrança, eliminando quase todas as hipóteses de "respiro" fiscal.

O resultado é este sistema "Frankenstein": temos a modernidade europeia na cobrança (as Finanças em Portugal são das mais digitalizadas e eficientes do mundo), mas uma ineficiência de terceiro mundo na entrega de serviços públicos de rotina.

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O que fazer? De que reforma está Portugal precisado? 
O que poderia ser uma reforma relevante para relançar o País, para reter a nossa juventude e para atrair jovens de outros países?


1. A Reforma Fiscal: "Taxas Moderadas, Base Alargada"

Em vez de focar na idade, focamos na criação de riqueza.

  • O Modelo de 3 Escalões (Simplificação): Substituir os atuais 9 escalões por apenas três:
    • Isenção: Até aos1.000 € (Proteção da base).
    • Taxa Classe Média (15%): Para a vasta maioria dos portugueses (até aos 5.000€/mês). Isto daria uma liquidez imediata e brutal às famílias.
    • Taxa de Topo (30%): Para rendimentos muito elevados. Note-se: 30% é o que a classe média paga hoje; aqui passaria a ser o teto máximo.
  • Eliminação da Retenção na Fonte Excessiva: Ajustar o sistema para que o Estado não "peça emprestado" dinheiro aos cidadãos sem juros durante um ano. O dinheiro deve estar no bolso das pessoas todos os meses.
  • Unificação da Taxa de Capital: Baixar a taxa sobre juros e dividendos de 28% para 15% (alinhada com o escalão da classe média), incentivando o pequeno aforro.

2. De onde vem o dinheiro? (O Equilíbrio das Contas)

Esta é a pergunta de "um milhão de euros". Para baixar impostos sem criar um buraco no orçamento, é preciso atuar em três frentes:

A. O "Dividendo do Crescimento"

Ao baixar o IRS para 15% para a classe média, o consumo aumenta. Esse dinheiro volta ao Estado via IVA. Mais importante: empresas que hoje não conseguem contratar porque os salários líquidos são baixos, começam a expandir-se. O aumento da atividade económica compensa a descida da taxa (Curva de Laffer).

B. Reforma do Estado: Menos "Gasto", Melhor "Investimento"

  • Extinção de Observatórios e Entidades Redundantes: Portugal tem centenas de institutos públicos e fundações que consomem milhões com utilidade marginal.
  • Privatização/Concessão de Gestão: O Estado não tem de gerir companhias aéreas ou empresas de logística. O foco deve ser o regulador.
  • Digitalização Real: As Finanças já são digitais, mas a Justiça e a Educação não. A redução da burocracia poupa milhares de horas de trabalho e milhões de euros em papel e processos lentos.

C. Combate à Economia Paralela

Portugal tem uma economia informal estimada em 25% do PIB. Com impostos mais baixos e justos, o incentivo para "pedir fatura sem número de contribuinte" diminui. Se a taxa é justa, o cidadão prefere a segurança da legalidade.


3. Saúde e Social: Do Estado Prestador ao Estado Garante

O equilíbrio das contas também vem da eficiência na entrega.

  • Concorrência na Saúde: Em vez de injetar milhões no SNS para gerir listas de espera, o Estado contratualiza com o setor privado e social por resultados. Se o privado faz uma cirurgia mais barato e mais depressa que o hospital público, o Estado poupa dinheiro e o cidadão ganha saúde.
  • Ensino Dual e Financiamento por Aluno: O dinheiro segue o aluno. Isto obriga as escolas (públicas e privadas) a serem eficientes para atraírem financiamento.

Comparação de Impacto: Modelo Atual vs. Nova Reforma

Medida

Modelo Atual (Sufocante)

Nova Reforma (Desenvolvimento)

IRS Classe Média

Entre 25% e  45%

Fixado em 15%

Liquidez Mensal

Baixa (Estado retém muito)

Alta (Famílias decidem o gasto)

Investimento

Fugaz e dependente de subsídios

Estrutural e focado no capital

SNS

Monopólio estatal ineficiente

Sistema misto focado no utente



O Plano de Ação: O "Contrato de Confiança"

Aconselharia um plano a 4 anos, onde a descida dos impostos é feita de forma gradual mas irreversível:

  1. Ano 1: Redução imediata do IRS para a classe média e simplificação de escalões.
  2. Ano 2: Implementação do sistema de liberdade de escolha na Saúde (Vouchers/Cheques).
  3. Ano 3: Reforma da Administração Pública e eliminação de gastos supérfluos.
  4. Ano 4: Consolidação com a descida pontual do IVA para bens essenciais e energia.

Conclusão: O dinheiro para financiar isto vem de uma economia que respira. Atualmente, Portugal tenta tirar 40% de um bolo pequeno. O plano propõe tirar 15% de um bolo que, com estas medidas, crescerá exponencialmente. O equilíbrio vem do fim do desperdício estatal e da entrada de milhares de trabalhadores na economia formal que hoje fogem ao fisco por este ser "confiscatório".

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O sistema fiscal, a nível do IRS, manteria a progressividade, mas com uma lógica de "escada" muito mais suave e justa, evitando o chamado "salto para o abismo" que acontece hoje em Portugal.

No modelo que desenhámos, a progressividade funcionaria por fatias (ou escalões marginais). Isto significa que a taxa mais alta incide apenas sobre o valor que ultrapassa o limite, e não sobre o salário todo.

O Exemplo Prático: Um Salário de 3.500 € Brutos

Vamos ver como se dividiria o imposto para alguém que ganha 3.500 €:

  1. A 1.ª Fatia (Até 1.000 €): Paga 0%. (O Estado garante o mínimo de existência).

  2. A 2.ª Fatia (De 1.001 € até 3.000 €): Paga 15% sobre esses 2.000 €. ($2.000 \times 0,15 = 300$ €).

  3. A 3.ª Fatia (Acima de 3.000 €): Paga 30% sobre os 500 € restantes. ($500 \times 0,30 = 150$ €).

  • Total de IRS: 450 €.

  • Taxa Efetiva: 12,8%.

  • Líquido: 3.050 € (sem contar com Segurança Social).


Por que é que este modelo é superior ao atual?

1. Elimina o "Medo de Ganhar Mais"

Atualmente em Portugal, muitos profissionais recusam aumentos ou horas extras porque o salto de escalão é tão agressivo que o aumento bruto quase desaparece no imposto líquido. Com apenas 3 escalões largos, o esforço compensa sempre.

2. Protege a Classe Média (A "Zonal de Conforto")

A grande inovação aqui é o intervalo dos 15%. Ao esticar este escalão até aos 3.000 € ou 4.000 €, estamos a dizer que a classe média tem o direito de reter o fruto do seu trabalho. É aqui que se cria a liquidez que mencionaste: dinheiro para investir, poupar ou consumir sem sufoco.

3. Simplicidade e Transparência

Um sistema com 9 escalões (como o atual) é opaco. Quase ninguém sabe quanto vai pagar realmente. Um sistema de 3 fatias é previsível. A previsibilidade é o que atrai investidores e convence os talentos a ficar.


Como garantir que o Estado não entra em colapso?


Mencionaste a preocupação com o equilíbrio das contas. Para passar do sistema atual para este, o "segredo" está na eficiência da despesa:

  • Menos Benefícios Fiscais, Taxas Mais Baixas: O sistema atual é cheio de deduções complexas (faturas de oficina, ginásio, etc.). Na reforma, eliminaríamos essas "migalhas" burocráticas em troca de uma taxa base muito menor. O cidadão prefere ter o dinheiro logo no salário do que andar a mendigar deduções no final do ano.

  • Crescimento do PIB: Se a classe média tem mais 500 € ou 1.000 € por mês, esse dinheiro circula. O Estado recupera uma parte via IVA (consumo) e outra via IRC (lucro das empresas que vendem mais).

  • Atração de Não-Residentes: Portugal deixaria de precisar de "regimes especiais" para estrangeiros (que criam injustiça entre quem cá está e quem vem). Com uma taxa de topo de 30%, Portugal passaria a ser, naturalmente, um dos países mais competitivos da Europa para qualquer profissional qualificado, independentemente da nacionalidade.

O Impacto Psicológico

A maior mudança não é financeira, é moral. O cidadão deixa de sentir que o Estado é um sócio maioritário que não aparece para trabalhar. Passa a haver um sentido de justiça: "Eu contribuo com uma parte justa (15%), e o Estado deixa-me gerir o resto da minha vida."