quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Seguro versus Montenegro
-- os opostos atraem -se... ou repelem-se...?

-- A palavra ao meu marido --


Ouvi ontem um dirigente da CNA dizer que o ministro da agricultura tinha afirmado que as candidaturas a subsídios para ajuda na reparação dos prejuízos devido às catástrofes já estavam abertas, e afinal não estavam. Os agricultores, quando iam ao site, apenas podiam preencher uma folha de declaração de prejuízos que dizia expressamente que não era considerada candidatura a ajudas. Disse também que o ministro tinha falado em 40 milhões para ajudas e, na verdade, só estavam disponíveis 4 milhões. Desde que aconteceram as catástrofes, ouvimos o Luís dizer que as empresas se podiam candidatar ao layoff pago a 100% e a ministra do trabalho desdizer o que o Luís tinha afirmado. Também ouvimos o Luís dizer que bastava um papelito para toda a gente receber 10 mil euros para reconstruir a casa, e depois ouvimos, por exemplo, o ministro das finanças dizer que não é bem sim, que existem regras e que nem toda a gente é elegível, existem regras que têm que ser cumpridas para receberem os subsídios. O Luís também referiu montantes para apoios sociais que, aparentemente, diferem dos que vão ser entregues. Como é costume, e como sempre tenho escrito, o Luís faz a pantomina do costume, e o rigor que se lixe. O que interessa é atirar coisas bem sonantes aos jornalistas, verdadeiras ou não. Se, posteriormente, vier a perceber-se que são aproximações à verdade, a coisa já criou impacto e a malta já aplaudiu o governo. É o reinado das empresas de comunicação e do governo criativo. 

Daquilo que tenho ouvido do Seguro, fico com a ideia de que o novo PR é certinho (não fosse aquela de ter virado um banco do jardim aos sete anos* e poderia escrever muito certinho), não gosta de pantominas, tem um certo amor pela ética republicana e só gosta de afirmar coisas pensadas e concretizáveis. Em resumo, o Seguro parece estar nos antípodas do Luís que não pensa e não cumpre o que anuncia seguindo apenas as orientações da comunicação e com objetivo supremo de ganhar votos. 

Como é que estes dois personagens vão conviver, é para mim uma incógnita. Será que o Seguro vai por acima de tudo a tristemente célebre estabilidade ou privilegiará a verdade, o rigor e os interesses da maioria da população? Não sei, mas as intervenções que tem feito não me desiludiram, antes pelo contrário, parece que encontrámos alguém com um perfil adequado para o cargo. Parece ser sensato, empático com as pessoas (sem fazer aquelas figuras ridículas que o Marcelo faz), rigoroso e preocupado genuinamente com os problemas dos portugueses (até com as possíveis constipações dos jornalistas). As minhas expectativas eram baixas, mas, até agora o Seguro ultrapassou a fasquia. Vamos ver como enfrenta o Luís. Espero que continue neste caminho e que ponha o Luís na ordem, que bem precisa.

Se eu confiaria desta maneira no meu parceiro...? Ná, não me parece...
Aliás, sendo sincera: é que nem pensar...

 

Vamos admitir que subia a um escadote e que, por qualquer motivo, por exemplo por se partirem os degraus, tinha que me atirar lá de cima, uma altura digamos que equivalente a uns cinco degraus. Admitamos ainda que, vendo-me com medo de cair mal e de ainda me partir toda, o meu marido se oferecia para me amparar no ar, que me atirasse para os braços dele. Estou mesmo a ver-me cheia de medo... Com o medo que tenho das alturas ainda mais o drama se agravaria, qualquer metro de altura me parece um precipício... Mas, sobretudo, imaginava que ele não teria força, que, às tantas, com o impacto caía para trás e eu por cima dele. Ou que não se sincronizava e não me agarrava a tempo, caindo eu desamparada, de borco, no chão.

E se isto é uma coisa de uma distância baixa, imagine-se se alguma vez -- caso ele fosse o super homem e tivesse força para pegar em mim em peso, e atirar-me ao ar --, eu confiaria que ele estaria lá, no ponto exacto, e com força para me agarrar. Não, nem pensar. Confio nele mas não, nunca, jamais, a ponto de arriscar a minha vida acreditando que ele me salvaria em pleno voo. Ná, nunca fiando. As probabilidades de falha seriam mais que muitas. 

Claro que treinando muito, muito, muitas vezes, no fim talvez a coisa corresse bem. Mas... e até lá... até estarmos coordenados...quantas quedas, quantos ossos partidos? 

Por isso, vejo esta extraordinária exibição com admiração pela elegância e destreza do casal, mas, sobretudo, pela confiança incondicional que demonstram um no outro, em especial ela nele. Só por isso já merecem mil medalhas de ouro.

Riku Miura & Ryuichi Kihara STUNNING performance wins gold for Japan 🇯🇵 | Winter Olympics 2026


terça-feira, fevereiro 17, 2026

A coragem de Gisèle, a mulher que recusou o silêncio

 

Ultimamente vamos sabendo de acontecimentos que superam a mais tortuosa imaginação. 

Quando soube desta história fiquei até apática, quase como se não fosse possível. Uma pessoa pode ser casada uma vida inteira com um homem, gostar imenso dele, ver-se a viver, a dois, tranquilamente, os tempos da reforma, achar que ele é atencioso, afectuoso, a quem nunca detectou qualquer atitude inapropriada, nomeadamente em relação a mulheres, e, do nada, descobrir que o marido a drogava e a violava nesse estado de inconsciência e convidava homens para irem lá a casa violá-la, filmando essas violações? 

Gisèle e Dominique quando ela acreditava que eram um casal feliz

Juro que eu diria assertivamente que não. Uma pessoa pode não saber tudo de outra mas há coisas que, vivendo uma vida inteira com ela, forçosamente sabe. Sabe se ele faz comentários ordinários em relação a outras mulheres, mesmo que diga que o faz na brincadeira, em casa, sem ninguém ouvir, sabe se ele olha de maneira parva ou lúbrica para outras mulheres, mesmo que disfarce. Acho que sabe. Também sabe se ele é desinteressado em relação a ela, se não tem empatia, se é um estupor.  Não me pareceria possível que uma mulher pudesse viver uma vida inteira com um homem, cinquenta anos de vida em comum, ter filhos e netos, vendo-o a ser um pai e um avô querido, e não lhe passar pela cabeça que o sujeito com quem está casada é uma besta quadrada, um troglodita do pior, um porco imundo. 

E, no entanto, aconteceu. E foi verdade. Tudo provado.

Para quem não conheça a situação vou tentar descrevê-la (servindo-me sobretudo da wikipedia).

Gisèle Pelicot nasceu em 1952 na então Alemanha Ocidental, filha de um militar francês. Mudou-se para França ainda criança. Perdeu a mãe muito cedo, aos 9 anos, e construiu a sua vida adulta em território francês.

Teve uma carreira estável como gestora administrativa numa empresa pública de eletricidade, uma função ligada à área logística e administrativa. Casou-se jovem com Dominique Pelicot em 1973. O casal teve três filhos e manteve, durante décadas, uma vida aparentemente normal de classe média.

Gisèle trabalhou durante décadas na área administrativa e reformou-se em 2013. Após a reforma, mudou-se com o marido para o sudeste de França, onde levavam uma vida tranquila: ela participava num coro e ele andava de bicicleta. A família — filhos e netos — visitava-os frequentemente.

Dominique Pelicot, por sua vez, tinha trabalhado como eletricista e no setor imobiliário, ao que parece com alguns negócios falhados ao longo da vida.

Entre 2011 e 2020, Dominique drogou a mulher de forma sistemática, misturando sedativos na comida e bebida. Enquanto Gisèle permanecia inconsciente, ele violava-a e convidava dezenas de homens — pelo menos 50 identificados e mais de 80 suspeitos — a fazer o mesmo, filmando os abusos.

Durante esses anos, Gisèle sofria de perdas de memória, fadiga e problemas de saúde, chegando a recear ter Alzheimer ou um tumor cerebral. Nunca imaginou o que realmente estava a acontecer.

A verdade só foi descoberta em 2020, quando Dominique foi detido por filmar à socapa debaixo da saia de algumas mulheres num supermercado. A investigação policial levou à apreensão dos seus computadores — onde foram encontrados vídeos dos abusos.

Em novembro de 2020, a polícia mostrou essas imagens a Gisèle. Esse foi o momento em que a sua vida se desmoronou: percebeu que tinha sido violada repetidamente durante quase uma década sem nunca ter consciência disso.

O julgamento começou em 2024, em Avignon, envolvendo Dominique e outros 50 homens.

Como vítima de violação, Gisèle tinha direito ao anonimato e a um julgamento à porta fechada. No entanto, tomou uma decisão extraordinária: recusou o anonimato e exigiu que o julgamento fosse público.

Fez isso por uma razão clara: queria que a vergonha mudasse de lado — das vítimas para os agressores — e que outras mulheres encontrassem coragem para falar.

No final do processo, em dezembro de 2024, Dominique Pelicot foi condenado à pena máxima de 20 anos de prisão, e todos os restantes arguidos foram também considerados culpados de crimes de violação ou agressão sexual. Vários abusadores disseram em tribunal que não achavam que tivessem cometido qualquer crime pois o marido autorizava que tivessem reações com a mulher. Outros disseram que ela estava a dormir, não dava por nada. 

Repare-se: tudo isto não se passou em tempos medievos. Isto passou-se em França, agora, no tempo em que vivemos.

A filha de ambos está convencida de que também foi violada, mas, como no seu caso, não existem vídeos, não foi possível que o pai e outros homens também fossem condenados por isso.

Após a descoberta dos crimes, Gisèle separou-se do marido e iniciou o processo de divórcio, concluído pouco antes do julgamento.

Hoje, vive discretamente em França — vivendo numa ilha — e, orgulhosamente, diz que reconstruiu a sua vida, que voltou a encontrar o amor e afirma querer voltar a viver com alegria, amor e serenidade.

Gisèle Pelicot tornou-se, assim, um ícone feminista internacional: foi incluída nas listas de mulheres mais influentes do ano por meios como a BBC e o Financial Times, recebeu a Legião de Honra, a mais alta distinção civil francesa, e tornou-se símbolo da luta contra a chamada “submissão química” e a cultura de violação.

Hoje, com 73 anos, Gisèle Pelicot afirma-se viva, confiante e determinada a transformar a sua história numa mensagem de coragem para outras vítimas.

Já este ano publicou um livro de memórias onde conta a sua história na primeira pessoa e defende que a vergonha deve pertencer aos agressores — nunca às vítimas. A sua voz ecoa como um apelo: falar, denunciar e recusar o silêncio.

A história de Gisèle Pelicot não é apenas um caso judicial chocante — é, na verdade, um marco social.

A entrevista abaixo -- que dá para ser legendada (e repito-o pois, por vezes, alertam-me para que partilho muitos vídeos em língua estrangeira, sem legendas) -- mostra-a. 

Digna, inteira. Um exemplo. Quem tem que ter vergonha são os abusadores, não quem é abusado. Gisèle lutou contra a vergonha e venceu-a. Mulheres de todo o mundo agradecem a sua coragem.

Gisèle Pelicot fala abertamente sobre como sobreviveu a anos de abuso secreto | The Interview

Num dos casos de abuso sexual mais hediondos da história, Gisèle Pelicot foi drogada e violada repetidamente pela pessoa em quem mais confiava no mundo, o seu marido, que também convidou dezenas de homens para o quarto para a violarem enquanto estava fortemente sedada.

Em 2024, começou o julgamento dos agressores de Pelicot. Mesmo assim, talvez nunca soubéssemos o seu nome. Mas no seu novo livro de memórias, "Um Hino à Vida: A Vergonha Tem de Mudar de Lado", ela explica porque decidiu abdicar do anonimato e tornar o julgamento público. Esta escolha transformou-a num ícone feminista, inspirando mulheres de toda a França a juntarem-se a ela e a exigirem alterações nas leis de consentimento do país.

Pelicot revela como era ver os seus agressores dia após dia no tribunal numa entrevista à apresentadora do programa "The Interview", Lulu Garcia-Navarro.


Dias felizes para todos

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Como o perverso Epstein usou as 'elites' para abafar a verdade

 

Um dos médicos que fez a autópsia diz que o que encontrou é compatível com estrangulamento e não com suicídio. Outros dizem que não foi ele que morreu, que foi outro parecido com ele e mostram fotografias que o provam. Para além de tudo, naquela altura, as câmaras que apanhavam a porta da cela não estavam a funcionar, os guardas não estavam lá. Tudo nebuloso, tudo dúbio.

Mas não é só isso. Tudo nesta trama é nebuloso. 

Se eu pensar no meu período mais activo, diria que as pessoas com quem eu mantinha um contacto regular, fosse de que natureza fosse, não iriam além das dezenas, duvido que chegassem às cem. E, desses, com quem mantivesse correspondência regular, mensagens, mails, etc, diria que seriam da ordem da dúzia ou, vá, duas dúzias. 


Mas Epstein mantinha contacto regular com milhares de pessoas. Segundo o The Economist sistematizou, focando-se nos 500 mais regulares, a maioria era gente do sector financeiro (banqueiros, fundos, etc), media (jornais, revistas, televisões, etc), a seguir gente da academia (investigadores, professores, ligados à Matemática, à Física, à Biotecnologia, à Evolução, etc), depois gente dos negócios e das tecnológicas, depois gente da política (políticos de 1º nível, primeiros-ministros, ministros, diplomatas, príncipes e princesas, etc), etc. Uma conspícua e imensa rede. Tudo à vista de todos. Todos sabendo que ele já tinha sido condenado por sexo com menores, e todos marimbando-se para isso. E, para que se perceba bem o modus faciendi dele: todos os que com ele lidavam relatam a atenção que Epstein dedicava a tudo, fazia sessões de brainstorming nas universidades em que se se mostrava a par das investigações, não apenas financiava generosamente projectos como acompanhava o seu avanço. Claro que, provavelmente, gravava tudo e passava a informação para  quem tivesse encomendado o 'servicinho' ou para quem estivesse interessado no state of the art da coisa.

Ora, já dou isso de barato. O que eu agora não percebo é como é que ele tinha tempo para estudar os assuntos, para escrever tantos mails, para estar com tanta gente, para levar massagens a torto e a direito, para viajar, para almoçar e jantar com meio mundo, para escolher obras de arte, para tanto deboche.

E o dinheiro que dava a meio mundo? Não há explicação. Pagava a renda da Sarah Ferguson e dava-lhe dinheiro a torto e a direito, pagava os cursos e os alojamentos a centenas das miúdas de quem abusava e traficava, financiava incontáveis projectos, tudo aos milhões, e tinha empregados e mais empregados, e tinha não apenas grandes mansões em várias cidades nos Estados Unidos e fora do país, e ranchos e ilhas, como uma dúzia de apartamentos em Manhattan para alojar amigos e namoradas, tinha iates, helicópteros e aviões. Dinheiro a correr a jorros.

Parece que está claro que era um agente kompromat e aí, ao que parece, era quase free lancer: tinha material comprometedor de meio mundo que venderia a quem desse mais (ou a vários ao mesmo tempo?), parece também claro que era agente da Mossad e que trabalhava para a CIA e que, para a Rússia, funcionava quer como fornecedor de kompromats como intermediaria a aplicação de dinheiro russo fora da Rússia, lavandaria de primeira.

Mas, pergunto eu: se assim se explicaria a sua vasta e crescente fortuna, um escândalo de fortuna, como se explica que tivesse tempo para tudo isso? Os dias dele tinham sessenta horas? Não percebo. Será que mais ninguém fica intrigado com isso?

No outro dia, um matemático, catedrático em Harvard, e financeiro de Wall Street, que o conheceu, diz que Epstein era uma estrutura. Era alguém 'fabricado', uma estrutura 'fabricada', um produto high level dos serviços de inteligência. 

Não sei. Mas admito que sim, pelo menos, faz-me sentido.

Há, no tema Epstein, vários mistérios, e este do tempo parece-me um deles.

Partilho um vídeo no qual Tina Brown, jornalista da velha guarda, fundadora do Daily Beast, e que, há uns anos, foi intimidada por ele para não avançar com uma série de artigos, conversa sobre o assunto. 

Não que daqui venha uma luz clarificadora mas é interessante, dá para ir iluminando a forma como ele manobrava as muitas pessoas que gravitavam na sua órbita.

Como o perverso Epstein usou as elites para abafar a verdade 
| Podcast do The Daily Beast

Tina Brown relata a sua experiência chocante ao ser citada nos arquivos recentemente divulgados do caso Jeffrey Epstein, revelando como Jeffrey Epstein e os seus aliados tentaram freneticamente "neutralizá-la" e fechar o The Daily Beast depois de a sua reportagem explosiva com Conchita Sarnoff ter exposto a sua rede de abusos. Numa conversa envolvente com o editor executivo do Daily Beast, Hugh Dougherty, Brown narra o pânico dentro do círculo de Epstein, as assustadoras ameaças legais de poderosos escritórios de advogados, a duplicidade da cronista social Peggy Siegal e a decadência moral de um "clube" de elite que protegia os seus membros mesmo depois de a verdade estar à vista de todos. Ela reflete sobre a cultura pré-#MeToo que desconsiderava as vítimas, os nomes poderosos que orbitavam Epstein — de Bill Clinton a Ehud Barak — e a escala industrial de exploração possibilitada por Ghislaine Maxwell e pelo recrutador Jean-Luc Brunel. É uma defesa mordaz do jornalismo de investigação, um aviso sobre o poder corrosivo da riqueza extrema e um olhar por detrás das cortinas sobre o quão perto esta história esteve de ser abafada — então, o que mais ainda está escondido nos milhões de arquivos não divulgados?


Desejo-vos uma bela semana

domingo, fevereiro 15, 2026

No rescaldo do dia de S. Valentim, uma bela história de amor

 

Ontem, um dos comentários ao texto que eu tinha escrito tocou-me particularmente. Não sei se foi o inesperado da história pessoal contada pelo Daniel, se foi a forma como escreve. Aliás, desde que conheço o seu blog, A minha Honda, que o acompanho e me encanto com a singeleza dos temas, com a limpidez das observações, com a franqueza que transparece das suas palavras. 

Por isso, ao ler o que escreveu, achei que a 'história' deveria merecer o destaque da página principal. Com a sua devida autorização aqui está, com os meus agradecimentos e votos de uma vida feliz, vivida em harmonia, leveza, cumplicidade, compreensão e muito afecto.

Escreve sobre a beleza como quem resgata telas de uma inundação: com a urgência de quem sabe que o que é valioso exige cuidado, mas também uma resistência brava.

Identifico-me profundamente com essa "disponibilidade para a beleza" que menciona, sobretudo quando ela desafia as convenções. As suas reflexões sobre o corpo e a arte fizeram-me pensar na "minha" moldura. A minha mulher é 16 anos mais velha do que eu. Para o mundo — esse mundo que consome imagens de catálogo e descarta o que não é liso — o nosso abismo cronológico seria o fim. Davam-nos um mês. Olhavam para os quatro filhos dela, para a exigência da multideficiência de um deles, e viam "fardos" onde eu vi vida, verdade e uma energia que me desarma todos os dias.

Enganaram-se no cálculo, porque não contaram com a variável do afeto. Caminhamos para os 10 anos. Ela luta, por vezes, com a insegurança de quem se sente "velha" perante o meu reflexo. Mas a resistência emocional que construímos ensinou-me a dizer-lhe, com o peso de quem não brinca com palavras: "Velho estou eu, e sinto-me imensamente bem aqui ao teu lado".

A beleza dela não é um estado estático; é um ato de resistência. Está nas virtudes e nos defeitos vincados que a tornam uma mulher real, inteira, habitada. Tal como as suas pinturas que, mesmo entre o cheiro a mofo e o chão molhado, mantêm a dignidade de quem foi criado com alma, o nosso amor resiste porque não é feito de aparências, mas de uma "cola" que a idade e a vida só tornam mais forte. a beleza que importa é a que tem história, a que é "habitada por uma alma", como tão bem escreveu. Se o corpo é uma obra de arte, o dela é a minha exposição favorita.

Que a chuva dê tréguas a essa cave, mas que essa força de olhar para o corpo e para a vida com orgulho nunca seque.

sábado, fevereiro 14, 2026

Até tu Passos Coelho...?
-- Uma vez mais, a palavra ao meu marido --

 

Estou muito satisfeito. Então não é que o guru, o mais querido, o mais que tudo, o ausente sempre presente da direita e respetivos arredores tem ideias semelhantes às minhas a respeito do PM e do governo (a saber, aquela malta não vale nada)? Como é que os queridos leitores que me criticam, assídua e repetidamente, por eu achar que o PM e o governo são umas grandíssimas nódoas vão ter argumentos para me chamar "fanático socialista" se até o Passos confirma as minhas teses...? Que chatice, não é rapazes e raparigas, que chatice o Passos, em vez de se manter calado em Massamá, de vez em quando vir dizer umas verdades... Eu sei que gostam dele, mas seria melhor que ele vos poupasse a estas inconveniências, certo? 

Ontem o Luís, em mais um acto de pura propaganda, veio lançar um PRR português. A coisa deve ter sido bem pensada... Provavelmente reuniram-se à noite em casa do "Lentão" e, no meio de uma suecada (sim, que esta malta é plebeia, não joga bridge), o dono da casa pediu a cada um dos convivas para escrever num papel dez temas para o pessoal ver que andam a trabalhar como o caraças. Não é que um dos mais espertos (terá sido o secretário do Desporto que nunca ninguém viu) se lembrou de um PRR português... Anuncia-se já, disse o Luís~, eufórico. Dito e feito, na primeira visita depois da suecada anunciou o dito PTRR (T de Tuga, claro).  

Estudar, planear, definir objetivos, discutir as várias vertentes, falar com os diferentes setores da sociedade...? Nem pensar, nem sabem o que isso é! Para que é que haverão de se chatear com essas ninharias? Aliás, pensar devidamente as coisas é uma chatice. O que interessa é anunciar coisas genéricas para manchete de jornal. Se há condições para concretizar as medidas e executar o programa fica para segundas núpcias. Como cantaria o Chico "anunciar é preciso, cumprir não é preciso". 

Uma medida que também deve ter sido "bem pensada" é a simplificação dos processos de reconstrução. Com a capacidade que a malta tem para desenrascar e não cumprir a legislação, o mais provável é que, em vez de se reconstruir com qualidade e respeitando critérios adequadas às mudanças resultantes das alterações climáticas, se faça o contrário e, na próxima catástrofe, as coisas sejam ainda piores. O PM e os ministros são incompetentes e anunciam medidas avulsas, mal fundamentadas e difíceis de concretizar. É mais uma prova que não deve ir para o governo quem é melhor tribuno, quem se borrifa para a ética e quem não tem capacidade para governar. O governo que temos reúne todas estas menos valias.

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Nota 1: ouvi nas notícias que o Exército já colocou no Mondego 5.120 sacos de areia. Informação relevante pela precisão. Seria muito relevante que também informassem quantos Sargentos ou outros militares andaram a contar os sacos de areia e, já agora, que fossem ainda mais precisos, concretizando se escreveram as quantidades num papel (maior possibilidade de erro) ou utilizaram suportes informáticos para coligir a informação. Será que o Exército já foi contaminado pela argúcia do ministro da Defesa? E os jornalistas acham relevante dar este tipo de detalhe? Vamos longe, vamos....

Nota 2: A ministra Graça mandou demitir o enfermeiro que tinha sido nomeado para gerir a Estrutura de Missão das Energias Renováveis. Parece que a senhora não fazia ideia dessa nomeação. A coisa anda, pois, em roda livre. Claro que também não se sabe que Estrutura de Missão é essa quando há, com tutela sobre o assunto, Secretarias de Estado, Direcções-Gerais e Institutos diversos. A reforma do Estado engatou a marcha-atrás, pelos vistos. Mas, pergunto eu, que mal fazia ter um enfermeiro a tomar conta das energias renováveis quando também tivemos uma Lulu, la petite, como MAI?

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Será que só as mulheres conseguem pintar magníficos nus femininos...?

 

Uma mulher despe-se e mostra-se apenas para ser desejada pelos homens que a olham?

Se uma mulher se ajeitar numa posição que seja esteticamente atraente está forçosamente a querer despertar a lubricidade em quem a contempla? 

E o que dizer se o fizer para que outra mulher a fotografe ou a retrate numa tela?

E, claro, se for homossexual, fá-lo para despertar o desejo noutras mulheres?

Talvez haja quem pense que sim. Mas não forçosamente. 

O corpo de uma mulher é uma obra de arte e tão mais extraordinário quanto parece ser coisa do acaso, coisa transcendente. Duas células que se juntam, se desdobram, se multiplicam. E tudo se vai juntando de uma forma mágica e, no fim, sai um corpo funcional que, ainda por cima, parece habitado por uma alma que ninguém sabe bem o que é. E claro que isto se aplica a um corpo de homem ou de mulher. Mas aqui foco-me no corpo da mulher. Aí a magia é ainda mais extraordinária: os seios que se desenvolvem, os seios que se enchem de leite para alimentar a criança que sai do seu corpo, quando o corpo gerou uma outra vida que começa por ser alimentada no ventre, um ventre que se atapeta e dilata. Tudo milagroso. Retratar o corpo da mulher em qualquer dessas fases é quase um dever. Há muita beleza nisso. 

Tal como é belo o corpo de uma mulher quando as ancas alargam, as carnes se expandem. Ou quando os seios perdem o viço. Ou quando as rugas desenham sulcos e escrevem histórias.

A beleza está na disponibilidade para a beleza. 

Já contei muitas vezes que uma das esculturas que mais me impressionou e na qual penso muitas vezes é uma pequena figura de Rodin, uma mulher de idade, corpo quebrado, pele enrugada. Em tempos uma bela mulher. Em tempos conhecida pela sua beleza. Celle qui fut la belle heaulmière. Uma obra tocante. 

Há tempos, ao ver uma fotografia minha de quando tinha uns vinte e tal ou trinta anos, não sei, surpreendi-me comigo mesma. Disse: 'Era bonita, não era?'. O meu marido respondeu: 'Ainda és.'. Foi simpático. E talvez tenha sido sincero. Eu, que me apaixonei por ele sem o conhecer, apenas porque o achei um pedaço de mau caminho (identicamente ao que aconteceu com ele em relação a mim), ainda o acho bonito, ainda acho que, se fosse hoje, voltaria a encantar-me com ele. Não tem o cabelo comprido como tinha naquela altura, aliás quase não tem cabelo, não tem o corpo tão ginasticado como tinha naquela altura em que praticava desporto federado, tem rugas. E é natural. Mal seria se com a idade que tem ainda se apresentasse de cabelo bem preto, pele esticada e todo bombado. Detestaria, não posso com gente artificial, com gente que não aceita com orgulho a idade que tem.

Com a inundação, as telas que estão na cave e que estavam no chão encostadas à parede foram colocadas em cima da mesa de ping-pong. Outras, felizmente, já estavam num lugar alto. Muitas têm mulheres, muitas delas nuas. Mulheres jovens, sonhadoras, com corações sobre os seios, um coração no ventre, mulheres grávidas, ventres redondos, seios pesados, mulheres guerreiras, caminhando sobre os edifícios, mulheres corajosas, desafiadoras. Por vezes, quando o motivo era mais caliente, apareciam aos pares, pequeninas, num canto, vestidas de freiras, de joelhos a rezar. Mal se viam. Mas estavam lá.

Também pintei corpos de homem. Mas menos. Parecia-me que, para que a pintura fosse interessante, teria que ser pornográfica. Como sou muito ajuizada, evitei-o. Para não ferir susceptibilidades, limitava-me a pintar falos a aparecer onde não eram chamados. A minha filha gozava: 'onde está o wally...?', e frequentemente ele lá estava, muitas vezes disfarçado, quase escondido.

Mas, enfim, vejo agora que me distraí e estou para aqui a escrever um bocado à toa. 

Está a chover imenso, mas mesmo imenso, caraças, e, de vez em quando, vou ali espreitar a ouvir se a bomba que está a funcionar na caleira junto ao portão da garagem continua a funcionar. Mas chove tão torrencialmente que só ouço mesmo a força da chuva a cair. 

Hoje entrou ar na bomba, e funcionava mas a água não era chupada. Felizmente o chatgpt explicou o que deveríamos fazer para lhe tirar o ar. E resultou.

Tentámos pô-la no poço do esgoto das águas pluviais mas não conseguimos levantar a tampa da caixa. É de cimento, pesadíssima, nem mexe. O meu filho diz que só com picareta a servir de alavanca, que vem cá no fim de semana e traz uma picareta. Por isso, por enquanto não há alternativa: temos que tentar extrair toda água que se junta na caleira lá de baixo, a ver se não volta a entrar na garagem e na cave. 

Já conseguimos tirar a água quase toda da inundação mas agora aparece de debaixo dos móveis. E o chão continua molhado. Já não tem altura de água, só que não seca. E já cheira a bafio, vem um cheiro a mofo e a bafio de lá que não se aguenta. Era preciso que parasse de chover para abrir o portão da garagem e para abrir as janelas da casa para o ar circular como deve ser. Agora a chover sem parar não dá. Abrimos de tarde, enquanto não choveu, mas de pouco ou nada serviu.

Mas isto não é nada. O drama que vai pelo país é que é de partir o coração. Meio país debaixo de água.

Ainda hoje, por várias vezes fiquei a chorar ao ver as pessoas em risco de perder as casas ou outras que têm tudo enlameado e estragado. Comovo-me tanto, tanto. Quase tenho que fechar os olhos de tanta pena que sinto, tanta, tanta. E comovo-me quando vejo pessoas corajosas que, perante a desgraça que se abateu sobre elas, conseguem sorrir, dizer que estão vivas e que isso é o mais importante, que o resto se haverá de resolver. Têm esperança em melhores dias. E eu fico toda em lágrimas.

Bem. Adiante.

Comecei com a conversa lá de cima, dos corpos nus das mulheres, influenciada pelo interessante artigo do Guardian. ‘Not for ogling’: forget Titian, Botticelli and the male fantasists – only women can paint great female nudes, da autoria de Rhiannon Lucy Cosslett

Transcrevo um pouco:

(...) Quando Gwen John estava no seu quarto, em 1909, a desenhar-se nua, com o reflexo do seu corpo no espelho do guarda-roupa, o que lhe passava pela cabeça? Na altura, vivia um intenso e infeliz caso amoroso com Auguste Rodin, para quem posava frequentemente. Posar para si mesma, porém, era diferente, para não dizer ousado. John lutava para ser a sua própria musa, em vez de Rodin, mas esta imagem mostra-a livre do olhar masculino.

(...) Durante grande parte da história da arte ocidental, as mulheres não tinham acesso a modelos nus e, se fossem suficientemente corajosas, tinham de confiar no seu próprio corpo. O trabalho que produziam era frequentemente recebido com indignação, desprezo, troça ou indiferença. 

Artigo que vem ao arrepio da espuma dos dias. Gostei de ler.

E, como não me apetece ir agora à cave fotografar as minhas bonecadas, até porque estou apenas de meias e, se fosse assim, ficaria com elas molhadas, pedi ao Sora que me gerasse algumas imagens. Claro que descrevi o que pretendia a nível do 'modelo', do 'estilo' da pintura, do ambiente, juntei umas dicas, etc. -- e claro que algumas saíram tão pirosas que não as ponho aqui. Mas outras aprovei. 

Partilho algumas que, se eu fosse tão habilidosa quanto a Inteligência Artificial -- e não sou nem de longe nem de perto -- e tivesse aqui o material, talvez tentasse aventurar-me a fazer por mim qualquer coisa que se parecesse. 


E vivam as mulheres, e viva a beleza das mulheres em toda a sua nudez
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Desejo-vos um dia feliz
(E tomara que não aconteçam por aí mais desgraças... Se chover em todo o lado tanto como por aqui, temo o pior)

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Depois de um dia debaixo de água ('debaixo de água' salvo seja: 'apenas' com a cave e a garagem totalmente inundadas), acabo com coisas bonitas made in Portugal, mais concretamente em Azeitão

 

O dia foi uma complicação daquelas. Ainda estava a dormir quando o meu marido entrou no quarto a anunciar que a garagem e a cave estavam inundadas -- as mil coisas de toda a espécie e feitio, incluindo pertences da minha mãe e em que ainda não mexi, muitas telas pintadas, diversos móveis (talvez os melhores que temos e que deixámos lá em baixo por nos parecerem artilhados e requintados demais para o estilo que agora queremos na casa) -- tudo dentro de água, coisas a boiar.

Dito assim não é nada que se compare com o drama de tanta e tanta gente. Uma dor de alma ver, na televisão, tantas casas destruídas, tanto comércio e tantas pequenas empresas arrasadas, tantas estradas desfeitas, os rios a transbordarem para campos, ruas, estradas. Estragos e mais estragos. Comovo-me quando vejo as pessoas destituídas dos seus pertences, dos seus empregos, da sua mobilidade, da sua privacidade (quando alojados noutras casas ou em espaços colectivos). E tantas pessoas ainda sem eletricidade e sem água canalizada... Como é possível...?
Mas não é por o meu pequeno drama ser coisa de somenos que deixa de ser um problema que temos que resolver. 

O que nos aconteceu é que a água da chuva que passa pela caleira que está antes do portão da garagem não foi puxada para o tubo de esgoto das águas pluviais e, portanto, entrou, primeiro para a garagem, depois para a cave, e espraiou-se. 

Mais ou menos um palmo bem aberto de altura, até ao primeiro degrau da escada. 

A partir daí foram desencadeadas diversas acções. Quase todas infrutíferas: as empresas de desentupimento e esgotos e o canalizador que contactámos não tinham ninguém para vir cá hoje, o electricista que cá costuma vir e que talvez pudesse arranjar a bomba submersível que está dentro da caixa (poço) de esgoto que está em cima, no jardim, (pois o problema deve estar nessa bomba) só poderia vir para a semana. 

No Leroy, onde tínhamos ido ontem ao vermos a caleira perigosamente cheia, as bombas estavam esgotadas. O meu marido foi então comprar uma bomba a outra loja mas, azar, não tinham lá mangueira compatível (é uma mangueira larga e espessa, não é como as de rega). Foi, então, ao Leroy. Não tinham mangueiras dessas, estavam esgotadas. Foi a casa do meu filho buscar uma pequena bomba mas não tinha a peça de encaixe da mangueira. Foi, não sei onde, comprar a peça que, afinal, não serviu. Depois ia a outra loja ver se tinham mangueiras mas já estava fechada. Só às duas conseguiu comprar. Trouxe o último bocado de mangueira que lá tinham. Sorte. 

Chegado a casa, lá montou as coisas e, felizmente, tudo funcionou. Finalmente! 

Está há horas a despejar água e, nas primeiras horas, parecia que estava sempre na mesma, uma coisa estranhíssima.

Há bocado, quando fomos passear o cão, as ruas inundadas, vimos uma carrinha de desentupimento de esgotos. Liguei e consegui que cá viessem espreitar. Concluíram que a bomba deve ter estourado de tanto puxar água. Dizem que, com a que comprámos, nunca mais vamos conseguir tirar tudo pois é uma bomba fraca, de piscina. Talvez à noite, se conseguirem esvaziar outra cave, venham cá pôr uma bomba potente. Comentei que não se percebe de onde está a vir a água pois a bomba está há umas quantas horas a tirar água e parece que continua na mesma. Um deles respondeu: 'é as terras que já não engole mais, deita por fora, a senhora não tá vendo como tá tudo? a terra está jogando tudo fora...'. É brasileiro, claro. 

E acredito que seja isso pois o que chove não justifica que se mantenha como estava apesar de estar há horas a deitar água fora à força toda.

Também já percebemos que a parte da garagem está finalmente a dar mostras de querer a escoar, mas a cave está difícil, parece que a água não escorre para fora. E a altura de água que ficar não deve dar para que a bomba submersível funcione. Mas amanhã tentaremos resolver isso, nem que seja arrastando a água à vassourada. 

Claro que a seguir temos que tentar resolver o tema de forma estrutural, isto é, substituir a bomba que deve estar estragada por outra. Ainda não percebemos onde se faz a ligação à electricidade, mas uma uma coisa de cada vez.

Enfim. 

Pior, mil e mil vezes pior estão os pobres coitados que têm as casas destruídas. Nem imagino a aflição e o desespero de quem está nessas condições.

Mas para não falar só de desgraças, partilho um vídeo que me chegou via o instagram da Ana Marques para a SIC, e que vi com curiosidade. 

Depois disso, já visitei o site, Carved Wood, Handmade Design e, agora que sou dada a redes sociais, também a conta de Instagram. Segundo vejo, trata-se de marcenaria de autor, Arte e Desenho de Móveis, com atelier em Azeitão.

Uma história com piada. Segundo vi no vídeo que abaixo partilho, vindo de uma vida muito diferente, o André  resolveu mudar de vida e dedicar-se ao mister que o motivava, a marcenaria. Trabalhando com madeiras maciças, as peças são feitas à medida ou a feitio, outras vezes com design de sua lavra. Obras de autor, que, segundo vejo, são construídas com criatividade e versatilidade. 

As imagens com que ilustro o texto são, pois, obras suas. Não vêm a propósito do texto subaquático, bem sei, mas as fotografias que tirei à inundação cá de casa ficam para a Seguradora, caso se verifiquem danos substanciais. 

Achei que, para me nos tirar (ou, pelo menos, para me tirar a mim) deste estado cinzento, meio depressivo, em que tanta chuva e tanta humidade nos deixam meio zururus, mais valia espairecer a vista com peças interessantes e que nos dão vontade de as adquirir ou de mandarmos fazer qualquer coisa do género.



[Hoje, por aqui, não se fala do Montenegro e das suas ministrinhas e ministrinhos minions e desasados, muito menos do Epstein ou do Trump ou do Putin. Há que deixar entrar algum oxigénio nos nossos dias. E por pouco não falava também das tortas do Cego, também em Azeitão, ou das cerâmicas Fortuna, um pouco adiante, em Palmela. Ou dos vinhos da Ermelinda. Mas, se o tempo e as ocorrências (derrocadas, quebras de diques, inundações, e despautérios e descalabros políticos de toda a ordem) continuarem, na volta dedico-me é às nossas artes e ofícios. Pelo menos, acabo de escrever o post e estou bem disposta.]



E aqui a seguir está o vídeo em que a Ana Marques, para o seu programa na SIC, mostra a visita que fez à Carved Wood. 



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Desejo-vos dias felizes

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Montenegro - o estado a que a Saúde chegou, o artigo do Gouveia e Melo, as duas MAI que já lá vão e os atrasos no cumprimento das promessas do Luís
-- De novo, a palavra ao meu marido --

 

Saiu hoje um relatório da ACSS (Administração Central do Sistema de Saúde) sobre a atividade do SNS em 2025. 

Era difícil um governo conseguir piores resultados, a saber: a despesa aumentou, o número de profissionais contratados aumentou mas os resultados clínicos e os acessos ao SNS pioraram. 

Em concreto, verificou-se um aumento de 13% nos gastos operacionais (15.750 milhões de euros) e um reforço de recursos humanos, contudo, registou-se uma diminuição de 0,7% nas cirurgias (884.062) e uma queda na atividade dos cuidados primários, com mais de 1.000.000 de utentes a aguardar consultas e 264 mil esperavam por cirurgia no final de 2025. A nível preventivo o panorama é igualmente preocupante: verificou-se uma quebra de 10,3% nos rastreios do cancro da mama  O número de queixas dos utentes também aumentou, tendo diminuído a confiança dos utentes no sistema: 54,62% das queixas focam-se na falta de qualidade do atendimento clínico, apontando para uma “degradação humana e técnica” com a consequente erosão da confiança. 

Se o objetivo do governo é dar cabo do SNS parece que já está a conseguir. E não é apenas uma questão da Ministra da Saúde ser incompetentíssima. É o Montenegro que não tem capacidade de definir políticas globais para os vários setores nem capacidade para definir formas de atingir objetivos sendo, também ele, manifestamente incompetente. 

E o que me choca mais é que este relatório apenas traduz numericamente o que todos, o País inteiro, tem vindo a constatar ao longo dos meses: a degradação da Saúde em Portugal às mãos da ministra e de Montenegro. E volto a recordar que justamente a Saúde foi uma das bandeiras eleitorais da AD. Apregoou que ia resolver tudo num abrir e fechar de olhos. E o que aconteceu foi o oposto: yudo piorou. Um a um, correu com toda a estrutura de gestão dos serviços e hospitais, mesmo com os gestores manifestamente competentes, substituindo-os por carreiristas do PSD. Perante queixas, crises e mortes, Montenegro preferiu olhar para o próprio umbigo. É que o que os números deste relatório traduzem não é uma abstração: traduzem o sofrimento dos que esperam horas a fio nas urgências, dos que esperam meses a fio por uma consulta ou por uma cirurgia, dos que esperam horas a fio por uma ambulância, das que andam em bolandas, de um lado para o outro, até que apareça uma Urgência aberta para poderem ter um filho. Uma lástima.

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O Gouveia e Melo escreveu um artigo no Público que causou alarido, tendo demonstrado de A a Z a incompetência do governo na gestão da catástrofe recente. Embora não tenha dito senão o que todos temos constatado, sistematizou bem o problema: o governo falhou no planeamento, na comunicação,  na cadeia de comando, na logística e  na organização -- enfim, tudo correu mal. Concordo.

Não é uma novidade que este PM e este governo não têm capacidade para gerir crises e ainda por cima não têm a humildade suficiente para aprender com quem sabe mais. Dizem que só os burros não aprendem!

Entretanto, a MAI demitiu-se. Não tinha outro caminho pela frente senão o da porta da saída. Contudo, aqui também não se pode atribuir a responsabilidade a uma senhora que manifestamente não tinha competências e perfil para a função. A responsabilidade de um erro de casting não é de quem é escolhido mas de quem não sabe fazer escolhas. Aliás, já é a segunda ministra da Administração Interna que Montenegro queima. Um bom líder tem que saber fazer escolhas e o Luís manifestamente não sabe. 

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É certo que as tempestades extremas e as consequências devastadoras dificilmente se conseguem travar. Mas tem que haver quem saiba responder às emergências. 

O PM, que já demonstrou várias vezes que não tem jeito ou capacidade para enfrentar problemas complexos, quando se vê apertado pensa que resolve tudo fazendo grandes promessas. Mas depois, na prática, as coisas não acontecem. Sessenta e três por cento das pessoas que deviam receber os subsídios prometidos devido aos incêndios de Agosto ainda não receberam o respetivo subsídio. Mais outra coisa que correu muito mal.

Havendo cada vez mais emergências desta natureza (violentos vendavais, chuvas intensas ou, por outro lado, secas prolongadas e grandes incêndios) seria importante termos um governo capaz, com gente séria, competente, experiente e com humildade para corrigir os erros e para aprender com quem sabe. Mas não temos.

Quando as avozinhas mostram o que é exercer a cidadania

 

Sempre que a democracia ou a liberdade são atacadas há quem considere que, por via das dúvidas, o melhor é não fazer ondas e aceitar o que o agressor quer. Há quem lhe chame querer a paz (ou a paz social) mas, na verdade, a isso chama-se cobardia. Geralmente uma cobardia hipócrita pois traveste-se de uma roupagem que pretende fazer-se passar por moderação, racionalidade ou coisa do género. Mas, pelo contrário, há quem considere que viver sem democracia e sem liberdade é uma porcaria, que isso não é viver nem é nada, que mais vale dar o peito às balas, lutar, lutar, lutar.

E pode lutar-se de muitas maneiras. Uma delas é a cantar. 

As senhoras que se juntaram e que, com o nome de Piedmont Raging Grannies, compõem letras que têm a ver com a actualidade e que, sobre músicas conhecidas, mostram que não se conformam e que o caminho é denunciar, reivindicar, mostrar que não têm medo nem se calam, são um exemplo notável de cidadania e de responsabilidade social.

Nas manifestações de Outubro, geralmente designadas por  #NoKings, aí estiveram elas. Para elas, lutar pela democracia e pela liberdade é uma festa. Grandes mulheres.

Não voltaremos atrás


terça-feira, fevereiro 10, 2026

Seguro & Montenegro
-- A palavra ao meu marido --

 

Votei no Seguro sem entusiasmo mas com convicção. Com o panorama que havia e com os erros cometidos pelo Gouveia e Melo na campanha seria um enorme pesadelo, com consequências de longa duração, termos uma segunda volta entre o Andrézito e o Cotrim ou Marques Mendes. Assim, pelo menos, não temos formalmente a direita em tudo o que é órgão de poder em Portugal. 

Mas é desanimador percebermos, que 50 anos após o 25 de Abril, o PR e o PM são dois indivíduos que, antes de chegarem a estes cargos, não se diferenciaram por quaisquer iniciativas, ideias ou ações. Antes pelo contrário: passaram mais ou menos despercebidos e, mesmo nos respetivos partidos, não eram tidos em grande conta nem considerados quadros com capacidades diferenciadoras. Mesmo quando foram eleitos secretário geral e presidente dos respectivos partidos não geraram grande emoção. Mas a verdade é que as circunstâncias ditaram a chegada ao poder destes indivíduos. 

No caso do Luís, um golpe da Procuradoria e os erros sucessivos da "sumidade" política que é o Pedro Nuno permitiram-lhe ganhar as eleições por uma unha negra. Os factos têm permitido constatar que não tem nem as qualidades nem as capacidades necessárias para exercer o cargo de PM. 

No caso do António José, conseguiu passar toda uma campanha eleitoral a fingir que não existia e aguardou, expectante, que os candidatos que lhe podiam dar cabo da eleição dessem cabo deles próprios. Assim, passou pelo meio dos pingos da chuva e, como teve o apoio unânime e a mobilização do PS, lá chegou a PR. Na realidade, revelou uma perseverança notável que não lhe conhecia. 

Ontem, o Montenegro, com a arrogância que lhe é conhecida, tentou marcar território e sair vencedor, apesar de ter sofrido uma enorme derrota. Em resposta, o Seguro mostrou-lhe o pau e a cenoura. Vamos ver quais são as cenas dos próximos capítulos. É certo que o Montenegro é mau PM. Vamos o que faz o Seguro como PR. Tenho poucas esperanças mas posso estar enganado.

Bella Figura


Ausência de palavras. Vagar. Olhar, apenas. Deixar que a música e o movimento dos corpos faça o seu lento caminho dentro de nós. Só isso.

Nederlands Dans Theatre (NDT) | Peça 'Bella Figura' de Jiří Kylián


A ideia de Bella Figura (1995) é uma parábola sobre a relatividade da sensualidade, da beleza e da estética. Em italiano, “Bella Figura” não significa apenas “bela figura”, mas também representa a resiliência das pessoas perante uma situação difícil, ou “manter a compostura”. Sobre esta obra, Kylián afirma: “Há muito que me pergunto: o que é uma performance e quem são os performers? Quando começa ou termina a performance? (...) Onde está a fronteira entre a arte e a artificialidade, entre a verdade e a mentira? Interesso-me por este mundo “entre”, pouco antes do início de uma performance, quando os bailarinos começam a transformar-se de pessoas comuns em performers. É um mundo em que todo o tipo de realidades se fundem de uma forma imprevisível e surreal.”

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Salve Seguro

 

Era o que faltava se agora aparecesse aqui aos saltos. Sabendo-se o que penso sobre as características da pessoa e sabendo-se que não votei nele na 1ª volta, só se fosse uma mariazinha desmiolada é que agora aqui me mostraria armada em cheerleader, a dançar, a fazer piruetas e a atirar balões ao ar.

Contudo, votei nele agora e votei com toda a convicção e votei desejando que tivesse uma votação que tirasse o tapete ao execrável Ventura.

Portanto, em coerência, aqui estou a declarar-me satisfeita com o resultado, inequivocamente satisfeita, certa de que os resultados que obteve legitimarão sobejamente a sua afirmação como Presidente da República.

Contudo, tenho que dizer que fiquei um bocado apreensiva com o número de votos que o Ventura obteve. Custa-me a perceber que haja tantos votantes que se revejam na hipocrisia, na mentira, na velhacaria, no incitamento ao ódio e à exclusão que Ventura protagoniza. E não apenas me custa a perceber como me parece preocupante. Não podemos estar orgulhosos nem viver descansados sabendo que existem em Portugal mais de 1.700.000 pessoas que se identificam com o que de pior pode existir numa sociedade. 

É certo que mais do dobro disso é gente que defende a democracia e o humanismo. Mas, numas legislativas, com esses quase 3.500.000 divididos por vários partidos e os 1.730.000 concentrados num único partido, há o risco sério de que um dia venhamos a ter uma pessoa maldosa, falsa e perigosa como primeiro-ministro.

Este tema deveria merecer uma séria reflexão por parte dos partidos democráticos.

Deveria também merecer reflexão a atitude de Montenegro ao longo da legislatura: ao vergar-se, com frequência, na direcção do Chega, o que tem conseguido é validar e reforçar as causas do Chega. Com essa atitude apenas está a fazer declinar o PSD e a engrossar as bases do Chega.

E deveria também merecer reflexão por parte da Comunicação Social, que continua a andar com o Ventura ao colo, esperando-o antes da missa, depois da missa, a carregar garrafinhas de água, com um gatinho ao colo, seguindo-o e entrevistando-o por tudo e por nada. Talvez fosse oportuno perceberem que dois terços dos votantes não querem, não gostam, não podem com o Ventura.

Enfim.

Tempos difíceis para o próximo Presidente da República, portanto. Tempos difíceis a nível interno e a nível externo. Fico tranquila por ser Seguro -- e não Ventura -- a ocupar o Palácio de Belém. E espero, francamente, que Seguro se aguente. Duvido que brilhe pois, pela sua personalidade, não me parece que a sua presidência venha a ser exultante, vibrante. Mas a gente vai-se habituando a tudo e, às tantas, resigna-se a não ter um PR brilhante. E, de resto, estou aberta a que venha a ser surpreendida. Tomara que Seguro se revele um lutador, um inspirador, uma mão firme e, ao mesmo tempo, habilidosa. Se isso acontecer, cá estarei para aplaudir e agradecer.

Seja como for, gostei do seu discurso de vitória. Esteve bem.  É certo que não estava à espera que trouxesse para ali temas estruturais, visionários. Por isso, talvez porque temia um discurso redondinho, acabei por gostar. Esteve bem. 

E tem uma família simpática. Parece gente de bem, uma família normal, pessoas agradáveis. A felicidade e o orgulho estavam espelhados nos seus rostos, e gostei de ver isso, em particular a candura da filha, tão contente que estava.

Portanto, resumindo, foi uma boa noite eleitoral.

Parece que está a enviar um beijinho, não parece?
(mas de todas as fotografias que tirei à televisão esta foi a melhor)

Desejo que Seguro tenha saúde e sorte e que o seu desempenho, enquanto PR, seja exemplar e o melhor possível para Portugal, que não nos envergonhe, que nos represente, a todos, de forma decente e abnegada, que saiba puxar pelo melhor de nós, que saiba olhar para o futuro e consiga fazer a interpretação correcta das ansiedades e das ambições dos portugueses, de todos os portugueses, que não ceda ao facilitismo nem receie o murro na mesa se algum dia o tiver que dar.

domingo, fevereiro 08, 2026

E porque é que os monstros ainda andam à solta? Porquê?!

 

Ainda não cheguei ao ponto a que chegou Ana Kasparian mas, tal como ela, estou para além de revoltada, incomodada, enojada. Aquilo que tenho sabido vai para além do que a minha capacidade de entendimento julgava possível. Se antes me tivessem falado das coisas que tenho lido e visto, afastar-me-ia a sete pés, acharia que a pessoa que assim falasse era demente, demoníaca, possuída. Odeio teorias da conspiração, odeio tudo o que me soe a rituais, a macacadas. Não sou capaz de ler livros ou ver filmes de horror.

E, no entanto, o que as imagens contidas nos ficheiros já disponibilizados e os testemunhos e os mails e os relatórios mostram vai para além de tudo o que eu julgaria possível. Diria que só uma mente doente, muito doente, poderia inventar tais absurdos. E, no entanto, ali está tudo. Aconteceu. Milhares e milhares de documentos comprovam-no.

E está tudo, há anos, nas mãos do FBI. 

E os criminosos, os sádicos, as indesculpáveis e malignas criaturas continuam à solta. Não foram levados à Justiça, não estão a pagar pelas inúmeras monstruosidades que levaram a cabo.

Porquê? Porquê, caraças? Porquê?

Sofro pelos horrores que aquelas crianças sofreram. Aparentemente várias foram torturadas até à morte. Não pode haver perdão para coisas tão horríveis.

Todos os que participaram deveriam ser expostos, julgados, condenados, apodrecer na cadeia.

Epstein Files -- As vítimas foram BRUTALIZADAS

O diário de uma vítima autista de Epstein, de 16 anos, alega que o poderoso financeiro Leon Black a brutalizou. Cenk Uygur e Ana Kasparian discutem o assunto no The Young Turks.


A psicologia das pessoas que têm um forte apego aos seus cães

 

O meu filho repreende-me: 'Não fales com ele como se fosse um bebé. Não é. É um cão.'. Bem sei. Mas é também um serzinho dependente de nós, um serzinho que precisa de atenção e de mimo. Claro que depois também é independente, por vezes barulhento, por vezes desaustinado. Mas também nos divertimos com isso. 

E, se o carteiro deixa qualquer coisa, eu sei logo. E, se vem alguém e não ouço a campainha, ele não se cala até eu perceber que alguém está ao portão. E se vou na rua e me cruzo com alguém que, noutra situação, me atrofiaria um pouco, com ele ao meu lado sinto-me segura. 

E a ternura que sinto quando se senta todo encostado a mim e deita a cabeça na minha perna ou quando faz uma habilidade e se vira a olhar para mim enquanto dá ao rabo e todo ele parece rir, isso não tem explicação.

Por isso, no seguimento do post de ontem, não levem a mal se reincido mas gostava que vissem este vídeo:

A psicologia das pessoas que estão profundamente apegadas aos seus cães vai para além da simples amizade. É uma necessidade biológica. Este vídeo explora a neurociência da ligação humano-cão, explicando porque é que o seu cão não é apenas um animal de estimação, mas um "guardião" do seu sistema nervoso.

Se se sente mais seguro com o seu cão do que com a maioria das pessoas, não está sozinho. Neste ensaio visual, mergulhamos nos conceitos de "Corregulação", "Testemunha Silenciosa" e porque é que os cães são essenciais para a estrutura da saúde mental. Discutimos como os cães ajudam a lidar com a ansiedade, a depressão e a solidão, ancorando-nos no momento presente.

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

E hoje uma coisa completamente diferente

 

Não vou falar das árvores que nos caíram, o que tanto desgosto me dá, não vou falar da preocupação, essa sim baseada em dramas de outra dimensão -- por tantas pessoas terem ficado sem casa, tantas empresas terrivelmente danificadas, tantas pessoas ainda sem eletricidade e sem água canalizada, tantas estradas colapsadas, tantas árvores arrasadas, tantas casas completamente alagadas com prejuízos incalculáveis -- nem vou falar de guerras, de escândalos, da miséria moral de tanta gente que deveria ter um comportamento exemplar e que, afinal, como os ficheiros Epstein tão cruamente revelam, são sórdidos, cruéis. Não vou falar de nada que me perturbe.

Poderia falar das presidenciais já que isso não me perturba. 

Não vou votar com entusiasmo, o Seguro nunca me pareceu um personagem inspirador, não me parece que motive alguém. Mas a alternativa é imprestável pelo que se o Ventura fosse a votos com um calhau eu votaria no calhau, se fosse a votos com um buraco negro eu votaria no buraco negro. Por isso, claro que vou votar no Seguro. É decisão tomada. Na primeira volta votei no Almirante e na segunda, obviamente, voto no Seguro (e, claro, que estou a conter-me para não o tratar por ToZé). Esteja frio, chuva ou ventania, claro que vou sair de casa e vou votar. Portanto, isso nem sequer já é tema.

Mas também não é das presidenciais que vou falar.

Vou falar de uma coisa completamente diferente. 

Vou falar de cães. Quando comecei este blog, estava eu ainda no período de luto pela nossa doce cãzinha, a boxer mais querida e mais amiga do mundo, que nos enchia o coração de amor. Toda a família se derretia com ela.

Tal o desgosto com a sua partida que tinha resolvido, em definitivo, não voltar a ter outro cão. Durante anos mantive-me firme. O meu marido também. Ele que tanto gosta de cães, estava também em luto profundo.

Mas, já aqui nesta casa, com os meninos todos a quererem um cão, de repente senti que o meu coração se abria. Enfrentando ainda a resistência do meu marido, fui abrindo caminho. Depois das peripécias para adoptar um cão abandonado e de termos constatado a maluquice que é aquilo, desistimos.

Até que fomos até a um monte alentejano ver um cão bebé, de um pastor. E foi amor à primeira vista. Peguei logo ao colo aquele pequeno tufo de pelo. E ele aninhou-se em mim. Adoptámo-nos instantaneamente. O meu marido enterneceu-se, rendeu-se.

Tornámo-nos inseparáveis.

É um cão temperamental, teimoso, vigoroso, territorial, possessivo, e excelente guardião. Mas meigo, amigo, muito brincalhão, inteligentíssimo. Não passamos sem ele e ele sem nós. 

E estou a falar nisto pois vi um vídeo que me comoveu. Já tinha visto vídeos com esta forma de adopção, em que são os cães que escolhem os seus futuros donos. Mas este é especial. 

Este cão de abrigo rejeitou todas as famílias... e então fez algo que partiu o coração de todos.

Durante oito meses, Max viu famílias passarem em frente ao seu canil. 

Grande demais. Energético demais. Não tem o tamanho ideal. 

Mas a verdade era mais simples: Max não estava à espera de uma família. Ele estava à espera de uma pessoa. Este vídeo conta a história real de um cão de abrigo que recusou todas as adoções, de um menino que teve que ir embora e da promessa que nenhum dos dois esqueceu. Às vezes, os cães entendem a lealdade melhor do que nós. E às vezes, as melhores coisas da vida valem a pena esperar.

AVISO: O vídeo foi feito com o auxílio de inteligência artificial, mas retrata uma situação que realmente aconteceu de uma forma emocionante.


Desejo-vos um bom sábado

Até tu Noam Chomsky, até tu...?

 

Já aqui o tenho referido: sou céptica por formação académica e talvez, até, por deformação profissional. Para mim, nada pode ser dado como certo até que possa ser objectivamente verificado. Só falo numa coisa se antes me tiver certificado que sei do que estou a falar. 

Agora que passamos o dia juntos, o meu marido refere muitas vezes que quando me interesso por uma coisa, me torno obsessiva. Mas não é obsessão e o que for não é de agora, é desde sempre.

Por isso, se vejo uma notícia, tento cruzá-la através de outras fontes. E, nas redes sociais, se vejo qualquer coisa que não tenho como validar, por mais extraordinária que seja e por mais que me impressione, não falo nela.

Por exemplo, nesta hecatombe que são os ficheiros Epstein (os que foram divulgados, apesar de, em significativa parte, conterem muitas componentes ocultadas) não me faço eco de coisas bárbaras e difíceis de aceitar como verdadeiras enquanto não as vejo referidas por diversas fontes que me parecem credíveis. De tudo o que circula sobre rituais satânicos, sacrifícios de crianças e coisas piores (se é que pode haver uma escala de horror em matérias tão devastadoramente cruéis) não falarei enquanto não tiver a certeza de que há veracidade nos testemunhos e nos documentos divulgados. E, mesmo nessa altura, terei que me encher de coragem pois a minha mente parece que se recusa a deter-se em horrores para além do que humanamente suportável. Mas há outros aspectos talvez até acessórios, pelo menos muito menos dolorosos, que me agrediram e que achei por bem não falar no assunto por achar que talvez fosse alguma coisa por validar. Parecia-me inacreditável. Isto é: não dava para acreditar. Aliás, tudo ali é assim: não dá para acreditar. Mas dizerem-me que o Noam Chomsky também era amigo de Epstein parecia-me até ridículo.

Mas, infelizmente, também é verdade. Os mails que escreveu ao amigo Epstein aí estão para o comprovar. Aconselhava Epstein. E, ao contrário de alguns que dizem que se relacionavam com ele antes de ele ter sido preso a primeira vez e, portanto, não sabiam do seu historial de pedofilia, aqui o que há são mails recentes e referem-se mesmo a como Epstein poderia reagir à censura social de que se sentia vítima. 

E se isto pode parecer inócuo face à miséria e à desgraça moral de todos quantos frequentavam as casas (e o rancho e a ilha e os aviões privados) de Epstein, a verdade é que me parece o cúmulo da degradação moral de uma certa elite (elite a nível económico ou financeiro, a nível académico, a nível político, a nível empresarial e, até, a nível intelectual) ter o Chomsky a ser amigo de Epstein. 

Muitas vezes referido como um exemplo de clarividência democrática, Noam Chomsky, para mim, reunia três características raras quando em simultâneo: lucidez crítica, coerência ética e compromisso permanente com o cidadão comum — mesmo quando isso o tornava profundamente incómodo. Sempre apreciei a forma como incansavelmente fez a apologia de que os cidadãos devem compreender os sistemas que os governam e sempre alertou para o facto de que a apatia política é cultivada deliberadamente, sendo que o poder sempre mostrou preferir populações desmobilizadas. Mas apreciava também a sua coerência: Chomsky sempre criticou todos os poderes, não apenas os adversários ideológicos, criticou os EUA quando era impopular fazê-lo e criticou regimes autoritários, mesmo quando isso desagradava à esquerda, e, além disso, recusou privilégios e cargos que lhe dessem conforto institucional.

E agora... afinal... era amigo de Epstein? Como...? Porquê...? Alguém me explica...?

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O e-mail de Noam Chomsky para Jeffrey Epstein vai deixá-lo doente

Noam Chomsky tranquilizou Jeffrey Epstein quando este enfrentava acusações de abuso e tráfico humano

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quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Será que ninguém tem seguro?
-- Quem o pergunta é o meu marido --


Provavelmente este post não vai ser muito popular, mas penso que devemos ser sempre racionais, sobretudo em situações de catástrofe. 

O governo, após a catástrofe, fez aquilo que já tinha feito em situações anteriores identicamente catastróficas: prometeu distribuir dinheiro a todos. 

O governo já tinha demonstrado antes e voltou a demonstrar agora que não tem capacidade para atuar nem preventiva nem atempadamente nestas situações. Os ministros ficam umas baratas tontas sem saber o que fazer; e, finalmente, convocam um conselho de ministros e anunciam que vão dar dinheiro a quem pedir. 

Estou completamente de acordo que seja entregue dinheiro, a fundo perdido, às pessoas que perderam os suas casas ou outros equipamentos e que não têm recursos para recuperarem a dignidade que merecem. Vimos muitos exemplos na televisão. Mas o governo dar indiscriminadamente dinheiro a quem pedir, dizendo que o vai utilizar a recuperar a casa, parece-me pouco avisado, senão, disparatado. 

Embora saiba que a maioria das vezes os anúncios do governo não corresponde à prática, não me parece razoável que um português, talvez, médico, advogado ou dono de uma empresa, receba o mesmo valor que um reformado com uma pensão de reforma miserável. Quem tem capacidade aquisitiva tem disponibilidade financeira para contratar um seguro multirriscos para a habitação, seguro esse que suportará, em princípio, os danos. A anunciada contribuição deve ser dada a quem, de facto, precisa -- e o rendimento colectável não pode ser o fator discriminatório. Todos sabemos que existem portugueses com rendimentos elevadíssimos que declaram ninharias para não pagar impostos. Estes, por exemplo, não devem ser ajudados sob pena do governo estar a promover a injustiça social. 

Eu sei que este governo não tem capacidade para pensar, mas é absolutamente necessário promover a necessidade das pessoas contratarem seguros para estarem protegidas em caso de catástrofe. 

No caso das pessoas que não têm manifestamente capacidade para contratar um  seguro, talvez pudesse haver uma espécie de "seguro social", suportado pelo Estado, que seria acionado em situações semelhantes e que seria utilizado para resolver as situações das pessoas sem recursos. 

E o caso das empresas é semelhante. Uma coisa é o Estado suportar custos com trabalhadores ou disponibilizar financiamento em condições vantajosas  quando as empresas estão impedidas de produzir devido à catástrofe. Totalmente diferente é o Estado (ie, todos nós) suportar custos de recuperação de equipamentos e imóveis de empresas que não têm seguros ou têm seguros desadequados. Esta última situação não é admissível. Veremos no que estas ações impensadas e avulsas do governo vão dar.

Dois outros assuntos interligados. 

  • Os ministros e o PM cada vez que falam dizem asneiras. Hoje a ministra do ambiente veio dizer "que havia toda uma logística associada aos geradores" que impedia que eles chegassem atempadamente onde são necessários. Que surpresa, ficámos a saber que os geradores não se movimentam sozinhos. Quem diria! Não seria nada surpreendente se num ataque de igual "lucidez" a ministra dissesse,  como disse o ministro da economia quando foi o apagão, que estavam a estudar a hipótese de pôr os motoristas do governo e respetivos carros a fazer o transporte dos geradores. Podemos esperar tudo destes tipos. 
  • Outro que também já não surpreende é o Marcelo com as suas tiradas. Dizer pela enésima vez que é "preciso apurar o que correu mal" como já disse todas as vezes, e foram muitas, que este governo "meteu a pata na poça" é o repetir de uma piada sem graça. Alguém sabe o que resultou do "apuramento" das asneiras anteriores e que medidas foram tomadas? Felizmente estamos a pouco tempo de nos vermos livres do pior PR dos últimos cinquenta anos.