Muito bem. Para começar um disclaimer: nunca li nenhum dos livros do Karl Ove Knausgård. Já ofereci, porque ouvi dizer que são bons, mas nunca me aventurei. Grandalhões de mais, ainda desloco um pulso, sei lá. Ou então é porque ainda não me despertaram atenção suficiente. Não faço ideia.
Mas acho que o fulano tem pinta. Já li uma entrevista e achei que tem carisma. Ou, se não é carisma, é qualquer coisa nessa base.
Agora estive a ver este pequeno vídeo e achei graça. Primeiro, ele de facto tem pinta. Ao princípio parece que está ali desorientado com uma farripa de cabelo, dá vontade de lhe sugerir que corte o cabelo à escovinha ou que use bandelete. Depois lá se organiza. Tem pinta. A seguir gosto da forma como está vestido. Não é qualquer um que aguenta uma roupa assim, tudo em escuro, mas ele, com aquele belo cabelo grisalho, com aquela barba e aqueles olhos valoriza qualquer toilette. Mais: não percebo nada do que ele fala mas gosto de o ouvir. Faz-me lembrar a Pipi das Meias Altas. Está bem que ele é norueguês e a Pipi era sueca mas para um mau ouvido a coisa soa parecida.
Depois, gosto do lugar onde ele está a falar, ao ar livre, rodeado de verde.
Finalmente, como, no século passado, gostei de ler a Bovary, gostei agora de ouvir a opinião dele.
E pronto, é mesmo só isto que tenho a dizer sobre a entrevista.
(A fraca erudição não me dá para muito mais -- e quem dá o que tem a mais não é obrigado).
Era uma multidão de soldados empurrando-se uns aos outros. Já não tinham medo. Recomeçavam a beber. Os perfumes que lhes escorriam das testas humedeciam-lhes com grandes gotas as túnicas em farrapos e, apoiados nos dois punhos assentes nas mesas que lhes pareciam oscilar como navios, passeavam os grandes olhos ébrios, para devorarem com a vista o que não podiam agarrar. Outros, caminhando pelo meio das travessas sobre as toalhas de púrpura, partiam a pontapé os escabelos de marfim e os frasquinhos tírios de vidro. As canções misturavam-se com o estertor dos escravos que agonizavam no meio das taças partidas. Pediam vinho, carnes, ouro. Gritavam por mulheres. Deliravam em cem línguas. Alguns julgavam-se nos banhos públicos, devido à humidade que flutuava à sua volta, ou então, vendo a vegetação, imaginavam-se à caça e corriam atrás dos seus companheiros como se eles fossem animais selvagens. Passando de uma para outra, o incêndio atingia todas as árvores, e os altos maciços de verdura donde se escapavam longas espirais brancas pareciam vulcões que começassem a fumegar. O clamor redobrava de intensidade; os leões feridos rugiam na sombra.
O palácio iluminou-se de repente no terraço mais alto, a porta do meio abriu-se, e uma mulher, a filha de Amílcar em pessoa, coberta de vestes negras, apareceu no limiar. Desceu a primeira escadaria que ladeava obliquamente o primeiro andar, e depois a segunda, e a terceira, e parou no último terraço, ao alto da escadaria das galés. Imóvel e de cabeça baixa, contemplava os soldados.
Atrás dela, de ambos os lados, dispunham-se duas longas teorias de homens pálidos, envergando vestes brancas com franjas vermelhas que lhes caíam a direito até aos pés. Não tinham cabelo nem sobrancelhas. Nas mãos faiscantes de anéis tinham enormes liras, e todos cantavam numa voz aguda um hino à divindade de Cartago. Eram os sacerdotes eunucos do templo de Tanit, que Salammbô muitas vezes chamava a casa.
Por fim, ela desceu a escadaria das galés e os sacerdotes seguiram-na. Avançou pela avenida de ciprestes, e caminhava lentamente por entre as mesas dos capitães, que recuavam um pouco ao vê-la passar.
O cabelo polvilhado de uma areia violácea, e apanhado em forma de torre em conformidade com a moda das virgens cananeias, tornava-a mais alta. Tranças de pérolas coladas às têmporas desciam-lhe até aos cantos da boca, rosada como uma romã entreaberta. No peito trazia um conjunto de pedras luminosas, que imitavam na variedade das cores as escamas de uma moreia. Os braços, ornados de diamantes, saíam-lhe nus da túnica sem mangas, estrelada de flores vermelhas num fundo todo preto. Trazia entre os tornozelos uma correntinha de ouro para lhe regular a marcha, e arrastava atrás de si a grande capa de púrpura escura, feita de um tecido incomum, que formava a cada um dos seus passos uma larga vaga que a seguia.
De vez em quando os sacerdotes dedilhavam nas liras uns acordes quase abafados; e nos intervalos da música ouvia-se o débil ruído da correntinha de ouro com o estalido regular das sandálias de papiro.
Ainda ninguém a conhecia. Sabia-se apenas que vivia retirada em práticas piedosas.
Alguns soldados tinham-na avistado de noite, no alto do seu palácio, de joelhos diante das estrelas, no meio dos turbilhões dos incensórios acesos. Fora a Lua que a tornara tão pálida, e qualquer coisa dos Deuses a envolvia como um vapor subtil. Os olhos pareciam fixos no longe, para além dos espaços terrestres.
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A primeira pintura que ilustra o texto é Salammbô de Adrien Henri Tanoux, datada de 1921
A segunda é Salammbô de Alfons Mucha,1896
A terceira é Salammbô de Gaston Bussiere, 1907
As ilustrações de Salammbô são de Lobel Riche
O texto é um excerto do Capítulo 1: O Festim, de Salammbô de Gustave Flaubert numa tradução de Pedro Tamen.
Lá em cima, Dame Kiri Te Kanawa com a London Symphony Orchestra and Chorus interpretam "Aria from Salammbo"
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Para quem não for dado à literatura e prefira rapazes nus a dançarem com uma toalhita acrobática é só descer até ao post seguinte. Uma graça.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.