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quinta-feira, agosto 06, 2026

Cenas da vida conjugal in heaven

 

Olho para a azinheira grande e penso: 'aquele ramo grande ali podia ser cortado, a árvore já se diversificou de uma maneira tal que aquela grande pernada já é dispensável '. Mas depois penso que aquele ramo é, em si, quase uma árvore, não podemos ser nós a ocupar-nos do assunto, não temos uma serra para coisas daquela envergadura. 

Depois, estou a varrer uma zona e penso que os ramos baixos da romãzeira e os do cedro também deveriam ser cortados senão junta-se toda a espécie de folhagem lá por baixo. Vou chamar o meu marido que refila, diz que está ocupado com outras coisas e eu sempre a pedir-lhe para interromper e vir fazer outras. Mas vem. 

Depois reparo que o tamarix tem muitos ramos secos por baixo. Peço para ele cortar também. Diz que não é só cortar, é depois levar lá para baixo, para o infinito monte que se vai formando. Refila. 

Continuo a varrer. Encho não sei quantos carrinhos de mão que depois levo para um canteiro, lá mais abaixo, e onde está caruma e folhagem ajudará a manter a terra mais húmida por baixo. Quem duvidar que espreite o meu Instagram, está lá uma ínfima amostra do muiiiito que carreguei.

Depois peço ao meu marido que tente arrancar a hera selvagem que invadiu o canteiro onde estão os alfazemas, agora já quase expulsos do recanto que lhes era devido. Peço também que tenha cuidado porque ao fundo há uma ivone e ele que não a assassine como assassinou a outra que estava num outro canteiro. Fica furioso, primeiro porque mais uma vez estou a arranjar-lhe trabalho e, segundo, porque diz que lá venho eu, outra vez, com a porcaria da ivone. Não lhe perdoo.  Responde que ela não estava ali a fazer nada. Digo que não se pode pôr fim à vida de uma ivone só porque, na maior subjetividade, se declara que não faz falta. Essa agora. E nós fazemos? 

Portanto, indisposto com a confrontação, deixou grande parte da hera selvagem. Eu acho que tem que se puxar à mão, mas ele diz que eu acho mal. 

Já o luso-fusco vinha tombando quando fui aos figos. Mas, antes de abastecer os saquitos que levava, comi mais de uma dúzia. Ainda pensei que talvez tenham proteína e fibra, que talvez seja uma dieta até interessante. Mas resolvi ser honesta: deve ser só açúcar e aquela barrigada deles deve ser o equivalente a estar a chutar açúcar directamente para a veia e para o perímetro abdominal.

Foi já de noite que vim ocupar-me dos orégãos. Já enchi alguns frascos. Desta vez, até de kombucha usei, acho-lhes piada.

Ainda há mais para esfarelar mas tenho que os deixar secar mais uns dias, pois alguns ainda não se desprendem.

Agora estou a escrever e doem-me um pouco os ombros. Penso que é da força que faço para transportar e, sobretudo, virar e despejar os carrinhos. Ou de apanhar pás e pás e pás e pás e pás de folhagem e terra. 

Ainda peguei num livro mas, ao fim de um bocado, fechei e pensei: 'Caraças, já não há editores que se aproveitem? Só publicam redações infantis?'. Feito com apoio de uma bolsa da DGLAB, ainda por cima. Está tudo doido.

E é isto. Aqui estou no telemóvel, coitada de mim. Quando leio que ainda há quem escreva coisas em papel fico espantada. Eu já só sei escrever no computador. Os dedos sabem o sítio das teclas, andam sozinhos. Aqui é um desatino, esta gaita altera grande parte das palavras que escrevo.  Por exemplo, de cada vez que escrevo 'esta' ele vai e põe-lhe um acento, fica 'está'. E como isto muito mais. Deve ser fácil descobrir onde desactivar está inteligência, mas tenho preguiça. 

Bem. Fico-me por aqui.

Fiquem bem, ok? Divirtam-se.

quarta-feira, maio 06, 2026

Longe da civilização

 

Tem sido o barulho das serras eléctricas. Ontem estávamos, na sala, a conversar, eu e o meu marido, quando ouvimos um estrondo profundo e, ao mesmo tempo, seco. Eu disse: 'Foi abaixo'. O meu marido fez que sim com a cabeça. Tinham abatido o cedro gigante. O barulho sobre a terra foi violento. 

Fui espreitar cá de cima. Estava a olhar para aquele volume de verde sem compreender bem onde começava e acabava a grande árvore, quando ouvi, vindo lá de baixo: 'Olá, menina, boa tarde!'. Apurei a vista. 'Aqui, em cima, no tronco!'. E lá estava ele, o mais acrobático, empoleirado em cima do tronco cortado. Quando viu que eu o tinha descoberto, fez-me adeus, todo orgulhoso da sua façanha. Cá em baixo o outro virou-se e fez-me também adeus. E disse-me: 'Isto vai!'. 

Disse-lhe: 'Vocês tenham cuidado, não se magoem.' Riram-se: 'Esteja descansada. O pior já foi, já lhe cortámos a cabeça'.

Percebi que um tinha trepado a meia altura e tinha serrado a parte que jazia. Mesmo tendo caído apenas meia árvore, tinha sido aquele horrível som cavo, pesado.

Depois disso ainda estiveram durante mais umas duas horas a serrar. Estavam a cortar o tronco, as pernadas, a decepar todo o enorme corpo.

Quando se foram embora, já era quase noite, havia um intenso cheiro a madeira de cedro, um perfume maravilhoso. É, então, esse o cheiro que os cedros exalam ao serem esquartejados...

Hoje, de manhã, quando lá fui ver de perto, o cheiro ainda se fazia sentir mas já não era tão inebriante quanto o da véspera à noite.

O meu marido contou-me que os rapazes, ontem ao fim do dia, lhe tinham dito que, sem aquela árvore gigante, até veríamos melhor o pôr-de-sol, e fez questão de me dizer que concordava com eles. Talvez se veja melhor a linha de horizonte da serra em frente, mas isso não apaga a pena que sinto por termos destruído uma árvore tão vigorosa, tão bela.

Ainda há mais umas quantas para serrar mas já não é crítico nem tem a ver com a Kristin: é uma figueira que secou, um ramo grande de aroeira que está tombado demais, são dois troncos anteriormente cortados e que ficaram demasiadamente a sair da terra. E mais umas quantas pernadas. A serra elétrica do meu marido não tem dimensão ou força para ramos tão grossos. Durante o dia ele anda a desbastar árvores ou arbustos, mas de dimensão mais comedida. 

Há bocado tive um sobressalto. Eu tinha-lhe dito que estava um folhado grande, muito tombado sobre o caminho, ali mesmo em frente, e que ele poderia cortar. Luz verde para cortar coisas é do que ele gosta. Passado um bocado, já ouvi a serra elétrica. Cortou, cortou, e eu nem estava a perceber o que é que ele tanto cortava. Mas estava ocupada com outra coisa, não fui investigar. Quando o meu filho me ligou, fui andar lá para fora enquanto falava com ele, e, para meu espanto, o folhado ainda lá estava. Em contrapartida, um vazio num outro lado. Um vazio difícil de perceber. Só quando acabei a chamada é que perguntei ao meu marido o que é que ele tinha feito. Achou que eu me tinha referido a outro, um que não estorvava nada, enorme, lindo. E deu cabo dele. Ao lado, no chão, um monte enorme. Fiquei para morrer. Nestas alturas só não fico possuída e à beira de apoplexia porque já aprendi a conter-me e a relativizar. Quanto a ele, nunca se dá por achado. Como se não tivesse feito um disparate de todo o tamanho, disse: 'Pensava que era aquele. E também não estava ali a fazer nada.' Respondi que, por essa ordem de razões, também ele, também eu, também tudo e todos não estamos cá a fazer nada. Mas, pronto, fazer o quê?, o mal estava feito. Coração ao alto.

Hoje o barulho foi o da roçadora: silvas, sobretudo. E ainda não estão todas. E ainda falta o tojo. O meu marido disse que ele tinham que ter cuidado comigo pois se eu via que tinham cortado orégãos não iria perdoar. Por causa disso, a produtividade não foi a maior. O meu marido diz que não é assim que as coisas se fazem, que o que se devia fazer era apontar para uma área e dizer: corte. Eu não concordo. Acho que tem que haver uma selecção. Claro que andar com atenção, a contornar os pés de orégãos não deve ser fácil.

Cá em cima, longe de cena do crime, chegava não só o barulho contínuo das roçadoras mas também o intenso cheiro das verduras sacrificadas. É um cheiro bom.

E ainda falta muito mais. Por um lado, sinto que estamos a fazer o que tem que ser feito. Compreendo e constato que, se nada fizermos, a natureza avança e toma conta de tudo. Misteriosamente constato também que este bocado de terra se tornou tão verdejante que, apesar de se terem estado a cortar tantas árvores, pernadas e arbustos, o que se vê e sente é ainda uma saudável mancha verde. Mas, ao mesmo tempo, sinto aquele instinto primário de viver no meio da natureza, de deixar que ela siga o seu curso.

Quando se passam assim vários dias, aqui hibernada, sinto que os conflitos absurdos que homens dementes levam a cabo perdem ainda mais o sentido. A meu ver, todos os esforços deveriam ser envidados para que o planeta fosse fértil, saudável, eterno, um lugar de leite e de mel, um lugar de grande beleza. Sei que isto é conversa de quem não vai além da primeira camada cutânea, de quem desconhece toda a espécie de tormentos e perturbações que habitam a mente de muitos humanos, que a guerra e o apelo pelo mal fazem parte da natureza desta nossa espécie. Mas tenho pena. Tanta ciência, tanto desenvolvimento e, afinal, pouco se encaminhou para extinguir a maldade e a vontade de destruição.

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Estive a ver o vídeo abaixo que gostava que também vissem: vê-se e quase parecem sonhos. Como é possível que ainda haja povos a viverem assim? Como devem ser felizes por desconhecerem a malvadez que se propaga como um vírus daninho nas zonas ditas civilizadas.

Humanos Inacreditáveis ​​​​| 11 Culturas Extraordinárias que Não Vai Acreditar que Existem | 4K

Das tribos que vivem nas árvores da Papua aos nómadas do mar no Sudeste Asiático, dos guardiões do deserto do Saara aos monges espirituais do Butão, a humanidade adaptou-se aos lugares mais extremos e fascinantes da Terra.


Neste vídeo de viagem em estilo documentário, exploramos 10 comunidades extraordinárias:
  • Tribo Korowai (Indonésia)
  • Povo Maasai (Quénia e Tanzânia)
  • Povo Yakut (Sibéria, Rússia)
  • Nómadas do Mar Bajau (Filipinas)
  • Povo Aymara (Bolívia)
  • Povo Moken (Tailândia e Myanmar)
  • Povo Dogon (Mali)
  • Monges do Mosteiro Ninho do Tigre (Butão)
  • Tribo Kogi (Colômbia)
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Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, maio 04, 2026

Quanto custa despedirmo-nos de árvores?

 

Esta tarde estiveram cá uns rapazes ágeis, cheios de força e determinação. Quase conseguiram levar a cabo a tarefa de derrubar todos cedros grandes que estavam tombados. 

Antes, um deles já tinha vindo sozinho, durante dias, e já tinha cortado um deles que estava totalmente caído, a obstruir um dos caminhos, e também uns três ou quatro pinheiros muito altos e secos, um cedro que inexplicavelmente também secou (e que ainda não tinha atingido um porte gigante), um outro que estava bem vivo mas muito tombado, apenas sustentado por outras árvores, pernadas grandes de pinheiros e de aroeiras que se tinham partido. Mas a tarefa de hoje era a pior: cedros enormes, muitos metros de altura, possantes, uma ramagem compacta de alto a baixo -- e inclinados pelo vento, quase a cair.  Tudo fruto da depressão Kristin.

E, entre os dois, conseguiram dar conta de quatro. A complexidade maior, para além da envergadura e do risco de lhes cair em cima, é que estavam entre muretes e em volta de uns muros/bancos forrados a azulejos que importava preservar.

Conseguiram. Mas ainda há muito trabalho pois, para cada um, o grande torrão composto por terra, raízes e parte do tronco, ainda está intacto, um volume compacto, pesado --- e entre muros. Ou seja, um tractor não consegue lá chegar. 

E, para além disso, agora há troncos por todo o lado, ramagens e mais ramagens. 



No fim, teremos que pedir a alguém para cá vir levantar tudo isto. Das ramagens talvez façamos uma queimada. Já estamos registados no portal das queimas e queimadas e solicitamos aprovação. Talvez a família se junte, os meninos gostam de ver a grande fogueira que, em dias assim, se forma. O resto será lenha que alguém um dia consumirá. Nós já não temos onde acondicionar mais. O meu marido já transportou muitos troncos cortados para o telheiro da lenha.

Falta ainda o cedro mais complicado, talvez o mais alto, o maior de todos, que está entre painéis de azulejos. Nem quero pensar. Vê-se da nossa casa, faz parte da paisagem directa, não precisamos de ir passear para lá para o vermos. 

Isso será feito de seguida. Não quero ver.

Destes que já foram abatidos, enquanto os rapazes lá andaram, mantive-me em casa. Ouvia as serras a cortarem em contínuo. Só fui quando se foram embora. 

Uma desolação inexplicável. Onde antes havia uns vultos gigantes, frondosos, cheirosos, há agora o vazio e restos de troncos espalhados por todo o lado. 

Tento abstrair-me, não dramatizar, pensar que acontece. Aconteceu connosco e com tantas pessoas e muito mais grave que nós. Tivemos sorte. Bem sei. 

Mas também sei que antes de ir trabalhar, muito cedo, ia aos viveiros, escolhia as arvorezinhas, depois plantava-as, depois regava-as todas as semanas, fazia uma protecção em volta para o vento não os perturbar, para os coelhos não os comerem. Até que vingassem, tratei deles com cuidado e amor. Anos. Depois senti-me orgulhosa quando os vi, adolescentemente a deitarem corpo, espigados, a crescerem todos os dias. Finalmente, senti orgulho por serem tão fortes, tão belos, a darem aquela sombra com que tanto sonhei, a exalarem a frescura que tanto me reconforta. 

E agora tivemos que os abater.

É a vida, é a natureza. 

E foi também a nossa ingenuidade e impreparação. Sempre adorei cedros e nunca me passou pela cabeça que os cedros não fossem o tipo de árvore mais adequado a um lugar como este. Só depois disto soube que os cedros não enraízam em profundidade, em especial se o terreno é pedregoso. Quando pequenos, de facto deitam raízes para baixo mas, com a idade, quando atingem alturas grandes, estendem as raízes na horizontal. E com o vento a fazer o efeito de vela e as terras molhadas, empapadas, não houve pressão subterrânea para os aguentar. 

Fica a aprendizagem. E fica a memória da sua beleza quando estavam majestosos. 


De qualquer forma, não acabo sem responder à pergunta que formulei no título: Quanto custa despedirmo-nos de árvores?'. Custa muito.

segunda-feira, abril 13, 2026

Um domingo com árvores abatidas, com a feliz vitória da democracia e da liberdade europeia na Hungria, com o impasse na estúpida guerra que Trump desencadeou contra o Irão e com Israel a continuar a mostrar que é quem manda nos Estados Unidos

 


O domingo amanheceu muito cedo, cedo demais, e logo depois já se ouvia o barulho em contínuo da serra elétrica. Começaram a ser cortadas as árvores que tombaram ou que estão em vias disso na sequência da tumultuosa Kristin. Aliás, hoje ventava de tal forma que, sempre que passava sob as agitadas copas, me interrogava sobre a minha segurança e a de quem por ali andava a serrar os tão amados troncos. Mesmo os cedros e pinheiros que secaram, provavelmente por terem estado tanto tempo com as raízes encharcadas, também já começaram a ser abatidos. Onde havia árvores grandes e frondosas há agora espaço vazio e, ao olhar para esse espaço sem nada, sinto tristeza..

E ainda faltam as árvores maiores, os cedros gigantes, os que estavam dispostos em lugares estratégicos e que maiores dificuldades vão colocar ao seu abate e remoção. Temos mais uns fins de semana destes pela frente.

Tento colocar o coração ao alto. Os paisagistas que cá estiveram foram consensuais: nesta terra pedregosa mais vale contentar-nos com árvores autóctones do que alimentar o sonho de ter belas árvores que, aqui, serão sempre vulneráveis. Os cedros gigantes enraízam superficialmente, sobretudo em terrenos pedregosos. Por isso, quando estão muito grandes, se o vendo os faz flectir, por pouco que seja, o seu centro de gravidade não é sustentado por um enraizamento profundo. E tombam, levantando por completo as raízes. Com os pinheiros não é a mesma coisa, creio que, por um lado, é o mal que lhes dá. Ou a vulnerabilidade face ao excesso de água. Não sei. Não caíram, simplesmente secaram. Mas isso aconteceu sobretudo com os bravos. Os pinheiros mansos estão bem e os outros, de que não consigo lembrar-me do nome, também.

E as azinheiras e as aroeiras e as figueiras bem estão. Portanto, festejo o que está bem e tento aceitar com naturalidade que o ciclo de vida das outras chegou ao fim.

E, como esteve muito frio, estive mais tempo dentro de casa. E até fiz um chá e tudo. Só não acendemos a lareira porque, afinal, psicologicamente já nos estávamos a sintonizar com uma primavera quente. Este retrocesso climático não deverá levar-nos ao saudosismo da lareira.

Além disso, a madeira dos cedros e dos pinheiros não é boa para as lareiras, tem resina de mais.

Enfim, adiante.

Sobre o que por aí se vai passando um ou dois apontamentos:

Hungria

A derrota de Orbán é uma boa notícia para a União Europeia, para a Ucrânia, para a democracia. Ouvir uma multidão, em festa, a aplaudir Péter Magyar e a gritar a uma só voz Europa, Europa, é qualquer coisa de emocionante. A Europa é o berço, o refúgio, o chão e o tecto de quem, por estas nossas bandas, defende a democracia, o humanismo, o desenvolvimento, a liberdade, o Estado de Direito, a paz, a ética, a verdade. Que a Europa, livre e democrática, nos acolha, nos abrace, nos defenda, nos ampare.

Ao mesmo tempo, a derrota de Orbán é uma derrota para Putin, para Trump e para o oportunista e vira-casacos J. D. Vance, é uma derrota para Ventura e para todos os populistas de extrema direita que têm vindo a pulular na Europa à garupa do que julgavam ser a tendência vencedora Trump/Órban.

A caguada quase galáctica armada pelo idiota do Trump

 (nb: caguada com u para não ser um nome feio)

Ele não quer que se lhe chame guerra pois, para ser guerra, tinha que ter sido aprovada pelo Congresso. Como vai muito para além de uma operação especial ou de uma pequena excursão, como ele se lhe refere, prefiro chamar o que é, uma caguada em três actos.

O burro meteu-se nesta alhada, a reboque do outro que o tem na mão, e agora não tem como sair. Ele bem quer pirar-se de qualquer maneira, deixar tudo ensarilhado, e, como se fossemos todos tão burros e malucos como ele, dizer que ganhou. Só que o outro, o que o tem na mão, diz que espera lá aí: não sais, não senhor. E, para provar que não sai, não senhor, continua a bombardear tudo e mais alguma coisa, sobretudo o sacrificado Líbano, mesmo enquanto duram umas pretensas negociações com o Irão.

Para essas negociações, enquanto para representar o Irão, foi um grupo de homens feitos, com formação e experiência, para representar os Estados Unidos foi a tropinha fandanga do costume, a saber: o sinistro genro, o tipo de imobiliário e o totó do J.D. Vance. Enquanto para negociações similares em circunstâncias muito menos limites, outros levam meses ou anos, mas, vá lá, dada a urgência, no mínimo semanas, aqui julgavam que iam conseguir chegar a acordo em 21 horas. Como não conseguiram, vieram-se embora. E o paspalhão-mor, o doente Trump, ameaçou bloquear o bloqueado Estreito de Ormuz que, antes da monumental caguada, estava aberto. Uma tragicomédia que vai paa lá de ópera-bufa, mais parece um teatreco desconchavado engendrado por malucos internados num hospício para dementes encartados.

Qualquer dia nem é uma questão de ninguém conseguir pagar o combustível, é mesmo que não há. Escassez pura e dura.

Não se sabe qual a saída para isto. Airosa não há, mas mesmo que pouco airosa, não se vislumbra.

No meio disto, a esfíngica Melania veio fazer aquela conferência solene que, até hoje, ninguém conseguiu descodificar. Dizem que  uma ex-amiga dela, dos tempos de Epstein, ex-mulher de um grande amigo e apoiante de Trump, ameaçou pôr a boca no trombone e fazer revelações que vão mostrar o que é a verdadeira escumalha, e que, para se antecipar e mostrar que a escumalha não é ela mas, sim, o pato cor de laranja, Melania se antecipou. Mas há também quem diga que foi a Melania que já não pode com o marido e resolveu apertá-lo onde a ele lhe dói mais. Mas também há quem diga que foi Israel, que tem o casal na mão, que a obrigou a ela a ir pregar um susto ao marido para ele perceber que Israel é que manda e que, se ele quiser agora mijar fora do penico, ai ai, que eles pegam no material incriminatório que têm e o põem na prisão em três tempos. Who hnows...?

Um dia, presumo que não longínquo, teremos documentários, dramas e comédias sobre este período rocambolesco da história do mundo. E, muito provavelmente, em todos teremos o venal e idiota Trump retratado como estando simultaneamente nas mãos da Rússia, da China, de Israel e de Melania. Todos com material mais que suficiente para o chantagearem e o levarem a fazer todas as borradas a que vamos assistindo. Claro que tudo devidamente condimentado com o seu narcisismo e a sua demência. Ou seja, um filme.

Seja como for, por crime grosso de envolvimento com menores ou por desencadear uma guerra não autorizada, ou por estar a dar cabo da vida dos americanos ou por muitos outros motivos, parece que reina a agitação entre os republicanos. Preveem que não tarda se vão ver livres dele e já anda cada um para seu lado a ver se se organiza face ao tão esperado day after. Uns andam a arranjar maneira de o tirar rapidamente da Casa Branca, outros aguardam que a solução chegue por outra via: como vaticina um médico americano, esperam que um dia destes ele se engasgue de vez com um hamburguer ou, então, cometa um erro tão grave, tão grave, que tenham que interná-lo à força.

Eu, por mim, só mais modesta, gostava mesmo é que o mundo voltasse a ser como o era nos tempos em que a Rússia ainda não tinha invadido a Ucrânia, que Israel ainda não tinha destruído Gaza e agora o Líbano, em que Trump não tinha tido a sua 2ª e inexplicável vitória. Será que é pedir muito?

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Amanda Ungaro ameaça expor as ligações ocultas de Melania Trump nos arquivos de Epstein

A modelo brasileira Amanda Ungaro ganhou destaque nos media internacionais depois de alegadamente ter ameaçado "expor" informações relacionadas com Melania Trump, na sequência da negação pública da modelo de qualquer ligação a Jeffrey Epstein.

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Desejo-vos uma boa semana

terça-feira, abril 07, 2026

Instintos

 

Se cada um de nós é uma improbabilidade, um milagre, o que acontece à nossa volta não o é menos. Como as células se dividem, multiplicam, agregam, ajeitam, e, no fim, surpresa, surpresa, sai um patinho, um peixinho, uma baleiazinha -- milagres. E como, uma vez nascidos, logo começam a respirar, a alimentar-se, a movimentar-se. E como se fazem à vida e, logo depois, se reproduzem e continuam o ciclo vital. Milagres.

E o mesmo, mais coisa menos coisa, com flores, árvores. Tudo se reproduz, tudo se alimenta, tudo sabe como sobreviver.

O vídeo que abaixo partilho é daqueles que, de tão simples, poderia servir para contar uma história infantil. Os patinhos-bebés que falam entre si mesmo antes de nascerem, a mamã pata que sabe que tem que arriscar e levar os seus filhos a aprender, a procurar comida, os filhotes que se inquietam quando a mamã-pata os deixa, e como, percebendo que têm que se afoitar, se atiram do precipício para a procurar. Tudo muito belo, muito comovente. O instinto da maternidade e da sobrevivência aqui, de forma cristalina -- instintos vitais.

A vida começa depressa para estes nove patinhos

domingo, abril 05, 2026

Renascimento

 

Dias de labuta, apetece-me dizer. Mas não digo, não gosto de exagerar. Nem gosto de apresentar como obra feita o que é, sobretudo, um desejo. Para onde olhe, vejo coisas que precisam de ser feitas.

Longe vão os tempos em que, ao contrário da maioria das pessoas e, em particular, a minha família, eu estava bem era com obras. Adorava idealizar, ter cá o senhor das obras, mostrar-lhe as minhas ideias, os meus desenhos que ele não percebia e fazia-os ele, à sua maneira, com um bocado de tijolo riscando o cimento ou um pau riscando a terra. E depois ver a evolução, montes de areia e brita, sacos de cimento, pilhas de tijolos. Era a minha praia.

E chegávamos ao fim de semana, depois de uma intensa semana de trabalho, e depois de um bocado a dormir (a bateria descarregava, ia abaixo, mas dormia um par de horas a mais e, num instante estava recarregada), varrer, lavar, sacudir tapetes e cobertas e colchas, e, à noite, pintar ou fazer de arraiolos até ser quase de manhã. 

Agora está bem, está... Olho para o muito que há para fazer e penso que não tenho energia nem para um décimo. É que, ainda por cima, dantes a natureza ainda estava a desenvolver-se, era vê-la a crescer. Agora desenvolveu-se, avança, cresce, e há que arranjar, abrir espaço, cortar, limpar. Tudo muito mais que antes. Ou seja, é um misto disso e da minha genica que já não é a mesma que antes.

Fomos almoçar fora. Descobrimos uma tasquinha simpática numa aldeia não muito longe. Come-se bem. Para começar, havia uma tacinha de azeitonas temperadas e uma cesta de pão variado. Num ápice voou tudo. Adoro pão com azeitonas. Depois pedimos uma entrada de ovos com farinheira. Óptima. Ovos macios, cremosos, pouca farinheira, salsa picadinha. A seguir mandámos vir bochechas assadas, uma dose para cada. Mas, nessa altura já apenas consegui comer duas, e eram pequenas, com salada, um arroz soltinho e umas batatas estaladiças. O meu marido, salvo erro, ficou-se por três. Pedi que pusessem o remanescente numa caixinha. Ainda dá uma refeição para um, nas calmas. Depois um petit gateau de chocolate do Dubai, quentinho, com gelado de pistaccio. Bem bom. 

Resultado: ao jantar apenas comi um pouco de iogurte grego natural, a que misturei sementes e um kiwi com um pouco de burrata. Mas, ainda assim, sinto que engordei cinco quilos. No mínimo.

Quando chegámos do almoço, fomos estender a roupa que eu tinha deixado a lavar.

A seguir, deitei-me debaixo da meia sombra da figueira e quase adormeci. Um dos lençóis estava estendido na corda que vai de um ramo da figueira até a um gancho no telheiro e, por isso, a aragem trazia-me o perfume bom do lençol lavado.

Mas foi sol de pouca dura pois sabia que havia muito trabalhinho à minha espera. Não apenas estava só a ouvir chegar mensagens como não queria deixar passar a tarde.

Varri, varri, varri. Bolotas secas, folhinhas secas de azinheira, caruma, pinhas roídas e secas. Mais a terra que se junta. Não sei quantos carrinhos de mão enchi e transportei e despejei. 

Parei já era quase de noite, e parei não porque já estivesse tudo feito mas porque receei que amanhã não conseguisse mexer-me.

Mas olho e vejo árvores que precisam de ser desbastadas, arbustos que rebentam demais, caminhos a precisarem de ser limpos. E dentro de casa há rodapés que, em algumas zonas, deveriam ser retocados. Sei lá. Sempre coisas para fazer. 

Ontem, quando se ligou a luz da cozinha, disparou o quadro elétrico. Percebemos, depois, que a lâmpada do candeeiro que está sobre a mesa, se tinha fundido. Mas pior, o casquilho parece que derreteu e não se conseguia tirar de lá. De cada vez que se ligava, o disjuntor disparava. Eu com uma lanterna e o meu marido em cima de uma cadeira a ver se conseguia sacar aquilo. Não conseguiu. Teve que tirar o candeeiro do tecto. Provavelmente com as humidades dos dias de muita chuva aconteceu alguma coisa. Agora, à noite, estamos à meia luz. Teremos que ir ver se encontramos uma peça que sirva de casquilho e se adapte àquele candeeiro. Ou seja, insignificâncias -- mas o pior é que, insignificâncias ou não, há sempre qualquer coisa mais para fazer.

E este domingo, logo de manhã, vem cá um senhor para dar um orçamento para tirar os cedros gigantes que tombaram ou caíram ou estão em vias disso e mais os pinheiros e mais roçar o tojo e etc. Não dá muito jeito, na manhã de domingo de páscoa, mas parece que é quando lhe dá jeito; por isso, muito bem, que venha. 

Nem quero pensar que me vou despedir de árvores que plantei, mínimas, e que agora têm muitos metros de altura e que não têm salvação possível. Uma dor de alma. 

E não sei se o excesso de água não continua a fazer estrago pois há mais um cedro e dois pinheiros completamente secos. Imagine-se: água como nunca se viu e as árvores secas. E mesmo um eucalipto gigante está com ar stressado, meio ressequido. A natureza tem coisas... Há que compreender e respeitar, bem sei. Mas o problema é que há coisas que custam a compreender. 

De qualquer forma, talvez para me consolar, penso que outras árvores crescerão, que a vida continuará como sempre continua, renascendo todos os dias.

E, enfim, é o que é. Os pássaros estão em festa, cantam, cantam. Esquilos é que nem sinais deles. Sempre gostava de saber onde é que, de vez em quando, se metem.

E eu chego a esta hora com sono. Mais uma vez não vou agradecer os comentários, um a um. Agradeço aqui colectivamente. É uma e tal da manhã e amanhã tenho que pôr a carne no forno cedo, para assar de vagar. E estar pronta quando vier o senhor. E o que me custa já levantar-me cedo...

O meu marido, há bocado, esteve a falar-me de umas coisas interessantes da Arte da Guerra, de Sun Tsu. Perguntou-me se eu sabia há quantos anos foi escrita. Respondi que talvez para aí há uns mil e tal anos. Não, foi escrita há mais de 2500 anos. Estava a fazer um paralelismo, por contraste, com os idiotas que agora não sabem causar outra coisa senão destruição e morte. Perguntei-lhe se não queria escrever um post sobre isso pois parecia-me bastante interessante (e eu, confesso, estava com preguiça de escrever, apetecia-me continuar a reler o Louvor da Terra de Byung-Chul Han). 

Mas ele também teve preguiça, também estava com sono, já foi dormir... E, por isso, aqui estou eu. Não tenho nada de interessante a reportar, só isto mesmo, mas a vida no campo também é um bocado isto, as pequenas coisas que vão surgindo todos os dias ou as pequenas conversas que se vão tendo.

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Desejo-vos um belo domingo

Que renasça a esperança em melhores dias, que renasça a paz onde hoje há guerra

Que a vida nos sorria a todos

terça-feira, março 24, 2026

Era uma vez um gorila chamado Pablo

 

Quando eu era pequena lia muito. A Menina Aguaceiro em diversas peripécias, A Princesa da Lua e tantos outros. Mas um conduzia-me a um mundo de sonho, o reino das mais que mil maravilhas: um sobre o fundo do mar. Seres extraordinários, coloridos, mutantes, algas e corais, rochas, tudo um fascínio. Mais tarde, bem mais tarde, veio A vida na Terra que, pela mão de David Attenborough, nos mostrava tudo o que de belo a terra tem e que, na maior parte das vezes, não está ao alcance do nosso olhar e, tantas vezes, do nosso conhecimento.

A inconfundível voz de Sir David Attenborough, que se enleava nas folhagens, sussurrava para não incomodar os espécimes que observava, que quase se toldava de emoção quando presenciava os milagres da natureza, passou a ser uma voz familiar na nossa casa, como, estou certa, em muitas casas. Não é apenas encantamento que percebemos nele, é também respeito. E prazer da partilha. 

Com 99 anos certamente muito bem vividos, ele é um exemplo de persistência, de gosto pela aventura, de disponibilidade e capacidade de devoção à natureza. 

Talvez por isso, a sua participação em documentários é um selo de qualidade.

Uma História de Gorilas: Contada por David Attenborough | Trailer Oficial | Netflix

Neste documentário intimista, David Attenborough conta a extraordinária história do seu primeiro encontro com a cria de gorila Pablo, como este gorila cresceu e se tornou um macho dominante da raça Silverback, e como estão os descendentes diretos de Pablo nos dias de hoje. Repleto de comportamentos extraordinários de gorilas nunca antes filmados, este é um relato de esperança e alegria.


sábado, março 21, 2026

Lagostins, camaleões e outros mistérios

 

Voltou a chover e os campos, ainda mal refeitos da sopa em que se viram convertidos durante o comboio de depressões que nos assolou, voltaram a rejeitar a ingestão de água, e os regatos e laguinhos voltaram a aparecer. E, com as superfícies de água, voltou o mundo virado do avesso. 

Fotografo as árvores com a copa para baixo, a copa ali mesmo a meus pés. Se me baixar, posso tocá-la. Encanto-me com as suas cores. Tingida pelo ocre das terras, as árvores, assim mergulhadas nos charcos que voltaram a formar-se, mostram-se quase rubras, e eu acho-as lindas, e não sei se gosto mais das que estão de pé, a copa verde a procurar o céu, se destas, deitadas na água, efémeras, coloridas.

Caminho devagar, observando cada pequena coisa, fotografando.

Contei no vídeo que coloquei no Instagram que, no outro dia, quando a terra já estava seca mas ainda coberta de limos secos e eu, como sempre, por ali andava a ver tudo ao pormenor, vi uma coisa que destoava. 

Por vezes tenho a sensação que a minha cabeça funciona quase como uma máquina que, de forma automática, procura o que foge ao padrão. Sendo míope, sempre me espantou como consigo detectar pequenas coisas improváveis. Acontece a mesma coisa a detectar erros ortográficos. Quando me enviavam relatórios ou power points para eu dar uma vista de olhos antes de serem disponibilizados ou enviados (pois eu não concebia que das minhas áreas saíssem documentos com erros), eu passava os olhos pelas páginas sem as ler e, sem saber como -- e deixando os outros boquiabertos -- descobria quase instantaneamente palavras mal escritas ou mal acentuadas. Só depois de feitas as correcções, eu me preocupava com o conteúdo. Diziam que eu tinha um radar de alta precisão. É daquelas coisas que pode ter alguma graça mas que, vendo em perspectiva, não serve de grande coisa (até porque alguns dos destinatários, ao verem as palavras bem escritas, se calhar achavam que estavam erradas; por exemplo, nos últimos tempos, palavras como 'far-se-ia' passaram a ser ditas e escritas como 'faria-se' tal como 'preparamos' passou a ser escrito como 'prepara-mos').

Claro que, quando, à posteriori, calha reler o que aqui escrevo e detecto trocas ou duplicações de letras ou pontuação deslocada, fico incomodadíssima. Um texto com erros é como uma roupa com nódoas -- uma vergonha. Infelizmente, não me serve de emenda. Gosto de escrever, escrevo depressa e, mal acabo, lá vai disto, publico. A questão é que, assim que acabo de escrever, já não estou nem aí e, ainda por cima, geralmente já estou perdida de sono e sem cabeça desperta para me pôr a ler o que escrevi. Só tenho é que vos pedir desculpa quando isso acontece. 

Mas, dizia eu, estava a caminhar por ali, vendo florzinhas, pedrinhas, fotografando tudo, quando a minha atenção foi chamada por uma coisa não identificada um pouco mais à frente. Aproximei-me. Baixei-me, intrigada. Pareceu-me um grande camarão, uma gamba. Fotografei. 

Estava no que, dias antes, era o leito de um regato que se tinha formado com a chuva. O solo estava coberto de lama e limos sexos. Chamei o meu marido. Disse: 'É um lagostim'. Pensei que não podia ser. Um lagostim vindo de onde. Se por ali houvesse algum lago permanente, algum riacho ou alguma coisa permanente ainda admitia que tivesse vindo com a chuvada. Mas ali não há nada. Com a chuva intensa formaram-se charcos pois a terra ficou saturada. Mas antes das chuvadas era terra seca.

Submeti a fotografia ao gemini e ao chatgpt e foram unânimes: lagostim de água doce. Ora de onde veio, onde nasceu? 

Não é extraordinário?

A natureza maravilha-me. Há um mistério subjacente a tudo, milagres permanentes. 

O vídeo abaixo é outra maravilha. Tudo fantástico: desde a própria compleição dos animais, as cores perfeitas e mutantes, a forma como interagem, as reacções, a graça da 'maternidade', a resistência miraculosa dos recém-nascidos, a atenção da mãe, a forma como se procuram. Tudo incrível, tudo muito belo, tudo inexplicável à luz das mais elementares leis das probabilidades.

Camaleão dá à luz crias vivas nos ramos | Vida a Sangue Frio | BBC Earth

Num mundo cheio de perigos, este camaleão anão sul-africano desenvolveu uma forma incrível de proteger os seus ovos. E uma forma notável de dar à luz também...


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Desejo-vos um bom sábado

domingo, janeiro 18, 2026

Komorebi

 

Acabei de ter uma grande alegria. Aprendi uma coisa e percebi que, na volta, não sou maluca de todo.

Vou contar-vos. 

Tenho um hábito, coisa muito minha, que me leva a ficar a olhar para os muros, para as paredes, para o chão, e que me deixa encantada. É como se o mundo dito real, palpável, se desdobrasse em vários outros, ao mesmo tempo efémeros e imarcescíveis. 

Se tenho comigo o telemóvel, fotografo. Senão, muitas vezes vou a correr buscá-lo. Dantes usava a máquina fotográfica, mas tantas se estragaram que desisti. O telemóvel serve bem. Então fotografo o que me encanta. 

Mesmo à noite, quando vamos passear com o cão, deixo-me ficar para trás para fotografar. Fotografo a sombra que a luz dos candeeiros projecta nos muros, fotografo as árvores contra o céu escuro, quase a sombra que as árvores nocturnas espelham no céu. 

Esta fotografei há pouco, achei-a linda

O meu marido apressa-me, não lhe parece bem que, à noite, as ruas vazias, e isto já para não falar no frio ou na chuva, eu atrase a marcha, me demore, me deixe ficar sozinha. Dantes perguntava o que é que eu estava a fotografar. Agora já se deixou disso. Quando perguntava, muitas vezes eu respondia: 'Nada'. E não era para ser antipática, era mesmo porque achava que ele não ia achar muito lógico se eu dissesse  que estava a fotografar sombras. 

Tenho incontáveis fotografias disso: a sombra que as coisas fazem. A sombra fugaz. Daí a instantes, a posição relativa das coisas face ao sol (ou ao foco de luz) estará diferente, as sombras estarão diferentes ou inexistentes. Ou se o vento agitar as coisas, a sombra perderá a sua nitidez. Adquirirá então movimento, tornar-se-á fluida, ainda mais lábil.

Não comentava com ninguém, ou até escondia, este meu encantamento. Achava que, se falasse nisso, as pessoas achariam que eu não era boa da cabeça e eu teria dificuldade em rebater, se calhar é mesmo pancada. Se me dissessem que eu estava a enaltecer uma coisa banal, uma coisa a que qualquer pessoa normal não atribuiria qualquer relevância, iria pôr-me a falar da beleza poética do que é imaterial, do que não deixa rasto? Estaria a enterrar-me ainda mais, não é?

Mas eis que agora me aparece um vídeo em que se dá um nome a isto. Komorebi. A luz do sol filtrando-se através das árvores. Ou seja, não apenas não é maluquice minha como até tem um nome. Adorei o vídeo: fala-se sobre o assunto, fala-se da beleza das sombras etéreas, intangíveis, móveis, belas, fala-se do que se pode contemplar em silêncio, do que se pode sentir dentro de nós. 

A beleza do Komorebi: como os japoneses veem a luz filtrada

Komorebi é uma palavra japonesa que descreve a luz solar a filtrar-se pelas árvores.

Neste vídeo, exploramos a beleza do komorebi e como os japoneses veem a luz filtrada não apenas como algo que vemos, mas como uma experiência serena de tempo, natureza e presença.

Das florestas e ruas da cidade à arquitetura, jardins de chá e vida quotidiana, o komorebi revela uma forma delicada de perceção do mundo. Ele lembra-nos que a beleza não exige atenção. Ela espera por ela.

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E bora lá votar.

E um belo dia de domingo

quinta-feira, dezembro 11, 2025

Espelho meu, espelho meu... há alguém mais inteligente do que eu... ?
-- Há. Qualquer polvo.

 

Nada nos polvos é normal... eis porquê

No vasto oceano da evolução, poucas criaturas quebraram as regras com tanta ousadia como o polvo.

Com três corações, sangue azul e um sistema nervoso que desafia todos os padrões biológicos, o polvo redefine o significado de inteligência.

Cada braço pensa por si. Cada ventosa pode sentir o sabor, tocar e decidir. Pode desaparecer à vista de todos, mudar de forma, mudar de cor e textura e até imitar outras espécies — desde peixes-leão venenosos a serpentes marinhas.

Isto não é apenas adaptação. É a rebeldia contra o projecto habitual da natureza.

Neste episódio, mergulhamos a fundo na inteligência alienígena do polvo — explorando como a evolução criou uma mente tão estranha que os cientistas a consideram o mais próximo de encontrar um alienígena na Terra.

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🧠 De escapar de potes selados a resolver puzzles, da camuflagem à consciência — descubra porque é que esta criatura pode ser o maior erro da evolução... ou a sua maior obra-prima.

domingo, outubro 26, 2025

A arte de que se tem dúvidas.
A natureza de que não se pode ter dúvidas: é arte em estado puro.
E a história do bravo quase-lobo que vai avançar sobre a enigmática e poderosa FLOTUS, obrigando-a a falar sob juramento

 

Dia de visita às artes, no Drawing Room na SNBA, sempre com aquele misto de perplexidade e interesse. Por um lado, face a muitas obras expostas, aquela eterna dúvida: é isto arte? não é isto uma preguiçosa maneira de tentar ganhar a vida? É isto, ao menos, bonito? ou interessante? Por outro, face a outras peças, a curiosidade, o gosto de olhar, a vontade de perceber como foi feito, por vezes até uma certa vontade de possuir.

É certo que não haverá áreas em que a subjectividade mais impere do que na arte. Por isso, é território arriscado, este. Do que eu gosto há quem se ria. No que eu não gosto há quem invista muitos milhares. Por isso, a mim própria me obrigo a bater a bola bem baixinho.

E, além disso, em lugares assim não é apenas a arte que se pode olhar, é também a graça de observar a fauna que se move em torno das galerias, dos artistas, incluindo os próprios galeristas e pintores. Há qualquer coisa que os distingue, que os aproxima entre si. Eu não me aproximo. Não gosto de conversar sobre arte. Para mim, não há conversa possível. Gosto de ver, gosto de me chegar perto ou de ver de longe, mas pouco mais do que isso. De quem eu gostava de ouvir falar era a Paula Rêgo. Falava displicentemente do acaso subjacente, de como apareciam aqueles personagens ou adereços, quase por acaso. Uns tomates pintados ao pé da cama só porque sim, só porque aquele espaço estava vazio e uns tomates ali ficariam bem. Não tinha paciência para alimentar dissertações.

E se isso era assim quando os quadros dela tinham personagens, tinham acção ou intensidade, imagine-se qual o sentido de dissertar sobre pinturas em que aparecem três manchas e dois riscos. Ou na tela grande, cinco pequenos salpicos. Não estou a exagerar. Que se pode dizer sobre obras de 'arte' desse calibre? Falar sobre isso é da ordem da fantasia, mas uma fantasia que só pode fazer sentido na cabeça de uma mente sub-ocupada. Só me apetece dizer para irem dar banho ao cão.

Enfim. 

Tenho ainda a registar o facto já aqui trazido algumas vezes. Não sei qual a explicação mas sei que é um facto: todas as pessoas que conheço de as ver na televisão, quando as vejo ao vivo verifico que são minúsculas. Hoje mais um. Imaginava-o grande. Talvez por ser desenvolto e por na televisão se mostrar uma figura com uma certa presença, imaginava-o grande. Não senhor, pequenino. Nada contra, nada mesmo. Só o refiro porque não percebo o fenómeno: parece que a televisão faz as pessoas parecerem maiores.

Tirando isso, a natureza. A bela natureza. As cores que se mesclam, a luz que as folhas guardam dentro de si, os tons que evocam o pôr do sol, agora que os dias estão tristemente pequenos. 

Debaixo desta chuvinha mansa, os líquenes saem à cena, os musgos aparecem, a caruma, ensopada, fica macia. Os passarinhos cantam, cantam. Uma paz acolhedora.

Caminho enlevada, fotografo e faço vídeos com tudo, tudo me encanta. As cores exuberantes que agora despontam fazem esquecer a secura dos dias em que os grandes calores ressequiram a terra. Os verdes estão de volta.


Ando debruçada à procura dos primeiros cogumelos, mas ainda não apareceram. Anseio por eles. É sempre um deslumbramento, um espanto perante o milagre que é ver aquelas criaturas silenciosas a levantarem-se da terra.

Agora, enquanto escrevo, uma coruja pia na noite escura. Gosto do seu canto.  É solitária. E noctívaga como eu.
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Entretanto, estive a ouvir o Michael Wolff. Autor de vários livros sobre Trump para os quais recolheu testemunhos de meio mundo e se tornou confidente de muita gente, Michael Wolff gravou muitas horas de conversa com Epstein, durante as quais o tema era Trump, Melania Trump e etc. Sem receios, tem divulgado muitos dos segredos que Epstein lhe contou, revelou as fotografias que viu com Trump com miúdas pequenas em topless ao colo, etc.

Pois bem. Nas costumeiras manobras de silenciamento de quem diz coisas desconfortáveis de qualquer dos membros do casal Trump, desta vez foi Melania que processou Michael Wolff por difamação, avançando com um pedido de indemnização de um bilião de dólares. Fazem isso embora saibam que não ganham, fazem isso apenas para intimidar os processados, para os calar, e para que, numa de acabarem com a perseguição, os processados aceitem fazer um acordo no decurso do qual os Trumps sempre ganham qualquer coisa. E com isso vão ganhando, no total, mais uns milhões. A ganância e a falta de escrúpulos daquela gente não têm limites.

Só que, desta vez, o tiro lhes saiu pela culatra. Michael Wolff virou a mesa e avançou ele com um processo contra Melania, por tentativa de lhe restringirem a liberdade de expressão. Desta forma, em tribunal, os factos vão vir para a barra dos tribunais e se verá se há difamação, ou se apenas relato de ocorrências. Melania Trump irá depor sob juramento. Espera Michael Wolff que seja também uma oportunidade dos famosos ficheiros Epstein virem para a luz do dia. Tenciona chamar como testemunhas Donald Trump, a sinistra e pérfida Ghislaine Maxwell e Steve Bannon que também sabe mais do que Trump gostaria que ele soubesse. E tenciona fazer ouvir as gravações em que Epstein fala de Trump. Ou seja, tenciona trazer Epstein do mundo dos mortos para depor contra Donald e Melania Trump.

Vai ser bonito de se ver e muita tinta vai ainda correr, muita, muita. 

Ao que consta, Trump foi apanhado de surpresa com esta reviravolta e está possuído. E, quando está assim, mais peripécias e tentativas de distração vão acontecendo, sucedendo-se as ameaças, as vinganças, os disparates, os desmandos.

Partilho um vídeo em que o corajoso Michael Wolff conversa com a simpática Joanna Coles. Vale muito a pena ver. É certo que se passa lá longe. Mas, não nos esqueçamos: nesta nossa aldeia global, o 'lá longe' é à porta da nossa casa.

Wolff: What I’m Going to Ask Melania Under Oath | Inside Trump's Head

Michael Wolff junta-se a Joanna Coles para abordar o seu novo e surpreendente anúncio: um processo de mil milhões de dólares contra Melania Trump. Os dois dissecam a amizade bem documentada de Jeffrey Epstein com Donald Trump e ligam os pontos à demolição da Ala Leste de Trump, expondo a estratégia de destruição do presidente. Wolff e Coles desvendam também as cruzadas linha-dura de Stephen Miller, expondo a estranha psicologia que move um dos membros mais maníacos do círculo íntimo de Trump. À medida que as barreiras legais se fecham, persiste uma questão: quanto do caos de Trump é cálculo e quanto é pura compulsão?


00:00 - Introduction
01:55 - Why Wolff Announced Melania Countersuit Beside The American Flag
04:21 - Wolff's Legal Action Against Melania Is An Anti-Slapp Suit
07:25 - First Time In History First Lady Has Sued A Member Of The Press
10:20 - Trump White House Demolition An Unscrupulous NYC Real Estate Strategy
16:43 - What Wolff Will Seek From Melania And Donald During Legal Discovery
19:23 - How Will Melania And Donald Perform During Depositions?
20:21 - Ghislaine Maxwell's Deposition Will Be Crucial In Melania Trial
21:04 - Wolff To Share Jeffrey Epstein's Comments About Trump During Melania Trial
24:30 - Inside Trump's Head Live Event Nov. 5, Buy Tickets At MCNY.org
25:30 - Why Trump Calls Stephen Miller "Weird Stephen"
28:48 - Stephen Miller Driven My Maniacal Anti-Immigrant Ideology
30:57 - Trump Has Used Stephen Miller As Cudgel
32:35 - Stephen Miller Gets Pleasure From Violent ICE Raids
34:40 - Trump Attempting To Undo Large Progressive Cultural Movements
35:54 - Stephen Miller's Lack Of Opportunities After Jan. 6th
39:08 - Trump Is Confused By Stephen Miller
41:10 - Viewer Questions Asked And Answered

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

terça-feira, outubro 07, 2025

Será que estou a tornar-me desconfiada?

 

Tenho para mim que, por natureza, tenho a curiosidade e a capacidade de encantamento de uma criança. Talvez isso resulte de um misto de genuína inocência e de esforçada ignorância. Isso permite-me deslizar pela vida com aquela leveza de quem passa ao lado das pingas da chuva, das ameaças existenciais e dos olhares gordos. Seja o que vier por mal, bate na trave, faz ricochete. 

Só que sou assim, mas, podendo parecer que não, tenho em mim alguma reserva de cepticismo que me permite, de quando em quando, dar um passo atrás e, antes de me entregar ao desfrute, questionar das boas intenções da situação.

Por exemplo, perante algo que me parece extraordinário, antes de me pôr, embasbacada, a tecer loas, interrogo-me: 'Será que não é fake?'. Ponho-me a ver. 'Parece mesmo de verdade...' mas, ao mesmo tempo, 'isto, na realidade, não pode acontecer...'. E assim fico, desejosa de acreditar, de louvar, de sair a correr a partilhar com todos a coisa fantástica que vi, e, ao mesmo tempo, com a amígdala a carregar no travão emocional, 'não vás, ainda fazes papel de parvinha, já viste se vais mostrar que acreditaste numa piroseira que se vê a milhas que é obra de inteligência artificial....'

E a questão é que esta exacerbação se vai expandindo e, às tantas, já desacredito de tudo.

Por exemplo, vi nas notícias que uma mulher em trabalho de parto foi mandada para casa, que aquilo não era nada, ora essa. Passadas três horas, apenas três!, estava de volta, aflita, a criança já entrepernas. Dito assim, imagina-se que meio mundo teria desatado a correr, a pôr a senhora numa maca, levando a maca, todos a correr pelos corredores em direcção ao bloco de partos. Só que afinal não. Pelos vistos, naquele hospital é gente que atua num outro comprimento de onda, mais naquela base do tudo bem, a senhora já está a desovar mas nada de pressas, que tire a senha e vá inscrever-se que as coisas não são assim, à la Gardère, muito menos à vontadinha. A senhora, coitada -- nem quero pensar na aflição, se eu já fico aflita quando tenho vontade de fazer chichi e tenho que aguentar --, imagino bem o que é a sentir a criança a escorregar à força toda e ter que fazer força para ela não sair. Caraças. Só que, disseram nas notícias, a senhora não conseguiu reter e, ali mesmo na recepção, a criança caiu-lhe aos pés, uma queda a pique, a cabeça da criança a bater no chão. 

Ora, perante isto, fico naquela... Isto só pode ser fake... Nem com o polígrafo a pôr-lhe o carimbo de verdadeiro eu engulo esta. Pode lá ser... Estarão os hospitais e o pessoal médico-tarefeiro (leia-se, fugitivos ao fisco) tão desatinados que uma coisa destas pode mesmo ter acontecido? Ná, não papo esta. Vão enganar outro.

Também li que, mais uma vez, os Bombeiros da Moita fizeram um parto na ambulância. Já vão em 15 só este ano. Desculpem mas também não manjo. Alguém acredita que a falta de Urgências Obstétricas em Portugal esteja a atingir números tão sétimo-mundistas que a mulherada, em especial as pobre coitadas da margem sul, agora parem nas ambulâncias? Não. Não pode ser. Na volta, os tipos (ie, os Bombeiros da Moita) têm alguma pancada e é tudo a fingir, na volta não são bebés de verdade, são reborns, fingem que estão a fazer partos e fingem que sacam reborns de dentro das mulheres. Só pode, não é?

E mais outra. Ando sem saber em quem votar nas Autárquicas. Quero comparar programas eleitorais, quero avaliar o CV dos candidatos. E não descubro isso em lado nenhum. Já pesquisei de todas as maneiras e apenas descobri de um deles. De todos, encontro o facebook que contém as fotografias e toda a espécie de palha. Programas, nada. Não sei se sou só eu que quero informar-me antes de votar. Se calhar sou. Se calhar, é isso: ando desconfiada, não quero ir em conversas ou em sondagens. Quero conhecer os compromissos dos candidatos. Mas os candidatos ou não têm compromissos ou estão-se nas tintas para os dar a conhecer. 

Acontece que hoje à noite, ao irmos dar a nossa volta higiénica com o cão, vimos, no larguinho, um pequeno grupo de pessoas silenciosas com papéis na mão. O meu marido disse: 'Deve ser a campanha.'. Não acreditei: 'Campanha? Em ruas desertas? À noite? Ná...'. Mas, pelo sim, pelo não, dirigi-me a eles: 'Desculpem... Tem a ver com as eleições?'. Olharam para mim, admiradíssimos, como se tivessem sido apanhados em flagrante. Depois, vencido o espanto, uma senhora fez que sim com a cabeça e deu-me um papel. Eu disse: 'É que estou farta de tentar encontrar o programa eleitoral dos partidos e não encontro.'. A senhora disse: 'Agora já aí tem. Vamos distribuir nos próximos dias...'. Ri-me: 'Já não vai dar muito tempo, as eleições são dentro de dias... E podiam pôr no site, ficava acessível a toda a gente...'. Olharam para mim, espantados e em silêncio, como se eu estivesse a sugerir que se montassem num foguetão para distribuírem propaganda política a partir de Marte.

Quando cheguei ao pé de um candeeiro, espreitei o papel para ver de que partido era. Pois, lá está, do partido em que, de certeza, não vou votar. 

Portanto, já se vê. Estou desenquadrada disto tudo. Desconfiada. Céptica. Céptica mas não cínica. Ser-se cínico é outra coisa, é ter uma desconfiança moral a propósito de tudo e de todos. Ser céptico é diferente, é alimentar uma permanente dúvida racional. Só que o drama é que, depois, não tenho como encontrar as provas de que necessito. Uma frustração.

Por exemplo:

Este vídeo é real? Estes bichos existem assim, fazem isto, isto tal e qual? Estes saltos? Estas guerras malucas? Posso acreditar que não é fake? Não será coisa de IA? Pode ser, não é?


E este aqui abaixo? É real? Já vi tantas vezes a Música no Coração. Conheço esta canção, claro que conheço. Quem a não conhece? Ou seja, posso jurar que não tem nada de fake. Real, real, real. Ou não?

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Já agora, o 1º vídeo tem por título:

 Bullfrog Battle Royale | The Mating Game | BBC Earth. 

The pond is their boxing ring, and the centre is where you want to be. Being at the centre proves you are the dominant male and therefore more likely to get a mate – you’ve just got to fight off the competition first…

O 2º dá pelo nome de:

 Edelweiss for Today: Epstein Files; A Sound of Music Challenge for Trump. 

Sing along, now, and don't let him distract yo

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Desejo-vos uma feliz terça-feira

quinta-feira, outubro 02, 2025

Oh... Jane...

 

Uma notícia triste. Quando comecei a ver, por todo o lado, a  fotografia com a data de nascimento de Jane Goodall e a data de hoje, entristeci-me. 

Jane Goodall at Budapest Zoo in 2004 with a newly adopted chimpanzee called Pola.
Photograph: Bela Szandelszky/Rex Features

No Guardian (Jane Goodall, world-renowned primatologist, dies aged 91)

É certo que ninguém cá fica e é também certo que, à medida que a vida se prolonga, mais curto fica o pavio. Mas ela era daquelas pessoas que eu admirava verdadeiramente. Gostaria muito de a ter conhecido pessoalmente. Sei que adoraria estar perto dela, ouvi-la, fazer-lhe perguntas, sentir a doçura do seu olhar e do seu sorriso. E não há muitas pessoas de quem eu consiga dizer isto.

Ainda não há muito, eu tinha partilhado, num outro fórum, um vídeo dela louvando a sua permanente abertura de espírito e a sua serenidade. Era daquelas pessoas que a gente se habitua à ideia de que são eternas.

Mas, enfim, tinha 91 anos e um dia haveria de ser.

Eu própria dou por mim a fazer contas de cabeça. Penso em quantos mais anos 'úteis' ainda me restarão, em que estarei independente, motivada, sem maleitas a travar-me a energia e a mobilidade, com vontade de fazer tachadas de comida e desejando ter a mesa cheia de gente. Faço a minha estimativa e, por vezes, penso que estou a ser optimista. É que não vale a pena pensar que só acontece aos outros. Neste caso, ninguém escapa. Ou seja, nem faz sentido desejar que a morte não nos leve. Claro que levará. O mais que faz sentido querer é que seja como a gente deseja que sejam os partos: uma hora pequenina. Que seja rápido e pouco doloroso. E que seja quando a gente pensar que já viveu tudo o que haveria para viver, que já está bem assim, que já chega.

de André Carrilho

Mas, no caso de Jane Goodall, sempre tão bem, sempre tão jovem, cabeça tão arejada, tão escorreita e bem disposta, sempre tão profundamente honesta, tão bondosa, penso que era legítimo pensar que seria daquelas que chegaria a velhinha, aos cem ou mais que isso, a ainda a sorrir e a mostrar ao mundo que a boa onda e o bom humor são verdadeiras pílulas da longevidade. Afinal, partiu antes do que eu imaginaria. Ainda não a via como 'velhinha'. Como pessoa de alguma idade, sim, mas não daquelas velhinhas que já não dão uma para a caixa.

Segundo leio, ainda a semana passada participou no evento Forbes Sustainability Leaders Summit (partilho o vídeo com a sua intervenção) e num podcast creio que do Washington Post, e ia falar em público depois de amanhã e, para a semana, participaria noutro evento. Ou seja, esteve activa até mesmo ao fim. Acho extraordinário. Provavelmente, algo dentro dela estaria já bastante frágil mas, num daqueles mistérios, talvez insondáveis, em que os mecanismos da vida e da morte são férteis, a sua cabeça, a sua vontade, o seu ânimo estavam ainda bem vivos. 

Não vou agora pôr-me para aqui a desejar que repouse em paz ou outras banalidades do género. Desejo, isso sim, que o seu exemplo perdure, que o amor e compreensão pelos animais seja cada vez mais forte, que o respeito e a veneração pela natureza estejam sempre presentes entre nós.

Li que, naquelas medidas estúpidas e cruéis de Trump, tinha sido cordado financiamento a projectos seus. Imagino como se deve ter sentido revoltada e impotente. Mas estou em crer que terá tentado dar a volta, sem derrotismos. E é o que todos temos que fazer quando a vida nos troca as voltas: resistir, encontrar alternativas, acreditar, seguir em frente.

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Jane Goodall Has Died At 91—Here Is Her Forbes Interview From Last Week

Legendary zoologist Jane Goodall has died at 91; last week, she spoke to Forbes' Maggie McGrath at the Forbes Sustainability Leaders Summit.

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Votos de um dia feliz

domingo, agosto 24, 2025

A graça dos inocentes

 

Não quero parecer tonta e insensível como o Montenegro, a banhos ou todo contente no Pontal enquanto o país arde e as populações gritam, entregues à sua sorte com o fogo a lamber-lhes e a devorar-lhes as terras. Mas, em minha defesa tenho o facto de que, ao contrário de Montenegro, eu não sou responsável por tomar medidas que previnam estas desgraças ou que, na presença delas, as ataquem. Ele é. E parece que anda às aranhas, sem saber o que fazer. Depois de tanto ter pregado contra António Costa e ter prometido resolver tudo e mais alguma coisa em três tempos, agora não apenas está tudo pior como não conseguimos ter confiança nos artolas que nos aparecem da parte do Governo. Maria Lúcia Amaral pode ser uma boa pessoa, uma boa professora e ter algumas coisas razoáveis no cv mas, caraças, não salta a olho nu que jamais poderia ser pessoa capaz para este ministério? Que experiência tem a senhora para lidar com catástrofes, que experiência tem em coordenar equipas distintas, para lidar com problemas complexos, no terreno? Não sei mas presumo que zero. Estamos entregues a isto. 

Por isso, enquanto as televisões mostram Pedrógão de novo debaixo de fogo e outros céus rubros das labaredas e do fumo ardente, eu aqui estou a pensar nos meus amores e amorzinhos, tão queridos, tão alegres, todos boas pessoas. Cá estiveram e, como sempre, é aquela animação e aquele bom apetite que dá gosto. Os caranguejos gostam de alimentar os outros. Eu sou assim, o meu filho é assim, o meu pai era assim. 

Entre parêntesis, confesso uma coisa de que não me orgulho, uma coisa que talvez indicie que a minha cabeça começa a desandar... Fiz uma empada de galinha, uma empada grande, familiar. Deu-me algum trabalho, claro. Quando pronta, não a retirei do forno para se manter quentinha. Depois preparei o resto, o meu filho veio para a cozinha e assumiu o comando, cozinhou escalopes e febras, preparou bifanas, e pitas, tudo saborosíssimo, juntei a isso, na mesa, o cheese naan, chamuças, etc, e é sempre aquele reboliço de se ajeitarem na mesa, de se servirem, de conversarem e rirem. E depois veio a fruta e o bolo e tudo certo, cantoria, fotografias. De repente lembrei-me: a empada! Ainda morninha, no forno... caraças... 

No fim, quando saíram, lá a dividimos entre famílias, sempre a provam em casa, mas, bolas, como fui esquecer-me de uma coisa destas? Que absurdo... Enfim. Cabeça de alho cada vez mais chocho...

Mas, enfim, todos os males fossem esses. O que importa é que a convivência é sempre leve, bem disposta. E eu fico feliz por eles, por serem amigos, por gostarem uns dos outros, e por gostarem de estar cá em casa.

Ainda não contei mas no outro dia, estávamos in heaven, pergunta o mais novo, e já nem me lembro bem das exatas palavras mas foi qualquer coisa do género: 'Para quem fica isto quando vocês já não puderem tomar conta?' e depois, mais palavra menos palavra, disse que podia ficar para ele. Achei um piadão. Disse-lhe que já era o terceiro a candidatar-se. O mano dele depois dissertou dizendo que se calhar daqui por uns vinte anos eu e o avô já não poderíamos tomar conta, que ele poderia ocupar-se disso. São inteligentes, percebem que uma coisa assim tem que ter quem se ocupe dela, dá muito trabalho, e, de facto, eu e o avô já não vamos para novos, chegará a altura em que não daremos conta do recado. Fico contente por sentir neles este amor a este bocado de terra, enche-me de felicidade, talvez continue a ser um lugar no coração deles e de vindouros que nem conhecerei mas que, de alguma forma, ainda transportarão algum do meu sangue, um lugar de paz que os animais também procuram, em que nasce tudo em todo o lado, em que o ar transporta a liberdade dos grandes espaços. 

Felizmente não somos eternos e, quando chegar a minha vez de sair da passadeira rolante que é a vida, já cá não estarei no day after para lamentar isto ou aquilo. Mas, apesar disso, alegra-me pensar que talvez entre eles se organizem para continuarem a usufruir de um espaço tão rural, tão selvagem mas, ao mesmo tempo, tão acolhedor.

E estava eu aqui a ver as fotografias de hoje, a pensar nisto, a pensar nos meus cinco pimentinhas, agora já tão grandes e sempre tão queridos, resolvi espreitar o youtube.

E pimbas, apareceu-me este vídeo que aqui partilho. Uma delícia, uma fofura, a graça da descoberta, a graça da inocência.

O elefante bebé Chaba pela primeira vez numa banheira


Desejo-vos um feliz dia de domingo!