Não vou gastar muito tempo a falar desta coisa que me atacou, direi apenas que pior não estou mas muito melhor ainda não. O dia foi passado, de novo, na indolência a que, se eu quiser ser menos crua, poderia chamar repouso. Calhou à tarde dar o filme da Gaga com o Bradley que a minha filha andava há tempo a dizer que visse. Gostei, boas interpretações. Tínhamos acabado de ver, não sei em que canal lá mais para a frente, o drama dos opiáceos e do álcool entre as figuras do rock americano. Uma decadência a que assusta assistir. Não conhecia a história do filme, imaginava que teria um happy end e, à medida que a trama ia evoluindo, fui percebendo que era muito improvável que o fim feliz fosse possível. Dramas infelizmente reais naquele meio. Naquele meio e se calhar em vários outros meios e, por acaso, até sei de alguns.
Para além disso, toda a tarde me debati com sono, sentindo as pálpebras pesadas; contudo, não sei porquê não consegui dormir. À hora de almoço fui fazer a minha caminhada, mas tal como nos dias anteriores, em versão light, caminhada para quase entrevadas. E a meio da tarde fui para o jardim mas senti que o frio, cortante, não iria ser de grande ajuda. Por isso, apanhei uma laranja, comi-a, sumarenta, doce e gelada, e pouco mais. A minha filha mandou-me receitas de doces com tangerinas e ando com vontade de experimentar. Mas custa-me estar de pé, sem andar, e também não sei se é boa ideia pensar em doces, depois do exagero do Natal.
No inverno, por aqui, impera o silêncio. De vez em quando ouvem-se alguns cães a ladrar: é quando passa algum desconhecido junto à separação entre as casas. Ou ouve-se o grasnido de grandes gralhas negras. Não sei se são gralhas nem se se a sua voz é grasnido ou gralhar mas penso que é capaz de não andar longe. As rolas andam mais desaparecidas e silenciosas. Há passarinhos pequeninos que andam em grupos a debicar a terra sob a relva, para apanhar pequenas minhocas ou, então, sementes invisíveis. Quando passei ao pé da cameleira, que está cheia de camélias, aproximei-me para as cheirar e, para meu espanto, preguei um susto aos pássaros que lá estavam abrigados. Saíram, num sobressalto, as asas a bater na folhagem, voando desconcentradamente.
Mas, portanto, foi isto. Assisti durante um bocado à entrevista do João Adelino Faria à ministra da Justiça e, confesso, gabo a paciência de quem se sujeita a um interrogatório acusatório daqueles, pesporrente, sem querer ouvir as respostas nem perceber o que se passou, apenas julgar, condenar, empolando e dramatizando uma coisa que, sopesando os factos e colocando-os em perspectiva, podem ser desagradáveis mas, do que percebi, não maculam o todo. Mas o João Adelino Faria, encarnando o implacável e embrutecido agente inquisidor, não estava ali para ouvir Francisca Van Dunem. Juro que, se fosse comigo, lhe diria que, se era para apenas se ouvir a si próprio e tirar conclusões dos seus próprios raciocínios, então a minha presença era escusada pelo que iria levantar-me e dar a entrevista por acabada. Claro que, por estas e por outras, é que eu nunca aceitaria um cargo público. Falta-me a paciência para exibicionistas, ainda por cima com comprovado défice cognitivo.
Entretanto estou a ver, na Sic Caras, um programa que mostra a vida a bordo de um veleiro. Eram 6 clientes e uma tripulação para aí de oito ou mais. Conheço umas pessoas que, até há algum tempo, mais propriamente enquanto o pai era vivo, todos os anos iam num grande iate passar férias no Mediterrâneo, o avô, a família toda. Não sei quantas pessoas estariam a bordo como convidados, imagino que umas boas dezenas. Nem imagino o que seria a tripulação para uma coisa destas. Mas agora que digo isto, acho que estou a fazer confusão, acho que era apenas o avô e os netos. Portanto seria muito menos gente. Quando uma vez me disseram o valor da brincadeira pensei que não podia ser. 'Ai pode, pode...', asseguraram-me. Lembro-me que, na altura, perguntei: 'Mas não lhe ficaria mais barato que o barco fosse dele em vez de estar a alugá-lo?' e perguntaram-me: 'mas quem é que disse que não é?'. Outros números, outras escalas, outras vidas, outros tempos.
Claro que nunca me vi metida numa destas. O mais aproximado, e de aproximado não tem nada, foi um barco fretado para passear no Tejo, com almoço, música e bebidas até ao sunset. Uma coisa exclusiva para convidados, onde estava la toute Lisbonne. Hoje estas coisas seriam impensáveis. Um notável advogado, muito mediático e namoradeiro, espalhava charme às descaradas. Um empresário e um ex-ministro segredavam. Muita malta bebia como se o romantismo da cidade visto do rio pedisse um espírito etilizado. Alguns queriam dançar e era divertido vê-los a tentar controlar o balanço do barco e a sua mal disfarçada euforia. Ainda devo ter para aí um polo de excelente qualidade que nos ofereceram de recordação. E acho que mais qualquer coisa, não me lembro. Lá está: outros tempos. Por fim, já estava era deserta que aquilo acabasse mas não dava para sair antecipadamente, saídas à francesa num passeio de barco não são muito convenientes. Tive que aguentar.
Bem. O resultado de dias de repouso forçado dão nisto: zero de que falar. A ver se amanhã consigo energia e motivação para ao menos pegar num livro. Detesto ter tempo livre e, ao mesmo tempo, falta de vontade para o usar de uma forma minimamente razoável.
Deixo-vos, uma vez mais, com um dos vídeos que o algoritmo do youtube anda a recomendar-me que vejo sempre de gosto. Cada vez mais, tenho para mim que não é preciso procurar muito a felicidade. Temos é que saber de que é que gostamos. E, sabendo, focar-nos nisso, não nos metermos por caminhos que nos afastam do que verdadeiramente gostamos. Se, por exemplo, a minha cara Leitora gosta é de altos e espadaúdos que a peguem ao colo e tenham a vida de entrosamento e empatia com que sempre sonhou, seria de bom senso meter-se com um zé cueca que mais não é do que uma mala sem alça? Não, não é? Ou, se gosta de uma vida animada e que inclua passeios e encontros de amigos, não vai acomodar-se a uma vida que não inclua nada disso, não é? Ou se gosta de viver na montanha, conduzir tractores e andar com memés ao colo, vai arranjar um emprego das nove às cinco onde não veja nem nesga se terra? Ou, se gosta de descobrir e estudar literatura, vai estudar marketing? Ou se gosta de jardinar, escolhe viver num lugar onde não consegue nem ter um vaso na varanda? A vida é uma só e é apenas o que fazemos dela. Os vídeos da Green Renaissance são muito nesta onda, de sermos fiéis àquilo de que gostamos. É esta também a minha onda.
Uma vida plena
Maggie Fourie, uma mulher imparável
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Pinturas de He Sen ao som das Ghostly Kisses a interpretarem The City Holds My Heart
Um novo dia cansativo: ir à outra casa cansa-nos. Já não existe aquela motivação que havia quando embalávamos coisas e coisas sem parar, descobrindo coisas que não víamos há tempo, desejosos de ter as nossas coisas na casa nova. Agora é o rabo da coisa a ser esfolado. Tudo o que era relevante e imprescindível já cá está. Sobra o que só se usa de quando em quando, o que passou de moda, o que é bom demais para ser deitado fora mas que, na casa nova, nem se sabe bem onde pôr. E ao início, em Julho, não estávamos tão cansados e saturados como agora já estamos. Vimos de lá exaustos, pouco nos aguentamos por lá. Devíamos conseguir estar mais tempo mas ao fim de hora e tal já estamos impacientes, já só nos apetece vir embora. Reparo agora que nem me tenho lembrado de ir à janela. E tanto que eu adorava ver o rio, a bela Lisboa dourada pela luz do fim do dia.
Hoje já resolvi deitar para o lixo o equivalente a três grandes caixas de cartão e um saco preto do lixo, daqueles grandes. Mas ainda há muito para revirar.
Trouxemos vários travessas de inox, tabuleiros de pirex, vários de alumínio, fritadeiras (coisa que não uso há anos), toalhas de mesa, individuais que tinham ficado esquecidos, peças de barro como dois assadores de chouriço e um prato para o servir. Coisas pesadas que só visto.
Trouxemos ainda um quadro grande e dois feitos com azulejos artesanais. Creio que ficarão bem in heaven.
E depois fui-me às minhas carteiras, maletas, sacolas. Muitos anos a ser coquette é uma coisa tramada. Anos de vida urbana, anos de querer sentir-me bem arranjada, toda eu cheia de atenção aos details. Mas neste momento olho para as coisas de uma maneira diferente e penso que era outra. Carteiras (ou malas, como queiram) de todas as cores e feitios: uma cor-de-rosa, uma em azul profundo em camurça, outra em azul claro, tão bonita. Uma em amarelo torrado-dourado, outra, bolsinha, em pele castanha cor de mel, aos folhozinhos, uma graça. Outra em feltro preto, bordada em flores coloridas. E outras. Algumas, datadas ou a caminho de gastas, foram para o lixo. Mas ainda pior que serem demais: as coisas que todas ainda tinham dentro. Canetas e pens (que, Mr. X, Caríssimo Info-excluido -- já somos dois! --, não são a mesma coisa), pacotes de lenços de papel, batons já meio secos, tampões, moedas, cartas, carteiras com cartões, alguns dos quais eu procurava há séculos. Parte foi para o lixo, parte ficou num saco à espera que eu tenha tempo e disponibilidade para olhar para cada papel antes de lhe traçar a sina. E trouxe parte da bijuteria. Ainda me falta trazer aquela pequena vitrina de parede que, a meu pedido e com perfeição, o meu pai fez e onde tenho as pérolas, as pseudo-pérolas, as madre-pérolas, os corais. O meu marido trouxe um candeeiro de pé que estava meio abandonado. Tinha até ideia que não estava grande coisa. Afinal, depois de ajustado, estava bom e fica a mesmo a calhar ali num canto da zona de jantar. Viemos carregados. Uma vez mais, o carro a deitar por fora.
E ainda passámos por outros lugares pois, no meio disto, com o que deixámos para trás, reparámos que há algumas coisas que deveriam ser repostas. Passámos também pelo supermercado. Para além de limpa-vidros, de detergente para tijoleira vermelha, de lâmpadas, de autocolantes para pregar quadros (yes! mais caro do que se possa pensar mas dá um jeitão...) e etc., trouxe mantimentos diversos e... sardinhas (yes!). E assim foi que, depois de termos regressado cheios de sacos e de termos arrumado o possível (algumas coisas aguardam que eu engendre qual a melhor forma de as arrumar) e de termos tomado banho, preparei uma bela sardinhada. Batata cozida, salada de tomate, pão saloio.
Mas se a tarde foi pesada e durou até tarde, já a manhã foi tranquila, na praia. Ampla, felizmente já com pouca gente, bom tempo, um mar forte. E com leitura. Fiz um intervalo no Narciso e Goldmund. Para a praia prefiro livros pequenos, leitura que possa ser entrecortada. De Alberto Manguel, 'Com Borges'. Tão bom. Coloco o livro no meu alinhamento para ficar na sombra. O excesso de luz dissolve as palavras. De vez em quando penso que deveria esforçar-me por fixar o que leio. Mas sei que não consigo, só registo as ideias, não as próprias palavras. Agora, ao escrever isto, pensei em várias passagens; mas não consigo encontrá-las. Talvez que não seja suposto extrair frases do seu contexto. Ainda assim, arrisco transcrever este pequeno excerto.
'(...) o que, na minha cabeça, as conversas deviam ser sempre: acerca de livros e acerca do mecanismo dos livros, acerca da descoberta de escritores que eu nunca lera, e acerca de ideias que não me tinham ocorrido, ou que só dera conta de maneira hesitante e semi-intuída e que, na voz de Borges, cintilavam e deslumbravam em todo o seu rico e de algum modo óbvio esplendor. Eu não tomava notas porque, naqueles serões, me sentia demasiado satisfeito.'
E apercebo-me agora que ainda cheiro a gengibre apimentado. Trouxe da outra casa uma caixa daquele creme que adoro: Special Edition Ginger Body Yogurt. Tem um aroma apimentado que me agrada muito. Já estava menos de meio e o meu marido quase se passou quando percebeu que estava a carregar embalagens usadas. Mas ia deitar fora uma coisa de que gosto tanto...? Acabo o banho e, ainda na banheira, a pele ainda morna e húmida, passo o creme pelo corpo que o absorve de imediato deixando-me com aquele perfume levemente exótico, levemente intrigante. Gosto.
Gosto de coisas talvez insólitas: a pele perfumada com gengibre picante, conversas boas, fluidas, francas, comportamentos nobres, conversas onde as ideias cintilam, e, também, de estar deitada ao sol, ler, apanhar folhas secas na relva ao fim da tarde, sentir-me satisfeita por aprender e ter vontade de descobrir, gostar de estar com os outros, gostar que os outros gostem de estar comigo, sentir que a confiança é sagrada, mais sagrada do que mil rezas, deslumbrar-me com a cor escandalosa das flores, ficar em suspenso para melhor perceber o invisível canto dos pássaros, esperar a chegada de momentos ainda melhores. Coisas assim. Talvez simples, talvez, por vezes, inalcançáveis.
Depois de jantar, o bebé, no intervalo das suas brincadeiras e patifarias, veio sentar-se ao meu lado, pegou no meu telemóvel e perguntou se eu tinha ali o YouTube Kids. Creio que não e como os pais não o querem agarrado ao telemóvel, eu disse que não. Diz ele: 'Então, descarrega'. Se calhar, se eu o deixasse, saberia ele fazê-lo. Passado um bocado, numa de palhaçadas, pôs-se a revirar os olhos, só a parte branca à vista. Faz-me impressão, digo-lhe: 'Não faças isso. Não gosto' e, qual não é o meu espanto, quando me responde: 'Então vais ter que aprender a gostar...'. Não páro de me surpreender com eles mas, por agora ser este o mais pequeno, é com as 'saídas' deste que fico estupefacta. Sabe tudo, percebe tudo e tem um vocabulário e umas reacções que me deixam espantada.
À noite, com o calor que está, estivemos cá fora, primeiro a jogar a um jogo de mistérios de que agora não me lembro o nome, inicialmente à luz de velas, depois nos bancos e espreguiçadeiras a ver o céu, as estrelas e os planetas tão próximos. O mano do meio que gosta de cantar e ouvir música, esteve depois a ouvir os Xutos de quem a mãe também é admiradora, a mana estava já a ficar perdida de sono, o pai deitado a ver o céu ou a brincar com a mangueira para molhar toda a gente e ele, o bebé, de pistola de água em punho a fazer das deles. Às tantas vem a correr na minha direcção, a esguinchar-me: 'Toma lá, velhinha...!' e depois, para o avô, 'E toma lá tu também, ó velhinho.,.'. E ria, travesso, jocoso, como se bem consciente das diversas dimensões da brincadeira. Menino mais divertido.
O meu dia foi mesclado. O trabalho presencial está a trazer-me sentimentos indefinidos. Quando se fala em teletrabalho há quem aponte, do lado dos malefícios, a distância do local onde se cultivam os relacionamentos pessoais, os contactos de corredor em que se estabelecem laços informais que são importantes para que se sedimente uma cultura relacional. E é verdade. Em casa, a pessoa trabalha sozinha ou tem reuniões com quem é necessário. Não se marcam reuniões simplesmente para conversar ou com pessoas com quem nada temos a tratar em conjunto. Pois eu, tendo estado no escritório durante horas, por incrível que possa parecer, praticamente não consegui trabalhar. Uma a uma, as pessoas vieram ao meu gabinete, sentaram-se na mesa de reuniões que está a uns metros da minha secretária. Antes, quando isto acontecia, eu levantava-se da secretária e ia também sentar-me à mesa. Agora não. Agora, quem vem, vem de máscara e eu, de cada vez que alguém vem, ponho a minha, e mantenho-me na secretária, mantendo o devido distanciamento. E, portanto, praticamente, estive sempre de máscara -- o que me desconforta, dá-me calor, não gosto, gosto de ter a cara à vista. Neste gabinete tenho agora uma facilidade que me é relevante: tenho uma janela que abro, mal lá chego. Mas, dizia eu, um a um, todos vieram contar-me do seu confinamento, dos aspectos mais pessoais do seu trabalho, do que aconteceu, entretanto, na sua vida, dos seus medos e preocupações. Ao passo que, no outro dia, o espaço estava quase fantasmagórico, agora estava a começar a querer compor-se. Não houve indicações para isso. Aparentemente, sentiram que deviam começar a aparecer. Ou isso ou uma fadiga de estar sempre em casa.
Mas nem todas as conversas foram maravilhosas: em dois casos tive que dizer o que não queriam ouvir. A uma pessoa tive que lhe dizer que seria melhor que se pusesse em campo para ver se arranja outro trabalho, um mais adaptado à sua maneira de ser e mais à medida das suas competências. Reconheceu as suas dificuldades e pediu uma última oportunidade. Mais uma. Tantas que já lhe foram dadas. Quando, numa outra vez, eu lhe disse que parecia que ele trabalhava apenas para ter dinheiro para fazer as férias que adora planear e gozar, confirmou e disse que todas as pessoas devem ter objectivos na vida e os dele são viajar. E até pode ser que isso seja inteligente mas o que também é é incompatível com o tipo de função que tem. Com a sua maneira de ser, não consegue ser um bom exemplo para a sua equipa, nem ser respeitado. Olhem para ele como um puto com dinheiro que mostra que não precisa do dinheiro para viver mas apenas para curtir.
Com um outro tive também que contrariá-lo. Tem uma função bem definida mas apenas se motiva a fazer trabalhos que são de outras áreas. Gosta de se portar como um free lancer, desenquadrado, a fazer o que lhe dá na bolha. Não pode ser. Mete-se onde não deve, cria anticorpos, faz coisas que nunca dão em nada porque lhe falta know how. Há pessoas que só se motivam a fazer o que não é suposto.
Mas, tirando estes casos, com os outros notei-lhes ainda outra coisa: sabem que sou portadora de uma mudança e estão ansiosos, querem perceber o que é, querem perceber qual a extensão, se conto com eles, deixam conselhos indirectos, marcam território. Ouço-os com atenção e pouco adianto. Há coisas que só podem ser anunciadas quando tudo estiver pronto para isso. Mas, percebo as suas preocupações pelo que é com total empatia que ouço o que têm para me dizer.
Saí de lá a pensar: não me deixam trabalhar. Em casa, não há conversa, não há tempo desperdiçado com isto, há muito mais produtividade. Mas, é verdade, reconheço, não se sente o ambiente dos bastidores -- e talvez isso seja, de facto importante.
Claro que tenho que deixar passar mais algum tempo, perceber como é que isto vai estabilizar. Mas, se calhar, o equilíbrio vai estar num regime misto, uma ida regular ao local de trabalho. E, se calhar, em teletrabalho, deveremos arranjar maneira de inventar momentos de partilha e informalidade, team meetings apenas para fofocas, lamentações, desabafos. Talvez. Talvez isso não seja perda de tempo, talvez seja a cola que falta para que nos mantenhamos unidos.
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E, por hoje, fico-me por aqui. Está muito calor. Vamos ter que instalar aqui ar condicionado. Os tempos de calor vieram para ficar e cada vez piores. Estou com uma ventoinha apontada na minha direcção mas não chega. O calor em excesso não é bom.
O tema de hoje, embora desprovido de propósito ou coerência, vai ser vasto e é múltiplo. Felizmente não são horas para homilias. É tempo é de silêncio. Portanto, se estiverem de acordo, em silêncio aguarde-se que a Empty Note acabe. Só então se deverá despir a blusa, quiçá tudo o resto e, cautelosamente, avançar para o que se segue.
Como se define inocência? Seduzir apenas for the fun of it? Brincar ao 'agarra lá a ver se eu deixo'? Ou, antes, o não ter noção dos danos que se podem causar com um ingénuo menear de ancas, um olhar sem querer, um sorriso de nada, uma palavra deixada cair ao de leve?
Não sei. Só sei que é bom ser inocente. Não ser por mal, não poder adivinhar as consequências, não ter nada a ver com isso, não ter maldade. É bom a gente não ser responsável pela perdição em que alguns descuidados caem. Um inocente tem sempre uma alma com não mais de quatro anos. Acima dos quatro anos já começa a haver malícia, consciência das coisas.
Não há, portanto, nada de mais perigoso do que uma mulher cuja alma não tem mais que quatro anos.
Nos homens não é bem assim. São inocentes toda a vida. São inocentes mesmo quando julgam que não são. Pensam que têm artes e malícias mas não, têm é muitas inocências. Têm é piada. O que, convenhamos, já não é mau.
E depois há aqueles temas que se prestam ao diz-que-diz-que com subentendidos na voz, com curiosidades secretas, suposições inverbalizadas. Há gente que gosta de dizer coisas e que, nestas circunstâncias, fala em 'mitos urbanos'. A mim irritam-me os 'mitos urbanos'. Eu que tenho séculos de existência prefiro a palavra tabu. Tabu é conceito escorreito, palavra simples e foneticamente muito primária como, cá para mim, convém a tema assim.
Falo de um daqueles temas que é como se contivesse pecado. What's in a name? Diz-se 'mamilo' e logo há quem fique à espreita: rosado, pequenino, um inocente convite? escuro, impúdico? grande, indecoroso? pequenino, coisa de eterna lolita? E o que pode fazer com ele? Contemplar? Imaginar? Desejar? Não descansar enquanto não o tocar? Com a mão? Com a língua? Venha o primeiro descarado e atire um palpite.
Mas que digo eu? Em que mamilos estou eu a pensar? Nos meus? Nos de qualquer outra mulher? Ou nos mamilos dos homens, mamilos inocentes, disponíveis, oferecidos, sem mistério? Que promessas encerra o mamilo de um homem? Penso que nenhuma. Mamilo de homem é raspadinha já raspada, a gente olha e já viu tudo. E, mesmo sem ver, a gente já viu. Agora o das mulheres...
E, mesmo os das mulheres que foram operadas, podem desaparecer que não desaparece a sua memória e, se forem reconstruídos, renascerão ainda mais arrojados, mais belos, mais prometedores.
Mas atenção, mamilo é tema e petit morceau para gente fina, para connaisseur. Não pense que é o primeiro lambão que já pode sair por aí a fingir que sabe do que fala. Não, lambão não sonha sequer o que é, nunca chegou nem perto de jóia tão cheia de requinte.
E depois há o resto: a graça, o impulso, o que nos leva lá, o que nos chama, o que existe sem a gente saber porquê. Dir-se-á que é a beleza. Qual quê? A pluma, a cor, o canto, a dança, o odor da hormona? Também. Mas, apesar disso, não sei, não. Penso que é outra coisa. Coisa invisível. É tão forte que atravessa mundos, é tão forte que ainda não há, nem nunca haverá, expressões que o exprimam através da matemática. É que o que não se pode transformar em equação não existe. E isto de que falo não existe. Está para além disso.
Não tem a ver com a perfeição, com a ausência de ruga, com a pele lisa, com a carnadura no lugar, com a glúteo a espreitar, com o mamilo a arrebitar, com o olhar a desafiar, com a palavra a convidar. Não tem a ver. Encerra saudade, encerra vontade de abraçar, encerra vontade de imaginar infinitudes, encerra vontade de descobrir descrição ou razão. Mas não é só isso. Talvez também empatias inexplicáveis, atracções irresistíveis, jogo de espelhos, mãos que se estendem mas só em pensamento. Vontade de comer. De devorar.
E que se disfarçam de brincadeiras, de desencontros. Inocentes. Imateriais. Inexistentes.
(E solte-se aqui, se faz favor, um conveniente risinho malandro)
E mais nada. Ainda hei-de falar de uma árvore magnífica que o homem da biblioteca secreta plantou. Mas isso só mais tarde, agora ainda não. Até porque ainda não descobri o nome dela.
As fotografias são, de novo, de Eylül Aslan e provavelmente estão aqui por conta delas, não por mim, não pelo texto. Ou, então, a mom seul désir.
Passa da meia noite e hoje não estou mesmo com cabeça para coisa alguma. O dia foi o que foi e pode parecer mentira mas é o que é.
Pior. Fui à Fnac antes de vir para casa. No caminho aconteceu uma coisa habitual: a minha filha ligou. Mas eu, ao volante sozinha e ao telefone, imediatamente fico em piloto automático. Estacionei e fui para a Fnac. Sempre ao telefone. Um dos temas foi, de novo, dizer que é de loucos, isto, que não percebe, que isto é falta de método, que não faz qualquer sentido. E eu, de novo, que não posso estar mais de acordo mas mal passa este calvário nem mais de tal me lembro. E ela que é sempre a mesma coisa. Só quando entrei na loja é que me despedi.
Várias pessoas à minha frente e um único empregado na secção de fotografia. Explicou que não era muito entendido, que os colegas é que são, só que estão em casa -- e, pelo ar compungido, percebi que estariam doentes. Não sabia dizer qual o valor unitário, não sabia o prazo de entrega. Aconselhou a fazer impressão imediata. Quando lhe disse que eram mais de mil, disse que era melhor, então, não, que iam ser horas, que eu não poderia sair do pé da máquina, que o tinteiro poderia acabar. E tantas me disse que acabei por ter que aceitar que por ali não ia ter sorte. Saí.
Cheia de fome, comprei uma empada de galinha e, logo ali, me fui a ela. Resolvi, então, ir tentar a sorte na Worten. Encomenda para imprimir e ir buscar não aceitavam, só mesmo impressão imediata. Quando falei no número de impressões reagiu como o da Fnac, que o melhor seria dividir em pequenos lotes de cem. Mas que ia durar muito tempo, mais valia ir de manhã e ficar na loja em hora de maior expediente porque tinha que estar alguém para ir trocando os tinteiros enquanto à noite são menos, não poderia estar atento a isso pois tinha que atender na loja.
Desanimada, fui para o carro. Sabia por onde tinha entrado mas mais do que isso não. Quando estou ao telefone nunca presto atenção ao lugar onde deixo o carro. Um desatino. Fui ao piso menos um. Andei às voltas. Não tinha ideia de onde tinha deixado a porcaria do carro, apenas que era no verde e mais ou menos por ali. Accionei o comando das luzes a ver se algum carro dava sinal. Nada. Desci mais um piso. Voltei a andar às voltas. Só dava graças por ter comido a empada.
Finalmente, um carro piscou.
Quando cheguei a casa, apreensiva, o meu marido disse: é o que te digo, tens que reduzir o número de fotografias, passar das quinhentas para cem. Vencida, respondi: tratas tu disso.
A seguir ao jantar, tarde e más horas, viemos os dois para aqui. Não foi fácil. Ao mesmo tempo estava a dar o resumo do futebol. Portanto, volta e meia a atenção dispersava-se. Mas, vá lá, ao fim de muito tempo, percorrendo cada uma das mais de quinhentas fotografias lá fomos desbastando, deixando para trás tantas fotografias em que os meninos estão tão lindos, em que estão todos tão engraçados. No fim, porque já era tarde demais e ele madruga, foi para o quarto. Contei: são agora não cem mas cento e noventa e seis. Estive, depois, a ver quantas de cada. Uma canseira. No fim estava exaurida. Resultado: seiscentas e poucas.
Não sei como resolver agora isto. Não tenho tempo para ficar horas ao lado da máquina. Amanhã tentarei de novo a Fnac a ver se está lá alguém que saiba dizer-me se as entregam a tempo se lá fizer a encomenda. Está bonito, isto.
Eu tenho uma impressora que até dá para fotografias. Foi o meu filho que, um ano, ma ofereceu na sequência desta problemática natalícia. Só que é lenta, vocacionada para gente moderada, não para gente sem limites como eu. Fazer uma ou duas dúzias é tranquilo. Centenas é impossível, teria que tirar dois dias de férias e comprar um set de tinteiros para ficar aqui de plantão.
E isto também para que percebam como, aqui chegada ao blog, a uma hora destas e depois de pincéis deste calibre, já não tenho inspiração ou energia. Não me apetece falar do Orçamento de Estado até porque ainda não o conheço, das aparentes divergências entre Costa e Centeno (repito: aparentes), das lutas intestinas no PSD, da indigência política que vai ser um Reino Unido tendencialmente desagregado e fora da União Europeia, da cegueira face aos malefícios do actual estilo de vida (em todo o lado) que não sei bem a que é que vão conduzir. Não me apetece porque, para falar destas coisas, uma pessoa tem que ter um mínimo de disponibilidade mental e, a esta hora, de todo, a tenho. Há um tema que anda a incomodar-me e desse, sim, sinto-me mal por não falar dele: o ataque cerrado a Maria Flor Pedroso e a sua demissão. Imagino o que tudo isto lhe deve custar. Há injustiças que se devem sentir na carne como lanças traiçoeiras. Só que, para aqui falar do assunto deveria documentar-me melhor e, francamente, com o trabalho durante o dia que não me dá tréguas e com esta empreitada maluca das fotografias, não consigo. E não quero correr o risco de ser injusta para a Sandra Felgueiras. Para já, tenho para mim que a Sandra não deve saber que quem com ferros mata, com ferros morre. Mas, enfim, não posso aprofundar.
É como com os comentários: provavelmente não consigo manter-me acordada até lá. Peço a vossa compreensão. Leio todos, acreditem, agradeço-os e lamento se vos desiludo por não vos responder. Pode ser que amanhã já tenha isto resolvido e tenha a cabeça mais fresca. De vez em quando, em especial quando estou enlatada no trânsito (e se esta segunda-feira ele esteve jeitoso, acidentes por todo o lado) ocorre-me falar disto ou daquilo, contar mais ou menos a conversa com aquele millennial que só pensa em ter férias e que voltou a tresmalhar-se em relação à namorada, os olhos a quererem lacrimejar, ou da outra pessoa que perdeu um familiar próximo e a cujo velório fui no outro dia à noite e que, de uma forma triste e contida, esteve a falar comigo e eu a tentar encontrar as palavras certas e ele a tentar aguentar-se. Mas, depois, chego aqui e não consigo. Há temas que precisam de silêncio em volta. Outros que precisam do oposto. Mas todos precisam de entrega -- e eu agora só se me entregar ao Morfeu.
As fotografias foram feitas in heaven e, como é bom ver, levaram um banho de cor.