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terça-feira, março 24, 2026

Mostra-me a tua casa, dir-te-ei quem és

 

Se no post abaixo abaixo falo da natureza, tão múltipla, tão vibrante, tão divinamente perfeita, e da tocante afinidade que Sir David Attenborough reconhece na expressão de sentimentos entre os macacos, aqui falo de algo muito distante, bem mais comezinho: os objectos que uma pessoa tem na sua casa e que, de certa forma, revelam a sua natureza.

Já falei muitas vezes no assunto. Para mim, estar em casa de alguém pode ser uma experiência simpática mas também pode ser muito hostil. 

Casas escuras em que o pavimento é escuro, as portas escuras, os móveis e os sofás escuros, os azulejos das cozinhas cor de café com leite ou com motivos escuros, tudo é escuro (excepto a casa de banho que é cor de rosa ou verde reluzente), deixam-me atrofiada. Ou casas em que as paredes são maioritariamente vazias e depois, a meio, geralmente mais acima do que devia, está um quadro, por vezes pequeno, por vezes (a meu ver) de mau gosto, ali perdido, deixam-me desconfortável. Ou casas com colchas com folhos e cortinados de cetim, tudo às cores, com almofadas de cetim, também com folhos, em cima da cama, deixam-me incomodada. Nem falo no terror que é ter uma boneca em cima da cama, mas isso, felizmente, ao vivo nunca presenciei. Não consigo conceber como se consegue viver numa casa assim, imagino que isso torne as pessoas infelizes. Ou, então, é porque são infelizes que têm a casa assim. Não sei.

Nem consigo imaginar como se consegue viver numa casa cheia de tralha, carradas de objectos, uma casa impossível de manter arrumada ou limpa. 

Uma vez contei aqui que tinha ido a casa de uma pessoa, um familiar que tinha mudado de casa, tinha mudado de mulher, tinha mudado de vida. A casa foi desenhada por ele, enorme, com múltiplas divisões, algumas ocupadas com os seus objectos de colecção. E vim de lá perdida. Nessa noite quase não dormi, tal o pesadelo. Por todo o lado coisas. Imaginem (e vou dar um exemplo): colecção de relógios. Uma sala enorme, mas mesmo enorme, com relógios de toda a espécie e feitio: de pé, de parede, de móvel, de bolso, de pulso. Muitos, de vários estilos, de várias épocas, de várias marcas. Expositores, vitrinas, tudo cheio. Até relógios de estações de caminho de ferro. Uma coisa inimaginável. Ele feliz da vida. E eu a pensar: mas como é que se limpa isto? Não limpa, é impossível. Ou, lá está, um daqueles pensamentos peregrinos e escusados: um dia que morra, como é que os filhos dão conta de tudo isto? Não dão. Impossível. E, contíguo a esse espaço, havia um ainda maior com outra colecção, peças vindas de todo o mundo, uma coisa que mais parecia um museu. E não vou aqui entrar em detalhes e falar de todas as colecções e de toda a vastidão que é aquele espólio porque, enfim, é um familiar, pessoa estimável, e há sempre o risco de alguém o identificar e achar que estou a ser injusta. Se calhar estou. O dinheiro ali investido nem dá para imaginar e, até por isso, há que valorizar. Mas eu gosto de espaço, de ar que circule, de oxigénio, de luz. Sentir-me-ia apavorada se tivesse que viver ali ou, pior, se estivesse incumbida de manter aquilo limpo. Eu que detesto limpar o pé porque quando limpo é peça a peça, tudo tirado para fora, para limpar por trás e por baixo, não saía dali com vida. No entanto, nitidamente isso não era tema de preocupação nem para ele nem para a mulher. Dá ideia que quem tem muita tralha, colecções infinitas, só pensa em descobrir a peça alemã (é um exemplo), tecnologia xpto, feita no ano de mil novecentos e troca o passo, modelo raro, e vai fazer de tudo para a arranjar, custe o que custar. Não pensa que não precisa dela, que já não tem onde pôr tanta coisa especial, que qualquer dia haverá zonas em que não vai conseguir-se meter um pé e que nem vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, dariam para limpar tudo como deve ser.

Mas isto para dizer que sou muito sensível a uma decoração equilibrada, com apontamentos alegres, talvez inesperados, pontos de cor, espaço para circular, espaço para descansar, espaço para ler.

De manhã, abro as minhas janelas, deixo que a luz entre, deixo que o ar circule. O meu marido, no inverno, zanga-se: 'Queres que a casa fique gelada?' e vai fechar os vidros. Mas as persianas ficam até acima. E todos os móveis estão dispostos de modo a que não haja obstáculos: o ar, a luz, as pessoas e o cão -- tudo pode deslocar-se à vontade. E há cor e, espero eu, beleza.

Bella, pintada pelo pai, Lucien Freud, em 1987
[Note-se que agora, tantos anos depois, parece mais jovem e mais leve do que quando o pai a pintou]


A casa de Bella Freud, que o algoritmo do Youtube hoje me mostra, é, sem surpresa, uma casa muito agradável. Espaçosa, bonita, com elementos que têm uma história, com contornos de boa disposição. Gostei de ver e espero que também seja do vosso agrado.

Por dentro da casa eclética desta designer em Londres, repleta de objetos sentimentais | Vogue

A residência da estilista de culto Bella Freud, no oeste de Londres, está repleta de detalhes divertidos que refletem o seu círculo eclético de amigos e colaboradores. Enquanto nos guia pela casa, Bella fala sobre o seu falecido pai, o seu bisavô (o lendário Sigmund Freud), exibe uma miniatura dourada da mão de Nick Cave e muito mais
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E queiram descer um pouco mais caso queiram conhecer a história do Pablo

terça-feira, outubro 31, 2023

A casa de Bella Freud, filha de Lucien Freud, neta de Sigmund Freud
(para ver se me redimo de vos maçar, outra vez, com os meus problemas...)

 


Estou um pouco esgotada. E o 'pouco' é, claro, uma maneira de dizer. Já passei por tanta crise, tanta situação difícil, por vezes por dentro de situações limite que nunca esperaria viver, e nunca me senti tão exausta e sem saber como dar a volta às coisas como agora.

Ao longo de toda a minha vida, mesmo no meio de furacões ou terramotos, sempre me mantive relativamente serena, com a perspectiva do que fazer para escaparmos o mais incólumes possível. Sempre reconheceram em mim a característica de não perder o pé, não perder o rumo, não perder o sangue frio, não perder o optimismo. Por vezes, eu própria me questionava se isso não seria sinónimo de inconsciência.

Pois, neste momento, isso não acontece.

Quem me veja a lidar com a situação talvez ache que, apesar das circunstâncias, consigo manter o racionalidade, a tranquilidade. De facto, tento manter a argumentação, tento convencer, tento aguentar as coisas, tento mostrar-me calma. 

Mas, por dentro, sinto-me quase derrotada, pois todos os dias, várias vezes durante o dia, sou submersa pela mesma onda, sempre a mesma onda, cada vez mais forte, cada vez mais alta. Como se eu não tivesse dito nada antes, como se antes não me tivesse esgotado em explicações, em argumentações, como se não lhe tivesse feito a vontade e falado com médicos, uma e outra vez, ido a consultas, etc. Sempre a mesma conversa, as mesmas queixas, o mesmo choro, a mesma postura, a mesma respiração de quem está muito mal, e as mesmas reivindicações, a mesma atitude que, sinceramente, já não sei se é genuína ou se é também uma (talvez inconsciente) manipulação para tentar levar-me a fazer exactamente tudo o que quer (e digo isto pois sintomas que eram gravíssimos, insuportáveis, no dia seguinte, por milagre, já desapareceram dando a vez a outros, ou desaparecem se falo com os médicos conforme ela queria, embora no dia seguinte possam reaparecer, já que os médicos nunca dizem o que ela quer ouvir). 

Por mais que lhe evidencie que nada disto faz sentido, que nos últimos tempos isto repete-se diariamente e que a resposta que obtém de todos quantos a examinam é sempre a mesma, não se convence. Ninguém presta, ninguém sabe, ninguém quer saber, nem quem a examina e, certamente, nem eu.

Hoje foi a um outro médico, um que não tinha nada a ver com nada disto, mas a quem, inacreditavelmente, foi contar a mesma história, recorrentemente contada, a de que os medicamentos estão a acabar com ela. O médico, certamente pensando que isto não tem sido objecto de não sei quantas idas a médicos e urgências, disse que ela devia pedir uma segunda opinião. E, então, a seguir, a conversa era esta, a de que este médico tinha aconselhado isto e que era isto que se devia fazer. Ora isto como se já não tivesse pedido mais de umas vinte opiniões. 

Quando, já exausta, lhe digo que, em vez de andarmos nisto, nesta insanidade, se ela quer deixar de se tratar, que tome ela essa decisão pois, como já constatámos, nenhum médico lhe retira ou altera a medicação pois é a indicada (todos o confirmam). E, se os médicos o dizem, não sou eu, que não sou médica, que vou fazê-lo.

Nessa altura, aconteceu o que acontece também frequentemente: que ela não quer fazê-lo, eu é que percebi tudo mal, eu é que não presto atenção ao que ela diz, que eu é que invento coisas. 

E não saímos disto. 

Porque, de facto, o que se passa é que anda obsessivamente a arranjar sintomas e argumentos para justificar que, com carácter de urgência, continuemos a tentar descobrir um médico que faça o milagre de a pôr vinte anos mais nova, sem necessidade de qualquer medicamento. Ora como não sei onde descobrir tal médico, vou continuar nisto. 

Os meus filhos dizem-me que não ligue, que não me deixe abalar. Dizem-me até que lhe diga que não quero falar mais de doenças ou que, se é para continuar com a mesma conversa de sempre, não estou disponível para isso. Ou seja, acham que não devo alimentar a conversa pois é um loop do qual não saímos. Mas é impossível fazer o que sugerem pois ela chora, simula que mal respira, queixa-se de tudo como se estivesse numa fase terminal, sendo que os sintomas, como já aqui referi, vão literalmente da cabeça aos pés e, segundo ela, tudo indicia uma coisa de gravidade extrema. Ora, perante este cenário, como é que posso dizer que não quero falar mais disto? Até porque sei lá se é a pancada de sempre ou se, algum dia, está mesmo doente. 

Hoje voltei a perceber que o que queria mesmo era voltar a ser internada para ser examinada  em contínuo, todos os dias, exames integrais, de todo o tipo. Mas isso não existe, não vou chegar às urgências e dizer um disparate destes. Então fica num desespero como se eu não quisesse que se soubesse o que tem para poder tratar-se como deve ser.

Receio, sinceramente, dar em maluca com isto. 

Mas, enfim, hoje tinha resolvido não falar deste mesmo tema, ninguém tem que estar a levar com coisas tão chatas. Mas como a última cena foi mesmo há pouco e como estou deveras apreensiva sem saber como resolver esta situação, voltou a sair-me esta prosa... 

Garanto que amanhã não vou reincidir... Já dou com cada seca aos meus filhos... Era o que faltava terem vocês que estar também a ser sacrificados. 

Não falo no meu marido pois ele assiste diariamente a esta crise permanente, cada vez mais aguda, cada mais consecutiva, e, portanto, não o massacro a relatar o que se passa pois ele, coitado, também anda a passar por ela. E se, por um lado, é adepto do que os meus filhos dizem, que não devo alimentar a conversa, pois acha que se eu me recusar a falar sobre o mesmo de sempre talvez ela acabe por 'atinar', por outro, percebe que é praticamente impossível, concretizá-lo. Talvez algum psicólogo saiba desviar a atenção de alguém que obsessivamente se alimenta destes medos. Eu não sei. Mas já andou uns meses numa psicóloga e não descansou enquanto não a largou, achando-a incompetente, com conversas parvas que não levavam a lado nenhum. Por fim até ficava quase agressiva quando eu lhe recomendava que lá voltasse.

Bem. Calo-me já. Caraças. Peço mesmo desculpa. Vou arranjar um automatismo para, se um dia destes me der para voltar a falar do assunto, um martelo automático entrar em acção em cima das minhas mãos.

Nem eu já me aguento... Sorry.

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Para ver se me redimo, vou partilhar um vídeo em que Bella Freud (que aparece nas pinturas lá em cima), filha do pintor Lucien Freud (com quem aparece na fotografia aqui mesmo acima) e bisneta de Sigmund Freud, mostra a sua casa e fala do pai. Tem peças interessantes e até tudo muito engraçado.

Está legendado mas algumas palavras, na tradução, saem um bocado ao lado, há que dar o devido desconto.

Inside this Designer’s Eclectic London Home Filled With Sentimental Objects | Vogue

Cult fashion designer Bella Freud's west London abode is filled with playful details that speak to her eclectic circle of friends and collaborators. While taking us throughout the home, Bella talks about her late father, her great grandfather (the legendary Sigmund Freud), shows off a mini golden replica of Nick Cave's hand, and more.


Desejo-vos um dia bom
Saúde. ânimo. Paz.

segunda-feira, setembro 13, 2021

Um dia normal da minha vidinha, um dia triste para o País

 


Saímos muito tarde do campo. Só vi as imagens da cerimónia de adeus a Jorge Sampaio à meia noite ou quase, nem sei. Momentos muito dignos e muito emotivos. Do que vi, em especial nas palavras dos filhos, pareceu-me que houve uma autenticidade e uma clareza que honraram a memória de Jorge Sampaio não apenas enquanto figura pública mas também enquanto pai, certamente um pai muito querido.

Vi ali uma dimensão superior que não é muito habitual. Parece que, de repente, se sentiu uma convergência no sentido de uma escala de altos valores morais, éticos, cívicos, bem acima das pequenas irrelevâncias que parecem corroer o quotidiano da vida social e política em Portugal.

A organização do espaço, um certo distanciamento a que a covid obriga, a contenção e, ao mesmo tempo, a emoção que perpassava por todos parecem ter contribuído para que a despedida a Jorge Sampaio tivesse sido um momento ímpar.

Perante estes momentos e perante a saudade que ele nos deixa, pouca vontade tenho de falar das minhas coisinhas. 

Mas a vida da gente é também a vida de todos os dias, a vidinha, a nossa vidinha. E este blog é apenas o despretensioso canto para onde venho ao fim do dia para descansar a cabeça. 

Por isso, apesar de sentir o peso emocional da partida de um homem bom que era uma referência da defesa da democracia, da liberdade, da inclusão, do respeito pela dignidade e do direito ao futuro, vou escrever algumas palavras sobre o meu pequeno dia.

Arranjámos duas pequenas plataformas com rodinhas e porque devo ser casada com um hércules de verdade, ele conseguiu levantar o bisonte em peso enquanto colocávamos as ditas plataformas por baixo. E assim, com o bisonte montado num carrinho, levámo-lo caminho afora até à casinha das ferramentas. 

Só que cometi um tremendo erro. Estava incumbida de medir o animal e a porta da casinha por onde deveria entrar. Concluí que passaria à justa. Contudo, lá chegados, percebemos que qualquer coisa não estava bem. Medi o corpo do animal e porque à vista desarmada se via que a base e o tejadilho eram mais largos, medi o que estava mais à mão: a base. Só que, hélas, o tejadilho tem mais dois centímetros que a base. Portanto, missão abortada.

Uma vez mais o meu marido tinha uma solução: desfazermo-nos do pouco-amado guarda-fatos. Mas eu não desisto assim tão facilmente. 

Pensei, então, em colocá-lo no quarto do estúdio. Para isso, ter-se-ia que retirar o pequeno roupeiro que lá estava, o que era do quarto da minha filha quando era miúda, que iria, esse sim, para a casa das ferramentas. 

E foi o que fizemos. Foi uma empreitada pesada, a la Ilha de Páscoa. O meu marido, sempre com medo que me dê algum fanico, está o tempo todo a mandar-me não empurrar, não levantar, não puxar, não fazer força. Por isso, para além de empurrar, levantar, puxar, carregar, estou sempre a ser impedida de fazer o que me apetece ou, pior, a ser admoestada.

Mas fez-se.

A arca, a famosa arca, está a esta hora na mala do carro. Tivemos que rebater os bancos. Agora era tarde e estávamos exaustos e cheios de fome, já não deu para tirá-la do carro.

De lá, da arca dos mil tesouros, saiu um grande e quentinho cobertor, vários naperons de renda e lá continuam lençóis e toalhas e renda e bordados, parte dos quais, provavelmente, do enxoval de tias há muito falecidas.

Entretanto o 'tasker' que ia montar o roupeiro no nosso quarto e outas insignificâncias e que estava escalado para as dez da manhã, apareceu às cinco da tarde. E, em vez de trazer um ajudante, apareceu sozinho. Portanto, em desespero de causa, o meu marido acabou a montar sozinho duas das peças cuja montagem pagámos ao tasker e, ainda assim, acabámos por sair de lá à hora a que deveríamos estar aqui, banhos tomados, jantares despachados. Um desespero.


Antes de sairmos ainda lavei o chão das divisões por onde o artista andou e arrumámos parte das roupas no novo e alvo roupeiro. Mas a casa ficou longe de ficar bem arrumada. Não gosto nada de sair e deixar a casa sem ser como gosto de vê-la ao regressar: tudo limpinho e arrumadinho. Mas estávamos cansados, com fome, com a viagem pela frente. Coração ao largo.

Mas o quarto está outro. Parece que cresceu. E é agora um lugar de serenidade e leveza. A diferença que faz ter as divisões com móveis escuros ou com móveis claros. A nossa disposição, queira-se ou não, ilumina-se. Acho que o guarda-fatos, que agora navega noutras paragens, não vai escapar a, um dia destes, ser pintado de verde claro ou de cor-de-rosa suave, pó de giz (quiçá até às cores).

Sobre duas das pequenas outras peças que vieram para além do roupeiro falarei noutro dia: cada uma tem um uso atípico e, diria, algo arriscado. Mas não digo nada. Talvez mostre fotografias daqui por uns dias.

Esta segunda-feira retomo a rotina pré-férias e talvez consiga ter uns dias mais descansados. Não sei se posso dizer que tive férias mas, nestas coisas, é mesmo assim: cada um tem aquilo que merece.

E, por ora, é isto. 

Ah, só mais uma coisa: ao telefone com a minha mãe, disse-me ela com voz embargada, certamente com os olhos cheios de lágrimas: 'Se o teu pai ainda fosse vivo, fazíamos hoje...' Interrompi-a para ver se não rompia mesmo em pranto: 'Eu sei, faziam anos de casados'. Sinto muita pena por ela, por saber que fica triste por não tê-lo cá para festejar com ela.


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Pinturas de Lucien Freud e uma fotografia dele, em plena acção. Jack Johnson interpreta Gone com Ben Harper

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Uma semana feliz a começar já por esta segunda-feira

terça-feira, março 17, 2020

De um lado, Fátima Campos Ferreira e os ventiladores, Jorge Buescu e as previsões e Marcelo e a self-quarentena.
Do outro, Pedro Simas e a inteligência (e o garbo), Patrícia Gaspar e a lucidez, Marta Temido e Graça Freitas e a sabedoria e firmeza, António Costa e a liderança e Rodrigo Guedes de Carvalho e o jornalismo como serviço público.
Tudo isto em tempos de COVID-19, essa besta invisível de mil patas.





Nem consigo descrever o meu dia de teletrabalho. Não sei em que mundo é que eu vivia quando imaginei que estando em teletrabalho in heaven, ia conseguir ter tempo para limpar a casa, para dar umas voltas pelo arvoredo, quiçá estar ao computador enquanto, estendida na espreguiçadeira, apanhava uns retemperadores banhos de sol. Não sei mesmo. 

Trabalhei de manhã à noite, quase sem tempo para pôr o almoço ao lume, quase sem tempo para confraternizar com o meu roommate. E limpar a casa, claro, nem pó. Estes dias têm estado a ser muito difíceis. As empresas não estavam preparadas para isto e de uma semana para a outra pô-las a funcionar com cada um em sua casa e, na frente de batalha, as baixas a começarem a acontecer, dia após dia, e a gente a querer que as tropas se mantenham no terreno, não é fácil. E, pelo meio, articular tudo, assegurar a comunicação entre todos. E a toda a hora a receber mails de outras empresas a informar que vão deixar de prestar os serviços, e as coisas que estavam encomendadas a nunca mais chegarem e a gente a pensar que, um dia que as coisas cheguem, pode não estar ninguém nos locais para as receber. 

E todo o dia, de manhã cedo à noite, mails, telefonemas, videoconferências.


E os meus filhos em casa com os miúdos e a preocupação que tenho por eles e eu aqui longe deles, que pena, que saudades. E os meus pais, que tripla preocupação. E a minha mãe que não era capaz de me encaminhar uma receita e toda ela, enervada, a suspirar, com vontade de não tentar mais com medo de a apagar. E eu aqui com medo de lá ir não vá contagiá-los, eu que até sexta-feira andei em elevadores, em salas de reunião sem janelas e com alcatifas, em restaurantes, em toda a espécie de locais públicos frequentados por gente das mais variadas proveniências. 

Mal vi televisão mas vi a excelente entrevista de António Costa: firme, transparente, lúcido, directo, consciente. Portugal deve confiar na sua mão forte na condução desta tragédia.

E o Rodrigo Guedes de Carvalho: perfeito.

E vi os Prós e Contras. Uns nervos. Aquela Fátima Campos Ferreira esteve do princípio ao fim obcecada com os ventiladores. Qualquer coisa que qualquer dos convidados dissesse ela rematava com uma pergunta ou uma observação sobre os ventiladores. Que isso é um nó górdio é. Mas antes de nos preocuparmos que não há ventiladores para todos os que precisam, temos é que nos preocupar em que não haja muita gente a precisar. Para programas destes, sobre matérias complexas, tem que haver moderadores que percebam o que os outros dizem.


Outro que parece que levou uma paulada na tola é o tal de Buescu. Não sei para que números é que ele está a olhar que o levam a extrapolar que a meio de Abril já iremos com 12 milhões de infectados em Portugal. Juro: não percebo. A ser assim, em Itália, a esta hora, uma vez que já levam um bom avanço temporal em relação a nós, já iriam com setenta e tal milhões de infectados -- e vão com vinte e oito mil. É muito infectado, claro, mas, caraças, nada que se compare com as maluqueira do Buescu. Portanto, please, percebam que em todas as profissões há profissionais que etc. e tal e este é um desses. Não é por se ser matemático que se pode levar a sério. Isto do covid é uma desgraça que se abateu sobre o mundo mas, no que se refere a nós, não é nada da catástrofe que aquele senhor para aí anda a espalhar. Começou por desvalorixar para agora andar a empolar. Não é para levar a sério.


Bem, bem esteve Pedro Simas. Por tudo o que disse e por outra coisa: é um giraço. Não sei se ainda se diz mas eu digo: um pão. Um borracho. Façam o favor de o levar à televisão mais vezes e de avisar antes para eu não o perder. Um consolo. Gente inteligente e bem apessoada daquela boa maneira são um suplemento de alma para a gente resistir ao covid.

Outra que esteve muito bem foi a Patrícia Gaspar. Serena, forte, confiante, sabedora. A forma como acabou o programa deu-me vontade de a abraçar, de lhe oferecer flores, de lhe agradecer. Grande mulher.


Saindo do Prós e Contras, outro que também já mostrou que não se pode levar a sério é o Marcelo. Depois de andar a desobedecer a todas as recomendações da DGS e, publicamente, a incentivar ao desacato, parece que caíu na real. Mas não apenas caíu na real como parece ter ficado acagaçado perante a perspectiva de poder ter infectado meio Portugal, parece ter caído num estado de estupor catatónico. Isolou-se. Mas isolou-se mais do que a conta pois parece que desertou. Não estava doente, não tinha indicações para deixar de exercer a sua função. Apareceu a falar aos portugueses como se não atinasse com o computador, quase às cabeçadas ao monitor. Um som e uma imagem inexplicáveis. Parecia que estava a falar do meio da selva, sem condições. Caraças. Alguma coisa impede que alguém contacte com ele e lhe coloque uma câmara e um microfone à frente? Passou dos banhos de multidão com beijinhos e selfies para o isolamento monástico, esquecendo-se que é Presidente da República, esquecendo-se do momento assustador que atravessamos. Parece que sem a muleta dos beijinhos e o andarilho das selfies ficou com medo de andar.


A quem eu tiro o chapéu é a Marta Temido e a Graça Freitas. Mulheres trabalhadoras, inteligentes, bem preparadas, dedicadas, fortes. Temos que lhes agradecer por todo o esforço, por toda a entrega, por toda a lucidez, por toda a angústia e stress a que certamente estão sujeitas ao longo de tantos dias consecutivos. Não sei como aguentam, devem andar arrasadas, mal dormidas, sujeitas a todo o tipo de pressões. Confio nelas e agradeço-lhes. Nelas e na Patrícia Gaspar. E no António Costa.

Vamos sair desta. Vamos mesmo. Temos é que nos aguentar. Com muita disciplina, com isolamento, com sensatez, sem pânico. Mantendo-nos em funções se o pudermos (mesmo que remotamente), garantindo que o mundo volte ao normal logo que possível. E pode ser que surja rapidamente o tratamento e que nos reinventemos em melhor. Acredito nisto. Acredito mesmo. Ainda que agora esteja muito preocupada pois não consigo avaliar a dimensão do que nos espera.


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Não tento explicar o que me ocorre pelo que não sei porque é que me apeteceu ter aqui pinturas de Lucien Freud ao som do Cálice pela Maria Bethania.

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Desejo-vos uma boa terça-feira e, vá lá, descubram lá uma receita de coisa para sairmos desta: 
seja vacina, seja tratamento, seja bolo, seja mezinha, seja reza, seja o que for. 
Ou uma mistura disso tudo.

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segunda-feira, novembro 10, 2014

Em casa com Kate Moss



Kate Moss para a Vogue UK Dezembro 2014



Por algum motivo, não sendo de uma beleza perfeita, não sendo tão alta (mede 1,70 m) ou escultural como algumas outras top modelos, não sendo bem comportada, tendo dentes divertidamente irregulares, Kate Moss continua a ser, aos 40 anos, a musa de grande parte dos grandes fotógrafos da actualidade.

Fotógrafos e não só.


Escultura em ouro de 18k de Marc Quinn (uma Kate Moss dourada)


Kate by Lucien Freud

As fotografias com Kate Moss dão lugar a exposições, em 2011 uma famosa escultura que a representa, de Marc Quinn, intitulada Microcosmos, foi vendida por mais de £570,000 num leilão da Sotheby's, o ano passado 59 fotografias foram leiloadas pela Christie tendo rendido aproximadamente £1.5 milhões, posou para Lucien Freud e, pese embora a sua atitude de bad girl, continua a ser disputada para campanhas milionárias a par das newcomers modelos como a irreverente Cara Delevingne.


Kate Moss com Lucien Freud, numa altura em que ele recuperava de um acidente


As múltiplas faces de Kate
- Impressão sobre tela da autoria de Sir Peter Blake, vendida na Christie's por 31.250 em 2013


A Vogue é uma das suas muitas casas e o número de Dezembro ser-lhe-á dedicado, tendo estado a ser anunciado aos poucos o que lá vai poder ser visto.

O vídeo abaixo mostra-a em casa, conversando com Kate Phelan, e a sua jovialidade deve explicar em grande parte a forma descontraída como encara todos os desafios e o quão atraente fotógrafos como Testino, Avedon e tantos, tantos outros, sempre a acharam.



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