Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, janeiro 17, 2019

Lisboa é vernácula, poética e divertida.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 3 de 8]





A vida continua. Bola para a frente. Tudo acaba por se recompor mesmo quando algumas peças se quebram. Disseram-me no outro dia: não há insubstituíveis mas há pessoas que não são substituíveis. Não me apeteceu analisar a correcção lógica da afirmação. Percebo a ideia. Talvez até concorde. E se a vida é cheia de contradições, equívocos, incoerências e omissões porque haveriam as frases de ser perfeitas?

Está um tempo frio, cinzento, molhado. Não faz mal. Também é bom. No domingo estava sol, um céu azul, um rio azul. As fotografias foram feitas com essa luz. 


Depois de uma interrupção, dois dias em que a vontade se evadiu de mim, retomo as fotografias que fiz enquanto turistei pela zona da Ribeira, pelos Cais Sodré, Terreiro do Paço, Rua do Alecrim, Camões, Chiado, uma das zonas de Lisboa de que mais gosto.

Gosto e fotografo incansavelmente, como se aqueles lugares que já palmilhei milhares de vezes fossem virginalmente novos para mim. 

Fotografei graffitis, alguns magistrais como os do Bordalo II e outros menos exuberantes mas também muito bons, mas o que agora, neste post, vos mostro não é bem isso. Aqui quero mesmo mostrar o efeito do tempo nas paredes, o que é efémero, um desenho ou uma folha colada a que, no momento seguinte, algum outro se pode sobrepôr, ocultando o que antes ali estava.


Frases, desenhos, provocações, desabafos, sonhos. In heaven, se me apetecer, eu pego num pincel e escrevo e pinto o que me ocorrer. Mas é coisa só para mim e, quanto muito, para os meus. E digo 'quanto muito' porque já estão tão habituados que já não ligam patavina. Bem podia pintar coisa mais apurada que o tecto da Capela Sistina que ninguém ali dava por ela. Mais pintura, menos pintura, mais poema, menos poema. E eu gosto que seja assim. Ainda me dá mais liberdade.

Mas numa cidade nunca escrevi nada. Quando vejo e fotografo as paredes fico sempre com alguma vontade de eu, um dia, me encher de coragem e escrever ou pintar alguma coisa.

Ou escrever uma coisa em casa e ir à rua, chegar a uma parede e colar o papel. Acho isso muito bonito, um gesto de partilha.


Sei que há quem fique chocado com o que aqui mostro; ou ache feio. Eu não. Eu gosto. Eu gosto de descaramento, de reinação, de provocação. Eu gosto da estética da decadência, eu gosto da beleza da erosão, eu gosto de defeito, eu gosto de mau comportamento, eu gosto do que é desigual, do que faz rir.

Eu gosto de palavras. Eu gosto da cor e da ausência de cor, eu gosto da luz e da sombra, eu gosto de flores no telhado, eu gosto do sopro suave das palavras que inspiram sorrisos, eu gosto do grito das gaivotas.

Eu gosto de passear em Lisboa e ver tudo o que ela tem de novidade. E tem tanto. Tanta coisa acabada de nascer, tanta coisa embelezada pelo efeito do tempo.


E tem tanto por descobrir, tanto, que eu tenho cada vez menos incentivo para me abalar a passeio daqui para fora. E tanto que eu, dantes, tinha necessidade de ir para fora mudar de ares. Agora não. É certo que tenho sempre receio de ir para longe com medo de que seja, justamente nessa altura, que os meus pais precisem de mim. Ou que, por algum motivo, mesmo que insignificante, desse jeito aos meus filhos que estivessemos por perto. Mas, para além disso, há esta atracção grande pela belezura do meu país. E este amor a Lisboa.

E tanta coisa que me encanta: as árvores, as esculturas, os passeios e as pessoas passeando, a gente que toca e canta para quem passa, as esplanadas, as mariolices, as tiradas poéticas, as gargalhadas.


Ainda tenho mais para mostrar: montras e um alfarrabista especial.  Não sei se ainda será hoje ou se deixe para amanhã.

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Caso vos apeteça ver uma casa que acho muito bem decorada, queiram descer até ao post seguinte. Mas, caso queiram ver as imagens de Lisboa feitas no mesmo dia que esta, queiram saltar para a Lisboa romântica que daí podem saltar para outras Lisboas.

Uma casa decorada com muito bom gosto



Tenho conhecido casas muito bem decoradas. Tenho também experimentado a sensação desagradável de estar em casas em que tudo é depressivo ou de péssimo mau gosto.

Conheço pessoas que não gostam nem sabem decorar as suas próprias casas e contratam decoradores. Dois deles (que nada têm a ver um com o outro -- e digo isto pois poderia tratar-se de um casal), por exemplo, quando mudaram de casa, contrataram a decoração integral da casa, desde móveis, iluminação e, até, bibelots e quadros. Ouço isto com um arrepio interior. Eu, que sou toda de casa, escolho tudo, cada peça, cada pormenor. Seria do além ter alguém aqui a decidir por mim o que pôr em cima do mõvel ou aparecer-me aqui um sofá, uma mesa e cadeiras ou um candeeiro que não escolhi -- coisa mais grave do que ter aqui em casa uma mulher a fazer de conta que era mulher do meu marido.


Uma pessoa tem a ideia que os homens homossexuais têm, em regra, muito bom gosto. Conheço um (não assumido) que, pela descrição que me faz da sua casa e das peças que lá tem, deve ser um tremendo wannabe, coisas caríssimas, armadas em coisas altamente estilosas mas que, para meu gosto, devem ser de susto. Mas talvez seja a excepção. Ou, na volta, é por ser não assumido.

Mas acredito que tenham uma sensabilidade mais apurada do que os hetero. E acredito sobretudo desde um episódio de que aqui já falei. Havia uma loja de móveis muito grande que tinha mõveis muito bonitos. Não é aquela loja cujo dono fornecia embaixadas e que também era antiquário. Não, esta era o oposto. Ali não havia móveis de estilo inglês nem coisa que se lhe parecesse. Eram móveis de grande porta, móveis todos eles design, madeiras geralmente claras, madeiras exóticas. Aparadores compridos e largos, bibliotecas imensas, mesas de sala de jantar enormes, sofás de quatro ou cinco lugares, tecidos luxuosos. Comprei lá o quarto dos meus filhos, o aparador da copa e mais um ou outro móvel solto. E comprei pois tinham uma linha de produtos de boa qualidade mas 'normais'. Eu via as montras, outras vezes entrava, e ficava pasmada com aquelas mobílias tão extraordinárias (e caras!) e com a rotação que indiciava que arranjavam compradores para aquilo. Uma vez perguntei: Mas quem é que compra estes móveis? Tem que ser gente com grandes casas pois isto não cabe em casas com divisões normais. E gente com muito dinheiro.


A senhora da móvel explicou-me: Temos uma clientela predominantemente gay. Têm muito bom gosto e um grande poder de compra.  Como não têm o quarto dos filhos, deitam paredes abaixo e ficam com grandes divisões que aguentam muito bem este tipo de mobílias. São os nossos melhores clientes. E disse que muitas vezes compram andares com uma grande vista. 

A loja acabou por fechar. Penso que o Ikea acabou com muitas destas lojas. Era como a Conceição Vaz Costa. Comprei a minha cristaleira lá. É um dos móveis da minha casa de que mais gosto. Muito sóbrio, muito elegante. Ainda a loja era na Artilharia Um. Depois abriu aquela loja enorme ali ao pé do IADE, perto de onde oje é o enorme escritório Vieira de Almeida. Era uma loja espectacular. E um dia fechou. 

No Colombo também havia uma boa loja. Desapareceu. Agora, no Colombo, há apenas a Area 8 que não tem nada de clássico mas que tem coisas de muito bom gosto, design e estilo a valer (e preços a condizer)


[As fotografias que aqui usei para 'enfeitar' o texto são de uma casa de campo muito bonita em França e, ao vê-la, lembrei-me da casa de um casal francês que uma vez visitámos numa zona de campo perto de Versailles.  O meu marido conhecia o francês e, uma vez que fomos a Pars, ele fez questão de nos receber para um almoço delicioso e muito atípico. A casa era uma luminosa moradia de dois pisos aberta para um terreno relvado com uma grande árvore de tipo chorão]

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Mas vem isto a propósito de um vídeo de que o algoritmo do YouTube achou que eu ia gostar. E gostei. Um casal mostra a sua casa. Que casa fantástica. Vejam, por favor, pois vale a pena.




PS: Não me apetece falar do Brexit, essa galinha pelada e sem cabeça que por uma daquelas coincidências do destino foi parar às mãos da desengonçada May que parece outra galinha que tal. Também não me apetece falar do PSD, esse saco de gatos que mais parecem ratos, onde não há quem tenha estilo ou ponta de graça. E ainda estou a perceber se completo a minha reportagem de Lisboa ou se me deixe disso.

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Talvez até já.

quarta-feira, janeiro 16, 2019

Não devendo nem podendo nem conseguindo falar, falo de Katelyn que era a melhor até que deixou de ser.
E até que voltou a ser.
O pássaro conseguiu voar.


Ainda estou sem vontade de escrever.  Tudo muito violento, muito estranho, muito incompreensível. É o que toda a gente mostra: incompreensão. Todos querendo perceber, todos contando como não dá para perceber.

Como não quero nem consigo falar, não sei como dizer não dizendo. E teria mil coisas para dizer, mil. Mil dúvidas. Mil inquietações. Mil medos. Mil penas. 

Estive lá, cheguei tarde. Mil coisas para dizer. Como não quero nem posso nem devo, não digo mais nada. Tudo triste demais.

Por isso, falo de um pássaro que todos diziam que era uma pena que não conseguisse voar. Até que voou.


Vejam, por favor. Mais do que um pássaro: um pássaro muito voador e de borracha. E alegre.

Katelyn Ohashi (21 anos) - 10.0 Floor



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Dias felizes.
Bora curtir a vida, ok?

terça-feira, janeiro 15, 2019

Uma explicação





Ontem era para continuar a minha reportagem fotográfica por Lisboa: tenho paredes poéticas e vernáculas para mostrar, tenho um alfarrabista muito especial, tenho montras fantásticas. Mas tenho que confessar que estava um bocado sem vontade. 

Já tinha falado no recebimento de Montenegro pelo nosso Excelentíssimo e Ubíquo Presidente (diz-se recebimento ou recepção? ou recebidela? ou recebidinha? -- não sei, não sei qual a duração do encontro) e quando, nesta minha auto-disciplina que me faz ser uma trabalhadora incansável, ia escolher as fotografias das ruas de Lisboa, fui-me um bocado abaixo.

Há coisas para as quais a gente não está preparada.

No outro dia, quando estávamos a passear em Óbidos telefonou-me, falou-me dos filhos, de si próprio, perguntei pela família, estava tudo bem e que me viria fazer uma visita um destes dias.

Ontem, à tarde, o telefonema impensável.
Não quero falar nisso, não agora. Nunca sei quem está a ler-me, não quero falar de uma situação muito difícil e triste. 
Em voz baixa, contou-me. Ouvi com um aperto no coração.
Éramos tão novos. Rimos tanto. Ainda no sábado, depois dele me ter ligado, chorei a rir a recordar uma das situações mais divertidas da minha vida. O que ele me vez rir nesse dia. E o que ele me reencaminhava dela, ela ainda pior que ele. Uma foliona, uma descaradona. Já várias vezes aqui falei dela. O que me ri com ela. 
Não estamos preparados.


Os nossos filhos cresceram, são agora mais velhos do que eu e ele éramos nessa altura em que nos conhecemos. Ela ia buscá-lo. Apitava. Ele ia à janela, fazia-lhe sinal, descia.

Os anos foram andando e nós também. Os nossos pais, os problemas da idade, as casas, as coisas da vida. Sempre a sabermos do que se ia passando.

Inseparáveis, ele e ela. Até ao fim, inseparáveis.

Não estamos preparados.

E a fatídica coincidência. E a voz dele a dizer-me o que me disse. Fui capaz de falar, de dizer o que, na situação, se pode dizer. Mas com que custo.

E, mal acabei, uma reunião, como se nada se passasse. Depois no carro, a minha filha também admirada. Não sabemos bem, eu, pelo menos, não sei.

Hoje à hora de almoço, outro telefonema, outro impensável telefonema. 

Não quero falar nisso. Talvez daqui por uns tempos fale. Nunca consigo falar em cima do calor (ou do gelo) da situação. Falo depois, como uma memória a propósito de outra coisa qualquer.  

Mas, porque estou um bocado abalada, ontem passou-me a vontade e a capacidade para aqui escrever o que quer que seja; tentei mas não deu mais que isto. Depois, a noite foi praticamente em claro. Melhor: afogada em breu. E hoje ainda pior. 

Lamento.


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Para isto não ficar tão árido, coloquei aqui três fotografias feitas com drones

Trouxe a Mariza com a sua Chuva porque sim.

Marcelo recebe Montenegro.
Pergunta: a seguir, para equilibrar, vai receber o tal Morgado?
E a seguir, tendo já recebido o brócolo e a beterraba, vai também receber a Manuela Moura Guedes?
Só pergunto.


O tema não me entusiasma pelo que, por muito que os noticiários e os comentadores se excitem com este transfoguetório e arrebéubéu laranja, eu não tenho muito a dizer. Não me assiste. Que hei-de eu fazer?

Mas.

Dizem os laranjas, em sua defesa, que portarem-se como gatos esgatanhados dentro de um saco, arrancarem tudo e até olhos uns aos outros para disputarem lugares, aldrabarem picagens de ponto para receberem subsídios de presença, fazerem blogs, sites e páginas ou o que calhar para difundirem fake news e etc, faz parte do seu ADN. Como quem diz que ser trafulhas, trapalhões e traiçoeiros é a praia deles (isto da praia para usar a terminologia de Montenegro). Pretendem eles, os pró-ele, dar a entender que esta macacada do seu guru não é para ver se salva os lugares dos pró-Láparos nas listas mas, sim, uma coisa genética, uma pura manifestação do que é o ADN dos PSDs. Pois, pois. Se é isso, bem podem limpar as mãos à parede.

Mas eu, com essas atitudes deles, já não me admiro. Salvo raras excepções, nunca os tive em boa conta. Gente muito oportunista, muito vale-tudo, muito desclassificada. Laranjas sempre do chão. Tocadas. Meio podres.

O que me espanta nisto é o Presidente Marcelo ter recebido em Belém o dito joker Montenegro. Foi porquê? Porque já tinha dado tempo de antena ao Goucha, já tinha telefonado em directo para a Cristina Ferreira, já tinha gravado um testemunho para a Tânia Ribas de Oliveira? Como o Montenegro agora é que está a dar nas notícias, quis equilibrar? Mas onde é que isso vai parar? No mínimo agora tem que receber o Morgado e olha que menino, coisa fina, afiambrada. E se um qualquer autarca de Vale da Gatinha resolver anunciar que também quer correr com o Rio? Vai também recebê-lo? E a mão atrás do arbusto... não? E a madrinha do brócolo e da beterraba, aka Procuradora? Não recebe? Tem que ser, não...? E ao Bruno Lage não recebe porquê? Vai dizer que ele não é importante...? Um especialista em captar feelings tácticos nos olhares não é importante?! Não? E a mim? Sim. A mim. A mim não me recebe? Mas porquê, posso eu saber? É boa.

segunda-feira, janeiro 14, 2019

Lisboa é romântica, é namoradeira, conversadeira e boa para se ficar zen.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 4 de 8]




Por onde se passe, em especial junto ao rio, há gente a contemplar o rio, lindíssimo, tranquilo, muito azul. Gosto de fotografar as pessoas que olham as águas, seja de um rio, sejam do mar.

Seria bom poder ir falar com elas, saber como se sentem, o que pensam. Mas claro que se pudesse me inibia pois haveria de ter o bom senso que olhar para a água é um momento sagrado, jamais se deve interromper alguém que contempla um horizonte ou o azul impossível de um rio que corre mansamente.


Acho romântico ver alguém assim. Seja uma pessoa solitária, seja um casal, seja um grupo de amigos. Imagina se eu era maluca que fosse cometer um tal dislate: Olhe desculpem, podem dizer-me o que sentem quando aspiram a maresia ou olham o azul cambiante ou o ondular das aguas. coitadas das pessoas, haveriam de ficar desconcertadas, sem perceberem se haveriam de me empurrar a ver se um banho me refrescaria as ideias ou se, cortesmente, me diriam: sorry, can't understand such surreal questions

Também gosto de fotografar pessoas que conversam, mulheres geralmente. Duas mulheres que tirem a tarde para passear, conversarão ininterruptamente desde que se cumprimentem até que se despeçam. Tão certo como dois e dois serem quatro.


Acho o máximo ver duas mulheres a conversarem. Nem dão pelo que se passa à sua volta. A conversa absorve todos os seus sentidos.  Há sempre assunto. 


Diferente de dois amigos, de dois namorados. Aí há silêncios, hesitações, suposições não assumidas, meias palavras -- a cumplicidade assume outras formas. Com duas mulheres amigas é uma torrente contínua.

Mas, enquanto ia caminhando e observando, uma dupla chamou a minha atenção. Um homem magro, debruçava-se sobe uma mulher que, assim de repente, me parecia que estava numa cadeira daquelas para pessoas que não se aguentam bem sentadas. Desviei o olhar. Não gosto de ser indiscreta. Mas a curiosidade foi mais forte. Ao passar perto, espreitei pelo canto do olho e vi que não era o que tinha pensado. Mas continuei a não perceber, parecia que se deitava sobre uma mulher também ela toda inclinada.


Então olhei melhor e vi que era uma cadeira de massagem e que ele lhe dava uma intensa massagem. Ela ali estava, abandonada às mãos e aos antebraços dele. Fiquei com uma certa invejinha. Que bom deve ser levar uma massagem nas costas ali, à beira mar, ao sol suave da tarde. Aliás, pelo Natal, recebi um voucher para uma massagem da felicidade e não vejo a hora de o resgatar. Adoro massagens. A ver se para a semana dá. 

Ao lado do massagista uma rapariga fazia colares, igualmente em estado zen. Vejo agora na fotografia que estava um homem atrás dela. Lá não reparei. A gente não repara em grande parte do que está perante os nossos olhos. É tão estranha essa sensação. Quem sabe se as nossas ideias não seriam diferentes se, no momento em que fazemos opções, tivéssemos em atenção tudo aquilo a que não prestámos atenção?

(É uma pergunta retórica: nunca conseguiremos absorver tudo o que a vida nos oferece)

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Ainda tenho mais uns três ou quatro postais mas já é tão tarde que acho que vou deixá-los para amanhã.

Entretanto, se estiverem in the mood para um passeio comigo por esta Lisboa que amo de coração, desçam até à Lisboa linda e amorosa, à Lisboa musical, à Lisboa com homens com pinta e aos pontos cardeais de Lisboa. Espero que gostem.

Lisboa tem lagos com gaivotas, veleiros que deslizam como cisnes e pais que passeiam de mão dada com as filhas.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 5 de 8]




No sábado à noite tentei, durante um bocado, adormecer o bebé. Pus-lhe a chucha, sentei-o ao meu colo, bem abraçadinho e ele aconchegou-se, nitidamente a dar-lhe uma pancadinha de sono. Isto no meio da maior confusão. Mas, então, o irmão veio sentar-se ao meu lado e eu disse: quando o teu pai e a tua tia eram bebés eu cantava-lhes 'o meu menino é de oiro' e eles ficavam sossegadinhos a ouvir até adormecerem. Se eu me lembrasse, cantava agora ao teu irmão. E comecei a trautear. Mas faltavam-me muitas palavras. Ele, então, começou a cantar e sabia mais do que eu. Ficámos, então, os dois a cantar, baixinho. O bebé muito sossegadinho, aninhadinho. E eu pensei: este é um momento de ouro. Feliz, feliz da vida.


Até que, de repente, como se tivesse acordado, endireitou-se e saíu do colo e foi brincar. Pronto, com ele a canção de ninar não surtiu efeito.

Mas fiquei com vontade de a ouvir de novo. Canção maravilhosa de tão serena e apaziguadora. E que boas memórias me traz. Só com a minha menininha é que não. Quando era bebé e eu ficava com ela à noite, não queria dormir. Atingia o limite da rabugice, chorava, perdida de sono, mas recusava-se a dormir. Se eu ensaiava, então, cantar ao dele O meu menino é d'oiro ela ia aos arames. Emperrtigava-se e dobrava o choro, furiosa. Nessa altura eu ainda não me tinha apercebido da personalidade forte que ali está. 

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Caso queiram continuar a passear por Lisboa, queiram fazer o favor de descer seja para verem uma Lisboa musical, seja para verem homens com muita pinta, seja para verem os pontos cardeais de Lisboa.

Lisboa tem música.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 6 de 8]




A fotografia ali em cima mostra uma das várias montras da fantástica loja Hermès. As montras Hermès são sempre montras invulgares e com um toque de graça. Desta vez, não sei porquê, estão cheia de engraçados ratinhos brancos e orelhudos, verdadeiros topo gigios, Escolhi esta por ter a ver com música.

Anda-se por esta zona de Lisboa e há música everywhere. No Chiado há música e dançam, no Cais do Sodré é jazz, há guitarra portuguesa há trio cantante. Até na areia vi um jovem deitado ao sol abraçado à sua guitarra. O sol ameno, a luz límpida, o rio, as pessoas e a música. Muito bom passear em Lisboa.


Aquilo que me levava a ter vontade de ir para fora porque não encontrava por cá -- este ambiente descontraído, este hábito de estar na rua ao invés de fechados em casa como era até há uns tempos em que as nossas ruas estavam quase desertas e em que quase não havia gente nos parques ou à beira rio ou nas esplanadas, esta coisa boa de termos música enquanto passeamos -- já não existe.

O nosso país começa a saber desfrutar das cidades e, talvez pelo contágio com quem e«vem de fora, o ambiente que agora se vive em Lisboa é bom. Dá gosto passear. Um maná para quem, como eu, gosta de fotografar.

Muito talentoso, este jovem. Tomara que vá longe. Muito boa (e muito bem tocada) a música que toca.
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E queiram continuar a descer, quer para verem três homens com pinta, quer para verem os pontos cardeais de Lisboa, a magnífica cidade.

Lisboa tem homens muito fashion.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 7 de 8]




Já vos contei muitas vezes: gostava muito de andar na rua a fotografar pessoas. De tudo -- flores, árvores, paisagens naturais, a arquitectura das cidades, tudo -- aquilo que mais gosto de fotografar são as pessoas. Mas gosto de as fotografar à traição. Não gosto de avisar ou pedir que olhem para mim, que riam, que façam macacadas. Aquela coisa do cheeeeeeese ou da ba-ta-ta comigo não dá. Mas depois, ao fotografar as pessoas sem as avisar, não obtenho o seu consentimento e, portanto, se as publico aqui, fico sempre com algum receio de que não gostem de aqui se ver e me peçam para eu me deixar de ser abusadora e as retirar.


Mas, pronto, de vez em quando arrisco. Aqui foi o caso. Vi muita gente muito interessante porque Lisboa é caleidoscópica e há pessoas para todos os gostos. Mas optei por me focar em três homens com indumentárias muito díspares mas qualquer deles com muita pinta. A elegância tem várias formas e fica bem em qualquer idade.

Seja o dandy da beira rio, seja o camuflado do Chiado ou o blasé da Brasileira à conversa com Fernando Pessoa, qualquer deles é bom de ver. Mas, claro, se algum deles aqui se descobrir e não quiser cá estar, bastará que mo diga quer através de comentário, quer de mail. Lamentarei porque gosto de estar rodeada de homens interessantes mas obedecerei sem pestanejar.


E queiram descer para verem os pontos cardeais de Lisboa.


Lisboa tem pontos cardeais.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 8 de 8]




Muita coisa a fazer em casa mas, mal acordei, o meu marido foi ter comigo à cama para me perguntar se não queria ir passear, almoçar ali pelo Chiado. Turistar em Lisboa. Claro que sim, há lá coisa melhor? No fim, já a meio da tarde, até lhe disse: não me importava de tirar dois ou três dias de férias para podermos andar à descoberta do que mudou desde a última vez. 

Aliás, deve ter sido telepatia entre mim e ele pois ontem, ao adormecer, naquela fracção de segundo que levo para cair no sono, tinha mesmo pensado nisto: não inventar, limitarmo-nos a passear na mais linda cidade do mundo, linda, cada vez mais linda. 

Entretanto, regressámos quase a anoitecer e, desde aí, já me fartei de trabalhar. Tarefas domésticas que é coisa de que gosto se feitas à pressão. Um dia que esteja em casa sem necessidade de fazer as coisas à pressão nem sei como vai ser.

E agora vou continuar a enviar postais de Lisboa. Espero que gostem.

domingo, janeiro 13, 2019

Palavras de acalmia depois de um big vendaval





Pronto, já consegui instalar-me. Tive-os a todos cá e depois só os cinco porque os crescidos foram curtir a night e foi aquele festival de quando os cinco pimentinhas estão juntos em espaço confinado. Os quatro a fazerem wrestling, bebé incluído. No meio da confusão até deu uma dentada nas costas de um dos primos. Ela brincou aos escritórios, depois maquilhou-me, maquilhou-se. E eles depois a rebolarem em volta da big ball, bebé também incluído. Depois quiseram ir comer uvas e bolo, e isto para aí uma hora e picos depois de terem jantado.

Depois ela descobriu uma caixinha de trident e quis uma pastilha e depois todos queriam pastilhas e reivindicavam como se estivessem numa manif: pastilhas! pastilhas! pastilhas! e até o bebé gritava: pilha! pilha! pilha!

Quando os pais os vieram buscar, tarde e más horas, estavam todos espertos e prontos para continuerem a brincar.

Entretanto, as almofadas mudaram de sofá, as canetas e os lápis de cor estavam todos fora dos respectivos estojos, as cobertas dos sofás estavam meio tiradas, uma cadeira estava no chão e os brinquedos com que o bebé brincou estavam fora do cesto. Quando saem e nós vamos despedir-nos e depois reentramos em casa, é como se um furacão tivesse passado pela casa. O meu marido põe-se logo a apanhar coisas e desabafa: aqueles gajos... mas eu fico tão cansada que não consigo articular palavra.

Mas fui beber água e fiquei logo melhor.

Mas o pior não foi isso. O pior é que o touchpad de um dos computadores, um que está a dar as últimas, tinha deixado de funcionar e o do trabalho, que este fim de semana trouxe para casa, estava já sem carga e carregador viste-o. Passava da meia-noite, queria pôr-me aqui a descansar e os computadores fora de combate. Estiveram a mexer neles e fizeram este lindo serviço. O meu marido repreende-me: Deixas os putos fazerem o que querem. Fiquei furiosa: Deixo? Mas como consigo não deixar? Se ajudasses a tomar conta deles... Mas ele refila: Ai é? E quem é que punha a mesa? E quem é que levantava a mesa? E quem é que... E eu já nem o ouvi porque era verdade e não me apeteceu dar-lhe razão.

É que se ando atrás do bebé, que trepa e sobe e desce sozinho para cadeiras e tenta mexer em tomadas, ficam os outros quatro à solta. Se vou atrás de algum dos outros, não vejo o que estão os outros a fazer, em especial o bebé de quem não podemos tirar os olhos nem por um segundo.

Enquanto acabava o jantar, apareceram uns com o computador na cozinha para ficarem a fazer não sei o quê, jogos talvez. Entretanto, dei com ela, na sala, a brincar com a tia aos escritórios e depois aos médicos e a escrever no outro computador. E ouvi-a a dizer que ia guardar o carregador na mala do computador. Depois vieram dois dos rapazes a dizer que o touchpad tinha deixado de trabalhar. E dizia um: será que apanhou água...? e reparei que, de facto, havia alguma água no teclado. Percebi: não me digam que entornaram água no computador... E logo eles, com sorriso apanhado: não... E eu a ver que ali havia coisa. E o outro: só se caíu... E eu, já zangada: Olhem lá. Deixaram cair o computador? E logo o mais novo: Não, não caíu, juro que não fui eu... E os dois com sorrisinho apanhado. Fiquei mesmo arreliada: deixaram cair o computador e ainda lhe entornaram água. E agora? Fico com o computador estragado? E eles: desculpa Tá, desculpa. Não insisti. Não quis sabe quem foi, como foi. Foi; e de certeza que, o que foi, foi por acidente; portanto, ponto final. Não consigo zangar-me com eles.

Entretanto, agora pedi ao meu marido que lhe desse com o secador. E ele: Era mesmo só o que faltava, passa da meia noite e eu a dar com um secador num computador. Deu-lhe durante um ou dois minutos e foi dormir. 

Mas nada, nem pó, o rato do computador sem trabalhar e eu sem rato externo. Entretanto, como disse, o outro sem funcionar e eu sem descobrir o carregador. Dentro da mala não estava nem nos sofás nem debaixo deles nem na cozinha nem em lado nenhum. Liguei ao meu filho. Tinha acabado de deitar os miúdos e ainda estavam acordados. Disseram que estava na bolsinha exterior da mala do computador, bolsinha essa em cuja existência nunca tinha reparado.

Com o computador a carregar, pesquisei e li que fizesse fn F9 e milagrosamente o rato do computador voltou à vida. Portanto, às tantas nem o banho que apanhou nem o trambolhão que deve ter dado tiveram a ver com o touchpad ter ficado desactivado.

Passa bastante da uma da manhã e estou feliz da vida pois nada me traz mais felicidade do que estar com os meus; mas tenho que reconhecer que ficarmos os dois em campo fechado com estes cinco fazedores de vendavais é obra. Deixaram-me, pois, um bocado off. Ua vez mais não consigo responder a mails que tenho em atraso ou a comentários. Impossível. A energia daqueles cinco é uma coisa que só vista, parece que se potencia quando estão juntos.

Mas, como a seguir ao almoço já fui aos meus pais, este domingo estamos por nossa conta. Tenho vários afazeres mas face ao forrobodó e ao vendaval de hoje cá em casa vai ser piece of cake.

Lamento não ser capaz de escrever sobre o que quer que seja nem tenha fotografias das minhas para mostrar apesar de ter andado a passear numa cidade muito linda e bem arranjada e, penso, ter fotografias que o atestarão. Mas não consigo ir escolhê-las. E devo ter também muitas deles, dos meus queridos pimentinhas, certamente parte delas desfocadas pois não conseguem parar sossegados. Como será que eles, quando forem crescidos, recordarão estas estadias cá em casa, como recordarão as almoçaradas e jantaradas em volta da mesa grande, toda a gente a falar e a rir? Espero que sejam memórias que acarinhem para o resto da vida. Eu de certeza que o farei. Quando os meus filhos eram pequenos e andavam à bulha eu pedia-lhes sempre que fossem amigos, muito amigos, grandes amigos para sempre, toda a vida. E agora desejo isso também para todos os seus filhos -- que sejam grandes amigos entre si, amigos inseparáveis, irmãos e primos, tios e sobrinhos. Os meus amores e os meus amorzinhos.

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Os casais a dançar -- talvez um tango, talvez une valse à mille temps -- que Botero pintou talvez não tenham nada a ver com o texto. Nem a canção do Moustaki que, não sei bem dizer porquê, me causa um frémito e uma emoção que não sei bem definir, talvez como que de uma intrigante nostalgia. Mas estando eu tão KO como estou, é a minha forma de enviar um sorriso a um certo métèque que não sei se o merece ou não mas a quem, tendo eu a alma de uma verdadeira santa, me sinto com vontade de perdoar. E de dizer a todos os viajantes que por aqui gostam de passar que, apesar de perdida de sono, nunca perco a vontade de sorrir e de dançar, mesmo que apenas com as palavras.

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A todos desejo um bom dia de domingo.

sábado, janeiro 12, 2019

Luís Montenegro, o joker de mão do Láparo, está com vontade de sangue.
Não se pode dizer que Rui Rio já dançou porque tem ar de pé de chumbo.
Santana Lopes, a velha naba do regime, anda a cuscar para ver a quem ferrar.
Mas nada disso tem que se lhe diga porque é tudo uma chachada.
Prefiro dedicar-me a outras cenas.




Só para dizer que os dias passam e eu continuo sem descanso. Tenho coisas minhas para tratar e não consigo uma escapadinha nem de manhã nem à hora de almoço. Ao fim do dia muito menos, saio sempre tarde. É ridículo.

De vez em quando penso em colegas meus que, quando tinham a idade que tenho agora, começavam a deitar contas à vida, punham-se a jeito para, daí por um ou dois anos, receberem uma bela indemnização, daí saltavam para o desemprego e do desemprego para a reforma. Eram outros tempos. As reformas podiam obter-se cedo e, tanto quando julgo saber, sem penalizações. Claro que foram essas liberalidades que ajudaram a dificultar o equilíbrio das contas da Segurança Social pois gente a reformar-se cedo e a viver uma segunda vida já reformada a par da diminuição de novos contribuintes era coisa que não podia continuar.

Mas a verdade é que agora, com a reforma cada vez mais tarde, autêntico alvo móvel, uma pessoa esgota-se neste afã e parece que nunca mais lá chega. Por vezes consolo-me e penso que já faltou mais e que está na hora de arranjar sucessor, começar a prepará-lo e, aos poucos, ir entrando em phase out. Essa perspectiva agrada-me. Mas logo as circunstâncias de encarregam de me tirar as peneiras. Por isto, por aquilo ou por aqueloutro logo me vejo submersa. Na volta é inabilidade minha para me poupar ou uma certa tendência natural para -- involuntariamente -- descobrir e, a seguir, ocupar espaços vazios. Uma maçada.

No entanto, gosto do que faço porque, em boa verdade, faço aquilo de que gosto. Quando calha proporem-me coisas de que não gosto digo que não dá, azarinho, comigo não violão. Acho que já atingi um certo estatuto que me permite isso. O meu marido diz que sim, estatuto de maluca. 

Whatever.

O que sei é que, submersa como ando, vejo como se de fora os gatos manhosos e engalfinhados, no saco que é e sempre foi e será o PSD. Teve e talvez ainda tenha alguma gente de qualidade mas, basicamente, aquilo lá é gente que procura a vantagem, os jogos de interesses, gente oportunista. Conheci de perto alguns. Ainda conheço. Mas agora não andam com o rei na barriga como andaram noutros tempos, andam na moita. Conheci um, a coisa mais inculta, básica, bronca e sem ética que até hoje já conheci. Administrador de empresas, de grandes empresas, das maiores do país. Sem vergonha na cara. Amigo dos mais influentes psd's, tudo gente desqualificada. Vejo-os na televisão, sei por onde param, lembro-me dos sítios por onde andaram, o que fizeram. Na televisão armam-se em arautos do que não são. Gente sem escrúpulos constrói a sua verdade, a verdade conveniente. Gente que se faz de confiável, putativos senadores do regime -- mas em quem não se pode ter confiança.

Lembro-me de como conspiravam para guardarem e esconderem o osso. Lembro-me de como conspiravam para escorraçar possíveis ameaças.

É o que acontece agora. A perspectiva de ficarem afastados do poder durante muito mais tempo deixa-os nervosos, agitados. Os escritórios de advogados onde se acobertam estão ansiosos. Estão aí obras públicas e temem não ser contratados com a mesma ligeireza e abastança que um governo laranja faria. Ministros e secretários de estado laranjas são uma festa: assessores e avençados para todos os gostos, tudo saido do saco de gatos laranja. Mas agora as sondagens mostram o óbvio: ninguém leva a sério o mangas de alpaca. E, portanto, os Montenegros, os Morgados, os Rui Alexes e todos os sarrafeiros laranjas desta vida começam a perfilar-se. A rata velha e gorda já pulou fora, numa das suas habituais e falhadas fantasias.

A Cristas, por outro lado, por aí anda cantando de galo. Quem a ouça pode pensar que tem razões para andar naquela euforia cantante. Mas canta porquê? Canta como se tivesse 27% mas, é ridículo, não passa dos 7%. A sua popularidade tem um saldo de 2,6% contra 33,4% do Costa. Uma galinha sem cabeça que não se enxerga. Pensando bem, até dá pena.

E, tirando isto, nada. Nada se aproveita. Um PSD, um CDS e agora também uma Aliança que não valem um caracol furado. Uma indigência. Bem pode o Marcelo chamá-los a ver se enfia algum tino e sentido de responsabilidade naquelas cabeças ocas que não conseguirá nada. Desde que o Cavaco tomou conta do partido que aquilo se contaminou tudo. Os chicos-espertos minaram por dentro aquela máquina toda. E daí para cá, progressivamente, as madeiras vão ficando desfeitas, as raízes fracas, os ramos definhando, as folhas gastas -- e frutos não há.

Não é bom para a sustentabilidade da democracia. Está a formar-se um espaço grande demais sem nada que o polarize. São vazios destes que atraem populismos.

Mas numa noite em que já deixou de ser sexta-feira para entrar no sábado, praticamente a dormir, não consigo interessar-me mais por isto. É que nem sei que mais se pode dizer sobre o nada,

Portanto, há pouco, para ver se arrebitava, pus-me a ver o Mr. Bean. Gosto do Mr. Bean. Aliás gosto de qualquer coisa que me faça rir. Por exemplo, divirto-me imenso com o Nelo e Idália. Ainda esta semana me fartei de rir. Conheço um machão que é muito como ele. Aliás, machão esse que passa a vida a contar graças sobre bichas e que vai às lágrimas com o Nelo. Nunca percebi porque é que as bichas não perdem oportunidade para contar anedotas de bichas.


Mas, então, dizia eu antes de adormecer pela vigésima vez, que me pus a ver um vídeo do Mr. Bean. Pelo meio caí a dormir não sei quantas vezes mas, juntando o tracejado que consegui ver, dá-me ideia que é engraçado. Por isso, em vez de para aqui estar já nem sei a dizer o quê, vou partilhar o vídeo convosco.

Hoje não consigo sequer olhar para os mails nem consigo responder aos comentários. E devia tentar reler o que escrevi, que deve estar pejadinho de gralhas, mas também não consigo. Não levem a mal. O dia que está quase a chegar vai ser bem preenchido e tenho que ir carregar baterias.

Espero que tenham gostado das imagens. São pinturas de Wolfgang Lettl, doidas e divertidas  como tudo o que é surrealista. As lágrimas negras de Zu&Nuria estão aqui bem deslocadas mas porque é que este meu post haveria de estar todo bem alinhadinho? Não vejo porquê.



sexta-feira, janeiro 11, 2019

A moda no tempo em que as palavras eram necessárias.
E hoje, no futuro.





Homens com o que parecem tiques efeminados, mulheres masculinizadas, seres andróginos. É o que abundantemente vejo em sites como The Sartorialist. É também o que vejo em muitos desfiles de moda. 

Posso achar graça a algumas ousadias, a sobreposições irreverentes, a cores arrojadas ou a assimetrias deliberadas mas, em regra, não me sinto tentada a adoptar o estilo e jamais me poderia interessar por um homem com calcinha colorida, justa, acima do tornozelo, camisa gritante, apertada, abichanada. Interessar no sentido hetero do termo, quero eu dizer. O facto de dizer isto não tem implícita censura, muito menos condenação. Só que parece que o mundo da moda tem uma componente homossexual com algum predomínio e tendo embora o seu público, não faz muito o meu género.

Na moda sou um bocado intemporal, clássica. Não antiquada, acho eu, mas clássica. Posso usar a mesma roupa durante anos. Não escolho modelos que passem de moda. E gosto de me vestir de forma feminina. Não barroca, não mulherzinha. Feminina.

Nos homens, então, não tolero seja o que for que fuja do clássico mais clássico que houver. Tudo o que me pareça dar nas vistas, já é demais. Não pode haver botãozinho artístico, alfinetinho de gravata, fio com medalhinha, berloque no sapatinho. Nada. Homem quer-se quase ao natural. Mesmo nas camisas que o tecido não apresente textura que não a lisa, neutra, sem relevo ou brilho.

Vivo no meu tempo e sempre me senti bem com isso. Mas sinto uma certa nostalgia de um tempo que me parece ter sido o meu numa outra encarnação.


O tempo dos vestidos compridos, saias amplas e roçagantes, rumorosas à passagem, brilhos suaves nas pregas, corpetes elegantes, rendas à mostra, seios mal encobertos, capas de veludo, ondulantes. Gargantilhas discretas e perfeitas, colares de pérolas de três voltas, gancho de tartaruga a suster o cabelo solto, véu descarado a cobrir o olhar.


Gostava de poder voltar a vestir-me assim. Sedutora, sentada junto à lareira. As palavras a serem o centro do mundo. Ler em voz alta. Ouvir ler em voz alta, os pés sobre um banquinho bordado. As palavras como elemento de fascínio. De sedução. Escrever, de tarde, uma página de diário, escrever com sinceridade os pensamentos mais secretos. E à noite, numa roda de amigos, um cálice de Porto numa mão, o diário na outra, ler em voz alta as palavras indecorosas de tão sinceras. Gostava. Cortinas de renda na janela e lá fora a chuva. Ou ir a um concerto. De braço dado, um chapéu elegante. O som do violoncelo. Depois escrever sobre o concerto, sobre os vestidos das outras mulheres, sobre o olhar indiscreto de um certo senhor, sobre a forma pudica como eu o tinha ignorado. Saborearia devagar cada palavra, sorriria enquanto escrevesse. Usaria uma caneta bonita de tinta permanente.


Depois iria bordar. Flores em seda sobre tules e rendas, pedrinhas nacaradas ou às cores, folhos e favos de mel, fitinhas. Depois, ao espelho, provaria o vestido bordado, veria o fruto do meu trabalho. E, então, beberia um chá, pegaria num livro.


Mas, claro, isto naquele tempo em que as palavras ainda eram necessárias. Aquele tempo em que havia tempo e amabilidade e o prazer das coisas demoradas e da beleza.

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Mas a nostalgia de outras vidas noutros tempos não trava o futuro.

E o que vestiremos no futuro, naquele tempo em que as palavras e a amabilidade talvez já não sejam necessárias, será o que se pode ver no vídeo abaixo


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E queiram descer até ao post seguinte caso queiram perceber porque é que não me apaixonaria por um certo homem de 50 anos.

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