Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, fevereiro 03, 2019

E o que é um tomate roxo?
[E isto para não me alongar com a auditoria à CGD, com aquelas denúncias de cenas que se passam nas autarquias PCP, com a baderna que para ali vai na Venezuela, com a extraordinária Elizabeth Holmes, com a criminosa greve dos enfermeiros ou, mesmo, com as minhas andanças nocturnas in heaven, preferindo, com a vossa licença, deleitar-me com Jane Goodall]
-- E sim, um ponto verde no canto da sala é uma ervilha de castigo --




Claro que, na volta, eu devia era falar dos créditos e das imparidades da Cixa Geral de Depósitos. Mas, para falar disso, porque não falar tambem das do BPN, do BES, do Banif, do BCP, etc? Que disso, upa, upa, há por todo o lado e, de uma forma ou de outra, todos temos tido que lá meter dinheiro. E não que com isso esteja eu a querer branqear a coisa. Zero. Não. Mas há os créditos dados a ver se se salva uma fábrica, uma actividade que conjunturalmente está a passar um mau bocado e há os dados por vã ambição, ganância, mania das grandezas. Quem, ignorantemente, ponha tudo no mesmo saco vai por mau caminho. A avaliação técnica de um crédito tem mil e uma vertentes e não é num comentário apressado que se pode tecer opinião. 

Por isso, passo adiante.


Também podia falar da avalancha de notícias sobre os compadrios nas autarquias geridas pelo PCP. Não atiro pedras e não porque ache que o PCP não tem telhados de vidro mas porque prefiro ter a certeza da veracidade de tudo o que está a aparecer. É que há tal coincidência nas pedradas que a coisa parece orquestrada e eu de orquestrações prefiro as musicais. A ter havido abuso de confiança, uso e abuso de recursos autárquicos para fins partidários, dolo na gestão de dinheiros públicos ou infracção de regras claro que acharei mal e que defenderei que não estejam, como ninguém pode estar, acima da leia. Mas, até que para mim esteja claro o que se está a passar e se há fundamento nas denúncias, manter-me-ei expectante e de bico calado.

Sobre a Venezuela é diferente: não quero cá saber do nome que os próprios dão às coisas como se o nome fosse rótulo que garante imunitade. República bolivariana o escambau. Um atraso de vida é o que é. Há populistas, parvalhões e abusadores para todos os gostos e este Maduro é um deles. Que a Venezuela está entregue à bicharada é inegável e o PCP mostra que tem um cordel agarrado ao pé e às ideias quando não é capaz de se desdogmatizar para apreciar as coisas como elas são. Não faço ideia de qual é a do tal de Guaidó pelo que, às cegas e sem o conhecer, custa-me defendê-lo. Nem sei como ficará a Venezuela depois de correrem com aquele parvalhão, prepotente e atraso de vida que é o Maduro mas sei que alguma coisa tem que ser feita. Um país daqueles não pode estar naquela penúria, naquela regressão, naquela indigência a todos os níveis. Mas falta-me competência -- e disposição -- para me pôr para aqui agora a dissertar sobre tema tão sério.

E digo-vos uma coisa: não fora este meu mau hábito de apenas me dedicar ao blog quando a noite vai alta e a minha energia escasseia, aquilo de que eu falaria mesmo seria de Elizabeth Holmes, 35 anos, aquela a quem se augurou ser a próxima Steve Jobs, ex-CEO de uma brutalmente valiosa empresa. E se emprego o qualificativo brutalmente é porque tudo aquilo era uma fraude. Mais um caso em que o mundo ilustrou a célebre doença da cegueira injustificável. Uma história fantástica a que prestaremos atenção quando o filme que já está por aí a rebentar com Jennifer Lawrence aparecer. Agora que é apenas uma história real, não queremos saber. E, no entanto, apesar de não conhecer Elizabeth, juraria que consigo adivinhar como é que aqui se chegou. E adivinho não porque detenha dotes divinatórios mas porque já vi uma história assim. E é tudo tão inacreditável e a cegueira colectiva tão difícil de compreender que não me espanto ao ver como a fantástica e valiosa empresa Theranos se despenhou tão facilmente.


Mas não falo de Elizabeth, hoje não me apetece -- até para não fazer associações a coisas de que nem é bom falar.

E há a criminosa greve dita cirúrgica dos enfermeiros mas acho-a tão aviltante para quem trabalha na área da saúde que, só de pensar nisso, sinto vergonha alheia. Só espero que a justiça arranje maneira de pôr um ponto final na actuação degradante daquela gente que deveríamos respeitar mas que, com o que andam a fazer, só nos fazem sentir repulsa e medo de algum dia virmos a ser vítimas de gente tão perigosa. Passo adiante para não me sentir agoniada.

E, portanto, estando numa de passar ao largo de tudo o que é assunto, poderia limitar-me a contar como andámos até ser noite enfiados no meio das árvores a podá-las, a desramá-las, a dar fim a pés bastardos. Podia contar como os nossos olhos se vão habituando à visão nocturna, como, depois de pensarmos que não vamos conseguir ver nada e que o melhor é ir para casa, nos vai sabendo bem perceber que afinal nos orientamos, como o que sobra de luz  -- e que não sei se era algum vislumbre de luar, se uma réstea de luminosidade de alguma estrela longínqua ou de quê -- é suficiente para ali continuarmos a serrar, a cortar. Ou poderia, ainda, limitar-me a contar como o ar foi ficando cada vez mais frio, como há sons que esperam pela noite para aparecer. E o cheiro das árvores e da terra acentuado pela frialdade nocturna, como é bom.


Mas nem para isso me está a dar para falar. Enquanto escrevo, estou a ver e ouvir Jane Goodall, uma maravilhosa jovem de 84 anos que ama a natureza, que é indomável e que sorri enquanto fala.


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E, assim sendo, volto a perguntar: o que é um tomate roxo?

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[As imagens mostram a exposição Until de Nick Cave]

quarta-feira, dezembro 25, 2013

Para os distraídos, presentes de última hora neste dia de Natal. E o contraponto: o Natal segundo Banksy.


Ainda é dia de Natal e já que Natal, nos tempos que correm, é mais consumismo do que celebração da vida, para os que se esqueceram de cumprir com as 'obrigações' e ainda querem, a correr, ver se resolvem a situação, aqui deixo uma cantiguinha relativa a presentes de última hora.

A seguir, ofereço-vos eu (fazendo de conta que tenho procuração para tal) postais de Natal de Banksy, rapaz muito cá de casa que vê o Natal de uma maneira muito pouco convencional.











Stop this seasonal madnass - Go home and eat chocolate




O que festejamos quando festejamos o Natal?

(Ou isso é questão que não interessa nada?)

quarta-feira, outubro 24, 2012

Porque é que toda a gente ali anda tão feliz...?! - À laia de explicação, mostro-vos a biblioteca municipal para que vejam um dos muitos motivos. Como não se ser feliz num sítio assim? OBA, a biblioteca de Amsterdam, uma biblioteca 'with a view'


Pois é, meus Caros, é um facto: o que é bom acaba depressa. Mas foi bom, bom mesmo. Foram quatro dias que valeram por muitos quatro. Depois de no final da semana passada, depois de dois dias de trabalho fora de casa, com viagens para cima e para baixo, eis que no dia seguinte, sábado, logo de madrugada, mas tão de madrugada senhores, sem ter tido tempo de dormir nada de jeito, estafada, parti para outra.

Se no domingo à noite, quando, por um bocadinho, deitei a mão a um computador que não o meu para vos enviar um alôzinho e vos disse que descanso era coisa que eu não estava a ter, era bem verdade. Quatro dias valem por muitos quatro quando cada minuto é aproveitado ao máximo. Ou seja, o contrário de 'não descansar' não é, neste caso, trabalhar: é apenas cansar, cansar mesmo. Agora que já aqui estou de volta ao meu computador, o cansaço quase me passou. Acontece isso quando é um cansaço apenas físico, um cansaço positivo, provocado pelo excesso de momentos bons. Apenas persiste algum incómodo nos pés e um ligeiro retrocesso da recuperação pós cirúrgica, retrocesso que espero que seja passageiro. Segundo o médico podem passar uns seis meses até que a recuperação esteja totalmente concluída e, no meu caso, vai em três meses e meio e ainda nem comecei a fisioterapia. Portanto, quatro dias de caminhada intensa não seria propriamente aquilo de que o meu organismo estaria à espera. Mas poderiam lá quatro dias valer apenas quatro dias...? Claro que não.

Mas agora já estou sentada. Depois de ter chegado a casa já desfiz as malas, já fiz e estendi uma máquina de roupa, já fiz uma panela de sopa e já assei no forno uns peitos de frango com maçã para o jantar de amanhã (que isto de se ser simultaneamente dona de casa e uma esforçada assalariada e, ainda, querer intercalar com momentos de lazer não é pêra doce). 

Já passei as fotografias para o computador, centenas, muitas centenas, e já li os comentários e mails, que muito sinceramente agradeço.

Hoje, uma vez mais, vou cometer a indelicadeza de não responder, facto pelo qual, de novo, me penitencio.

Amanhã volto à minha vida normal e, logo amanhã que me apetecia era ficar a dormir até mais tarde, tenho que me levantar ainda mais cedo do que de costume e, ao fim do dia, presumo que apenas voltarei a casa de noite. E, agora a seguir, depois de escrever isto, quero ver se consigo, nem que de raspão, passar os olhos pelas fotografias para ver quais as que vos hei-de mostrar amanhã ou depois. Ou seja, para o fazer, vou demorar ainda um bom bocado mais e, para ver se me deito um bocado, que amanhã o dia vai ser longo, não vou poder trocar umas palavrinhas com os meus Leitores que, tão, simpaticamente, me deixaram comentários ou escreveram mails. Aceitem, por favor, as minhas desculpas. Estes últimos tempos têm sido muito atípicos.

Entretanto, para vos aguçar o apetite, vou já aqui colocar umas fotografias relativas ao fim da manhã de sábado, umas que, antes de começar a escrever isto, fui já bisbilhotar.

Dizia eu, no domingo, quando vos escrevi um texto a que parece ter dado o vento, levando cedilhas e acentos, que, por aquelas bandas, não se vê gente ensimesmada, gente soturna, cinzenta. Pelo contrário, toda a gente conversa na maior boa disposição, toda a gente ri, uma alegria que dá gosto.

Durante estes quatro dias tentei perceber porque estavam todos tão felizes.

A primeira resposta chegou logo nessa manhã de sábado. 




Tinham-me falado nesta biblioteca. Moderna, materiais fantásticos, não há barulho, um luxo, uma simplicidade, uma maravilha - disseram-me. 

Fomos ver. De facto. Ampla, muito, muito espaçosa, muito, muito luminosa, arejada, desempoeirada, novos e velhos, crianças e adultos, toda a gente usufrui como se usufruísse da sua própria casa.




As pessoas procuram o que querem, pegam no que querem, instalam-se onde lhes apetece, ajeitam os seus próprios recantos.

Música, revistas, livros, objectos de design, pequenas exposições, tudo ali está para ser desfrutado.




E muitas peças em exposição, muito artesanato urbano, tapeçarias, peças diferentes de tudo o que se conhece, tudo parece ter uma vida própria, tudo e todos parecem ter pleno direito ao seu próprio espaço.




E muitos jovens na maior informalidade, mas todos muito aplicados. São recantos, salas, e ali estão eles, fazendo trabalhos, conversando, escrevendo. Os espaços têm décors variados, uns são verdadeiras salas de estudo, outros são compartimentos mais isolados, outros são secretárias aos pares, tudo muito variável, e, geralmente, no meio de arte moderna ou objectos inovadores.




E depois há umas cabines extraordinárias, uma espécie de cápsulas multiusos, parecem pequenos escritórios unipessoais, e dentro de cada um, no maior sossego, uma pessoa trabalha como se estivesse fora daquele contexto. 



E há a vista maravilhosa que se tem dali, e há sofás, cadeiras que as pessoas levam para o recanto de onde têm a melhor vista, ou onde se sentem melhor. É a liberdade total, é a descontração total, é o ambiente mais propício à aprendizagem, à leitura, ao descanso. 




E se alguém quer almoçar ou lanchar ali mesmo, porque não poderia fazê-lo? É só escolher o melhor sítio.




E, meus Caros, todas, mas todas as pessoas que por ali andam, parecem ter as feições suavizadas, um ar tranquilo, e não se vê pressa, stress, agressividade, tristeza. Não se vê.

Mas, vejam bem, olhem bem estas imagens: não vos parece natural que andem todos tão felizes?

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Estou, neste momento, a ouvir as desgraçadas notícias sobre uma nova (e mais do que expectável) derrapagem nas receitas fiscais e sobre vários outros relatos que revelam a gestão desgraçada que este incompetente governo anda a fazer da coisa pública. Mas nada de desanimar, está bem? Temos é que lutar para que venhamos a ter gente decente à frente do País, para que o nosso País volte a ser um lugar decente para nele vivermos, nós, pessoas decentes.

E o que vos desejo, para já, meus Caros leitores, é que tenham uma bela quarta feira. 
Saúde e boa disposição!

segunda-feira, novembro 22, 2010

MACE, um museu que se recomenda em Elvas, cidade que também se recomenda



(Entrada e escadaria do Museu de Arte Contemporânea de Elvas (MACE) com as enormes flores azuis de Andy Warhol em fundo)

Neste momento encontram-se em exposição no MACE algumas peças da colecção Berardo que eu já conhecia - Picasso, Miró, Albers, Pollock, Bacon, Yves Klein, etc). No entanto, não dei por perdida a visita. Não apenas as peças, pelo seu valor intrínseco, merecem sempre uma visita como, em minha opinião, ganham pela combinação entre elas, pela cumplicidade entre géneros tão díspares, pela dimensão e pela beleza do edifício.
MACE abriu em Julho de 2007 num edifício anteriormente hospital da Misericórdia de Elvas, em estilo barroco tardio de meados do século XVIII. A adaptação do edifício para museu teve o contributo do arquitecto Pedro Reis e dos designers Filipe Alarcão e Henrique Cayatte. A colecção tem cerca de 300 obras que se expõem segundo temáticas diferentes.
A colecção (que, como referi, agora não está exposta e que é propriedade de António Cachola) é composta por arte contemporânea portuguesa criada da década de 1980 em diante. Dela fazem parte artistas de plano internacional, de que se contam, entre outros, Rui Sanches, Xana, Joana Vasconcelos, Jorge Molder, Rui Chafes, José Pedro Croft, Fernanda Fragateiro, Pedro Cabrita Reis, Ângela Ferreira, Pedro Calapez, João Pedro Vale, Manuel Botelho, Edgar Martins, Francisco Vidal, Sofia Areal, Ana Vidigal. O director de programação é João Pinharanda.
Licenciado em economia e com uma pós-graduação em finanças públicas, 57 anos, António Cachola tem como grande hóbi de António Cachola a arte, e fá-lo na qualidade de um quase profissional.

No catálogo de apresentação do museu e da colecção, escreve o próprio: "O objectivo não passa apenas pela descentralização da arte ou da cultura mas pela sua naturalização, por transformar a arte em algo natural e acessível a todos" 

António Cachola, que trabalha na Delta Cafés em Campo Maior, iniciou a sua colecção "mais a sério" no início dos anos 90 e revela que "sempre quis adquirir uma colecção com o objectivo de partilhar com os outros, por isso a escolha da selecção das peças teve que ser ajustada, não só ao meu gosto, mas também ao desejo e vontade do grande público".

Sobre a aquisição de tão valioso espólio, explica:" Tenho os meus rendimentos e, em função desses mesmos rendimentos e de uma forma forma criteriosa e selectiva, fiz a selecção para esta colecção. A disponibilidade dos galeristas e artistas no sentido de perceberem o meu projecto, ao saberem que os recursos eram escassos e ao sentirem que cada venda que faziam ia contribuir para este grande projecto (MACE), aderiram à ideia e também quiseram ser cúmplices desta grande obra que nasceu em Elvas".
(Informação obtida num artigo do DN e aqui)
 
 
  (Uma das salas grandes do MACE)

 
(Mulher de vestido verde, Balthus - magnífico nesta parede de cor vibrante) 


Na minha galeria do Olhares coloquei hoje uma fotografia também feita no MACE em que se vêem dois homens de Juan Muñoz

E já agora falo também da cidade. Fiquei muitas vezes em Elvas mas quase nunca de propósito para a visitar. Era sempre um sítio de passagem. Fui visitá-la este fim-de-semana e fiquei agradavelmente impressionada. Tem aquele casario branco das cidades do sul de que tanto gosto e encontra-se rodeada por campos desafogados (com as fortificações habituais nas zonas fronteiriças).

(Elvas, uma cidade branca)


(Rua de Elvas, uma cidade também de labirintos, de ruas estreitas, íngremes, muito bonitas)