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quinta-feira, fevereiro 01, 2024

Não é bem o que à primeira vista pode parecer
(mas é tudo bonito e surpreendente)

 

De vez em quando há por aí teorias. Quando se tornam virais, geralmente são bobagem, fake, tontice. Uma delas, sobre a qual há artigos, vídeos e discussões é que a vida e o mundo e nós todos não somos reais, somos uma ficção, personagens de uma cena imaginada, que tudo o que se vê e vive não passa de uma simulação.

Lá mais abaixo, Michio Kaku fala do assunto mas, já mesmo aqui abaixo, acredito que quem seja surpreendido com o que se vê fique sem perceber o que é o quê. 

Por mim, acho bonito e isso chega-me.

Daqui



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Michio Kaku has some news about simulation theory


After movies like "The Matrix" (1999) posited the existence of a superficial world layered over our own, human imagination has run abound with theories about the nature of our reality. To a small but passionate minority, the red pill that can awaken us to this illusion is right at our fingertips.

World-renowned physicist Michio Kaku isn’t quite ready to take that pill. In fact, he’s skeptical that the pills even exist. He explains why. 

quarta-feira, novembro 01, 2023

Nudez e cumplicidade nos balneários.
E receita rápida e boa para um jantar de halloween

 


Os balneários da piscina são todo um mundo. Em locais assim, mesmo sem querer, fico 'antenada'. As conversas são uma delícia. Muitas vezes acho que são altamente disparatadas, outras que são cúmplices e interessantes.

Há agora muito mais pessoas que antes. Hoje, quando cheguei já o meu cantinho estava ocupado, tive que ir para uma zona para onde nunca tinha ido, para junto de pessoas com quem nunca antes tinha falado.

A zona dos duches já não alberga todas ao mesmo tempo.

Continuo a não ser capaz de me pôr nua no meio das outras. Passo-me por água com o fato de banho vestido. Mas ao meu lado, a escassos centímetros e a toda a volta, as minhas companheiras ensaboam-se alegremente, lavam a cabeça, põem amaciador, viram-se e reviram-se. Algumas levam aquelas coisas que não sei como se chamam (não é esponja, mais parece uma espécie de rede plástica). Há uma senhora, diria que talvez mais velha que eu, que é relativamente baixa e muito gordinha, aliás bastante, bastante gordinha. Para lavar o rabo e os genitais faz uma ginástica extraordinária, baixa-se, curva-se toda, para conseguir chegar com aquela redinha cheia de espumada às partes baixas... E, enquanto está nestas acrobacias continua a conversar como se nada fosse. Fico espantada com o à vontade delas.

Hoje, já no balneário, uma mulher simpática, neste caso bem mais nova que eu, conversava comigo sobre o peso que já perdeu desde que faz hidroginástica e natação livre. Contava-me que todos os dias, à hora de almoço, vai para ali, dois dias de hidro e três de natação. Que gostava de fazer caminhada mas estava com excesso de peso, doíam-lhe os joelhos, deixou de caminhar, cada vez mais sedentária. Então resolver mudar de maneira de viver. Mudou a alimentação, começou com a piscina, ao fim de semana caminhada. E dez quilos já lá iam... E, enquanto conversava comigo, toda nua, aplicava hidratante em todo o corpo, na maior das calmas. E eu, com uma toalha gigante cobrindo a minha nudez e vestindo-me, por dentro da cortina do toalhão. Não sei porquê isto. Que pudor meu é este que não me deixa despir-me, lavar-me, hidratar o meu corpo em público?

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Hoje o meu dia foi mais tranquilo. Mas ando num estado em que parece que estou sempre em estado de alerta total, sempre à espera que as coisas descarrilem e que me veja, uma vez mais, em stresses. Por isso parece que não chego a desfrutar bem os instantes de tranquilidade. Até o meu sono anda inquieto, sempre com sonhos em que há situações de preocupação ou susto, acordando meio sobressaltada. Por isso, quando acordo, agora, volta e meia, estou com dor de cabeça.

Mas, enfim, hoje não foi mau de todo pelo que tenho é que aprender a conseguir desligar nos momentos tranquilos, nem que seja para recarregar baterias para quando tiver momentos intranquilos.

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Antes de terminar, conto o que cozinhei agora para o jantar, num instantinho e que ficou bom.

Tinha trazido lombos de atum congelados.

Descongelei. Numa tigela, coloquei cebola-doce cortadas às rodelas, os lombos de atum, mais rodelas de cebola, salta picada, um pouco de sal, um pouco de azeite e o sumo de duas limas. Ao fim de um bocado, se calhar aquilo estava ceviche e comer-se-ia bem assim. Mas não arrisquei.

Depois coloquei num tacho azeite e a cebola que estava a cobrir o atum e, em lume muito brando e com o tachinho tapado, deixei a cebola amolecer. 

Entretanto, noutro tacho cozi batata com casca cortada em rodelas largas. Quando estavam cozidas, escorri, temperei com azeite e orégãos.

No tacho em que estava a cebola, coloquei os lombos de atum marinado, depois piquei um tomate grande, maduro e esguichei um pouquinho de ketchup. Em lume brando, tapado. Ao fim de uns minutos, não sei se chegou aos cinco, desliguei. Deixei ficar tapado, envolvendo tudo bem, umas coisas nas outras.

Digo-vos que estava mesmo bom. O atum mal passado, macio, a saber a lima e ao tempero bom, o tomate picado ainda com leve sabor a fresco, as batatinhas com todos os sabores absorvidos.

E foi num instante...


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Ainda há bocado estiveram a tocar-nos à campainha. Devem ser os miúdos aqui do burgo. Ao fim da tarde, noite cerrada, vimos dois grupos de fantasminhas, serezinhos diabólicos, ruidosos mascarados. 

Para descelebrar o dia, plantei aqui graffitis que talvez tenham alguma coisa a ver com o dia das bruxas, Creio que são da autoria de Plast (Buenos Aires). 

Acompanha-nos Philip Glass com Musicbox.

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Desejo-vos uma boa quarta-feira

Saúde. Serenidade. Paz.

segunda-feira, agosto 14, 2023

Os mistérios de Banksy

 

Faz já há algum tempo que aqui não falava de Banksy esse fantástico artista. Não é apenas o seu sentido de oportunidade, a simplicidade e, ao mesmo tempo, a acutilância das suas obras, a coragem de as efectuar tantas vezes em locais arriscados, o sentido poético que tantas vezes imprime aos seus trabalhos -- é também a forma como exige que o seu trabalho seja apreciado independentemente de quem o concebe e executa.

O vídeo abaixo fala disso. Está legendado.

The mysteries of Banksy

Montar a primeira exposição autorizada em 14 anos de obras do artista de rua anónimo Banksy exigiu um planeamento extenso e a elaboração de uma história para esconder sua verdadeira identidade até que ela fosse inaugurada, sem aviso prévio, em Glasgow neste verão. O correspondente Seth Doane explora a arte e os mistérios do mundo de Banksy, incluindo a contínua especulação sobre a verdadeira identidade do artista, um segredo guardado a sete chaves por décadas.


sexta-feira, julho 21, 2023

Uma questão de equilíbrio

 

Dia preenchido e bom mas com uma componente triste. 

Deste vez resolvemos encontrar uma solução para não estarmos dependentes dele e ele de nós. A experiência é de curta duração. Pesquisámos, fomos ver, e, para dizer a verdade, a única solução que nos agradou minimamente estava esgotadíssima. Esta foi a segunda escolha. Grande parte das outras vive, quase de certeza, no mais puro amadorismo (e, antecipo, no gostoso mundo paralelo em que não há facturas, não há ivas, não há irs, nadinha, ou seja, o glorioso muito da economia paralela). Alguém que tem um bocado de terreno, arranja umas coisas, alguém que tome conta e está feito, um hotel para cães.

Até fomos dar com uma espécie de Zoo privado, uma coisa que me pareceu inimaginável, desolada, para não dizer sinistra, com camelos, lamas, póneis, cabras, gansos e tudo o que se possa imaginar. E, num bocado, umas quantas jaulas que funcionam como 'hotel para pets'.

Outro, com umas instalações fantásticas, quase parecia uma aeronave asséptica e, na zona de 'hotel', umas jaulas, sobrepostas, ínfimas. Tudo limpo, imaculado. E os animais ali enjaulados.

Este, que escolhemos, está associado a uma clínica veterinária e, do mal o menos, pareceu-nos razoável.

E sabemos que temos que fazer este teste pois não podemos fazer com o ano passado em que o trouxemos para o Algarve e que foi cansativo e stressante para ele e para nós. Mas dói-me a alma deixá-lo, sendo ele tão apegado a nós e nós a ele. Aliás, quando estávamos em casa a preparar as coisas (levámos a cama dele, onde ele já não dorme há um ano pois anda pela casa e escolhe onde quer dormir, ultimamente junto a um cortinado e a uma janela no andar de cima, e levámos os dois brinquedos preferidos dele) já ele devia estar a desconfiar que não vinha dali boa coisa. Deitou-se no corredor, de barriga para baixo, o queixo encostado ao chão, ar infeliz, impotente.

Quando o deixámos lá, tive vontade de me abraçar a ele, arrependida da maldade. Mas disfarcei, disse-lhe só: 'Os donos já vêm, está bem?'. Mas só me apetecia arrepiar caminho. E chorar. Custa-me imenso fazer mal a um ser indefeso. A única coisa que me faz aceitar melhor é que penso que, às tantas, aceita bem, habitua-se, e, de resto, é coisa ultra breve. E, se correr bem, habituar-nos-emos a isso e poderemos ter mais liberdade.

É tudo uma questão de encontrarmos o ponto de equilíbrio.

Tirando isso, está tudo bem.

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Uma terra pode ser visitada com foco nas suas belezas naturais. Ou na arte sacra. Ou na gastronomia. Ou na arquitectura. Ou no comércio. Ou... Ou na arte de rua, nomeadamente nos graffitis. A fotografia lá de cima mostra uma porta pintada, numa rua, numa cidade. Acho-a uma beleza.

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E, porque de um correcto balanceamento e de tentar encontrar o ponto de equilíbrio, aqui partilho um vídeo Chanel

The J12 Series. Chapter 2: A Balancing Act – CHANEL Watches



quinta-feira, novembro 24, 2022

From Banksy with love

 


Gosto de graffiti, gosto de política, gosto do 'bom gosto' ao serviço da inteligência, gosto da inteligência ao serviços das causas que considero justas e nobres, gosto de coragem e, em especial, quando vem vestida com beleza e afecto, gosto de arte ao dispor de todos, em especial dos que não podem frequentar inacessíveis galerias, gosto da lucidez que sabe escolher a oportunidade, gosto de mensagens certeiras, gosto de mistério.

Gosto de Banksy.

E, tal como ele e creio que como todas as pessoas civilizadas, estou ao lado do povo ucraniano na defesa do seu direito a escolher o seu destino, na defesa da liberdade, na defesa da paz em liberdade. E estou também ao seu lado na condenação, sem meias palavras, do narcisista assassino, do tresloucado psicopata, que resolveu negar a existência de um país e dos seus habitantes.

O vídeo 'oficial' dos graffitis de Banksy na Ucrânia só pode ser visto no Youtube e convido-vos a clicar aqui --> Ukraine <-- para o verem tal como Banksy quer que se veja. 

Acho-o tocante.

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Mas, entretanto, já foram feitos outros vídeos partilháveis que mostram a beleza, a ironia, a acutilância dos seus trabalhos no meio das ruínas ucranianas. Como este, por exemplo:

Banksy showcases new mural in war-damaged Ukrainian town

World-renowed graffiti artist Banksy unveiled a work in the Ukrainian town of Borodyanka, which had been occupied by Russia until April and heavily damaged by fighting in the early days of Moscow's invasion.

Banksy posted a photo of the mural - a girl gymnast performing a handstand on a small pile of concrete rubble - on Instagram late on Friday. The work was painted onto the wall of a building destroyed by shelling.

At least one other piece of new graffiti in Banksy's signature style, although not posted by the mercurial artist on social media, was spotted in Borodyanka, portraying a man being flipped in judo by a much smaller child.

The symbolism of that piece was an allusion to the biblical story of David and Goliath, the unlikely triumph of the underdog, as well as a nod to Russian President Vladimir Putin's much-publicised love of the Japanese martial art.


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Entretanto, aproveito para contar mais uma de Banksy. Em Londres, numa montra da Guess, bem na Regent Street, foi usado um trabalho de Banksy sem qualquer autorização do seu autor ou respeito pelos direitos de autor. Claro que Banksy não achou piada. E, sabem como ele é, não foi de modas: incitou a malta que costuma dedicar-se ao gamanço nas lojas a irem àquela e fanarem uma peça de roupa -- a ver se os da Guess aprendem a respeitar os criadores.


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Come to Portugal, Banksy. Play with us, Banksy.

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Um dia bom
Saúde. Garra. Paz.

quarta-feira, outubro 26, 2022

Quão suja é a bomba prestes a explodir dentro da cabeça de Putin?

 

Quando Putin começa a acusar as suas vítimas de andarem a fazer porcaria já toda a gente sabe algumas coisas:

1 - O que ele diz é mentira

2 - Está a manipular a opinião pública

3 - Está a criar condições para que, se for ele a fazê-lo, possa depois desculpar-se, dizendo que agiu em legítima defesa


Não sendo eu versada em temas de guerra, estudei contudo o suficiente de Teoria dos Jogos para poder tecer algumas considerações. Contudo, neste caso nem tal é necessário: o senso comum, neste caso, é mais do que suficiente para tal.

Assim:

a) Quando se começa a conseguir estabelecer padrões comportamentais num jogador, ou seja, quando este se torna previsível, esse jogador perde força, ie, perde vantagem competitiva  

b) Quando um jogador usa uma estratégia comunicacional assente numa lógica de defesa (que, ainda por cima, é falsa e facilmente desmentida) coloca-se num corredor cada vez mais estreito

c) Quando um jogador vê sucessivamente goradas as suas expectativas e sofre derrota após derrota perde o ímpeto vencedor e a inspiração que vem da perspectiva de ganhar e, vulneravelmente, passa a apenas concentrar-se em não perder

d) Quando um jogador começa a revelar que as suas decisões assentam em emoções (raiva, vontade de vingança, desespero) abre caminho para que quem age racionalmente possa mais facilmente criar condições para o derrotar.

Putin começa a ser, portanto, um adversário que, estando já numa trajectória irreversível, mais tarde ou mais cedo vai cometer o erro fatal que vai conduzir ao seu fim. 
 

Neste momento, ele sabe que esta aventura terá inevitavelmente um fim triste para ele e para a Rússia. Pelo meio quase terá destruído a Ucrânia e será responsabilizado pela morte de milhares de pessoas, quer ucranianas quer russas, terá mudado a vida e causado muito sofrimento a muitas famílias, ucranianas e russas. Ele sabe que passará à história como um criminoso ao lado dos grandes criminosos da história. Ele sabe que a Rússia jamais lhe perdoará o que ele está a fazer.

Um líder assim, predestinado ao fracasso, é um líder fraco, um líder odiado, um líder que atrai deslealdades, um líder que, quando cai, não tem perto de si uma mão que tente salvá-lo.

Não se poderá acusar ninguém mais pelo desfecho: será ele mesmo a implodir. A bomba suja de que tanto fala é a amálgama de desvarios e emoções negativas que tomaram conta da sua cabeça.

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Sei que não tem legendas, e é uma pena, mas recomendo o interessante vídeo abaixo no qual Abbas Gallyamov, que durante cerca de 10 anos escreveu os discursos de Putin e o conhece bem por dentro e por fora, se pronuncia sobre o que se tem publicamente observado no comportamento de Putin e o que daí se poderá inferir.

'He's becoming more and more emotional': Putin's former speechwriter decodes behavior

Former Putin speechwriter Abbas Gallyamov tells CNN's Erin Burnett what stands out to him about Russian President Vladimir Putin's current demeanor. 

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Os graffitis anti-Putin são alguns dos muitos que podem ser vistos em várias cidades e amplamente divulgados 

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Um dia bom

Saúde. Esperança. Paz.

quinta-feira, agosto 11, 2022

Ser pago para não fazer nada
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Claro que preferia estar de férias. Claro que tenho saudades dos abençoados tempos em que havia férias grandes que davam para tudo. De manhã ia à praia com os amigos, de tarde ia passear com eles pela baixa, pela beira-mar. Outras vezes ia passar o dia com os eles para a casa que uns tinham no campo. Na altura era campo mas, de carro, devia ser a cinco ou dez minutos da casa deles na cidade. Hoje é uma zona de moradias da cidade. Depois, quando o meu pai estava de férias, fazia férias com ele e com a minha mãe: íamos para Porto Covo ou para a Curia. Vários amigos meus faziam o Luso mas os meus pais preferiam a Curia. Isso causava-me algum enervamento pois o meu namorado da altura estava no Luso e eu na Curia e, ainda por cima, sempre desfasados. Mas também passava num instante. Estava lá e só pensava que não via a hora de voltar vê-lo. Havia também alguns dias de pura indolência. Lia muito. O tempo esticava de uma forma mágica. 

Com o outro namorado era diferente. Passávamos a maior parte do tempo juntos. Mas não era particularmente estimulante pois ele gostava muito mais de mim do que eu dele e, por isso, desse tempo o que recordo é a minha vontade de fazer coisas diferentes das que fazia. 

Com o terceiro, aí a música passou a ser outra: estávamos juntos de manhã à noite. No único verão em que namorámos, ele instalou-se numa pousada de juventude perto de mim e, portanto, era praticamente non stop. E era uma coisa equilibrada: estávamos os dois loucos um pelo outro, uma chama que ardia bem à vista de toda a gente.

Quando comecei a dar aulas acabou-se a bela vida. Estudava e dava aulas com horário completo. Tinha reuniões de avaliações, exames a vigiar, provas a corrigir, e isto em paralelo com trabalhos e exames meu na faculdade. E estava casada. Portanto, a coisa começou a apertar. Pior ainda quando fui trabalhar em empresas. Aí o tempo de descanso encurtou-se dramaticamente. Poucos dias e aí já com crianças pequenas. Não eram bem férias, era mais uma interrupção na rotina. 

Agora, que tenho tão poucos dias, gostaria de poder ter uma semana sem nada que fazer, nada de nada, não ter compromissos, não ter que ir a lado nenhum nem nada. O meu marido está como eu: diz que gostava de poder ficar deitado no sofá a descansar, diz que gostaria de poder dormir até mais tarde. Claro que estou em crer que, ao fim de uma semana sem fazer nada, já não me aguentaria, já estaria doida para sair, para fazer qualquer coisa. 

Quando no verão ficamos no campo, se estamos os dois sozinhos, no primeiro dia arrasto-me. Durmo, estou numa indolência que me deixa inerte. Ao segundo já ando de vassoura na mão, de balde e esfregona de um lado para o outro, limpezas a preceito. Depois já é podão e serrote e já ando de roda das árvores. E a partir daí já estamos os dois desertos para ir até à cidade mais próxima e tudo serve de desculpa: ou ir ao supermercado ou ir ver de alguma ferramenta. Qualquer coisa para nos sentirmos mais perto do mundo.

Enfim. 

Ontem, se estão recordados, contei que, ao fim do dia, quando aqui chego ao sofá, percorro as notícias e os sites que costumo frequentar para ver se descubro coisas nunca vistas, inesperadas, melhor ainda se transportarem qualquer coisa de inusitado, de meio amalucado.

Ora, como é sabido, o algoritmo do Youtube lê-me os pensamentos, pressente o meu estado de espírito, faz de tudo para me agradar e surpreender. Não tive até hoje ser vivo que assim me interpretasse e assim desse a volta ao mundo para descobrir o que me agradar. Isto da inteligência artificial tem que se lhe diga (e não digam que não avisei -- e, podem crer, sei um pouco do que falo)

Pois hoje o meu bff tinha para me mostrar uma situação extraordinária: um homem que vende o seu tempo para não fazer nada, apenas estar. No vídeo ele explica: resolveu ocupar o seu tempo, um tempo em que nada faz, de forma produtiva. Parece um paradoxo mas não é. Ou, se calhar, é. Tanto faz. 

E, curiosamente, está a ter saída. Pessoas que não querem almoçar sozinhas, pessoas que não querem ir a um sítio sozinhas, alguém que quer ter a experiência de um efusivo cumprimento numa estação de comboios, alguém que quer conversar sobre um tema sensível e não quer perturbar a família e amigos. De facto, um mar de possibilidades.

Diz ele que antes julgava que as pessoas muito ocupadas eram todas bem sucedidas e felizes. Constatou, entretanto, que não é bem assim. Diz que há muita solidão. 

Impressionou-me este vídeo. Há qualquer coisa de feridas expostas nisto. Mas, se calhar, estou a dramatizar. Se calhar é apenas uma forma prática de ultrapassar situações que, para algumas pessoas, são constrangedoras. Se calhar não tem nada de mais. 

Não sei. Às tantas não sei mesmo é mais nada.

É certo que isto se passa no Japão e no Japão passam-se muitas coisas estranhas. Contudo, creio que, neste caso, poderia acontecer aqui ou em qualquer outra cidade.


O japonês que é pago para não fazer nada

Shoji Morimoto provides a very unusual rental service to his clients in Tokyo, hiring himself out in order to, quite literally, do nothing.

He has fashioned a career out of renting himself out to clients who simply don't want to be alone. Shoji doesn't engage in conversation or do anything other than just be there at whatever event or activity he has been hired to attend, and yet he is in high demand, scheduling one to three sessions a day. 

PS: Ou seja, se alguém veio ao engano, a esta altura já deu para perceber: ao falar em 'ser pago para não fazer nada, obviamente não estava a referir-me ao Sérgio Figueiredo.

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As fotografias mostram um graffiti especial, em forma de renda. A rimeira foi feita em Póvoa de Atalaia, a segunda em Vila do Conde e a terceira no Bombarral. A autora é NeS NeSpoon

Yiruma interpreta Maybe

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Bom descanso. Paz

terça-feira, março 08, 2022

Palavras de perplexidade e tristeza perante a ferocidade e as chacinas de Putin.
Mas talvez não demore muito:
Putin vai ter um fim pouco honroso, no meio de deserções e pedidos de desculpa aos ucranianos por parte dos seus militares.

Слова недоумения и печали перед лицом путинской жестокости и резни.
Но, возможно, это не займет много времени.
У Путина будет позорный конец на фоне дезертирства и извинений перед украинцами со стороны его военных.

 


É verdade, faltam palavras para falar do que se passa. Talvez o silêncio fosse mesmo preferível. 

Por diversas vezes, ao ver fotografias ou imagens na televisão ou em vídeos, sinto que as lágrimas assomam aos meus olhos e, nessas alturas, não consigo dizer nada. 

São imagens muito violentas: uma criança de 11 anos que foi sozinha para outro país, enviada pela mãe. Um menino que levava um saco de plástico e um número de telefone escrito na mão. A mãe, uma jovem viúva, chora, teve que ficar a tomar conta da sua própria mãe, doente e sem mobilidade. A voz embargada, o rosto mostrando grande infelicidade, fala dos filhos, explica que achou que era a melhor decisão. Imagino o coração estrangulado, a angústia, a vontade de proteger os filhos mas incapaz de abandonar a mãe. Como se sobrevive a uma decisão tão dilacerante?

Uma jovem grávida, desamparada, cujo namorado ficou para lutar, parece perdida. Uma outra espera casar quando a guerra acabar mas que diz que, quando se despediu do companheiro, sentiu que estava a separar-se para sempre. Desvia o rosto sem conseguir conter as lágrimas.

Estou a falar de momentos tocantes. Mas como escolher uns momentos e não referir outros?

Não é igualmente tocante ver tantos jovens que vão de todo o lado para lutar ao lado dos ucranianos? Como ficam as mães, as avós, as mulheres e filhos desses homens? Como podem sentir orgulho pela valentia dos seus homens quando certamente sentem a carne rasgada pela angústia, sem saberem se vão poder voltar a abraçá-los?

Não é também tão tocante ver mulheres idosas, cansadas, ofegantes, em desequilíbrio, com pequenos sacos nos quais transportam o que conseguiram salvar da sua vida de paz, tropeçando ao frio, a irem sem saber bem para onde? Que vida as espera nos anos que lhes restam?

Ou pessoas chorando, precariamente descendo de dentro de casas em ruínas, tentando equilibrar-se por entre pedras soltas, segurando uns papéis, documentos que pensam poder valer-lhes, deixando uma vida inteira de sonhos para trás?

Ou uma idosa, entre destroços, filmando a destruição com o seu telemóvel? A quem vai ela enviar aquele testemunho? Será para um dia mais tarde poder mostrar aos bisnetos? Não é isso igualmente comovente? Tão comovente...

Não sei se há quem fique indiferente perante a brutalidade do que está a passar-se. Se calhar, há.

Não quero saber se em todo o lado em que há guerra se pode assistir a situações igualmente infernais e dolorosas. Acredito que sim mas isso agora não me serve para nada. O que não quero é que haja guerra nem quero ver isto que nos é mostrado: cidades arrasadas, casas esventradas, ruas e pontes interrompidas, tudo transformado em montes de destroços, mulheres e crianças abatidas na rua, famílias separadas, tanta gente em lágrimas ou já sem conseguir chorar. Não venham falar-me de todos os outros casos tentando banalizar o mal. Recuso-me a aceitar que se banalize o mal. 

Quem já viu a morte de perto, quem já pegou em armas ou matou outra pessoa consegue olhar para esta chacina sem emoção? Os que já viram morrer e mataram em cenário de guerra relativizam esta agressão brutal por comparação com tantas outras? Ou não querem que se fale disto porque voltam a viver os momentos de medo e ferocidade que, em tempos, viveram? 

Não conseguindo ficar em silêncio, faço perguntas. Mas temo que sejam perguntas para as quais jamais obterei respostas.


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Como nos dias anteriores, tento informar-me -- sempre na esperança de descobrir indícios do fim desta chacina. Partilho-os. Podem não me trazer as respostas que procuro mas ficam para (minha) memória futura. Traçam o roteiro para um destino ainda impreciso mas que só pode acabar com a derrota de Putin.

Man who lost five family members when a Russian missile destroyed his home: "God, help this to end."

Twelve days since the war began, many Ukrainian civilians are stuck in cities under fire, unable to flee the conflict. A promised evacuation corridor to allow civilians to flee failed to open on Sunday.

Russia has proposed some humanitarian corridors that lead from Ukrainian cities to Russia and Russia’s ally Belarus.

Ukrainian officials called the proposal “completely immoral” and said that Ukrainians should be able to flee through their own country. 

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Lieutenant Colonel Astakhov Dmitry Mikhailovich, a captured Russian soldier, begs for forgiveness for Ukraine invasion

A Russian soldier who was captured by Ukrainian forces says he realised he was on the wrong side when his favourite boxers took up arms to defend their country from invaders.

Lieutenant Colonel Astakhov Dmitry Mikhailovich begged for forgiveness in a press conference after he was captured, saying he was under the impression Ukraine was under the grip of a fascist regime.


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Ao som do Hino da Ucrânia, fotografias de graffitis um pouco por todo o mundo apelando ao fim da invasão russa e da guerra e pedindo a paz na Ucrânia. Mais no Bored Panda

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Paz.

segunda-feira, julho 26, 2021

Otelo

 



Algumas pessoas não cabem dentro da esquadria normal. Talvez seja porque não são tridimensionais como as que se enquadram sem dificuldade.

Mesmo sem querer, todos nós traçamos as linhas em que a movimentação dos outros nos parece razoável, linhas que, mesmo sem darmos por isso, se instalam como linhas vermelhas: linhas do bom comportamento, da religião, da ética, do respeito pelos outros. Somos mais ou menos tolerantes... mas deste que o outro não pise nunca esses riscos.

Tenho também ideia que só quem tem a coragem ou a inconsciência de sair da esquadria é que consegue furar a malha do status quo para fazer a disrupção que, de vez em quando, é precisa.

Podemos querer que, quando o momento o pede, consigam destacar-se da mediania e sejam mais corajosos, visionários, criativos e audazes do que todos nós -- e, ao mesmo tempo, fora disso, sejam bem comportados e iguais a todos nós. Contudo, penso que isso é uma equação impossível.

Talvez por isso, de quase todos os que ficaram para a história se conhecem excessos, desvios, excentricidades, maus passos.

A ideia que tenho é que Otelo é bem exemplo disso: um daqueles seres que não encaixa bem em nada e que, quando foi preciso, se chegou à frente e avançou de peito feito.

Na escola teve faltas de mau comportamento, foi suspenso. Sempre foi extrovertido, truculento, utópico. O palco e as câmaras atraíam-no. Não temia o mediatismo nem o confronto. 

Não tinha ainda quarenta quando se deu o 25. Amigo da coboiada, certamente sempre pronto para uma cena, em especial se prometesse conspiração -- mesa virada, pratos partidos e 'ir aos cornos' a quem estivesse a pedi-las -- preparar o 25 deve ter sido uma coisa épica: adrenalina e testosterona em dose dupla, provavelmente tudo condimentado com palavrão e gargalhada, e bem regado com umas bjecas bem fresquinhas.

No 25 a coisa deu-se e deu-se com uma grande pinta: a missão não poderia ter sido melhor cumprida. Vimo-nos livres do sarro de antanho, despimos o cinzentismo e o bafio de décadas, sacudimos o pó salazarista e marcelista que não deixava a malta respirar, a liberdade veio para a rua e a democracia começou a dar os seus passos.

Claro que a seguir Otelo continuou a fazer das suas. Deslumbrou-se, encandeou-se, pisou o risco, desiludiu-se, quis reencontrar o espírito inocente dos ideais revolucionários, de vez em quando disse o que não devia, de vez em quando fez o que não devia. Anos depois de ter ajudado a conseguir a libertação dos presos políticos, os seus excessos levaram-no, a ele mesmo, aos calabouços.

Não se consegue amestrar uma pessoa assim. A cada momento mostra que desconhece esquadrias. Ou, se as conhece, está-se nas tintas para elas pois tem muitas outras coisas em que pensar.

Antes, calhava muitas vezes estar a conduzir, do almoço para o escritório, enquanto na TSF passava a playlist de pessoas conhecidas. De todas as que ouvi, as pessoas introduziam o tema explicando porque é que ele as tinha tocado ou porque é que o cantor lhes era especial. Otelo foi diferente: Otelo cantava as canções, a sua voz juntava-se à de Sinatra ou a de quem quer que fosse, misturava-se com a música. O seu à vontade, a sua joie de vivre foram, como sempre, patentes. Facilmente o imaginávamos a dançar, a cantar 'a casa da mariquinhas' nos seus encontros de amigos.

Destemperado, desalinhado, com uma energia e uma alegria sem peias, na vida amorosa também não se aguentou nos eixos. Tinha duas mulheres que, por o compreenderem e amarem, aceitaram que repartisse a sua vida entre duas casas. E ele assumia isso sem pejo ou pudor. 

Otelo foi um homem que não coube em esquadrias -- e a quem muito devemos. Quanto ao resto, temos que encarar como efeitos colaterais que, por muito que nos custe ou que custe a alguns, devem ser relativizados. 

Quando ouvi que tinha morrido senti um abalo interior, como se Otelo, o eterno jovem, estivesse a atirar-nos à cara que tudo é perecível nesta vida e como se, com a sua morte, o 25 de Abril de 1974 passasse agora a ser coisa do passado.

Mas é assim que as coisas são... 

... e a vida continua. 
Desejavelmente sempre com um cheirinho de alecrim.

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O primeiro cravo foi pintado por Leora Baranes e os últimos por Lori Twiggs. Dos graffitis com os cravos de Abril não sei quem são os autores

O Chico canta o Tanto Mar

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

E viva a liberdade

sábado, janeiro 23, 2021

Deixai, deixai cair uma palavra

 





Já disse em quem vou votar. Não quero que haja segunda volta. Penso que há protagonismos que devem ser negados e, para isso, nada melhor do que arrumar o assunto de vez. Depois, a votação é para Presidente da República, não para Primeiro-Ministro. Quando ouço as razões contra a pessoa em quem vou votar penso que confundem as eleições. E há que ser pragmático e não correr qualquer risco, por mínimo que seja, de haver segunda volta.

Se se pudesse escolher quem, nestas eleições, deveria ficar em segundo lugar, escolheria João Ferreira. Do que vi, penso que fez uma campanha inteligente e digna, de todas a mais inteligente e a mais digna. Do que vi, João Ferreira não foi populista, oportunista, facilitista. Mostrou saber qual o papel de Presidente da República. Se não houvesse risco de haver segunda volta (e há), seria nele que eu votaria. Não voto no PCP para as legislativas pois creio que nem todos no PCP têm a abertura de espírito que João Ferreira tem mostrado nesta campanha mas estas eleições são para as Presidenciais e, se tivesse possibilidade de exercer essas funções, estou em crer que ele as desempenharia com dignidade, respeitando a Constituição. Agora talvez ainda lhe falte algum mundo, alguma experiência de vida, talvez lhe falte perder alguma ortodoxia que ainda lhe enferruje as articulações mentais, não sei, mas, nas próximas eleições, não havendo riscos como este ano há, talvez ele consiga mostrar poder vir a ser opção para um primeiro lugar. Nunca se sabe. As pessoas inteligentes sabem evoluir. 

Quanto ao dia que passou, o que posso dizer é que passou. Fiz o que tinha a fazer, tive reuniões, fiz e recebi telefonemas. E fiz a minha caminhada. E nisto o meu dia se esgotou. 

Esteve muito vento. Tirando a caminhada à hora de almoço, apenas saí à rua por breves instantes. Saí de uma reunião e tinha que entrar noutra logo a seguir. Então, num ápice, saí para o jardim e fui apanhar as laranjas que tinham caído com a ventania. Comi uma, logo ali. Doce, doce. Não tive tempo de ir até à horta. Faço ideia as tangerinas caídas no chão... 

Há quanto tempo não vou ao lugar para mim mais especial à superfície da terra, aquele bocado de chão a que chamo heaven. Não se pode circular e nós obedecemos. Mas tenho tantas saudades, tantas. Nem quero pensar nisso.

Há pouco, antes de adormecer com a meia almofada de veludo a envolver-me a nuca, voltei a pegar em Acidentes, de Hélia Correia. Tenho que ler devagar, a cabeça limpa de tudo, toda eu entregue às palavras para que elas, se para isso tiverem sido cerzidas, me deixem perceber a sua toada implícita. Ler poesia, quando a poesia consegue tocar a minha alma, é, para mim, uma fonte de felicidade. Nessas alturas gostava de ter aqui ao meu lado quem me dissesse, baixinho, estas palavras -- mas lesse como eu acho que elas devem soar. Contudo, se eu ousar dizê-las, não consigo. A minha voz não tem a profundidade que me agrada quando ouço poesia.

Por exemplo, o início de Almofada de Andorinhas:
Poucos, alguns, têm na mão o tempo.
E, como que sem esforço, simplesmente
porque podem fazê-lo,
alteram tudo: os ciclos lunares,
as estações,
as sequências brandas a que o dia,
o entardecer, a noite,
se submetem.
(...)
Gosto.

Tirando isso.

Esforçamo-nos por não termos uma overdose de covid. Evitamos notícias catastrofistas mas todas elas agora o são. Se o meu marido aqui estivesse já teria mudado de canal. Estou a ver a fila de ambulâncias à porta de Santa Maria e os médicos a descreverem  aquilo que eu, por outra via, já sabia que estava a passar-se. Terrível. O que se passa arrasa toda a gente: em primeiro lugar os que estão doentes e a precisar de apoio hospitalar mas, e segundo, os profissionais de saúde. E as famílias. E toda a gente que assiste a isto.

Hibernar. Hibernar até que o tempo passe e as coisas voltem a estar controladas. Não sei quando.

Hibernar os que o podem fazer, claro. Tem razão Chevrolet. Não podemos nunca esquecer-nos dos que continuam a expor-se para que os que hibernam e todos os outros consigam sobreviver.

Bem. 

Com tudo isto nem me apetece falar de uma coisa que, noutra ocasião, me traria transbordante de alegria: a lufada de normalidade, racionalidade e decência que varre a Casa Branca.

Limito-me a partilhar um vídeo com Amanda Gorman, a jovem que encantou o mundo com a graça das suas palavras na tomada de posse de Biden, e com Jon Batiste, o músico que conheci no programa de Colbert. Há qualquer coisa neste vídeo, como noutros que tenho visto recentemente, e talvez tenha a ver com a força das palavras ou com a beleza da música ou com a diferença ou com a modernidade ou com a elegância ou com o sorriso, não sei, não sei mesmo dizer, que me faz acreditar que não devemos abandonar a esperança num mundo que talvez possa ser um pouco melhorzinho do que aquele em que agora vivemos. 

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As pinturas são, de novo, de Georgina Ciotti e vêm pela mão de Jacob Collier interpretando The Sun Is In Your Eyes
O título deste post é parte da parte III poema Esmola do mesmo livro

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Um bom sábado.

Saúde. Ânimo. 

sexta-feira, janeiro 22, 2021

Covid -- previsões, apreensões.

Contra isso, falo com as árvores.
E vejo como se voa e encanto-me com a toada das palavras.

 



Quando se tem na família quem esteja ligado ao sector da saúde parece que as notícias chegam mais depressa e que, antes de as coisas serem notícia, já a gente antecipa os problemas que estão por vir. É preciso desligar um pouco para não ficarmos mentalmente reféns dos problemas presentes e futuros. Acresce que, quando temos um certo gosto pelos modelos, mal a gente vê uma sucessão de números, logo a intuição desata a fazer contas de cabeça. 

Depois chegam as notícias. E a gente vê que o que os profissionais de saúde temiam e o que os números antecipavam já aí está. E a gente vê as curvas que sabe serem temíveis e pensa que as rédeas já não estão na nossa mão. A besta anda à solta.

Antes, por alturas do verão e outono, eu dizia: 

Isto é fácil, há um limite: o número de vagas nos cuidados intensivos. É o fim da linha. Sabendo-se qual a percentagem estatísticas dos que chegam a esse ponto de gravidade, é fácil calcular qual o número máximo de infectados que o sistema comporta (não esquecendo, claro, de levar em linha de conta o tempo médio de permanência de um doente ali internado e a velocidade de crescimento do contágio). Sabendo esse número máximo, vai ser fácil saber o ponto em que o travão de mão tem que ser puxado. Confiava eu.

Fui pesquisar a caixa de correio e vi que foi no dia 12 de novembro que um leitor me escreveu a dizer "Li agora o que anda a escrever nos últimos tempos e fiquei preocupado. Não pode deixar que esta intoxicação de estatística diária a afecte dessa maneira.". Pois é. Por essa altura, eu andava preocupada pois achava que se estava a levar tudo na boazinha, achava que não estavam a perceber os riscos que estavam à espreita, achava que estava à vista que a desgraça ia chegar. 

Se, ainda por cima, temos agora esta nova estirpe, mais acelerada, então o que posso dizer é o óbvio, o que toda a gente sabe, é o resultado que está à vista: muitos doentes não vão ter lugar nos cuidados hospitalares. O número de mortos vai aumentar não apenas em números absolutos mas, também, em números relativos. Se no hospital há lugar para acolher diariamente x doentes e na realidade há x+Δ à espera, então há fortes probabilidades de haver um acréscimo de cerca de pelo menos Δ mortos x nº de dias em que há sobreprocura.

Mas, com estas preocupações e estes raciocínios em mente, chega-se a um ponto em que já custa ver as notícias pois vê-se acontecer aquilo que achamos que teria sido possível evitar e percebe-se que agora, com os limites ultrapassados e com variantes novas em campo, é tarde demais. Muitas vidas se vão perder e muito sofrimento não vai poder ser evitado. E se isso, matematicamente falando, é o mero resultado de meia dúzia de cálculos, já do ponto de vista humano é um traumatismo profundo, uma dor para quem passa por ela, um medo para quem assiste.

Claro que a matemática pura só existe em laboratório, em salas bacteriologicamente limpas. É que há tudo o resto: os constrangimentos sócio-económicos, as pressões políticas e mediáticas, as confusões que muitos opinantes causam. Os governantes não são cientistas em laboratório. São pastores de rebanhos desgovernados no meio de contextos poluídos. Muito difícil ser governante numa altura destas. Não os crucifiquemos. Não quereríamos estar no lugar deles.

Mas, confesso, talvez porque tudo isto me custa, já estou a atingir o ponto de saturação. Por exemplo, não consigo ter paciência para quem convida pessoas para estarem presentes em estúdio para uma entrevista e, mal se apanha com o poder de fazer perguntas, desata a portar-se como um inquisidor-mor, um julgador sumário, um bárbaro castigador. Convidar um governante é algo que faz os entrevistadores terem impúdicas erecções e, acto contínuo, passarem à fase da violentação das indefesas vítimas. Com o poder de conduzir a emissão e a entrevista, agridem, fazem sorrisos de gozo, investem como umas bestas. Uma coisa a que se assiste com repulsa -- isto quando se consegue assistir. 

Assim, em televisão já só consigo assistir a programas em que o entrevistador se porta razoavelmente, por vezes como pessoa de bem, e os entrevistados estão ali não para apontarem o dedo a quem fez assim e devia ter feito assado mas para explicar o que, para a opinião pública, não é claro ou, então, a darem perspectivas para o futuro. 

Por exemplo, assisti a uma parte da entrevista que José Alberto Carvalho fez ao Secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales. Este, com uma calma olímpica e a paciência de um santo, conseguiu aguentar os ímpetos censores e punitivos do jornalista. Do que vi, a entrevista, por responsabilidade do mau entrevistador, nada acrescentou. Pelo contrário, incomodou. Em contrapartida, Vítor Gonçalves, na RTP3, fez boas e úteis entrevistas a médicos que estão no terreno, um a norte, Roberto Roncon, outro a sul de que não fixei o nome, ao belo Pedro Simas e a Carlos Antunes, matemático. A decência e o profissionalismo começam a ser coisas raras em televisão.

Durante o dia não vejo televisão e à noite pouco vejo. Durante o dia não tenho tempo e, à noite, saturada, já pouco suporto.

E tudo isto é para mim também um enigma. O tempo passa sem que eu consiga fazer qualquer outra coisa senão trabalhar e existir. Em tempos -- que me parecem longínquos -- eu tinha tempo para me aperaltar, deslocar-me de carro pela cidade, trabalhar, almoçar em restaurantes, ir a livrarias ou lojas de moda, trabalhar, voltar a atravessar a cidade ao fim do dia, depois caminhar. E existir. Agora todo o meu tempo pessoal é sugado. Nada sobra. E não encontro explicação para isto. Os dias passam, os meses passam. Caminhamos para quase um ano disto. Se há um ano eu sonhasse com tal, imaginaria que me sobraria tempo para coisas minhas, para ler, para escrever, para descobrir novos interesses. Mas nada. Por vezes olho para mim no espelho e penso que se, passar muito mais tempo assim, ainda me arrisco a começar a envelhecer. Perspectiva excruciante. 

No outro dia, ao falar com o meu filho ao telefone, mostrei alguma preocupação por uma coisa. Espantou-se, incomodou-se, que era aquilo?, preocupar-me com coisas assim até parecia coisa de velha. Calei-me logo. Quando eram pequenos, eles diziam-me que eu não era como as outras mães, parecia muito mais nova. Ainda me lembro de, eu própria, ao falar com outras mães, achar que não tinha nada a ver com o que elas pensavam, achava-as conservadoras, velhas. E, mais tarde, quando conhecia as mães das namoradas ou namorados deles eu, sem querer, achava que elas estavam mais próximas da minha mãe do que de mim. 

Agora, fechada em casa, a trabalhar em contínuo, vendo o tempo a passar debaixo destas ameaças terríveis, sem saber bem como é que isto vai acabar, sabendo de tantos casos, de tantas mortes, sinto que um dia destes, quando der por ela, estou igual às mulheres que antes achava que pareciam da idade da minha mãe. Se calhar é um estado de espírito típico de pessoas confinadas. 

Li um artigo sobre hobbies a que as pessoas se entregam durante estes tempos de fechamento. Com que curiosidade o fui ler. Mas parece que nada me interessa. Procurar vida selvagem e fotografá-la. Por exemplo, pássaros. Ou ir para um bosque e procurar bichinhos. Ir correr com o cão. Assistir a peças de Shakespeare via zoom. Fazer receitas antigas. Fazer uma biblioteca no bairro. Pintar. Ir para o campo escrever. Apanhar folhas e fazer um álbum. Fotografar a mesma coisa ao longo do tempo. Coisas assim. E parece que nada disso me interessa.

Já é sexta-feira. Dantes as sextas-feiras eram dia de coisa boa, passear e jantar na praia, andar perto do mar à noite, o luar reflectido nas águas, a música da rebentação, a véspera do fim de semana, coisa promissora. Agora é apenas mais um dia igual a todos os outros. 

Não gosto de pensar assim nem de me sentir assim. Sinto que estou a ficar aquilo que detesto: uma seca. Não há pachorra. A ver se me ocorre alguma maneira de me sobrar tempo para mim e a ver se descubro maneira de o usar com prazer, de me entreter de gosto com coisa nova, inesperada. A ver se volto a ser capaz de sonhar.


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Para o post não acabar nesta onda down, bora lá:

Não é novo nem a primeira vez nem a segunda vez aqui mas, caraças, apetece-me mesmo ver. Tudo bom. Sergei Polunin dança "Take me to Church" de Hozier, uma realização do fantástico David LaChapelle para uma coreografia de Jade Hale-Christofi


E, por falar em Shakespeare, sem prestar atenção ao sentido, apenas pela toada, pela beleza das palavras

Patrick Stewart lê o 116


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Polvilhando o texto, pinturas de Georgina Ciotti

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Caraças. É sexta-feira. Saibamos aproveitá-la.

quarta-feira, dezembro 30, 2020

Para que serve a poesia?

 


Não tem havido poesia nos meus últimos dias. Não que tenham sido desagradáveis. Muito pelo contrário. As reuniões acabam com o ecrã repleto de rostos sorridentes. Alguns, em separado, em reuniões distintas, formulam votos dizendo 'que daqui por um ano estejamos aqui a festejar o sucesso que tivemos'. Outros dizem: 'ninguém esperava tamanha revolução' e eu, por dentro, sinto aquele arrepio que tão bem conheço, o mesmo que sentia quando, em pânico numa montanha russa, pensava 'mas porque é que me meti nisto?', sabendo que já ser tarde demais para voltar atrás. Um disse: ''uma revolução preparada cientificamente, as pessoas não esperavam uma coisa assim, estão surpreendidas e agradadas'. E eu sinto, de novo, aquele arrepio. Um mortal encarpado -- e temos que cair de pé, continuar a andar, a saltar, a ir em frente. Mas como, se não houve treino?

Olho para trás e vejo que, sem antes saberem ao que iam, os passos que davam agora lhes parecem estranhamente coerentes, como se tudo milimetricamente planeado. Um disse: 'tiro-lhe o chapéu, na altura não sabíamos porque nos tinha escolhido, agora está tudo claro, agora tudo faz sentido' e eu e aquele arrepio. É verdade. Agora tudo faz sentido. 

Por isso não penso, não planeio, nunca penso, nunca planeio. As coisas, sem eu saber como, parece que batem certo. A posteriori parece que estava a dar passos de um plano bem pensado. Mas sei que, ao dá-los e ao levar outros comigo, eu não sabia para onde estava a conduzi-los. 

E, ao contrário dos que me dão os parabéns, eu sei que só saberei se esta aventura bateu certo daqui por um ano. E o que penso é que, se me perguntarem o que vou fazer durante este ano, não saberei dizer. Mas confio que não devo pensar, deve é deixar-me ir. É um bocado assustador, sobretudo para mim.

O meu marido que assiste a esta minha caminhada, a trabalhar de manhã à noite, diz que não precisava de ser assim, tão intenso, ninguém pede, ninguém espera, que eu é que sou assim, excessiva. Mas só ele sabe que é excessivo porque os outros -- como cada um só vê uma parte, a parte em que cada um intervém -- creio que nem avaliam as horas que levo a construir com eles as peças deste puzzle que é construído sem guião e que, no fim, parece perfeito. 

É um processo. Convencer uns, conduzir outros, refrear outros, entusiasmar outros. No fim dizem: 'e quando podemos começar?'. Sorriem. Estão entusiasmados, por vontade deles começavam de imediato nesta nova vida. 

Um disse: 'Só tem que me dizer o que quer que eu faça' e eu, 'não faço ideia, não me pergunte, isso tem que você a descobrir' e ele, apanhado de surpresa, a rir: 'Ai é...?! Então, está bem'. 

Ouço-me e penso: 'É impossível que não percebam que não sou boa da cabeça'. Mas, se o pensam, não o demonstram. As ideias aparecem-me não sei como e eu só desejo é que não me faltem e que vão batendo certo. Enquanto os outros vêem estudo, preparação aturada, análise exaustiva de hipóteses, eu tenho sempre aquela sensação que é tudo aleatório, espontâneo, ao calhas. E que, assim sendo, pode esgotar-se ou pode começar tudo a sair tudo trocado. É a mesma sensação de, quando era chamada ao quadro e testada com matérias difíceis e as respostas me saíam automática e imediatamente, todas certas, e toda a gente me achava o máximo, eu me sentir incrédula com o que tinha acontecido pois não fazia ideia de como tinha respondido aquilo e acertado sempre. Achava que poderia acontecer que um dia ali chegasse e só dissesse disparates, coisas igualmente saídas da boca para fora.

Por isso, têm sido dias de alguma adrenalina e, por vezes, quase exaustão. Não de poesia. Estou na mesinha encostada à janela, de frente para as flores, mas nem tenho tempo de olhar para elas.

Ao fim do dia, noite já, fomos comprar sacos-cama. Agora já podem dormir cá, à vontade, sem que isso implique vários pares de lençóis para lavar, secar, dobrar, arrumar. Não é solução que me fosse simpática. O meu filho dizia sempre: nós levamos sacos-cama. Nunca achei isso uma boa ideia. Achava que, a dormirem em nossa casa, deveria ser em camas a preceito, lençóis lavados, edredons e mantinhas quentinhas. Mas, de facto, não é prático, por uma noite, haver tanto lençol para lavar. Rendi-me. A seguir, para me dar tréguas, fomos comprar um frango assado, na grelha de carvão. E, claro está, nada disto tem pingo de poesia. Prosa, prosa, prosa.

Agora, já bem tarde, circulei pelos jornais. Nada despertou o meu interesse. Penso que há já alguns dias que não pego num livro. Hoje também não apanhei nenhuma laranja da árvore para comer logo ali. O que valeu a pena foi o episódio do Master Chef Australia, Que arte, que técnica, que perícia. E isso, sim, talvez tenha alguma poesia. 

E estou a ser injusta: alguns posts que li também têm alguma poesia. Anjos, abrigo, efeitos colaterais. São pequenos apontamentos que trazem um pouco de luz a quem lhes passa por perto e isso, para mim, é oxigénio, é espaço largo, é doce toada.

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Angélica Argüelles Kubli, Min Jeong-gi, Jason Pawley, Olaf Hajek pintaram as paredes

 ao som de Never Goodbye, Max Richter

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E, porque preciso mesmo de terminar o dia com poesia, com vossa licença,

The Tyger – William Blake (lido por Tom O'Bedlam)


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Uma quarta-feira feliz