Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, janeiro 04, 2020

Sobre a importância das férias dos primeiros-ministros na resolução dos incêndios ou das suas consequências.
Sobre a compreensão dos efeitos das alterações climáticas.
Sobre os principais riscos a nível global, segundo o The Global Risks Report 2019 do World Economic Forum


Escrevo aqui há muito tempo e tenho ideia que, excepto na noite em que estive internada na sequência de uma cirurgia e foi porque estava sedada, sempre aqui vim. Umas vezes venho porque tenho alguma coisa para dizer, outras porque me apetece descansar a cabeça e escrever descansa-me, outras venho para me divertir, outras para espairecer, outras, mais esporadicamente, porque me dá para ficcionar e, enquanto ando numa de folhetinar, não sossego enquanto não deixo os personagens usarem da vida própria que adquiriram.

Como é óbvio, no decurso desses anos, já sofri inquietações diversas, algumas por razões colectivas e outras por razões muito pessoais. Tenho passado por situações muito complexas e tristes, tenho perdido familiares muito queridos e amigos próximos.

Mesmo em dias de grande aflição, eu vim aqui e, nesses dias, falei de outras coisas, podendo até ter esparvoado, gozado com palermices. 

Mesmo a nível profissional já passei por situações complicadas, situações de incerteza, situações de grandes alterações que me inquietaram ou de decisões bem difíceis de tomar. E quando aqui vinha escrever não era disso que falava mas de coisas que nada tinham a ver.

Sempre penso que, haja o que houver, a vida continua e que o melhor a fazer é seguir em frente, se possível de cabeça fresca para melhor enfrentar as dificuldades e as angústias.

Mesmo quando acontece uma infelicidade à qual temos que dar todo o nosso apoio e em que contam com a nossa entrega, o melhor é que não nos deixemos afundar na angústia pois isso a ninguém aproveitaria.

No meu trabalho creio que nunca ninguém percebe se tenho preocupações familiares ou outras nem se tenho problemas profissionais que não vêm ao caso. Podem estar a acontecer crises num sector e eu continuo a lidar nos outros como se nada acontecesse. E acho que é assim que deve ser. Bola para a frente. A vida continua e é bom que continue com a normalidade possível.

Mas isso é a minha maneira de ser. E sou eu a pensar. Mas há quem pense o contrário.

Perante uma situação difícil há quem meça os actos dos outros pela exibição do luto continuado, pela ladainha. Mas exibições de luto ou públicas ladaínhas são de pouca utilidade quando o que é preciso é acção e, além disso, cada um reage como é de sua natureza reagir. Mais: se é importante que a pessoa esteja tranquila para que mantenha a cabeça no lugar para todas as outras decisões que tem que tomar no seu dia a dia, então, é mesmo importante que não se deixe enterrar nos problemas.

Diferente é quando a pessoa, perante desgraças que acontecem e por cuja resolução ou mitigação é responsável, em plena crise, por motivos fúteis, se ausente do cenário de horror e, ao regressar, em vez de dar mostras de perceber as causas dos problemas ou de relacionar as consequências com as causas, mostre ignorar que são as suas políticas que propiciam o desencadeamento das dramáticas crises a que se assiste.

À frente de um país não temos que ter super-homens. Não precisamos de quem não necessite de descansar ou de estar com a família de quando em vez. Necessitamos, isso sim, de pessoas inteligentes, que se saibam rodear de gente bem informada, gente com capacidade de decisão e visão de longo prazo. 

Trumps, Bolsonaros, Scott Morrissons ou outros governantes que teimam em negar a gravidade das alterações climáticas ou se recusam a perceber que as suas políticas económicas, que ignoram os efeitos ambientais, são um perigo para a humanidade. Mas quem os apoia e, com o seu apoio, os mantém em funções, está ao mesmo nível. Ou quem não percebe que isso é o mais grave, que isso é que é o verdadeiramente imperdoável e não tanto o terem tirado uns dias de férias com a família ou não os termos vistos aos abraços e beijinhos no meio dos despojos ou dos carros dos bombeiros. 

Transcrevo para se ter uma ideia do que é grave (e, note-se, como também é relevante que se façam sondagens ou estudos de opinião para conhecer o pensamento ou o sentimento da população):
Polls show a large majority of Australians view climate change as an urgent threat and want stronger government action to combat it. The catastrophic fire conditions have put an intense focus on the Australian government’s failure to reduce emissions of carbon dioxide, which traps heat when released into the atmosphere and contributes to global warming. Prime Minister Scott Morrison, a conservative, has made it clear that Australia’s economic prosperity comes first. Even as his country burned, he has said repeatedly that it is not the time to discuss climate policy.
Do mesmo artigo transcrevo ainda mais, uma coisa um bocado do além (sendo certo que são aves que sabem imitar sons):

According to the Guardian, the birds have learned to imitate the fire sirens. (...)


Australia is not a preview. It is not a glimpse of the future. It is not a cautionary tale. Australia is a climate disaster, ongoing and in real time. The future, in Australia, is now. (...)
The nature and scale of this bushfire season in Australia is unprecedented. Scientists have cited the lack of moisture in the landscape – following years of drought – as a key reason the fires have been so severe. Intense heat, dry conditions and strong winds have created conditions where the fire risk is considered extreme or catastrophic. (...)
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Em Davos discutem-se anualmente os temas mais relevantes, os emergentes, os que causarão impacto no mundo. Em Davos percebe-se quais as preocupações do mundo, endereçam-se possíveis soluções  ou redireccionam-se tendências.
The World Economic Forum Annual Meeting in Davos-Klosters convenes world leaders to discuss the global, regional and industry agendas at the beginning of each year. The World Economic Forum's mission is to improve the state of the world, which has driven the design and development of the Annual Meeting objectives.
Participants come together at the Annual Meeting to address the most pressing issues on the global agenda. They do so in an exceptional atmosphere and in the “Spirit of Davos”, featuring interdisciplinary, informal and direct interaction among peers.
Partilho convosco o que, no início de 2019, foi identificado como sendo os riscos mais graves a nível global. O gráfico mostra, no eixo vertical, a gravidade do impacto e, a nível horizontal, a probabilidade de ocorrência. Portanto, no canto superior direito teremos os piores riscos, aqueles que terão o maior impacto e os mais prováveis de acontecer. E o que vemos é que os piores dos piores são as ocorrências extremas a nível climático, os desastres naturais e o nosso falhanço na mitigação ou adaptação às alterações climáticas. A seguir a estes riscos extremos, e sem surpresa, seguem-se os relacionados com a cibersegurança.

A imagem não é a melhor possível mas talvez dê para perceber.



Seguidamente mostro partes de um quadro único que mostra a evolução dos top risks (top em termos de probabilidade de acontecerem e de gravidade de impacto), ao longo dos anos, desde 2009 até agora. Como o quadro, para caber aqui todo, ficaria muito pequenino e mal se veria, coloco apenas os três primeiros anos analisados (2009, 2010 e 2011) e os três últimos (2017, 2018 e 2019).

E o interessante é ver-se como, no decorrer dos anos, mudam os riscos globais, ou seja, os riscos percepcionados para o mundo. Se no início os riscos eram sobretudo de cariz financeiro (estava-se a entrar no pico da crise financeira mundial), agora os grandes riscos têm sobretudo a ver com a severidade dos efeitos das alterações climáticas (fenómenos extremos, desastres naturais, incapacidade em lidar com isso) seguidos dos riscos de roubos e fraudes através de ciberataques.

Os primeiros anos:


E os anos mais recentes:




Deixo aqui o link para o The Global Risks Report 2019, É um documento bastante interessante e, em minha opinião, a comunicação social em vez de dar ênfase a intrigas e coscuvilhices sem qualquer relevância e que distorcem o foco dos assuntos e manipulam as emoções das pessoas, melhor faria em acompanhar temas que, esses sim, pela sua probabilidade de ocorrência, pelo seu impacto ou pela sua real importância na vida das pessoas, deveriam ser discutidos e conhecidos por todos.

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Talvez considerem que o vídeo abaixo não vem muito a propósito mas quem não acha muita piada a gráficos talvez aprecie. Bach. Quem lhes acha graça espero que também.


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As fotografias que usei provêm do The Guardian

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Desejo-vos um bom sábado

domingo, dezembro 08, 2019

Um Natal não encarnado mas verde




Ainda não foi hoje que dei início ao calvário das compras de Natal. Em vez disso, e entre vários outros afazeres, estive a ler alguns artigos sobre uma forma eco de viver o Natal.

Fiquei contente de ver que das primeiras coisas que dizem é uma que faço desde há algum tempo para arrelia da minha família: não embrulhar presentes. Tento embrulhar alguns, para as pessoas que não fazem parte do inner circle pois poderiam achar falta de educação, mas a maioria não embrulho. Os meus filhos dizem que a mãe não dá valor à mística de Natal que passa pela expectativa enquanto se desembrulham os presentes ou pela beleza colorida dos papéis bonitos e das fitas reluzentes. Eu explico sempre que me parece um desperdício. E agora vejo que faz parte das eco trends.

A sugestão para não dar as coisas assim de qualquer maneira é embrulhá-los num pano que tenha utilidade ou simplesmente pôr-lhes uma bonita fita com um laçarote.

Para transportar presentes, já que muitas vezes vamos passar o Natal a outras casas, em vez de sacos de plástico, podemos usar sacos de pano que sejam, eles próprios, para oferecer.


A outra é evitar a abundância que leva frequentemente também à não valorização e ao desperdício. Um presente por pessoa, de preferência qualquer coisa útil e, de preferência sem plásticos, sem tintas ou produtos potencialmente tóxicos.

Uma ideia para quem já tem tudo é oferecer-lhe experiências, cursos, bilhetes para espectáculos, etc.

Alternativamente, podemos oferecer objectos feitos por nós. Em tempos eu fazia toalhas de chá, individuais e coisas assim, em crochet ou bordadas, para oferecer. Fui uma eco avant la lettre. As pessoas ficavam a olhar para mim meio espantadas, ah sempre prendada, e acho que deviam ficar a pensar que coisa mais disparatada, mais antiquada, individuais de pano ou crochet na era dos belos objectos de plástico. Portanto, com o tempo, deixei-me disso. Com tanta tralha, as pessoas, às tantas, nem têm onde guardar coisas assim. Pois bem, a ideia aparece agora na lista das recomendações para um natal verde e eu acho muito bem.

Uma outra sugestão -- que a mim, por acaso, me faz alguma impressão -- é oferecer objectos usados, ou adquiridos em mercados ou lojas de segunda mão ou, mesmo, objectos nossos que saibamos que os outros irão apreciar. Tudo a bem da redução da tendência consumista. A forma de os dispor pode, em si, constituir uma decoração de Natal, conforme se pode ver na segunda fotografia.


Outra é não gastar dinheiro a comprar árvores de Natal, em especial, artificiais e em bugigangas plásticas e cheias de tintas. Se já tem árvore artificial, tudo bem. Se não tem, use um pinheirinho daqueles que resultam da limpeza das florestas ou qualquer outro suporte e pendure pequenos ramos de alecrim ou qualquer outra rama, desenhos feitos pelas crianças, pendure os próprios presentes se forem pequenos e leves, coisinhas engraçadas. Se usar luzinhas, que sejam pontinhos de baixo consumo. 

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E agora um vídeo de uma série que o YouTube, moço inteligente, me recomendou.


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Sugiro a leitura de
Dreaming of a green Christmas: make your own sustainable tree 
ou
Sapin, déco, cadeaux… Nos conseils pour un Noël sobre et écolo
de onde provêm algumas das ideias e das imagens

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PS: Pensava escrever outro post quando chegasse a casa (este escrevi-o enquanto os meninos, em sua casa, viam os Simpsons) mas, embora já cá esteja, já são quase duas e meia e agora não dá até porque daqui a nada começa nova jornada. Portanto, por ora, é mesmo só isto.

E a todos desejo um feliz dia de domingo 

segunda-feira, outubro 14, 2019

Duncan, o grande amor da vida de Keynes e de Nessa Bell



Por vezes tenho pena de não ter pena para aprofundar os assuntos que me interessam. Guardo para o blog apenas o fim dos dias, quando a minha vida externa me liberta. E, quando chego ao fim dos dias, já tenho o fim da noite à vista e, geralmente, já estou cansada, incapaz de estudos e profundidades. Acresce a estas limitações o paradoxo de me deixar interessar por inúmeros assuntos e de, quando o interesse aparece, ter uma grande curiosidade em desvendá-lo. E, então, é como com os livros: vou juntando coisas para fazer, para estudar, para descobrir.

Talvez um dia. Talvez a maior parte nunca.

Isto para dizer que há um grupo de pessoas, uma época e um modo de vida que sempre despertaram a minha atenção. Ao revisitar imagens desse tempo e desse modo de vida no filme Vita & Virginia voltei a sentir vontade de ir conhecer um pouco melhor alguns dos personagens menos mediáticos (se é que assim me posso pronunciar).

Vanessa Bell, a irmã de Virginia, a Nessa, tão amiga, tão próxima, foi pintora e casada com Clive Bell. Clive Bell era um dos membros do grupo de amigos que gostavam de literatura, de pintura, de arte em geral, de conversar, de polemizar. 

Contudo, no filme, quem se vê em cumplicidade, a partilhar o estúdio, como se fosse o companheiro de Nessa é Duncan. Ora Duncan é homossexual. Fui confirmar. De facto, Vanessa, casada com Clive, tinha um amor profundo com Duncan Grant, homossexual assumido. Conseguiu, contudo, seduzi-lo a ponto de terem uma filha. Duncan tinha também um afecto profundo por ela.

Sobre Vanessa Bell, transcrevo da wikipedia:
(...) Após as mortes da sua mãe em, 1895, e do seu pai, em 1904, Vanessa vendeu o 22 Hyde Park Gate e se mudou para Bloomsbury com Virginia e os seus irmãos Thoby (1880-1906) e Adrian (1883-1948), onde eles conheceram e começaram a se socializar com artistas, escritores e intelectuais que viriam a formar o Grupo de Bloomsbury.
Casou-se com Clive Bell em 1907 e tiveram dois filhos, Julian (que morreu em 1937 durante a Guerra Civil Espanhola aos 29 anos) e Quentin. O casal tinha um casamento aberto, ambos tendo diversos amantes durante a vida. Vanessa Bell manteve relações extraconjugais com o crítico de arte Roger Fry e com o pintor Duncan Grant, com quem teve uma filha, Angelica, em 1918, que Clive Bell criou como sua filha.
Vanessa, Clive, Duncan Grant e o amante de Duncan, David Garnett, mudaram-se para o campo de Sussex antes do estopim da Primeira Guerra Mundial, e estabeleceram-se na Charleston Farmhouse, perto de Firle, East Sussex, onde ela e Grant pintaram e trabalharam em encomendas para o Omega Workshops, atelier fundado por Roger Fry. A sua primeira exposição ocorreu no Omega Workshops em 1916. (...)
Sobre Duncan Grant, transcrevo:
(...) Vanessa queria muito ter um filho de Duncan e ficou grávida na primavera de 1918. Embora se suponha que as relações sexuais de Duncan com Vanessa terminaram meses antes de Angelica nascer (Natal, 1918), os dois continuaram a viver juntos por mais 40 anos.
Viver com Vanessa não era impedimento para as relações de Duncan com outros homens, antes ou depois de Angelica nascer. 

His lovers included his cousin, the writer Lytton Strachey, the future politician Arthur Hobhouse and the economist John Maynard Keynes, who at one time considered Grant the love of his life because of his good looks and the originality of his mind.
Angélica cresceu acreditando que Clive Bell era o seu pai, até porque tinha o seu apelido e o comportamento dele nunca lhe deu nenhuma indicação em contrário.  
Duncan e Vanessa tinham um relacionamento aberto, embora ela aparentemente, nunca tenha tido outras relações depois de passar a morar com ele e de ter o seu filho. Duncan, pelo contrário, teve diversas relações sexuais esporádicas e vários relacionamentos sérios com outros homens, sobretudo com David Garnett. No entanto, o seu amor e respeito por Vanessa manteve-se até à morte dela, em 1961. (...)
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Uma fonte inesgotável de motivos de interesse.
Agora já fui atrás do Keynes mas isso já não cabe aqui e, de resto, daria pano para muitas mangas.

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Já agora, Angelica Garnett, a filha de Vanessa e de Duncan


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Vanessa Bell foi, nas pinturas acima, pintada por Duncan Grant. Mais abaixo pode ver-se Duncan com Keynes e, na última, com Ness. Lá em cima Hélène Grimaud toca Bach

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sábado, outubro 05, 2019

A mulher do meio largou as vírgulas da mão





A semana foi de tal ordem que ainda nem me parece que a semana esteja a acabar. De tarde caí em mim e pensei que uma sexta-feira tem que ser festejada e que talvez uma boa maneira fosse ir ao cinema. Falei ao meu marido. Vita & Virginia. Que não, que devia ser chato. Sugeri-lhe que podia ir para outra sala, ver outro filme. Perante essa perspectiva, que ele sabia ser impossível pois eu não lhe perdoaria se aceitasse a minha sugestão, acabou por aceder. Mas teríamos que sair a horas decentes para dar tempo a jantar antes. Mas os deuses protegem os corta-baratos pois vimo-nos ambos, cada um em seu lado da cidade, ensarilhados no trânsito. Portanto, ao telefone um com o outro, percebemos que cinema já era. Salvou-se de ver em filme a história que conhecemos dos livros. No entanto, acho que iria gostar. Eu iria. A ver se para a semana. Nisto, manda-me o meu filho uma sms a perguntar se não queríamos ir jantar com eles. Não sabíamos se conseguiríamos chegar a tempo, que avançassem que logo veríamos. Quando lá chegámos já lá estavam e já o bebé tinha virado meio prato de sopa com bocados de pão à mistura. 

Logo de início, o menino que sabe tudo de futebol estava entusiasmado, queria que eu visse uma coisa na televisão. Pensei que era alguma jogada espectacular. Mas não: 'Olha, olha agora, o António Costa a zangar-se com um senhor que disse uma mentira'. E era mesmo.

E eu e o meu marido dissemos que, ao fim de muitos dias de cansaço,  é natural que a uma pessoa lhe salte a tampa ao ver-se acusado de uma mentira. Nada de mais. Alguém quer ter governantes que sejam máquinas, indiferentes a calúnias e a acusações injustas e maledicentes? Eu não quero. E também me parece que uma sociedade de censores em que não se admite uma reacção humana aos políticos não será uma sociedade saudável. 
No carro já tinha ouvido 'o caso', mais um 'caso', bem como as reacções do Rio e da Cristas e de vários comentadores que de imediato tinham sido convocados para opinar. Já vinha saturada. Um homem chateia-se por ser acusado de uma coisa grave que não aconteceu -- e cai o carmo e a trindade. Não indignados com a mentira mas com a reacção. Não se aprende nada nestas alturas. Estas gentinhas que vivem de comentar o que os outros fazem e dizem só me parecem vizinhas coscuvilheiras, só acusações, só parvoíces polvilhadas por polígrafos e papagaiadas. Não há pachorra.
E eu, a esta hora, aqui chegada ao meu sofá acolhedor e silencioso, já não estou nem aí. 

Estou aqui a pensar é noutra coisa. Tenho um colega que é muito culto. Cultíssimo. Culto de uma forma invulgar. Junta a isso o ter uma memória como nunca vi. A meio de uma frase minha pode lembrar-se de um verso de um poema e di-lo na língua original. E se eu, desconfiada, à socapa, depois, for googlar, constato, espantada, que aquele verso existe mesmo, que o autor é mesmo aquele. Uma coisa que descrita parece mentira mas que é estranhamente verdadeira. Tenho alguns livros que ele me tem oferecido e são sempre invulgares e surpreendentes. Pois bem. No melhor pano cai a nódoa. Hoje, num mail que me enviou, mail que, como sempre estava muito bem escrito quer na forma quer no conteúdo, as ideias sempre muito bem sistematizadas e apresentadas, quase no fim, um erro ortográfico. Onde deveria estar 'podemos' estava 'pudemos'. Fiquei ali parada a olhar para aquela letra trocada. Doeu-me como uma nódoa. Pensei devolver-lhe o mail e pedir que o revisse e mo enviasse de novo sem o erro. Por pura ironia e por saber que ele perceberia o meu desconforto. Mas depois pensei. Temi que ficasse a sentir-se mal. Se fosse comigo, eu ficaria doente se enviasse um mail com um erro daqueles. Depois pensei em responder-lhe ao tema em questão e, no fim, como uma notinha insignificante, um alerta para o typing mistake. Mas depois não fiz nada disso. Para quê? Para quê ir aborrecê-lo? Quantas vezes já eu troquei letras, deixei restos de frases alteradas no meio das frases novas, quantas vezes mudei de ideia a meio da frase deixando a vírgula onde antes fazia sentido e depois deixou de fazer? Quantas vezes, ao reler o que escrevi, fico perplexa com os erros que encontro? Quantas vezes me auto-recrimino por publicar coisas sem antes as reler, sem antes as editar? E isto já para não falar no corrector automático que, às vezes, de sua lavra, escreve palavras que não queremos e que, se não damos por elas, seguem viagem mesmo assim.

E, depois, quem me diz que o meu sentido de rigor na escrita não está furado, ultrapassado, gatado?

Tanta preocupação que tenho de pôr as vírgulas no sítio em que a conversa inflecte ou que a respiração precisa de pausa e, afinal, na volta, a conversa pode fluir, refluir, estacar, voltar atrás, dar uma volta, abrir um parêntesis, gargalhar, chorar, tudo, sem precisão alguma de vírgulas. 

E não estou a falar de cor, não. Estou a falar porque constatei. Não foi a primeira vez, claro. Mas desta vez eu estava a ler o livro, a ler, a ler, e não dei por isso. Eu lia fazendo as pausas todas sem dar pela falta das vírgulas. Quando dei, voltei atrás para verificar se a ausência vinha desde a primeira página. E vinha. E não me tinham feito falta nenhuma.

Exemplifico.
38. Tenho desde há muito o hábito de em algumas noites acender uma vela dentro de um pequeno castiçal junto à janela. Penso que se verá da rua. Creio que os anjos de grandes asas pesadas se háo-de abeirar ainda que por pouco tempo do lugar onde eu moro. Sei que nada é mais terrível do que a perfeição de um anjo e por isso os espero assim. Perdidos nas rotas da chuva e com um cansaço quase humano no rasto que deixam.
214. A tristeza tem mil e uma formas de ser dita mas a alegria não tem história. Claro que isto já foi escrito e com mais eficácia mas hoje voltei a comprová-lo. Encontrei uma pessoa que me convidou para um café e pensei oh diabo tenho para umas duas horas. Mas não. Disse-me logo não vou maçá-la está tudo a correr bem não tenho nada para contar. Com efeito em meia hora bebemos um café e conversámos sobre platitudes. E eu pensei nos caprichos do acaso mas nada disse.
Não concordam comigo? Percebem a minha dúvida? Para quê incomodar as vírgulas, andar com elas em preparos, com rodeios e mesuras, em bolandas? Porque não deixá-las em paz? Não viveremos, afinal, bem sem elas?

Tenho que tentar. Mas não me vai ser fácil, ainda estou muito apegada às maganas.


Os excertos em itálico pertencem ao belo diário de Ivone Mendes da Silva, 'A mulher do meio'. 

A bela mulher retratada podia ser a Ivone mas não, é Ida Rubinstein

Abaixo, Alessandra Ferri dança enquanto Sting interpreta Bach, suite 1 para cello


Desejo-lhe um belo sábado. Tudo de bom para si.

domingo, abril 21, 2019

Onde a contralto UJM reincide, passeando-se in heaven e mostrando um ex-tufinho redondinho até ser brutalmente interrompida por dois intempestivos ramos de cedro





Bem. Disse contralto mas também poderia ter dito soprano, mezzo soprano e, até mesmo, sabe-se lá, encorpando a voz, tenor ou, mesmo, quiçá, barítona. Também poderia ter dito outra coisa qualquer nessa base embora, para falar verdade, me pareça que nem que nasça mil vezes aparecerei com outra voz que não esta.
Imaginem quando dava aulas. Incapaz de gritar. Se queria zangar-me em voz alta está bem, está. Se tentava, dava-me tosse. Portanto, não podia ir por aí senão destavam-se todos a rir. Ficava calada. E eles, vendo-me calada, acabavam por se calar. 
Quando faço apresentações em salas grandes ou bem que há microfone ou tenho que me focar na forma como coloco a voz. E até consigo colocá-la. Mas tem que ser coisa propositada pois, se não estiver focada nisso, a voz sai-me mais apropriada à intimidade do que ao palco, ou seja, soft, sem elevações nem espinhos.

Se virem num post mais abaixo há por aí quem ache que a minha voz é uma porcaria. Eu não seria tão derrotista mas, já se sabe, tendo a ser caridosa (em geral, incluindo comigo mesma). No entanto, reconheço que não poderei fazer a vida com esta voz com que nasci. E daí... não sei, não. Ainda vou pensar no assunto. Estou aqui a ter uma ideia que, se bem explorada, capaz de ter alguma saída. É que, pensando bem, ter uma voz baixa ou ter umas mãos pequeninas ou a pele assim ou assado é daquelas coisas que não faz bem nem mal, são o que são e a gente adapta-se ao que tem. Agora uma pessoa com má índole, não é por nada mas duvido que tenha grande saída. Mas ao contrário da voz ou das mãos ou da cor da pele que são coisas sem salvação, já o mau feitio pode ter tratamento. Eu, pelo menos, acho que sim. E recomendo.

Bem, adiante. 

Temos estado no campo e, como sempre, tem sido aquela luta contra o mato que rebenta, as árvores que devem ser mais desbastadas, as plantas secas que devem ser retiradas e queimadas.


No entanto, in between, ainda consegui estar deitada ao sol. Estava um calorzinho divino. Deitada sob o plátano, apanhando um solzinho dos deuses, ouvindo os passarinhos, não podia estar melhor.

Estava com a máquina a fotografar o céu e as folhas e tudo quando, uma vez mais, me senti observada. Aquela sensação oblíqua sobre a pele, um meio arrepio. Um olhar silencioso e penetrante pousado em mim.

Olhei em volta até que o vi,

Lá estava ele, o gato de mel. Lindo, uns olhos lindos, um pêlo macio e lindo. Fiquei a olhá-lo e ele a mim. Depois fotografei-o. E ali ficámos. Não sei se um dia serei capaz de me aproximar dele, nem sei se ele quererá chegar-se até mim. Nunca fui capaz de fazer uma festa num gato. Tenho medo que se vire a mim. E, no entanto, que encantamento ver a elegância arisca e inteligente dos gatos.

Andei também a fotografar rosmaninho, alecrim, musgos, líquenes, pedrinhas, folhinhas, florzinhas secas. Tudo me encanta.


Fiz também, outra vez, vários filmes. Mas nuns apanho o meu marido e isso não me parece bem, noutros é ele que chama outra vez por mim e ouve-se distintamente o nome e eu fico furiosa com ele, noutros mostro mais do que devo e isso também não se recomenda, etc. Uma luta. Tenho que aprender a editar estas obras, nomeadamente a truncar trechos de vídeo. 

A verdade é que nunca o tempo me chega. Tantos os afazeres no campo que chegamos ambos aqui à noite e estamos cansados e eu sem vontade para explorações e aprendizagens.

Portanto, sem mais delongas, eis o brilhante vídeo que se salvou e que era para ser uma coisa mas que, por causa de dois ramos de cedro caídos e secos que pediram para irem saltar à fogueira, se ficou por aquilo que é e que aqui, com vossa licença, se mostra.



E a todos desejo um belo domingo de Páscoa

sexta-feira, janeiro 11, 2019

A moda no tempo em que as palavras eram necessárias.
E hoje, no futuro.





Homens com o que parecem tiques efeminados, mulheres masculinizadas, seres andróginos. É o que abundantemente vejo em sites como The Sartorialist. É também o que vejo em muitos desfiles de moda. 

Posso achar graça a algumas ousadias, a sobreposições irreverentes, a cores arrojadas ou a assimetrias deliberadas mas, em regra, não me sinto tentada a adoptar o estilo e jamais me poderia interessar por um homem com calcinha colorida, justa, acima do tornozelo, camisa gritante, apertada, abichanada. Interessar no sentido hetero do termo, quero eu dizer. O facto de dizer isto não tem implícita censura, muito menos condenação. Só que parece que o mundo da moda tem uma componente homossexual com algum predomínio e tendo embora o seu público, não faz muito o meu género.

Na moda sou um bocado intemporal, clássica. Não antiquada, acho eu, mas clássica. Posso usar a mesma roupa durante anos. Não escolho modelos que passem de moda. E gosto de me vestir de forma feminina. Não barroca, não mulherzinha. Feminina.

Nos homens, então, não tolero seja o que for que fuja do clássico mais clássico que houver. Tudo o que me pareça dar nas vistas, já é demais. Não pode haver botãozinho artístico, alfinetinho de gravata, fio com medalhinha, berloque no sapatinho. Nada. Homem quer-se quase ao natural. Mesmo nas camisas que o tecido não apresente textura que não a lisa, neutra, sem relevo ou brilho.

Vivo no meu tempo e sempre me senti bem com isso. Mas sinto uma certa nostalgia de um tempo que me parece ter sido o meu numa outra encarnação.


O tempo dos vestidos compridos, saias amplas e roçagantes, rumorosas à passagem, brilhos suaves nas pregas, corpetes elegantes, rendas à mostra, seios mal encobertos, capas de veludo, ondulantes. Gargantilhas discretas e perfeitas, colares de pérolas de três voltas, gancho de tartaruga a suster o cabelo solto, véu descarado a cobrir o olhar.


Gostava de poder voltar a vestir-me assim. Sedutora, sentada junto à lareira. As palavras a serem o centro do mundo. Ler em voz alta. Ouvir ler em voz alta, os pés sobre um banquinho bordado. As palavras como elemento de fascínio. De sedução. Escrever, de tarde, uma página de diário, escrever com sinceridade os pensamentos mais secretos. E à noite, numa roda de amigos, um cálice de Porto numa mão, o diário na outra, ler em voz alta as palavras indecorosas de tão sinceras. Gostava. Cortinas de renda na janela e lá fora a chuva. Ou ir a um concerto. De braço dado, um chapéu elegante. O som do violoncelo. Depois escrever sobre o concerto, sobre os vestidos das outras mulheres, sobre o olhar indiscreto de um certo senhor, sobre a forma pudica como eu o tinha ignorado. Saborearia devagar cada palavra, sorriria enquanto escrevesse. Usaria uma caneta bonita de tinta permanente.


Depois iria bordar. Flores em seda sobre tules e rendas, pedrinhas nacaradas ou às cores, folhos e favos de mel, fitinhas. Depois, ao espelho, provaria o vestido bordado, veria o fruto do meu trabalho. E, então, beberia um chá, pegaria num livro.


Mas, claro, isto naquele tempo em que as palavras ainda eram necessárias. Aquele tempo em que havia tempo e amabilidade e o prazer das coisas demoradas e da beleza.

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Mas a nostalgia de outras vidas noutros tempos não trava o futuro.

E o que vestiremos no futuro, naquele tempo em que as palavras e a amabilidade talvez já não sejam necessárias, será o que se pode ver no vídeo abaixo


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E queiram descer até ao post seguinte caso queiram perceber porque é que não me apaixonaria por um certo homem de 50 anos.

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sábado, dezembro 22, 2018

Não saber decifrar estes enigmas deixa-me assim nem sei como


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Nada de sexy a declarar. Talvez apenas que já estive a separar as fotografias, já está quase tudo. Também já emoldurei algumas. Amanhã talvez consiga acabar e começar a separar os presentes por destinatário.

Sobre o meu dia, teve uma parte tão extraordinária que nem sei se classifique como surreal, se me deixe de classificações e reconheça apenas que foi de outro mundo. Não quero falar sobre ela pois não faço ideia de qual vai ser o desenlace disto tudo e não gosto de falar do que não percebo. Estou em crer que dentro de algum tempo falarei de tudo o que vem acontecendo comigo e que transformou este ano num dos mais atipícos da minha vida, com testes intensivos à minha personalidade, ao meu carácter, à minha inteligência racional e emocional. Se do ponto de vista racional me tenho aguentado à bronca como gente grande e se a minha personalidade e o meu carácter resistiram e têm demonstrado ser de boa cepa, já a minha inteligência emocional por uma ou outra vez soçobrou, levando-me a sentir-me francamente injustiçada e triste. Bem, não sei se isso é sinal de uma quebra na inteligência emocional ou uma simples manifestação da minha condição humana -- e talvez o psicólogo mais cool que por aqui paira possa esclarecer-nos.


Mas a verdade é que tudo o que tem vindo a acontecer-me é tão inesperado, tão inacreditável que, forçosamente, a minha cabeça fica sem saber como interpretar os factos. E se, habitualmente, tenho uma razoável capacidade de previsão, neste meu caso, ando às escuras, sempre à espera que o lobo mau me salte para cima e, pior, sem fazer ideia de quais as suas intenções. Contudo, ao contrário do que seria expectável, esta situação torna-me ainda mais afoita. Agora, para além de ser surpreendida com as surpreendentes circunstâncias, sou-o também pelas minhas intrépidas e descaradas reacções.

Hoje estávamos os dois sentados à sua mesa e eu tive mais uma das minhas tiradas que desestabilizam qualquer um, especialmente uma pessoa como ele (que, de resto, é igual aos outros). Disse-me: Não pode dizer isso pois isso significaria que andámos a fazer tudo mal. Não pode dizer isso. E eu respondi: Não sei se não posso. Não sei se o mal é não dizermos o que deve ser dito. Além do mais, quando se percebe que se está perto da porta de saída, a sensação de liberdade é maior. Ele levou as mãos à cabeça, ficou perturbado, olhou-me com ar incomodado e, abanando a cabeça, disse que eu não devia dizer isso, não podia dizer isso. Respondi que então fazíamos de conta que eu não tinha dito aquilo. Ele disse: Pois, é melhor.


E a conversa continuou, cada vez mais espantosa. E depois dessa uma outra, igualmente enigmática e bizarra. Já tentei descodificar, já tentei encontrar uma explicação. E provoquei. Sempre gostei de provocar mas agora ainda mais, agora a provocação é destemida. Tomei-lhe o gosto e vou usando em doses cada vez mais possantes. Quase como se quisesse ver até onde posso ir. Até onde posso ir sem que isso desperte uma reacção mais compreensível. Detesto não compreender as coisas. Detesto não conseguir prever o futuro. O meu futuro.

E depois, para o dia ser ainda mais incomum, outra conversa, aí eu com pena, pena, pena, e disfarçando e pensando que eu poderia estar na mesma situação.Hoje está na moda dizer que estas coisas fazem-nos crescer. Crescer o escambau, o que isto faz é acrescentar-nos camadas e camadas em cima: camadas de indiferença, de aspereza, de sensibilidade, de compaixão, de perseverança. Sei lá.

A vida é um carrossel. Não sei o que pensar mas vou em frente, vou em passada larga. 


Mas, apesar de, a olho nu, a minha vida continuar igual, com aqueles excessos habituais, a verdade é que desde o verão, quando tudo começou, vivo como se uma espada pendesse sobre o meu pescoço.

E tudo isso mais o volume perfeitamente anormal de trabalho mais o trânsito que não tem andado fácil têm desgastado a minha resistência. Parece que não mas, cá para mim, essa é parte da razão para, chegando a esta hora, não conseguir manter-me acordada. Custa-me muito ler comentários como o da menina das palavras daqui e dali que se sente triste quando vê que não respondi ao que escreveu e eu percebo-a e também por isso há tempos fechei a caixa pois, se nem sempre conseguia responder, por respeito mais valia não os receber. Agora voltei a abrir mas acontece-me isto, estar aqui a adormecer sem sequer conseguir chegar ao fim do texto e já nem sabendo que prosa vadia foi esta.


Um bom sábado. Saúde e alegria.

sexta-feira, novembro 09, 2018

O novo ioga.
[Este pratico eu com uma perna às costas]




Pois vos digo que se me vou um bocado abaixo e quase aterro -- ou por cansaço, excesso de trabalho, embrulhadas profissionais, preocupações familiares ou o que seja -- a verdade é que o meu organismo tem umas formas curiosas de dar a volta. E falo no meu organismo e não na cabeça porque a coisa não resulta de elucubrações ou mise en place de estratégias de qualquer espécie. É completamente involuntário. Simplesmente parece que viro a página e entro num filme diferente. 

Nesta recente revoada de virada de página para a qual arrastei o meu marido, reorganizámos os livros, reorganizámos a zona de escritório, trouxemos uma poltrona para a zona que agora é exclusivamente de leitura, rependurámos quadros, espelhos, reposicionei bibelots. A casa agora está diferente e uma das salinhas pequenas in heaven também. E ando entusiasmada como se me tivesse mudado para uma casa nova.

[E calma: não estou, com isto, a dizer que sou especial por ser assim. Isto pode apenas significar que não sou boa da cabeça.]


No outro dia, vi na Area 8 uma espécie de pequena árvore, só uns estilizados troncos com luzinhas nas pontas.  Está a ser vendida como enfeite de Natal. E eu tenho uma igual. O meu marido diz que a comprei lá o ano passado. E eu tenho a certeza que não, que a comprei num chinês por um terço do valor. Não interessa, o que interessa é que andei à procura dela e, depois de a encontrar, coloquei-a em cima de uma das estantes baixas aqui da sala para servir de candeeiro. O meu marido refilou quando me viu a andar nisto. Disse que era uma palhaçada pôr um enfeite de Natal a servir de candeeiro. Mas, quando o viu aceso e constatou o bom ambiente que traz à sala, já não disse nada. Tão bonito e agradável que fica.

Também fiz outra coisa: no que era o quarto da minha filha, tinha um candeeiro de pé, todo xpto, Pensei que ficava bem ao lado da poltrona de leitura. Carreguei com ele para lá. Tem leds na pontinha de cada arabesco. Infelizmente só três é que acendem. Mas fica mesmo bem ali. Temos que substituir os que não acendem. Mas o candeeiro fica mesmo bem. Tomara que, com leds novos, todas as pontinhas acendam.

E estou cheia de vontade de, também aqui, na cidade, durante a semana, voltar a fazer arraiolos. Só que a carpete que cá tenho a meio não apenas é enorme como é daquelas com desenhos do piorio (do género destes dois que aqui vos mostro, um dos quais está aqui sob os meus pés, e que fiz tempos atrás). Para além disso vai trazer-me um apontamento de desarrumação a esta sala que agora anda tão linda. E, last but not the least, vai impedir-me de estar tanto tempo de volta do blog (e de leituras diversas). Esta que tenho para acabar está arrumada num lugar muito alto, terá que ser o meu marido a ir lá buscá-la e ele não tem estado muito para isso. Hoje, por exemplo, com o jogo do Sporting, não quer que eu o distraia por nada desta vida. 

Mas isto veio a (des)propósito de um artigo que li sobre a tricoterapia (Relaxation, confiance en soi et anti-stress : comment la tricothérapie nous fait du bien). Há até um livro que diz que o tricot é o novo ioga.

Já no outro dia eu aqui me tinha interrogado sobre se a leveza de espírito que sinto quando faço tapetes (ou quando escrevo; mas também se fizer tricot ou pintar ou fotografar) não será uma forma de meditar. Fico de tal forma alheada de tudo o resto, tão focada naquilo, que esqueço tudo o que me possa preocupar.

Não sou, por natureza, dada a stresses, a estados de afeliação (isto é, a curtir o fel próprio). Sou muito primária -- esqueço-me rapidamente do que me chateia, desligo-me facilmente de maçadas, ponho para trás das costas aquilo que me desagrada, e parto para outra -- pelo que, que me aperceba, não procuro estas actividades para esquecer agruras ou para me descontrair mas apenas porque sim, pelo simples prazer de as executar. Mas a verdade é que, enquanto estou absorta nisto, as minhas mãos andando sozinhas, a cabeça desligadamente observando as mãos, me sinto como a mais inocente, livre e despreocupada das criaturas.


Existem escolas de tricot que são espaços de convívio e bem estar, existem manuais, vídeos. Etc. E há o autodidactismo que, na verdade, é a minha onda.

O artigo fala no bem estar que é estar a fazer uma coisa destas, confortavelmente, com uma mantinha quente, uma caneca de chá para ir bebericando, num espaço confortável. É assim que, quando está frio, gosto de estar. In heaven, junto a isto o calorzinho da salamandra ou da lareira.

Por algum motivo que desconheço, parece que, por cá, estas actividades caíram em desuso. Nenhuma das minhas amigas, familiares ou conhecidas se dedica a isto -- com excepção da minha mãe que é devota praticante (está, neste momento, com uma encomenda em mãos: duas camisolas e dois casacos para quatro dos cinco bisnetos. Para o bebé nada foi pedido pois herda tanta roupa que raramente precisa de mais). Comentei com ela isto de dizerem que o tricot é o novo ioga e ela concordou, diz que estes trabalhos manuais (tricot, crochet, costura) é o que a tem ajudado a superar tão bem as agruras da sua vida tão complicada. Isso e ler. E eu acredito que sim.


Note-se: Apesar de toda esta apologia deste tipo de trabalhos manuais e apesar de admitir que o mais certo é o ioga não ser para mim, ainda não desisti de o ir experimentar. Mas tudo naquilo me faz hesitar: para começar acho que algumas daquelas posições parecem esteticamente muito interessantes mas se e só se a pessoa estiver bem ginasticada, sem um grama a mais -- assim como esta menina aqui em cima. Agora se a pessoa não for capaz de se virar do avesso com as pernas ao alto, presumo que seja sobretudo um bom motivo de galhofa, incluindo para o próprio.

Mas adiante.

domingo, julho 15, 2018

Sábado no campo





Para começar, lembrei-me agora que a receita da Bôla de Carnes leva leite -- e não o trouxe. Cortámos ambos com o leite e, portanto, agora, chapéu. Gaita. O meu marido diz que ponha iogurte. Impossível. Viémos carregados de iogurtes mas é tudo com sabores. E isto aqui não é como na cidade em que se atravessa a rua e há onde comprar tudo o que se precisa. Aqui, se queremos comprar qualquer coisa, temos que nos meter no carro e ir à vila mais próxima. E, como ao fim de semana os pequenos minimercados estão fechados, teríamos que ir não è vila mais próxima mas sim à cidade mais próxima. Não dá. Chegam logo de manhã. E tenho que ter a comida para o dia inteiro pronta antes de chegarem porque, a partir do momento em que chegam, deixa de ser possível estar sossegada na cozinha. 

Chatice. Sempre isto. Por mais carrego que venha há-de sempre faltar uma coiseca qualquer. Outras vezes é o oposto. Por medo de que não haja, trago e depois juntam-se não sei quantos sacos de sal ou pacotes de guardanapos. Mas pronto. Adiante. Nada a fazer. Não há leite, não há. Tenho que improvisar com outra coisa. Talvez com o caldo de estufar as carnes. 

Já tirei as espinhas ao peixe, já desossei as carnes, já cozi ovos, já separei e medi o caldo para o arroz. Portanto, algumas coisas já estão adiantadas. Mas tenho que me levantar cedo.


Ainda queria varrer lá fora que este sábado não tive tempo. No outro fim de semana varri tudo mas já lá vi, debaixo do telheiro, uma data de folhas. Estava a falar com a minha mãe e ela dizia que se as casas se sujam por dentro, fará por fora e que nem vale a pena ter a pretensão de ter tudo impecável porque não é possível. É verdade. Mas gosto de, pelo menos, ter a sensação que tentei.

Sou eu a querer ter a casa limpa por dentro e por fora e o meu marido a ver se dá conta das silvas e do tojo. Andou outra vez com a roçadora a tentar travar o ímpeto desta natureza que tem uma força avassaladora. Desbasta-se e corta-se e, na volta, já está tudo a rebentar por todo o lado. Uma coisa extraordinária.

Andei a passear. Tinha dito: vou fazer uma caminhada. A ideia era andar em passada regular, rápida. Durante a semana foi impossível fazer caminhadas. O trabalho permanente e absorvente, uma praga, cresce pelos dias deixando-me sem tempo para mim. O objectivo era, pois, esticar as mernas, exercitar os músculos, oxigenar o organismo que passa os dias movido a ar condicionado.


Mas não. A tentação de fotografar é constante e tudo me solicita. A ruiva caruma, os arbustos de madressilva, o sol dourado, as sombras, as flores, as árvores, o meu corpo reflectido nos azulejos onde mandei serigrafar 'há palavras que nos beijam como se tivessem boca', os verdes que tudo envolvem, os pássaros que se levantam, a cauda aberta em leque, soltando cantos espantados pelos ares, a dança da folhagem com a aragem leve da tarde.

Portanto, dou dois passos, paro, espreito a corola das flores, foco, disparo, mais dois passos, olho a cor perfumada e doce dos loendros, disparo, mais dois passos, espreito as ramagens a ver se descubro de onde vem o canto dos pássaros, mais dois passos. E assim vou, involutariamente lenta, detendo-me a cada dois passos perante a necessidade de melhor ver e registar o que os meus olhos vêem.


Mas depois foram os orégãos. Floridos, perfumados, aquele cheiro fresco e campestre de que tanto gosto. Todos os dias, uso orégãos na salada que como. Amanhã espalhá-los-ei também sobre a bôla. Por isso, andei a apanhá-los. Estão um pouco por todo o lado. Aos molhinhos fui trazendo cá para cima. Queria andar, não andar a apanhá-los. Pensava: só estes pezinhos, para amanhã e para a semana. E subia, a deixá-los cá em cima. Mas, no fim, estava uma boa braçada deles.


Vou deixá-los depois, durante a semana, sobre um plástico em cima da mesa da cozinha, espalhados, para secarem. Cheirinho mais bom. Tempero mais bom. O cheirinho bom do campo, o cheirinho bom deste pedaço de terra que sinto como o meu heaven, o lugar de onde poderiam ter vindo as minhas raízes.


Depois vim para casa. 
Cozinhei. Li. Adormeci. 
E agora estou aqui convosco.

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Não vem muito a propósito mas deixem que partilhe convosco este vídeo com Lam Duan (que dizem que significa árvore com flores amarelas), o velho e cego elefante, a ouvir música.